"Ninguém cruza nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de alguém sem nenhuma razão."
Chico Xavier (in, Diálogos Lusófonos)

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA




Tudo leva a crer que a refrega revolucionária passou e o país dá mostras de estar a entrar na normalidade da democracia, aparentemente, tendo atravessado a borrasca sem se desintegrar, ainda que o sobressalto tenha sido uma mudança de sociedade. Certo é que em Abril passado se realizaram as eleições para uma assembleia legislativa da qual emanou o primeiro governo constitucional que, por muitas que sejam as dificuldades, lá vai tomando conta dos assuntos públicos e das medidas que se impõem para que Portugal possa aceder ao patamar do mundo desenvolvido e, paralelamente, conseguindo com isso construir os mecanismos imprescindíveis a uma realidade baseada nos princípios da justiça social. Pelos vistos, a nossa comunidade, também ela, bolinou mais ou menos incólume em toda essa agitação e até foi capaz de dar conta da parte que lhe poderia caber no que toca a acolher os milhares de portugueses que a guerra civil em Angola e as independências forçaram a abandonar as antigas colónias e, por escassez de alternativas, a demandarem a metrópole em busca da reconstrução das vidas que, ao que se ouve dizer, na grande maioria dos casos, dramaticamente perderam. Demos trabalho a três famílias que para já se instalaram em casas pré-fabricadas que, no entanto, estão sendo substituídas por lares a sério numa ponta de terreno por detrás do bairro dos trabalhadores a que ficarão ligadas por uma rua entre o espaço devoluto e ajardinado que separa duas moradias da ala correspondente e onde, há muito, estavam edificadas as duas moradias que têm as vistas na direcção da estrada. Apesar deste movimento populacional repentino e massivo que, de uma maneira ou de outra, o tecido económico nacional terá que albergar e sustentar, há uma calmaria que se vai instalando ao tomar o lugar das marés vivas que invadiram as ruas e não sei porquê, estou confiante que daqui a uma dúzia de anos viveremos dias melhores e mais justos. Por isso penso que é melhor assim, em lado algum se viveu uma revolução permanente e ao mesmo tempo se criaram os meios que permitem redistribuir a riqueza gerada e as oportunidades para que os filhos dos mais pobres possam escolher o que acharem que é o melhor caminho para as suas vidas. Não sei muito bem o que possa ser o socialismo pois, pelo que se vai apurando, a verdade é que, pelo menos nestes últimos anos, com o movimento dos não alinhados, temos assistido à afirmação de vias alternativas, seja como for, pelo menos existem dois discursos distintos, um em torno do que podemos designar pela óptica comunista dos países socialistas, em crescendo de número no panorama mundial e o outro girando à volta dos partidos social-democratas e socialistas dos países da Europa Ocidental e do Norte, sendo ambos muitíssimo diferentes e correspondendo mesmo a modelos de sociedades antagónicas entre si. Com efeito, enquanto o primeiro se consolida numa economia estatizada e planificada onde a iniciativa privada e a propriedade foram praticamente banidas, depois de decretadas abolidas, o segundo, pelo contrário, conferindo especial atenção a estas que as leis protegem, alicerça-se plenamente na organização capitalista das actividades económicas que dessa maneira funcionam fora da alçada dos poderes políticos, à partida regulando-se pelas regras específicas dos mercados e apenas competindo ao estado agir no sentido de assegurar que tais entidades, particularmente as mais poderosas, não violem direitos daqueles que trabalham e simultaneamente controlar e gerir a repartição dos rendimentos globais que melhore a qualidade de vida em geral. Fico pois sem saber ao certo o que possa ser o socialismo uma vez que, mesmo descontando as perguntas de um lado e do outro, ao que parece, ambos têm atingido esse almejado nível de igualdade. Contudo, seja o que for, estou absolutamente convencida que o resultado do mesmo só pode ser medido, por um lado por uma situação de ausência de pobreza tal qual a conhecemos e da forma como se manifesta entre nós, portugueses e, por outro lado, pelo facto de os que por qualquer motivo não consigam abandonar o fundo da escala, terem, ainda assim, a possibilidade de verem os seus descendentes com acesso às mesmas chances que os outros, mais afortunados, para melhorarem as suas vidas. Fora disto não vejo que se possa falar de socialismo pois, pela simples acção da inércia, as desigualdades tendem inapelavelmente a impedir que os mais fracos possam ter e usufruir das oportunidades propícias à escolha livre de uma vida. Ora nós que por agora temos os principais sectores económicos nacionalizados, temos todas as condições para podermos organizar as coisas de maneira a alcançarmos tais objectivos. É então este o Portugal que a partir de amanhã abandonaremos para darmos início a uma viagem pelos diversos países europeus, com o propósito de visitarmos todos os pontos que, de acordo com os nossos interesses em geral, consideramos essenciais. Por causa disso, acabámos por ficar aqui até ao início deste novo ano; de acordo com a experiência que tivemos de visitar cidades a partir de Paris, para tanto utilizando a ferrovia, concluímos que teremos maior mobilidade, dado dispormos de todo o tempo que for preciso, se formos no nosso próprio meio de transporte. Matutámos e decidimo-nos por adquirir um furgão Volkswagen que nestes últimos meses, com a ajuda do Chico Sequeira que, apesar de há muito ter passado da sua posição de mecânico a dono de uma oficina e stand de peso e nomeada no ramo e na região, gosta destas coisas e ali deixou tamanho empenho e entusiasmo quanto o do meu amor que readaptou todo o interior como se de uma pequena roulotte se tratasse e pelo conforto e comodidades acrescentadas, do rádio ao leitor de cassetes para que tenhamos música, ao pequeno frigorífico e depósito de água para que tenhamos autonomia alimentar, sem esquecer a chauffagem para os dias frios, apesar de pouco entender destas coisas de automóveis, diria que fez ou melhor, diria que fizeram um bom trabalho.
O Vale da Esperança está mais lindo que nunca. Dá gosto ver as ruas limpinhas e todos os ajardinamentos tratados e decorados com flores que por ainda não ser Primavera permanecem em grande parte na latência das sementes e que tanto realce e perfume dão às fachadas das casas sempre arranjadinhas no que, aqui, na praça central, sobressai o casarão com os seus janelames e portadas antigas que o arvoredo que enverdece a colina e vai envolvendo a escadinha das nossas residências de piso térreo, embala ao sabor do vento. Da mesma maneira que é um encanto ruar pelo bairro dos trabalhadores onde os letreiros decorados dos serviços e uma ou outra loja que por ali abriram combinam tão bem com os vasos de flores que pintam as muradas baixas dos quintais. É tão fácil para as crianças seguirem até à escola que, nas traseiras do casarão, fica de frente para o centro médico com o seu espaço intercalar ordenado num parque de estacionamento a que os pinheiros mansos, ali plantados desde a primeira pedra, já vão conferindo sombra. Assim como é fácil seguir a pé ou de bicicleta para o trabalho. É tão bonito comprar o jornal da manhã e ter que dizer bom dia a rostos que se cruzam numa e noutra direcção, entrando por aqui e ali nas portas comerciais que estão abertas e a que um banco juntou um balcão e os correios um pequeno posto. E as actividades estão firmes, quer no domínio agrícola, quer no da agro-indústria que desenvolvemos quanto ao azeite e o tomate, ou o arroz e outros produtos alimentares, assim como nas cortiças expandimos as produções e abrimos outras unidades complementares e de suporte.
Sinto orgulho por ter contribuído para isto, sobretudo por isso me fazer sentir que a minha vida jamais terá sido em vão.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (61)

La Marriée, Marc Chagall, 1950
Guache e pastel, 68x53cm

A violência sobre um violino é uma violinência!
Sorriu? Ainda bem!
Vamos entrar o ano com um sorriso...
à saída, logo se vê! 

António Tapadinhas

domingo, 29 de dezembro de 2013

 
 
 
Nunca voltemos atrás
Tudo passou se passou
Livres amemos o tempo
Que ainda não começou
 
Agostinho da Silva
 
Mais um ano se aproxima do fim.
Que dizer do ano que agora finda?
 Muita coisa se pode dizer e, ao fazê-lo, discorrer como quem volta a percorrer os caminhos, ou então resumir procurando as palavras que possam condensar o que se viveu e sentiu e que, de uma forma ou de outra, ainda perdura.
A nível mais geral diria que foi um ano marcado pela grande ofensiva do capital financeiro que, recorrendo a um terrorismo social como me não recordo, vem implementando um estado de fascismo económico escondido atrás de uns enfeites que nos procuram vender como um tal liberalismo e com o qual nos deveríamos congratular por ser reflexo de uma sociedade desenvolvida e moderna já livre dos fantasmas socializantes ultrapassados e retrógrados. O cidadão não acredita, claro, até porque está cada vez mais, com «uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma», mas também não consegue atinar com a maneira de fazer parar o desvario selvagem de quem ocupa as cadeiras do “poder”. E seria bom que atinasse até porque a ofensiva veio para ficar e vai continuar se não por estes, pelos outros que com estes vêm alternando sem significativamente alterarem a música de fundo.
A nível mais pessoal diria que foi um ano em que se acentuaram situações de desconforto e se carregaram os tons do horizonte do futuro mais próximo. No intercâmbio humano com a tribo a que pertencemos acontecerem também algumas perdas irreparáveis por insubstituíveis.
A primeira das quais, naturalmente, a de Afonso que assim se chama o meu Pai.
Depois outros, próximos, que sentimos e percebemos que de nós se afastaram pelos caminhos da vida. Outros, porém, chegaram e por vezes suficientemente perto para podermos justificadamente esboçar a construção de algo em conjunto.
 
 E, entretanto, o tempo que nunca pára embora nem sempre se renove, pelo menos aparentemente.
 
O que mais desejo para 2014 é que, no plano social, consigamos o discernimento a arte e a habilidade para estancar o desvario e mudar o rumo e a toada.
 
A nível pessoal desejo poder ajudar com o meu contributo, para que colectivamente consigamos redesenhar um novo mapa com novas rotas onde cada um possa ter o seu espaço para caminhar sem pisar ninguém nem ser pisado e que as situações de desconforto possam ser neutralizadas e para que cada e todas as cores possam entrar na composição da paisagem na plenitude da sua matriz original.
 
E porque o meu Pai continua comigo nesta deriva, deixo-o aqui também para que o possam conhecer melhor um pouco.
 
AFONSO
 
De um imaculado silêncio
se eleva em memória clara
o teu legado mais profundo.
No deve e haver da vida
foste do Ser antes do ter
por ser mais ao teu jeito
e à tua medida.
O ter é breve e finito
só o Ser pode o desmesurado infinito.
Por isso tu foste, e és e serás
e juntos continuamos
enquanto em nós os caminhos não se acabarem.
 
Da tua família toda.
 



Manuel João Croca

sábado, 28 de dezembro de 2013

"Marcas nos Chãos", mais um livro de Leonel Coelho


Leonel Coelho, grande dirigente associativo em Alhos Vedros, aproveitando o dia da Festa dos seus oitenta anos convidou os amigos e lançou mais um livro, de seu nome "Marcas nos Chãos". Numa sala repleta de amigos coube a Dores Coelho, sua filha, a cuidada apresentação da obra que com a ajuda de outros familiares e amigos foi pintalgando com palavras algumas das suas passagens mais significativas. Trata este "Marcas nos Chãos" de um registo em tom etnográfico das múltiplas atividades, relações, alegrias e desvarios, próprios de pessoas, que viveram na região onde nasceu e cresceu o autor e seus ascendentes. Quadros de vida descritos por Leonel Coelho que vêm desde a sua infância e que correspondem a outras tantas marcas que ele trás mapeadas no rosto como nos é revelado pela oportuna capa do livro da autoria de Rafael Coelho, seu neto. Um lançamento de livro com sabor a uma ocasional homenagem, bem merecida, onde Leonel Coelho aproveitou também para relembrar o seu amigo José Afonso, em que a omnipresença da família se destacou em participação e onde a presença dos amigos não deixou de se fazer notar, enchendo por completo a velhinha sala da Academia.


Texto e Foto de Lucas Rosa


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário, 
é possível conviver com as figuras do passado.
Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será. 


avista em
o médico cirurgião
agarrado à parasitologia. 
  

Naquela casa,
onde já moram 164,
tudo está  a acontecer,
cada vida / cada conto.
Por isso já recebeu
mais de 27,7 milhões de visitas.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Poemas de Pedro Du Bois


ULTRAPASSAGEM

Ultrapasso
a mediocridade inerente
ao tempo: discorro
sobre o tema
           arbitro
sentenças e ouço na música
os compassos derradeiros.

Vergo a madeira
em extremo gesto.

A forma na conformação
              da hora ultrapassada
              em proezas. Ouço
              o recado e o apago.
 
(inédito)
 


VÍRUS

O vírus vive (morre) onde ataca. Destaca
a fragilidade aberta ao contato. Vivencia
o ato da disputa: o revés não o aniquila.
Feito paciente no horário determinado.
O corpo não permite ao vírus a entrada.
Cede no cansaço de anos de batalha.
O vírus permanece na oportunidade.
 


PAIXÃO

a paixão devora olhos e corações
de épocas e sentidos com que
passamos horas e dias frios
para chegarmos a esse tempo
e encontrarmos o vazio
de não havermos encontrado
a pronúncia exata das palavras
na maneira certa de dizer
estamos aqui e a paixão
permanece em nossos olhos
embaçados em lágrimas
de reconhecimento
como naquelas horas
e como serão em futuros
tempos de mãos entrelaçadas

chegamos sem esquecer e sobrecarregamos
a memória e as lembranças com as imagens
nas músicas em altos sons
       e perguntas presas
    em gargantas curtas
   de desejos e secura

a nossa história recortada em quadros
passados lentamente entre as lentes
dos óculos que usamos e nos servimos
para enxergamos o que não vimos cedo

estávamos cegos em blindagens jovens
e tínhamos a certeza de que as incertezas
seriam dos caminhos as trilhas e as armadilhas
que não nos pegariam na passagem

essa paixão extravasa a hora
fôssemos pessoas espiando
o lado de fora de cada um
meros espantalhos em hastes
de empregos e desesperanças
de que tudo termine logo após
o instante em que os corpos
se desencontrem

somos mais que paixões ardentes
dos dentes cravados das serpentes
ávidos pelo fim da história.
 
(Pedro Du Bois, inédito)
 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

MENSAGEM DE NATAL


É o poema declamado que nos convida à celebração do amor
no qual se resume o verdadeiro sentido do Natal.
Ouçam e vejam este meu último poema de Natal
em Poema da Semana aqui neste link:

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Mensagem_de_Natal/index.htm

DESEJOS DE BOAS FESTAS
Euclides Cavaco
cavaco@sympatico.ca

Venha tomar comigo um cálice de poesia.
Entre por aqui na minha sala de visitas e saboreie da que mais gostar...
www.euclidescavaco.com


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA




Definitivamente posso afirmar que me sinto como uma espécie de macaquinho que os miúdos tanto gostam de espreitar em Sete Rios. Vá lá que é mais do género da aldeia que, ainda que muitas vezes seja preferível mantermo-nos atrás das portas e postigos, a sensação das grades, apesar de tudo, não é a que mais avassala. Desde o princípio do ano passado que temos sido mais assiduamente visitados pelos mais variados tipos de gentes que aqui vêm, de uma maneira geral, para verem aquilo que lhes parece que é um mundo com uma maneira de viver diferente. Impressiona-me como é tão vulgar que se veja aquilo que se quer ver, como é tão natural que se observe e se interprete com os pressupostos e preconceitos que levamos connosco quando comunicamos com o que nos envolve e de tal maneira que, nos casos mais agudos, chegamos a olhar a realidade com quadros de modelos que construímos à anteriori e nem reparamos que os acabamos por confundir com aquela. Porque será isto tão corriqueiro entre o comum dos mortais? Pouco importa para o caso, a verdade é que temos visitas regulares de simples turistas da cidade que sentem curiosidade para ver como se pode viver no campo e ficam mais ou menos admirados e um tanto frustrados por não verem o que devem imaginar o que são casas medievais onde uns quantos rústicos continuassem a viver num misto de idade média e paraíso igualitário, mais ou menos colorido e aligeirado nos costumes consoante as idades dos forasteiros, isto, é bom de ver, para lá de toda a sorte de romarias que as mais variadas militâncias aqui descarregam aos fins-de-semana e que de vez em quando nos solicitam encontros de trabalho que, nesse capítulo por sempre partirem de entidades determinadas que se instalaram no tecido social e na economia do país, numa boa mão cheia de situações nos levaram a contactar tais interessados nesta nossa comunidade. Mesmo entre os mais esclarecidos me deparo com frequência com esse tal defeito de observação com a configuração da lente do que previamente pensamos a respeito delas. E só por isso apenas me cruzei pessoalmente com jovens idealistas ou arregimentados e portadores de um discurso mais que de uma vontade de ver e ouvir. Só tive um momento de dificuldade, quando uma jovem, vestida como se fosse uma velha dos campos, me quis convencer que nós temos a honra de representar aquilo que indubitavelmente, o advérbio foi ela que o aplicou, representa um verdadeiro exemplo de sucesso de uma experiência socialista. E para além de ser alegre e sorridentemente tratada por camarada, fiquei a saber que significo o futuro da Humanidade. Mas não é isso que diminui e muito menos inibe de me sentir um macaquinho de zoo e ainda mais perante o atípico antropólogo inglês que decidiu permanecer entre nós, pelo menos, ainda um outro ano mais. Num destes dias pediu que o recebesse e lhe concedesse uma entrevista para falar das minhas impressões a respeito dos primeiros anos desta aventura e as motivações que me levaram a juntar-me aos outros e para combinarmos novas conversas para apresentar os meus pontos de vista acerca da organização e evolução do sistema escolar que aqui instalámos. E não é que esse observador me surpreendeu quando depois de tergiversar em teorizações do que chamou de antropologia marxista, me confessou que tem em mente uma monografia que fará de nós uma espécie de aldeia comunitária dos tempos modernos e, com isso, nos apresentará como uma ilustração do que pode ser uma forma de economia e modo de vida alternativo ao capitalismo e à sociedade capitalista? E não tenho a certeza que ele tenha entendido o que lhe disse sobre a importância da ética num projecto destes. É que esta só pode ser entendida enquanto a consideração do discurso do outro –não porque tenham igual importância, a meu ver- no sentido em que devemos atender às diversas perspectivas que se estabeleçam em torno de um determinado problema. Sem isso jamais seremos capazes de escolher e ter um comportamento ético que é aquele que respeita o semelhante e procura estabelecer pontes que nos possam unir e permitir coexistir em paz e a capacidade de identificar e prosseguir objectivos comuns. A não ser assim, não teremos como obter o auto-consentimento sem o qual uma experiência destas só pode ser imposta e para que tenha sucesso, como a nossa vivência me autoriza a defender, depende da vontade de todos os envolvidos para que seja assim. Mas vamos a ver o que vai sair naquela monografia.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (60)

Centro Comercial, António Tapadinhas
Acrílico sobre Tela, 80x100

No momento que comecei a escrever estas palavras faltavam 3 dias, 12 horas, 04 minutos e 02 segundos, para o Natal! Sei isto, porque tenho no computador um relógio enviado por um amigo, que está a fazer a sua contagem decrescente. 
Em Portugal, o comércio em geral irá facturar montantes aproximados ao total dos restantes onze meses do ano.
Todas as novidades aparecem nesta altura e as campanhas publicitárias são tão arrasadoras que não dão tréguas em nenhum sector da nossa sociedade. Esta data, agrava a tendência para fazermos as coisas como autómatos. Alguém anda a programar a nossa vida sem nos dizer nada: vamos para o trabalho à mesma hora, comemos e dormimos ao mesmo tempo. E agora, aquilo que nos interessa, fazemos as compras no mesmo mês do ano, com tendência para ser na mesma semana e, com o passar do tempo, no mesmo dia: o último...
A Teoria da Evolução, de Darwin, afirma que as espécies animais existentes na Terra, sofrem ao longo das gerações, uma modificação gradual que põe em evidência a selecção natural. Na luta pela sobrevivência, os mais bem adaptados são os que deixam mais descendentes.
Um Centro Comercial, no Natal, ou na altura dos saldos, é um espaço cheio de cor, de luzes berrantes, de homens e crianças berrantes, distribuído por diversos pisos, em que as pessoas se atropelam para chegar primeiro, chegar mais alto, lá no cimo da prateleira, onde está aquele brinquedo que ainda ninguém viu, onde está aquela folha verde, jovem, tenrinha e suculenta, a que só a girafa com o seu pescoço imenso poderá chegar...
Da conjugação destes dois conceitos tão diferentes, Centro Comercial e Teoria de Darwin, nasceu esta obra. Espero que gostem dela, porque apesar de tudo, 
EU ADORO O NATAL!


PS. Não se esqueçam de ser felizes... todos os dias!


domingo, 22 de dezembro de 2013




Neste tempo de Natal que mais uma vez se aproxima, continua a haver muitos excluídos, muita gente privada das mais elementares condições de conforto e subsistência. 
E poderia não ser assim, deveria não ser assim mas, como dizia o Gedeão, «enquanto tudo isso acontecer e o mais que se não diz por ser verdade o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade: ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA!»


PRESENÇA DE DEUS EM MIM

 

Todo um silêncio

em derredor
apenas penetrado pelo som
da própria voz
ou pensamento.

Aí a minha mágoa
– toda feita doçura –
nasce algures
em um lugar
impreciso
entre alma
e consciência.

Nasce
exactamente
onde se encontra
a si própria
face a face
e se reconhece.

Mais a consciência
do chão
de onde levanta
voo
e cresce.





Desejo a todos os meus Amigos e Amigas um Natal Feliz.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Paris – Place Vendôme


por Franscisco Gomes Amorim

Paris.. é Paris. C’est toujours Paris. Cidade maravilhosa, com o Sena a serpentear lá por dentro, as suas pontes, a Torre Eiffel e o Arc du Triomphe, o Louvre, a Ópera, o Museu d’Orsay, a Notre Dame e a Sainte Chapelle, e mais uma infinidade de pontos turísticos sem esquecer o Moulin Rouge e Lido, a gastronomia, e por aí vai.

É verdade, o Óbelisque, roubado em Luxor aos egípcios, plantado no início dos Elíseos Campos, e logo ali ao lado, a famosa Place Vendôme, que além duma belissima arquitetura que data do início do século XVIII, 1702 a 1720, projetada em 1699, ostenta as lojas de tudo quanto é absurdamente caro, para que os “emergentes” exibam as suas fortunas, com roupas, perfumes, jóias, relógios e outras inutilidades mais, e onde os especuladores aplicam em diamantes, ouro e qualquer outra coisa com que possam um dia, ganhar ainda mais dinheiro. São botecos como Cartier, Louis Vuitton, Van Cleel & Arpels, Mikimoto, Breguet, Chanel,etc. Coisa de caipiras! Ah! E um hotelzinho “brega”, o Ritz!

Apesar de ser um dos centros mundiais do desperdício e esbanjamento de dinheiro, a verdade é que uma passadinha pela Place Vendôme sempre vale a pena a quem vai a Paris, nem que seja para olhar o obelisco, mais coluna que obelisco, que está no centro da praça e que tem uma história curiosa, e ver a placa recordando que num dos prédios viveu Chopin.

Naquele lugar, em 1698, nem tinham começado as obras dos edifícios circundantes, começou por ser colocada uma estátua ao, ainda em vida, Luis XIV, o Roi Soleil, o rei do “L’Etàt c’est Moi” e roi ainda de outras humildades. Aliás foi este rei quem acabou com as trocas da propriedade que tinha sido primeiro do Duque de Vendôme, comprando-a ao último proprietário e oferecendo-a à cidade. Mereceu a estátua.

Cem anos depois chegou a Revolução Francesa com a sua Liberté, Egalité, Fraternité e guilhotiné e a estátua do orgulhoso Luis foi apeada e destruída e fundida. Não tardou a que Napoleão andasse a dar bordoada pela Europa fora, vencendo exécitos de tudo quanto era lado, regressando a Paris carregado de despojos militares. Sujeito de ideias, e atitudes, audazes, mandou que fundissem uns mil – 1.000 – canhões de bronze para erguer um memorial às suas vitórias. O local escolhido para erguer esse monumento foi o centro da Place Vendôme, onde, após o Luis XIV ter sido despedido, às pressas fora erguida uma coluna que era suposto representar uma estátua à liberdade. Provavelmente não seria uma obra muito artística, e depois das vitórias de Napoleão em Austerlitz, ele ordenou que essa coluna fosse substituída pela que se vê lá agora, com a estátua de si mesmo em traje de imperador romano na parte superior da dita coluna, que deveria chamar-se “Colonne de la Grande Armée” em homenagem aos seus soldados.

Construída em pedra, envelopada até a parte superior numa fita contínua de placas de bronze com baixos-relevos, com cenas da campanha austríaca. Esse bronze teria saido da fundição dos mil e duzentos canhões capturados em Austerlitz. No entanto, Napoleão parece ter sido um pouco mais modesto, pois no anúncio que ele emitiu para seus soldados no dia seguinte a esta batalha (3 de dezembro de 1805), diz-lhes que eles haviam capturado trinta mil prisioneiros, vinte generais e cento e vinte canhões. Hoje sabe-se que foram cento e trinta e três os canhões capturados!
A Coluna Vendôme, nome por que ficou sempre conhecida, foi inspirada na coluna de Trajano, em Roma, mas um terço mais alta do que a romana, tem 44,3 metros de altura.

Como seus antecessores, a coluna que Napoleão colocou sofreu também algumas mudanças. Durante os turbulentos anos que se seguiram à restauração sua estátua foi substituída duas vezes, e uma vez ela mesmo veio abaixo da cabeça aos pés. Quando a estátua de Louis XIV foi arriada do seu pedestal, a estátua de Henrique IV, que estava na Pont-Neuf desde que esta ponte fora construída, foi arriada e derreteu também com os canhões. Mas quando Louis XVIII assumiu o trono, ele quis colocar Henry de volta na ponte. A fim de obter o bronze, ele tinha a estátua de Napoleão que retirou da coluna e refundiu a do Henry IV, que voltou para a sua velha ponte. No entanto, isso não é razão para a expressão divertida que se vê agora na cara de Henry. Ele tem exatamente a mesma expressão sobre as notas de cinquenta francos franceses, pois ele era um rei muito bom. De qualquer forma, foi a primeira experiência humilhante para a Colonne de Vendôme.

Para poder ter alguma coisa em cima da coluna, Louis XVIII colocou lá uma flor de Lis enorme, mas quando Louis-Philippe chegou ao poder ele voltou a pôr Napoleão no alto da coluna, mas desta vez vestido com seus trajes de soldado. Mas isso não é tudo ainda. Quando a França se tornou um império pela segunda vez, Napoleão III substituiu Louis-Philippe, e torna a colocar no alto da coluna o primeiro Napoleão, novamente vestido como um Imperador Romano, tal como continua hoje. Napoleão, com a sua farda militar foi parar nos Invalides!

A experiência mais humilhante e final veio durante a revolta de 1871, quando o município conseguiu derrubar a estátua mais uma vez, com coluna e tudo. Esse ato de vandalismo é dito que foi organizado pelo pintor Gustave Courbet, um dos membros da Comuna de Paris, cujas pinturas se encontram no Museu do Louvre.
Felizmente, os destruidores planejaram o seu trabalho de tal forma, com a colaboração do Museu da Artilharia que a coluna caiu, muito bem, mesmo na Rue de La Paix! Diziam que a ideia era transferir a coluna para a Place des Invalides.

A derrubada da coluna sob os aplausos do povo!


A coluna só voltou ao seu lugar em 1875 depois que a França mais uma vez se tornou República, por ordem do Presidente Mac-Mahon, e como o seu peso é estimado em duzentos e cinquenta e uma toneladas é provável que por lá permaneça ainda muito tempo.

Mac-Mahon condenou Courbet a pagar a reconstrução da coluna, pagando 10.000 francos por ano durante 33 anos. Courbet safou-se dessa porque morreu antes de pagar a primeira parcela!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Livros d'África

Pedro Rosa Mendes 







“Este é um livro sobre coisas simples: a tranquilidade do medo e a vitalidade da morte. Em Junho de 1997 aterrei em Luanda com a intenção de atingir Quelimane por terra. A razão para tal projecto era a mais nobre de todas, ou seja, nenhuma em especial. Estas páginas são o atlas para ler essa travessia: a cartografia afectiva de uma rota cujos locais têm rosto de gente e onde espaço e tempo são as coordenadas que mais mentem.
Avisaram-me todos: a guerra permanecia nessa latitude. Houve baixas entre os companheiros de estrada.
O meu regresso também não estava prometido.”

Depois de ler esta nota introdutória quem pode ficar indiferente? O livro intitula-se “BAÍA DOS TIGRES”, foi publicado pela Editora Dom Quixote em 1999 e é um dos meus livros de cabeceira. O autor, um jornalista português nascido em 1968 em Cernache do Bonjardim, propôs-se imitar os passos dos exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, voltando a percorrer os caminhos por eles traçados no século XIX, que os levaram de Angola à Contracosta.
O resultado é a descrição de uma viagem preenchida com sensações fortes, onde percorremos paisagens naturais e humanas de uma intensidade cativante. Vamos assistindo horrorizados aos monstros e monstruosidades que a(s) guerra(s) gera(m). Mas vemos também as singularidades do continente africano, coisas pequenas, onde residirá aquele feitiço que agarra e prende a quem o visita:

“O comboio parou num apeadeiro, em pleno deserto, e do nada surgiram vendedores de comida. Uma rapariga anunciou, a toda a carruagem, que queria aliviar, e ajudaram-na a chegar das escadas ao chão, onde se agachou dentro duma capulana colorida. Vista de cima parecia uma ave a proteger-se do vento. Ao descer quase caiu em cima do revisor, que estava bêbedo desde manhã.
- Pode urinar aí. Mas não cai em cima de mim!
O revisor, cambaleando do lado de fora da carruagem agarrado a uma bandeirinha vermelha rota e imunda, escapou por pouco a ser regado por um rapaz que não se deu ao trabalho de sair da composição.
- E você, não urina em cima de mim! Eu lhe proíbo!”

África.

“Lembro-me de chegar à cidade e de o autocarro parar no fim dessa avenida, numa praceta quadrada de casas térreas. O autocarro cheirou a tangerina depois da Humpata. O Namibe cheirava a bolos. Havia uma padaria ao canto da praça.
- Bom dia! São vocês que estão a fazer bolos?
- Somos. Mas hoje não estamos a fazer.”

África.


É uma obra belíssima, simultaneamente dura e leve, pura literatura de viagens, que é pecado não ler.


Tomás Lima Coelho

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA ( 2ª. SÉRIE)

Despede-se aqui esta segunda série das "Conversas na Galeria".

À Carola Justo, ao Luís Delgado e à Celeste Beirão, um agradecimento do tamanho da Lua, pelos bons momentos de pintura que nos proporcionaram e por todo o enriquecimento artístico que trouxeram a este espaço.

A "D'Arte" voltará em Janeiro, para uma nova série. Até lá, a nossa vénia a todos os que nos visitam e já fizeram desta praça um dos seus lugares de leitura e de comunhão de Arte e Ideias.

Um Ano de 2014 em Paz e com muita saúde, para todos.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Alhos Vedros 500 Anos de Foral


Igreja Matriz de Alhos Vedros

Sobre as Origens de Alhos Vedros

Um dos textos mais antigos que se conhecem escritos em Português é o testamento de D. Afonso II, datado de 27 de Junho de 1214. Recentemente foi descoberto um outro “A Notícia de Fiadores”, de 1175, que faz recuar no tempo a história da escrita da Língua Portuguesa.
Sobre Alhos Vedros, um dos textos mais antigos que existe, senão o mais antigo, refere-se à sua Igreja e remonta ao ano de 1236.*

É sabido que D. Afonso Henriques, no movimento de reconquista do território peninsular, então ocupado pelos mouros, chega a Palmela em 1147, ano em que se dá início a alguns avanços e recuos territoriais entre cristãos e árabes. A conquista definitiva desta vila só acontece no ano de 1205 com D. SanchoI.

Reza a lenda que por estas alturas, corria em Alhos Vedros um Domingo de Ramos, estavam as suas gentes a comemorar missa na Igreja Matriz quando do alto do serrado de Palmela desciam os mouros para guerrearem com os cristãos.

Avisados da invasão, socorreram-se os habitantes do lugar com aquilo que tinham mais à mão e com as palmas com que comemoravam os ofícios divinos conseguiram derrotar e afugentar o exército inimigo. Dada a clara e inesperada vitória foi de milagre da Nossa Senhora que se tratou. É por isso que, desde então, de forma mais ou menos ininterrupta, se organiza procissão em honra da Nossa Senhora dos Anjos.(**)

A lenda tem pouco valor histórico, mas não erraremos muito se pensarmos que Alhos Vedros se terá constituído como lugar, pelo menos, lá para os inícios da formação da Nação. Mas a pergunta persiste, qual será a sua verdadeira idade?


Luís Santos


(*) SILVA, Víctor, Contributos para a História Local do Concelho da Moita, Vol.1, Edição do Autor, 2005, p.152

(**) idem, p. 144-145

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Pelas piores razões, vimo-nos forçados a interromper a nossa estada em Paris, onde alugámos um pequeno estúdio mesmo no prédio ao lado daquele onde mora o meu filho mais novo, justamente para que deles estivéssemos perto e deles pudéssemos partilhar o calor e o afecto de uma família maravilhosamente tranquila e feliz e, naturalmente, estarmos assim em posição de acompanhar os rebentos que estão cada vez mais crescidos e tanto gosto dá ver desabrochar como pessoas que se fazem de bem e com saúde e inteligência que é o que se pode concluir da compostura e delicadeza daquelas crianças que por isso não deixam de ser vivas e brincalhonas como todos os petizes devem ser. Pensávamos regressar depois do Verão, altura em que terei que tratar dos trâmites finais da minha aposentação e até lá contávamos fazer mais algumas surtidas a outras cidades estrangeiras – relativamente aos franceses, como é bom de entender – e para que, ao mesmo tempo que a proximidade nos presenteia e apaparica com os miminhos dos netos, não incomodássemos o quotidiano das suas vidas com a sobrelotação do espaço, aproveitámos a feliz oportunidade de arrendar aquilo que logo nos pareceu um ninho digno de enamorados e do qual fizemos o porto de abrigo das nossas andanças por outras paragens naquela região da Europa. Vá lá que estávamos em casa quando recebemos primeiro o telegrama e depois o telefonema da Mariana, dando a notícia do violento ataque cardíaco que o pai sofrera na noite anterior e que o lançara para um coma profundo do qual, os médicos, desde o primeiro momento disseram que dificilmente sairia. De outra forma muito provavelmente não teríamos como chegar aqui a tempo de o acompanharmos até a sua última morada. Pelas peripécias de marcar e obter um voo para Lisboa num repente de urgência, não me parece que o tivéssemos conseguido. Seja como for, viemos assim que pudemos e infelizmente chegamos na manhã em que aquele ente querido faleceu. Pelos piores motivos, portanto, tivemos que suspender a nossa licença parisiense para podermos estar presentes no funeral do amigo que para todo o sempre partiu. Escrevo ente querido e amigo pois é exactamente disso que se trata; sempre que penso nesta última palavra, é dele um dos rostos que me aflora ao cérebro. O senhor Abel era um ser humano fantástico que jamais se deixou abater e sempre conseguiu encarar a vida com a perspectiva de nunca deixar de procurar os lados ou os aspectos de que pudesse obter algo de positivo mesmo nas situações mais árduas e dolorosas. Era um homem de paz, ainda que fosse capaz de erguer o braço e lutar com fulgor e tenacidade e era alguém que procurava que aquilo que pudesse unir uns aos outros se sobrepusesse ao que divide e separa a menos que no essencial não fosse encontrável qualquer espaço para que se lançassem os alicerces das pontes em que tal acontece ou pode acontecer. E sabia ouvir e respeitar as opiniões alheias, jamais deixando de aceitar a democracia de uma decisão com que não concordasse. Nesse aspecto, aqui na comunidade e nestes últimos anos na associação, onde levou até ao fim a sua organização de passeios culturais e didácticos, como ele por fim dizia, era um verdadeiro exemplo de cidadania e apesar de se considerar comunista e de ter gosto em afirmar-se inscrito como simpatizante – ele era da opinião que não tinha autoridade e competência para se dizer militante – do partido, comportava-se como um democrata que punha a um canto muito boa figura desse bando de oportunistas que andam por aí a tratar da vidinha, das suas vidinhas particulares. Era também um ser humano bastante inteligente que aprendeu inglês e alemão bem perto dos cinquenta e, apesar de não ter grandes ocasiões para se desempoeirar em tais domínios, chegou a ler alguns textos no original. Era a sua faceta auto-didacta que o levou a estudar Física nas horas vagas com o mesmo intuito, como ele dizia, sempre com um sorriso, de tentar compreender o Universo e ver onde é que nós nos podíamos situar nessa infinitude. Já tenho saudades dos seus pensamentos e do seu humor sibilino e simultaneamente tão humano, tão profundamente humano. O senhor Abel era sapateiro quando chegámos aqui, ofício que aprendera para que pudesse fazer frente às imperiosidades de ganhar o sustento e o agasalho, primeiro para si e depois para si e as mulheres do seu coração e tinha um sorriso franco e que amiúde lhe brotava nos lábios a propósito de qualquer acontecimento do dia a dia, sequer dele se esquecendo quando eram abalos e borrascas aquilo por que estava a passar, pois, desde a mais tenra idade que sabia, tal como ele uma vez explicou, para lá do pensamento e como expressão deste, a única coisa que resta ao pobre e ninguém lha pode tirar era e é e sempre foi, precisamente, a capacidade de se rir de tudo e todos os que de alguma maneira concorrem para esse estado de pobreza em que aquele vive. Ainda bem que chegamos a tempo de assistirmos à sua última viagem, muito embora eu não tenha querido ver o cadáver. Prefiro guardar-lhe a memória das feições enquanto vivo.
Parece que o estou a ver com olhos de miúdo brilhando quando lhe surgiu a ideia para o nome que poderia substituir aquele que propusera e fora rejeitado pelo peso provocatório que, à época, consistiria para as autoridades. “-Já sei, vamos chamar Vale da Esperança.” –E foi assim que ele acabou por encontrar o nome para a comunidade em que vivemos e agora abandonou para o seu último sono.
Paz à sua alma.