Por dentro.
Por fora.
Por dentro e por fora.
Nem por dentro, nem por fora.
Entre.
(Luís Santos)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Crónicas de Viagem


Luís Santos

UNS DIAS DE FÉRIAS EM LEIRIA

Leiria, Batalha e Fátima, ou uma breve alusão aos reinos de Dinis, Mestre de Avis e Cristo.

CASTELO DE LEIRIA 
De grande valor simbólico para Portugal. As memórias perdem-se na ocupação romana do território, mas destaca-se uma forte ligação ao Rei Dom Dinis. Foi ele que mandou construir a sua torre de menagem, tal como mandou plantar o pinhal de Leira, cujas madeiras foram utilizadas na construção das caravelas que mais tarde foram às descobertas. Por isso, Fernando Pessoa lhe chamou "o plantador das naus a haver". Mas muito mais se deve ao famoso monarca, foi ele que iniciou os "Estudos Gerais", instituiu no país a Língua Portuguesa, fundou a marinha, protegeu os templários (que passaram a designar-se por "ordem de cristo" e cuja cruz foi ao mundo inscrita nas velas das naus), tal como remonta ao seu tempo o incremento do culto popular do espírito santo, embora este tenha sido acarinhado, sobretudo, pela Rainha Isabel de Aragão que ganharia fama de Santa...

MOSTEIRO DA BATALHA
D. João I e Filipa Lencastre, mais Ínclita Geração, permanecem na ala museu do Mosteiro da Batalha (uma das sete maravilhas de Portugal, classificado pela "unesco" como património mundial), que começou a ser construído em 1386! (...) Nesta parte do museu só os portugueses podem entrar sem pagar. Desculpem. Mais uma foto da Igreja do Mosteiro, como testemunho da extrema beleza arquitetónica de todo o edifício (se clicarem nas fotos poderão ver mais ao pormenor).

SANTUÁRIO DE FÁTIMA
- Eis o nosso anfitrião na chegada ao santuário, a omnipresente torre da igreja, a capelinha das aparições. Pomba Branca.
- Eis um padre e as doze badaladas. Um jovem padre, muito ausente de si, magro e teso, plena espiritualidade. Maria, Ascenção e Tomé.
- Eis a primeira missa inteira: cinco mistérios e o terço. Jesus.
- Eis o silêncio das gentes peregrinas na luta fraterna dos céus. Amor.
- Eis o vislumbre da ressurreição. Luz.



quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Ao sabor do vento...



Na Holanda,a NS (rede de comboios holandesa) opera cerca de 5.500 viagens de comboio por dia. Desde janeiro que os comboios elétricos desta rede funcionam 100% a energia eólica.

O que sabemos sobre os números do consumo das energias renováveis e não renováveis? Importa reverter a tendência do consumo das energias não renováveis: Energia do Carvão; Energia do Petróleo; Energia do Gás Natural; Energia do Urânio.

Exemplos de Fontes de Energias Renováveis: Enregia Hídrica; Energia Eólica; Energia Solar; Energia Geotérmica; Energia das Ondas e Marés; Energia da Biomassa.
O que sabemos sobre os números, nos países da lusofonia, tornando o seu consumo mais eficiente e substituindo-o gradualmente por energias renováveis limpas?
Inúmeras são as fontes de energia disponíveis no nosso planeta, sendo que essas fontes se dividem em dois tipos, as fontes de energia renováveis e as não renováveis.
As fontes de energia renováveis, são aquelas em que a sua utilização e uso é renovável e pode-se manter e ser aproveitado ao longo do tempo sem possibilidade de esgotamento dessa mesma fonte, exemplos deste tipo de fonte são a energia eólica e solar.
As fontes de energias não renováveis têm recursos teoricamente limitados, sendo que esse limite depende dos recursos existentes no nosso planeta, como é o exemplo dos combustíveis fósseis.
Margarida Castro ( diálogos_lusófonos@yhaoo.grupos.com )
(notícia completa AQUI)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Foi pois espontânea e inesperadamente que eu iniciei o primeiro diário da Margarida.  
Quando por volta dos seis meses de vida da minha querida filha dei conta do trabalho realizado, de imediato compreendi o interesse do mesmo e decidi que se prolongaria até ao dia do seu primeiro aniversário. 

Em Janeiro desse mesmo ano escrevera um artigo (1) em que registava a minha primeira abordagem ao racismo e, para além da continuação dessa pesquisa, tinha planos para escrever um romance que contava iniciar quando a Primavera estivesse no zénite. 
Entretanto habituei-me à conversa a propósito do piolhinho e senti que não poderia desperdiçar essa oportunidade. 
Era a primeira vez que eu experimentava a pena naquele género e a verdade é que o estava a fazer de forma inédita; tanto quanto sabia e ainda hoje assim permanece, nunca antes fora escrito um diário que tomasse para mote o primeiro ano de vida de uma filha. 
Com isso ganhava aquele volume o estatuto de peça do conjunto da minha obra literária, ainda para mais contendo uma outra deambulação em águas estranhas, especificamente no domínio do conto infantil. Tinha assim motivos mais que suficientes para tentar levar aquele trabalho até ao fim, logicamente, com o melhor e máximo zelo que me fosse possível. 

É claro que depois disso eu continuei a produzir tanto ficção quanto análise antropológica, assim como acabei por cumprir os planos do romance (2) planeado enquanto fui dando cor às páginas daquele primeiro diário. 
Mas quando a Matilde estava para nascer, a Luísa recordou-me o dever de repetir para ela aquilo que fizera para a irmã. 
Ora no balanço desse livro deixei em aberto a hipótese de aplicar a operação aos primeiros anos de escolaridade das minhas filhas (3) e como materializei a intenção com a mais velha, tornou-se evidente que a minha experiência no plano da diarística ficaria completa com este quarto trabalho de uma série que, pelo que têm em comum, forma assim um conjunto que poderia designar como os diários das minhas filhas. 
Justifica-se pois toda esta produção pelo seu ineditismo quer quanto ao objecto central do discurso, quer pela forma em que a mesma foi executada e apresentada. 


E já que estou em maré de recapitulações, devo reparar uma falta que sempre ficou no primeiro destes volumes. 
Na convalescença de uma forte gripe que apanhei logo nos primeiros dias do piolhinho, li uma compilação de cartas trocadas entre Salazar e Marcelo Caetano e que certamente por esquecimento não referi ao falar da enfermidade por que passara. (4) 
E recordo como naquelas epístolas (5) se pode compreender melhor a personalidade do delfim do que na maior parte da ensaística que por aí anda a respeito do homem de que um recente estudo de Vasco Pulido Valente é um bom exemplo. (6) 
Dez anos depois, lavro aqui a reparação deste lapso. 



Hoje os alunos trabalharam com os números para o que realizaram vários e diferenciados exercícios e fichas do livro de Matemática. 



Ah! E outra coisa a respeito dos diários. 

Fora do domínio dos textos de carácter antropológico, foi com eles que comecei a assinar com o meu próprio nome, com isso transcendendo o âmbito que delineara para o projecto Sebastião Sorumenho. 

Quando findar estas páginas, terminarei igualmente esta parcela da minha literatura. 


Deus me ilumine até lá. 


 Alhos Vedros 
  03/02/2004 


NOTAS 


(1) Gomes, Luís F. de A., AND US AND THEM (BREVES PALAVRAS SOBRE O RACISMO) 
(2) Sorumenho, Sebastião, OS QUANTA E EU 
(3) Gomes, Luís F. de A., O DIÁRIO DA MATILDE – O MEU PRIMEIRO ANO DE VIDA 
(4) idem, O DIÁRIO DA MARGARIDA – O MEU PRIMEIRO ANO DE VIDA, pp. 17 e ss 
(5) Freire Antunes, José, SALAZAR CAETANO CARTAS SECRETAS 1932-1968 
(6) Pulido Valente, Vasco, MARCELLO CAETANO AS DESVENTURAS DA RAZÃO 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Freire Antunes, José, SALAZAR CAETANO CARTAS SECRETAS 1932-1968, Preâmbulo do Coordenador, Círculo de Leitores, Lisboa, 1993 
Gomes, Luís F. de A., AND US AND THEM (BREVES PALAVRAS SOBRE O RACISMO), CACAV, Alhos Vedros, 1995; O DIÁRIO DA MARGARIDA – O MEU PRIMEIRO ANO DE VIDA, Dactilografado, Alhos Vedros, 1995; O DIÁRIO DA MATILDE – O MEU PRIMEIRO ANO DE VIDA, Dactilografado, Alhos Vedros, 1997 
Pulido Valente, Vasco, MARCELLO CAETANO AS DESVENTURAS DA RAZÃO, Gótica (3ª. Edição), Lisboa, 2003

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (267)

Ode Triunfal, Fernando Pessoa/Álvaro de Campos
Desenho de Pedro Sousa Pereira (pormenor)


Selecção de António Tapadinhas


sábado, 12 de agosto de 2017

"Casa 8"


Partilho um pequeno contributo de meu trabalho que anexo, uma referência à astrologia, à casa 8, ás transmutações e acepções de transfiguração e ascenção do ser, ás permeabilidades de toda a dinâmica de intimidade, sociedade e partilha que implica transformação, em fusão, regeneração, processo alquímico, nos veículos da afectividade nos laços do coração, esse canal tão permeável de manifestação da alma. 

Ana Pereira


CASA 8
 Mixed media on canvas  
 60x50 

Ana Pereira

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A Crise do Porco


Risoleta Pinto Pedro

O porco faz parte do meu imaginário, como o de toda a gente.
Nos livros de histórias da minha infância eram muito redondinhos e apetecia pegar-lhes ao colo, um pouco como aquele porquinho da Tânia (se nos esquecermos da lâmina que lhe pôs na cabeça,  quando começou a ficar cor de rosinha, antes de ela o perverter na cor), minha amiga artista que criou a escultura de um porco com arame e papel, a propósito de um livro muito interessante sobre o mesmo, com texto e pintura, que saiu na &etc.  
Suponho que até cheiravam bem esses porquinhos das histórias de menina, qualquer perfume com uma imaginária marca Walt Disney. O porco da minha infância estava sustentado por uma estética aristotélica, muito diferente da desses porcos do livro da &etc, tão escandalosamente parecidos connosco, tão cheios de celulites e adiposidades fora do sítio e com um ar tão cheio e tão alienado de si que os torna escandalosos.
São tantas as máscaras do porco: o porco da matança, o porco dos vermes, o porco dos três porquinhos, o corpo do porco que, aberto, é um mapa, quase à escala do nosso interior. Porco meu, espelho meu, quem é mais bela do que eu? O espelho devolve-me uma imagem que me faz lembrar vagamente alguém... serei eu? Mas o que é aquela coisa espiralada ali atrás? A espiral está por trás do porco, o porco é rematado em espiral. Há esperança.
Atenção ao porco dentro de nós, ele espreita e ameaça tomar conta da situação a qualquer momento. Ninguém está livre do porco.
É imoral porque tem estrias na alma. O único porco digno é aquele verdadeiro, o da pocilga, honesto e igual a si mesmo. Viva o porco, abaixo o porco.
…………………………………..

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A TRISTE VIDA DE UMA VACA LEITEIRA


Consumo de Leite e de Carne por Pessoa

António Justo
Uma vaca leiteira produz 7.740 quilos de leite por ano (cerca de 20 litros por dia em média). A Alemanha tem, atualmente, 4,21 milhões de vacas leiteiras em 67.319 explorações agrícolas.
Na Alemanha consomem-se, por pessoa, 52 litros de leite bebidos, 17 Kg de iogurte e 25 Kg de queijo, por ano.
Os lavradores recebem atualmente entre 33 e 35 Cêntimos por cada litro de leite. Lavradores alemães queixam-se que um preço de compra ao lavrador justo, para cobrir os custos, deveria andar pelos 40 cêntimos por litro.
Geralmente, depois de três anos de produção de leite, a vaca leiteira aos cinco anos é levada para o matadouro. Uma vaca podia alcançar uma idade de 25 anos. Uma pecuária apropriada à espécie exigiria uma alimentação doméstica em vez de uma alimentação em grandes vacarias com o pasto gene-Soja importado.

Consumo de Carne
A vida de animais em campos de concentração só poderá ser melhorada se o consumo de carne e leite for mais moderado e direcionado no consumo de mais vegetais.
Em 2014 a Alemanha consumia 53 Kg por pessoa, por ano, Portugal 40 Kg, o Brasil 42 Kg, a Espanha 57Kg, a Índia consome 5Kg por pessoa.  Em Portugal o consumo real é certamente maior do que o registado nas estatísticas atendendo ao facto de muitas famílias, no interior, terem galinhas para consumo. Estas são geralmente galinhas felizes porque criadas à solta e com alimentação natural!

Em 2015  o consumo de carne por habitante na Alemanha era de 88,3 Kg por pessoa, o que, tirando os ossos, corresponde a um consumo de 60,3Kg por pessoa.

Quem compara diferentes estatísticas chega à conclusão que os dados estatísticos oscilam bastante.

António da Cunha Duarte Justo

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Um Poema de Pedro Du Bois


DIZER
(inédito)

O homem diz: não deveria estar aqui
       meu caminho indica o outro lado
para onde irei
e onde me estabelecerei e acreditarei
chegar ao meu destino: o caminho
se fará completo nas músicas
que tocarei no final dos dias

nada acontece por acaso e músicas
são sons não estabelecidos na pauta
que o improviso sobrepuja a razão
no desconhecimento dos sonhos

o homem diz: por pior que seja
estou disponível e minhas leituras
completam o que me foi ensinado
quase nada
         muito pouco dessa ciência louca
que muda conceitos do que se sabe
hoje e se sabia ontem que amanhã
serão novos instrumentos e minha voz
calada no final do dia não dirá nada.

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TO SAY
(Marina Du Bois, English version)

The man says: should not be here
        my way shows the other side
to where I will go
and where I will settle down and believe
I have reached my destination: the path
will be completed by the songs
I will play at the end of days

nothing happens by chance and songs are
sounds unestablished in the musical sheet
which improvisation surpasses reason
in the ignorance of dreams

the man says: no matter how bad
I am available and my readings
complete what I was thaught
almost nothing
            very little of this crazy science
that changes concepts of what is known
today and was known yesterday that tomorrow
will be new instruments and my silent voice 
will say nothing at the end of the day.

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outros poemas:
https://plus.google.com/u/0/108438516741639533660
http://pedrodubois.blogspot.com.br/

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

PARABÉNS, MARGARIDA!

Há dez anos atrás, a esta mesma hora, muito provavelmente estaria a esta mesma secretária a escrever um outro diário, o primeiro de todos, pois tinha acabado de chegar a casa depois da visita do fim da tarde às minhas duas paixões. 

Não mais esquecerei o ar fresco da madrugada desse dia, por entre o qual eu tive a sensação de planar quando descia a calçada que rodeia o edifício do Hotel Sheraton em busca de um táxi. 
Passava das seis quando cheguei a casa e por via de um impulso irresistível me sentei para descrever esses momentos extraordinários que acabara de viver. 
Sem o saber, iniciei aí o primeiro diário da Margarida. 

Pois foi assim hoje um dia festivo, o décimo aniversário do piolhinho adorado que teve festa na sala de aula para a qual convidou a Beatriz e a Matilde que lhe ofereceu uma moldura de cartão feita por ela, onde colocou uma fotografia de cada uma delas. 


“-Ó pai, dás-me uma sugestão para eu fazer uma prenda para a Margarida?” –Perguntou-me a Matilde na noite de sexta. 
Mas foi ela quem acabou por imaginar e realizar a oferenda. 
E eu embevecido, ao vê-la toda concentrada na execução do seu plano. 


“-Parabéns, piolhinho!” 

E depois do jantar cantámos o feliz aniversário em torno de um bolo que a Dona Rosário decidiu oferecer. 



Hoje foi um dia completo com fichas e jogos com palavras e as respectivas sílabas componentes. 



E no que resta da noite, vou perder-me em delícias que não desvendo. 


 Alhos Vedros 
  02/02/2004

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (266)



Êxodo, Marc Chagall, 1952
Óleo sobre Tela, 130x162 cm

Marc Chagall foi pintor, gravador e vitralista. Nasceu numa família judaica humilde de dez filhos na cidade de Vitebsk na Rússia no dia 07 de Julho de 1887. Descobriu sua inclinação para a pintura ainda jovem no estúdio de um famoso retratista em sua cidade natal, dando continuidade em São Petersburgo. Viveu em Paris de 1910 a 1914. Marc Chagall foi um dos maiores pintores do século XX  e faleceu em Saint-Paul-de-Vence, no Sul de França, em 1985.



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O sol brota infatigavelmente


O sol brota infatigavelmente
Fazendo-se cumprir as vontades 
Estabelecidas pela soberana Tropical.

Uma plácida resplandecência 
Desperta a triste feliz alvorada;
Ao ritmo de cantoria dos tafuis[i]
É embelezado o constante prelúdio
Do divino quotidiano.

Lá no cume, Terra Mãe
Guardião-Mor [ii]respira...
Sob a valentia do Além[iii], dos Presentes.

O vento suspira exaustivamente
Ou,
Conjuga-se pelo bel-prazer do caminhar dos avós[iv];
Um clássico assobiar inquieto!
Cumprimentando, suavemente,
As colinas, as florestas
As montanhas e as donzelas bocas do mar[v],
Ao repousar,
Culmina-se sobre acidentados escamas do Avô[vi].
Entre os escamosos, 
Fluem as senhoras ribanceiras
Imperando ao timbre de babadok[vii].

Uma correria ao rubro!

Vibrando invictamente
Com destino a braços dos majestosos 
Tasi-Feto e Tasi-Mane[viii];

Lá vem o novembro...
Pelas ordens dos beialas[ix] 
Levanta-se atrevidamente o cheiro à terra
Em sintonia com o bailar dos pingos torrenciais.
Com ai-suak[x], 
O velho maubere
Apunhala o rosto do chão
Desencadeando, assim,
A primordial cerimónia do cultivar de esperança.

O março se avizinha...
A temporada do sequencial 
Meticuloso ritual de obrigadu wa´in[xi]
- Ao Além, aos Sagrados, ao Céu, à Terra!

Dito e feito,
Governa-se
O desenfeitiçar do sagrado impiedoso[xii]!

Ao inteirar o ciclo
Invoca-se a presença agressiva de agosto
Onde a brisa quente despe o verde chão
As poeiras se erguem vertiginosamente
Clamando na atmosfera mauberense[xiii],
O existir do meu Timor-Lorosa´e.

Fertinal Alves


[i] Tafuis: Galos selvagens, muito comun no sul da ásia (nome cientifico: Gallus lafayettii)
[ii] Guardiâo Mor: Ramelau (relevo mais alto de Timor), a crença nativa atribui ao monte de ramelau como o guardião da ilha, o elo da ligação entre os vivos e os mortos.
[iii] Alem: Antepassados, a crença nativa timorense assume culto aos antepassados
[iv] Caminhar dos avos: A cultura timorense considera o vento como uma entidade, o sopro do vento representa a presença dos antepassados
[v] Bocas do mar: Traduçao literal de Taci-ibun, praia, em português.
[vi] Acidentados escamas do avô: De acordo com a lenda tradicional, a ilha tem origem de um crocodilo, sendo então, acidentados escamas expressam as montanhas
[vii] Babadok: instrumento musical de Timor
[viii] Tasi-Feto e Tasi-Mane: Mar-Mulher e Mar-Homem, respetivamente. Em timor, o mar que banha o norte da ilha é chamado de Tasi-Feto, sul, Tasi-Mane.
[ix] Beialas: Antepassados, segundo à tradição nativa, no período que corresponde à transição da estação de seca para a de chuva, faz-se rituais que invocam à natureza e aos antepassados, com o obejetivo de os puderem liberar a chuva
[x] Ai-suak: um utensilio tradicional feito de ferro que permite cavar ligeiros buracos para cultivar o milho
[xi] Obrigadu Wa´in: Muito obrigado (tradução literal), no poema, tal representa o ritual de ação de graça
[xii] O desenfeitiçar do sagrado impiedoso: Na época de chuva, é proibido qualquer colheita antes do ritual de ação de graça, qualquer infração sujeita-se ao castigo divino, como por exemplo, ser atigido por um raio, devorado por um crocodilo, entre oitros.
[xiii] Mauberense: deriva de maubere, o termo que designa o povo timorense

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Emparedado





«a casa abriga e obriga»
(Irene ou o Contrato Social, Maria Velho da Costa, 2000: 148)

A irracionalidade humana tem manifestações múltiplas. O ‘homem não aprendente’ repete os mesmos erros ad nauseam. Não aprende nem com a sua experiência nem com a História. Na paisagem urbana, em Portugal, proliferam exemplos como este que as duas fotos nos dão testemunho. Um prédio de seis pisos, quase pronto, ostenta a sua infuncionalidade por motivos que só o proprietário, o credor e o autarca saberão (e cada um argumentando com a sua ‘racionalidade’ – económica, financeira, jurídica ou outra).

Os tijolos fecham o que devia ficar aberto (portas, janelas, varandas). «Ah, pois, mas se não fosse assim… os toxicodependentes, os sem-abrigo, os marginais davam cabo de tudo.» Sem razões morais, éticas, humanas. Nem utilidade social mínima! Ali fica mais um mamarracho arquitectónico, inacabado, sem préstimo algum, uma mancha a conspurcar as já de si inestéticas urbanizações ‘modernas’ que cresceram na «fúria desenvolvimentalista» (expressão contundente do antropólogo Ruy Duarte de Carvalho). Um país que continua a dar-se ao luxo de emparedar edifícios quando há jovens a precisar de habitação, idosos a viver ao relento, gente a residir em barracas (sim, ainda não foi nomeada a comissão liquidatária do PER - Programa Especial de Realojamento, criado pelo Decreto-Lei nº 163/93 de 7 de Maio). Em suma, é O Sistema Irracional que Paul Baran & Paul Sweezy (Porto: Textos Marginais, nº 1, 1972) desmontaram.

Da recém-criada Secretaria de Estado da Habitação (desde 2005 que tal não existia na orgânica governamental) espera-se acção, impedindo os governadores civis de deixarem obra por acabar. Quem inicia um projecto tem que dar garantias financeiras para o levar a bom porto. Essa deve ser uma das condições obrigatórias para aprovação e licenciamento pela autarquia. Como se lê na epígrafe deste texto «a casa [também] obriga», em primeiro lugar, a quem a constrói. O governo deveria também elaborar um cadastro nacional dos prédios inacabados, que se encontrem em situação semelhante ao que aqui damos nota. No concelho de Cascais são às dezenas. Aterrador, o número, a nível nacional!

E a propósito deste tema, vem-me à memória um dos poucos livros que, ainda no decorrer do ‘bacharelato’, li e sublinhei de fio a pavio, por ocasião do meu primeiro trabalho de campo, no bairro clandestino das Bragadas, na Póvoa de Stª Iria – A Questão do Alojamento de Friedrich Engels; publicado em 1872, no formato de 3 artigos (polémica com os defensores do pensamento de Proudhon) e mais tarde reunidos em brochura. A edição portuguesa (Porto: Cadernos para o Diálogo, nº 3, 1971) incluía também um longo prefácio do autor, datado de 1887, para uma nova edição pois o «Governo Alemão, que proibindo-a, como sempre favoreceu grandemente a venda». Aí explica a sua intervenção nesta questão:
«Em consequência da divisão do trabalho entre Marx e mim, tomou-me defender os nossos pontos de vista na imprensa periódica, particularmente lutando contra as opiniões adversas, a fim de que Marx guardasse tempo para a elaboração da sua grande obra.» (p. 13)

Engels é, por esta altura, um escritor maduro, já não aquele companheiro d’ O jovem Karl Marx, filme de Raoul Peck (2016), que vimos aquando da abertura da 5ª edição da Judaica – mostra de cinema e cultura, a 6 de Abril, n’ o cinema da villa, em Cascais.
«Como resolver então a questão do alojamento?
(…) estabelecendo gradualmente um equilíbrio económico entre a oferta e a procura; esta solução não resolve definitivamente o problema (…) Quanto à maneira como uma revolução social resolveria a questão isso depende não somente das circunstâncias nas quais ela se produziria, mas também de problemas muito mais extensos, em que um dos mais essenciais é a supressão da oposição entre a cidade e o campo.» (pp. 59-60)

Para F. Engels «seria mais do que ocioso deter[-se] nesse ponto» [a supressão da oposição cidade-campo] por a considerar uma ‘utopia’. Decorridos todos estes anos, ela parece afinal bem mais próxima de todos nós: a urbanização imparável que a todos atrai, em especial os do mundo rural que, entretanto, se vai estiolando.
«a verdadeira 'crise do alojamento' (…) não pode fazer-se naturalmente senão pela expropriação dos proprietários actuais, pela ocupação dos seus imóveis por trabalhadores sem abrigo ou incomodamente amontoados nos seus alojamentos» (p. 60)

Por cá, em pleno PREC, houve uns arremedos do género, coisa soft e pontual… A «revolução social», de 1974-75, «lembra-me um sonho lindo, quase acabado / lembra-me um céu aberto, outro fechado» (Fausto, 1982). 

Luís Souta

90


ESTUDO GERAL
jul/ag         2017          Nº90

Sumário:

5.     José Flórido

-----------------------------Fim de Sumário---------------------------

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Hoje as miúdas passaram o dia nos escuteiros de Alhos Vedros. 
A amiga Beatriz fez a promessa e a Amélia convidou-as para ali almoçarem com elas. Depois passaram a tarde em brincadeiras alusivas ao dia de festa. 

Os pais aproveitaram para ir ao cinema. 
Vimos o último filme de Woody Allen que é simplesmente uma delícia. 

É ou não verdade que apesar de tudo podemos sempre recomeçar, ainda que seja do zero? 
Mesmo num mundo pós-moderno é possível viver com base em certos valores mínimos de decência e dignidade e de respeito pelo próximo. 
Não faz qualquer sentido resignarmo-nos ao desespero. 
E Manhattan lá está, mais uma vez, agora sob a luz da Primavera. 
Numa escala de zero a vinte, dezoito. 



E no Iraque lá houve mais um atentado sobre uma esquadra da polícia. 
Por enquanto, os inimigos de um Iraque livre ainda conseguem ter esta voz. 


E o pai da bomba atómica paquistanesa denunciou que o Irão, a Líbia e a Coreia do Norte receberam tecnologia nuclear a partir do seu país. 

Será que Kadhafi está a fazer o maior bluff da sua carreira para conseguir esconder um programa de construção de armas nucleares? 
Não me parece que fosse capaz de chegar a tanto. 

Já o Irão fica assim exposto no que respeita às intenções do seu programa nuclear, alegadamente, apenas destinado a fins pacíficos. 


O mundo está cada vez mais perigoso. 
Enquanto existirem este género de tiranias estaremos sempre sob a ameaça de guerras em que as armas atómicas façam valer as suas potencialidades de morte e destruição. 



Amanhã, a Margarida fará dez anos de idade. 


 Alhos Vedros 
  01/02/2004

segunda-feira, 31 de julho de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (265)

Os criminosos e as suas propriedades (ao começo do dia)
Álvaro Lapa, 1974 - 1975


Álvaro Carlos Dinis Lapa nasceu em Évora a 31 de Julho de 1939.
Aos oito anos de idade foi separado da família, após a prisão do pai, um trágico acontecimento que motivou a mudança de residência da mãe e dos dois irmãos mais novos para o Barreiro.
Álvaro Lapa faleceu em Fevereiro de 2006. Deixou a obra de um homem livre e criativo, filósofo de formação e artista autodidacta, que dedicou a sua vida à Pintura e à Arte, duas actividades indissociáveis e complementares na sua obra.

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Manuel de Sousa, Poesia!


“Promotor E Vendedor De Viciadas Promessas Blasfemas E Da Alma Penada E De Má Memória”

Como qualquer outro arranjo-me como promotor de promessas
Profissionalizei-me ao longo da vida como um profeta falsário
Conto estórias mal contadas e com contentos que não existem
Nado armado em campeão num largo mar imaginário de lendas

Baixo o capuz e mostro ao Mundo a minha recém-nascida careca
Ela reluz quase tanto como o próprio Sol num dia algo nebulento
Sonho com o dia que hei-de recuperar cada cabelo e pêlo perdidos
Consigo vez por outra têr pesadelos onde sou um gorila só da selva

Passeio-me pelos corredores decorados do museu da memória
Vejo dependuradas na parede craniana colecções intraduzíveis
Lembro-me quase todos os dias de uma nova lembrança antiga
Há quadros e imagens como que filmadas que dão para vender

Tombo num poço de más recordações e bato com força no fundo
Salpico as lembranças incólumes com pedaços grossos de lamas
Engesso as partes doridas e transmuto o rosto e as feições nele
Converso seriamente com um Druida famoso para me lêr a mão

Pretendo de ora em diante olhar para o futuro numa bola de cristal
Não sei descrever bem o que vejo no advir mas fico muito confuso
Afago as mágoas que pressinto no meu âmago e transpiro à farta
Desaperto botões e abro o fecho-de-correr a correr mui rapidamente…

Dispo na maior das urgências o corpo e refugio-me por inteiro e etéreo na Alma…

Escrito em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 27 de Julho de 2017, em Alusão ao Dia Mundial do Combate ao Câncer da Cabeça e do Pescoço, do Motociclista e da Pediatria, eventos que se celebram hoje…

Ainda, em Homenagem a todos os que sofrem de Doenças Mentais (Induzidas, provocadas, ou por causa de doenças ou por uso de drogas, ou em razão de crises sentimentais ou de origem natural/hereditárias, etc) ou outra de Fórum semelhante e que, apesar de tudo, têm vindo a auto superar-se e a conseguir obter sucessos e outros triunfos na vida e nas várias vertentes da criatividade, profissional ou artística…

“A Orson Wells, a Allan Poe e a Dante…”