O oceano é um Upanishad, a terra um Sutra, o sol um Corão, o vento um Evangelho. E tu uma deusa-deus que se rebola a nascer e morrer e a rir e chorar pelas colinas do tempo e do espaço até que regresses ao Infinito de onde tudo vem e de onde nada jamais saiu a não ser na mente estúpida que acredita piamente nas histórias que a si mesma conta para se distrair do Extraordinário que é. (Paulo Borges)


quarta-feira, 11 de abril de 2018

Eduardo Aroso, A Quinta Nau


por Risoleta C. Pinto Pedro


É o título que tenho o privilégio de ver aqui a navegar nas estantes de poesia, livro necessário, porque estamos num tempo em que, mais do que de Messias necessitamos de naus. É que as naus não nos prometem nada, apenas são o que são, com a memória do que foram. E somos nós que as governamos. Recomendo a sua poesia, porque tem música. Ou não fosse o poeta, e este poeta, concretamente, também um músico. A cadência é a das naus perfeitas que navegam por todos os tempos e todos os elementos.
Fecho o livro e traço, com o lápis, no papel, as palavras sobre estes poemas. É um som antigo, o do lápis a deslizar sobre o branco, diferente daquele do teclado. Este é quase inaudível. Percorro o papel como uma nau faria no mar e o lápis é caravela em tempo calmo, singra sem obstáculos, à maneira destes poemas.
Este livro fala de nós, do antepassado sangue. É um desafio ao enigma que aprofunda para lá da superficial mente.
Cada poema é uma parte de uma carta de navegação que lembrando o sentimento e o ensinamento da História, guia o moderno português que abre o seu coração à viagem, a um outro navegar, não menos arriscado ou emocionante, que é a que se faz dentro de cada um.
Navega na esperança, esta Poesia, como a luz de um farol em que a Pátria pode transformar-se a partir do barco parado que aparenta.
Na tradição do nosso Romanceiro, soa à voz dos avós, que transporta como eco.
A “Toada do Pinhal de Leiria”, tão actual e urgente, deveria ser lida em todas as escolas pelos meninos, como uma espécie de hino alternativo. É a história da nossa navegação por mar e por terra, em cinco estrofes. Por seu lado, “O Ignoto Árabe” traz-nos o deserto agora aqui.
Os versos são belos, mas alguns elevam-nos, pela surpresa de quase excessiva beleza: «Já não há um amanhecer inteiro,/ Como requer a pureza do sal».
A estrofe que se segue a estes versos é firme como a Fé:
«Sei que as armadas do futuro/ Recrutam discretamente/ Marinheiros que dormem pouco,/ Os que sonham agitados e soltos.»
Fala-se da Pátria de modo diferente, como um ciclo, porque diferente é o caminho que o Poema vê. Traz o poeta os símbolos para a Poesia, e com o símbolo cria Poema.
O Poema “Cavalo Branco” é uma cavalgar das quinas entre a morte e as crinas. Nesse tropel, observamos os fantasmas que talvez sejamos nós: «mansa visão».
Alguns destes textos, quase haikais lusitanos de estrofe livre e versos irregulares de certeiro remate, formam um bordado tradicional.
Por vezes confunde-se o retrato de D. Sebastião com o nosso:
«Que avança sempre,/ Simulando que cai…». E não será ele… nós? E não seremos nós… ele?
Mas também a distância que vai entre a história, o mito e o coração e percorrendo essa distância assim se constrói a realidade, tal como o extraordinário poema sobre a realeza do mais humilde. É bem verdade que a nossa alma está aos nossos pés e o sapateiro-profeta que habita a nossa história bem o sabe, tal como a importância do que faz.
Eduardo Aroso constrói poemas e repete, em cada um, com diferentes palavras, que nada do que é real pode ser ameaçado. A vitória é certa e se o combate tem de se fazer é apenas para confirmar o real. Receitas secretas da alquimia antiga. Aqui temos, em verso simples, mas não menos belo, mas não menos complexo, a história misteriosa da alma lusitana. A rima não é forçada pela música, é consequência natural do tema, pois a sabedoria do espírito ilumina a matéria e cria um livro de poemas sobre as pedras, os corpos, os mitos, os milagres e as gentes. Sem concessões ao fácil, eleva a pedra de construção que somos e onde nos lemos. Não há um olhar nostálgico, há uma visão de reconhecimento e identidade do que somos ou do melhor que em nós adivinhamos vir a ser, já o sendo, sem o saber. Visão arguta da História Nacional em suporte simbólico-poético numa estrutura da aristocracia do pensamento.
Belo, fluido e sem peias, este livro. Modo de nos conhecermos melhor. Um olhar de dentro para dentro com ritmo de verso cadenciado em dança ritual.

Risoleta C. Pinto Pedro
4 de Abril de 2018

2 comentários:

Anónimo disse...

Bom dia. Obrigado pela gentileza.
Eduardo Aroso

Zuzu Baleiro disse...

Ao ler o teu comentário senti um desejo enorme de ler os poemas do Eduardo Aroso. Cada dia que passa, estás a escrever melhor. Sente-se que as palavras fluem ao sabor do teu pensamento, sem esforço, sem dificuldade em encontrar a palavra certa. Quando leio aquilo que tu escreves fico sempre maravilhada. Preciso, urgentemente, de encontrar o livro A quinta Nau.
Sinto falta de estar contigo.
Zuzu