segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

“Literatura: o pão nosso de cada dia” (XI)

Luís Souta

A ANTROPOLOGIA QUESTIONA-SE

No nosso anterior artigo, nesta rubrica, a propósito da relação oralitura vs literatura / cultura popular vs cultura erudita, iniciámos o questionamento de três “ortodoxias” fundadoras da Antropologia que andam em torno (i) do objecto, (ii) do trabalho de campo (iii) da sincronia. Depois de abordamos as referentes ao “objecto”, hoje, centramo-nos nas outras duas.

(ii) Quanto ao trabalho de campo: segundo Maurice Godelier «a nossa disciplina foi construída em torno de um método, a observação participante, que postula a imersão mais ou menos longa de um observador (normalmente um estranho) no grupo observado.» (1992:104). A reputação e prestígio da Antropologia advém-lhe muito da originalidade e eficácia desse método – o trabalho de campo através da observação participante e, como corolário, a comparação das formas culturais (semelhanças e diferenças entre grupos). Como relembra Robert Rowland, a Antropologia, no conjunto das ciências sociais, é aquela «que mais directamente levanta problemas relacionados com a possibilidade e com as implicações da comparação» sendo que «a comparação, explícita ou implícita, desempenha ela própria um papel determinante na constituição do seu campo analítico» (1998:103).

O trabalho de campo implica a partida para um «terreno», onde se privilegia o contacto com a realidade, em que se procede à observação directa de práticas e comportamentos humanos, se fazem entrevistas (os anciãos foram, durante largos anos, os preferidos), se recolhem documentos, se procura viver com (e como) o grupo, procurando reduzir, o mais possível, a distância e o carácter alienígeno de que vem de fora, em regra, de outro continente. O distanciamento na observação e análise e o olhar exterior, face a uma realidade estranha, fazem da distância «a condição por excelência do conhecimento etnográfico». O método antropológico decorre igualmente de dois outros factores caracterizadores das sociedades tradicionais: a ausência de documentos escritos e a sua dimensão, o que obriga, por um lado, a um contacto directo com as populações e, por outro, permite o seu estudo global. Daqui decorrem as grandes mais-valias antropológicas: a experiência cross-cultural, a perspectiva holística, e um conhecimento mais “subjectivo”1 por uma entrada mais personalizada dentro do universo estudado.

O projecto de construção de uma «etnologia europeia», por que se tem batido o antropólogo francês Isac Chiva, coloca novas questões metodológicas pois «o terreno europeu é muito mais complicado que o terreno dito exótico, pela dimensão e pela sua história»2. 

Marc Augé

No entanto, uma ciência não é o método, e hoje, com o primado do ecletismo e da multi/inter/trans/ disciplinaridade, ainda menos. Marc Augé considera mesmo que a «questão das condições de realização de uma antropologia da contemporaneidade deve ser deslocada do método para o objecto» (1992:47).

No seio na nossa comunidade científica, é conhecida a linha divisória entre quem é ou não antropólogo, de facto, essa linha é a «experiência iniciática» (Rowland, 1998) da prática do trabalho de campo (e quanto mais prolongada a estadia, e maior o afastamento geográfico, mais estatuto se aufere). Os outros, os excluídos por esta tirana “espada de Dâmocles”, chamam em sua defesa a autoridade de Edmund Leach e da sua célebre frase «a antropologia é o que fazem os antropólogos».

No processo de “ocidentalização” disciplinar, acima referido, a Antropologia optou naturalmente pelas comunidades «acústicas», onde a ausência de documentos escritos era um dos seus traços distintivos (o analfabetismo secular, entre nós, era propício a essa démarche). Nessa aventura «romântica», pelo interior do país, descobre-se o folclore, recolhem-se os artefactos, compilam-se lendas, costumes e tradições. Ficámos com a «literatura oral»: os mitos, os provérbios, as adivinhas, os contos, as cantigas e lengalengas (sempre adjectivadas de popular), aquilo a que Bernard Mouralis (1975) chama As ContraLiteraturas ou que Arnaldo Saraiva (1975, 1980) designa de Literatura Marginalizada. E assim, lá estava o capítulo obrigatório em qualquer monografia funcionalista dedicado à oralitura. Também aqui, estamos numa área que deu o que tinha a dar. O analfabetismo é residual, ainda que baixando a um ritmo lento, circunscrito a nichos etários e reduzido à escala da “extinção”; a sociedade do conhecimento e da informação avança, pelo que a escrita é incontornável para os antropólogos (como Jack Goody o demonstrou).

(iii) Quanto à sincronia: os antropólogos têm privilegiado a dimensão sincrónica e recorrido à dimensão diacrónica de forma pontual, esporádica e acessória, quer pelas genealogias e histórias de vida (Raúl Iturra, Ricardo Vieira) quer pelos que ensaiaram uma História Antropológica (Randles, Wachtel, Rowland…).

Em suma, temos andado mais pelo “local” (comunitário, de preferência), o nível micro, o estudo de caso, o tempo presente. Ora o alargamento temporal das análises é um ganho considerável na compreensão de realidades culturais dinâmicas. Não podemos continuar a ser só “fotógrafos” sociais na era do multimedia.

O trabalho que temos vindo a desenvolver – em torno da escola e de uma minoria étnica –, tendo por centro as obras literárias de escritores portugueses, procura ultrapassar alguns dos limites que estas três “ortodoxias”3 estabelecem. Não partilhamos a ideia de que o texto literário é “propriedade” intelectual exclusiva dos da Literatura. Não há, na procura do conhecimento e na compreensão aprofundada dos fenómenos, “quintais” de exclusividade. Nada do que é produto do Homem nos deve ser alheio, e muito menos a literatura por se tratar de uma das mais importantes (e constantes) realizações do ser humano.

Por exemplo, o estudo sobre a diversidade da escola e dos processos de aprendizagem, a partir da literatura portuguesa dos séculos XIX e XX, inscreve-se numa vertente da Antropologia da Educação. Necessariamente que a “deslocamos” do campo tradicional, físico, concreto, real, observável, para uma outra materialidade, de contornos mais diluídos, de realidades mais difusas – o campo ficcional. Quer por uma via quer por outra estamos perante “representações”, produtos historicamente construídos, onde a marca do autor (seja ele o antropólogo ou o escritor) se faz sentir. As culturas não são “objectos” científicos, isolados, neutros, verdades em si.

Por outro lado, não se pode dizer, com rigor, que haja nesta investigação em particular (em que a escola está no seu centro) ausência de trabalho de campo. A minha vida no terreno da educação é bem longa: 16 anos como estudante e 43 como professor (em diferentes níveis de ensino); o que equivale a 59 anos! Ou seja, desde que entrei na 1ª classe que, praticamente, nunca mais saí da escola… até ao dia da minha aposentação. Trata-se de uma “modalidade” de trabalho de campo com algumas especificidades – auto-etnografia (Menely & Young, 2005) –, num sector onde tenho vivido intensamente e sobre o qual tenho reflectido, investigado e publicado. Creio, que essa continuada permanência no “campo”, me dá um capital de conhecimento e experiência valiosos para a compreensão, descodificação e análise das obras literárias com temas de ensino e cuja pesquisa se iniciou há umas três décadas. Mais tardia foi a entrada no “terreno” literário, o dos escritores (1998). No seu conjunto, são muitos anos próximo dos “objectos” de estudo… Como diz Pierre Erny, a fechar o seu livro Ethnologie de l’éducation: «A chacun son style e sa méthode, et en dernière analyse on juge les arbes aux fruits qu’ils portent» (1981:196).

Pierre Bourdieu

Um trabalho deste tipo lança a Antropologia nos trilhos da cultura erudita e da diacronia. Ambas menos acarinhadas, ou mesmo evitadas, pelos antropólogos, porque, em certa medida, “alheias” à especificidade fundadora da disciplina. Não se pretende, de modo algum, pôr em causa um percurso e uma história de uma disciplina científica – frágil, cultivada em nichos académicos, com dificuldades em impor a sua utilidade social – mas que, e talvez por tudo isto, tem as suas âncoras, as suas seguranças, os seus “clássicos”, que deram provas de eficácia e reconhecimento. Correm-se riscos quando se opta por desbravar veredas em vez de ir por caminhos conhecidos e seguros mas Bourdieu já alertara para esses riscos: «A ruptura que é preciso operar para fundar uma ciência rigorosa das obras culturais (…) implica uma verdadeira conversão da maneira mais comum de pensar e de viver a vida intelectual, uma espécie de épochè da crença comummente concedida às coisas da cultura e às maneiras legítimas de as abordar» (1992:216).

O material literário tem essa dupla potencialidade, o de conjugar o racional e o afectivo numa escrita reflexiva que encoraja os investigadores sociais a alargar e aprofundar o conhecimento e o saber, sem tabus de fontes ou de métodos. Por isso, reclamamos uma heterogeneidade nos métodos, técnicas, fontes, e suportes… Queremos uma antropologia ousada na procura de novas fronteiras, novas temáticas, novas abordagens. 

Notas

1. Lévi-Strauss considera a antropologia social como, provavelmente, a única ciência, «a fazer da subjectividade mais íntima um meio de demonstração objectiva» (1973:23).

2. “O património etnológico é uma noção inovadora”, entrevista de Isac Chiva ao Expresso, 11/05/1996, p. 120.

3. Temos bem presente o pensamento de Miguel Torga: «Não existem heterodoxos fora das ortodoxias» (1976:74).

Referências

AUGÉ, Marc (1992) Não-lugares: Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. Venda Nova: Bertrand Editora, 1994.

BOURDIEU, Pierre (1992) As Regras da Arte: Génese e Estrutura do Campo Literário. Lisboa: Editorial Presença, 1996.

ERNY, Pierre (1981) Ethnologie de l’éducation. Paris: PUF/ l’éducateur, nº 73.

GEERTZ, Clifford (1988) “Estar lá, escrever aqui”. Diálogo, nº 58, vol. 22, nº 3, 1989, pp. 58-63.

GODELIER, Maurice (1992) «“Espelho meu, espelho meu…” O papel da Antropologia no passado e no futuro: uma avaliação provisória». Ler História, nº 23, pp. 101-116.

MENELEY, Anne & YOUNG, Donna J. (2005) Auto-Ethnographies. The Anthropology of the Academic Practices. University of Toronto Press / Anthropological Theory and Methods.

MOURALIS, Bernard (1975) As ContraLiteraturas. Coimbra: Livraria Almedina/ C. Novalmedina, nº 31, 1982.

ROWLAND, Robert (1998) “Além da diferença”. Leituras – revista da Biblioteca Nacional, nº 3, Outubro, pp. 103-8.

SARAIVA, Arnaldo (1975) Literatura Marginalizada. Porto.

SARAIVA, Arnaldo (1980) Literatura Marginalizada: novos ensaios. Porto: Edições Árvore.


domingo, 22 de janeiro de 2023

Editorial

 O Ano da FRATERNIDADE

Estamos no último dia do ano 12 de Estudo Geral. No final deste ano lembramos a matriz do seu nascimento naquele grupo que deu MIL (Movimento Internacional Lusófono), onde já pairava uma tal revista que relembrava uma Renascença portuguesa. O próximo ano, mais do que de Ordem será de Fraternidade. No 13 encontramos o mês das giestas, de uma mãe, de um irmão e de um amigo, juntos. Três em um/uma. Tudo, todos. Um ano em que recordaremos o Verbo, feito um livro. Um ano de perfeito animismo, lógica analógica, Suprema lei natural. Portanto, mais do que português, mundial; mais do que lusófono, universal. E quem quiser ficar de fora, não há-de ficar... Fraterno seja. 

sábado, 14 de janeiro de 2023

Subsolo

 A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito, insígnia ou passe. Não precisa reunir, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns dos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela já se lhe não pertence. Nestas palavras obscuras se conta quanto basta para quem, que o queira ou saiba, entenda o que é a Ordem de Cristo – a mais sublime de todas no mundo.

Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Não se entra para ela por querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres: “Quando o discípulo está pronto, o mestre está pronto também”. E é na palavra “pronto” que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras.

Fiel à sua obediência – se assim se pode chamar onde não há obedecer – à Fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros – chamemos-lhes sempre assim – não dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros; acabou entre eles toda a diferença, que há em todas as coisas do mundo. Os seus cavaleiros são ligados uns aos outros pelo simples laço de serem tais, e assim são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação.

Ela, sendo assim tão semelhante à Fraternidade em que respira, porque, segundo a Regra, “o que está em baixo é como o que está em cima”, não é contudo aquela Fraternidade: é ainda uma ordem, embora uma Ordem Fraterna, ao passo que a Fraternidade não é uma Ordem.

(Fernando Pessoa, Hermetismo e Iniciação, Zéfiro, 2015, p.146 - organização, prefácio e notas de Manuel J. Gandra)

sábado, 7 de janeiro de 2023

“Literatura: o pão nosso de cada dia” (X)

 Luís Souta

A ANTROPOLOGIA 

E O INTERESSE PELO LITERÁRIO

«a antropologia [numa fase da obra de Adolfo Coelho] é sobretudo entendida 
como o estudo preferencial da literatura e das tradições populares»

(João Leal, 1993, prefácio a Cultura Popular e Educação de Adolfo Coelho) 

Freitas Branco (1999) ao referir-se à «galeria de notáveis» da antropologia portuguesa, que operam no período de transição do século XIX para o XX – Leite de Vasconcelos, Adolfo Coelho, Teófilo de Braga, Rocha Peixoto – identifica a literatura como uma das áreas de interesse comum a essa «geração pioneira» preocupada com as «tradições populares». Entretanto, na nova geração que surge a partir dos anos 40, «os etnólogos de primeira vaga», tendo Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira como duas das figuras proeminentes, o interesse pela dimensão literária esvai-se por completo. É um grupo mais preocupado com a cultura material, predominantemente as alfaias agrícolas e com o conhecimento monográfico do meio rural.

O interesse pelo espólio documental literário tem assim andado arredado há muito da ciência antropológica. João Leal (1997) é uma das excepções quando analisa um texto de 1940 do escritor Vitorino Nemésio “Le Mythe de Monsieur Queimado” para a partir dele problematizar um conjunto de ensaios que, ao longo de sessenta anos, foram forjando uma identidade em torno do conceito de «açorianidade».

Também a revista Gradiva, Revue Européenne d'Anthropologie Littéraire, tem materializado essa “sedução pela literatura” num conjunto de trabalhos de psicólogos-analistas-antropólogos com enfoque, no entanto, quase exclusivo na psicanálise. No seu número de estreia, esclarece-se a abordagem: «lánthropologie littéraire se donne le sujet pour object: sujet de la production culturelle, sujet de la construction d’un sens à la réception. Comme écrivons-nous, et pourquoi? Comment lisons-nous, et pourquoi?» (1996:3).

Podíamos ainda acrescentar os trabalhos de antropólogos (de formação estruturalista) que têm cultivado análises semiológicas de textos (mitos e lendas em particular, mais no contexto africano e do subcontinente indiano) – José Carlos Gomes da Silva (1989) e Manuel João Ramos (1997). Por último, a «literatura de viagens» tem sido das que se mantém como uma fonte duradoura onde a antropologia (cultural e social) tem ido buscar muito dos seus materiais de análise sobre outros povos e culturas.

Há razões históricas na génese da Antropologia para se privilegiar a “oralitura” e não a literatura, a cultura popular e não a “erudita”. Elas consubstanciam-se em três “ortodoxias” que giram em torno do (i) objecto, (ii) do trabalho de campo e d(iii) a sincronia. Vejamos cada uma delas (neste artigo, em concreto, cingir-nos-emos à primeira).

(i) Quanto ao objecto: a Antropologia, como ciência social autónoma, tem o seu aparecimento intrinsecamente associado ao período histórico em que o mundo Ocidental, através da expansão colonial, “descobre” sociedades bem distintas e as procura incorporar na sua órbita política e económica. Jean Copans afirma mesmo que, nesta disciplina, «o campo empírico é imposto à reflexão teórica: não é um pensamento à procura do seu objecto» (1971:32). E assim, estas sociedades – apodadas de primitivas, arcaicas, atrasadas, ágrafas, ou, eufemisticamente, tradicionais e exóticas – de reduzida dimensão e aparente simplicidade, constituem-se no objecto primeiro da antropologia.

Com a descolonização, a antropologia passou por uma crise de identidade, como o relembra Geertz: «O fim do colonialismo alterou radicalmente a natureza do relacionamento social entre os que perguntam e olham e os que são perguntados e se tornam objecto do olhar» (1989:60). Só mais recentemente com o aparecimento de antropólogos “autóctones” «the insider’s view from inside» tem vindo a substituir a posição mais tradicional «the outsider’s view from inside».

Num segundo fôlego, a antropologia do distante exótico deu lugar a uma «anthropology at home». Face a um objecto em desaparecimento (que só o turismo, hoje em dia, tenta desesperadamente negar, teimando vender viagens dos «últimos paraísos do homem»), o retorno ao Ocidente implicou, de início, apenas uma mudança de território. Antropologia continuou a interessar-se por grupos sociais quantitativamente pequenos, onde “todos se conhecem”, relativamente homogéneos, solidários e conscientes de uma certa identidade, em regra, comunidades dominadas pelo primado da tradição e da “evolução” lenta (aldeias, bairros, famílias, associações). Em qualquer dos casos era sempre possível apreendê-las globalmente, ter a visão de um todo social articulado. Conhecer as suas formas de viver e pensar. No essencial, replicou-se “aqui” o que se fazia “lá”: o antropólogo procurou o “outro” (doméstico), o exótico, o diferente, o “em vias de extinção”, e, logicamente, partiu para o mundo rural, antes que a industrialização e o «progresso», vistos como ameaças, lá chegassem.

Nas cidades e zonas suburbanas, ficou-se pelos grupos minoritários dos bairros pobres, marginais e degradados, de preferência. Ultimamente, reencontrou as minorias étnicas – «l’inconnu familier» –, que a imigração trouxe de África, da Ásia ou da América.

Como diz Iturra (1997) «os grupos ‘eles’ aparecem no meio do grupo ‘nós’», ou seja, «a Colónia que lhe apareceu na Metrópole». O antropólogo mergulhou na complexidade das sociedades contemporâneas, por uma questão de sobrevivência disciplinar, mas deu prioridade aos fenómenos de «diferença social e cultural». O olhar do antropólogo, sobre a sociedade moderna, continua preso dessa herança do passado.

Mais ainda, este “regresso a casa” pôs-nos, a nós antropólogos, em concorrência com a ciência-irmã – Sociologia – que, não tem cessado de reclamar uma espécie de “tratado de tordesilhas”, temático e teórico-metodológico (Cabral, 1998), para a divisão (assimétrica) do trabalho nas novas mega-urbes, remetendo-nos a uma espécie de “acantonamento” antropológico.

Continuar nesta via – o que sustenta uma certa crítica que nos é feita, a de nos ocuparmos com o estudo de “miudezas” – é correr o risco de ficarmos novamente órfãos de objecto científico, a curto prazo e pela segunda vez, perante o mais que previsível movimento de homogeneização massificadora, decorrente da mundialização da economia e do imparável fenómeno de globalização sociocultural. Não podemos deixar de perfilhar a ideia de Sanchez Gómez «no es el objeto de estudio la circunstancia esencial que orienta una nueva forma de hacer antropología» (1997:303).

 

Nota

1. Que mudanças se operaram no campo das ciências sociais desde 1924 quando Marcel Mauss defendia que o lugar da sociologia era «dentro da antropologia»!

 

Referências

BRANCO, João de Freitas (1999) “A fluidez dos limites: discurso etnográfico e movimento folclórico em Portugal”. Etnográfica, vol. III, nº 1, pp. 23-48.

CABRAL, João Pina (1998) “A antropologia e a questão disciplinar”. Análise Social, nº 149, vol. XXXIII, pp. 1081-1092.

COPANS, Jean et al (1971) Antropologia. Ciência das sociedades primitivas? Lisboa: Edições 70/ Biblioteca 70, 1974.

GEERTZ, Clifford (1989) “Estar lá, escrever aqui”. Diálogo, nº 58, vol. 22, nº 3, 1989, pp. 58-63.

GOMES DA SILVA, José Carlos (1989) A identidade roubada: ensaios de Antropologia Social. Lisboa: Gradiva/ Trajectos, nº 24, 1994.

ITURRA, Raúl (1997) “Tu me entendes porque me percebes” in Luís Souta Multiculturalidade & Educação. Porto: Profedições, pp. 11-5.

LEAL, João (1997) “Açorianidade: Literatura, Política, Etnografia (1880-1940)”. Etnográfica, vol. 1, nº 2, pp. 191-211.

RAMOS, Manuel João (1997) Ensaios de Mitologia Cristã: O Preste João e a reversibilidade simbólica. Lisboa: Assírio & Alvim/ Sete estrelo, nº 4.

SANCHEZ GÓMEZ, Luis Ángel (1997) “Cien años de Antropologia en España y Portugal (1870-1970)”. Etnográfica, vol. 1, nº 2, pp. 297-317.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

CARTAS A GRAFITE


Acende umas páginas por mim.

Deixa que sinta
O calor, sim,
Rouba esse grandioso Universo das cartas perdidas.

Não aguardes mais cinzas.
Ateia!
Ilumina trevas
Porventura destilado alcatrão da hulha
Escolheram para mim.

Nesta noite mais escura
desinflama,
ou faz das palavras acendalhas
por fogueira...                                                                     há muito
perdida. 

Cerzido peito respita, assim como nódoa dissolvida na sombra,
liberta.

Às dez inflama!
Acende etérea volátil e dilacerante insta-habilidade,
mas não esqueças intensa e momentânea luz.

Sem o gravame da idade
deixa que arda!
E devolve penumbra ao sentimento,
por todas as palavras
jamais escritas,
jamias fotografadas,
(a)meia luz.


Paulo Landeck, 29-12-2022. Itinerâncias.
A todos, um melhor ano!

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

PERCEPÇÃO ANIMAL

Este relato por ser real não podia ficar na gaveta. Um amigo meu, funcionário no hospital onde trabalhei, pensou arranjar maneira de poder ganhar mais uns tostões (ainda não havia euros) para juntar ao seu modesto vencimento.

Assim comprou uns bezerros pequenos e começou a alimentá-los numa fazenda, com o intuito de os vender mais tarde.

E lá ia ele, todas as manhãs, antes de ir para o emprego cuidar deles. O tempo foi decorrendo, e chegou a uma altura que os animais já conheciam a chegado do amigo F...

pelo ruído do motor da sua viatura, e corriam ao seu encontro. Entre eles foi então crescendo uma grande amizade.

Mas chegou o dia, o menos desejado, em que nessa manhã o amigo F... deslocou-se para a fazenda carregando em cima de si um pensamento demasiado pesado.

E pela primeira vez algo de inédito aconteceu,

os animais não correram ao seu encontro.

Aproximou-se dos animais e viu que havia lágrimas correndo pelos seus olhos.

Passado uma hora chegou à fazenda uma camioneta que levou os animais para o matadouro local. F... deu por terminada ali a sua experiência comercial, prometendo a si próprio que tal não se voltaria a repetir, é que a sensibilidade também faz parte dos seus alforges.

Amigo F... desculpa não te ter pedido autorização para esta publicação, mas os mais sensíveis não nos iam perdoar, se nós não a partilhássemos.

António do Carmo Alfacinha

24.12.2022

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Introdução a Seminário IPS/UNESCO


O EcoCampus do Instituto Politécnico de Setúbal e a Rede de Escolas Associadas da UNESCO

Muitos dos fenómenos meteorológicos que se têm feito sentir um pouco por todo o mundo, como é o caso da intensa chuva que tem caído nos últimos dias no nosso país, têm sido frequentemente associados às alterações climáticas que, por sua vez, surgem interligadas às múltiplas causas da excessiva poluição do planeta como é o caso do uso excessivo dos combustíveis fósseis (petróleo e carvão) que têm sido largamente usados no funcionamento das indústrias, dos transportes, dos consumos energéticos das nossas casas.

Esta excessiva poluição que se faz sentir de forma muito significativa nos ares, nas águas dos rios e dos mares, entre outros efeitos muito nefastos, tem provocado o aumento da subida das temperaturas médias do planeta que neste momento se cifra nos 1.2ºC, o que em si é já um valor muito elevado, mas que continuará a subir se, a nível mundial, não forem tomado um conjunto de medidas que tendam a alterar alguns dos comportamentos humanos que estão por detrás destes fenómenos, a fim de que se possam evitar mudanças climáticas irreversíveis, cujas consequências podem aumentar ainda mais os níveis de pobreza, fome, doença e, no limite, pôr mesmo em risco as possibilidades de sobrevivência, pelo menos, de grande parte da espécie humana no planeta.

Neste sentido, aos frequentes alertas que têm sido proferidos pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, a Organização das Nações Unidas, depois de outras, promoveu no mês passado mais uma Conferência Mundial que decorreu no Cairo, capital do Egipto, onde se tentaram encontrar compromissos concretos por parte de todas as nações do mundo que se traduzam numa alteração desses nefastos comportamentos que, por exemplo, levem ao degelo das calotes polares e o consequente aumento das catástrofes naturais que lhes surgem associadas.

Assim, desde 2015 que os 193 países que constituem as Nações Unidas (ONU), chegaram aquela que se designa atualmente como a “Agenda 2030”, constituída pelos 17 objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS), e pela sua aplicação até final da década, que consigam inverter, ou pelo menos, estancar, para o bem comum, as múltiplas causas que têm conduzido à excessiva poluição do planeta e às alterações climáticas.

Entre os 17 ODS, a necessidade de promover uma “Educação de Qualidade” e, neste sentido, também de estabelecer um conjunto de parcerias com instituições afins, tem levado o nosso Instituto (IPS) a desenvolver um conjunto de ações como resposta aos compromissos assumidos por Portugal no âmbito das Nações Unidas. Por outro lado, a Comissão Nacional da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura que tem como objetivo primordial contribuir para a paz e segurança no mundo) tem vindo a participar no incremento de uma série de iniciativas como é o exemplo daquela que se designa como a “rede de escolas associadas da UNESCO”. E é justamente na tentativa de iniciar uma parceria que se quer duradoura entre o Instituto Politécnico de Setúbal e a Comissão Nacional da UNESCO que hoje temos connosco o Professor Carlos Mata, Vice-Presidente do IPS, e a responsável pelo setor da educação da CNU, Dra. Fátima Claudino, que, respetivamente, no âmbito dos princípios do desenvolvimento sustentável, nos irão dizer, porque é que o IPS é um EcoCampus e o que se pretende com essa “rede de escolas associadas da unesco”.

Luís Santos

19.12.2022

sábado, 17 de dezembro de 2022

Academia Agostinho da Silva

Nem tudo vale o mesmo. Há o que promove o pleno desenvolvimento humano, pessoal e comunitário, e o que apenas satisfaz os interesses e desejos de ilusão, preservação e engrandecimento dos egos individuais e colectivos. Há exemplos de vida virtuosa, posta ao serviço do bem dos humanos e de todos os seres, e exemplos de vida pequenina, serva do aumento do próprio umbigo, individual ou colectivo. Uma sociedade e civilização que entroniza e idolatra os heróis da competição e do sucesso exterior- seja empresarial, político, artístico, literário, académico ou desportivo - está em profunda decadência e arrasta consigo os mais jovens, a quem não oferece modelos de pleno florescimento humano, exemplos de sabedoria, amor e compaixão. É uma sociedade e uma civilização que se corrompe e dissolve, tornando-se na melhor das hipóteses o húmus do germinar de novas sementes de consciência e de Vida.

Paulo Borges

#irmânia

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domingo, 4 de dezembro de 2022

Graffitar a Literatura (VII)

 Faróis”

«Não consigo pensar em nenhum outro edifício construído pelo homem tão altruísta quanto um farol. Eles foram construídos apenas para servir.»

(Bernard Shaw)

 
Cascais, Travessa dos Navegantes 

Sempre me atraíram os faróis. Procuro-os para os observar, fotografar e visitar. Deslumbro-me naquele interior espaçoso… em altura; fico extasiado perante aquelas lentes descomunais. Mas sobretudo, admiro (o que nunca vejo) os faroleiros e a sua solidão profissional. Em dias de raios e coriscos e névoa densa, a luz e o som dos faróis (preventivos de catástrofes) orientam as embarcações e levam-nas a bom porto. Na nossa costa temos 50. Locais de encantamento e magia.

Em mim, esse interesse acentuou-se ainda mais com a leitura do romance Mentira do catalão Enrique de Hériz (2005). Uma das personagens, Serena, desenvolve uma pesquisa sistemática, nos faróis da Costa Brava de Espanha, para encontrar um eventual registo do temporal de 22/01/1922 que provocou o naufrágio do barco de pesca que havia zarpado de Malespina (Barcelona), com o seu avô Simón em fuga de um pai tirano (três dias depois seria resgatado pelo cargueiro Astor). Serena aos 37 anos «ainda anda por aí à procura de tempestades, a sonhar com um ciclone que a transporte no tempo, sempre para trás, e lhe permita salvar o avô e resgatar também o pai e salvar-se a si própria de não sei o quê» (p. 93, lê-se no diário da sua mãe antropóloga que a família julgava morta na Guatemala).

«Desde finais do século XIX até 1968, todos os faróis de Espanha conservavam um registo chamado “Livro de Registos de Estados das Tempestades”. Hoje, os correspondentes a todos os faróis da Costa Brava estão guardados no Arquivo Histórico de Girona. Cada ano, um livro de registo. Adoro aquele nome: estado das tempestades. Como se uma tempestade não fosse uma coisa que acontece de repente, uma coisa que vem e vai, mas sim uma presença acaçapada e permanente, uma fera cujo humor se vigia. Foi esse o tema da minha tese e tive a sorte de tocar com as minhas próprias mãos aqueles documentos: cadernos oblongos de capas vermelhas e papeis toscos, inchados pela humidade» (p. 86)

Nessa demanda documental, quase obsessiva, Serena perdia-se maravilhada nos manuscritos «daqueles faroleiros, que eram meteorologistas sem o saberem» onde, para além dos dados meteorológicos (hora do início e fim da tempestade, humidade, temperatura, direcção do vento e quantidade de água recolhida por metro cúbico), anotavam, no verso da mesma página,

«as suas impressões pessoais e, com o estilo altissonante próprio dos tempos, demorava-se em apreciações quase poéticas sobre trovões e relâmpagos, espessura das nuvens e violência do mar. Antes de assinar, despedia-se sempre com o mesmo comentário final: “Não há conhecimento de que tenha ocorrido qualquer novidade nas proximidades deste estabelecimento.» (p. 86)

Foi também esta faceta “literária” da actividade dos faroleiros, expressa num instrumento que partilham com os antropólogos – o “diário” – que me entusiasmou de forma acrescida. À sua maneira, também eles etnografavam… o céu e o mar.

Uma amiga, sabendo desse meu gosto e fascínio pelos faróis, ofereceu-me um quadro pintado por si com este mesmo, o de Santa Marta, igualmente em tons de azul. Tenho-o numa das paredes do meu quarto. Acordo, todas as manhãs, a olhar aquela peculiar torre quadrangular de 20 metros, revestida a azulejo, com faixas horizontais azuis e brancas. E a lanterna vermelha a indicar-me o rumo: levanta-te e faz-te à vida… que já são horas! 

Post scriptum:

Este mural de Exas (Muraliza, Cascais, 2014), estende-se por um muro convexo na Travessa dos Navegantes, entre o nº 2 e o 5, e nele se vê uma pequena placa metálica azul em que se pode ler: “É proibido afixar anúncios nesta propriedade”.

Já quando era miúdo não entendia bem o sentido desta placa afixada nas paredes exteriores de alguns edifícios, da minha vila suburbana. Por esses tempos (os da ditadura) não havia, praticamente, publicidade de rua (só me lembro do Licor Beirão), nem disputas eleitorais (o sistema era de partido único), nem graffitis (ainda eram desconhecidos, entre nós, como manifestações de contracultura).

Com a democracia, a parafernália de cartazes partidários tornou obsoleto o conteúdo de tais placas proibitivas, e lançou o caos naquelas paredes caiadas por um senhorio diligente e ávido do que é seu. Era o tirocínio da cidadania através de ínvios caminhos.

Nos dias de hoje, este aviso – resquício desse tempo em que tudo se proibia (até o viver em liberdade) – é digno de loja de antiguidades. Por isso o graffiter não o teve em conta e fez o que o seu impulso artístico e dever cívico lhe impunham – extravasar o que lhe ia na alma e dar vida e colorido ao velho e corroído muro daquela movimentada rua.

Agora, anos volvidos, a vegetação espontânea apossou-se da parede e quase esconde o belo mural. Os meus olhos desviavam-se, entristecidos pela incúria…


Texto e Imagens

Luís Souta

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

O emir do Qatar

 por Luís Santos

O emir do Qatar,

apelido de família Thani, entre outras coisas, é conhecido pelas suas 3 esposas e respetivos 13 filhos que, pressupostamente, são todos seus. Tanto quanto se sabe, vivem juntos, moram juntos, comem juntos, vão de férias juntos e, em salutar harmonia, dividem um jeito diferente de ciúmes da maneira ocidental.

Numa gente tão endinheirada, com tantos milhões de litros de petróleo e de gás natural, a juntar a família tão extensa, ainda pressupostamente, existem uma quantidade indefinida de concubinas e, aqui, entre outras coisas menos boas, aparece a questão dos direitos das mulheres, dos homens, das crianças, dos animais, etc.

Como o textinho não deve ser muito longo e o objetivo é falar da organização da família no mundo, do jeito que a Antropologia nos tem ensinado, para se viver numa família poligâmica, quer dizer, onde um homem casa com várias mulheres, não é preciso ser rico, nem ser árabe, já que, por exemplo, isso é um costume habitual nas sociedades africanas tradicionais. Tal como, numa outra forma de família, existem muitas famílias de tipo poliândrico, ou seja, lugares do mundo onde é normal uma mulher ter vários maridos.

Continuando a resumir, é também assim a condição humana e até se pode perguntar se é bom se é mau, se este tipo de gente com costumes tão diferentes dos nossos, no fim, vai para o céu ou para o inferno?

E, pronto, por hoje era isto.

Na fotografia, mulher nepalesa que tem 3 maridos e jura que é feliz.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

“Literatura: o pão nosso de cada dia” (IX)

 Luís Souta

ANTROPOLOGIA e LITERATURA

«Do que eu gostava na antropologia, era o seu poder de negação, da sua obstinação em definir o homem»

(Samuel Beckett, Molloy, 1964:55) 

A Literatura não sendo uma ciência, tem, no entanto proximidades com o vasto campo das Ciências Sociais (História, Geografia, Antropologia, Sociologia, Economia, Psicologia Social, Ciência Política). De tal modo que se vulgarizou a designação “Ciências Sociais e Humanas” ou “Ciências Sociais e Humanidades”, para incluir outras, como a Literatura, a Filosofia e o Direito. De facto, a Literatura está mais próxima deste grande grupo multidisciplinar cujo centro das suas preocupações são as multíplices problemáticas do Homem e da Sociedade. As diferenças entre Ciências Sociais e Literatura são de natureza e de estatuto social. Podemos recorrer a um critério, a atribuição do prémio Nobel. No âmbito das Ciências Sociais, só a Economia tem esse galardão (o primeiro foi atribuído em 1969). Ora o Nobel Literatura desde 1901 que é concedido, sendo (a par com o da Paz) o de maior impacto mediático e dos mais conhecidos entre o grande público. Este simples exemplo, a que outros se poderiam aduzir, como o da divulgação, via editorial, dos respectivos produtos, serve para salientar a ideia da influência social que a literatura tem quando comparada com o mundo da Ciência.

Jean Copans anotava que «[d]esde a sua origem, a etnologia é também uma literatura, visto que ambas são um discurso, descritivo e valorizante» (1971:50). Nos anos mais recentes, vários têm sido os trabalhos que evidenciam as fronteiras onde se tocam a antropologia e a literatura, muito através dos «estudos culturais». A par da História é talvez na Antropologia que essa proximidade à literatura seja mais notória. O sentido holístico da análise que tanto a Antropologia como a História prosseguem (uma centrada nas sociedades do passado, a outra nas sociedades actuais), colocam o Homem numa rede de múltiplos feixes de intersecção e interacções sociais nas suas diversas actividades e esferas de acção (familiar, económica, política, social, militar, cultural).

O antropólogo americano Clifford Geertz, ligado ao paradigma interpretativo, revolucionou a antropologia moderna, em diversos sentidos, nomeadamente possibilitou uma aproximação entre a antropologia e a literatura, ainda que produzindo afirmações que estão longe de colher consenso entre aquela comunidade científica. Dessas afirmações destacam-se as referentes à cultura, «não é mais do que um conjunto de textos», e às obras etnológicas, consideradas como ficções, na medida em que são produtos construídos. De facto, o produto final do trabalho de campo de um antropólogo consubstancia-se na produção de um texto, que procura, em certa medida, ser a “voz” desses “outros” que lhe serviram de objecto de estudo. Ele resulta de um processo metodológico, único, e distintivo da identidade disciplinar da Antropologia – a «observação participante». Só que Geertz e seguidores preferem, naturalmente, falar em «descrição participante», ou seja, uma versão biográfica do «estar lá» (Casal, 1996:96), e pôr a tónica nos problemas da narratologia, ela própria produtora de uma outra realidade, marcada por uma visão subjectiva. Deste modo se fazia emergir, aquilo que, em regra, não vinha à luz do dia: as condições em que eram recolhidas as informações e como, posteriormente, elas eram traduzidas num texto inevitavelmente plasmado da personalidade de quem o redige (cf. Clifford & Marcus, 1986).

O consumo do texto antropológico é diminuto, limitado, em regra, aos meios académicos e a uma escassa fatia do público não especializado. Tal decorre, também, de uma certa particularidade do tipo de textos antropológicos muitas vezes acusados de conterem «exemplos áridos, sem vida». Um texto descritivo que torna o trabalho maçudo e denso, faltando-lhe fluidez que só a narrativa lhe empresta. Ainda que não se possa confundir o “literato” com o “antropólogo”, um pertenceria à categoria do «escritor» e outro à do «escrevente», recuperando os velhos conceitos de Barthes (1964), ou seja, um mais preocupado em «como escrever?» e o outro em «escrever o quê?».

Só que estes dois modos de encarar a escrita não são dicotómicos; os dois campos têm-se vindo a aproximar, havendo já casos de “fusão” entre a Antropologia e a Literatura, a «artful-science» como lhe chama Ivan Brady, onde a linguagem científica e a estética da arte se interpenetram num género novo. O antropólogo italiano Alberto Sobrero, num texto apresentado no Congresso de Antropologia1, numa secção significativamente designada de «Antropologia como Ficção: as escritas antropológicas», identificou um conjunto assinalável de autores2 e de obras desse tipo, muitas delas produzidas em contexto de emigração ou por “antropólogos-nativos”, estes últimos mais ligados à recente “antropologia periférica” (muito em especial em África e na América Latina). Também de referir os “antropólogos viajantes”, sendo Ramos (2000) e o seu diário de viagem à Etiópia um bom exemplo. Enfim, gente que ousa atravessar as fronteiras onde antropologia e literatura se tocam.

Caso de Paul Benson que editou, em 1993, uma obra pioneira neste domínio a que deu precisamente o título de Anthropology and Literature. Esse volumoso livro reúne onze textos de antropólogos de diferentes nacionalidades que relatam as suas experiências concretas em diversos locais do globo (Alaska, Florida, Índia, Indonésia, Novas Hébridas…), em torno da utilização que fazem da ficção (poesia, tragédias gregas, por exemplo) e que reflectem de forma aprofundada sobre a crescente variedade de géneros na produção dos seus próprios textos, em moldes mais próximos do registo literário (short stories, por exemplo) que da clássica e tradicional monografia. Situando-se em campos metodológicos mais tocados pela pós-modernidade e pelas correntes da antropologia crítica, valorizam uma etnografia auto-reflexiva, que evita as dicotomias dogmáticas e clássicas: etnografia associada a factos e verdades em contraponto com a ficção e a fantasia; dum lado cientistas e do outro artistas. Antes se reforça a unidade das componentes do self, onde o pessoal e o profissional, o literário e o científico do antropólogo lhe permitem rentabilizar a sua acção.

Outro exemplo, é o do antropólogo francês Marc Augé quando recorre às obras de alguns romancistas para dar corpo às três figuras centrais do esquecimento que ele nos propõe – «o retorno, a suspensão e o recomeço» – num conjunto de ensaios em que se procura ver «a vida como narrativa» e da necessidade intrínseca que todo o ser humano tem de esquecer. E usa, para isso, a metáfora da jardinagem: «as recordações são como as plantas: há algumas que é preciso eliminar rapidamente para ajudar as outras a desabrochar, a transformar-se, a florescer» (1998:23).

James Clifford e, em certa medida também, Raúl Iturra têm praticado uma escrita onde se denota um certa justaposição de géneros e onde o “literário” emerge como forma discursiva com fortes marcas de experiência pessoal.

No caso português, temos tido alguns escritores que nas suas obras, mobilizam um conjunto de saberes multidisciplinares, entre os quais os da antropologia; poderíamos quase considerá-los como escritores-etnógrafos que recorrem ao trabalho de campo e, por aí, se aproximam do ofício do investigador social. Aquilino Ribeiro, Alves Redol, Miguel Torga, Tomaz Ribas, Teixeira de Pascoaes3, são alguns exemplos onde muito material etnográfico é coligido e descrito com pormenor e minúcia. Glória: uma aldeia do Ribatejo de Alves Redol (1938), classificada como «ensaio etnográfico», e Aldeia de Aquilino Ribeiro (1946), sub-intitulada «terra, gente e bichos», são talvez os casos mais próximos da monografia antropológica, mais evidente na estrutura do primeiro, mas onde o conteúdo revela preocupação em descobrir as raízes profundas de Portugal, e em particular, conhecer as duras realidades em que vive o seu «povo». Não é por acaso que ambos são “acusados” de escritores regionalistas que, tal como os antropólogos, focalizam o seu estudo sobre uma região específica (aqui, um centra-se na Beira e outro no Ribatejo). Em Aquilino Ribeiro encontramos mais dois livros com referências explícitas nos subtítulos a essa intencionalidade antropológica: O Livro do Menino-Deus: o Natal na história religiosa e na etnografia (1945) e Geografia Sentimental: história, paisagem, folclore (1951). 


Notas

1. Comunicação de Alberto Sobrero ao 2º Congresso de Antropologia, Lisboa, F.C.Gulbenkian, 15/11/1999.

2. Referiu um caso em língua portuguesa, a do cabo-verdiano Luís Romano (1962) Famintos.

3. Cf. “O pensamento antropológico de Teixeira Pascoaes” de Manuel Ferreira Patrício (1997).


Referências

AUGÉ, Marc (1998) As Formas do Esquecimento. Almada: Ímanedições, 2001.

BARTHES, Roland (1964) Elementos de Semiologia. Edições 70.

BENSON, Paul (ed.) (1993) Anthropology and Literature. Urbana and Chicago: University of Illinois Press.

CASAL, Adolfo Yáñez (1996) Para uma epistemologia do discurso e da prática antropológica. Lisboa: Edições Cosmos/ Cosmos Antropologia, nº 1.

CLIFFORD, James e MARCUS, George E. (1986) (eds.) Writing Culture: the Poetics and Politics of Ethnography. London: University of California.

COPANS, Jean et al (1971) Antropologia. Ciência das sociedades primitivas? Lisboa: Edições 70/ Biblioteca 70, 1974.

RAMOS, Manuel João (2000) Histórias Etíopes: diário de viagem. Lisboa: Assírio & Alvim/ Sete estrelo, nº 7.

REDOL, Alves (1938) Glória – Uma Aldeia do Ribatejo. Publicações Europa-América / Obra Completa de AR, nº 18.

RIBEIRO, Aquilino (1946) Aldeia. Venda Nova: Livraria Bertrand/ Obras completas A.R., 1978.


sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Um Poema de Paulo Landeck


Gotículas e Centelhas

Abrigada na chuva,
dança entre a multidão
ao método de Orff.
Gota
de lágrima vestida.
Atenta,
pois maravilhosamente se desprende
da tormenta ao vibrante xilofone.
Resguarda
palpável criação,
sede de todas as sedes.
E se,
sorvida de um trago
no cálice da rosa,
enquanto eflúvios reportam inocente transparência
perdida em dias cinzentos,
lembra-te,
perfumes tardios
guardarás.
Lava o dilúvio -
terra,
e delicada pétala, -
música diluída
que embala todas as cores,
ao sabor de tenebrosos pesadelos
e tangíveis sonhos.
Por isso
Dança,
Dança ao método de Orff,
Dança
pura flama!
Como velha madeira naufragada
em mágica fogueira crepitante, dança!
E guarda de mim,
apenas uma brisa marítima.

Alhos Vedros, 10-11-2022

Paulo Landeck



sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Ulisses de Paulo Borges

Ulisses

Partiu há pouco o meu querido Ulisses, o animal com quem senti mais conexão dos muitos que se cruzaram comigo nesta vida. Ensinou-me muitas coisas, sobretudo com a sua morte, que me deixou o ser nu, lavado das muitas futilidades e distracções em que me tenho enredado. Vejo-te, Ulisses, a regressares à Luz sem forma de onde tudo vem. E, agora que não tens corpo, reconheço-te em todos os seres e coisas, em todo o lado. A morte é um dos aspectos mais sagrados da vida, como fizeste sentir a mim e à Daniela enquanto acompanhávamos a tua lenta, serena e silenciosa despedida. Que as minhas orações e as de todos os amigos que se quiserem juntar a elas sejam as asas que te levem mais lesto para o Infinito. Na tradição do Buda usamos o mantra da compaixão - Om Mani Padme Hum - , mas todas as palavras e sons puros são bem vindos para te acompanhar e a todos os seres que estão a fazer a mesma Viagem. Sim, que contigo nos leves a todos para a Luz infinita! Que todos os seres sejam livres e felizes, agora e sempre! Que todos despertemos deste sonho de haver vida e morte!

E, por falar em partidas, foi adicionada uma música que é da responsabilidade do editor, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=MzGpYtR1v4U 


sábado, 5 de novembro de 2022

“Literatura: o pão nosso de cada dia” (VIII)

 Luís Souta

AS CIÊNCIAS NAS FRONTEIRAS DA FICÇÃO

«Ciência é loucura se o bom siso a não cura.»

 

O debate em torno da ficção, não está hoje circunscrito à literatura. Ele instalou-se no interior desse espectro largo que são as ciências sociais. Mesmo aquelas que mais pareciam blindadas a esse tipo de “vírus”, têm-na inscrita nas suas agendas metodológicas. Tomemos a História como ponto de partida. Nela, o real acontecido era tornado verdadeiro na e pela escrita do historiador (cujo estatuto tem muito de comum com o narrador, ainda que mais evidente na corrente da «história narrativa»). «Os factos», enquanto incidentes singulares da interacção humana num determinado contexto histórico, eram, por excelência, o interesse primeiro do historiador. Mas a história não é uma ciência dos factos, há nela sentimentos, emoções, afectos, especulações… leis e teorias. Captá-los e “trazê-los” para o interior da História passou a ser um objectivo de quem se interessa por reconstruir o passado, na sua pluridimensionalidade. Também por resolver estiveram sempre os “buracos” na história das nações e da humanidade, para os quais não havia documentação, monumentos, artefactos, provas empíricas. Cabia então ao historiador, resolver esses problemas, preenchendo lacunas, com o recurso a inferências, à imaginação, em suma, à ficção. Daí que Valdés afirme peremptório: «There is as much fiction in history as there are facts in fiction» (1992:28).

Por sua vez Hayden White diz que a principal distinção entre história e ficção «tem a ver com a forma, e não com o conteúdo» (citado em Nóvoa, 2000).

Neste ponto, vale a pena ter presente a visão de um escritor, o peruano Mário Vargas Llosa, cujos romances «andam muito próximos de acontecimentos históricos»1 e que destrinça a questão da verdade, na história e na literatura, nestes termos: «A verdade literária e a verdade histórica são muito distintas. A verdade histórica mede-se pela identificação entre aquilo que um historiador conta e a realidade vivida. A verdade de uma ficção não é alheia à própria ficção. Depende, não da sua identificação com uma realidade prévia, mas fundamentalmente do seu poder de persuasão.» E ilustra com Guerra e Paz de Tolstoi onde os historiadores detectam uma série de inexactidões sobre as guerras napoleónicas mas os leitores não deixam de acreditar «cegamente (…) pela força hipnótica que o romance tem»2. É esta uma das formas próprias que a literatura tem de nos levar acreditar que «copia a realidade».

Sandra Pesavento reconhece que as divisões se têm esbatido pelo que «a questão da veracidade e da ficcionalidade do texto histórico está (…) presente na nossa contemporaneidade, fazendo dialogar a literatura e a história num processo que dilui fronteiras e abre as portas da interdisciplinaridade» (2000:37). Pesavento faz um exercício curioso, em relação a um período concreto da História do Brasil: procura cruzar uma obra literária de 1865 – Iracema – do conhecido escritor José de Alencar (1829-1877), com o trabalho de 1907 – Capítulos da História Colonial do não menos conhecido historiador Capristano de Abreu. Cotejando as duas obras, ela constata «o quanto de verdade» ou de «aproximação com o real» a primeira obra é portadora. Nela se encontram «registros etnográficos e passagens de causar inveja a qualquer geógrafo, antropólogo ou filólogo» (2000:54-5). Não é pois de estranhar que os desenvolvimentos na História (a ciência social que parecia mais sólida nos seus princípios metodológicos) para áreas de estudo como a «vida quotidiana» ou das «mentalidades», para só identificar dois campos, tenha feito entrar no seu aparato instrumental conceitos como os da representação, do imaginário ou do simbólico.

Um outro exemplo brasileiro, de articulação estreita entre a antropologia e literatura num mesmo autor, é-nos dado por José Maurício Arruti quando analisa a obra do antropólogo Darcy Ribeiro (1995) O Povo Brasileiro – a formação e o sentido do Brasil e constata que o autor chega a «reproduzir trechos inteiros de um dos seus romances, como contribuição legítima para a sua argumentação» (1996-97:305). O produto final pode ser visto como uma grande narrativa, que em vez de uma pretensa objectividade, resultante de um olhar externo, distante e superior, ajuda «a pensar a partir da sensibilidade».

O historiador Jacques Revel, aquando da sua vinda a Portugal para participar nas Conferências do Convento 1996, na Arrábida, afirmou numa entrevista concedida a um jornal nacional3: «Os historiadores iniciam frequentemente as suas análises pela contextualização. Nas teses francesas havia sempre um capítulo inicial chamado “La terre et les hommes”. Descreviam uma região, uma cidade, a paisagem. Montava-se o cenário, como num romance, garantindo assim que tudo aquilo tinha acontecido alguma vez.»

Um exemplo clássico é a obra de Oscar Lewis Os Filhos de Sánchez, por ele mesmo considerada como uma «literatura de realismo social» (1961:14). A partir das entrevistas aos quatro irmãos da família Sánchez – Manuel, Roberto, Consuelo e Marta – que vivem na vecindad da Casa Grande, num bairro pobre no centro da cidade do México, Lewis procura «uma visão cumulativa, multifacetada, panorâmica de cada indivíduo, da família como um todo, e de muitos aspectos da vida da classe baixa mexicana» (id.:13). E assim, inaugura o método das «autobiografias mútuas» que tanto impacto tem tido não só na antropologia (Vieira, 1998, 1999) como noutras ciências sociais (Leite, 1999)… O antropólogo americano praticamente abdica da análise teórica, dando-nos um «pedaço de vida (do “romanesco”), mas pedaço de vida refractado por várias subjectividades, o que lhe permite um mínimo de objectividade» (Copans, 1971:51). Curiosa é a reacção de um escritor, Vergílio Ferreira, a este livro, de que nos dá conta no primeiro volume do seu diário Conta-Corrente: «o grande truque do autor é jogar no verdadeiro contra o verosímil. (…) Mas dizendo-nos que aquilo é “verdade”, nós pomos de parte a categoria da “verosimilhança” e aceitamos. (…) [E uma vez] declarada a “verdade” das narrativas, só mal reparamos nas inúmeras intervenções do autor (comparações, reflexões, etc.) evidentemente “literárias”. (…) A “literatura” não está apenas nas narrativas do Manuel (que o autor nos diz “instruído”) mas em todas» (1980:72). Vergílio Ferreira conclui dizendo que o que valoriza uma narrativa “verdadeira” seria alvo de discussão numa narrativa ficcional.

Notas

1. Conversa na Catedral (1969), A Guerra do Fim do Mundo (1981), História de Mayta (1984), A Festa do Chibo (2000), O Paraíso na Outra Esquina (2003)…

2. Entrevista de Mário Vargas Llosa ao DNA, 21/04/2001, p. 15.

3. Entrevista concedida a Octávio Gameiro, Público, 20/07/1996, p. 5 do suplementos “Leituras & Sons”.

Referências

ARRUTI, José Maurício (1996-97) “Uma antropologia Mameluca a partir de Darcy Ribeiro, 1995: O Povo Brasileiro – a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras”. Revista da Faculdade de Letras, nº 21-22, 5ª série, pp. 301-312.

COPANS, Jean et al (1971) Antropologia. Ciência das sociedades primitivas? Lisboa: Edições 70/ Biblioteca 70, 1974.

FERREIRA, Vergílio (1980) Conta-Corrente 1 (1969 a 1976). Amadora: Livraria Bertrand.

LEITE, Carolina (1999) “Conto e Histórias de Vida nas Ciências Sociais”. Comunicação e Sociedade, Cadernos do Noroeste, Série Comunicação, vol. 12, nº 1-2, pp. 219-227.

LEWIS, Oscar (1961) Os Filhos de Sánchez. Lisboa: Moraes Editores/ Mundo imediato, nº 1, 2ª edição, 1979.

NÓVOA, António (2000) “História & Educação”. Educação Ensino, nº 22, Maio-Junho, pp. 9-11.

PESAVENTO, Sandra Jatahy (2000) “Fronteiras da Ficção: diálogos da história com a literatura”. Revista de História das Ideias, vol. 21, pp. 33-57.