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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Estudos Orientais


O Hinduísmo e as Filosofias Clássicas Indianas



As "Upanishads", são textos sagrados hindús que assinalam o fim do período védico, mas que refletem sobre o pensamento religioso vedanta  e que, desde logo, muito influenciaram o desenvolvimento do hinduísmo.


As escrituras sagradas hindus dividem-se em dois grupos:
- Os Sruti, textos de revelação, constituídos pelos Hinos Védicos (Brãhmana-Upanishad) e pelos Ãranyaka ( grupo de autores da literatura indiana, como alguns filósofos e escritores que viviam na floresta e falavam sobre as cerimónias místicas e o seu significado). Todos estes textos do período védico pertencem à forma oral e só no período clássico passaram para a forma escrita. A recitação dos hinos sagrados sempre foi mantida, até hoje, ininterruptamente desde há milhares de anos.
- Os Smrti, textos da tradição, constituídos pelos textos épicos Mahãbãrata e Rãmãyana, pelas crónicas Purãnas e códigos de lei e ética.

            Entre os textos sagrados indianos as "Upanishad" têm particular relevância na transição da cultura védica para o hinduísmo. As Upanisad fazem uma reflexão sobre a cosmogonia védica, mas simultaneamente assinalam uma rutura com o período em que ela se desenvolveu.

Etimologicamente "Upanishad" significa “estar junto de” (do Mestre que explica os textos sagrados). Mais precisamente, Upa significa “junto de”, ni “em baixo”, sad “sentado”, ou seja, “estar sentado ligeiramente abaixo do mestre”. Ou seja, o que podemos fazer no interior de nós próprios a partir das palavras do Mestre que detém o conhecimento dos textos sagrados.

São também as "Upanishad" o principal ponto de referência de Adi Sankara (788-820), o autor que mais marcou o desenvolvimento da filosofia clássica indiana e do hinduísmo. Tal como de Vivekãnanda (1863-1902), um dos grandes pensadores sobre a escola de Sankara. Foi um estudioso das filosofias ocidentais na Universidade de Calcutá e, igualmente, dos textos sagrados da Índia.

Diz Vivekãnanda que, o principal objetivo da filosofia vedanta é que o ser, através do desenvolvimento da consciência pode atingir a felicidade suprema, a beatitude, o bem-estar. Dito aqui de forma resumida, a síntese suprema de Sankara é a seguinte: existe uma mesma identidade entre ãtman (um corpo vivo que respira) e brahman (o princípio divino, a própria realidade, o que existe em si e por si). Ou seja, aquilo que existe no interior de cada um é a própria realidade. O princípio filosófico primordial  é a da completa identidade entre ãtman e brahman.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A Cosmogonia Védica


Dir-te-ei a palavra que todos os Vedas glorificam, todos os auto-sacrifícios exprimem, todos os estudos sagrados e vidas santas procuram. (...) Nada há à sua frente, e é único para todo o sempre. Nunca nascido e eterno, fora do tempo, passado ou futuro, ele não morre, quando morre o corpo. (...) O Eterno no homem não pode matar: o Eterno no homem não pode morrer. (in, Miguel P. Carvalho (org.) – Religiões. História, Textos, Tradições.  Lisboa: Ed. Paulinas, 2006, p.248)


Os Hinos Védicos são os textos sagrados mais antigos da Índia. Etimologicamente Veda significa conhecimento, saber, passível de audição (que pode ser escutado). Durante muito tempo recitados apenas sob forma oral, só muito mais tarde seriam registados em forma escrita. A civilização védica desenvolveu-se até ao século VI a.C., período em que a sua cosmogonia começou a transformar-se nas formas clássicas do hinduísmo.

A Índia conheceu várias civilizações. A primeira grande civilização que surge na Índia – a civilização do vale do Indo (NW da Índia e Paquistão) – surgiu há 6000 anos. Terá atingido o seu apogeu 2500 anos a.C.. Tinha uma escrita que permaneceu intraduzível, o que nos limita o seu conhecimento e são contemporâneos do Egipto Antigo e da civilização Suméria.

Em 1500 a.c., outra civilização se desenvolve na Índia, no Vale do Ganges, enquanto a do vale do Indo desvanece. Não se sabe se esta constitui um prolongamento dessa 1ª civilização. Sabe-se que os povos de raiz indo-europeia descendem dela, conforme nos relatam Georges Dumézil, Émile Benveniste e Max Muller (este, discípulo de Schelling que, no século XIX, traduziu quase todos os textos da Filosofia Indiana).

O período védico corresponde, então, ao período em que se dava prática à sua filosofia, cuja data de criação não é possível precisar, mas que mais tarde deu lugar a 4 grandes antologias: o Rigveda, o Yajurveda, o Sâmaveda e o Atharvaveda. O primeiro, constituído por hinos compostos em forma poética para recitação em sacrifícios; o segundo, hinos em prosa igualmente para recitação durante o ato sacrificial; o terceiro, versos para serem cantados extraídos do Rigveda; e o quarto, aceite pelos especialistas como um Veda mais tardio e que contém fórmulas de encantamento para prevenção e tratamento dos males.

Os actos sacrificiais que se faziam, de acordo com a mitologia védica, caracterizavam-se por terem sempre presentes 4 sacerdotes. Cada um correspondendo a cada um dos vedas: o que invoca os deuses, o que canta, o que sacrificia e o que permanece em silêncio.

A mitologia védica é reconhecida como plena de importância em vários planos. Por um lado, pela importância que tem para o posterior desenvolvimento do hinduísmo e da filosofia clássica indiana, por outro, pela importância que o pensamento mitológico tem para uma estrutura social, enquanto sistema constituído de descodificação do real, tão pleno de sentido como qualquer outra tentativa de compreensão humana da natureza última das coisas.

Uma narrativa mítica assenta num conjunto de arquétipos que relacionam o imaginário humano com o mundo. Como diz Frank Chose, encontra-se na Filosofia Védica o corpo de conhecimentos onde melhor se expressa a concepção do mundo que é feito atualmente pela Física contemporânea. Também Lévi-Strauss diz que qualquer mito pode ser tão explicativo da realidade como qualquer outra teoria de explicação do mundo e da existência humana.


Luís Santos

(in, Filosofia Clássica Indiana e Budismo, Curso de Estudos Orientais, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)