"Não defendo este partido, nem o outro; se ambos diferem à superfície e podem ararastar opiniões, aprofundemos nós um pouco mais e olhemos o substrato sobre que repousa a variedade; o mundo das formas levanta oposições que se desfazem à luz do entendimento (...)"
Agostinho da Silva, O Terceiro Caminho, Diário de Alcestes (1945), in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 216-217.

sábado, 25 de março de 2017

Alimentação e Saúde


Para fortalecer o Sistema Imunitário e promover a auto cura:

1) modificar a dieta:  evitar ou retirar da alimentação as carnes vermelhas e derivados (enchidos, etc), o glúten, leite e lacticínios de vaca, e açúcar!

2) Tomar alguns suplementos de boa qualidade para limpar o organismo e ajudá-lo a curar-se: 3 gr de vit C/dia ou mais, Vit D + vit K2B12ácido fólicoóleo de peixe ou de fígado de bacalhau, o anti-inflamatório "evening primrose", curcuma + pimenta preta, alimentos  anti-fúngicos (alho, cebola, orégãos, óleo de côco, óleo essencial tea tree, vinagre de cidra), sumo de aloe veraprobióticos.

3) Chá verde, exercíco físico moderado e bom sono.


Informe-se com um profissional de saúde e seja responsável pela sua saúde!



~Paz&Luz~
Paula Soveral
paulasoveral.terapias@gmail.com 
  

quinta-feira, 23 de março de 2017

“POR VEZES TEMOS O FOGO NA BOCA”


por Barbara Pollastri e José Gil



Celebração da Poesia no seu Dia Mundial,  21 de março de 2017, com um “Atelier de Animação Teatro e Performance” numa colaboração entre a Biblioteca Municipal do Pinhal Novo e a Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal.

“O meu País é o meu Corpo” é o título do Atelier que realizámos na sala multimédia da Biblioteca com o objetivo de Sentir, Dizer e Fazer uma Performance de palavras, frases, versos, poemas inspirados por “Lençóis Bordados” da pintora contemporânea Lourdes Castro.

Participaram neste evento jovens da Escola Secundária do Pinhal Novo, acompanhados  pela sua  professora, e estudantes da ESE das Licenciaturas em  Tradução e Interpretação de Língua Gestual Portuguesa com as professoras Sandra Marques e Ana Silva e da Licenciatura em Animação e Intervenção Social com a professora Sandra Cordeiro.

                A música e a luz serenas criaram o ambiente criativo num chão povoado de lençóis e jornais. Num primeiro tempo, alguns dos participantes deitaram-se e relaxaram nos lençóis, enquanto outros desenhavam contornando os corpos com marcadores pretos [para sermos fiéis à referência da Pintora Lourdes Castro, num workshop mais prolongado no tempo, os lençóis seriam a seguir bordados].

                Num segundo tempo, cruzámos com outros corpos contornando também e deixando espaços vazios de interação para escrever palavras, frases, versos, poemas alusivos ao olhar refletido dos participantes.

                Resultou desta experiência laboratorial de “ensino” da poesia [alguns diriam “escrita criativa”] os “trabalhos” que foram paginados numa marcação própria para poemas a dizer na performance que se realizou de seguida:

(1)
“Por vezes temos o fogo
Na boca (…)
O avanço do relógio
Dá-nos uma certa
Alegria
Luz na
Vida”
João, 13 anos Escola Secundária do Pinhal Novo

(2)
“Dançarino dança na lua
Livre
Como as aves voam
Com as asas
No céu azul”
Mariana Silva, 13 anos Escola Secundária do Pinhal Novo

(3)
“A voz do sol,
Comeu a maçã do joelho
Uma ave tocou nos lábios
Com azeite
Com a cabeça”
Gabriel, 13 anos Escola Secundária do Pinhal Novo

(4)
“O otorrinolaringologista
Comeu com o cabelo o
Abacaxi e o ovo
Que estavam
No frigorífico
Na sua
Casa em
Júpiter
João Ribeiro, 13 anos Escola Secundária do Pinhal Novo 7º E, nº 14

Neste Atelier desenvolvemos técnicas da Professora e Poetisa Maria Alberta Meneres,  publicadas no seu livro “Um poeta faz-se aos 10 anos”, nos anos 70, e de outros colegas “professores de Poesia” que criaram com o estudante Rosi, de 12, anos o seguinte texto:

“O TEXTO
Era uma vez um texto
Era uma vez uma casa no texto
Era uma vez um cão no texto
Era uma vez um gato no texto
Há um pássaro
Ele voa
No texto”

O pensamento o a inquietação deste tipo de Ateliers retratam as temáticas de Alda Bizarro, bailarina e coreógrafa num livro recente “10X10 Encontros entre Arte e Educação”, Fundação Calouste Gulbenkian, 2017, p.41: “fica de fora [da educação] as danças malucas, o espaço dos que não têm jeito para jogar, dos gorduchos, dos que temem a competição, dos que gostam de se sentar no chão, ou até dos que gostam de estar deitados a ouvir, a escrever ou a desenhar. Na escola, bem como no resto da sociedade, a posição sentada ganha prevalência na hierarquia das posições. No entanto, a minha experiência no 10X10 diz-me que a estratégia de aprendizagem que põem as cadeiras de lado e recorrem a atividades que envolvem diretamente o corpo têm um enorme impacto junto dos alunos, suscitando o seu entusiasmo e a sua motivação”.

Performance Recital
A partir do Atelier com os  jovens, realizámos a Performance Recital que envolveu alguns estudantes dos cursos de Licenciatura da Escola Superior de Educação de Setúbal TILGP (Flávia Silva, Sara Tavares, Catarina Cândido, Barbara Pollastri e Ana Pires); AIS (Patrícia Brioso, Ana Catarina Barroqueiro, Ana Isabel Muge dos Reis, Ana Maria Ferreira, Sara Monteiro, Eulália Matta);  a estudante Erasmus Cecília Boechat e os jovens da Escola Secundária do Pinhal Novo.
Os poemas lidos foram, em alguns casos, criados pelos próprios estudantes da ESE, ao longo das aulas do 2º semestre, como é o caso seguinte:

“Quadris”

“Balançando ao som da Canção
Entre contração e Convulsão
Os passos consoados vão desenhando a dança

O movimento dos quadris aos poucos revela
A sedução velada que o corpo não nega
Mas esconde do tabu instituído e velado

O corpo fala enquanto a mente consente
Com as regras infundadas mas conscientes
E funciona como escape para o real desejo

E quando liberto o corpo explode
Extravasa, respira, suspira, transborda
E revela a verdadeira essência da carne”
(Cecília Boechat, março de 2017)

De salientar ainda o poema da colega Eulália Matta, escrito no próprio momento da Performance.

A Performance realizou-se em língua portuguesa de Portugal e do Brasil, bem como em crioulo, francês e italiano, enriquecida com a Língua Gestual Portuguesa, desenvolveu-se num cenário protagonizado pelos lençóis desenhados ao longo do Atelier.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Artes Plásticas: Ana Pereira



Ana Pereira

Sem título

Mixed Media on Canvas

40x50

Notem bem: Ver mais da autora AQUI



terça-feira, 21 de março de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O DESPORTO E A LIDERANÇA

A Margarida, neste momento, está a ler uma história para a Matilde. 
Daqui a nada levantar-me-ei para lhes dar um beijinho e desejar-lhes boa noite. 
“-Durmam bem, pardalitos.” 

E os meus anjinhos voltam-se e fecham os olhos. 
Dentro de momentos o sono tomará conta dos acontecimentos. 



O Partido Socialista só não vai de mal a pior porque já não tem qualquer grau qualitativo a que descer mais baixo. A não ser que se transformasse num bando de mal feitores, mas aí deixaria de ser um partido político propriamente dito. 
Hoje soube-se que Edite Estrela pretende retomar o seu lugar no Parlamento. 
Quer dizer que a senhora que ontem foi condenada a cumprir uma pena de prisão – ainda que remível em dinheiro – por abuso de poder, terá um mandato na sede do poder político. 

Lindo! 



Bin Laden voltou a dar um ar do seu ódio em mais uma cassete que a Al-Jazira passou nos seus noticiários. 
Referindo a prisão de Saddam Hussein, exortou à resistência no Iraque e à guerra santa contra os interesses americanos, em particular e ocidentais, em geral. 
Enquanto não for capturado, a guerra mundial que a Al-Qaeda espoletou não terá fim à vista. 

A Humanidade tem um holocausto apontado ao futuro. 


E eu que gostaria tanto que as minhas filhas vivessem num mundo decente e pacífico. 
Pois são estes amorzinhos, são muitos e muitos amorzinhos como estes que poderão fazer valer os valores e os comportamentos de uma civilização de paz e voltada para o desenvolvimento humano. 
É que os filhos, num certo sentido, também são um dos nossos actos de esperança e aí, em conformidade, justificamos o nosso esforço para que essas plantinhas cresçam vigorosas e saudáveis, mas igualmente com as doses de virtude e bom senso e a sabedoria suficiente para que sejam pessoas de carácter e respeitadoras do seu semelhante. 
Tal caminho é longo, penoso e incerto. 
Mas não temos alternativa e nós queremos mesmo deixar o nosso contributo para que entre os homens possa haver harmonia. 



O governo distinguiu personalidades ligadas ao desporto e lá estava o inenarrável presidente do Futebol Clube do Porto. 

Talvez por isso, o nosso primeiro, com ar sorridente e cândido, disse que todos nós sabemos ser o desporto uma escola de liderança. 
Não, isto não é uma gafe, é o resultado de um acto de vassalagem. 
Sempre tinha ouvido falar em escola de virtudes, agora de liderança… 
Deve ser por isso que há tanta promiscuidade entre o mundo da bola e o da política, especialmente ao nível do poder. 

Vivemos num ambiente de fim de regime. 



Na aula de hoje, os alunos aprenderam o número seis a respeito do qual se debruçaram os exercícios do dia. 



Bem e agora está na hora de ler um pouco. 
Voltaremos a conversar amanhã. 


 Alhos Vedros 
  07/01/2004

segunda-feira, 20 de março de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (247)

Desenho de Pedro Sousa Pereira,
in Ode Triunfal
...
Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante! 
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus. 
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios 
De todas as partes do mundo, 
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, 
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas. 
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado! 
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores! 
...
ÁLVARO DE CAMPOS
SELECÇÃO DE ANTÓNIO TAPADINHAS

sexta-feira, 17 de março de 2017

RESILIÊNCIA DE CAIM


Um novo poema a meu amor sempre

o violoncelo ágil, claro e incisivo no teu corpo
o teu ritmo vegetal em finos raios de luz
um íntimo esboço nas ondas
para libertar os tons amarelos
nos trilhos das pernas doces

traço a traço as tuas costas
na delicadeza da música dos
dedos

desenho um cais de chegada

José Gil


quinta-feira, 16 de março de 2017

“Caio Equilibrado E Sem Pânico Algum Nos Abismos Infindáveis Do Contexto Polissilábico”



Caio muitas vezes em poços abismais até ao meio
Abro paraquedas feitos de efémeras nuvens claras
Tento por tudo travar o mais possível e o impossível
Agarro-me com todas as mãos imaginárias às paredes
Quebro a velocidade no entretanto para poder meditar

Finco os pés lateralmente descalços de preconceitos ígneos
Cravo no próprio vácuo a vontade de parar a queda
Bato com a cabeça nua nas várias densidades do ar
Enfio-me em cada nesga de buraco ou de túneis abertos
Falta-me vislumbrar a luz remota oculta lá ao fundo

Em socalcos de proféticas montanhas oiço o que o vento traz
Há tanto barulho contido no silêncio que mal o distingo bem
Bato com o nariz empinado mesmo no centro do solo fértil
Rebenta de seguida uma velha semente ali plantada há muito
Cresce um arbusto carregado de esperança e de menus prontos

Desço aos confins do universo mental para beber um copo de água
Refresco-me com palavras soltas na correnteza de frases liquefeitas
Amontôo silabas em pacotes cheios de tantas outras dissilábicas
Misturo-me com a humidade ambiente de cada sentença curta
Seco a pele com o pó de letras tão antigas quanto o tempo

Deixo que um sem número de serpentes passe pelo meu passado
Apago a imensidão de memórias e ideias à pressa com um apagador
Lavo todas as reminiscências de lembranças com champô multifunções
Múltiplo pelo nada absoluto um amontoado de contas de dividir
Unifico o pensamento de agora como alguns antigos de autoria dúbia

Penso limitar-me às circunstâncias mais ou menos envoltas em questões
Abro a boca para responder a perguntas para as quais há limites nas respostas
Reponho a verdade por de cima de uma pilha de inverdades encobertas
Desligo a luz a uma parte da realidade que mais parece uma mentira pegada
Desapego-me a custo da materialidade pressentida de um pequeno momento

Conecto-me com maior facilidade a uma caixa cheia de surpresas imprecisas
Encaixo-me perfeitamente no resto do jogo jogado por vias intelectuais
Dissimulo regras que nada têm que se pareça com uma sequência lógica
Piso nos quadrados brancos e pretos da vida visualizando uma ponte para cegos
Atravesso o deserto da ignorância em tempestade controlada a velocidade moderada…

Equilibro-me sem esforço e sem sofrimento alguns entre o abstracto e o concreto da ilusão...

Escrito com muita alegria e esperança, por Manuel (D’Angola) De Sousa, em Luanda, Angola, na sessão de lançamento do (importantíssimo compendio/obra de perscrutação) livro “Autores e Escritores de Angola – 1642-2015”, de autoria de Tomas Gavino Coelho (nascido em Angola), na União de Escritores Angolanos, a 3 de Março de 2017. Por tal única, grandiosa e louvável iniciativa. Por tal, sou a Homenagear merecidamente, não só o autor aqui em questão, mas, todos os Angolanos que têm tido a coragem e a vontade em escrever o que lhes vai na Alma e de o compartilhar com todos nós, os Angolano e com todos os outros honrosos Seres Humanos do Mundo…

Este livro em si, é um autentico hino e homenagem aos Criadores Literários Angolanos ou ligados a Angola, desde a primeira edição de que se tem regist(r)o oficial ou conhecimento, às edições mais actuais produzidas em Angola ou por Angolanos.

Viva a Literatura Mundial e todos os impulsos possíveis que possam ser dados por todos nós, tanto leitores como escritores, para que haja liberdade de expressão e produção literária em todo o Mundo Terrestre, pois, só assim, a Humanidade e o Planeta Terra podem-se desenvolver harmoniosamente e em proporção equilibrada e simultânea…

quarta-feira, 15 de março de 2017

Reencarnação

terça-feira, 14 de março de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O Presidente da República falou sobre o chamado caso Casa Pia e pediu contenção e bom senso e manifestou profundo desagrado com o episódio da divulgação de cartas anónimas que o implicavam e a outras personalidades em tão sórdida história; deixou a velada ameaça de agir contra os responsáveis pelo acto tão infeliz. 

E uma pessoa decente só pode corar de vergonha. 
E não é preciso sermos nacionalistas para nos enchermos de revolta. 
Gostaríamos tanto de viver num país normal. 

Mas logo pela manhã bateu-se o recorde da desfaçatez. 
O “Jornal de Notícias”, o diário que publicou a tal cartinha, veio a público comunicar que a culpa é do Procurador-Adjunto que a integrou no processo. 
Mais reles é impossível. 


Caricatamente, por abuso de poder, hoje foi condenada a cento e vinte dias de prisão, remíveis em multa, a ex-presidente da câmara de Sintra, Edite Estrela, outra das figuras gradas do guterrismo. 



Em contrapartida, a escola das minhas queridas filhas é uma alegria. 

A Luísa apurou que até Março, às sextas-feiras, no contexto do horário escolar, os alunos da classe da Matilde terão aulas de patinagem na Moita. 
E eu devo reconhecer que o pardalito, afinal, tinha comunicado a informação toda certinha. 

Ora hoje foi dia de reis na escola e houve festarola alusiva com bolos e tudo.
Na aula dos novatos, a manhã foi preenchida com trabalhos manuais próprios da ocasião. Assim, os alunos fizeram a respectiva coroa em cartolina. E a Matoldas lá saiu sorridente com o seu distintivo real na cabeça. 



Trinta e cinco por cento no aumento do preço do pão? 
Já ouvi testemunhos de industriais do ramo dizendo que a subida do preço das farinhas não justifica uma tão grande mexida no preçário daquele produto final. No entanto, há padarias que já cobram por aquela quantia. 

A DECO pede o boicote a esses estabelecimentos e eu digo, muito bem! 



As fotografias de Marte que a “Spirit” está a enviar para a Terra são pura e simplesmente fantásticas. 
Vamos sonhar com o planeta vermelho. 


 Alhos Vedros 
  06/01/2004

segunda-feira, 13 de março de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (246)

Fernando Pessoa com Abutre, Autor António Tapadinhas 
Tinta da china sobre cartolina rosa, 27,5 x 27,5 Pormenor


A Exposição de “Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno” que está patente na Gulbenkian até 5 de Junho, apresenta cerca de 400 trabalhos, muitos deles inéditos e acontece cerca de um quarto de século depois da última grande mostra dedicada ao artista do modernismo português.

Nela está destacada a presença do cinema e da narrativa gráfica, a que se juntam obras e estudos inéditos, com aquele que assinou "O manifesto anti-Dantas e por extenso".
Fica o convite.


Selecção de António Tappadinhas

sábado, 11 de março de 2017

Poemas com Jazz


Canto Cupido

Na boca que te leva a dizer que me amas
Dorme um desejo profundo, que a mim,
Gesticula mudo um sinal de apocalipse
E a terra treme.

No fim os teus cabelos ascenderam os céus
E toda a casa que partilhamos endividará o senhorio.
Nossa ausência, o perfume que deixas,
O gato que morre de fome, os relógios que eu deixo,
Toda nossa louça bordalo pinheiro que nos une aos dois
E teremos de deixar.

Tu prometias quando dançavas com o olhar
Na direção dos meus olhos,
Fitava-los prometendo e prometendo
E continuando a prometer até a íris que te contorna a alma
Derramar em silêncio sobre as pálpebras a emoção contida
Que te escorria ao longo da face.

Lembras-te disso?
E lembras-te quando ouvíamos a música das galáxias por cima de nós?
Nessa noite em que a lua nos disse que o sol nunca deixaria brilhar.
Pois foi nessa mesma noite que o sol pediu a noite em casamento.
A lua, essa mesma lua que ocultava o sol
Para que eu te dissesse baixinho a palavra "Amo-te".

Na nossa casa brilhavam luzes cintilantes
Mas ficou tudo tão escuro.
Será que apaguei o gás? Lembro lá de tal coisa.
Ou foste tu? Consegues lembrar-te?
Impossível, ainda ontem tomaste um banho quente
Enquanto eu fui comprar um tabaco.

Científicos estudos teus detectaram o buraco negro
Em que oráculos meus pressentiram o apocalipse,
O declínio do nosso império deu-se e a terra tremeu.
O teu corpo flutua agora e o meu caminha
Só a memória nos une em direcção ao sol.

Consigo ver os teus olhos na escuridão
Consigo sentir o odor do teu corpo e as fragancias em te banhavas.
Consigo escrever em pormenor todos teus sonhos
Quando declaravas que Copérnico e Galileu estavam errados
E que o nosso amor era o centro do Universo.

E os dois corações estremeciam de repente quando
O carteiro batia á porta dizendo ser correio
E e nos tranquilizávamos
Porque pensava-mos que nos vinham penhorar os sonhos,
Daquilo que cada um de nós sentia e nunca foi capaz de ao outro.

Pois dentro de nossos peitos havia uma guerra humana
Tremenda, insegura, trágica, sanguinária,
Sim, porque a consciência é como um teatro de guerra
Onde se move a artilharia do corpo fazendo recuar infantaria da alma
E em havendo um cessar fogo final tudo volta ao mesmo,
Deixando desnudas as nações que nos unem,
Os pássaros voltam a cantar, o rio a correr, o sol a brilhar e crianças a nascer.

Tu tinhas em teus frágeis dedos o cristal
Daquele serviço de copos que compramos na Boémia.
Ficavam bem na mesa da sala não achas?
Eu ria-me para ti como uma criança enquanto bebia vinho,
Pegava-te nos dedos finos e do teu olhar reprovador
Nascia um sorriso terno e a seguir chamavas me tonto.

Fomos tudo e nada
Onde o tudo e o nada se juntam para que haja vida.
Ao menos um rasto de vida, alguma coisa que justifique
Que o amor entre duas pessoas é necessário para uma vida completa.

Agora já sei, o destino disse me ao ouvido,
Já me provou, só me resta rir e ser alegre.
Um pássaro voa, o vento levante ergue-se e o sol põe-se,
Retribuo te todos os meus sorrisos, a vida flutua,
E o mundo não dá por nada.

Málaga 2017

P.S.: Para jazz clique no nome do autor

sexta-feira, 10 de março de 2017

Morreu Natália Pais


 Para a nossa  geração e para muitas gerações que se cruzaram e cruzam nas pontes  da multidisciplinaridade da Arte e Educação é um exemplo, uma memória de criatividade Natália Pais do Centro de Arte Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian uma das  grandes impulsionadora das Ludotecas em todo o país .Por isso partilho hoje com a Conceição (Conceição de Oliveira Lopes) este testemunho.
A Natália trocou as voltas à vida e aproveitou a luz da lua cheia e viajou para a eternidade. Partilho convosco o testemunho que eu e o Gil escrevemos para o livro que a filha Helena Carqueijeiro preparava para lhe oferecer no dia dos seus 80 anos amigos. 22 de Março.
"Natália Pais - A princesa peregrina das crianças, dos pedagogos artistas, dos artistas pedagogos e dos brincologos “
“A criança quando nasce é artista. O pior é quando cresce” 
Pablo Picasso |
A educação estética é o caminho para o desenvolvimento dessa condição de Ser do Humano”
Conceição Lopes
Testemunhos de homenagem à nossa querida amiga Natália Pais, Jardins suspensos com lago no Centro, peixes transparentes como os dias da educação estética, da arte para crianças e das ludotecas, peregrina, da formação de pedagogos artistas e de artistas pedagogos.
Natália Pais, o seu percurso de vida, na Fundação Calouste Gulbenkian, no Centrinho, assim carinhosamente chamávamos ao Centro Artístico Infantil, e no Serviço de Educação, está de certo modo exposto, no livro “ E a Educação Estética onde fica – conversas sobre arte educação”, editado em 2015 pelo Serviço de Educação da FCG.
Peregrina, menina, fez milhares de quilómetros a compartilhar a palavra e a fazê-la compreender com clareza e simplicidade, na formação de educadores e professores de todos os níveis de ensino, da creche, ao Jardim de Infância, do ensino básico ao secundário e ao universitário. A educação estética é a sua militância experiencial. As crianças, a arte, a ludicidade, a ciência estão de mãos dadas, na singularidade do seu pensar, interagir e intervir. Inovadora, empreendedora com visão de futuro, com empenho, responsabilidade e compromisso, perante si e os outros, a Natália Pais é defensora da cultura quotidiana das pequenas coisas e dos pequenos projetos que ajudou a tornar grandiosos.
"A arte é o casamento do ideal e do real. Fazer arte é um ramo da artesania. Artistas são artesãos, mais próximos dos carpinteiros e dos soldadores do que dos intelectuais e dos acadêmicos, com sua retórica inflacionada e autorreferencial.
A arte usa os sentidos e a eles fala. Funda-se no mundo físico tangível."  
Camille Paglia, Imagens cintilantes” (captado web, 2017-03-04)
Artesã sempre à frente do seu tempo, co-construindo futuros no presente, as equipas são o seu meio natural no trabalho. Estudiosa, apaixonada e apaixonante. Elegância bizarra como a arte contemporânea. Docemente criativa, no coração do encontro permanente da arte -educação que tornou indivisível. A militância em torno do pedagogo/a artista e do artista pedagogo/a não lhe dão descanso. Os seus argumentos são sustentados pelo estudo continuado dos clássicos da educação e da educação pela arte, portugueses e estrangeiros. Autores, muitos e diversos, fazem parte da sua biblioteca e continuam à mesa dos seus olhos, na mesas de casas em que habita. E, a sua casa é o mundo. Habitá-lo é o seu lugar residente, ora itinerante, ora radiante. Esta menina, peregrina, mulher bela, não pára. A vida é para ser vivida até ao tutano, na substância das coisas com calma para ser saboreada, compreendida e, depois, compartilhada. Alma sorridente ao tono das ondas do oceano vibrante. Psicopedagoga brilhante, a dança baila no seu interagir. Investigadora, autora, gestora flexível, curiosa no entendimento dos mundos de vida. Astuta, amiga e flexível, competente, atenta, ninguém lhe fica indiferente. Em tudo o que toca faz multiplicar, qual enzima que propaga, confiança estimulante, alegria, dádiva, discernimento, bases da motivação extrínseca que sabe alimentar, de modo in—visível, a motivação intrínseca que reside dentro daqueles que têm o privilégio de com ela trabalhar. 
A sua vinculação à FCG começa no centro de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, mais tarde, no Serviço de Educação, tem a seu cargo a assessoria e intervenção nos níveis de educação básica. Foi aqui que peregrinou como um arauto. EU VOU! EU ESTOU! ASSIM EU SOU! Contem comigo, lá estarei!
A ligação a Madalena Perdigão reforça os laços e o desenvolvimento da arte educação, cujo primórdios vinham do Conservatório Nacional com o curso de educadores pela arte, projeto de Madalena Perdigão. O Centro Artístico Infantil da FCG é a grande expressão dessa ligação. Lugar de encontro de crianças, de todas as idades, de artistas, educadores, professores, lugar de formação, intervenção, investigação-ação de afirmação dos binómios que foi estabelecendo, pedagogo-artista e artista-pedagogo. O calendário das ações do Centrinho, nomeadamente, exposições, cursos, oficinas, animações, dinamizações, focalizava.se em temas do quotidiano experiencial: - “As Festas”; “As Flores”; “Cidade Real-Cidade Imaginária”; “A minha Rua”; “Escrever é Comunicar”; “Animais da Quinta”; “Som e Silêncio”; “Aventura nos Jardins da Fundação”; “Semear é Lançar Sonhos à Terra”; “Plantar é Devolver à Terra os Sonhos da Semente”; “Coisas que as Crianças Guardam nos Bolsos”; Olhar Picasso” ; “Dos Sapatos ao Chapéu”; “Jogos e Brincadeiras”; “ O Cortejo do Galo”; “ Trago a Primavera no Bolso e Papagaios no Olhar”; Arte-Ciência e computadores” foram alguns, entre muitos outros eventos do Centrinho, sempre em atividade inclusiva, intergeracional e com forte participação diária.
O Centrinho foi , ao longo dos anos, um lugar feliz, uma referência nacional e internacional. Há uma memória que não esquece e se encontra nos registos do Serviço de Educação e na mente de todos os que tivemos o privilégio de lá nos encontrarmos, fazer parte da equipa, frequentar os cursos, oficinas e, sempre, a presença ativa das crianças. Hoje, algumas dessas crianças, com cerca de 40 anos, ainda falam do que lá viveram, compreenderam e recordam com entusiasmo o que ali se fazia acontecer. Memórias que resistem ao esquecimento.
O Centrinho com a Natália Pais e as suas equipas deixaram rasto e lastro na educação estética em Portugal. A Ludicidade - educação - estética-arte –cultura – tecnologias – ciência, conservação da natureza, numa visão transdisciplinar e interdisciplinar atravessaram os vários projetos, num período em que, ainda, Portugal não respirava de modo natural e generalizado a todas as crianças, estes campos da educação estética.
As ludotecas foram o outro dos empreendimentos da Natália Pais. EU VOU! Em novas peregrinações foi compartilhando os estudos que fazia e recolhia de fóruns internacionais. Peregrinando Portugal de lés a lés, muitas malas de viagem carregadas de livros, brinquedos, jogos, diapositivos, e as suas roupas, elegantíssima se apresenta. Quase sempre de comboio. Numa das viagens à Universidade de Aveiro, ainda em Santa Apolónia roubaram as malas, só demos conta à chegada. – Onde estão as malas? A resposta à situação preocupante foi rir e encontrar solução ao problema a resolver. No dia seguinte fez a conferência e a workshop, como se nada tivesse acontecido. Outras vezes, como nas curvas e contracurvas para Bragança, ia de carro. Onde era preciso a Natália Pais lá estava, em Escolas, Universidades, Associações Populares, Hospitais, Autarquias, Museus. A Natália foi a mentora pioneira das Ludotecas e da sua disseminação em Portugal. Tudo isto são expressões manifestas da pessoa que a Natália é, que optou SER e Existir assim, deste modo, na convivialidade connosco.
A Natália tocou cada um de nós e contribuiu e contribui para o nosso próprio percurso. Pela sua maneira de ver o mundo de forma integradora e positiva; pelo seu entusiasmo contagiante; por projetos inovadores; pela determinação e humor com que defendeu as suas convicções; pelo seu poder de ligar, criar pontes entre pedagogos e artistas, entre ideias, coisas e as pessoas; pela sua capacidade de amar; pela capacidade de excitar, pela sua elegância, exuberante, glamorosa, o seu corpo é o altar dos rituais de celebração quotidiana da vida; pela sua atitude de disponibilidade para vislumbrar o que outros não viam; pela sua alegria; pela sua capacidade brincante e brincalhona; pela sua competência em tudo a que se entrega, sem esquecer a sua atividade como psicóloga clinica que exerceu durante largos anos em consultório, no acompanhamento e orientação de crianças, jovens e famílias, por tudo aquilo que mais poderíamos acrescentar, a Natália é um ser de luz, compartilha todas as suas descobertas. Quem as queira desenvolver ela apoia e acompanha. Os seus olhos grandes atentos a cada pormenor, capta a realidade , acrescenta-lhe a sua compreensão reflexiva, elegantemente questionante e, em conjunto, coloca-se ao serviço do bem comum. Contem Comigo! Eu VOU!
Agora que a Natália vai fazer 80 anos em Linhas soltas, para voltar à memória que não esquece da celebração do 1 de junho, Dia Mundial da Criança em que o Centrinho aberto à Cidade, também se abria aos Jardins e ao Lago da Gulbenkian para receber centenas de crianças de todo o país, e uma mão cheia de artistas de todas as artes e estilos e a Natália não cedia à vulgaridade que hoje domina a criação artística para crianças.
Flor do Tempo e do Templo que é a Natália Pais, sublinhamos que aos 80 anos ela é referência primeira de centenas de Centros de Arte para crianças e de Ludotecas, que nasceram por todo o país a partir das Aulas Públicas que dava, ela e por vezes as suas equipas, de onde destacamos, Arquimedes Silva Santos (psicopedagogia da educação pela arte), João Mota (teatro/drama) Eurico Gonçalves (artes Plásticas), Ana Ferrão (Música) , António Torrado (literatura para crianças) entre tantos outros, pedagogos artistas e artistas pedagogos, cada um a seu modo, sob a visão, dedicação e coordenação da Natália Pais concretizaram a Missão da Fundação Calouste Gulbenkian, de Servir o bem comum apoiando e desenvolvendo a Educação Estética em Portugal.
Princesa Peregrina, reconhecemos em nós, as raízes do teu peregrinar em torno do centro impulsionador da lembrança do que fazes e do que continuarás a fazer. Gratos te ficamos com o coração.
Aveiro, 5 de Março de 2017-03-05
Conceição Lopes | Prof. Associada c/ Agregação da Universidade de Aveiro | Dep. Comunicação e Arte
José Gil | Professor-Adjunto  do Instituto Politécnico de Setúbal – Escola Superior de Educação

quinta-feira, 9 de março de 2017

As Árvores Morrem de Pé, de Alejandro Casona


«Morta por dentro, mas de pé como as árvores» é a célebre frase declamada, no final da peça de teatro, pela saudosa actriz Palmira Bastos.

Sim, há árvores que morrem de pé


Mas outras morrem deitadas


Em que ficamos?

Com menos sobreiros, essa é a dolorosa realidade ambiental.... com que também nos confrontamos no campus do IPS.

Luís Souta
(um eco-fotógrafo de proximidade)

quarta-feira, 8 de março de 2017

Um Encontro de Escritores


Francisco Gomes de Amorim

1ª Parte

Corria por Lisboa um  amante da história e das letras, à procura dum restaurante suficientemente grande que, por uma noite, pudesse fechar as portas para receber um elevado e muito especial número de convivas. Fechar as portas em sentido literal.

Isto porque os convivas, sobretudo os mais antigos e de elevada estirpe, não gostariam de ser vistos pelo público, muito menos entrando em lugares normalmente reservados a “plebeus”.

Nada encontrou em Lisboa, nem Porto, nem, correndo o país, em qualquer restaurante mesmo nos melhores hotéis, que lhe servisse para os fins em vista. Lembrou-se que um convento seria a melhor solução; lugares tranquilos, longe do mundo externo, e acabou por se fixar no Mosteiro de Alcobaça.

Levou tempo a convencer o Dom Abade que precisaria de uma sala, grande, fechada, onde ninguém pudesse entrar, nem por qualquer buraco espreitar. O refeitório do convento, espaçoso, seria o ideal. Argumentou como pôde: só o utilizariam a partir das 20 horas, pagaria o que fosse necessário, mas impunha uma condição: ninguém poderia ver quem lá iria estar dentro.

- Dom Abade: não tem que se preocupar, são todos pessoas da maior respeitabilidade. Depois lhe venho contar quem aqui esteve.

As instruções foram precisas: nada de cozinhados. Nada. Eles, os convivas, talvez quarenta ou cinquenta, não vêm comer. Só encontrar-se e conversar. Mas quem sabe se lhes apetecerá beber qualquer coisa, de modo que se porá à sua disposição, somente algo para quebrarem um pouco a « sede » e para alegrar o convívio, sobretudo vinhos. Os melhores.

Continuando, foi dizendo que tudo isso correria por sua conta, o Mosteiro não gastaria um cêntimo, e com a conveniente antecedência traria as bebidas, variadas, vinhos branco e tinto, vinho do Porto, outros vinhos generosos, vinho verde, aguardente e água. Todas as garrafas estarão abertas. Não precisaremos nem de saca-rolhas. Copos, sim, de todos os feitios, e à descrição. Muitos copos. Se o mosteiro não tiver, também posso trazer umas dúzias de copos. Não precisa ficar preocupado porque ninguém se vai embriagar e criar problemas. Não são necessárias cadeiras, só pequenas mesas espalhadas “aqui e além” onde os convivas possam depositar os copos vazios.

Como certamente vai sobrar muita bebida, desde já ela fica oferecida ao Mosteiro, esperando que os monges dela possam fazer bom uso, assim como dos copos.

Pessoal para servir, nem um. Não há necessidade. E que ninguém, rigorosamente ninguém, ali entre ou vá espreitar. Será eventualmente necessário fechar alguma janela porque não se deverá poder ver quem lá estiver.

O tranquilo Dom Abade julgava estar perante um louco. Para que se juntarem num restaurante se não iam comer? Só beber? Nunca tinha visto tal. O organizador do encontro limitou-se a responder perguntando quanto queria que lhe deixasse como pagamento ou contribuição para o acontecimento, o que o religioso deixou ao critério dele e, ainda cético, se ofereceu para colocar lá na sala alguns sumos das boas frutas da região, o que foi aceite com muito agrado. Foi-lhe então entregue então um envelope com generosa quantia.

- Aqui tem o seu dinheiro, Dom Abade. No dia seguinte eu venho acertar eventuais contas do que for necessário. Amanhã, a partir das oito da noite só poderão aqui entrar, além de mim estes poucos senhores cujos nomes estão nesta lista; eles sabem que ficarão numa sala separada, porta aberta para o salão onde não poderão entrar. Serão os testemunhos da reunião. E que ninguém mais saiba disto. E o senhor, Dom Abade terá que manter todo este assunto em segredo de confissão.

Face ao entusiasmo do visitante e do dinheiro, vivo, em notas, o Dom Abade, apesar de desconfiado, acedeu.

- Mais uma coisa só: onde tem aqui um altar dedicado a São Pedro?

Dom Abade levou-o a meio da nave central da bela igreja, e deixou-o ajoelhado, parecendo rezar com fervor.

Pouco demorou a tirar do bolso uma lista. Ajoelhado, humilde (pleonasmo: ajoelhar é já um ato de humildade!) frente à imagem do Santo e sem muito mais rezas diz-lhe:
- São Pedro, preciso de um grande favor. Tenho aqui uma lista de pessoas que gostaria que deixasse, amanhã, virem à terra. Por pouco tempo. Só algumas horas.
- Meu filho aqui não há ontem nem amanhã, e muito menos horas. Aqui só há o momento presente. O que não importa, porque tudo pode ser controlado. Mas o que vão eles fazer aí na Terra, quando aqui estão gozando a suprema felicidade?
- Será uma pequena reunião de escritores da língua portuguesa, incluindo até um que viveu antes de haver esta língua. Um encontro a que poucos, muito poucos vão ter oportunidade de assistir, e onde imagino se vão trocar curiosas ideias do tempo de cada um. Já todos aí estão a descansar, mas nós que os estimamos muito e estudamos, queremos ter o inestimável prazer de os poder ver.
Mas, querido São Pedro, tem que os deixar vir vestidos como andaram quando vivos, no seu tempo, pela Terra, independente de uns terem sido ricos e outros até pobres. Será uma ajuda para os podermos distinguir. Só os poucos vivos que assistirão ao encontro vão reparar nesses desprezíveis detalhes. Ah! Um outro detalhe: alguns eram judeus ou cristãos novos.
- Aqui não há judeus, nem há religiões. Há só Paz eterna para quem a mereceu quando peregrinou por essas bandas.
- Que bom, Santo Pedro.
- Mas estranho pedido esse, meu filho. Jamais alguém me apresentou semelhante ideia! Dizem que eu tenho as chaves do céu, mas aqui eu não mando nada. Somos todos iguais. Não sei como satisfazer este pedido que, devo dizer, até me parece interessante. Espera um instante que vou falar ao Pai.
Como no céu também não há instantes, de seguida São Pedro continuou.
- Vão poder ir sim. Não preciso da lista que trazes contigo, porque consigo ler o que te vai na alma. À hora combinada aparecerão, um de cada vez, sem ordem das hierarquias desse mundo. Vai em paz.

Já mais animado o nosso promotor da festa guardou a lista para depois conferir se viriam todos. Não que desconfiasse da palavra do Santo, mas para que ele próprio se não perdesse, e até porque talvez algum não tivesse ganho ainda... os céus!

Os convidados, terráqueos, autorizados a assistir, foram os seguintes de que só se indicam umas letras para não serem depois assediados por jornalistas e outros curiosos: CC, HS, AP, LS, e MC.

Refeitório arrumado, mesas encostadas às paredes, abertas as garrafas com as bebidas, os copos ao lado, arrumados, aproximam-se as vinte horas, o nosso “inventor” do encontro, nervoso, olha para o relógio a intervalos de poucos segundos. O que se iria passar?

De repente surge o primeiro, logo o mais fácil de identificar, zarolho (sem aquela ridícula coroa de louros na cabeça), calça a meio da coxa e uma capa pelas costas, só podia ser o Luis Vaz, de Camões! Olhou em volta, parece não ter visto o anfitrião, nem podia porque o anfitrião era um ser vivo e os convidados figuras etéreas (mas que iam beber vinho !) e com dois passos estava em frente das garrafas. Olhou para todas as garrafas, escolheu como bom conhecedor, encheu um copo de vinho verde e derramou-o num só trago! Ahhh ! Que saudades !

Entretanto chega Brás de Albuquerque só reconhecido porque Camões ao vê-lo exclamou, alegre:
- Brás, aliás Afonso, vamos falar um pouco das nossas aventuras, ou desventuras, na Índia! Tu não estiveste por lá mas sabes de muita coisa. Vem beber à saúde daqueles tempos. Vinho verde da minha região ou da tua quinta ?

Num instante aparecem mais três, quatro, cinco, e o anfitrião começa a ficar baralhado sem saber quem era quem. Reconhece Alexandre Herculano, impossível de não ser reconhecido, vê-o dirigir-se a um personagem, de roupa vistosa, longa barba branca, ar altivo apesar de se ver já de idade avançada, e muito respeitosamente se dirige a ele: 
- D. Alfonsi a Domino, quod est honor
Afonso X respondeu-lhe em castelhano, língua que ele havia introduzido oficialmente em Castilla y Leon em substituição do latim. Entretanto, garganta seca, pediu que lhe servissem um copo de vinho generoso.

- Dom Afonso, este é um vinho das encostas do rio Douro. Duero para usted. É ouro líquido para se beber!

Logo ao lado deles estava outra figura ímpar, que fez questão de beijar a mão de seu avô. Herculano logo o reconheceu também e não conseguiu calar o que sentia:
- Senhor Dom Dinis, o maior rei que Portugal teve!

Dom Dinis, em grande respeito por seu avô :
Tanto e tão bem fizeste, meu Senhor e Rei, que eu seguindo vosso exemplo aboli também o latim em Portugal. Institui não o castelhano mas o que mais se fala no meu reino: o galaico-português!  
   
E vinham-se juntando mais, encantados pela presença de tão destacadas figuras. Um deles, magrinho, nariz proeminente, bigode bem aparado, óculos pince nez, ajoelha-se em frente de Dom Dinis, olha-o bem nos olhos e diz-lhe:
- Meu querido e maior rei, o plantador de naus a haver! e deixa correr, de emoção duas lágrimas.

Já corre para se juntar ao poeta, roupa simples, humilde, o sapateiro de Trancoso, que Pessoa apresenta ao Rei:
Senhor, aqui está o homem que previu o grande futuro de Portugal no Mundo, tudo iniciado pela gestão do vosso reinado!

António Vieira esticava a cabeça para ouvir o que diziam do Futuro. Dom Dinis que o viu mandou-o aproximar-se mais para o abraçar. Sabia da sua História, e no seu íntimo agradecia-lhe a expansão do nome de Portugal. Neste pequeno grupo Agostinho da Silva tinha que estar; encantava-se na presença do grande soberano, mas sobretudo bendizia a herança da Santa Rainha, ausente, mas muito estimada, e queria apresentar ao rei a também sua visão Império do Menino, a que se juntou, para aplaudir, Ariano Suassuna.

Ao grupo inicial, ia-se juntando um sem número dos muitos poetas coevos porque ali se encontrava o Mestre. Bernardim Ribeiro, a quem Camões perguntou pela “Menina e Moça e seu roussinol”, um canto triste de quem cantou a dor da Menina; Sá de Miranda com sua longa barba, que depois de abraçar efusivamente o seu amigo Bernardim, brincou com Camões dizendo-lhe:
Sabes bem, grande mestre, que se te salvaste do naufrágio, não te salvas que se tenha espalhado por toda a parte o teu imenso engenho e arte! Aprendeste que o Amor é fogo que arde sem se ver, mas Amor é cego minino e a Fortuna é cega mulher!

João de Barros aguardava a troca das amabilidades poéticas para se voltar para a Índia! Camões,  Afonso de Albuquerque, Diogo do Couto, Garcia de Orta e até Duarte Nunes de Leão, que reclamava por não encontrar à disposição entre as preciosidades etílicas nem que fosse uma só garrafa da sua terra, o clássico Pera Manca, um vinho da minha terra que se cultiva há milhares de anos e que os romanos vinham aqui buscar para se deliciarem em Roma! André de Resende coadjuvou : 
-­ Tens razão Duarte Nunes. 

Todos riram e Afonso de Albuquerque correu para lhe oferecer um copo do que de melhor a Quinta da Bacalhoa produzia! Duarte Nunes:
Obrigado. É bom, mas não se aproxima do Pera Manca, amigo Brás.
- E eu que o diga, confirmou Bernardim, orgulhoso do seu Torrão!

Não seria tão bom, mas Brás foi notando que só à conta dele uma garrafa inteira já se tinha evaporado!

Bocagemagro, de olhos azuis, carão moreno, bem servido de pés, meão na altura, triste de facha, o mesmo de figura, nariz alto no meio e não pequeno, irreverente,atento à troca de ideiais não se conteve. Sadino, sai em defesa dos moscateis de Setubal que costumava beber em níveas mãos, por taça escurae com seu geito descontraido fez com todos provassem o cantado nectar, aprovado por unanimidade.

Os que andaram pelas Índias, cutucaram Camões:
- Mestre Luiz, nunca revelaste onde era a Ilha dos Amores, mas eu que por lá andei recordo bem uma das que mais me prenderam o coração: a Ilha de Mussa Ben-Bique! Não andavam as belas deusas pela floresta, que não havia, mas vi-as tocar o alaúde e a qunan, a que nós chamávamos harpa, e o nosso desejo se acendia mesmo que as carnes não fossem tão alvas!
- Tens razão Garcia, eu que por lá passei e vi muitas daquelas deusas de ébano, não as esqueci nunca. Como poderia? Depois de meses de mar...

Gaspar Correia com um suspiro acrescentou:
- Ah! A ilha dos sonhos e dos amores era essa mesma, Diogo do Couto. Passei a minha vida, quase toda na Índia e lembro do grande Vice-Rei Afonso de Albuquerque que volta e meia me falava das "deusas daquela ilha"!

Seguia a conversa sobre a Índia, mas havia que escutar outros grupos.

Camões vê entre os de outras gerações alguém que queria muito cumprimentar. Ali estava outro poeta, elegantíssimo, casada ver de bronze com botões de amarelo dourado, colete branco de grandes bandas, calça cor de flor de alecrim, gravata de cores lubricas e luvas cor de palha!
- João Batista! Que ideia ter escrita aquele belo poema Camões! Muito me sensibilizou e fez até nascer almas poéticas em jovens simples!
- Luiz Vaz, deverias ter visto a magnífica peça de teatro que fez em meu nome! Foi um imenso sucesso!
E conseguiu um efeito especial do Castelo da Almada a arder dentro do teatro!
Exclamou Manuel de Sousa Coutinho.
- Sabem onde me inspirei? Numa barraca de marionetes na Póvoa de Varzim! E que bela obra também a tua Frei Luís de Sousa, sobre o grande arcebispo Dom Frei Bartolomeu!

A reunião estava animada, a noite virava e ainda duraria muitas horas.

2ª Parte
Continuava animada a conversa naquele inusitado encontro em Alcobaça.
Rodeavam agora Dom Dinis todos aqueles que haviam passado pela sua Universidade lembrando que fora este grande rei que, em 1290 instituira o Estudo Geral Português, com a assinatura do documento “Scientiae thesaurus mirabilis”. Parecia, e era (e continua a ser!) a maior figura da história de Portugal.

Propunham até, os antigos alunos, ali fazerem uma serenata ao grande Rei, e o lembraram, meio em segredo, para não melindrarem a memória de Dom Afonso o quarto, de seu filho Pedro Afonso que tanta obra deixou. Ainda ensaiaram uma pequena trova de D. Dinis, mas em voz baixa já que os outros convivas estavam, também em animada conversa: "Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! ai Deus, e u é?

João Rodrigues, depois Amato Lusitano, lamentava ter ido estudar em Salamanca por ser considerado na altura de sangue sujo. Brilhou pela Europa, assim como Abraão Zacuto Lusitanum de quem Dom João III se serviu, mas não impediu que fosse igualmente expulso de Portugal. António Vieira conversava com eles que sabiam que ele também havia sofrido semelhante perseguição, bem como outro brilhante conviva Garcia de Orta.

Até o grande mestre Damião de Gois, de família nobre, por melhor e mais profundamente pensar foi perseguido pelo mesquinho clero e acabou, ao que dizem, assassinado! E espero que ninguém se esqueça do que sofreu o também grande Diogo do Couto.

Lamentavam todos os presentes que os sefarditas tivessem sido expulsos dum país que eles tanto amavam e continuaram a respeitar mesmo longe. E, pior, expulsos por quem deles se serviu, D. João III, esmagado sob o peso da beatice dominicana. Herculano, ouviu falar neste rei e não se conteve, seu ar austero: 
- Era um homem medíocre, inábil, fanático, inábil para governar por si próprio". 
António Vieira, mais cordato:
Aproveitemos este encontro, este convívio e procuremos esquecer as nossas desventuras. Vamos beber um bom vinho das terras de Garcia de Orta, não direi à nossa saúde porque... mas ao nosso encontro.

Muito mais grupos se formavam sem que alguém fosse impedido de circular.
Já Dom João, o primeiro, beijara a mão de seu bisavô, e presenciado o respeito de que ficou sempre merecedor, num instante se viu rodeado pelos amigos, entre eles Dom João de Ornelas cujo semblante não negava o prazer de estar no “seu” antigo mosteiro!

E pelos cronistas! Fernão Lopes, que elogiava o trabalho de Duarte Nunes ao refundir as crônicas dos reis da primeira dinastia, e a dos três primeiros reis da dinastia de Avis, na Segunda Parte das mesmas crônicas, o que foi apoiado por Gomes Enes, de Zurara, e Herculano que ainda acrescentou:
Na opinião do 1° Marquês de Alegrete, foi Duarte Nunes de Leão quem abriu caminho à crítica da História em Portugal, escrevendo com juízo e madureza, certamente enquanto apreciava o seu tão famoso e elogiado vinho!
O que ele também fez. Herculano estava eufórico. Ele, sempre aquela cara fechada, enigmático, exultava com os personagens que tão bem conhecera no Tombo.
E chegados estavam agora os filhos Dom Duarte e Dom Pedro.
Bonito esse vosso livro meu filho, o Leal Conselheiro. Exemplo de um homem honrado que bebeu, sobretudo de sua mãe, a delicadeza e o comportamento exemplar. Pena que meu neto Afonso tenha sido tão ingrato com seu tio Pedro, que foi o melhor conselheiro que poderia ter encontrado.

Dom Pedro, que foi Duque de Coimbra, duque de Treviso, Cavaleiro da Ordem da Jarreteira, ar triste, no íntimo o filho preferido de seu pai, que sempre amou seu irmão e seu sobrinho, perdoava, mas não podia esquecer o que lhe fizeram.
-  São águas passadas. Penso em meu irmão Henrique e o quanto ele teria gostado de ler a carta de Pero Vaz, de Caminha. Aproxima-te Pero Vaz, para te abraçar em nome de meu irmão Henrique.
-  E tu também Pero de Magalhães, o homem que veio de Gand para nos dar a primeira descrição, em história, das Terras de Vera-Cruz! E pensar que tudo isto devemos ao grande rei, nosso antepassado, com a sua grande visão.

Poucas eram as figuras femininas, entradas no Mosteiro sem o conhecimento do Dom Abade, mas ali estava Florbela Espanca, por especial deferência de São Pedro, que advogara em sua defesa a escrita libertina, os vários casamentos que não deram certo e as tentativas de suicídio, porque sabia o quanto ela havia sofrido.
Florbela?Aqui ?Acabo de sair de um outro encontro, feminino, porque não gostei do que disse a Soror Mariana, a fazer-se de vítima arrependida, quando já se sabe que não foi ele que escreveu as cartas ao francês ! Mas eu...
Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
Alegra-te Florbela. És muito estimada e admirada entre todos – disse-lhe Guiomar Torrezão que “representava” a luta pela emancipação das mulheres.
Ao ver Guiomar, Camilo fez questão de abraçá-la, e agradecer-lhe a carta que ela lhe escreveu “Há muito que penso em escrever um artigo substancial sobre Camilo...” e Guiomar retribuiu lembrando a carta dele: “Beijo as mãos de V. Exª pela fineza dos seus cuidados com a minha esquisita existência.”

Carolina Michaelis de Vasconcellos, nascida em Berlim, mas portuguesa por casamento e coração, notabilizou-se na história e poesia dos antigos do seu novo país, divulgando-os por toda a Europa. Já havia recebido os cumprimentos de Sá de Miranda que tão bem havia estudado e ajudado a difundir, as homenagens de Herculano e Antero de Quental (cuja vida suplantou em virtude o desastre da sua morte) lembrando as suas trocas de correspondência, sempre com um belo caráter de respeito próprio de uma grande dama e de grandes homens. Por fim e seu imenso espanto é com o próprio Camões quem lhe vai agradecer os Estudos Camoneanos que mais ainda o engrandecera, sobretudo junto ao povo germânico.

Um pouco afastados conversam já Camilo e Herculano que, maliciosamente, lhe pergunta pelo cão que aquele lhe dera e após a sua nomeação para a Academia de Ciências de Lisboa lho pedira de volta! Camilo, mordaz, esboçou uma desculpa, o que, coisa rara, fez aparecer um largo sorriso na cara de Herculano.

Bernardo Correa de Melo, o Conde de Arnoso, ao lado da Ramalhal figura, ria-se com aquela conversa, e Eça, que havia escutado Garrett falar na sua terra, a bela Póvoa de Varzim, pergunta a Antero se, lá no etéreo, em que pouco nos vemos, também lhe chamam, como ao grande apóstolo Simão, São Pedro, o Santo Antero!
Aproveitemos e vamos brindar a este encontro, mas com vinho especial de Tormes que, no meio de tantas delicias etílicas, encontrei! É o vinho do Porto no seu melhor! E esquecer a triste e cómica Questão Coimbrã!
- Imodéstia tua Eça, com o vinho! Mas sabes bem que quem moveu esses ridículos combates coimbrões foi a vaidade ferida dos mestres e dos pontífices! O espírito de rotina violentamente incomodado! Melhor mantermos o nosso Bom Senso e Bom Gosto para saborearmos o teu bom vinho e a magnífica companhia dos que aqui se encontram!
Esqueçamos as cartas que José Feliciano de Castilho, dizendo tanto disparate, publicou no Brasil, onde os homens de Bom Senso deram, não atenção mas até risada de desprezo.
- É verdade, atalhou Machado de Assis. Vivia-se uma época em que era permitido publicarem-se calúnias, mas os homens sensatos, se as liam, logo rasgavam esses escritos. Um dos que sofreu com isso foi o grande mestre Gilberto Freyre, usado como argumento político duma ditadura poderosa e logo a seguir insultado pelos revoltosos!
- Não há melhor meio para conhecer o homem português do que ler as obras de Gilberto Freyre, um homem simples mas com uma obra extraordinária. Foi às origens e mostrou como se adaptou aos trópicas e criou o homem brasileiro.
Palavras de Ariano Suassuna, sempre alegre e comunicativo, rendia assim homenagem a quem deu partida para que aparecessem depois os grandes romances sobre o homem brasileiro.
Foi isso Ariano, assim criei Grande Sertão:Veredas, Sagarana, e outros cantando baianos e mineiros, e você com o extraordinário Auto da Compadecida e tantas outras obras magníficas mostrando o Nordeste do Brasil.
- Rosa, não esqueça João Cabral de Melo Neto. Camões cantou a epopeia dos portugueses. João Cabral o sofrimento dos nordestinos, como naquele incomparável poema Morte e Vida Severina.

Luis Augusto Palmeirim, até então calado, deliciado a ouvir tantos colegas de letras, ele que teve o condão de “descobrir” novos talentos, estava entusiasmado com a conversa que entretanto derivara para o Brasil.
- Que maravilha! Já chegámos ao Brasil. Os nossos irmãos de Além o Grande Rio Atlântico. Mas não podemos passar incólumes pelos Açores. Aqui ao lado, calado, o que não é seu natural, está o homem do Mau Tempo no Canal!
Vitorino Nemésio, habitualmente bem disposto, alegre, brincalhão, rendia-se aos que o rodeavam,
Desse Mau Tempo, Luis Augusto, tantos e tantos saíram para irem povoar novos mundos. Desde a América do Norte ao Brasil, para onde levaram o culto do Espírito Santo que a nossa grande Rainha Santa Isabel nos confiou.
- E o que me dizes dos que foram e criaram raízes por África, Ásia, Japão?
- Muito. Mas, como descobri no meio de tantas garrafas uma de vinho do Pico, vou afinar a garganta com uma delícia da minha terra, e do Antero, e já volto.

Nós também voltaremos, com a continuação deste Encontro de Escritores, daqui a uns dias.