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domingo, 8 de setembro de 2024

Filosofias do Oriente




 Breves notas sobre Filosofia Vedanta, Hinduísmo, Budismo e Taoísmo

Quando do curso de doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a parte curricular implicava a escolha de alguns seminários. Um dos escolhidos, Filosofia das Religiões, comparava espiritualidades ocidentais e orientais. Aqui ficam algumas sínteses dos estudos que se desenvolveram.

1. Vedas

Entre as escrituras sagradas hindus, contam-se os "hinos védicos", pensamentos sagrados da civilização védica que antecedem o hinduísmo. A recitação dos hinos sagrados dos vedas sempre foi mantida até hoje, desde há milhares de anos. 

A civilização védica desenvolveu-se até ao século VI (a.C.), período em que a sua cosmogonia começou a transformar-se nas formas clássicas do hinduísmo. 

Segundo o conhecimento védico, a alma individual, idêntica ao Absoluto, nunca nasce e nunca morre. Nunca nascida e eterna, fora do tempo, ela não morre quando morre o corpo.

2. Hinduísmo 

O Mahãbãrata é um dos livros que faz parte das escrituras sagradas hindus. Um dos seus capítulos é o célebre Bhagavad-Gita, ou a “A Canção de Deus”. 

O grande protagonista do capítulo que fala na primeira pessoa, Krishna, o avatar de Vishnu, ou seja, a própria divindade, dialoga com Arjuna, seu discípulo guerreiro, em pleno campo de batalha. Arjuna representa o papel de uma alma confusa sobre o seu dever e recebe iluminação diretamente do seu divino mestre que o instrói na arte da autorrealização.

A essência de Krishna é o universo inteiro, a totalidade. Tudo é sagrado. Tudo é uno. O uno e o múltiplo são inseparáveis. 

É o texto inspirador de Ghandi. Einstein dizia que quando o lia e pensava nas leis do universo, tudo o resto se tornava vulgar. 

3. Budismo 

Depois de atingir o despertar Siddartha Gautama, o Buda, sentiu o apelo de transmitir aos outros a sua sabedoria. A palavra Buda, mais do que uma pessoa, designa um estado de consciência que permite apreender a verdadeira realidade das coisas.

A filosofia budista parte da definição das "4 nobres verdades": a constatação do sofrimento; o sofrimento provém de uma mente limitada; é possível cessar o sofrimento; há um caminho para cessar o sofrimento. 

Ou seja, as causas do sofrimento são internas e é possível removê-las. O caminho que se propõe é um método que ajuda na libertação da mente, uma técnica meditativa para concentração do espírito e da mente, de forma a um atingir um determinado estado de repouso e, consequentemente, de consciência. 

Algum tipo de meditação sempre surge associada às diferentes filosofias antigas da Índia e é uma prática intrínseca do Yoga.

31. Reencarnação 

É um dos ensinamentos fundamentais do budismo. O espírito humano pode elevar-se até a um “espírito subtil” ou “consciência subtil”. Esta consciência existe independente do corpo e do cérebro. É o espírito subtil que reencarna. 

Seguindo o Dalai Lama, a reencarnação está ligada a um certo nível da vida do espírito. Se este espírito for desenvolvido pode escolher o seu próprio destino. É então um passo para a libertação, para uma possível melhora. Sem esta escolha o renascimento é uma queda no samsara, sucessão de vidas que ocorre sem parar. Enquanto a existência estiver condicionada, o ciclo renascimento/morte perdurará.

3.2 Transferência da Consciência e Libertação pela Escuta 

Quando os sinais ocorrem indicando que a morte se aproxima devemos prepararmo-nos para a transferência da consciência e refletirmos sobre os ensinamentos da Libertação pela Escuta nos Estados Intermediários. 

Quanto à transferência da consciência há um exercício que deve ser treinado: Devemos tapar todos os orifícios começando pelo reto, da procriação, umbigo, boca, narinas, olhos e ouvidos. No cimo da cabeça devemos visualizar a fontanela, depois visualizar também o canal central, no meio do corpo, direito e ereto – na sua extremidade inferior, abaixo do umbigo devemos visualizar um ponto seminal branco e brilhante, o qual constitui a essência da consciência desperta, pulsando continuamente e à beira de ascender. A força vital vai movê-lo ascensionalmente, até ao umbigo, depois coração, depois garganta, depois o espaço entre as sobrancelhas e, por fim, vai até à fontanela, após o que devemos visualizar que ele gira de novo para baixo e vem repousar abaixo do umbigo como uma difusão branca. Há que permanecer neste estado durante algum tempo. 

Diz-se que obteremos a libertação se a consciência sair pela fontanela da coroa. Os lugares mais importantes do corpo para uma transferência da consciência depois da fontanela são os olhos e a narina esquerda. 

Quanto à Grande Libertação pela Escuta, quando uma pessoa se aproxima da morte é habitual procurar-se um lama qualificado que deve iniciar as recitações de introdução ao estado intermediário.

Após a respiração haver cessado, a energia vital é absorvida no canal da sabedoria primordial e a consciência emerge como uma radiância interior. O defunto pode ouvir tudo o que se passa à sua volta, mas os outros não o podem ver. Assim, ele pode ir-se embora. Neste momento surgem três fenómenos: sons, luzes e raios de luz, o que pode provocar medo ou pasmo. Assim, durante este período deve ser lida a Grande Introdução ao Estado Intermediário da Realidade. 

Terminamos com um pequeno excerto da leitura a ser realizada:

“Ó Filho da Natureza de Buda, quando a tua mente e corpo se separarem, surgirão as puras (e luminosas) aparições da própria realidade: subtis e claras, radiantes e deslumbrantes, naturalmente brilhantes e terríveis, tremeluzindo como uma miragem numa planície no Verão. Não as temas! Não fiques horrorizado! Não estejas aterrado! Elas são as luminosidades naturais da tua própria realidade verdadeira. Reconhece-as.” O corpo agora que tens chama-se um “corpo mental”. Tu, agora, estás para além da morte. Isto é o estado intermediário. Se não reconheceres os sons, as luzes e os raios de luz, continuarás a vaguear dentro dos ciclos da existência. 

 4. Taoísmo 

Lao-Tsé (604-517 a.C.) é o grande precursor da tradição filosófica chinesa conhecida por Taoísmo. O principal livro que a suporta é o “Tao Te King”, o Livro da Via e da Virtude. Tao significa (Vida), Te (Energia), King (Virtude). 

Trata-se de um texto com grande economia de palavras, onde com pouco se diz muito, onde se crê que o dito e o não dito são absolutamente inseparáveis, onde “o silêncio é um amigo que nunca trai”. 

Porém, o Tao não pode ser explicado nem por palavras, nem pelo silêncio. Nele tudo flui, tudo é governado sem desígnio. Tentarmos encontrar o seu sentido é perder. Tudo já é. A rosa é sem porquê… nascida no tempo certo, floresce porque floresce.

É-nos dado como a eficácia da naturalidade. Tudo acontece quando tem de acontecer. Só age bem quem não está interessado em agir.

À partida, não se precisa acrescentar nada aquilo que já somos. O sábio é como a água, corre sempre a via que tem de correr. Ele não se preocupa consigo e, todavia, é o que ocupa o lugar mais proeminente. 

O céu trata tudo e todos de uma forma indiferente, mas benéfica. A ideia essencial do Tao é que o mundo se produz por um “não fazendo”, onde se deve agir de forma espontânea, deixando a mente à vontade.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Breves Apontamentos sobre o Budismo


Luís Santos

 O BUDISMO

Depois de atingir o despertar Siddartha Gautama, o Buda, foi exortado pelos deuses a transmitir aos outros a sua sabedoria. Os seus primeiros interlocutores foram 5 ascetas errantes, samanas da floresta, seus companheiros de vida nos primeiros tempos que se seguiram ao abandono do palácio real e da companhia dos seus familiares e súbditos. Esse célebre primeiro discurso ficou conhecido pelo “Sermão de Benares” e iniciou os ciclos de ensinamentos budistas.

Quando se fala em Buda, a palavra mais que uma pessoa designa um estado de consciência. Etimologicamente, a palavra Buda significa:
Bu (realizado) - purificação de todos os obscurecimentos, conceptuais e emocionais;
Da (liberto) - libertação ao nível cognitivo e afetivo, depois de ultrapassados os obscurecimentos.

O atingir de um estado de omnisciência absoluta e relativa, quer dizer, que vê a realidade como ela é, a verdadeira natureza das coisas, tal como as limitações das mentes não libertas.

 AS 4 NOBRES VERDADES

As 4 nobres verdades do Budismo podem resumir-se nos seguintes passos:
1. Constatação do sofrimento
2. O sofrimento provém do desejo, da avidez
3. É possível cessar o sofrimento
4. Há um caminho para cessar o sofrimento

O sofrimento é o ponto de partida do budismo.
A causa de todo o tipo de sofrimento é a ignorância, por não se conseguir apreender a verdadeira realidade das coisas.

Há um desejo, uma avidez, que nos guinda constantemente a uma necessidade de saciamento (por natureza insaciável) e que está em relação com a nossa herança kármica. É esta inquietação fundamental que mesmo em silêncio nos pressiona. É o desejo de continuar a ser, de preservar uma identidade, que nos guinda a sucessivas existências…

A cura é não só possível, como desejável. As causas são internas e é possível removê-las. Há um caminho. Alguma coisa que está livre de tudo isto e que nos permite a libertação.

 O MÉTODO DO “ZAZEN”

“Zazen”, etimologicamente decompõe-se em “za” que significa “sentar-se” e em “zen” que significa “pôr o espírito em repouso, concentrar o espírito e a mente”.

Ou seja, em síntese, o zazen, é uma técnica meditativa que se faz sentado. Mas, então, como se sentar? Podemos sentar-se na posição de lótus, ou mais fácil para iniciados, na postura do meio lótus, perna esquerda no chão, pé direito sobre a coxa esquerda. Os joelhos devem tocar o solo. A coluna vertebral estará bem direita a partir da curvatura da região lombar. Os ombros caem naturalmente e o ventre estará completamente descontraído. A mão esquerda palma para cima repousa na mão direita e os polegares têm um contacto entre si nas extremidades. As mãos devem tocar o ventre. Olhos abertos. Olhar pousado a um metro do local onde estamos sentados. Inspiração viva profunda, expiração lenta, profunda, poderosa. Esta uma das formas possíveis de praticar a meditação.

A prática do zazen é, simplesmente, o regresso a nós mesmos, a junção com o Eu absoluto. O zen é a própria realidade. Se o nosso espírito está vazio, então surge a verdadeira intuição que está para além da negação e da afirmação. Pelo zazen podemos voltar ao espírito puro. Mas atenção, zazen não é um estado passivo, uma paragem do cérebro, pelo contrário, é uma outra forma de atividade. Do mesmo modo se pode dizer da ideia budista de vacuidade que não é um sentido do nada, mas uma totalidade, uma liberdade universal.

 REENCARNAÇÃO

É um dos ensinamentos fundamentais do budismo. O espírito humano pode elevar-se até a um “espírito subtil” ou “consciência subtil”. Esta consciência existe independente do corpo e do cérebro. É o espírito subtil que reencarna. Seguindo o Dalai Lama, a reencarnação (que é uma escolha) está ligada a um certo nível da vida do espírito. Se este espírito for desenvolvido pode escolher o seu próprio destino. É então um passo para a libertação, para uma possível melhora. Sem esta escolha o renascimento é uma queda no samsara. A reencarnação pode ocorrer num outro planeta, numa outra galáxia. Os estados nobres do espírito podem estender-se até ao infinito.

 TRANSFERÊNCIA DA CONSCIÊNCIA E GRANDE LIBERTAÇÃO PELA ESCUTA

Quando os sinais ocorrem indicando que a morte se aproxima devemos prepararmo-nos para a transferência da consciência e refletirmos sobre os ensinamentos da Libertação pela Escuta nos Estados Intermediários.

Quanto à transferência da consciência há um exercício que deve ser treinado:
Devemos tapar todos os orifícios começando pelo reto, da procriação, umbigo, boca, narinas, olhos e ouvidos. No cimo da cabeça devemos visualizar a fontanela, depois visualizar também o canal central, no meio do corpo, direito e ereto – na sua extremidade inferior, abaixo do umbigo devemos visualizar um ponto seminal branco e brilhante, o qual constitui a essência da consciência desperta, pulsando continuamente e à beira de ascender. A força vital vai movê-lo ascensionalmente, até ao umbigo, depois coração, depois garganta, depois o espaço entre as sobrancelhas e, por fim, vai até à fontanela, após o que devemos visualizar que ele gira de novo para baixo e vem repousar abaixo do umbigo como uma difusão branca. Há que permanecer neste estado durante algum tempo.

Diz-se que obteremos a libertação se a consciência sair pela fontanela da coroa. Os lugares mais importantes do corpo para uma transferência da consciência depois da fontanela são os olhos e a narina esquerda.

Quanto à Grande Libertação pela Escuta, quando uma pessoa se aproxima da morte é habitual procurar-se um lama qualificado que deve iniciar as recitações de introdução ao estado intermediário.

Após a respiração haver cessado, a energia vital é absorvida no canal da sabedoria primordial e a consciência emerge como uma radiância interior. O defunto pode ouvir tudo o que se passa à sua volta, mas os outros não o podem ver. Assim, ele pode ir-se embora. Neste momento surgem três fenómenos: sons, luzes e raios de luz, o que pode provocar medo ou pasmo. Assim, durante este período deve ser lida a Grande Introdução ao Estado Intermediário da Realidade.

Terminaremos com um pequeno excerto da leitura a ser realizada:
“Ó Filho da Natureza de Buda, quando a tua mente e corpo se separarem, surgirão as puras (e luminosas) aparições da própria realidade: subtis e claras, radiantes e deslumbrantes, naturalmente brilhantes e terríveis, tremeluzindo como uma miragem numa planície no Verão. Não as temas! Não fiques horrorizado! Não estejas aterrado! Elas são as luminosidades naturais da tua própria realidade verdadeira. Reconhece-as portanto.” O corpo agora que tens chama-se um “corpo mental”. Tu, agora, estás para além da morte. Isto é o estado intermediário. Se não reconheceres os sons, as luzes e os raios de luz, continuarás a vaguear dentro dos ciclos da existência.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O Budismo no Oriente

(...)

Transferência da Consciência e Grande Libertação pela Escuta


      Quando os sinais ocorrem indicando que a morte se aproxima devemos prepararmo-nos para a transferência da consciência e refletirmos sobre os ensinamentos da Libertação pela Escuta nos Estados Intermediários.

      Quanto à transferência da consciência há um exercício que deve ser treinado:
Devemos tapar todos os orifícios começando pelo reto, da procriação, umbigo, boca, narinas, olhos e ouvidos. No cimo da cabeça devemos visualizar a fontanela, depois visualizar também o canal central, no meio do corpo, direito e ereto – na sua extremidade inferior, abaixo do umbigo devemos visualizar um ponto seminal branco e brilhante, o qual constitui a essência da consciência desperta, pulsando continuamente e à beira de ascender. A força vital vai movê-lo ascensionalmente, até ao umbigo, depois coração, depois garganta, depois o espaço entre as sobrancelhas e, por fim, vai até à fontanela, após o que devemos visualizar que ele gira de novo para baixo e vem repousar abaixo do umbigo como uma difusão branca. Há que permanecer neste estado durante algum tempo.

      Diz-se que obteremos a libertação se a consciência sair pela fontanela da coroa. Os lugares mais importantes do corpo para uma transferência da consciência depois da fontanela são os olhos e a narina esquerda.

      Quanto à Grande Libertação pela Escuta, quando uma pessoa se aproxima da morte é habitual procurar-se um lama qualificado que deve iniciar as recitações de introdução ao estado intermediário.

      Após a respiração haver cessado, a energia vital é absorvida no canal da sabedoria primordial e a consciência emerge como uma radiância interior. O defunto pode ouvir tudo o que se passa à sua volta, mas os outros não o podem ver. Assim, ele pode ir-se embora. Neste momento surgem três fenómenos: sons, luzes e raios de luz, o que pode provocar medo ou pasmo. Assim, durante este período deve ser lida a Grande Introdução ao Estado Intermediário da Realidade.

      Terminaremos com um pequeno excerto da leitura a ser realizada:
“Ó Filho da Natureza de Buda, quando a tua mente e corpo se separarem, surgirão as puras (e luminosas) aparições da própria realidade: subtis e claras, radiantes e deslumbrantes, naturalmente brilhantes e terríveis, tremeluzindo como uma miragem numa planície no Verão. Não as temas! Não fiques horrorizado! Não estejas aterrado! Elas são as luminosidades naturais da tua própria realidade verdadeira. Reconhece-as portanto.” (O Livro Tibetano dos Mortos: 311) O corpo agora que tens chama-se um “corpo mental”. Tu, agora, estás para além da morte. Isto é o estado intermediário. Se não reconheceres os sons, as luzes e os raios de luz, continuarás a vaguear dentro dos ciclos da existência.

Luís Santos
(in, O Budismo no Oriente, Estudo Geral (Ensaios), setembro/2017, AQUI)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Estudos Orientais


Do Budismo: As Três Jóias, Três Corpos e Seis Mundos

            Toda a organização da estrutura budista assenta, por assim dizer, em três grandes corpos que se designam pelas três jóias. Primeira, a existência de um ser, de um estado de consciência de subtil caracterizado pelo despertar, anunciado pelo Buda. Segunda, o “dharma”, ou seja, o ensinamento dado pelo Buda que permite a realização própria de uma experiência espiritual que visa chegar à verdade. Terceira, a “shanga”, constituída pelos que seguem o Buda.

Os Budistas sustentam que o ciclo de renascimentos ("samsara") é uma realidade. Nenhuma existência escapa ao samsara  a menos que atinja a libertação. Diz o Dalai Lama que, “Esta condição é dolorosa, pois obriga-nos a reviver sem cessar, em níveis que podem ser piores que os que já conhecemos. Mas se o renascimento é uma obrigação, a reencarnação é uma escolha. Ela é o poder, dado a certos indivíduos merecedores, de controlar o futuro nascimento. Assim que atinge um certo grau de qualidade, que designamos consciência subtil, o nosso espírito não pode morrer, no sentido vulgar do termo. É-lhe dado o poder de reencarnar noutro corpo.” (LAMA, Dalai e CARRIÉRE, Jean-Claude, A Força do Budismo. Lisboa: Difusão Cultural, 1995: 158)

No Budismo para além do corpo físico faz-se referência a dois outros corpos, todos interdependentes entre si: “dharmakaya”, um corpo absoluto, estado subtil do espírito, que está rodeado por um corpo subtil, “sambhogakaya”, corpo de alegria ou de beatitude, sendo que é deste que provém o corpo de manifestação ou corpo físico, “nirmanakaya”.

Existem seis possibilidades de condições a que o homem pode chegar após a sua morte, chamados os caminhos da transmigração, ou os seis mundos, que se podem dividir em duas partes, um mundo relativamente inferior, habitado por seres infernais, espíritos ávidos e animais, e um mundo relativamente superior, lugar de deuses, semi-deuses e homens.

O espírito humano pode elevar-se até a um “espírito subtil” ou “consciência subtil”. Esta consciência existe independente do corpo e do cérebro. É o espírito subtil que reencarna. Seguindo o Dalai Lama, a reencarnação (que é uma escolha) está ligada a um certo nível da vida do espírito. Se este espírito for desenvolvido pode escolher o seu próprio destino. A reencarnação é, assim, um passo para a libertação, para uma ampla consciência. Sem esta possibilidade de escolha o renascimento é, inevitavelmente, uma queda no "samsara". Por outro lado, a reencarnação pode ocorrer num outro planeta, numa outra galáxia. Os estados nobres do espírito podem estender-se até ao infinito. É um dos nossos ensinamentos fundamentais. (cf., idem:170)

“Acreditamos na existência de uma consciência subtil e que ela é fonte de tudo o que chamamos criação. Em cada indivíduo, esta consciência subtil permanece desde o começo dos tempos até à ascensão à budeidade. É isso que chamamos ser (being). Este ser pode assumir diferentes formas, seres animais, seres humanos e eventualmente budas. Eis a base da teoria dos renascimentos. O espírito subtil, na longa sequência dos séculos, de forma em forma, procura obrigatoriamente a budidade. Quando num indivíduo ele atinge um alto grau de qualidade, escolhe a sua forma seguinte. É isso a rencarnação.”(idem:172)


Luís Santos


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Estudos Orientais


A Ética Budista e os 4 selos dos preceitos




No Budismo a libertação definitiva do samsara, do ciclo infinito dos renascimentos, só acontece quando a mente está livre das 8 preocupações mundanas, constituída por 4 pares: ganhar e perder, prazer e dor, elogio e censura, fama e insucesso. Para tal é preciso cultivar e desenvolver um conjunto de comportamentos em que assenta a ética budista e que se divide em três posturas:     
- Palavra Justa, não mentir, não maldizer, não injuriar, não matar, não roubar, ética sexual, não negociar com armas, não comerciar seres, carne, substâncias tóxicas, venenos.
- Esforço Justo, tempo dedicado à meditação – evitar emoções negativas, remover emoções negativas, gerar emoções positivas, fomentar emoções positivas que já existam.
- Pensamento Justo, coragem, sabedoria, renúncia à ignorância, generosidade, capacidade de partilha, não-violência, amor e compaixão desinteressadas.

Para além da contemplação destes comportamentos éticos para se ser budista é indispensável a adesão aos 4 selos dos preceitos, onde se diz que:
- Tudo acontece sob determinadas causas e condições. Tudo é impermanente e tudo é interdependente.
- Nada existe em si e por si. A expectativa de que exista alguma coisa gera insatisfação, porque se espera que as coisas posam ser uma coisa que de facto não são.
- Tudo é vacuidade. Nada tem existência intrínseca. Não há nada que exista como uma identidade separada, de tudo o que constitui alteridade.
- A vacuidade que permite o nirvana é a paz.

O conceito de paz, mais do que só uma referência ao fim dos conflitos bélicos, surge-nos aqui numa dimensão também interior. Como nos diz o Dalai Lama, “Devemos muito à paz de espírito. Nenhuma relação verdadeira pode ser estabelecida se não atingirmos a paz de espírito. Há que a encontrar e, com ela, o caminho do conhecimento verdadeiro. Há que reconhecê-la, alcançá-la, preservá-la. (…) Em geral, a precipitação, a competição, o stress, sucesso difícil, dinheiro enganador, nada valem para o nosso corpo, para o nosso organismo." (LAMA, Dalai e CARRIÉRE, Jean-Claude, A Força do Budismo. Lisboa: Difusão Cultural, 1995, pp. 98/99).

Os que vêm a verdade vêm aquilo que existe. Temos que nos libertar da ideia de ser e da ideia de não ser. Não há solução para o problema, porque o problema não existe. Constatar isso é a solução. A experiência do despertar é que não há quem desperte, não há sujeito. O nirvana é a paz.


Luís Santos


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Estudos Orientais




Do Budismo: as 4 nobres verdades e os 5 agregados

Na base dos ensinamentos feitos pelo Buda, diz-se que o desejo, apego, cobiça, ódio, aversão, ilusão, são causas do sofrimento humano. É preciso fazê-los cessar e extinguir. Assim, eliminar esses sentimentos, ou seja, numa palavra, eliminar a ignorância, constituem o verdadeiro caminho.

As 4 nobres verdades podem resumir-se nos seguintes passos:
- Constatação do sofrimento
- A origem donde provém o sofrimento
- A possibilidade de cessar o sofrimento
- O caminho a fazer para cessar o sofrimento

O sofrimento é a revelação do budismo. Para o Buda, “é nascer, envelhecer, adoecer, estar-se ligado áquilo de que se não gosta, estar-se separado daquilo que se gosta…”, o que resulta da ignorância. (1)

Se o despertar não pode ser ensinado, antes tem de se auto revelar, o caminho deve ser mostrado. O “eu” é uma ilusão e a verdadeira fonte do sofrimento. “De um modo ou de outro, todas as emoções nascem do egoísmo, no sentido em que elas implicam apego ao eu. (…) Se desejamos eliminar verdadeiramente o sofrimento, devemos desenvolver a consciência, vigiar as nossas emoções e aprender como evitar entrar em efervescência.” (2)

O Buda admite que somos constituídos por 5 agregados que existem em interdependência e geram em nós a crença de haver um “eu”, uma identidade própria que tem uma existência em si e por si.

Os 5 agregados dividem-se num corpo que se define numa forma física e em quatro agregados imaterias: sensações, perceções, formações volitivas e consciência (dualista). As formações volitivas designam todos os automatismos fundamentais: pensamento, linguagem, comportamento… agir e reagir. Ou seja, o nosso carácter, que vem de experiências anteriores…

            Esta identidade é ilusória, causa de insatisfação e de sofrimento. Há que descobrir uma alternativa ao funcionamento destes 5 agregados que, como se disse, se caracterizam por uma contínua impermanência.

Assim, a causa de todo o tipo de sofrimento é a ignorância de não ver as coisas como elas verdadeiramente são. Esta “sede” (desejo, avidez compulsiva) leva-nos constantemente a um desejo de saciamento, do que por natureza é insaciável, e que está em relação com a nossa herança “kármica”. É esta inquietação fundamental que mesmo em silêncio nos pressiona. É o desejo de continuar a ser, de preservar uma identidade, que nos guinda a sucessivas existências, à “roda da vida”.

A cura é não só possível, como desejável. As causas são internas e é possível removê-las. Há um caminho. Alguma coisa que está livre de tudo isto e que nos permite a libertação.

Luís Santos

Notas:

(1)   LAMA, Dalai e CARRIÉRE, Jean-Claude, A Força do Budismo. Lisboa: Difusão Cultural, 1995: 27

(2)   (Khientse,  Dzongsar J., O que não faz de ti um Budista. Alfragide: Ed. Lua de Papel, 2009: 55)

quinta-feira, 3 de março de 2016

Estudos Orientais


Do Buda ao Budismo

“Tudo o que percepcionamos é a nossa própria mente;
A natureza da mente é desde sempre livre dos extremos conceptuais.
Reconhecê-lo, e não conceber dualidade sujeito-objecto,
é a prática do bodhisattva.”

            ( Dalai Lama, O Ensinamento do Dalai. Corroios: Ed. Zéfiro, 2007, p.123)


O Budismo nasceu e desenvolveu-se na Índia, dois séculos depois da morte de Buda e, sobretudo, sob o reinado de Ashoka (273-232 a.c.), em reacção contra o bramanismo, a religião tradicional.

No século VII da nossa era o Budismo quase que desaparece na Índia, terminando a sua caminhada paralela com o Bramanismo ou Hinduísmo, ao mesmo tempo que se vai expandindo por toda a Ásia.

Depois de atingir o despertar Siddartha Gautama, o Buda, foi exortado pelos deuses a transmitir aos outros a sua sabedoria. Os seus primeiros interlocutores foram 5 ascetas errantes, samanas da floresta, seus companheiros de vida nos primeiros tempos que se seguiram ao abandono do palácio real e da companhia dos seus familiares e súbditos. Esse célebre primeiro discurso ficou conhecido pelo “Sermão de Benares” e iniciou um dos três grandes ciclos de ensinamentos budistas que se resumem em:

- Hinayana, também designado por Theravada, ou pequeno veículo, conservou os traços do Budismo primitivo, sem grande refinamento especulativo, e chegou sobretudo ao Ceilão, à Birmânia e ao Camboja.

- Mahayana, ou grande veículo, que se estabeleceu no Centro e Norte da Ásia, na China, no Tibete, no Japão, na Coreia. Mais especulativo, mais diversificado em múltiplas escolas, inventor de entidades novas, este segundo ciclo de ensinamentos constitui uma ruptura com o Budismo primitivo e tem o seu auge no séc. II da era comum, com Nagarjuna.

- Vajrayana, ou veículo do diamante, integrou o tantrismo e pratica fielmente os rituais que o caracterizam.

Atente-se que quando falamos em Buda, a palavra mais que uma pessoa designa um estado de consciência. Etimologicamente, a palavra Buda significa:
Bu (realizado) - purificação de todos os obscurecimentos, conceptuais e emocionais;
Da (liberto), - libertação ao nível cognitivo e afectivo, depois de ultrapassados os obscurecimentos. Omnisciência absoluta e relativa, quer dizer, vê a realidade como ela é, a verdadeira natureza das coisas, tal como as limitações das mentes não libertas.


Luís Santos


segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Budismo: conceitos importantes


 Siddharta Gautama, “O Buda”, nasceu na Índia há perto de 2600 anos. Um príncipe que estava destinado a suceder a seu pai na regência do reino.

Certo dia, ao sair do Palácio e ao deparar-se com a vida mundana, com a miséria e a pobreza, acaba por ficar muito sensibilizado com o contacto que tem com a doença, o sofrimento, a velhice e a morte. Decide, então, renunciar à vida na corte e tornar-se asceta com a pretensão de vencer esses malefícios. Só depois disso poderia regressar ao convívio dos pais, da mulher, do filho. Foi essa a regra que impôs a si próprio.

Reza a história que haveria de atingir o nirvana (libertação) quando, já depois de ter abandonado a vida de asceta, meditava debaixo de uma figueira. É, então, que são formuladas as 4 nobres verdades do Budismo:
1-     O reconhecimento do sofrimento como inerente à vida humana e como algo que é indesejável. Toda a gente procura ser feliz.
2-     Identificar a causa do sofrimento que se deve à ignorância de não conhecermos a nossa autêntica natureza.  
3-     Promover a eliminação do sofrimento. O desejo e o apego não são qualidades intrínsecas à mente e é possível libertá-la,  promovendo a sua cessação.
4-     Reconhecer a Via, o Caminho, para chegar à eliminação do sofrimento, através da conjugação de uma disciplina ética e mental.

Nem a mente, nem os objetos existem em si ou por si. Tudo o que se manifesta não existe fora das relações com o Todo, inclusive da compreensão que eu faço delas. As coisas não existem separadas umas das outras. A realidade é holística. A mente não se poderá libertar do sofrimento enquanto não perceber a realidade das coisas. Não há separação entre ser e não ser. Há que permanecer na mente, sem cindir a realidade, percecionando as coisas de acordo com essa sua natureza.

Alguns importantes conceitos budistas:
- Kleshas, movimentos mentais que causam sofrimento: ódio, avareza, arrogância, superioridade, inveja e ciúme.
- Nirvana, estado onde se deixa de experimentar o sofrimento, porque se deixou de experienciar as suas causas. O fim da crença ilusória da existência do “eu”. A sensibilidade alarga-se para lá das emoções individuais. A iluminação, sendo pré-existente, é mais o reconhecimento de algo que nos precede.
- Todas as coisas são impermanentes e interdependentes.
-Todas as emoções que resultam da ausência de sabedoria são dolorosas.
-Todas as coisas têm ausência de existência (vacuidade).
- Compaixão e Sabedoria juntas são a verdadeira fonte de libertação no Budismo.
- Meditação, controle do fluxo contínuo de pensamentos e de emoções, de forma a desenvolver uma atenção calma unidirecionada.
- “Buda”, iluminação, estado natural da mente livre de todas as emoções e de todos os conceitos. A natureza de “Buda” é vazia, luminosa e compassiva.

"Abençoada seja toda a pacificação das palavras e das coisas."

Carlos Rodrigues