“Nascer não é uma fatalidade, mas uma escolha pré-consciente, daquela consciência que se perde quando se voa do céu para a Terra, como dizia Platão.”

(Agostinho da Silva, Vida Conversável, p.14)


sábado, 11 de julho de 2020

A Poesia de Manuel (D'Angola) de Sousa


“Furando Tuneis Na Existência Psíquica E Mental Da Terra Física”

Furo um túnel debaixo de terra molhada
Rego raízes de muitos que delas se originam
Podo os ramos que estão hipoteticamente a mais

Ainda oiço falar perto de genocídio
Vejo com o terceiro olho mesmo meio fechado
Quando na escuridão absoluta resplandeço à mesma

Olho a intensidade da luz num piscar de olhos
Benzo-me mesmo assim de mãos atadas atrás das costas
Mastigo a hóstia ainda sem me aperceber disso

Tranco a mim e as memórias no interior dum cofre
Esqueço-me por infinitos instantes onde guardei as chaves
De martelo na mão arrombo portas impenetráveis

Limpo os bolsos de hipocrisias e falsarias à toa
Raspo da superfície da língua palavras indiscretas
Digo o que não devo sem ter tempo para pensar nisso

Vou até ao limite de minhas hipotéticas posses
Armo-me sem armas em pateta e em quem sabe de tudo
Arrasto de rastos a ignorância pela poeira da estrada

Aguardo paciente que a estupidez dilua em pouca água
Dissolvo a vaidade ilusiva e disfarçada em falsa modéstia
Resolvo pular borda a fora do barco em alta velocidade…

Pego a prancha para deslizar nas ondas turbulentas de um mar calmo…

Escrito em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 8 de Julho de 2020, em Alusão Seres Voadores, sejam eles pássaros de todos os tipos, assim como, àqueles que perderam o poder do vôo, e sejam eles pertencentes à classe das aves ou dos mamíferos, ou ainda, aos da classe dos répteis que adquiriram a habilidade para planar, etc…

Não fossem estes e as abelhas e todos os outros animais que, fazem das árvores e das plantas parte essencial de suas vidas e de suas sobrevivências diárias, e talvez as florestas e as selvas nunca se teriam desenvolvido e invadido o Planeta Terra de um verde vegetal e que, ainda, nos proporciona parte substancial do oxigénio que nos permite respirar e sobreviver…

terça-feira, 7 de julho de 2020

QUANDO PORTUGAL DEU O SALTO PARA O MUNDO


Luís Santos


Agora que estamos perto da execução das obras de Requalificação do Cais do Descarregador, em Alhos Vedros, relembramos que por ali, em 1415, se realizaou o Conselho Régio onde estiveram o rei D. João I, com os seus filhos, a famosa Ínclita Geração, onde pontuavam Infante D. Henrique, o Navegador, e D. Duarte futuro rei de Portugal, masi Nuno Álvares Pereira, condestável do reino, entre outros, e foi dado o "tiro de partida" para a incrível obra que constituiu (e ainda constitui) a Expansão Ultramarina Portuguesa. Faz este mês 605 anos.

Poucos anos depois, no final desse século, o alcochetano rei D. Manuel I, assistia à saída da armada de Vasco da Gama, rumo à Índia, ali no Estaleiro da Ribeira das Naus, na Azinheira Velha, hoje Santo André - Barreiro, então concelho de Alhos Vedros. A Ribeira das Naus ou Feitoria da Telha, funcionava em complementaridade com a Ribeira das Naus de Lisboa, sendo a construção dos navios iniciada no verão em Lisboa, e conclída no inversno na Azinheira Velha, por se tratar de um local abrigado.

Menos de um século depois, Afondo de Albuquerque, neto de Gonçalo Lourenço de Gomide, à época o dono de todos "os direitos, rendas e senhorios de Alhos Vedros", tornava-se Governador da Índia, mandato que exerceu entre 15019 e 1515.

Assim, entre 1415 e 1515(!), os episódios que se podem relacionar entre a região e a Expansão Ultramarina são de facto impressionantes. Mas há mais...

Na foto, o lugar do Estaleiro das Naus, na Azinheira Velha, hoje concelho do barreiro.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (403)


Retrato do Papa Inocêncio X, Ano 1650
Óleo sobre Tela, 140 x 120 cm

Nascimento, 6 de Junho de 1599, Sevilha, Espanha
Morte 6 de Agosto de 1660, Madrid, Espanha

Diego Velásquez foi um pintor espanhol, um dos maiores nomes do Barroco europeu. Foi o pintor da corte de Felipe IV da Espanha.

Diego Rodriguez de Silva Velázquez nasceu em Sevilha, Espanha, no dia 6 de Junho de 1599. Em 1611 iniciou um aprendizado no atelier de Francisco Pacheco que se prolongou por seis anos. Em 1617 obteve a licença de pintor. Em 1618 casa-se com Joana, filha de Francisco Pacheco.

Ainda adolescente, pintou algumas obras religiosas, entre elas: “Jesus em casa de Marta e Maria” (1618), Imaculada Conceição (1619) e Adoração dos Magos (1619), obras de um realismo incomum e com belos efeitos de claro e escuro.

Em Janeiro de 1650 é admitido na Academia de San Luca. Em Março, expõe no Pantheon o “Retrato de Juan de Pareja”. Em Julho, pinta o Retrato de Inocêncio X.
O quadro de Diego Velázquez, Papa Inocêncio X (1650) encontra‑se em Roma na Galeria Doria Pamphigli. É uma pintura ao estilo realista representando um Papa fulgente, radioso, magnífico, seguro, em suma simbolizando a robustez de um dos pilares fundamentais da cultura e civilização ocidentais. Quando o Papa viu pela primeira vez o quadro pintado por Velasquez terá exclamado “Troppo vero!”.

Trezentos anos depois Francis Bacon viu‑o em reprodução e reuniu depois uma vasta coleção de reproduções, através das quais veio a estudar e a conhecer profundamente o quadro. Teve o cuidado de nunca o ver ao vivo e mesmo quando esteve em Roma evitou a todo o custo o encontro. Entre 1951 e 1965 pintou 45 estudos, variações, reações ao quadro de Velázquez, sentindo sempre uma fortíssima obsessão por ele.

À semelhança de muitos outros artistas do pós‑II Guerra Mundial tentou reproduzir o clima de terror absoluto e descrença na cultura, expressando o que aconteceu à humanidade finda a Guerra e o Holocausto nazi: a destruição geral, a morte, o flagelo, o holocausto nuclear, a despersonalização do homem que se converte em cadáver atirado para valas comuns, seres asfixiados, queimados e atirados fora como lixo, o desespero mudo dos rostos de bocas abertas, incapazes de produzir qualquer som…

in Revista Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, 2016 7(1): 45-53

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 4 de julho de 2020

José Gil


RESILIÊNCIA DE CAIM
o braço do violoncelo da vida e do mundo
ágil, claro e incisivo no teu corpo
a saudade íntima e a esperança alargada
vibro o fogo das horas no relógio tranquilo
o teu ritmo vegetal em finos raios de luz
um íntimo esboço nas ondas
para libertar os tons amarelos
nos trilhos das pernas doces
ama amor devagar a vida é u navio
os dias ondas para continuar nelas
traço a traço as tuas costas
na delicadeza da música dos
dedos e das cerejas secas de mel
de palmela
Do Castelo avisto a aguarela das cores
e a música das flautas
desenho um cais de chegada
flor seca de tília na sola dos pés e no
chá
resiliência
sensual
fruição
Praias de Cascais
Jose Gil
versão de 1-7-2020
09:37h

quarta-feira, 1 de julho de 2020

EG#124


ESTUDO GERAL
jun/jul             2020      Nº124

“Nascer não é uma fatalidade, mas uma escolha pré-consciente, daquela consciência que se perde quando se voa do céu para a Terra, como dizia Platão.” 
(Agostinho da Silva, Vida Conversável, p.14)
  
Sumário
Fim
Bairro Gouveia
Ilha dos Amores
António Telmo
Graffitar a literatura
Poemas
Alhos Vedros TV


---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------

segunda-feira, 29 de junho de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (402)



Nascimento a 29 de Junho de 1900, em Lyon, França
Morte a 31 de Julho de 1944, local incerto ao largo de Marselha

Antoine de Saint Exupéry foi um escritor, ilustrador e piloto francês, autor de um clássico da literatura, “O Pequeno Príncipe”, escrito em 1943.
Era o terceiro filho do conde Saint-Exupéry e da condessa Marie Fascolombe, família aristocrática empobrecida. Estudou no colégio jesuíta Notre Dame de Saint Croix e no colégio dos Marianistas, em Friburgo, na Suíça.
Em 1921 ingressou no serviço militar, no Regimento de Aviação de Estrasburgo. Tornou-se piloto civil e subtenente da reserva. Em 1926 foi admitido na Aéropostale, onde começou sua carreira de piloto de linha, voando entre Toulouse, Casablanca e Dacar.
Com a invasão dos nazis em França, Exupéry fugiu para os Estados Unidos. Nesse período, escreveu "Carta a Um Refém" e incentivado por editores americanos, que viram sua habilidade como desenhista amador, foi desafiado a fazer uma obra para crianças. Até ali, seus livros falavam de sua paixão profissional: a aviação.
Em 1943, Antoine de Saint-Exupéry voltou para a força aérea no Norte de África e tal como o Pequeno Príncipe no final do livro, Saint-Exupéry parece ter apenas desaparecido da terra,  abatido por um caça alemão durante uma missão de reconhecimento, no dia 31 de Julho de 1944,.
Seu corpo nunca foi encontrado. Em 2004, foram descobertos os destroços do avião que pilotava, a poucos quilômetros da costa de Marselha, em França.

Selecção de António Tapadinhas

segunda-feira, 22 de junho de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (401)




Quase Auto-retrato, Autor António Tapadinhas, 2020
Acrílico sobre Tela, 60 x 80 cm


Selecção de António Tapadinhas


sexta-feira, 19 de junho de 2020

Pedro Du Bois, Poemas


APRENDENDO A VOLTAR

XXIX
voltar é a representação gráfica
do naufrágio
e
a antevisão do encontro
não acontecido
ao acaso

nos cestos os ovos permanecem
estáticos em vidas
interiores

anteriormente
pensei desenhos
decompostos em traços
onde enredei
o sentido
da lembrança

a vida explode receptáculos
          e retorna como sina.


(Pedro Du Bois)
-------------------------------------------------------------------
outros poemas:

terça-feira, 16 de junho de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

ADEUS, ATÉ OUTRAS ÁGUAS!

E chegámos às linhas de circunstância do último dia. Amanhã a Matilde apresentar-se-á para o segundo ano e por isso eu terminarei o meu trabalho em torno dos diários. 



O mundo continua louco, numa deriva terrorista que nos ameaça o modo de vida e sem que se vislumbre no horizonte uma resposta cabal para o problema. 

Só espero que não venhamos a chorar lágrimas de sangue por tanta tibieza. 



De Portugal só posso esperar que o pessimismo venha a ser uma benevolência, mas tudo indica que não seremos capazes de sair dos tentáculos dos polvos que atrofiam a nossa sociedade. 
Estamos a caminho de um misto entre o Brasil e a Tailândia e eu só espero que as minhas filhas venham a fazer os cursos superiores no estrangeiro e que aí fiquem para as respectivas vidas pessoais e profissionais. 

Nada me repugna que a minha descendência venha a ter outra nacionalidade. 



Em parte gostei do que vi no dia de apresentação da Margarida. 

O horário é bom, todo ele concentrado de manhã e com três tardes livres por semana. Das oito e meia às treze e trinta, permitirá à minha filha estudar e ter tempo para brincar, sequer havendo grandes alterações quanto à hora do almoço. 
Para além disso, a escola tem uma boa biblioteca e um bom espaço de ludoteca em que os alunos sempre podem passar os tempos livres que por ventura tenham. 
E o Director de Turma é um bom Professor de Música, cujo trabalho tivemos oportunidade de ver este ano através dos alunos da turma da Inês Ourives, uma amiga da Margarida desde os tempos do jardim de infância. 

Esperemos agora para aquilatarmos da qualidade do restante corpo docente. 

A turma que é a mesma da quarta classe é boa e vem muito bem preparada, assim os novos mestres saibam e consigam puxar pelos alunos que terão pela frente. 



Ando agora a ler mais um volume da história da literatura mundial. (1) 

Trata-se do período em que Portugal começou a afastar-se do mundo civilizado. 



A Matilde, apesar da apresentação ser amanhã, ainda terá mais uns dias de férias pela frente, pois as aulas, propriamente ditas, apenas começarão na próxima quarta-feira. 

“-Olha que sorte, heim pardalito!” 



E eu dou por encerradas estas páginas e, com elas, os diários das minhas filhas. 


Foi um trabalho e peras, devo reconhecer e acreditem que me sinto satisfeito por escrever até sempre, o que não será um adeus definitivo, pois aqueles que me vão lendo sabem muito bem que certamente voltarei em outras águas. 


Alhos Vedros 
  16/09/2004 


NOTA 

(1) Ibañez, Eduardo, HISTÓRIA DA LITERATURA MUNDIAL, IV – AS LITERATURAS NO SÉCULO XVII 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Ibañez, Eduardo, HISTÓRIA DA LITERATURA MUNDIAL, IV – AS LITERATURAS NO SÉCULO XVII, Tradução de Serafim Ferreira, Círculo de Leitores, Lisboa, 2002 


 FIM

segunda-feira, 15 de junho de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (400)



 “A Balada do Mar Salgado”
Autor Hugo Pratt

Hugo Pratt nasceu em Rímini, Itália a 15 de Junho de 1927 
e morreu em Grandvaux, Suíça a 20 de Agosto de 1995.

"Tudo começou na ponta de uma navalha: Corto Maltese, nascido a 10 de julho de 1887, em La Valletta, marinheiro e filho de uma cigana feiticeira andaluza e de um marinheiro britânico da Cornualha, não gostou da linha da sorte que viu na sua mão, e resolveu solucionar o assunto, rasgando uma mais do seu agrado. Da sua morte temos apenas algumas pistas, numa outra obra de Hugo Pratt, “Os Escorpiões do Deserto”, em que o guerrilheiro o guerreiro danakil Cush, em conversa com um fascista italiano, que acabará por matar, fala do amigo desaparecido na Guerra Civil de Espanha. Num livro sobre Corto constará que terá morrido fuzilado em Málaga, pelos franquistas." (1)

Fez mais de meio século, este ano, que Hugo Pratt publicou as primeiras pranchas da “A Balada do Mar Salgado”, a obra que inaugurou a saga de Corto Maltese.


Selecção de António Tapadinhas

sábado, 13 de junho de 2020

Uma disponibilidade para o Tudo


A "Ilha dos Amores" e o “Quinto Império”: entre Luís de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva

Luís Carlos dos Santos


O Padre António Vieira, o Imperador da Língua Portuguesa, como Pessoa o designa no seu livro “Mensagem”, exemplo vivo do homem total e do universalismo português, uma das personalidades mais distintas e originais da nossa cultura, é herdeiro da teoria joaquimita das “Três Idades” que são constituídas, como já se disse, pelas eras do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que têm correspondência na Terra a três grandes períodos históricos, o primeiro, desde a Criação anunciada no Evangelho até à conversão de Constantino, imperador Romano, ao cristianismo; o segundo, até à expansão da mensagem cristã ao mundo com os Descobrimentos Portugueses; o terceiro, com a consumação até ao final dos tempos do V Império, ou seja, da consolidação do Reino de Deus na Terra, com a descida do Paráclito, na unificação de todas as nações do mundo numa comunidade eclesial conforme a profecia bíblica.
Mas Vieira há-de demarcar-se de Joaquim de Flora, pois que para si são Cristo e a Igreja, e não o Espírito Santo, os consumadores do Reino Divino na Terra. Como nos diz Paulo Borges, “…uma igreja composta de santos e abrangente de toda a humanidade.”[1] Depois da queda a libertação será em Cristo. A progressiva apropriação de todos os homens em Cristo, pela universalização da Igreja e da santidade. Ou seja, do “fim dos tempos” em que Deus será tudo naqueles que nele transfigurados, já não serão muitos mas Um só, suponha o necessário esforço humano de uma remoção dos impedimentos à manifestação de tal Unidade.[2]
Seguindo Paulo Borges, “Mais do que uma realidade histórica, determinada por contraste com tudo quanto a antecede, a real Jerusalém Celeste é o “estado” de uma plenitude não compartimentada, em todos transparecente e toda de todos para todos fluente, na integral comunhão amorosa: “…porque todos perpetuamente se vêem a si mesmos, todos vêem a todos, e todos vêem tudo. Nada se esconde ali, porque lá não há vício; nada se encobre, porque tudo é para ver; nada se recata, ou dificulta, porque tudo agrada; e porque tudo é amor, tudo se comunica.”[3]
Em Vieira, a ideia de Santo Agostinho sobre a existência das “duas cidades”, “cidade dos homens” e “cidade de Deus”, correspondem à existência de Quatro Impérios já historicamente verificados, assírio, persa, grego e romano, e ao “Quinto Império” que estaria por vir, por construir, e que seria português.
Vieira vai relacionar a missão de Portugal na construção do “Quinto Império” com o que ele “encontra prefigurado no sonho de Nabucodonosor, interpretado pelo profeta Daniel: a pedra que, sem intervenção de mão alguma, embate violentamente nos pés de ferro e argila da terrível estátua antropomórfica, com cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze, pulverizando-a e convertendo-se numa “grande montanha” que enche a terra inteira (Daniel, 2, 31-45). Abatendo o gigantesco ídolo de pés de barro – símbolo dos quatro impérios e dos poderes mundanos (…) e da própria história enquanto exílio do Paraíso original -, a pedra, figura do Messias, do Cristo, ou da consciência desperta e livre, converte-se na montanha cósmica, símbolo da totalidade e do eixo que une céu e terra, espírito e matéria, transcendência e imanência.”[4]
É a missão da consolidação do Reino de Deus na Terra em que Vieira vê Portugal como o seu mais elevado representante, desde a aparição e profecia de Cristo a D. Afonso Henriques, antes da Batalha de Ourique quando lhe diz: “Vai e funda o meu Reino.” Cristo faz de Portugal a vanguarda do seu crescimento terreno, compreendendo-se que na consumação do império português a própria “potência” divina resulte “sublimada.”[5]
A Missão de Portugal é, pois, a de fundação de um Reino de Deus na Terra, fundado não para fins políticos como acontece com outras nações, mas com um fim apostólico que lhe é particular. É esse também o objetivo primordial dos Descobrimentos Portugueses.[6]
Como refere Agostinho da Silva, “O Vieira falava do mundo redimido, do mundo restituído plenamente ao Cristo (…) Afinal o povo português tinha o ideal de cumprir Cristo! (…) e que esse mundo perfeito tinha que ser fabricado por portugueses e por espanhóis.”[7]
Para o nosso autor, a profecia de Vieira está concretizada até à parte em que Portugal se autonomizou das colónias que administrava, acabando assim também por se libertar a si próprio, “O nosso ideal é que cada homem seja um universo nele próprio. O nosso ideal é que cada comunidade seja um universo nela própria. (…) Portugal está autónomo. Os outros bocados do que era Portugal autónomos estão. Mas isso não impede que haja entre eles relações de franqueza, não de política, e de atenção ao que neles há de comum para que se ressuscite um conjunto de comunidades capazes de partirem para um projecto que todos aceitem.”[8]
A obrigação hoje de cada português é a de pensar o mundo inteiro em paz com plena liberdade de pensamento em cada um. Claro que a paz e a liberdade devem ser construídos por todos, e não será obra exclusiva de portugueses. Mas, diz Agostinho, “o que acontece é que eu nasci em Portugal! O que acontece é que eu me fiz num país, o Brasil, que fala português, que tenho conhecimento de outras terras que falam português, pelo menos oficialmente, e que a minha primeira atenção vai para esses. A minha primeira atenção vai para os que estão mais perto de mim.”[9] E, por outro lado, cada vez que Portugal seguiu mais outros países que não o seu próprio íntimo, Portugal falhou. “ Então eu realmente quero pensar o problema, desejo pensar o problema quanto possível no âmbito possível dos povos que falam português ou espanhol. Depois veremos os outros. Por enquanto, eu não quero implicar os outros nesta história, porque de cada vez que eles entraram na vida portuguesa e na vida espanhola atrapalharam muito a outra que estava correndo bastante bem. É o problema que se põe agora com a CEE.”[10]
Voltando ao nosso Padre, Vieira tal como Camões ambos sustentaram que no tal mundo divinizado corpo e espírito ambos se conservam em liberdade. Em Camões isso aparece de forma muito mais ampla que em Vieira, eventualmente, pela influência que poderá ter recebido da filosofia oriental. Não se sabe. De qualquer forma, “um homem superior acaba por ser ao mesmo tempo do Ocidente e do Oriente. (…) E é a isso que devemos rumar.”[11]
Pessoa tem uma ideia diferente de Vieira sobre Quinto Império. Em Vieira o princípio dinâmico é mais político, em Pessoa mais unipessoal. “É que ao passo que o caso de Vieira é um caso político, o caso do Quinto Império do Pessoa é um império em que cada homem e cada mulher se soltem, um império que eles próprios exercem sobre si mesmos. Que cada homem e cada mulher possa atingir um ponto em que tenha a absoluta liberdade.”[12]
Mas Vieira também não seria contra essa conquista de liberdade, simplesmente, o caminho para lá chegar é diferente, o que é normal porque Vieira e Pessoa são personalidades históricas muito diferenciadas… “O próprio Camões o tinha pensado assim na Ilha dos Amores. Ali não há nenhum aspecto de limite à liberdade, está-se fora do tempo e fora do espaço, até disso se soltaram os homens. (…) Ao passo que o Vieira é, digamos, o político do colectivo, o Fernando Pessoa aparece como político do individual.”[13]
Seguindo as palavras de Agostinho, “O Vieira tem por último ideal, porque não podia ter outro, que o império que ele deseja construído por portugueses seja um império sem imperador, um império que os homens vivam numa fraternidade humana e numa compreensão divina, sem que nenhum homem mande em outros homens, sem que nenhuma nação mande em outra nação. Quando ele diz que o Quinto Império é instaurado por Portugal, não quer dizer que Portugal continue como imperador.”[14] O Vieira “era um homem de Brasil e Portugal, ele pensava fundamentalmente como é que vamos unir essas duas coisas, problema que ainda hoje anda por aí. Para já não falar das outras colónias ou províncias ultramarinas mais recentes. O Fernando Pessoa talvez tivesse achado que o grande caminho para isso não era a política que fez o Vieira e que ele perdeu… O Pessoa, já que ele não se sentia com capacidade de acção junto dos outros, talvez ele tivesse achado que o importante dele era aprofundar-se e soltar-se a si mesmo antes de soltar os outros. E quem sabe se não é esse realmente o caminho mais certo?”[15]
Mas Agostinho não deixando de reconhecer a importância dos dois pensadores portugueses e que, no fundo, embora as diferenças sejam substanciais, como diferentes são as épocas em que ambos viveram, não deixa de relevar o objetivo comum que os une, o que o leva a afirmar que “talvez o melhor seja juntar os dois e chamar-lhes Fernando Vieira…”[16]
Fernando Pessoa decidiu pôr-se à disposição de tudo o que aparecesse, do imprevisível, e aqui coloca-se a questão do Espírito Santo como a entidade do imprevisível de tão grande importância para o nosso Professor. “ E quando o São João diz no Evangelho, pondo as palavras na boca de Cristo, que será o Espírito santo o verdadeiro consolador dos homens, ele está a tirar a ideia de que pode haver um consolador muito mais válido, muito mais amplo do que o próprio Cristo. Um consolador que não venha curar as feridas e consolar o desastre, mas um consolador que venha de dentro pondo o espírito criador em perfeita liberdade. A verdadeira libertação dos homens, a verdadeira revolução seria pôr em perfeita liberdade o criador, o poeta que provavelmente todos os homens são. Não é o político, o poeta!”[17]
Então se pensarmos num império universal, que sirva um e outro lado, tanto o Vieira como o Camões têm limitações, porque defendem o Deus ocidental, ou seja o Todo. Já em Pessoa encontramos pela primeira vez a ideia de um Deus que é tudo, mas tem ao mesmo tempo a ideia de um deus que é uma disponibilidade.
Então, para Fernando Pessoa, “um império instaurado por gente do tipo português, essa unidade do mundo, em lugar de império podemos chamar-lhe uma unidade do mundo, essa unidade do mundo teria como filosofia e como teologia uma que declarasse verdadeiros todos os seus aspectos: o aspecto de tudo e o aspecto do nada. E podia unir isso não como alguma coisa contraditória à maneira do zen, como alguma coisa que tivesse dois aspectos contrários na sua unidade, mas por exemplo como alguma coisa que nós pudéssemos representar pela palavra disponibilidade.”[18]
Portanto, Agostinho da Silva vê uma perfeita linha de continuidade entre Camões, Vieira e Pessoa, embora pesem os diferentes tempos em que viveram e a inevitabilidade de serem influenciados pelas ideias de seu tempo. No fundo, Camões, Vieira e Pessoa são heterónimos do desejo de que haja no Mundo alguma coisa que seja a realização plena do homem. Ou, concluindo com palavras suas, “entendendo que o homem não é apenas esta coisa que vive aí uns anos e morre, mas que é alguma coisa de eterno, como uma centelha de fogo. É a centelha que se apaga, mas é também o fogo que sempre existe no mundo, qualquer aspecto que tomemos! Então o Camões, Vieira, Pessoa são aspectos de várias épocas, de várias tonalidades, de vários temperamentos, com o mesmo ideal de que haja no mundo alguma coisa que seja a realização plena do homem. A ideia de que essa realização plena não existirá se nós escolhermos, se fizermos tal coisa e abdicarmos de tal outra! Mas que essa realização plena é a disponibilidade para tudo. Uma disponibilidade que é ao mesmo tempo quieta, sentada, passiva, e uma disponibilidade que tem um ideal. É a disponibilidade para o tudo, nos vários aspectos com que o tudo nos aparece.”[19]
Quando Camões fez, no regresso da viagem de Vasco da Gama à Índia, os nautas aportarem na Ilha dos Amores abriu um “rasgão” no tempo e no espaço. De facto, essa ilha não existe. Não há rota, ninguém sabe que caminho os navegantes percorreram. “Os fenómenos desaparecem. Isto é, o Camões declara afinal, de outra maneira, que, para chegar àquela verdade absoluta que é a divinização do homem sem perder o humano, tem que se ultrapassar todo o mundo dos fenómenos. Estamos ultrapassando? Estamos desde o Descartes.”[20]
“Então, agora trata-se de inventar uma política adequada ao regresso para tornar a partir. E tornar a partir não é evidentemente para ir a qualquer espécie de fenómeno, é para tornar a ir outra vez meter-se no rasgão do espaço e ir para além da ilha dos Amores (…) Dizer Ilha dos Amores ou Quinto Império, vamos a isso, é mais completo até! Então o que se trata de fazer agora de mais importante é uma arrumação interna de Portugal que está bastante desarrumado.”[21]
(SANTOS, Luís Carlos dos (2016) Agostinho da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia. Vila Nova de Gaia: Euedito, pp.134-140)


[1] Paulo Borges, A Pedra, a Estátua e a Montanha, o V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália, 2008, p.65
[2] Cf., idem: 73
[3] Idem: 95, cf., Padre António Vieira, Sermoens, 2, pp.189-192.
[4] Idem: 21e 22
[5] Idem:129, cit. Padre António Vieira, Clavis Prophetarum, liv. 2º, cap. 13, XI, p.523
[6] Cf., idem: 130
[7] O Império acabou. E agora?, entrevista de Antónia de Sousa, Lisboa, Notícias, 2000, p. 103
[8] Idem: 110
[9] Idem: 110
[10] Idem: 110
[11] Idem: 108
[12] Idem: 115
[13] Idem: 115-116
[14] Idem: 115
[15] Idem: 116
[16] Idem: 116
[17] Idem: 117
[18] Idem: 120
[19] Idem: 123
[20] Idem: 126
[21] Idem: 127