quinta-feira, 2 de abril de 2026

O Poema da Alma

 por Luís Rodrigues

O Poema da Alma, um percurso iniciático, trata de um poema que tenta sondar os domínios dessa dimensão etérea, a alma, pensada aqui como um elemento primordial que integra cada pessoa, em íntima relação com a respetiva parte física, e que cremos ser muito vantajoso conhecer melhor.

Um poema extenso que se divide em dez partes, ou capítulos, a partir daqui, com publicação sucessiva de cada um deles. O poema tem um prelúdio que diz assim:


PRELÚDIO

ALMA, entidade ao mesmo tempo individual e coletiva, eterna. O que antes de ser já era.

Cada pessoa (persona) tem uma alma que, por conveniência, vamos chamar de “supraconsciência”. Sobrevive à morte física. Forma-se entre consciência e espírito, ou espíritos (que evolutivamente tende a revelar e consolidar um Espírito Santo).

A Supraconsciência - mente, consciência, espírito – afinal, dimensão do que é cada pessoa.

É esta entidade que encarna e reencarna. Na reencarnação, a roda das vidas, o sofrimento e a iluminação (ou a lição que diz ser possível eliminar o sofrimento).

Cada indivíduo tem uma CONSCIÊNCIA própria que lhe dá um sentido existencial, terreno, mas não só, porque no universo tudo está interligado com tudo. O que cada um é, o que somos todos juntos.

A consciência que se forma a partir da mente, dos pensamentos. A MENTE, que mente e desmente, desalmada-mente. Uma preciosidade humana, uma conquista.

 A mente que é individual, mas que tão pouco está desligada das outras mentes.

O medo? É que nem vale a pena ter medo… mas existe. Os bois pretos com cornos em pontas. A bravura da natureza. A tempestade que não existe separada da bonança.

Enquanto vos escrevemos, vamos dizer dos três livros que nos acompanharam durante este período, pela ordem que os fomos lendo:

- Dr. Manuel Sans Segarra, A SUPRACONSCIÊNCIA EXISTE, Vida depois da vida;

- Luís Portela, SER ESPIRITUAL, Da Evidência à Ciência;

- William Walker Atkinson, A VIDA depois da MORTE, O que acontece quando morremos?


I

O CORPO

a aura do corpo

as luzes da cidade.

O breu

a neblina, o nevoeiro

a evaporação da água

o dilúvio.

A enxurrada

e as correntes frias

a tempestade.

O furacão

a ventania e o sopro

o murmúrio.

O segredo e o medo

do medo

o arrepio.

As tonturas

e o receio das alturas

o sopro.

Uma nesga de luz

a bonança, o ânimo

e o corpo.

As teias que o corpo tece

a habilidade da mente

o desde sempre.

A consciência

a mente e o espírito

santo.

A supraconsciência, a alma

o que antes de ser,

já era.


II

O rodopio da DANÇA

o deixar ir

o corpo na espiral da mente

como quem não sente

o tempo.

 

O compasso

alargar o espaço de mão dada

num abraço

no jogo das pernas

como quem corre em bicos de pés.

 

O coração ritmado

como o bater do tambor

que bate acelerado

num outro entrelaçado

alegro movimento

 

O som dos sapatos

no verniz do salão

as calças vincadas

as franjas rendadas

as luzes das lantejoulas

 

O fole da concertina

a com certeza do toque

a beleza da afinação

e o sorriso certo

de quem ri

 

 III

A MÙSICA das esferas

o cântico dos cânticos.

 

A flauta de pan

os tan tan

intrépido bater dos tambores

o calor as fogueiras

o deslizar dos dedos

e o encostar da cabeça nos violinos

 

A inspiração

a beleza de uma canção

romântica

ou talvez não

o bater do coração

o sopro no microfone

 

O transe

O abanar da cabeça

o rasto do som

que escorre pela garganta

a xama do encantamento

de quem canta

 

Dá-me encantamento

que em cantamento me dá.

 

IV

A MENTE que mente e desmente

desalmada-mente,

desenpalavrada de palavras

instrumento de tecni-cidades

códices ilusoriamente reais

escavadeiras de enigmas

de buracos abertos sem fim

milagres vários

no interruptor da luz branca

todas as cores

da criação infinita

de fotografias que ilustram poemas

da retórica demagógica

de políticas e coadjuvantes ciências

alvorada dos automatismos

de todas as maquinarias

todos os armamentos

das ameaças da bomba nuclear

das viagens espaciais

das 30 léguas submarinas

da navegação à bolina

e da vela triangular

bússola de cinco sentidos

astrolábio de todos os ângulos

de todas os conteúdos estelares

do mapa do céu às avessas

dos construídos universos

da pangea

deriva das plataformas continentais

da consciência e da sua ausência.

 

V

A MEDITAÇÃO das meditações

o esvaziar da mente

o silêncio além de todos os pensamentos

a vacuidade de todas as coisas

a desconceptualização

o fim último da realidade

o apego e o desejo no destino

da roleta das vidas

o desnudar do sofrimento

e um xarope para a mente

as budeidades e o Dali Lama

mais o budismo tibetano

os mestres e os mantras

o tantra do mais alto ioga

a dor de cabeça de não pensar

a pacificação do corpo

a paz de todas as coisas

das divindades pacíficas

a etérea energia

o calor do peito

na demanda de toda a subtileza

do fim da grosseria

a flor de lotus e a flor de lis

do Luís e das luzes da iluminação

dos estados intermédios

dos seres e das cores que nos assistem

e que são tão nossas

o próximo devir

a pura consciência.

 

VI

O INCONSCIENTE

o reservatório da mente

camadas por baixo de camadas

vitórias e derrotas

traumas e conquistas

sinais de alerta

chamadas de atenção

porque há que criar consciência,

as trocas de energia entre amigos

o namoro e o sexo

os resultados da escola

as relações de vizinhança

os tios, os primos e os sobrinhos

o leite e o colo, a mama e a xuxa

os vultos da noite

os sonhos,

as outras vidas

os entres passados

o bem e o mal de mãos dadas

as guerras, a saúde e a morte

o renascimento

a Nossa Senhora protetora

os milagres e a magia

branca e negra

a feitiçaria e os feiticeiros

o inconsciente cármico,

à beira de um novo devir

 bebemos por inteiro o inconsciente

do rio Lete.

 

VII

O mergulho no sono, nos SONHOS.

Um outro tipo de realidade após a vigília,

um outro tipo de ser que nasce

um outro tempo, futuro do passado

de pesadelos e mundivências fascinantes

 

Nos sonhos,

o regressar a vidas que já foram, e continuam a ser

lugares e paisagens desconhecidas,

de tão esquecidas, não se sabe de onde vem

tanta coisa, tanta gente.

 

O recorrente efetivo “déjà vu”

a materialização do sonho, uma premonição

uma antecipação do futuro, a inexistência de tempo

a plasticidade de um tempo diferente

do aparente viver, da mensurável cronologia.

                                                                                                           

Um reflexo banal do que antecede o sonho

da leitura habitual, do filme, do futebol

do ciúme, da inveja, da imaginada traição

do medo, da incerteza, da dúvida

da falta de fé, de uma consciência a meio caminho.

 

Do onírico mundo das asas do anjo da guarda

todos os arcanjos e potestades, todos os deuses

unicórnio pégaso, cavalo alado, fiat lux

o inesperado voo entre todos os véus dos céus

o abandonar do corpo pelo teto do quarto

 

 VIII

O construto da CONS-CIÊNCIA

 a brincadeira na conquista das ruas

a compreensão das linhas da passadeira

os espaços públicos, o jardim, a associação

as marcações dos  campos de jogos

os berlindes, as caricas e os computadores

 

Os amigos, os antigos, os novos e as noivas

o beijo em forma de linguado e o fado

desenganado desencontro no aperto das mãos

nas trocas do corpo, das pernas e dos dedos

a tomada do conhecimento dos livros

 

A paz e a liberdade, até de não ser livre

liberdade de cada um, de cada outro

encontro de irmãos em partilhas feitas

a circunscrição das leis entre iguais

a cons-ciência das técnicas do poder

 

Os aviões, os foguetões e os satélites

o milagre da luz e da luz elétrica

na nossa água quente do dia a dia

na fresquidão do ar e dos frigoríficos

a energia atómica e a consciência cósmica

 

O encontro com a divina sustentabilidade

O trono real  e a coroa da eterna idade

a certeza da lógica analógica no devir de tudo

todos nós, quântico senhor do mundo

o definito mergulho na mão natureza

 

IX

A consciência e a natural DEMÊNCIA

o tormento da desalmada identificação

o estrondoso tropeção das palavras

o início final de todos os códigos

a separação do espírito da mente

a vã glória do endeusado silêncio

 

o fim da mente e da consciência

o anúncio do fim do corpo e o sopro

que devagar se vai instalando, matando

todos os laços da conveniente irrealidade

afinal, uma só necessária razão de viver

 

a concreta nudez de todas as aparências

as ilusões de todas as afirmações

da arrogância das juradas certezas

onde as palavras cessam, os códigos

onde a mente se vai separando do espírito

 

A CONSCIÊNCIA PURA, divina

Transformação do corpo físico

Que, no seu nome, é de pau e é de pedra

Matéria de plantas animadas cores vivas

Douradas, quiçá

 

Tem um cordão que é de prata

Brilho de luz prateada no escuro

No breu da noite estrelada

sai do topo na fontanela

ponte para o corpo astral

 

Onde se embrulha o almejado destino

liberta supra-consciência que repousa

e que, por-ventura, mais se refina

guardada em santa natureza, re-canto

de luminosos hinos e músicas sagradas

 

Logo mais acorda, e será que no encontro

Dos seus familiares, pares e amigos

Mais os amigos dos antigos, que amigos são

Entre estrelas, novos planos, refinada vibração

será que volta, será que fica?

 

Mais ampla,

ficou.


Luz ao fundo do túnel


sábado, 29 de novembro de 2025

Museus de Seúbal

por Luís Santos

MUSEU DO TRABALHO MICHEL GIACOMETTI

Em Setúbal , perto da estação do Quebedo, ao lado do miradouro de Santa Luzia com magnífico quadro real sobre o estuário do Sado, Tróia e ainda uma nesga do Parque Natural da Arrábioda.

Um Museu dedicado aos setores de atividade profissional:

no primário, uma coleção de alfaias agrícolas, da pastorícia, etc, transportando-nos ao mundo rural mais tradicional;

no secundário, a indústria conserveira que no século passado atingiu cerca de 120 unidades fabris, de grande significado económico para a cidade, e agora nem uma. Também alguns testemunhos sobre a salinicultura.

no terciário, a Mercearia Liberdade que foi transportada inteirinha de Lisboa para Setúbal e ali se mostra como um dos exemplos do comércio tradicional do passado.

Entre o registo de vários testemunhos de operárias dessa indústria das conservas que levava peixe ao mundo, aqui fica um particularmente curioso


MUSEU de ARQUEOLOGIA e ETNOGRAFIA do DISTRITO DE SETÚBAL


Fomos lá ontem em visita de estudo.

A par de muita informação sobre a nossa espécie, de onde viemos, de quem descendemos, uma exposição permanente com informação pormenorizada alusiva às ciências que lhe dão nome, em termos universais e locais.

Também uma exposição temporária sobre Olaria ao tempo romano no baixo Tejo, entre a Quinta do Rouxinol (Seixal) e Porto dos Cacos (Alcochete).

Histórias e património desta nossa região há cerca de dois mil anos atrás... muito interessante e bonito de se ver.

MUSEU DE SETÚBAL / CONVENTO DE JESUS

Espaço ímpar integrado na museologia de Setúbal, o CONVENTO DE JESUS.

Dez anos a ser construído, concluído cerca de 1500,

o Portal feito com a pedra única da Arrábida,

a capela constituída por catorze painéis, um dos mais notáveis conjuntos da arte renascentista, atribuídos a Mestre Boitaca, o arqui-teto do Mosteiro de Santa Maria de Belém (Jerónimos).

Tudo isto, e muito mais, o Museu de Setúbal/Convento de Jesus, parte de um reconfortante passeio pela cidade, grandiosa a sua história.

sábado, 22 de novembro de 2025

Paulo Landeck

 

À DERIVA

Há quanto tempo

                      e o tempo

                          hoje está de chuva

páro para pensar em me abrigar

Há quanto tempo

                               o vento

                                        fortemente embriagado                         

sopra consigo um rasto do verbo ao mar

Há quanto tempo

                              Invento

o cinzento em tons de azul

O céu de todas as cores

e assim o Amor

fardo encontrado                            à deriva

Como um achado que protege derrotas e sucessos

ancorado à plenitude

Será sempre o mar maior por reencontrar.

Sempre enamorado, entre o Lis e o Lena.


Dia Nacional do Mar, 16 de Novembro de 2025.

domingo, 16 de novembro de 2025

O Encantador de Patos

raul angel iturra


Mi amigo Pancho Vio cuando fue Rector de la universidad Bolivariana, Santiago, Chile, con mi madre de 82 años Florentina Maria Redondo Carreteras y yo, Agosto/1993, mi primera visita a Chile despues del exílio


Mi amigo Pancho o Francisco Vio Grossi

 'Oye Raul, tu que sabes mas que yo en asuntos de amor, conoci una niña bien bonita y muy divertida y me enamore me parece ' me decia mi gordo amigo Pancho en mi pieza de la casa de mi família en Laguna Verde. Nos hablamos juntado para estudiar  para preparar una prueba de Derecho Civil en nuestro curso de Derecho en la Universidad Católica de Valparaiso.  Siempre nos juntavamos para pruebas o examenes a lo largo de muchos años felizes. 'Ella es muy joven,ni 20 años tiene...' me decia el 'y me tinca que me gusta y que la quiero ...', 'pero eso Pancho amigo no es de tincar,o se quiere o no se quiere...' 'no se,nunca me habia enamorado antes y como tu eres muy pololo,queria que me ayudaras con tu experiência...' Nuestra conversacion era muy invulgar, siempre hablamos de Derecho y casos que ya defendiamos para praticar nuestro saber jurídico. El era mas sábio que yo en matérias de litigios,su padre y vários de sus tios paternos eran ya leguleyos como se decia de la profesion en lengua popular. En su casa se hablaba de casos,de defensas,de contratos, de colegas en tribunal,era normal oir parrafadas de códigos,de juezes a o b,sus temperamentos y sus saberes en litígios, gente simpática y abierta que derramaba saber en sus comentários. 'El papá de ella es médico bien preparado, ginecologo bien famoso, es una família bien encopetada, es médio árabe pero no me importa...' agregaba. El papá de mi amigo era mi professor de Derecho Romano que enseñaba entre las 8.30 y 10 de las mañanas de lunes y jueves, era Don Pancho, docente entretenido y fumador, hablaba de sus hijos y comportamiento en casa, en ese tiempo Don Pancho y .Olga Grossi habian procreado ya 11 hijos, mi amigo era casi el quinto hijo mayor de la família. Su padre era de una fratia de 12 hermanos varones con solo una mujer entre todos, lo que divertia mucho a mi amigo que tenia mucho orgullo de sus Vio Valdivieso, tan catolicos,que tenian todos los hijos que su Dios les enviara. Mi amigo protestava contra esa iniquidad y me decia que el no iba a cometer el error de tanta progenie que hacia ver a su mamá siempre de barriga llena,era una felicidade verla sin bebé en su cuerpo, que la Iglesia Católica, a la que el habia sido introduzido sin su consentimento, no podia exigir tamaño comportamiento. Pancho ya era un rebelde en matérias religiosad y legales. Nunca hablo de su pensamiento alternativo en casa,no queria castigar a los suyos,me comentava cuando debatiamos usos y costumbres. Era yo su alter ego para confidencias,con orgullo lo digo sobre este mi hermano social. 'Ella gusta de bailar en las fiestas,se viste  muy bien, es elegante y,danzando los dos...me gustó...'...Era muy preocupado de sus sentimoentos ese mi querido compadre, queria estar cierto de como se iba comprometer con la vida social, como iba distribuir su amor a tan grande tribu de parientes. Era  solemne tambien, como observe ese dia en que preparamos una prueba de Derecho Internacional paseando en un coche cabriole de caballo que una amiga me habia prestado, y Pancho leia encuanto yo guiaba el caballo, decia ' Su excelência debe saber que nuestros países son amigos como dice el tratado...' sin saber que un dia iba usar ese código como Embajador de Chile en otro país, fue muy divertido ver que adorava usar su uniforme de embalador, era como un niño con un juguete,le quedava muy bien,hasta se veia mas bonito que lo habitual, era muy italiano en su postura, elegante en su vision. Muy político, juntos desarrollamos las ideas de solidariedad y actividades populares en el ministério de la llamada Promocion Popular para desarrollar el saber y la revolucion de nuestro pueblo chileno que no queria mas pobreza y promesas nunca cumplidas,el pueblo queria participar en la construccion de su destino. Sabiamos que para eso el pueblo debia instruirse y asi fundamos la Universidad campesina en la Universidad Católica de Talca, centro sur de nuestro país, usamos el método de nuestro querido amigo Paulo Freire. Fue en esa region llamada dele Maule que Pancho realizo la Reforma Agrária  dio tierras a los campesinos,y,confiando en eso, se presento como candidato a diputado por nuestro partido Mapu,su lema fue "Pancho Vio es un campion...', no gano. U era un campion para muchos y un grande campion para mi. Tenia estofo emotivo 'a vezes, Raul,voy al baño para la sanita,lo que es poco simpático y pienso en ella para sentir si aun asi la quiero.. y siento que si...estoy bien enamorado de ella...!! ' me dijo y se declaro a su Mariana GiacamanValle... su mujer y tuvieron dos maravillosos hijos, el, Panchito, mi hijo social, ella,Daniela, nuestra ahijada con mi ex esposa Gloria González Castillo.

              Pancho y yo compartimos estúdios, amistad, prision,exílio. Compartimos confidencias,familia,penas y apoio, especialmente apoio. Volvio a enamorse de otra mujer bonita 'mi Cecília Bernal..' me decia, una mujer tierna como la primera, amores hechos a la medida de su excelente mama Olga Grossi Aninat...
              Mi amigo era más joven que yo,pero se me murio antes...claro que lo lloro, era mi hermano social...compadre,nos encontrar juntos en la história… Besos y abrazos 


sábado, 11 de outubro de 2025

HISTÓRIAS DA MARGEM SUL

 Luís Carlos dos Santos

“Somos filhos da madrugada à procura da manhã clara…” (José Afonso)

 JOSÉ MOURINHO, uma breve história de um dos treinadores mais prestigiados e titulados do futebol mundial.

Se a memória não nos trai, José Mário, como o chamam amistosamente alguns conterrâneos setubalenses, é convidado para treinador adjunto de Sir Bobby Robson, no Sporting, em1992/1993, isto depois de experiências profissionais no Estrela da Amadora e Vitória de Setúbal.

O convite foi uma exigência de Manuel Fernandes, reconhecida lenda do Sporting, e de Sarilhos Pequenos, terriola onde nasceu e viveu, que o integrou na equipa técnica quando foi trabalhar com o técnico inglês em Alvalade.

Ao tempo, em que virou treinador adjunto, José Mourinho era professor de Educação Física na Escola Básica 2/3 José Afonso de Alhos Vedros, entre 1988/1992 (ou talvez 1993, a confirmar).

A filha de um nosso irmão, Mónica Limão, foi sua aluna nesses dois primeiros anos letivos, com a particularidade de festejarem aniversário no mesmo dia. Recorda-se também que no segundo ano foi seu diretor de turma.

Uma biografia autorizada em livro, pertence ao seu compadre Luís Lourenço, entre outros largos atributos, ilustre jornalista, com formação na Licenciatura de Comunicação Social no Instituto Politécnico de Setúbal, que também deixou amigos por aqui... Então nosso aluno, ainda nos lembramos da sua reportagem a bordo do navio-escola da marinha portuguesa Sagres, em travessia Atlântica, quando das comemorações dos 500 anos do achamento do Brasil por Padro Álvares Cabral.

Agora que José Mourinho interrompe a emigrante diáspora e regressa ao Seixal, margem sul, recomeçando os jogos na Vila das Aves, lugar da famosa Escola da Ponte, não deixa de ser sinal de bom augúrio para um voo que, desde logo, se liga à educação, e também ao seu inspirador/mentor Professor Manuel Sérgio, já lá vão, justamente, trinta e cinco anos.

 


 JORGE FERNANDO

está a comemorar 50 anos de carreira. Ainda este mês, certamente entre outras datas, fará espetáculos a 23, 26, 28, respetivamente em Lisboa (Tivoli), Barreiro (Auditório Municipal Augusto Cabrita) e Porto (Coliseu).

Vamos já avisar que nestas breves palavras dedicadas ao músico, fadista e poeta, entre outros possíveis bons atributos, podem sair algumas imprecisões, porque as coisas que recuperamos na memória nem sempre vêm absolutamente certas.

Jorge Fernado nasceu em Lisboa, mas creio que a sua terra natal é Sarilhos Pequenos e a região natural em que viveu e andou à escola foram lugares da margem sul do Tejo, entre os concelhos da Moita e Barreiro. Ao tempo, também por cá andou, o amigo comum Firmino Pascoal que participou com ele em célebre Festival da Canção da RTP, cantando “Umbadá”.

Como artista de nomeada que sempre foi, acabou a correr mundo, também com Amália Rodrigues, essa mulher furação, ícone do fado e do cinema nacional, que acompanhou como viola, durante alguns anos.

Lá atrás, ainda conversámos e bebemos uns copos nas noites do Barreiro e, certa noite, fomos encontrá-lo na Casa de Linhares – Bacalhau de Molho, onde se tornou músico e fadista residente, anos e anos.

Nessa noite, inesperadamente saída do fado, esteve a sua adorada filhota Ana Lúcia, que foi nossa aluna, lindíssima pessoa, maravilhoso timbre de voz que, seria fácil de adivinhar, também saiu fadista.

Entre outros músicos e fadistas de excelência, Ana Moura e Fábia Rebordão também por lá estiveram.

Noite bem adentro, acabou por nos levar a um desses recantos de tertúlias do fado, onde só se entra com palavra-passe, santo e senha, tendo-nos prendado com uma noite inesquecível que amiúde lembramos.

Às seis da manhã, rumámos de volta à margem sul, onde nos guiou pelo seu último álbum, prestes a sair a público. Ficou-nos na memória que uma dessas canções fazia alusão a poema de um rapaz barreirense muito pobre, problema mental grave, pessoa de nós todos, “cavalinho” para os incógnitos amigos, impossível de ser ignorado por quem passava, que, desunhadamente, enchia folhas e folhas de poemas, vindos sabe-se lá donde.

Pois bem, aqui ficam estas breves e carinhosas palavras para este nosso conterrâneo, figura grande da canção nacional, na certeza que um dia destes lá estaremos para participar nas comemorações de tão admirável carreira.

...

No BARREIRO, ontem, assistimos a um grande concerto. Verdadeiramente impressionante. Se o encontrarem por aí, não percam.

50 anos depois o canta-autor Barreirense Jorge Fernando está no seu melhor.

Todas as canções que apresentou, todas reconhecidos êxitos, como fez questão de dizer durante o espetáculo, "foram escritas no Barreiro!"

Ainda deu para relembrar esses dois grandes nomes da música portuguesa Amália Rodrigues e Fausto Bordalo Dias, este na poderosa voz de Fábia Rebordão e na mágica, extraordinária, guitarra portuguesa de Custódio Castelo.

Mas a banda, recheada de bons músicos, esteve toda ela muito bem, em rigorosa afinação, orquestração perfeita.

Ao que acresceu uma, repetida, inequívoca, declaração de amor à sua terra, "que tanto ama". E nós, orgulhosamente, estamos com ele.

Aquele abraço, amigo Jorge.

Pode-se ouver aqui: https://www.youtube.com/watch?v=uoPDpLJCkLg...


NEEMIAS QUETA atualmente jogador do Boston Celtics, na NBA, é a grande referência da seleção portuguesa de basquetebol que ontem venceu a Chéquia no primeiro jogo da fase final do Campeonato Europeu de Basquetebol.

Neemias, filho de pais guineenses, nasceu e viveu no Vale da Amoreira, no nosso concelho da Moita, e foi no Barreirense que iniciou a prática da modalidade, no concelho do Barreiro, que encosta justamente no Vale da Amoreira. O Barreirense que sempre foi um clube com tradição na modalidade, com uma boa representatividade no país.

Por isso, nos chega à memória Manuel Fernandes (também conhecido por Manuel Canhoto), nosso professor de Educação Física, no Liceu dos Casquilhos, no Barreiro, que se a memória não nos atraiçoa foi treinador de basquetebol do Barreirense e até Presidente da Federação Portuguesa de Basquetebol, e tantos outros ligados à prática da modalidade, jogadores do clube, como o irmão José Batista, ou o colega de Liceu (e hoje nosso dentista, famoso) Manuel João Ramos.

Ora, por tudo isto, como o percurso do país nesta modalidade, ao longo dos tempos, tem tido fracos resultados, ontem a magnífica vitória e o desempenho da seleção portuguesa no Europeu, e o brilhante desempenho do Neemias, o homem do jogo, trouxeram-nos estas palavras para nosso contentamento.

domingo, 28 de setembro de 2025

O Encantador de Patos

Raul Iturra

SER VELHO ATÉ PODE SER MUITO DIVERTIDO

Há muita mitologia em torno dos velhos. Para começar não se sabe como se lhes fazer referência; dizer velho parece descomedido, como se fosse um mau tratamento a uma pessoa, dizer velho a alguém é esbofetear, uma ofensa, tão mal e pouco o que se pensa deles. Criaram-se os conceitos de adulto maior e o de idoso para ser amável e não ofender... ofender,..? dizer velho é uma ofensa... daí também se dizer avô a um velho, avozinho, querido... e outras formas doces. Eu próprio nem sei como referir este tropeço da humanidade que tem tanto ser com muita idade. 

Os técnicos médicos do hospital das Caldas da Rainha, especialmente o técnico médico da secção de Oftalmologia, nem curto nem preguiçoso, disse-me 'olhe para esta lente raul...', perguntei 'qual é o seu nome?...' disse-me Tiago, pelo que respondi 'claro Tiago...', olhou para mim surpreendido, eu não era suposto falar-lhe assim, ele podia, era técnico médico, eu um velho doido pela idade, suposto ser difícil de tratar, de dialogar, de entender... 

É por isso também que as pessoas ocultam a sua idade, pintam o cabelo, falam de doenças sem dizer qual é a sua. Como meus leitores o sabem, eu aumento a minha, digo “caminho aos 90”, como referi no meu texto anterìor. Ser velho é uma vergonha social, daí também que se usem roupas juvenis para vestir, nunca mais o preto, exceto entre os jovens, como meus filhos biológicos e enteados e netos... é elegante... vê-se bem, veste bem. 

O pior na interação social é que ninguém sabe como e o que falar connosco. A minha mulher e eu fomos aos anos duma querida amiga, a Bibi Perestrelo, da família em que uma menina nos anos 30 do século passado rejeitou os amores do Salazar quando ainda não era ditador de Portugal, uma amiga linda e encantadora a Bibi, tal como a família de pessoas lindas elas e eles. No dito almoço ninguém, mesmo ninguém, falava comigo, nem a minha mulher! Embaraçoso para quem percebe o que acontece, essa linda festejada Bibi arranjou um irmão, o Pedro Macedo advogado, como eu fui, que tinha um amigo famoso que era antropólogo, como eu agora, e inventamos uma conversa sobre esses temas, uma lata para ele numa festa, para mim também... não sou pessoa, sou antropólogo... Agradeço a esses amigos o esforço, claro. 

Há muitos símbolos que estigmatizam o velho, como esse meu grande amigo e antigo estudante de doutoramento excelente comentador da minha obra que, por causa duma opinião minha sobre textos, disse que eu devia ser vigiado nas minhas ideias, porque havia limites para dizer que os velhos têm uma lógica e eu teria atingido esse limite... tive que esquecer o assunto. Como tenho tido muito estudante, vou calar seu nome, quero-o muito para o perder... a sua mulher é uma dádiva do céu, devem ficar ao pé de mim, estou enamorado por eles. 

Nem todos os velhos pensam assim, no lar em que fui compulsivamente encerrado durante 9 anos, até eu reclamar por justiça ao tribunal e ganhar, havia um tal Luís Caracol, um amor se pessoa, quase 90, sempre a disputar com o meu grande amigo desse lar Carlos Roque, um sofá em frente do aparelho da tv, este também com quase 90, o muito articulado Carlos foi tentar tirar o Luís do sofá e os dois quase nonagésimos foram-se bater aos socos com as suas fracas forças e, claro, foram os dois ao chão... enrolados braços e pernas numa bateria de batidas, e lá fui eu separá-los e caí nesse amontoado pacote de velhos em disputa muito lógica para as suas pretensões.... cheio de dores pela queda fui buscar um funcionário que também caiu enredado nas pernas velhas no chão.... como último recurso corri tão rápido como meus quase 90 mo permitiam e fechei a luz... como nos filmes de Chaplin... e milagre, assustados, parou a luta… a grande batida de socos... 

A minha mulher e eu, essa rapariga velha que faz 33 anos adoro, e ela a mim espero, vamo-nos divertindo para amenizar o dia sempre muito cumprido na quinta com 70 aves que criamos. Quando saímos digo-lhe 'motorista do uber, leve-me à vila de Sintra agarrada a essa nuvem… rápido”, e ela imita uma mulher asiática e partimos. Ou, no fim do dia comungamos um chocolate de leite, ela Sôr Brígida, eu o Senhor Padre, e pecamos com licença do Papa. Inventamos, rimos, como rimos no ioga da excelente Elsa Ferreira, no Mucifal, Universidade Sénior, com os meus velhos que me amparam… sou o mais antigo… e as suas conversas sobre netos e antigos amores que tanto lembramos. É a única forma de não acabarmos aos socos…

Os velhos temos de rir muito duante o nosso fim de vida para que qualquer senilidade que possa aparecer seja divertida e alegre. 

besos y abrazos

Raul Iturra 
O Encantador de Patos 
Barra Mansa 
23 de setembro de 2025

terça-feira, 29 de julho de 2025

Início do Verão, 2025

 Luís Santos

O PALACETE DOS CONDES DE SAMPAYO

Deambulando pela terriola, Alhos Vedros, fomos apreciando, admirando, um conjunto de lugares que ao longo dos tempos se foram erguendo e que dão valor, beleza, bem-estar, a quem por aqui faz a sua vida, ou simplesmente vai passando.

Momentos em que, por satisfação interior, só se nos inclina o olhar para o que de mais positivo as coisas têm:

a Igreja Matriz que nos olha do alto dos seus aproximados novecentos anos de história;

o harmonioso conjunto arquitetónico da Biblioteca/Centro Cultural José Afonso;

todo aquele espaço verde florido lúdico calmo do Parque das Salinas;

o velho cais que, como por lá se diz, remonta ao início da nacionalidade, e nele, obra de nós todos, a fabulosa reconstrução do Palacete dos Condes de Sampayo que em deslumbrante conjunto cultural único se liga ao Moinho de Maré da Azenha.

E, sobre ele, no portal do Município da Moita, diz-se assim:

Concluída a primeira fase da intervenção de conservação e restauro, este novo equipamento da rede de infraestruturas culturais do concelho da Moita, constitui um novo e importantíssimo recurso cultural que projeta o Palacete Condes de Sampayo como a futura sede do Museu Municipal da Moita.

Venha então a segunda fase de tão significativo investimento, de obra tão bem conseguida.

De certa forma, estas GUARDIÃS DA VIDA assemelham-se a figuras humanas. Assinalável presença, estão bem vivas, observam-nos, têm emoções e são o respirar nosso de cada dia.

Lembram-nos uns irmãos nossos da Etiópia, nas margens do rio Omo, que quando colocam colmeias entre as suas ramadas, cantam-lhes canções sagradas, porque sem elas as colmeias poderiam aparecer sem mel...

Esse lugar, naquela zona do "corno de África", morada desse povo, foi onde foram encontradas as ossadas dos hominídeos mais antigos que se conhecem, assim tipo, Adão e Eva no berço da humanidade.

A um desses esqueletos encontrados, uma mulher, como na altura passava na rádio uma canção dos Beatles, "Lucy in the sky with diamonds", os arqueólogos deram-lhe o nome de Lucy.

Portanto, entre outros mais antigos que naquele lugar se encontraram, Lucy, a mãe de nós todos, gente de uma mesma família, de uma mesma estrela.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

O Encantador de Patos

À minha esposa 
Claire Summers Smith




VOU ANDANDO AOS MEUS NOVENTA ANOS

A minha mulher e eu estávamos na fila para pagar as sandálias que tínhamos comprado para mim na loja, haviam duas senhoras também para pagar, tirei meu chapéu e disse 'depois das senhoras por favor, elas disseram de imediato 'não por favor, o senhor primeiro, insistimos', sorri e acrescentei com um sorriso, apoiado na minha bengala, 'quando chegarem à minha idade vão agradecer uma cortesia assim...!'. A mais velha, de certeza a mãe da outra, perguntou 'qual a sua idade se não é indiscrição? ' vou andando aos 90, como todos nós...' A minha mulher sorriu discretamente, as duas senhoras que me deram a vez disseram 'mas que bem está, fala de forma lógica, caminha, sabe agradecer, oxalá nós a sua idade sejamos assim também...!' O caixeiro apressou para fechar o negócio e acrescentou os seus parabéns e deu-me a mão quando acabou. Minha mulher disse-me ao sair  'mas de onde inventaste essa história se acabas de cumprir 84...?' ' 84 para 90 é apenas uma questão de tempo e de números, minha menina...não reparaste na alegria dessas pessoas por ver um velho frágil e magro como eu a estar tão bem nessa idade que dá prazer no futuro delas? E os piropos para mim em vez de dizer "coitadito, isso já vai passar? Eu sinto-me animado com essa alegria, é um apoio para esta porcaria de idade, sinto mais ânimo...!! '                                             

Os velhos somos um problema...para os outros, por isso que normalmente se oculta a idade e se retiram anos, há medo de dizer tenho 90,porque pensa-se que esquecemos, que não ouvimos, que inventamos à vida, que outra vez somos crianças e como tal nos tratam, há sorrisos cúmplices entre os mais novos falam entre eles a causa de nós, pensa-se que não entendemos a conversa, se digo 'quanto é ' para pagar, há um olhar de pergunta para minha mulher, mais nova que eu que assente com a cabeça como quando compro bilhetes para o cinema ou roupa ou livros. Pensa-se que não temos lógica, não entendemos a realidade do momento. É verdade que somos lentos e, como todo ser humano de qualquer idade, nos enganamos, mas um engano à minha idade soa de imediato como alarme de demência senil, um horror, somos corrigidos de imediato, após uma observação dura de 'não é assim... enganaste-te....' . Nasce o temor do medo ao ridículo, um medo constante a sermos corrigidos, uma atenção permanente para não errar....um trabalhão que cansa imenso, não é apenas esse afazer, é esse temor de fazer mal e enganado, a paciência dos outros acaba nos velhos, somos lentos, porém, tontos...outra vez crianças. É o medo da idade. Por isso gosto de ouvir esse '90? Mas que bem que está...!' Claro que estou a ser avaliado contra um modelo padrão que existe na sociedade e que meus colegas cientistas não querem estudar...o medo ao ridículo em mim dinamiza a minha atividade, não paro de mexer, ser socialmente útil e um desafio para não sofrer empurrões de interação. O mais duro é reparar essa opinião sobre nós, é difícil aceitar a menos valia entre esses outros para nós idosos. Ou uma simpatia exacerbada, como esse cuidar do velho quando se fala com um deles ou delas.                 

Claro que há motivos para esse modelo padrão, não é inventado, há factos que levam a esse padrão. Por exemplo, tenho praticamente perdida a visão do meu olho esquerdo por glaucoma, donde também a terceira dimensão, o sentido de profundidade quase o não tenho e sempre o tive, agora, tarde na vida, devo me reinventar para ver e não cair com um chão disparejo. Ou o frio, os velhos perdemos a adiposidade da pele e sentimos frio o que dá azo a comentários familiares com amigos como 'morria de calor só que este tremia de frio...' risada entre os que falavam de mim na minha presença, a pensarem que eu não entendia ou não ia entender ou não me ia defender. Normalmente não me defendo, era batalhar contra um credo social. Um impossível. Partimos pratos cai tudo das mãos às vezes sobre a nossa roupa, uso um avental para cozinhar e lavar loiça e não o tiro para comer, o que leva ao comentário das amigas da casa a dizer  'assim é que é, vás ficar limpo...'dito com a ironia e a arrogância de quem estima que nunca se suja.                                                                                          

Os velhos gostamos do silêncio, a calma, a falta de debate, não gostamos dos desencontros ou do ' muito bem...lembrou-se...!', porque esse vou andando para os 90... é uma corrida de obstáculos cheia de impedimentos e obstáculos que consigo perceber, mas que a maior parte dos adultos maiores resolvem com um imaginário fértil de invenções que os médicos chamam demência senil, alzheimer e não apenas 'à corrida aos 90..."..como observei em 9 anos de convívio com essas idades. Um poema que me acompanha a vida toda com esse imenso carinho que desenvolvi por eles, era amar-me a mim próprio, um sentido de família como quase nunca tinha tido. Era acompanhar a solidão, os velhos somos pessoas solitárias, o nosso mundial ativo desapareceu e, no nosso presente, as pessoas que conviviam connosco têm outras atividades, outros interesses, outros amores são poucos os que permanecem ao pé de nós, todos morrem antecipadamente, socialmente falando, já não temos utilidade e o carinho não é suficiente, o amor não é pedra social.                                                  

Um querido amigo visitou-me uma vez, apenas uma vez - pelo menos uma vez, normalmente ninguém me visita ou a mim ou a outros velhos - e queria saber se nós, anciãos tínhamos desejo sexual e orgasmo e ao saber que sim, não acreditava. O Muro de Berlim construído historicamente entre sexo e idade era mais forte que a reação por mim apresentada, nem entendeu que havia, a minha idade, uma grande relação entre amar e desejar, porque na minha idade desejamos só a quem amamos. Gosto de ver gente bonita e ativa, fêmea ou macho, mas desejo só a quem amo.                  

Isto, e mais, é para mim ir andando aos 90... só que quem me ouviu reduziu tudo ao socialmente conveniente e não ao prazer que um velhinho tem de amar e ser amado... vou andar tanto como eu amar e eu ser amado.... Vivam meus inventados 90 anos...! Besos y abrazos ...e, se nada do que digo é verdade... bom é porque já tenho os 90 anos do modelo social dum velho...

Raul Iturra
O Encantador de Patos
Barra Mansa, 14 de julho de 2025

domingo, 6 de julho de 2025

Fotografia, by Kity Amaral

 


Fotografia

Brasil - 
3 olhos em vigília, 
eco de mistérios...

Kity Amaral

quarta-feira, 4 de junho de 2025

José Pacheco. Fazendo a Ponte.


José Pacheco 

 José Francisco de Almeida Pacheco educador e pedagogo, grande defensor e dinamizador da gestão democrática da educação, nasceu no Porto em 10 de maio de 1951.

Foi professor primário e universitário. Crítico do sistema tradicional de ensino, defende uma escola sem turmas, sem testes ou exames, sem reprovações, sem campainhas Para ele, a aula tradicional é um sistema ultrapassado de reprodução de conteúdos que impede cada criança, cada pessoa, de se cumprir em corpo e alma.

Em meados de 2017, era impulsionador de dezenas de projetos para uma nova educação no Brasil e colaborador voluntário no Projeto Âncora, que segue o mesmo método de ensino da "Escola da Ponte". Uma escola focada na autonomia e protagonismo do aluno, no “aprender a aprender”, na “autoformação orientada”, centrada numa relação estreita entre professor e aluno. “A Escola com que Sempre Sonhei sem imaginar que Pudesse Existir”, como diz o título do livro do grande pedagogo brasileiro Rubem Alves.

A famosa Escola da Ponte em Portugal está a fazer 50 anos. José Pacheco um dos seus criadores vive há 25 anos no Brasil, mas o projeto ficou bem ancorado e, até hoje, continua bem vivo, assente num modelo pedagógico de vanguarda que o distingue dos princípios políticos educativos que orientam a gestão da escola pública no país.

Embora radicado no país irmão, José Pacheco vem habitualmente a Portugal participar em encontros vários, onde discorre sobre os seus ideários pedagógicos, e a praxis em que eles se erguem, sendo que é esse um dos méritos que se lhe reconhece, não se reduzir à elaboração de ideias num plano exclusivamente teórico, mas antes servir-se da teoria para desenvolver práticas bem consolidadas. A Escola da Ponte em Portugal, o Projeto Âncora no Brasil, são dois desses significativos projetos, também sustentados pela publicação de uma centena de livros pelo mundo inteiro.

Nos últimos anos tem vindo também a globalizar as suas ideias na criação de uma “rede de comunidades de aprendizagem”, com encontros regulares online, onde com vai partilhando e debatendo as suas propostas educativas.

Este ano, 2025, meses de abril e maio, preparou para Portugal uma série de Encontros sobre Educação, Guimarães, Lisboa, Setúbal… onde, onde em articulação com entidades e colegas, vem falar das suas mundivivências pedagógicas e lançar dois novos livros: “Porque não há mais Escolas como a Escola da Ponte?” e “Inovação Mata Inovação”. Curiosamente, a sua obra, embora publicada em vários países do mundo, não está publicada e é pouco conhecida em Portugal. Porque será?

É evidente que as ideias em que José Pacheco alicerça o seu pensamento não surgem unicamente das experiências acumuladas enquanto professor, num percurso já com mais de cinco décadas. Herdeiro que se diz do movimento social do “Maio de 68”, iniciou a profissão ainda no tempo da “velha senhora”, leia-se, ainda durante o regime fascista em Portugal, antes da Revolução Democrática do 25 de abril de 1974, período em que chegou a ser preso político, por oposição ao regime.

As suas ideias são sustentadas pelos desenvolvimentos pedagógicos da modernidade, muito particularmente, depois do aparecimento do movimento da “Escola Nova”, que António Sampaio da Nóvoa adjetiva como “a melhor geração pedagógica de sempre”, uma síntese herdada de ilustres educadores e professores que alguém apelidou como os “filhos de Rousseau”, tais como, Dewey, Montessori, Steiner, Freinet, Freire, Adolfo Lima, António Sérgio e, como diz Pacheco, muito particularmente Agostinho da Silva. Como disse neste abril no Encontro de Guimarães, foi quando conheceu a obra de Agostinho da Silva, avidamente lida de uma ponta a outra, que consolidou o ideário pedagógico  com que se lançou no projeto da Escola da Ponte.

Agostinho da Silva que, aproveite-se a deixa, também passou 25 anos da sua vida no Brasil, onde lecionou em várias universidades, do norte ao sul do país, tal como criou vários Centros de Estudos, como por exemplo, o Centro de Estudos Afro-Orientais, na Universidade de São Salvador da Bahia, e o Centro de Estudos Portugueses, na Universidade de Brasília, onde acaba por fechar a sua atividade docente, depois do golpe militar que instaurou a ditadura no país.

Agostinho da Silva regressa a Portugal em 1969 e, além do mais, é nele que José Pacheco, como o próprio diz, vai encontrar o impulso decisivo que o levaria aquele ímpar projeto de inovação pedagógica. Mas, acrescente-se que no arranque inicial do Projeto não estava só, com ele estavam mais duas professoras, cujos nomes pouco aparecem a público, que erguendo os valores da liberdade, responsabilidade e solidariedade, o ajudaram a “Fazer a Ponte”.

Luís Carlos R. dos Santos
maio/2025

Referências principais: José Pacheco, Educação Nova, Escola Moderna, Célestin Freinet, Agostinho da Silva, Rubem Alves.


domingo, 25 de maio de 2025

Novo Livro de Luís Souta - CONVITE

 


O 13º livro – A TRÍADE DISJUNTIVA: Literatura, Antropologia e Educação (Lisboa: Ex-Libris, 300 p., 19,5€), a 27 de Maio de 2025, às 18 h, nas instalações da APE (Associação Portuguesa de Escritores).  A Tríade Disjuntiva: Literatura, Antropologia e Educação é composto por duas partes. A primeira – «Literatura: o pão nosso de cada dia» –, de carácter mais teórico, centra-se na literatura e nas suas relações (ténues) com a Antropologia e (dúbias) com a Educação. Na segunda parte – «Graffitar a Literatura» – inclui-se um conjunto de trinta textos, em que se parte sempre de trabalhos de street art (de vinte graffiters nacionais e estrangeiros), com o propósito de (re)descobrir obras de escritores portugueses e estrangeiros.


quinta-feira, 8 de maio de 2025

Cartografia do Invisível

 


C A R T O G R A F I A D O I N V I S Í V E L

Cada cor marca um silêncio.
Cada traço, um desvio do visível.
Cartografar é tocar o que escapa —
e mesmo assim insistir na rota.

by 𝗞𝗶𝘁𝘆 𝗔𝗺𝗮𝗿𝗮𝗹

Na linha tênue entre ver e sentir: técnica e intuição.


sábado, 3 de maio de 2025

Paulo Landeck, um poema


 POLARIZAÇÕES


Um pássaro sem rumo

procura na asa exaurir seu destino

Desafia-vos desnorteado

pela provável inversão dos magnéticos polos terrestres

Como se todas as leis fossem ditadas pelos homens

e os seus estudos

capazes de apontar ambivalentes polos geográficos terrestres

e de forma profunda imaginar eixos

para navegar toda e qualquer inclinação ao raio solar.

 

Só sei que lá fora o céu está pesado

e ainda assim

muitas são as aves que apreciam chuvas e poças

Ainda a rua nos pareça um recorte de vida deserta.