quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

LILASES DA MEMÓRIA


DANÇA

“Daqui
do meu ventre
uma língua selvagem”
Jorge Vicente

Lilases entre as letras
As tulipas de uma
Camponesa manhosa astuta
Flor da argúcia~
no páteo das amendoeiras
no jardim do sobreiro
Das palavras nas montanhas
Solstício de inverno
S. João já passou no teu colo
Num ramo de memória
Das bétulas nas ramagens de
Zimbro
Onde está a língua
A luz arde
No corpo da tua
Dança no palco


José Gil
16:16
10-12-2017
entre os sobreiros de Praias do Sado

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Começaram as obras para a incorporação do sótão como o segundo piso do apartamento. 
Hoje foram colocadas as janelas. 
Não houve qualquer transtorno. 
Passei a manhã do último Sábado a transferir mobílias e armários, caixas de papelão e objectos vários para o hall que dá acesso aos diferentes sótãos desta ala do prédio. 



Os alunos repetiram exercícios com as palavras dadas. Escreveram frases que copiaram do quadro e fizeram fichas em que identificaram as sílabas em falta. Depois fizeram contas de somar e subtrair. 

Houve segundo intervalo para os mais desembaraçados e a Matoldas lá andava, boca de riso e olhos de alegria, correndo atrás das colegas. 



Aristide, afinal, rumou para a República Centro-Africana. Daí seguirá para o exílio na África do Sul. 
No Haiti, em Port-Aux-Prince, para já estamos na fase das pilhagens. 

Mas o Conselho de Segurança das Nações Unidas já votou, por unanimidade, a autorização para a deslocação de uma força de segurança para aquela terra cansada de tanta miséria. 



Diz quem sabe: “(…) qualquer verdadeiro escritor é aquele que ainda o não é.” (1) 
Inteligentíssimo, não é? 
Palavras para quê, é um sábio português e por ele ficamos a saber que Llosa é um Professor e Maugham um diletante burguês. 
Para um país de iliterados não está mau, o homem poderia muito bem dar erros de ortografia. 



E as noites frias continuam a marcar presença. 


 Alhos Vedros 
  01/03/2004 


NOTA 

(1) Prado Coelho, Eduardo do, O DESEJO DE RECONHECIMENTO, p. 5 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Prado Coelho, Eduardo do, O DESEJO DO RECONHECIMENTO, In “Público”, nº. 5091, de 01/03/2004

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Flor do Lácio


Pintura de Kity Amaral
Texto de Luís Santos



Flor do Lácio

Tal como a poetaram Olavo Bilac e Fernando Pessoa, tal como a ensinou Agostinho da Silva e nós sintetizámos, tal como a canta, romanceia e pinta, Caetano Veloso, Mia Couto, Kity Amaral, entre outros mundos de muitos outros, eis a Língua Portuguesa em todo o seu esplendor;
herdeira de lacianos romanos, integradora de invasores bárbaros e de arabescas expansões territoriais;
gémea de galicismos de gaita de foles, traduzindo-se em ardente fusão de galaico-português, irmã de castelhano e andaluz, aparentada com o basco, e não esquecendo Santiago de Compostela;
nascida que foi no dionisíaco reinado, da aragonesa Isabel, ao tempo em que o templo deriva em cristo, do Estudo Geral e em que se favorecem bons ventos para velas latinas à marinha;
ida que vai ao mundo expandida por velozes vias ultramarinas, ao Brasil, à Índia, ao Tibete, ao Japão, língua franca no índico; tal como também foram suas irmãs espanholas para o outro lado de Tordesilhas;
Língua de países outrora colonizados, então emancipados, uniformizada em espírito fraterno de alargada comunidade lusófona;
parceira nas nações unidas, em relações políticas ibero-sul-americanas, de uma união europeia de paz, apostada em razoáveis trocas económicas ideais, de trabalho por tempo livre;
por África muito disseminada e um Timor todo virado a uma varanda de aborígene, e anglófona, oceania:
Centra-se, por agora, em contemplação de uma Catalunha a votos, por uma Ibéria que se quer simultaneamente unida em suas unidades autónomas, porventura independentes, assumindo o legado liberal dos valores de igualdade e fraternidade, de pacifistas amizades, ocupada com coisas simples, belas, singelas, para todos;
nas históricas relações intercontinentais desta aldeia global, abrindo-se às infinitas possibilidades ecuménicas, simultaneamente religiosas e ateias, para que melhor se perceba donde vimos, quem somos, para onde vamos;
Amém.
Dez. 2017

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

ZÉ TANGANHO


por Leonel Coelho

(1º lugar na modalidade de conto nos JOGOS FLORAIS DE AURPICAS Alcácer do Sal 2017)

Zé Tanganho, desengonçado. Imprevisível. Ajudado por cães, dois. O preto e o branco. Vistos de longe, os cães de Zé Tanganho, eram absolutamente dois, mas observados, assim de forma mais atenta, embora dois animais, não eram dois cães. O preto era de facto um cão, já o de cor branca, era uma cadela, portanto, convém para que possamos dar jeito à história deste desengonçado Zé Tanganho, guardador de cabras, desde que, daquela maldita guerra colonial voltou com um braço a menos.

Era Zé Tanganho muito falador, muito amigo de ajudar, sempre atento aos sinais de dor, condoído com a miséria da maioria dos seus vizinhos. Filósofo também. O braço que por lá lhe ficou foi o direito, e ele, que era o campeão do jogo da malha na aldeia, viu-se e desejou-se para se adaptar a funcionar com a mão esquerda e nós, homens, sabemos que há coisas que não dão jeito nenhum fazer com a esquerda.

Estes e outros desabafos saíam da boca do Zé Tanganho, desengonçado pastor, filósofo, maneta e dono de um cão preto e de uma cadela branca. É certo que a guerra lhe levou um braço mas não a bondade, tampouco a alegria de viver.  O Zé, que era desengonçado e maneta, pastor,  filósofo e tanganho, guardava cabras. Poucas mas boas. E às vezes dois, três e até quatro chibitos de cada parição. Gabava-se o bom homem que os queijinhos que a sua Damásia fazia, depois de ver desmamados os filhotes das cabras e mais a venda dos cabritos lhes faziam um jeitão, ademais que a sua reforma não passava de uns miseráveis trocos que a seita governante lhe enviava mensalmente, que ele ou a Damásia iam levantar aos correios, cada vez menos públicos e menos correios, a quilómetros de distância e semelhantes a lojas chinesas, onde vendem bíblias e cautelas, neste mundo em tão mudança, dizia ele com a sua proverbial bonomia.
 
Basicamente, tudo ou quase tudo ali na aldeia envolvia  Zé Tanganho. No barbeiro, no minimercado, no clube, nas reuniões da junta de freguesia, Zé Tanganho ía a todas. Havia uma matança lá estava o maneta, e ninguém espetava faca no bácoro como ele.   Depois era aparar o sangue certinho e quente no alguidar de barro onde uma boa mão cheia de sal o envolvia com a ajuda de uma colher de pau que em regra, uma mão feminina manejava. Dizem que o animal parecia nem sentir.

Certa vez, o Luís, filho da vizinha Perpétua, andava com uma dor de dentes que não lhe dava descanso nem de noite nem de dia, e um dos malditos dentes abanava, mas nada de cair. Zé Tanganho muniu-se de um fio, atou uma das pontas ao dente do rapaz e a outra ao trinco da porta e quando o puto se estava a começar a perceber o esquema, já o dente lhe tinha saltado da boca, arrancado pelo brusco movimento da porta a fechar-se.

Outra vez foi o burro do João da horta fundeira, caiu num barroco e ninguém era capaz de o tirar daquela aflição. O maneta abalou para a sede do concelho, trouxe os bombeiros e era uma vez um burro que caiu num barroco. E era assim o bom homem, sempre pronto para ajudar e esperto como poucos.

De outra vez foi abordado por Joel, o calceteiro da freguesia :
-  Amigo Zé, tenho lá uma figueira maninha que é preciso enxertar, se me pudesse tratar disso, ficava-lhe bem agradecido.

Oh homem, mas estamos em Maio, essa enxertia só se faz lá para Agosto. Escolha lá a enxertia que eu depois passo lá para fazer o trabalho.

E era sempre assim. Chegados aqui será bom declarar que o que aqui me trouxe, o botar o preto no branco, a opinião que o Zé Tanganho propaga, sempre que a ocasião se proporciona em redor do racismo ou dos racismos a que ele, opiniosamente chama de xenofobias. Em volta deste tema tão complicado e tão minado de alçapões e areias movediças, o nosso homem,  dispôs-se a propor ao João Manuel, presidente da junta de freguesia, a realização de um colóquio ou debate. – Oh homem, vê lá onde te metes, olha que o assunto é cabeludo, vê lá. Mas o salão da junta está ao dispor. 

- Então só preciso que me cedas o altifalante, para avisar o povo, que mandes dispor as cadeiras e uma mesa e que faças o favor de estar presente, e agradeço-te desde já.

Foi uma noite memorável, como nenhuma outra. Aquela jornada de esclarecimentos em que o Zé Tanganho só foi protagonista na logística, foi serena, casa cheia, curiosidade e participação, muitíssima. Tive a sorte de estar na terra nessa ocasião, por assistir a uma lição de sabedorias vinda de onde menos se espera, que me encheu de orgulho por pertencer àquela gente, tantas vezes incompreendida e até humilhada. Ali ouvi, naquela memorável sessão, moderada discretamente pelo senhor José Tanganho, afirmações que ainda hoje, passados um bom par de anos, guardo como guia de alguns passos que já dei e que espero me ajudem noutros que ainda almejo dar, neste maravilhoso mundo em tão mudança.

- Olha Zé, clamava o Porfírio, ainda há poucos anos, eu deixei de falar à minha cunhada Luísa, por ela ter consentido que a filha metesse um preto lá em casa, e agora, grande alegria sinto, quando o meu João está de cântaro e pucarinho com uma bela e trabalhadora preta. 

- E eu, dizia o Rafael da rua do saco, quando para aí vieram os ucranianos para a apanha da cereja e outros trabalhos, cheguei a corrê-los à pedra e houve quem lhe assolasse os cães.

- Sabem o que eu vos digo, continuava o Rafael, eles e outros de outras paragens, que para aqui vieram, foi um bem. Boa gente, trabalhadora.  Que tal como nós, ou a maioria de nós, e sorriu para o Zé Tanganho,  só têm uma boca e… dois braços.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A ETA que há um mês atrás provocou a queda do governo da Catalunha que negociou com aquele movimento que depois estabeleceu uma trégua unilateral naquela região autónoma, parece ter sido agora impedida de voltar a levar a cabo um atentado em Madrid. 
Assolada nestes últimos anos por golpes policiais e em queda na perda da base social de apoio junto da população basca, reduzidos os suportes de alguns santuários internacionais de treino, como eram os casos da Líbia e do Iraque, por exemplo, não me admiraria se entrássemos num período de desespero que levasse à radicalização da luta e a um amento da espectacularidade das acções terroristas. No contexto da guerra mundial que vivemos com o combate ao terrorismo da Al-Qaeda e afins, não seria de estranhar uma aproximação com todos aqueles que, de uma maneira ou outra, afrontam o Ocidente pela violência. Com isso, o poder de fogo da organização poderia aumentar, assim como a sua capacidade para impor a tirania do medo entre os bascos e com isso recuperarem a sua margem de manobra chantagista quer sobre o estado espanhol, quer sobre os políticos espanhóis em geral. 

O mundo está tão agoirento que até parece que o mal vai vencendo e destruindo as pessoas e as obras de bem. 


No Haiti, depois de assinada a capitulação e de se ter falado de uma fuga para a vizinha República Dominicana de onde seguiria para o exílio, desconhece-se o paradeiro do ex-Presidente Jean-Bertrand Aristide. 
As milícias que agora patrulham as ruas de Port-Aux-Prince e impõem alguma ordem, reclamam a presença de uma força internacional para garantir a segurança no país. 
Esperemos os próximos dias. 


No Sudão, as bombas caem sobre aldeias de populações cristãs indefesas. 



A Margarida convidou a Cátia, uma colega de turma, para passar a tarde aqui em casa. 
Como o pai queria alinhavar estas linhas, não havia problema. 

A Luísa foi ao cinema ver um filme de Tim Burton. 



Ainda que um tanto desactualizado em alguns aspectos, o livro “Em Busca do Passado” continua a proporcionar-nos uma leitura muito interessante sobre os vestígios da pré-história da Humanidade e como os tratamos e analisamos para a compreendermos e explicarmos e dela fazermos as reconstituições possíveis. 


Junto ao edifício da escola primária, a luz do fim da tarde acompanha o prenúncio de Primavera que as árvores apresentam na tenra folhagem. 
O jardim do coreto, já se abonitou de cor-de-rosa. 


 Alhos Vedros 
  29/02/2004 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Binford, Lewis R., EM BUSCA DO PASSADO, Prefácio do Autor, Prólogo de Colin Renfrew, Nota redactorial de Jonh F. Cherry e Robin Torrence, Tradução de João Zilhão, Publicações Europa-América, Mem Martins

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (283)


Convento de Mafra com Lua Cheia
Foto de António Tapadinhas


José Saramago“Deve-se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz.” 

― José Saramago, in Memorial do Convento
Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

EG94


ESTUDO GERAL
nov/dez    2017          Nº94

"Amar o próximo como se de si próprio se tratasse - uma ideia de paz." (Luís Santos)


Sumário













Nota Importante: Para aceder aos artigos basta clicar em cima


---------------------------------Fim de Sumário---------------------------

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Solange das cerejas: 53 poemas de amor


Ana Maria Pessoa
Uma leitura de um livro:


José Gil é o autor que nos convida a partilhar hoje um livro pequeno, branco, depurado, de 15 x 18 cm, com 53 poemas, de amor…
É um privilégio estar nesta sessão com alguém que conheço há mais de três décadas, em contexto profissional. Mas não é esse que convoco aqui. Este é o lugar do pessoal, de um outro registo quase quotidiano, de centenas de quilómetros feitos ao longo de uma estrada já sem surpresas, com ou sem outras companhias, repleto de conversas amenas, privadas, guardadoras de segredos, muitos, pessoais, íntimos, alguns apenas sentidos, não ditos, por não encontrarmos para eles palavras. Um percurso de cumplicidades, de discussão, de pontos de vista, de timidez, de tristezas e alegrias, de angústias, trocadas e partilhadas.
Conhecemo-nos e partilham-se os medos sobre a vida dos filhos, o arrojo das decisões, as dúvidas, as certezas, os amores felizes e depois infelizes, a vida…o passado e o futuro…
Outras mulheres e homens que povoam as nossas vidas marcam também presença nestes diálogos. Até aqui nenhuma surpresa. Porém, nenhuma como a Solange – mulher real, amada – traz tanta melancolia, nostalgia e reflexão sobre distância e saudade.
Foi há muitos anos, na véspera da partida para o Chile, que soube que o José Gil (lhe) escrevia poemas. Foi uma admiração total. Depois, um dia, quase com uma alegria pueril, falou de um livro que iria publicar. Soube então que o queria pequeno, em linguagem direta, com a naturalidade de quem fala, “bonito e simples”. Seria uma forma de, como disse Nadine Gordimer, ao mesmo tempo, se esconder dizendo, em alta voz, o que sentia em surdina. Para uma pessoa tão educada, tímida, respeitadora dos outros, a escrita da poesia seria a forma de comunicar o/com o sofrimento que a distância lhe impunha.
No verão passado trouxe um livro, este, que me pediu que lesse e cuja apresentação me convidou a fazer. Hoje, agradecida, aqui estou para lhe devolver a minha resposta e, com ele e com todos aqui presentes, partilhar a intimidade que ele nos oferece.
Um título cheio - com a amada e com pequenos poemas que, tal como as cerejas na cultura popular, não se consegue parar de ler como numa magia que se estabelece “entre a folha branca e o gume do olhar” (Eugénio Andrade).
Um livro sobre o oceano Atlântico, enorme entre duas pessoas, que ”conhece muitos segredos” e que comunica sofrimento. Um livro triste, sobre a solidão. Repleto de palavras “ cheias de memória/, algumas, um punhal, um incêndio/outras, orvalho apenas” (Eugénio de Andrade), de lugares, de cheiros, de sabores, de gestos, de cores. Sobre o amor, os tempos felizes, fugazes.

As sultanas, o melão, os figos do cato (as piteiras, o figo-da-índia, a figueira do diabo...), os morangos, os marmelos, as nozes, o mel, o vinho, lembram poemas do quotidiano de tempos árabes na Península, cantados por poetas como Al-Mu'Tamid.

A leitura, o corpo, “o amor sem feriados”, “os beijos com flores eróticas”, “os teus lugares ausentes das minhas mãos” “ o teu corpo para mergulhar na minha terra o lugar da serenidade” são a exposição de um homem na meia-idade que ama, que partilha essa felicidade com quem o lê, sem rebuço ou pudores. São um convite a entrar na intimidade de prazeres e tristezas de quem os escreve, sem disso ter vergonha. São a concretização da máxima de Fernando Savater que, aos professores (como é o caso de José Gil) recomenda que exponham, sem despudor, a sua nudez perante quem os ouve.

Poesia de espaços e lugares entre Colares, Santiago do Chile, Guincho, Nazaré, Sevilha, Cascais, Serpa, Sintra, Belo Horizonte, Évora, Pinhal Novo, Punta del Mar, Valparaíso, onde se expõem pormenores com um detalhe de filigrana e de geografias que o aprisionam e que lhe recordam todos os sítios de felicidade.
O tempo multifacetado de uma década de amor é encarcerado em frases que percorrem “o verão”, “o natal”, “dezembro”, “o amor sem feriados nem domingos”, “janeiro é assim”, sábado chove no outono, fevereiro”. Esta sucessão rápida, só na enumeração, carrega uma angústia melancólica na lembrança.
A poesia chilena, a de Drummond de Andrade, a de Leonard Cohen sussurrada ao ouvido no “dance me to the end of love” percorre, do início ao fim, o texto destes 53 poemas. A ela se juntam algumas das causas por que vale a pena bater-se: o teatro sempre, os refugiados, a resistência de Mandela, “a podridão das negociatas e o direito à honra”, o colonialismo e o “desemprego a crescer na nossa mátria”…
Poesia ainda de distância e saudade que impede a felicidade total. O “que temos lutado para não haver longe nem distância”, entre um tempo passado de que se fala,” no natal passado que demorou meses a preparar”,” quantos dias passaram sem as cerejas das tuas carícias”, “dormimos nas palmeiras da sombra”, ”eu amo-te dolorosamente na linha da distância”.
Esta maldição lançada sobre a distância é tão consciente e castradora que o poeta nos faz lembrar os versos de Pablo Neruda, precisamente sobre a dor da distância, quando este diz:” Não estejas longe de mim um dia que seja, porque, porque, não sei dizê-lo, é longo o dia”.
A saudade impõe-se, diacrónica, do princípio ao fim do livro, em frases curtas, acutilantes, quase impercetíveis: “Saudades de tantos abraços, saudades”, “estamos tão longe e tão perto”, “Lembramos Santiago com saudade infinita”, “esquece as saudades nos meus dedos vagabundos de mel”, ”mergulho nos cabelos da saudade com trancinhas húmidas como algas”, “as saudades de tantos dias de outro”.

Nestes poemas há uma angústia constante perante a dificuldade de viver o presente, ou seja, um intervalo entre um passado de amor que se recorda e que se inquieta com a invenção de outras formas de preparação de novos encontros: “espero devagar o passar do tempo” “Dedos que escrevem o branco caminho da tua vinda em agosto”, “ imagino o futuro agosto”.

Este livro, também onírico, delirante, verbaliza cada dia como se fosse um sonho irreal gasto na preparação de encontros vindouros, angustiantes porque sem limite previsto para acontecerem, embora estimulantes porque com esperança de concretização – “vou tocar o teu peito com pedrinhas doces”, “vou voar em sonho de madrugada de Lisboa para Belo Horizonte”.

Num livro de poemas de amor há lugar para uma dedicatória à mãe que, apenas no que à felicidade da infância se refere, lembram Eugénio de Andrade no Poema à mãe. Também aqui José Gil é feliz pois é “o menino que adormeceu nos teus olhos”, que recorda a felicidade da recolha das folhas de amoreira, ainda hoje, já enormes e inacessíveis, mas ainda visíveis, na Av. Grão Vasco e que passou tardes imensas na “esplanada da Nilo”, a pastelaria onde, ainda hoje, também a mãe se senta mesmo que nem sempre na companhia dele.
A relação de igualdade entre o par amoroso, a preocupação com o outro, a ingenuidade do quotidiano está também patente num poema que não resisto a ler (poema 33, p. 33):
“e o teu pezinho, amor lindo, ainda dói?/demora tempo a passar/meu amor lindo, demora tempo/ mas vai passar com o verão/ coloca o pé sempre ao sol e dentro de água com sal/. Ana da sempre, nunca pares/anda, anda devagar se necessário, mas anda/ e toma os remédios/do médico/. amo-te tanto, escrevo-te hoje como um poema,/ ao ano está quase a mudar e estou só//escrevo para sobreviver/és a mais linda, a mulher/ transatlântica/que me deu tanto amor/beijo e beijo/pensa em mim/ eu rezarei para o novo ano”.
Se se ousasse enclausurar o livro numa palavra poderia escolher-se, como o próprio poeta afirma, a “solidão” de quem vive “vencido pela paixão”. Regressando de novo a Pablo Neruda, também o poeta assume que “estou triste: mas sempre estou triste. Venho dos teus braços. Não sei para onde vou”.
Apesar de tudo, existe uma esperança, uma hipótese de remissão que o poeta partilha com quem o lê: a crença no poder da poesia, quando se afirma (poema 53, p. 50):
“não há divisão entre a vida e a poesia/ponte ou muro na transparência/meu corpo é aberto no alcatrão/ quando o poema explode, onde/os outros pavoneiam a sua obra/eu apenas desejo transformar-me/ num comboio de laranjas de sol/ e revelar a prática dos carris de ferro/e o gelo mais duro da solidão picado/pela casa de todos os leitores/ pelas portas que os seus olhos abrem/e pela gratidão doce da sua leitura”.

                                               Sonim/Lisboa, agosto 2017
                                    Ana Maria Pessoa

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O SÁBADO E A RECAPITULAÇÃO

Sábado repousado, com tarde de andorinhas no ar e o Sol que lava o céu de azul, fazendo das nuvens elementos de cenário propício a aguaceiros. 
Mas a temperatura está baixa. 
Há neve nas terras acima dos quinhentos metros o que, para nós é pouco em altitude e muito em termos daquela forma de precipitação sólida. 

Parece que a vaga de frio se faz sentir por todo o continente e, pelo menos, na Península Ibérica, tem provocado embaraços na circulação rodoviária. 
Na fronteira entre Espanha e França há muitos camionistas e outros portugueses retidos em áreas de serviço. 
Teme-se que as pessoas ali tenham que passar todo o fim-de-semana. 



E a violência que nas últimas semanas se tem feito sentir no Haiti, com os opositores do Presidente Aristide a contestarem a sua reeleição e a empunharem armas para o destituir, parece agora estar a chegar ao objectivo principal. 
Há sangue e morte nas ruas e da comunidade internacional surgem vozes que reclamam uma intervenção. 
A queda do poder está iminente. 
Façamos votos para que se não siga a carnificina. 



Uma coisa que tinha ficado por registar foi a ida das pequenotas ao Pediatra. 

Tudo normal e saudável com a Margarida. 

Mas a Matilde tem peso a mais para a altura e ainda que não seja caso para alarme, convém tomarmos cuidados para que não venha a ser um dia uma pessoa obesa, o que só lhe prejudicaria a saúde. De resto, não há qualquer outro problema. 

E o pardalito já pode dizer ao Médico que também ela sabe ler. 

Por motivos laborais, desta vez o pai não esteve presente. 
Mas a mãe galinha inchou de contente. 


 Alhos Vedros 
  28/02/2004

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (282)

O Fado, José Malhoa, 1910
Óleo sobre Tela 150 x 183 cm

O fado foi elevado à categoria de Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO, numa declaração aprovada no VI Comité Intergovernamental desta organização internacional, realizado em Bali, na Indonésia, entre 22 e 29 de Novembro de 2011.
A origem histórica do fado é incerta. Não é uma importação. É o resultado de uma fusão histórica e cultural que ocorreu em Lisboa. Surge na segunda metade do século XIX, embalado nas correntes do romantismo: melopeia exprimindo a tristeza de um povo, a sua amargura pelas dificuldades que vive, mas capaz de induzir esperança. Contaminando mais tarde os salões da aristocratas, tornar-se-ia rapidamente expressão musical tipicamente portuguesa.

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

"O Apocalipse sobre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós", livro de Paulo Borges


"Sozinho, no cais deserto, nesta Hora sem tempo
Olho pro lado da barra, olho pro Infinito
Olho sem olhos, corpo-alma transido de saudade
Olho a fúria deste céu de crepúsculo e tempestade
E a Distância começa em mim a girar
A Distância começa em mim a girar
A Distância começa em mim a girar"

"Sou A-que-não-é, A-que-não-foi, A-que-jamais-será
A matriz imensa que a tudo dá à luz, nutre, reabsorve e recria
A mãe, irmã, esposa e amante de todos os seres e coisas
O Alfa-Ómega
A Toda-Poderosa que nada pode senão tudo amar
A infinita saudade que há em todas as coisas
O Infinito-Saudade"

"Não apareci senão para te iniciar ao Amor
Para te insuflar boca na boca o Fogo-Sopro do mundo
Para unirmos os corações ardentes
No íntimo da carne iluminada"

"Ah, quem me desencantará?
Quem me reconhecerá?
Quem me beijará o coração?
Quem me amará e fecundará?
Quem erguerá a mão, encontrará hera
E verá que “ele mesmo era
A Princesa que dormia”?"

"Cesse aqui todo o pensamento, imaginação e linguagem
Dissipem-se todos os véus de conceitos, palavras e símbolos
Finde tudo o que a musa antiga canta
Que outro valor mais alto se levanta
Nada acrescentemos ao espanto, perplexidade e maravilhamento
Deste imenso esplendor e prodígio!"

"Vinde a nós, ó vós todos em cujo íntimo desde sempre habitamos!
Vinde a nós, ó vós todos em cujo coração agora mesmo ressurgimos!
Vinde, ó vinde, vós todos que sois Todo o Mundo e Ninguém!
Ó vós todos, povos-seres de todo o cosmos que trazeis no coração um Mundo Novo!
Aqui e Agora vos convocamos
É a Hora da Grande Mutação
A Hora das Horas
A Hora dos quatro tempos refluírem para o centro anterior a tudo
E ressurgirem como o Quinto
O Império sem império
A Era sem tempo
A Era sem era do despertar da consciência-coração na visão-amor universal!

Ó excelsas irmandades e confrarias do Quinto Império sem império nem imperador a não ser a coroada criança que dança de roda e olhos atónitos num rodopio de espantos, pombas e rosas!
Ó excelsas irmandades e confrarias do Império do Santo Espírito, que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai, sopra onde quer e fala um silêncio de todas as línguas!
Ó excelsas irmandades e confrarias dos amantes andróginos, que conduzem ao altar interno o masculino e o feminino e o unem em Núpcias mais vastas que o espaço que explodem em festas e folias de amor por todos os seres e coisas! 


Vinde a nós, ó vós todos, que é a Hora!
É a Hora!
A Hora!
Agora! 

Valete, Fratres!
Saúde, Irmãos!"

Do livro "O Apocalipse segundo Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz" de Paulo Borges.
A obra é a base do guião do espectáculo multi-artístico com o mesmo nome que se estreou recentemente no Teatro do Bairro, em Lisboa, e terá uma nova representação no Teatro D. João V, na Damaia, em 25 de Novembro, às 21:30:


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Dilucidações


por Abdul Cadre


A mente humana – objectiva e subjectiva – é, em nós, uma limitação da mente total e absoluta a que os rosacruzes chamam de Mente Cósmica. É por virtude desta potência e disposição que sentimos infundidas em nós todas as capacidades mentais que nos caracterizam como humanos. Um pouco mais aquém e eramos bichos, na melhor das hipóteses animais de companhia.

Há quem chame à mente objectiva mente concreta e à mente subjectiva mente abstracta, o que me parece nomenclatura pouco feliz. Todavia, é bom que se saiba que não existem tais mentes como realidades separadas, trata-se do entendimento de funções, de funcionalidades, porque a mente é só uma, não fraccionável. As ondas não fraccionam o mar, levam apenas a que a nossa atenção se aperceba dos pormenores.

Funcional, porquê? Vejamos: a mente objectiva permite-nos atravessar a rua sem sermos atropelados, mas é um instrumento limitado de simbolização, pois só pode socorrer-se do que já foi, usando com a eficácia possível o pensamento dedutivo, sendo por isso simplesmente racional, nem mais se lhe pode exigir; a mente subjectiva, por outro lado, alimenta-se das sensações, das emoções, das intuições e dos sentimentos, usando privilegiadamente o pensamento indutivo e o pensamento analógico.

Há racionalistas empedernidos que se vangloriam de usarem exclusivamente a mente racional. Iludem-se. Felizmente para eles – e para todos nós – tal não é possível. A sê-lo, cuidado, que a inteligência artificial está aí, disponível para as substituições.

in, Declinações de Rosa (Blogue)
Ciências Antigas por Abdul Cadre
segunda-feira, novembro 20, 2017
http://abdulcadre.blogspot.pt/ 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Duetos luso-brasileiros


Fotografia de Kity Amaral
Poema de Luís Santos



Roseiral

A Rosa é sem porquê,

se tem água, se tem luz
força que a rasga na terra
cresce e floresce, radiosa

metida no centro da cruz
véu de endeusada fragrância
redenta e rebenta, cheirosa

em janeiro faz milagres
em novembro dá poema
e ei-la em nevoeiro, encoberta

uma prenda templária
uma rosada cristianice,
um diz que disse.


terça-feira, 21 de novembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HISTÓRIAS DA TERRA ENCANTADA
17

Ao que parece, a aventura da Humanidade começou em África. 
Sabe-se que primatas que viveriam nas árvores e que podem ter sido os antepassados da nossa grande família – salvo seja a expressão – terão existido fora do território que actualmente constitui esse continente, mas os vestígios mais antigos que se conhecem de seres bípedes e a quem é possível atribuir um lugar na nossa árvore genealógica, pelo menos até ao momento, só ali se encontram e daí a afirmação do primeiro parágrafo. 
As razões pelas quais tais animais terão passado da experiência arborícola para a vida na superfície permanecem obscuras, contudo, conseguimos induzir factores extrínsecos e intrínsecos à própria biologia para que tal tenha acontecido. Factores de ordem climática que possam ter provocado alterações nos ecossistemas, com a redução das florestas e o avanço das savanas, ter-se-ão combinado com a selecção natural provocada pelo sucesso reprodutivo daqueles que melhor se adaptaram a esses novos condicionalismos de existência; é provável que os machos mais hábeis na postura e na marcha erecta tivessem mais facilidade em alimentar as fémeas e respectivas crias e, com isso, deixando maior descendência com tais características genéticas, tenham contribuído para a afirmação de uma(s) espécie(s) de primata(s) capaz(es) de sobreviver(em) em diversos ambientes. 
Seja como for, se, por ventura, isto sucedeu em outras parcelas do planeta, ainda não foram encontradas quaisquer provas. Foi em terras africanas que se encontraram os mais remotos testemunhos físicos dessa parte da nossa história, quer sob a forma de ossadas mais ou menos completas, quer por obra do feliz acaso que registou as pegadas de um grupo de indivíduos que há três milhões e meio de anos caminharam, como qualquer um de nós o faria, sobre uma camada de cinza. 
A verdade é que há volta de quatro milhões de anos atrás terão vivido alguns grupos que, para além da identidade genética descrita, faziam uso de utensílios tanto para a captura como para o tratamento de alimentos. 
Estamos a falar dos Australopitecos que terão evoluído separadamente em dois ramos, o robustos e o grácilis que se viriam a extinguir há mais ou menos um milhão de anos. 
Provavelmente jamais se saberá se foi entre eles que se desenvolveram capacidades como as da linguagem ou do pensamento lógico, mas assim não deve ter sido, pois avaliando pelas modificações operadas nas pedras que usaram como ferramentas e pela leitura das informações ósseas até agora encontradas e identificadas, tudo indica que a boa ventura destes animais terá durado um número incrivelmente elevado de gerações sem que significativos acréscimos culturais tenham sido produzidos. 
Pela análise dos dentes encontrados e pelo que nos permitem inferir quanto à alimentação praticada, tudo aponta para que a primeira daquelas ramificações ter-se-á especializado mais numa dieta vegetal, ao contrário dos outros manifestamente omnívoros. 
Por enquanto é impossível destrinçar se foi no contexto desta espécie ou de qualquer outra de que ainda não tivéssemos conhecimento que surgiram os seres que, pelos volumes cranianos, os antropólogos apelidam já como homo. Na primeira hipótese, a passagem, se me é permitido este termo, dos australopitecos ao homo, terá seguramente ocorrido por via da mutação genética e depois potenciada pelas leis darwinistas da evolução. Mais uma vez, os que melhor estavam adaptados a alimentarem-se e a protegerem-se melhor duraram mais e tiveram mais sucesso reprodutivo o que terá contribuído para que estes indivíduos, por um lado, tenham sobrevivido àqueles de quem, afinal, descendiam e, por outro lado, concomitantemente tenham confluído, pela concorrência exercida, para acelerar aquele já referido processo de extinção. 
Com os conhecimentos que hoje em dia possuímos, é empiricamente sustentável dizer que África é o berço da Humanidade, não só por ter sido lá que surgiram os nossos mais recuados ancestrais, tal como, assim o veremos mais tarde, igualmente viria a ser de lá que partiram em migrações sucessivas, tanto os avós dos sapiens sapiens como estes, propriamente ditos.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (281)

As Musas Inquietantes, De Chirico, 1925
Óleo sobre Tela, 97x67 cm

Giorgio De Chirico nasceu em Volos, Grécia, em 1888 e morreu em Roma, Itália, em 1978. Estudou em Atenas. Foi para Munique que era na altura um viveiro da moderna inquietação artística dessa primeira década do século XX. Entre 1911 e 1915 viveu em Paris, onde despertou a admiração de Apollinaire o poeta que dava o máximo apoio ao cubismo e às vanguardas artísticas dominantes. Durante a Primeira Guerra Mundial retornou à Itália. Nesse período, na companhia de Carrá e Morandi, introduziu ideias de uma pintura metafísica, que interrogavam as dimensões do conhecimento.
Viveu nos Estados Unidos, entre 1935 1938, onde a sua pintura atingiu valores inesperados. 
A partir de 1944, instala-se em Roma onde pinta até à data da sua morte, em 20 de Novembro de 1978.

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 18 de novembro de 2017

José Flórido


Creio que se deve adquirir, cada vez mais e melhor, uma perspetiva holística da realidade. Daí que a atividade criadora exija que o ser humano se esforce no sentido de usar todas as suas faculdades, desenvolvendo-as harmoniosamente em todas as direções. O que só é possível, evidentemente, desde que se reconheça primeiramente a relação de interdependência entre todas as coisas. É por isso que observo com alguma desconfiança as supostas vantagens de certas especializações, send...o até costume dizer-se, com alguma ironia, que um "especialista é alguém que sabe muito de pouca coisa".
Ora, apesar de já vivermos numa era, designada por Pós Industrial, em que o trabalho físico é realizado, na sua maior parte, pelas máquinas, e o mental pelos computadores, não deixa no entanto de ser interessante refletir no conteúdo do seguinte apontamento:


"Quando Henry Ford começou a fabricar um determinado modelo de automóveis, eram necessários 7882 trabalhos especializados. Ford observou então que, desses 7882 trabalhos especializados, 949 requeriam homens fortes, aptos e praticamente perfeitos fisicamente; 3338 requeriam apenas homens de força física vulgar, podendo a maior parte dos restantes ser executados por mulheres ou por crianças crescidas. O que levou Henry Ford a afirmar friamente: "verificámos que 670 desses trabalhos podiam ser desempenhados por homens sem pernas; 2637 por homens só com uma perna, 2 por homens sem braços, 715 por homens só com um braço, e 10 por homens cegos."
De onde se conclui que uma tarefa especializada não exige uma pessoa inteira. Mas apenas uma parte."


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Erva-formigueira


Amigos,

Um destes dias fui à Herdade do Alto do Pina (Poceirão) apanhar espargos silvestres para os incorporar no Almoço de Natal da Sociedade Portuguesa de Naturalogia, a realizar no próximo dia 16 de dezembro. Colhi uma quantidade razoável! Aproveitei também para apanhar saramagos para um delicioso esparregado. O almoço vai ter, de novo, uma componente importante de ervas comestíveis para suscitar curiosidades e educar os paladares dos comensais habituados às artificialidades que o marketing coloca nos supermercados. De repente, vejo uma ramalhuda erva-formigueira (atenção que esta não é para comer) e logo pensei, ela vai ser a protagonista da próxima lição de fitoterapia.
Abraços!

Miguel Boieiro


Numa pequena propriedade meio abandonada brotou, em interstício do empedrado, uma erva-formigueira. Passados alguns meses, quando lá voltei, a pequena erva tinha-se transformado numa enorme moita, reproduzindo-se vigorosamente por vários locais. Podemos assim, desde logo, deduzir uma das características desta planta mexicana: a produção de milhares de sementes o que origina a sua rápida proliferação como espécie infestante. Outro atributo marcante é o seu odor indefinido, mas inconfundível. Há quem diga que cheira a formigas esmagadas e daí o nome que se dá à planta. Outros mencionam que deita um aroma que parece uma mistura de petróleo, menta, cânfora, segurelha e limão. De qualquer forma, a fragrância é muito intensa e original.

Para que não haja confusões, uma vez que o termo popular “erva-formigueira” aparece atribuído a diferentes plantas, em várias regiões do mundo, esclareço que me estou a referir à Chenopodium ambrosioides L., planta da família das Quenopodiaceae, nativa da América tropical, que se aclimatou com facilidade em todas as regiões subtropicais e temperadas. Sendo bastante utilizada pelos ameríndios como planta medicinal, foi trazida para a Europa pelos espanhóis no século XVI e logo tomou várias designações: epazote, chá-do-méxico, chá-dos-jesuítas, erva-de-santa-maria, erva-vomiqueira, formigueira, lombrigueira, mentruz, quenopódio, ambrósia, etc.

Crê-se que a reputação desta planta provém do facto de afugentar ou eliminar parasitas, outrora muito comuns nas habitações e povoados: pulgas, piolhos, percevejos, carrapatos, moscas …

Em traços largos, podemos descrevê-la como herbácea anual ou perene, de raízes brancas, compridas e oblongas. Os seus caules são vigorosos, angulosos e ramosos, possuindo sulcos longitudinais pouco profundos, podendo atingir um metro de altura. As folhas são ascendentes, oblongo-lanceoladas, irregularmente dentadas e agudas com pecíolo curto. As flores aglomeram-se em espigas terminais e são brancas ou levemente esverdeadas e pequenas (1 mm de diâmetro). Os frutos, também muito pequenos, são aquénios ovóides achatados, completamente envoltos nos respetivos cálices, dando sementes pretas, brilhantes e lisas. Com bom desenvolvimento vegetativo, um só pé pode produzir dez mil sementes. Toda a planta, sendo intensamente verde, avermelha um pouco, quando as sementes amadurecem.

Os seus principais constituintes químicos são saponinas, taninos, sucos amargos e um óleo essencial, cujo componente determinante se chama ascaridol. É ele o principal responsável pelas propriedades anti-helmínticas da erva-formigueira (capacidade de eliminar os parasitas intestinais). O óleo, amarelado e de aroma penetrante, serve de base a muitos medicamentos e aplicações veterinárias.

Para além da propriedade antes citada, a planta é carminativa, tónica estomacal, emenagoga, antiespasmódica, vermífuga, diurética, cicatrizante, analgésica, antirreumática e antiasmática.

Outrora abusava-se em demasia, quer da erva, quer da sua essência, ocorrendo frequentes intoxicações devido ao ascaridol. Hoje em dia continua a consumir-se a erva-formigueira mas com os devidos cuidados e não ultrapassando as doses prescritas pelos especialistas.

Algumas receitas clássicas:

Para eliminar vermes intestinais, melhorar as funções digestivas, aliviar a asma e as perturbações nervosas – tomar três chávenas por dia de uma infusão de 20 g da planta verde num litro de água.

Para pernas inchadas, varizes, afeções da pele e picadas de insetos – aplicar cataplasmas das folhas cozidas com sal marinho.

Tendo sempre presente, as contra-indicações provocadas por doses elevadas, lembra-se que a infusão da erva-formigueira era, noutros tempos, tomada com regularidade como sucedâneo do verdadeiro chá.

Atualmente estuda-se, com acuidade, o seu efeito inseticida contra melgas e mosquitos e a aplicação em agricultura biológica para combater determinadas pragas.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Cada vez mais me convenço que o Ocidente não soube ganhar o mundo que se seguiu à queda do comunismo. 

Não é verdade que aqueles regimes tenham caído por efeito de uma acção directa e imediata dos países ocidentais justamente visando tais propósitos, se bem que a presidência de Ronald Reagan tenha colocado a então União Soviética perante desafios no plano militar e geo-estratégico que vieram pôr a nu as fragilidades tecno-económicas daquela super-potência. 
Concretamente, o movimento que levou à queda do muro de Berlim e à substituição dos partidos comunistas no poder em todo o bloco leste, iniciou-se por obra das políticas de abertura do senhor Gorbatchov que, ao tomar consciência do atraso estrutural dos níveis de desenvolvimento dos soviéticos, identificou os vícios do sistema e pensou que as respostas para os mesmos seriam alcançadas por via da abertura que ficou conhecida pelos vocábulos de perestroika e glasnost. A realidade foi que aquele universo simplesmente implodiu, caiu por si pois, se por um lado a maior liberdade política serviu para a afirmação de reivindicações várias e de vária índole, quer a nível da união, quer das repúblicas, por outro lado, a liberalização económica rapidamente estiolou o anterior tecido produtivo que não tinha como se adaptar a dinâmicas internas e externas mais concorrenciais. E as populações dos países satélites aproveitaram para apearem os comunistas e se subtraírem à lógica de uma das polaridades da guerra fria. 
Isto foi o que se passou e do lado ocidental estiveram bem aqueles que interpretaram as políticas de confronto, como o foram os casos do já referido Presidente dos Estados Unidos e da Primeira-Ministra britânica à época. Mas faltaram os democratas, isto é, faltaram os homens capazes de perceberem que tão importante como a derrota da tirania seria a vitória do estado de direito naqueles territórios e todo o apoio necessário à reconstituição daquelas economias e ao desenvolvimento entre aqueles povos, de modo a que a democracia aí pudesse ganhar sementes e florescer. Só que o drama da nossa contemporaneidade está no défice de democratas e, apesar da retórica que se ouviu, no contexto das democracias ocidentais, não surgiu uma única figura com estatura suficiente para encabeçar tais políticas. 
E o resultado foi o que se viu. 
Sucesso na transição para o capitalismo nos estados com maiores ligações históricas ao centro da Europa e vitórias mafiosas nos restantes, com um lastro de guerras e misérias que mais não serviram que de combustível para os fogos de todos os inimigos do mundo livre. 

Este é um dos contextos em que devemos compreender a guerra mundial em que, actualmente, o terrorismo da Al-Qaeda procura prostrar as sociedades do nosso contentamento. 



Bolas! Uma pessoa tem dois diazinhos de folga e fica logo atolada na volta. 



Dickens, os contos e as parábolas, a contemplação da fé no ser humano. 
Como é bom ler os “Contos de Natal” quando, do lá de lá das vidraças do conforto, o campo se deixa atapetar pela alvura que, tão serena, cai do céu. 



Hoje os alunos reataram com exercícios sobre palavras e números que, em definitivo, entraram no domínio do início das contas de somar e diminuir. 



Este problema dos barcos espanhóis com licenças para pescarem na ZEE dos Açores é o corolário de uma incapacidade dos nossos governos para defenderem os interesses portugueses no sector. Naturalmente, estou a falar em termos da nossa presença na União Europeia. 
Agora nada há a fazer. Deixámos que se menorizasse a importância daquela actividade no contexto da economia nacional e aceitámos que nos reduzissem sucessivamente a frota e as quotas de pesca. Não espanta pois que os outros se apresentem capazes de explorarem os nossos recursos. 
É claro que isto nunca incomoda a nossa classe política que lá vai vivendo de vacuidades. 



Há frio na noite
é o que nos dizem as estrelas que brilham no céu. 


 Alhos Vedros 
  26/02/2004 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Dickens, Charles, CONTOS DE NATAL, Prefácio do Autor, Tradução de Lucília Fílipe, Público, Lisboa, 2002