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quinta-feira, 16 de maio de 2019

Caetano Veloso e Agostinho da Silva sob o signo "Deus está solto"




por Eduardo Aroso

Num dos seus escritos em forma de crónicas, reunidas no volume Caetano Veloso – Verdade Tropical, edição Círculo de Leitores, o cantor-compositor brasileiro confessa a influência que teve de Agostinho da Silva, bem como de outras figuras que gravitavam então junto do filósofo português,  no alvorecer do que viria a ser denominado «tropicalismo». Agostinho, um “bandeirante da cultura”, ensinava e criava instituições e universidades em terras de Vera Cruz, e, contra a corrente de uma distorcida portugalidade forjada pelo Estado-Novo,  o pensador de Barca de Alva retomava a ideia de uma vera fraternidade luso-afro-brasileira, só impossível se o Homem não o consentir. Caetano estava então imerso na ideia do que viria a ser o «tropicalismo» (nome incluído no álbum do cantor baiano «Tropicália»), conceito criado pelo artista plástico Hélio Oiticia, sendo que foi o jornalista Nelson Motta que pela primeira vez escreve um artigo sobre essa decisiva corrente cultural, com repercussões na música, literatura, cinema e outros domínios. A Roberto Pinho ficou a dever Caetano a sua ida para o Rio de Janeiro. Dele, diz o cantor: «Ele fora formado pelo professor Agostinho da Silva, o fascinante português fugido do salazarismo e que via no Brasil um esforço de superação da fase nórdico-protestante da civilização. Era um paradoxal sebastianismo de esquerda que se nutria de lucidez e franco realismo e não de mistificações. Se aquilo era um ardil da saudade do catolicismo medieval lusitano não ficava claro para mim».

 O que mais importa, de relance, é observarmos o impacto que para um cantor brasileiro do séc. XX tudo aquilo tinha no seu espírito. «O professor Agostinho, interessado em ligar Brasil com África e Oriente (no fim da vida ele estava apaixonado pela China “póscomunista”), nunca derrapou para nenhum tipo de reaccionarismo  radical: ele amava ver em Portugal (o mais antigo país da Europa – unificado e feito Estado-Nação desde o século XII) uma sugestão de futuro espiritualmente ambicioso, sem negar os frutos da paixão nórdica pela tecnologia. E quando ele dizia petulantemente que “Portugal já civilizou Ásia, África e América, falta civilizar Europa”, estava sobretudo mostrando que queria pensar ao arrepio dos poderosos».

Na verdade, fosse por convicção pessoal, por aquilo que emanava do próprio «tropicalismo», pensando com Agostinho neste cenário de fundo na ideia de uma relação Portugal Brasil, muito para além da distorcida que apresentava o salazarismo, ou ainda por todas estas circunstâncias, o certo é que por volta da década de 60 o cantor-compositor inculcava uma utopia clarividente da realização da Língua Portuguesa, não sendo de minimizar o facto de ser baiano de nascimento (como, por exemplo, Jorge Amado), isto é, uma herança genética que podia entrever o triângulo, Portugal-Brasil-África, quiçá mais interessante do que o tão falado triângulo das Bermudas (!). Caetano, conforme confessa, intui que «deveria aceitar a sugestão do destino e ir fazer música no Rio e em São Paulo porque coisas grandes necessariamente adviriam disso». É de crer que o autor de «Tropicália» aceitasse, dir-se-ia, essa missão de ser voz e melodia desse sonho que no sotaque «de português com açúcar (Agostinho da Silva) fizesse girar a seiva de alma e cultura no referido e cosmopolita triângulo. Embora a música do cantor fosse um canal importante não se pode descuidar a influência do cinema na figura exemplar de Glauber Rocha (também baiano) nas obras «Deus e o Diabo na Terra do Sol» ou «Barravento», este último porventura o de maior influência no tropicalismo.

Mas não só de Agostinho, ou melhor, antes dele, há o fascínio de Caetano (melhor seria dizer encanto?) pelo idioma luso-brasileiro. No meio de tanto fervilhar de tropicalismo, de se reclamar um «Brasil brasileiro», havia a sedução intelectual do Brasil pelas correntes culturais da Europa, nomeadamente o Dadaísmo.  Todavia, já nos bancos de escola o cantor fica marcado por Mensagem de Fernando Pessoa, muito particularmente pela figura mítica de D. Sebastião. Assim o diz: «É um poema de Mensagem, o livro de Pessoa que me impressionara na época da faculdade por ser capaz  - ao parecer constituir a fundação mesma da língua portuguesa ou a sua justificação última – de dar vida digna a esse mito tão frequentemente ridicularizado (o termo “sebastianismo” virou sinônimo de impotência auto-iludida, um quase consensual depreciativo da crítica da cultura entre nós). Uma versão corajosamente livre (e surpreendentemente nada reaccionária) desse mito tinha se apresentado a nossa geração de baianos através da figura do professor português Agostinho da Silva que, nos anos de ouro da Universidade da Baía sob o reitor Edgar Santos, fundara em Salvador o Centro de Estudos Afro-Orientais, sempre mirando um horizonte  de superação do estágio em que se encontrava o mundo liderado pelo Ocidente (…) Algo (ou muito disso) está por trás de toda a obra de Glauber – e, em que pesem as ironias e desconfianças, de todo o tropicalismo».

Podemos especular- não o sabendo com realidade de fonte directa – do que,  nos dias actuais, Caetano pensa de Agostinho da Silva, parecendo certo que a sua ideia e amor à língua portuguesa (aliás, bem apoiado pela irmã Bethânia) não conheceu declínio, a julgar pela sua obra, e pelo que, por contraste, disse da língua inglesa, quando por imperativos profissionais permaneceu uma temporada em Inglaterra. Seja como for, há uma indesmentível convergência que incarna perfeitamente no âmago do pensamento agostiniano, quando o cantor, ao jeito do Grito de Ipiranga, lança um outro quando diz «Deus está solto».

Maio 2019

(in, António Telmo. Vida e Obra. Ver mais aqui: https://www.antonio-telmo-vida-e-obra.pt )

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Eduardo Aroso, A Quinta Nau


por Risoleta C. Pinto Pedro


É o título que tenho o privilégio de ver aqui a navegar nas estantes de poesia, livro necessário, porque estamos num tempo em que, mais do que de Messias necessitamos de naus. É que as naus não nos prometem nada, apenas são o que são, com a memória do que foram. E somos nós que as governamos. Recomendo a sua poesia, porque tem música. Ou não fosse o poeta, e este poeta, concretamente, também um músico. A cadência é a das naus perfeitas que navegam por todos os tempos e todos os elementos.
Fecho o livro e traço, com o lápis, no papel, as palavras sobre estes poemas. É um som antigo, o do lápis a deslizar sobre o branco, diferente daquele do teclado. Este é quase inaudível. Percorro o papel como uma nau faria no mar e o lápis é caravela em tempo calmo, singra sem obstáculos, à maneira destes poemas.
Este livro fala de nós, do antepassado sangue. É um desafio ao enigma que aprofunda para lá da superficial mente.
Cada poema é uma parte de uma carta de navegação que lembrando o sentimento e o ensinamento da História, guia o moderno português que abre o seu coração à viagem, a um outro navegar, não menos arriscado ou emocionante, que é a que se faz dentro de cada um.
Navega na esperança, esta Poesia, como a luz de um farol em que a Pátria pode transformar-se a partir do barco parado que aparenta.
Na tradição do nosso Romanceiro, soa à voz dos avós, que transporta como eco.
A “Toada do Pinhal de Leiria”, tão actual e urgente, deveria ser lida em todas as escolas pelos meninos, como uma espécie de hino alternativo. É a história da nossa navegação por mar e por terra, em cinco estrofes. Por seu lado, “O Ignoto Árabe” traz-nos o deserto agora aqui.
Os versos são belos, mas alguns elevam-nos, pela surpresa de quase excessiva beleza: «Já não há um amanhecer inteiro,/ Como requer a pureza do sal».
A estrofe que se segue a estes versos é firme como a Fé:
«Sei que as armadas do futuro/ Recrutam discretamente/ Marinheiros que dormem pouco,/ Os que sonham agitados e soltos.»
Fala-se da Pátria de modo diferente, como um ciclo, porque diferente é o caminho que o Poema vê. Traz o poeta os símbolos para a Poesia, e com o símbolo cria Poema.
O Poema “Cavalo Branco” é uma cavalgar das quinas entre a morte e as crinas. Nesse tropel, observamos os fantasmas que talvez sejamos nós: «mansa visão».
Alguns destes textos, quase haikais lusitanos de estrofe livre e versos irregulares de certeiro remate, formam um bordado tradicional.
Por vezes confunde-se o retrato de D. Sebastião com o nosso:
«Que avança sempre,/ Simulando que cai…». E não será ele… nós? E não seremos nós… ele?
Mas também a distância que vai entre a história, o mito e o coração e percorrendo essa distância assim se constrói a realidade, tal como o extraordinário poema sobre a realeza do mais humilde. É bem verdade que a nossa alma está aos nossos pés e o sapateiro-profeta que habita a nossa história bem o sabe, tal como a importância do que faz.
Eduardo Aroso constrói poemas e repete, em cada um, com diferentes palavras, que nada do que é real pode ser ameaçado. A vitória é certa e se o combate tem de se fazer é apenas para confirmar o real. Receitas secretas da alquimia antiga. Aqui temos, em verso simples, mas não menos belo, mas não menos complexo, a história misteriosa da alma lusitana. A rima não é forçada pela música, é consequência natural do tema, pois a sabedoria do espírito ilumina a matéria e cria um livro de poemas sobre as pedras, os corpos, os mitos, os milagres e as gentes. Sem concessões ao fácil, eleva a pedra de construção que somos e onde nos lemos. Não há um olhar nostálgico, há uma visão de reconhecimento e identidade do que somos ou do melhor que em nós adivinhamos vir a ser, já o sendo, sem o saber. Visão arguta da História Nacional em suporte simbólico-poético numa estrutura da aristocracia do pensamento.
Belo, fluido e sem peias, este livro. Modo de nos conhecermos melhor. Um olhar de dentro para dentro com ritmo de verso cadenciado em dança ritual.

Risoleta C. Pinto Pedro
4 de Abril de 2018

sábado, 7 de abril de 2018

Dois Poemas de Eduardo Aroso


VARIAÇÕES DO LABIRINTO *
(Sobre meditação-estudo de Lima de Freitas)

1
Não se entra no labirinto.
Alarga-se quando se está.
Só a saída é probabilidade.

2
É a cidade, alicerces solitários,
O estádio, a claque, o dízimo alienado.
Mas a praça central desconhece a amêndoa.

3
O labirinto mantém-se.
O mesmo de quem tem vários empregos
Para ganhar mais dinheiro.

4
É essa fome estranha e roedora
Que não sabe de que alimento
E afoga-se na água que procura.

5
No labirinto os corredores baixam ao Hades
Se o fio se perde.
Oh, angústia da memória!

6
Nele existe o melhor da escola
Da verdade sem sombras:
Discernir o círculo e o quadrado.

7
O labirinto só é
Enquanto há larva.
Se surge borboleta, é céu.

8
Nele o tempo é espaço
- O tal ponto em toda a parte
E em lado nenhum.

9
Não te iludas: os ecos sufocam
A melodia única que conduz.
Uma gota de orvalho basta-se.

10
No labirinto busca-se a saída
Como o poema perfeito
Onde falta sempre a última palavra.

* inédito

Eduardo Aroso
Páscoa, 2018



NOVA  CARTOGRAFIA

Ultimam-se as cartas


Com referências a paragens
Nunca suspeitadas.
Agora é desfraldar a vela,
Ser o aqui e o além
A não perder de vista;
Cá dentro há longas costas,
Cadinho para alquimistas
Celebrarem sínteses de etnias.
Completa é a última carta
- Onde quer que viajemos
No pensamento ou na acção
Deixaremos sempre
O nosso padrão.

E ai de quem volte atrás,
De quem troque o Sonho pelo pesadelo
E queira ter o amargo gosto
De saber se a máscara do Velho do Restelo
Ainda serve ao nosso rosto!

De «A Quinta Nau» (Edições Gresfoz, 2003)
Eduardo Aroso