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terça-feira, 16 de junho de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

ADEUS, ATÉ OUTRAS ÁGUAS!

E chegámos às linhas de circunstância do último dia. Amanhã a Matilde apresentar-se-á para o segundo ano e por isso eu terminarei o meu trabalho em torno dos diários. 



O mundo continua louco, numa deriva terrorista que nos ameaça o modo de vida e sem que se vislumbre no horizonte uma resposta cabal para o problema. 

Só espero que não venhamos a chorar lágrimas de sangue por tanta tibieza. 



De Portugal só posso esperar que o pessimismo venha a ser uma benevolência, mas tudo indica que não seremos capazes de sair dos tentáculos dos polvos que atrofiam a nossa sociedade. 
Estamos a caminho de um misto entre o Brasil e a Tailândia e eu só espero que as minhas filhas venham a fazer os cursos superiores no estrangeiro e que aí fiquem para as respectivas vidas pessoais e profissionais. 

Nada me repugna que a minha descendência venha a ter outra nacionalidade. 



Em parte gostei do que vi no dia de apresentação da Margarida. 

O horário é bom, todo ele concentrado de manhã e com três tardes livres por semana. Das oito e meia às treze e trinta, permitirá à minha filha estudar e ter tempo para brincar, sequer havendo grandes alterações quanto à hora do almoço. 
Para além disso, a escola tem uma boa biblioteca e um bom espaço de ludoteca em que os alunos sempre podem passar os tempos livres que por ventura tenham. 
E o Director de Turma é um bom Professor de Música, cujo trabalho tivemos oportunidade de ver este ano através dos alunos da turma da Inês Ourives, uma amiga da Margarida desde os tempos do jardim de infância. 

Esperemos agora para aquilatarmos da qualidade do restante corpo docente. 

A turma que é a mesma da quarta classe é boa e vem muito bem preparada, assim os novos mestres saibam e consigam puxar pelos alunos que terão pela frente. 



Ando agora a ler mais um volume da história da literatura mundial. (1) 

Trata-se do período em que Portugal começou a afastar-se do mundo civilizado. 



A Matilde, apesar da apresentação ser amanhã, ainda terá mais uns dias de férias pela frente, pois as aulas, propriamente ditas, apenas começarão na próxima quarta-feira. 

“-Olha que sorte, heim pardalito!” 



E eu dou por encerradas estas páginas e, com elas, os diários das minhas filhas. 


Foi um trabalho e peras, devo reconhecer e acreditem que me sinto satisfeito por escrever até sempre, o que não será um adeus definitivo, pois aqueles que me vão lendo sabem muito bem que certamente voltarei em outras águas. 


Alhos Vedros 
  16/09/2004 


NOTA 

(1) Ibañez, Eduardo, HISTÓRIA DA LITERATURA MUNDIAL, IV – AS LITERATURAS NO SÉCULO XVII 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Ibañez, Eduardo, HISTÓRIA DA LITERATURA MUNDIAL, IV – AS LITERATURAS NO SÉCULO XVII, Tradução de Serafim Ferreira, Círculo de Leitores, Lisboa, 2002 


 FIM

terça-feira, 9 de junho de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

As férias estão a chegar ao fim. 

Amanhã será o dia de apresentação da Margarida e no dia seguinte o da Matilde. 



Hoje foi então o primeiro dia de ginástica em que o pardalito não contou com a companhia da irmã mais velha. 

Tal como tínhamos visto com a Sofia, integrámo-la na classe seguinte e gostei de ver como a minha querida filha se adaptou facilmente ao convívio com os mais velhos e aos novos exercícios. 
Inicialmente esteve em silêncio, embora tenha ajudado no transporte dos materiais, após o que se sentou sozinha a um canto. Depois reparou em outras duas miúdas mais novinhas e juntou-se a elas. 


Mas o que me deixou todo satisfeito foi vê-la repetir os exercícios com toda a concentração e sempre bem executados; a Professora dizia o que eles tinham que fazer, a pardaloca olhava para o lado, via como os mais velhos faziam e, em acto continuo, tratava de os imitar. 



Serena vai a noite, como sereno vai o crescer da minha pardalada adorada. 



Eu não tenho razões para me sentir um homem feliz? 


 Alhos Vedros 
  15/09/2004

terça-feira, 2 de junho de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Ainda que me tenha levantado cedíssimo por causa da ida da Margarida ao dentista, este dia feriado veio mesmo a calhar. 

Agora que estou sentado a escrever estas linhas, já tive tempo de organizar e passar a limpo as narrativas que desde o passeio em Salzburgo, andavam a monte em folhas separadas e ainda consegui ler uma boa meia hora para além do jornal de que dei conta com a bica da manhã. 



Lá continua a gritaria em torno da famigerada colocação de professores que, este ano, deixou as escolas ao deus dará. 


Quanto a mim, a maior curiosidade continua a residir no facto de todos falarem disto e daquilo, de resultados, de orgânica, enfim; de os sucessivos responsáveis que há anos vêm ocupando os cargos de decisão encabeçarem outras tantas reformas que ora modificam os currículos, ora criam e apagam disciplinas e matérias, ou ainda reorganizam o processo de gestão do ensino básico e do secundário e de a realidade nua e crua ir mostrando um sistema ineficaz e, nessa medida, demasiado caro, sem que alguém cure de fazer as perguntas certas. 

Para que queremos um sistema de ensino? Quais os objectivos que podemos querer atingir com o mesmo? 

Estas são as perguntas fundamentais que nos permitem compreender que aquele só pode ser pensado de forma a que seja possível ministrar saberes e competências à população, particularmente a jovem, de tal forma que os alunos possam, consoante as suas opções, entrar no mercado de trabalho com as devidas aptidões para aí escolherem e aprenderem uma profissão, ou muito simplesmente prosseguir os estudos. 

Como chegar a esse patamar? 
Esta é a pergunta a partir da qual os pedagogos e técnicos da educação a que se juntam os políticos, normalmente se espalham. 
E tropeçam por geralmente tratarem o problema em teoria o que os faz tomar medidas avulsas sem qualquer coerência. 
Ora aqui o que importa saber é se existe alguma partícula mínima do sistema em que as nossas ideias quanto aos desideratos finais do mesmo possam ser testadas. E há, trata-se da sala de aula. 
É a partir dela que nos habilitaremos a identificar tudo o que é imprescindível para o bom funcionamento de um sistema de ensino, bem como o modo como o poderemos organizar e avaliar os diversos elementos para que tal seja possível. 


O cómico está em que o desenvolvimento destas ideias põem necessariamente em causa tanto todos os interesses instalados, como a palhaçada e o cinismo com que os nossos líderes políticos têm encarado o fenómeno onde sempre é possível fazer cortes orçamentais quando os tempos de vacas magras o impõem. 


E é por isso que não iremos a lado algum e na próxima geração estaremos, em termos de desenvolvimento, ultrapassados pelos países do Centro e Leste da Europa que, há pouco mais de uma década, emergiram do comunismo. 


E é por isso que gente da índole de Pinto da Costa é tão admirada neste país à beira-mar saqueado. 



Chegaram os livros escolares do segundo ano que a Matilde logo tratou de abrir e folhear. 

“-Mo-di-fi-ca-ções do cor-po. Modificações do corpo. Olha pai, a menina a crescer e os sapatos do bebé, depois do menino crescido e os da mãe e do pai." 


Ui! Que encanto.   


A lista completa é a seguinte: 

“Caminhos”, Estudo do Meio, da Autoria de Conceição Dinis e Luís Ferreira, editado pela Porto Editora, em dois mil e quatro, sendo este um exemplar da primeira tiragem da primeira edição. 

“Amiguinhos”, de Alberta Rocha, Carla Laho e Manuel Linhares, da Texto Editora, com um suplementar caderno de fichas, também deste ano, embora da segunda tiragem da primeira edição; trata-se do livro de Matemática. 

Finalmente o manual de Língua Portuguesa, “Pirilampo 2”, de Noémia Torres, das Edições Nova Gaia, em primeiras tiragem e edição do corrente ano. 



É curioso como por tudo e por nada a comunicação social solicita a opinião de José Sócrates? 

Porque será? 



A Patrícia e o Jorge lá foram continuar os dias de férias que lhes restam num passeio pela costa alentejana. 

Parece que vão satisfeitos com a nossa hospitalidade. 


 Alhos Vedros 
  14/09/2004

terça-feira, 26 de maio de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Que fizemos nós de um mundo em que deixámos que a esperança se resignasse à distância do dia seguinte? 
O futuro deveria merecer o melhor de cada um de nós.

terça-feira, 19 de maio de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

E tudo se encaminha para que a vida familiar reate a rotina própria do período escolar. 
Ontem desloquei-me ao Pinhal Novo para pagar a piscina no mês de Setembro e fiquei a saber que as aulas de natação, devido a problemas logísticos, só começarão no próximo fim-de-semana e em conversa telefónica com a Sofia, a Professora de Ginástica, a Luísa apurou que o regresso está marcado para a próxima quarta-feira, embora aqui deva vir a acontecer uma alteração pois a Matilde, de acordo com o aconselhamento da treinadora, deverá passar para a classe seguinte, a da pré-competição; não só de nada lhe adiantará repetir os mesmos exercícios, como o facto de não ter que enfrentar novos desafios pode muito bem contribuir para a desconcentrar e desmotivar. 

Vamos a ver como o pardalito se integrará no grupo dos miúdos mais velhos. 

Para além disso, amanhã ou na quarta-feira deveremos ficar a saber quando serão os dias das apresentações do novo ano lectivo, cujas aulas, propriamente ditas, tudo indica já não virem a começar nesta próxima semana. 



A Margarida lá regressou satisfeita com as férias no Porto e também por nos voltarmos a ver. 


Está mais crescido, o piolhito. 



A Patrícia passou no exame de Anatomia, transitando assim para o quarto ano de Medicina sem qualquer cadeira em atraso. 
Está toda contente e, na companhia do namorado, passarão os próximos dias aqui em casa para que possam passear por Lisboa. 

O rapaz que se chama Jorge e passou para o quinto ano do mesmo curso com todo currículo cumprido, pareceu-me ser educado e sensato o que é uma boa nota. 


Faço votos para que se entendam e sejam felizes. 



E eu li de uma assentada um excelente livro sobre as passagens de Vénus diante do Sol e a história do conhecimento e observação do fenómeno. (1) 



Mas não me livrei de fazer a volta habitual da festa pela Moita com os meus pequenos amores. 

A Margarida já não quis andar em nenhum dos divertimentos, virada que estava para experimentar algumas diversões para idades mais avançadas. 
Ganhou a Matilde que assim teve um maior número de voltas nos carrinhos de choque infantis. E não é que o pardalito já se esgueira com toda a facilidade dos maiores engarrafamentos, como se passasse todos os dias a treinar aquela condução? 



Mesmo que não o sentíssemos, o calor da noite seria anunciado pelos insectos. 


Alhos Vedros 
 12/09/2004 


NOTA 

(1) Crato, Nuno, Reis, Fernando e Tirapicos, Luís, TRÂNSIRTO DE VÉNUS 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Crato, Nuno, Reis, Fernando e Tirapicos, Luís, TRÂNSITO DE VÉNUS, Prefácio de Steven J. Dick, Gradiva (1ª. Edição), Lisboa, 2004

terça-feira, 12 de maio de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O DIA DA INFÂMIA

Faz hoje três anos que, sensivelmente por esta hora, através da TSF ouvi a notícia do choque de um avião comercial com uma das Twin Towers, no que aparentava ser um terrível acidente sem qualquer explicação imediata. 

Era o dia do feriado concelhio e eu estava em casa com os meus anjinhos, preparando-me para iniciar a última página do diário da Margarida relativo ao primeiro ano de escolaridade. 
Foi até a Margarida que me chamou a atenção para o que se estava a passar e depois de escutar o que vinha da rádio, sintonizei a CNN para mais esclarecimentos a respeito de acontecimento tão dramático. 

Lembro-me como demorei algum tempo a perceber o que estava a suceder e cheguei a ver em directo um dos aviões, na sua viagem fatídica e criminosa, pensando estar a assistir à repetição do presumível acidente aéreo. 

Até que pelas reportagens compreendi que a nação mais poderosa do planeta estava a sofrer no seu próprio território um ataque de grandes proporções a todos os pontos simbólicos e institucionais do seu poderio económico e político, ou seja, os locais onde se sediam os organismos representativos da sua existência enquanto estado independente. 
Como veio a verificar-se pouco depois, outras aeronaves caíram sobre o Pentágono e outra que, tudo assim o indica, se encaminhava para a Casa Branca ou o Capitólio, ter-se-á despenhado no trajecto por acção da resistência dos passageiros. 

Aquilo que tinha começado por ser um lamentável acidente, tinha todos os contornos de uma declaração de guerra. 


Mas a pergunta era, da parte de quem? 

E logo tive a intuição de suspeitar da Al-Qaeda de Bin Laden, embora não me tenha dado imediatamente conta de ter sido aquele acto criminoso e hediondo o começo da guerra mundial que hoje decorre, entre aquela constelação terrorista e o mundo ocidental, particularizado na aliança anglo-americana a que se uniu a Austrália e um conjunto de outros países. 


Dias depois foi o discurso de George W. Bush declarando guerra implacável ao terrorismo, chamando logo aí a atenção para o facto de vir a tratar-se de um conflito longo e difuso, para o que seria necessária muita paciência e perseverança e identificando o primeiro alvo no regime talibã do Afeganistão. 


Infelizmente o mundo Ocidental não se apresentou unido e firmemente decidido a encetar todos os esforços possíveis para reduzir aquele terrorismo apocalíptico a níveis de capacidade insignificante e sabemos hoje que a invasão do Iraque assentou em pressupostos que tudo indica foram falsos. 

E provavelmente é isso que explica o reduzido sucesso que tem tido o processo de consolidação de um novo regime político neste último país, ao que somam as divisões demográficas que a queda de Saddam deixou a nu. 

Como se a paz mundial não dependesse da boa vizinhança no Médio Oriente para o que uma sociedade aberta e livre para aceitar a coexistência com Israel poderia muito bem contribuir. 



E enquanto esta tragédia se desenrola, agora gozo eu a bem aventurança de ter a companhia da Matilde que está a pintar, com isso criando uma harmonia tão doce nesta sala. 



Ao longe, no rio, há velas coloridas ornamentando as águas que sob o efeito da luz de Setembro escurecem de azul. 



Mais lá para o fim da tarde chegará a Margarida. 


Alhos Vedros 
 11/09/2004

terça-feira, 5 de maio de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HISTÓRIAS DA TERRA ENCANTADA
24

Sabes o que me parece? Não é preciso sermos pessoas de Fé para tomarmos como bom o princípio que os seres humanos, sendo membros de uma única espécie, são, por isso mesmo, dotados à nascença de uma dignidade infinita que os igualiza e, como tal, nos deve levar a vê-los como irmãos em plena igualdade de direitos e deveres. A verdade é que se partirmos desse pressuposto seremos capazes de orientarmos as nossas vidas segundo o propósito minimalista de, pelo menos, almejarmos agir sem que por consequência dos nossos actos venha qualquer mal para algo ou quem quer que seja. Isso que afinal é o princípio da idiossincrasia democrática, uma vez assumido pela maioria de uma população é o melhor antídoto para prevenirmos a guerra e a corrupção e muitas outras doenças das sociedades em que vivemos há mais de uma dezena de milhares de anos. Não é pois necessário que sejamos pessoas de Fé para querermos um mundo de paz e respeito pela vida humana, reconhecendo para os nossos semelhantes as possibilidades que para nós queremos de levar um quotidiano feliz e digno, de acordo com aquilo que pensamos ser o melhor para cada um de nós. Esse é o grande ensinamento que podemos extrair das ciências antropológicas, onde aprendemos a evolução da nossa espécie e o modo como o homo sapiens sapiens (1) veio sobreviver a todos os seus antecessores e antepassados e a espalhar-se por todos os continentes. Mas também onde nos habilitamos a perceber que a diversidade de culturas que temos criado ao longo dos tempos resultou sobretudo do facto de termos de lidar com respostas a variadíssimos meios ambientais e inúmeros ecossistemas. Multiplicidade essa que acabou por ser o segredo de termos chegado até aqui, apesar de todas as vicissitudes passadas, sem que uma centelha de esperança tenha deixado de brilhar no mais profundo dos nossos espíritos. Eis o principal legado que a Antropologia nos deixa e aos nossos vindouros. Com isto não estou, de forma alguma, a criar incompatibilidades entre a explicação racional e científica do mundo e o sentimento de nos acolhermos na Sua infinitude e vivermos com o ideal de irmos ao Seu encontro. Com efeito, se por este último caminho encontramos um guia para o nosso comportamento e os nossos pensamentos enquanto indivíduos, pelo outro deparamo-nos com instrumentos que nos proporcionam o entendimento das leis e composição do Universo em que vivemos que, se formos homens de Fé, acreditamos ter sido espoletado por Ele. É que na Terra encantada, os humanos vivem segundo as suas próprias leis. 


NOTA

(1) Mais uma vez chamamos a atenção para os avanços que a Paleoantropologia tem conseguido nos últimos anos, nomeadamente ao nível da actualização dos conceitos, sabendo hoje que apenas usamos a expressão homem sapiens para designarmos a nossa espécie.

 FIM

terça-feira, 28 de abril de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Não há dia algum que a guerra no Iraque não traga notícias dos ataques sobre as forças aliadas e as unidades de segurança do novo poder iraquiano.

É evidente que ali lutam aqueles que perderam privilégios com a queda do regime de Saddam Hussein.
Mas o grosso do alarido é conseguido pelos fanáticos militantes da Al-Qaeda que bem compreenderam que ali levam a cabo um dos episódios mais sangrentos e decisivos da guerra que declararam ao mundo livre que, para eles, é superiormente representado pelos Estados Unidos da América.


Temo que estejamos a perder estas batalhas e com elas e pôr em jogo o equilíbrio mundial tal como o conhecemos.


Nem mesmo perante os raptos de civis pacíficos e inocentes usados como arma de chantagem sobre os poderes políticos do Ocidente, se consegue fazer acordar as opiniões públicas para os perigos apocalípticos que espreitam o nosso modo de vida.


Chegámos ao ponto em que ficamos desarmados perante o cinismo mais ignóbil de discursos radicais que deixámos afirmarem-se como representativos de populações muçulmanas sobre as quais os seus protagonistas interpretam verdadeiras tiranias dentro das nossas próprias leis e sistemas jurídicos. (1)


Virá um dia em que nos arrependeremos da falta de estatura política e moral daqueles que escolhemos para nossos líderes.



América, américa
tenho em a janela sempre aberta
de um porto seguro para as minhas filhas.



Uau!
Chegou o leitor de cd(s) que eu adquiri com o cartão do cliente da gasolina da BP.


Melhoria significativa da minha autonomia musical.



A Matilde tem aproveitado as férias da melhor maneira, com dias inteiros de brincadeira.

Hoje passou a tarde com a amiga Beatriz que neste momento dorme em nossa casa.

E agora que já sabe ler, é engraçado como ela passou a brincar com base nesse pressuposto.



A Margarida telefonou à mãe.
Está satisfeita mas cheia de saudades.


O resto da família também.


 Alhos Vedros
  09/09/2004


NOTA 

(1) Brezé, Thami, SE A INJUSTIÇA CONTINUAR, NÃO SEI ATÉ QUANDO PODEREMOS CONTROLAR AS PESSOAS, pp. 3 e ss 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Brezé, Thami, SE A INJUSTIÇA CONTINUAR, NÃO SEI ATÉ QUANDO PODEREMOS CONTROLAR AS PESSOAS, Texto da Entrevista elaborado por Paulo Moura, Pública nº. 48, de 05/09/2004, In “Público”, nº. 5279, de 05/09/2004

terça-feira, 21 de abril de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Portugal lá continua na mesma, como a lesma, mal em quase tudo, até no futuro. 


Do PS surgem debates no âmbito da corrida eleitoral para o cargo de secretário-geral. 

Apesar da prosápia ou atendendo a ela, Sócrates representa a continuidade do que de mais esconso teve o consulado de Guterres e não me parece que João Soares tenha força e vontade para cortar com aquela lógica de aparelho que rapidamente o manietaria em caso de vitória. 
Manuel Alegre é um avozinho simpático e ainda cheio de vigor físico. É verdade que ninguém lhe pode negar a coragem e a verticalidade de um caminho de quem, em hora incerta e aziaga, lutou pela liberdade. Mas por isso mesmo ele é um símbolo, uma referência, em termos práticos, uma referência moral e ética. Tenho muitas dúvidas que seja o homem com o sentido prático e a energia suficientes para levar a cabo as reformas que há para fazer no sistema político e até no interior do próprio partido e, a partir daí, tudo o que há para reformar na sociedade portuguesa em termos da educação, da saúde e da justiça. E também não me parece que, apesar dessa condição pessoal, ele consiga rodear-se de pessoas capazes de o secundar em tais desideratos. 

A verdade é que desde o distante PREC e o desenho vitorioso do vinte e cinco de Novembro, o Partido Socialista ficou refém de lógicas de interesses estranhos à ideia democrática e à democracia, enquanto organização social, com o que perdeu toda a margem de manobra para que ali se tivesse feito frente à vaga de promiscuidade entre poderes autárquicos e interesses particulares e, já com o guterrismo e os guterrões, tenha acabado por beijar o anel de verdadeiras lógicas mafiosas. 


E a nossa tragédia é que o PSD não consegue uma história muito diferente e também nele mergulham os tentáculos do polvo que se alapou no erário público e atrofia o nosso tecido social, impedindo-lhe o desenvolvimento. 


E agora toda a gente grita contra o processo de colocação de professores que se arrisca a deixar que se repita mais um começo de ano lectivo sem que os docentes estejam a tempo nas escolas com a agravante de, em face da extinção das diversas fases em que decorreram as colocações nos anos anteriores, desta vez, estarem no activo, nos estabelecimentos de ensino, apenas os professores que pertencem aos respectivos quadros que, infelizmente, estão muito longe de serem a larga maioria. 
Quer dizer, estamos em riscos de termos mais de metade daqueles profissionais a disporem de uma mão cheia de dias para prepararem as suas vidas e planearem as matérias e actividades curriculares. 


Alguém disse que estávamos no Burkina Faso? 


E os media batendo na interrupção voluntária da gravidez e no barco holandês que a oposição visitou e a marinha vigiou. 


Estamos na eminência de originarmos o paraíso criminal. 



Noite agradável de varanda e cigarro de pernas esticadas. 



Salzburgo tem um inesperado jardim zoológico em que muitos dos animais andam à vontade, sem quaisquer barreiras relativamente aos visitantes. 



“-Já lavaste os dentes, pardalito?” 
“-É evidente. A mãe está a dar-me o fluor, não está?” 


E eu sigo todo feliz, directamente para a estante onde os livros de histórias já se alongam por mais de três metros. 


Que rico quarto lhes construímos. 


Alhos Vedros 
  08/09/2004

terça-feira, 14 de abril de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

E pronto, este que foi um diário anunciado está a chegar ao fim. Ainda não sabemos quando será o início do novo ano lectivo mas, seguramente, tal sucederá na próxima ou na semana seguinte, pelo que estas páginas estarão em vésperas de encerramento e com elas me despedirei desta minha experiência por este género. Como não conto vir a ter um terceiro filho, condição em que só por razões de força maior não repetiria a gracinha, dificilmente encontrarei motivo para voltar a escrever qualquer trabalho neste domínio. Será pois este um volume de adeus, com o qual porei um ponto final neste capítulo da minha obra literária. 
Com os quatro livros e oito volumes que produzi tendo como objecto estruturante as vidas das minhas filhas, considero que elaborei um conjunto coerente e harmonioso que, para além da originalidade que, por si, justifica literariamente a sua existência, tem ainda o interesse adicional de registar os tempos que passam num quarteto de ocasiões que se intercalam por um período total de dez anos e meio. 
Assim, creio sem qualquer constrangimento que posso tomar esta tetralogia como uma peça suficiente para representar um projecto completo no âmbito da diarística. Em conformidade, em tal quadrante, a mais não me sinto obrigado. 
Igualmente concluo as “Histórias da Terra Encantada” que se repetiram pelas seis parcelas dos livros relativos ao princípio da escolaridade e que mais não são que uma pequena colectânea que marca a minha passagem pela divulgação científica para os mais novinhos, à qual, naturalmente, não voltarei. Sem embargo, no contexto destes diários e como sua parte integrante e estruturante, são aquelas o complemento pela minha deambulação pela chamada literatura infantil, cuja primeira vertente agrupou os contos a que chamei da Lua encantada, âmbito sobre o qual já não posso dizer que não volte. 
Por ora fica a certeza de ter ultrapassado mais uma etapa da minha vida de escritor que não deixará saudades nem me merecerá qualquer destaque especial, mas que sempre permanecerá como uma grata recordação. 
Resta o desejo que as leituras tenham sido agradáveis e em elas, aqueles que tenham a bondade de me ler, possam encontrar algo que lhes prazenteie os momentos em que tenham partilhado a companhia. 
Um grande saravá para todos vós.

terça-feira, 7 de abril de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

OREMOS POR BESLAN!


Viagem pela região dos lagos, o Tirol austríaco, verde e encavalitado em cumes mais ou menos jovens que no Inverno embranquecem, salpicado com espelhos de água pintados de nuvens, fazendo-nos pensar constantemente em vistas de postal. 


Dificilmente conseguiremos ver no mundo uma região mais arrumada e limpa. No chão das ruas e das bermas das estradas, só mesmo as folhas das árvores. O ordenamento do território é à prova de qualquer reparo e as aldeias fazem-se com essas casas alpinas que as cores e os frescos das fachadas fazem transbordar de encanto. 


Aqui, uma bomba atómica seria um autarca português. 


E o cuidado que as famílias colocam na decoração que os vasos floridos fazem nas suas janelas, só pode indiciar uma mentalidade que o povo teima em preservar; quem não saiba cuidar da sua casa… 


Se nós não poderíamos viver num país assim. 



E em Beslan aconteceu a tragédia. 

Não sei muito bem como tudo terá começado, mas o assalto à escola aconteceu e os terroristas cumpriram a palavra ainda que uns quantos tenham conseguido fugir e, neste momento, estejam a monte. 
Fala-se em mais de três centenas de mortes, um terço das quais crianças. 


O indizível aconteceu. 


E Putin vem dizer que as forças da ordem, na Rússia, estão a ser muito brandas com o terrorismo. 

Brevemente reforçará os seus poderes sobre a imensa federação. 
O homem tem perfil e expressão de Czar e vê-se como o eleito para refazer a grandeza que a União Soviética teve na segunda metade do século passado. 



Ai mundo tão lindo, tão fantástica aventura, sobre a qual pairam as trevas do indizível. 



Salvam-se as leituras de Llosa, desta vez com a magnífica narrativa das alterações que uma casa de prazer provocou na vida de uma comunidade. 

Uma bela alegoria sobre o progresso na Humanidade. 


 Salzburgo 
05/09/2004 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 


Vargas Llosa, Mário, A CASA VERDE, tradução de Alice Nicolau, Publicações Dom Quixote (2ª. Edição), Lisboa, 2002

terça-feira, 31 de março de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O REQUIEM DE MOZART

Sítios de interesse na cidade. 


Pelas vistas, indubitavelmente o castelo, para o qual se pode subir por um funicular moderno e rápido. 

Dali temos aquelas paisagens em que o azul e o verde se abraçam na curvatura dos montes que envolvem a cidade, ao longo da qual se encurva a rápida torrente do rio. 

Mas o próprio edifício multi-secular da cidadela vale bem o passeio e ali podemos encontrar um museu de marionetas que faz jus à fama do teatro do género que ali se representa há vários séculos. 

Na descida de regresso ao centro, saímos por um museu da água em miniatura em que obtemos informação sobre as formas como a população tem explorado um tal recurso e ainda sobre as dez espécies, entre peixes e crustáceos que povoam os rios e os lagos da região. 


E não é que dali entrei num cemitério antigo que envolve a igreja de São Pedro que em boa verdade merece uma visita, quer pelo interesse do local, quer pela serenidade que brota do ajardinamento em que as campas estão dispostas? 


O Museu de Mozart, como não podia deixar de ser e uma das casas em que ele viveu com os seus pais. 


Mas também a expressão da arte contemporânea na cidade que foi gabada por Humbolt e pintada por inúmeros artistas. 


E os acontecimentos que são da melhor qualidade. 

“Benedictus qui venit in nomini Domini.” 

O Requiem, de Mozart, na Dom, pela orquestra e o grande coro locais, o diamante desta viagem. 

Não há palavras que descrevam um espírito quando voa e ainda agora que garatujo estas notas numa velha cervejaria, me parece estar a flutuar na sonoridade mágica da catedral. 

É difícil assistirmos a momentos tão belos e grandiosos como este. 



Curiosidades civilizacionais. 
Muitos dos músicos, com os instrumentos devidamente transportados nas respectivas caixas, saíram do local e seguiram para casa nas suas bicicletas. 



Creio que hoje só me resta dormir. 


 Salzburgo 
04/09/2004

terça-feira, 24 de março de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Uf! Dias de folga no antigo principado dos arcebispos de Salzburgo, na Áustria. 


Só os pais, como mandam as regras do namoro e as ruas e vielas de uma cidade fantástica para nos encantar. 


Com a agradável surpresa de termos sorte com o tempo atmosférico, solarengo e ameno, ainda assim com as nuvens que adornam os verdes horizontes quando vistos do alto e as noites propícias à conversa de esplanada, como a do Museu de Arte Contemporânea cuja vista nos convida a um mergulho no calmo rebuliço da cidade, lá em baixo. 


Salzburgo resultou de um povoado da Idade do Bronze que, por sua vez, se terá fixado a partir de colonizações anteriores que ali disfrutavam as bonanças de um vale abrigado e o recurso natural em que a zona é pródiga e de que deriva, inclusivamente, o nome do burgo. 

Terá sido o comércio do sal que desde os primórdios proporcionou a riqueza da região e que motivou as atenções do Império Romano, quando deu pelo nome de Juvavum, o sítio dos deuses e, já na Idade Média europeia, do Bispo de Worens, São Rupert, que ali fundou uma fortaleza por volta de setecentos da era actual. 

Desde então e até ao início do século dezanove quando, por um dos tratados que se sucederam às guerras napoleónicas, foi integrada no Império Austro-Húngaro, a cidade e a região envolvente constituíram um estado independente governado por sucessivas dinastias de arcebispos-príncipes. (1) 

Hoje em dia é uma cidade universitária que preserva a memória cultural de grande centro musical – ali nasceram Mozart e Herbert Van Karajan, por exemplo – e vive essencialmente do turismo que ali se fascina com uma cidade arquitectonicamente preservada na sua originalidade e goza as ruas a palpitar de musicalidades espontâneas e cosmopolitas e os museus e as igrejas de um barroco mais sóbrio que a nossa talha dourada mas nem por isso menos trabalhado e elegante. 



A Matilde ficou com os meus pais e está bem mas, é claro, está cheia de saudades. 



Infelizmente há péssimas notícias sempre que ligamos a televisão no quarto do hotel. 


Desde a passada quarta-feira que um comando tchetcheno sequestrou uma centenas de pessoas numa escola em Beslan, uma cidade da República da Ossétia do Norte. 
Exigem a libertação de correligionários presos e ameaçam fazer explodir o local se forem atacados pelas forças de segurança. Têm em seu poder centenas de crianças e encarregados de educação, bem como os professores e os funcionários do estabelecimento de ensino; contam-se pelos dedos aqueles que se conseguiram pôr a salvo. 


É uma tragédia indizível. Se o sangue escorrer, ultrapassar-se-á um limiar na violência que o terrorismo faz incidir sobre os seus alvos que, ao chegarem às crianças, só terão limites nas capacidades tecnológicas que aqueles grupos de criminosos sejam capazes de reunir para provocarem danos maciços naqueles que definem como seus inimigos. 


O próximo degrau será o uso de armamento nuclear. 


Deus nos salve de uma loucura como essa. 


No entanto, neste caso temo que seja de esperar o pior. 
Avaliando pelo que aconteceu há dois anos num teatro, em Moscovo, não me admiraria que as tropas entrassem em acção e tudo aquilo terminasse numa carnificina. 


E não me admiraria que o Presidente Putin depois de se desculpar de uma qualquer maneira, aproveitasse o combate ao terror para reforçar os seus poderes. 


O problema é que a antiga União Soviética está minada por máfias e, em algumas das antigas repúblicas, por senhores da guerra. 


Sem que nos estejamos a dar conta, o mundo pode estar a caminhar para uma nova idade das trevas. 


Será que o Mal se apoderará dos destinos da História da Humanidade? 


 Salzburgo 
03/09/2004



NOTA 

(1) Sem referência de Autor, SLAZBURG, pp. 2 e ss 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Sem referência de Autor, SALZBURG, Rich-Lau & Geber Metz, Gesmbb, Salzburg

terça-feira, 17 de março de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HISTÓRIAS DA TERRA ENCANTADA
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Terá sido no contexto da sedentarização que os homens inventaram ou descobriram a agricultura. Como tal sucedeu não se sabe ao certo, pois o que as provas arqueológicas permitem conhecer pouco mais é que os locais onde isso terá ocorrido pelas vezes primeiras e o abrir as janelas para que, em face dos dados recolhidos, se estabeleçam hipóteses de como os humanos terão chegado a esse estado de domínio das técnicas e saberes que lhes permitiram a fulcral transformação em seres produtores de alimentos. De qualquer forma, verificamos que foi essa a primeira grande e verdadeira revolução (1) produtiva que alterou por completo o modo de vida que a Humanidade teve até então, provocando a estratificação social e fenómenos como o aparecimento das cidades e a guerra pela posse de territórios, bens e pessoas. Se relações como as de propriedade são presumíveis em sociedades caçadoras relativamente a objectos pessoais, com a agricultura elas passaram a aplicar-se à própria terra, bem como às matérias delas extraídas e até às pessoas envolvidas nessa sustentação do quotidiano. Se o aparecimento de chefaturas são observáveis nos grupos de caçadores, ainda que em situações de contactos mais ou menos próximos com outras formações sociais sedentarizadas, foi com as comunidades agrícolas que aquelas autoridades se consolidaram e desenvolveram no sentido das organizações políticas que formaram os primeiros estados. 
O mundo em que hoje vivemos mais não é que a continuação das consequências dessa conquista da nossa espécie que dificilmente seria concebível fora de populações sedentárias. 
Se queres que te diga, sempre tive para mim que o episódio de Adão e Eva e a sua expulsão do Paraíso – e já nessa história estava contido o mito de Prometeu que ousou tirar o fogo da sabedoria aos deuses – é um eco distante da memória dessa passagem de uma vida de caçadores para a de agricultores – ganharás o pão com o suor do teu rosto – e não deixa de ser curioso como a moderna genética vem corroborar a ideia de uma mãe única para a espécie humana que há volta de oitenta mil anos abandonou África, (2) pelo Mar Vermelho, para a península que lhe é fronteira. Mas isto, por si, é assunto que daria uma abordagem particular que aqui não vem ao caso. 
Ao que parece, a agricultura terá sido inventada em diferentes locais em épocas não muito distantes entre si. De acordo com os achados arqueológicos que por enquanto se conhecem, os homens fizeram-se agricultores nas planícies sedimentares do sudeste asiático, tal como no crescente fértil ou ao longo do Nilo, factos que aconteceram entre quinze a doze mil anos atrás e também pode ter sucedido nas zonas costeiras do actual Perú em torno de uma planta, a totora, aplicada na manufacção de pequenas jangadas pirogas individuais e utilizadas na pesca em águas de beira-mar. 
Dada a abundância, em determinados locais, de plantas cerealíferas que os nossos antepassados se habituaram a colher e a incorporar nas suas dietas alimentares, se por um lado isso possibilitou a fixação de populações, por outro lado, por via justamente da continuidade da recolha de grãos que transformavam em comida, provocou a selecção de espécies mais robustas e alimentícias. 
Pois foi com esses cereais já selecionados que, provavelmente, alguém terá tido a intuição de perceber que, se lançadas à terra, as sementes originariam novas plantas. E se comparada com o tempo anterior, de modo algum poderemos dizer que tenha sido lento o processo de domesticação de outras espécies vegetais e animais. 
A verdade é que as civilizações em que hoje vivemos jamais teriam sido realizadas sem que o Homem se tivesse tornado produtor. 


NOTAS 

(1) A caça foi a primeira grande aquisição humana e seguramente terá sido antecedida pela simples predação. Se bem que tenha sido uma modificação importante, pelas suas consequências, pois viabilizou a colonização humana do planeta, não constituiu um corte radical com o modo de vida anterior, uma vez que manteve os princípios da itinerância e da captura do existente num dado lugar. Em tal condição, os nossos ancestrais terão com certeza modificado aspectos da superfície terrestre, mas só com a agricultura começaram a construir paisagens. A caça terá sido um grande salto no sentido da complexidade cultural, mas foi a agricultura a primeira revolução pois implicou a completa modificação das antigas formas de vida. 
(2) Mais uma vez chamamos a atenção para o facto de estarmos a considerar dados de dois mil e quatro que, de então para cá, em muito foram acrescentados e que implicaram grandes alterações nas datações até então obtidas.

terça-feira, 10 de março de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

MEDITAÇÃO

Maratona masculina feita com sangue suor e lágrimas. 

O atleta brasileiro depois de um esticão que o isolou por uma boa dúzia de quilómetros e chegou a colocá-lo a mais de trinta segundos de vantagem sobre os mais directos perseguidores, já quebrado, é verdade e em nítida perda do avanço conseguido, sofreu um abalroamento por um lunático irlandês em protesto creio que pela presença estrangeira no Iraque, causa que manifestamente o impediu de manter as distâncias e o deixou à mercê da ponta final de grande classe e pujança atlética do maratonista italiano que, após uma recuperação fantástica, veio a arrebatar a medalha de ouro. Ainda assim, o azarado cortou a meta em terceiro lugar fazendo asas que bem mostravam a alegria pelo feito. 


O português conseguiu um honroso sexto lugar. 


E eu tive umas boas duas horas e meia de repouso. 



A paternidade tem a particularidade fascinante de estar permanentemente em face da possibilidade de vir a confrontar-se com novas questões e problemas no que diz respeito à relação educativa que se estabelece com os filhos. Compreende-se, as pessoas crescem e à medida que a sua autonomia se vai formando surgem, naturalmente, situações novas para as quais os pais devem encontrar uma resposta. E é bom que assim seja, mas essa é uma das nossas angústias. 

Por vezes converso com amigos que referem os receios de tomarem decisões erradas ou de falharem nos aconselhamentos. 
Devo confessar que também eu sinto isso e muitas vezes o tenho conversado com a Luísa e chegámos à conclusão que apesar de todos os constrangimentos que possam existir, não há alternativa ao método da experiência e do erro, isto é, só nos resta optar por um caminho e estar sempre atento para o avaliar e simultaneamente preparado para o corrigir se for caso para tanto. 

Há princípios gerais que advêm dos valores que tomamos por bons e que podemos utilizar como grelha de referência para a nossa conduta. Ora se isto é verdadeiro para a nossa vida de adultos, em geral, também o é para a responsabilidade que assumimos de proporcionar a alguém a aventura de se fazer gente de bem. 
Pois é com base nesse critério que procuramos resolver a nossa angústia. 
É claro que por vezes erramos e emendamos rumos e processos; mas sabemos que as acções foram ponderadas e nunca fruto de leviandades e por isso encaramos as correcções de consciência tranquila e sem recriminações pelo que possa ter corrido mal ou menos bem. 

E tenho para mim que é a partir do acompanhamento constante e do muito carinho que nós conseguimos ir construindo uma relação de confiança que, da parte dos amorzinhos, nos deixam o espaço livre para podermos reconhecer as necessidades de emenda sem com isso perdermos o carisma que devem ter aqueles que educam. 

É do amor que nós somos capazes de dar que, em primeiro lugar, se faz a aprendizagem que pretendemos obter da parte daqueles que tão docemente nos preocupam. 


Ora neste sentido, devo admitir que, pelo menos até ao momento, os resultados são positivos. 


É uma alegria ver as minhas filhas crescerem com vontade própria e sentido crítico, atingindo com facilidade os objectivos que as suas vidinhas lhes colocam pela frente. 



A Matilde dormiu sozinha no novo quarto sem qualquer hesitação. 


Deus seja Louvado. 



Mesmo com o cansaço eu sou um homem feliz. 


 Alhos Vedros
  30/08/2004

terça-feira, 3 de março de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A magia olímpica está no fim. Amanhã será a cerimónia do encerramento e o mundo que anda tão cheio da falta de sonho, continuará chorando a impotência em Darfur, manietado pelo terrorismo apocalíptico e a hipocrisia que serve de máscara à ganância dos poderes que tudo fazem em benefício próprio e impedem uma moratória global sobre a guerra que deixaria de fora apenas os seus executantes que facilmente poderiam ser neutralizados se para tanto houvesse vontade. 



E as minhas filhas que me dão tantas alegrias, crescendo numa loucura destas que simultaneamente se desenvolve na maravilha que é a Terra e a própria vida que em ela criámos. 



Há guerrilha maoista às portas da capital do Nepal? 

Nada há de bom que possa vir de tais grupos. 



Amanhã será a vez da Margarida rumar ao Porto, para aí passar os quinze dias da praxe. 


Alhos Vedros 
 28/08/2004

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A crise no Darfur permanece com os seus contornos de catástrofe anunciada. Milhares de mulheres, crianças e velhos, indefesos, estão à mercê de bandos armados sob as ordens e os interesses de chefes tribais islamizados que actuam com o beneplácito do governo de Cartum que teima em conduzir uma guerra civil sobre as minorias cristãs e animistas do sul daquele país, onde a organização do estado já não existe e o território está disponível para ser controlado pelos grupos mais indizíveis. 

Eu só temo que as crueldades que esperam aquelas multidões dos sem esperança que vivem cativas nos campos de refugiados, sejam o prenúncio de outras muito mais horríveis que, a partir daquelas terras de ninguém, podem cair sobre as sociedades em que vivemos. 


Paira o espectro do totalitarismo sobre o mundo e tem a forma de uma combinação entre o crime organizado e o terrorismo apocalíptico. 


Das lutas sociais dos tempos que se avizinham decidir-se-á se o mundo do trabalho virá a conhecer de novo a servidão ou não. 
A verdade é que há grupos económicos e financeiros com mais poder de reunião e mobilização de recursos que muitos estados independentes e nada há no presente que nos permita dizer que aqueles jamais se poderão constituir em novos modos de senhorios sobre as coisas e os homens. 

Por toda a parte, o estado de direito está sob fogo cerrado, quer por iniciativa de lóbis financeiros e económicos, quer sob o mando de sindicatos mafiosos ou do integrismo violento de certas facções que se reivindicam do Islão, como a Al-Qaeda. 

No século vinte e um, voltaremos a morrer pela defesa das sociedades livres. 



E o PS lá vai dando o constrangedor espectáculo de um partido deixado à conquista de uma clientela que para além de zelar pelos seus próprios bolsos e barrigas, estão sujeitas às esconsas obediências que provocaram o pior legado do guterrismo. 

Sócrates fala como se fosse o novo secretário-geral do Partido e é assim que a comunicação social o trata. 
E João Soares e Manuel Alegre, os outros dois candidatos ao cargo, são tratados como se mais não fossem que os animadores de umas eleições que, para serem levadas a sério, têm que ter sempre alguma concorrência. 

E depois todos vendem peixe; com a honrosa excepção de Manuel Alegre que disse ser necessário criarem-se mecanismos que descriminem positivamente as empresas que tenham comportamentos socialmente úteis, ideias sensatas e exequíveis é coisa que não há. 


Pois se é com esta gente que se pretende defender e fortificar o estado de direito entre nós, melhor será começar a pensarmos no exílio. 



A pardaloca lá regressou, sempre bem disposta e luminosa, um bocadinho cansada, como é natural, mas cheia de coisas para contar. 


Está tão bonita esta minha filha. 


“-Ó mãe, eu já fiz todos os exercícios que estavam por fazer no livro de Matemática.” –Comunicou ela, sem que alguém lhe tivesse perguntado o que quer que fosse a essa respeito. 


Belos dias em casa dos avós maternos, onde teve todo um casarão à disposição das suas brincadeiras e imaginação. 

Para além dos passeios a Valpedre e as tardes com o primo Daniel e as primas mais velhas. 

Mas também ela tinha saudades e deu para ver isso no sorriso com que entrou em casa e o brilho dos olhinhos com que nos disse a satisfação que lhe ia na alma. 


Eu amo tanto este pardalito. 



Também os meus cunhados e o filho estão bem. 
A Fátima está grávida mas, graças a Deus, está tudo a correr bem. 


E hoje, na companhia da Margarida, foram passear para o jardim zoológico. 



E agora já temos um quarto de visitas para os receber, ainda que desta vez tenham sido os miúdos que ali dormiram por cedência do quarto das miúdas aos tios. 



Francis Obikwelo, um imigrante nigeriano que aqui conseguiu a carreira de atleta e que, na sequência disso, optou pela nacionalidade portuguesa, conseguiu a proeza de bater o recorde europeu dos cem metros livres e de obter a medalha de prata olímpica para o nosso atletismo que assim, pela primeira vez e sem qualquer trabalho nesse sentido, se viu relegado para os lugares de destaque numa prova em que jamais um português passara das eliminatórias ao nível das grandes competições internacionais. 

E ontem foi a vez de um compatriota conseguir o terceiro lugar no pódio dos mil e quinhentos metros. 



Está na hora de ir para a cama. 


 Alhos Vedros 
  26/08/2004

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

AMANHÃ REGRESSA A MATILDE

Livros Escolares da Matilde, IV O livro do Estudo do Meio da autoria de (1) 



E a Matoldas chega amanhã com a tia Fátima, o Quim e o Daniel que estão de férias e vêm passar estes dias connosco. 



A Luísa sugere que visitemos as festas de Campo Maior, no fim-de-semana. 



Mas eu estou cheio de saudades do pardalito. 


 Alhos Vedros 
  24/08/2004


NOTA

(1) O manuscrito ficou assim mesmo; por qualquer motivo esta ficha do livro de Estudo do Meio ficou por fazer.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Fim-de-semana de repouso, com jornais e Llosa, tal e qual estava a precisar para me recompor do esforço laboral que ainda tenho por necessário nos próximos dias. 
Não terei dormido tanto quanto desejava, uma vez que cedo nos erguemos da cama para gozarmos a praia de Sesimbra. Mas é o que eu chamo o mistério do mar, para o qual basta-me olhar e deixar que o espírito aí se perca, para sentir um renovar de energias no corpo e na alma que nesta ocasião me serão úteis para as refregas que aí vêm. 


E hoje à tarde deixei-me ficar na companhia da maratona feminina com os King Crimson como som de fundo. 

Impressionante foi a prova da maratonista japonesa que chegou em primeiro lugar que, por volta do vigésimo quinto quilómetro, impôs um andamento a que ninguém resistiu e que depois soube dosear sozinha a consagração da entrada no antigo estádio olímpico – em que já dei uma volta completa à pista, em passeio, é bom de ver – e vencer a corrida com todo o brilhantismo da alegria sobrepondo-se à máscara do esforço no momento de cortar a meta de braços abertos. 

Igualmente a queniana que ficou em segundo lugar protagonizou uma prova espectacular, com uma recuperação empolgante que deixou a concorrência para trás e lhe permitiu assegurar a medalha de prata. 

Lamento não ter fixado o nome destas atletas mas ambas as prestações me entusiasmaram. O recorde olímpico da maratona masculina pertence a Carlos Lopes, com duas horas, nove minutos e vinte e um segundos, desde as olimpíadas de Los Angeles em oitenta e quatro do século passado. 

Se resistir a estes jogos, ultrapassará assim as duas décadas. 

Até ao momento, este é ainda o maior feito do desporto nacional. 


E é o que põe a nu a ditadura que o mundo da bola exerce sobre a sociedade portuguesa. 


Quando os defensores do euro dois mil e quatro apresentaram todas as suas razões que nada tinham a ver com os aspectos desportivos, propriamente ditos e chegaram à demagogia extrema que, para mim, se confundiu com a vigarice, de alegarem que o evento teria potencialidades para polarizar a retoma económica – isto não é uma anedota – estavam precisamente a esconder o facto de o universo que orbita em torno do futebol sugar ao erário público muito mais do que devia e até do que é moralmente aceitável. 

Com efeito, se pretendíamos projectar a imagem do país no estrangeiro, como não tenho dúvida alguma em aceitar que se conseguiu com o europeu de futebol, mas se o desiderato era esse teríamos tido muito mais retorno se tivéssemos concentrado os recursos para uma organização olímpica que poderia ter sido planeada de maneira a dotar o país com infra-estruturas desportivas – e não só de um tipo de desporto, em particular – que posteriormente poderiam ser aproveitadas para funcionarem como polos de desenvolvimento neste âmbito específico das actividades humanas, nomeadamente e em primeiríssimo lugar no referente ao desporto escolar que não existe entre nós. Como facilmente é entendível, um tal evento tem uma audiência televisiva e uma cobertura mediática muito maior que o euro dois mil e quatro jamais poderia aspirar a conseguir. 
E depois um estádio olímpico seria muito mais fácil de manter e animar de modo lucrativo do que os dez que o estado pagou, o mesmo é dizer que os nossos dinheirinhos de cidadãos contribuintes pagaram para, a permanecerem as coisas como estão, ficarem às moscas e a reclamarem mais apoios públicos para que não se degradem com uma rapidez que, de todo, seria desaconselhável. 

Mas a verdade é que no meio de todo o generoso pacote que o país pagou, ninguém repara que ao Futebol Clube do Porto foi oferecido um centro de estágio pela Câmara de Gaia e todo um complexo desportivo nas Antas, onde fizeram o estádio do dragão e todas as acessibilidades, para além das negociatas dos terrenos e construção em que até o amigo Pôncios Monteiro aparece como empresário promotor. 


Enfim, é isto o mais triste exemplo do planeamento estratégico para o desenvolvimento desta triste sociedade. 



A Margarida começa a acusar o nervosismo pelo aproximar do começo do novo ano lectivo e a mudança de escola. 
Ultimamente tem feito perguntas sobre os horários e a turma e as indicações quanto ao primeiro dia de aulas que revelam uma agitação própria de quem se sente inquieta com o recomeço do ano escolar e o início de um novo ciclo. 


Vamos estar atentos nos próximos dias. 



E agora o sono, mas ainda antes lerei uma página de Llosa dos primeiros tempos cheios de exuberância. 


 Alhos Vedros 
 22/08/2004

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A canícula faz da madrugada
o palco de uma ópera grilada

até onde os ouvidos alcançam.