“Gosto imensamente destes grandes silêncios, porque então ouço-me a mim mesmo, e vivo mais em cinco minutos de solidão do que em vinte horas de bulício.” (Machado de Assis)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

ANO NOVO


Expressão poética versando sobre este momento de transição
celebrado em todo o mundo. Ouça e veja o poema declamado aqui:



Desejos de FELIZ ANO NOVO
Euclides Cavaco


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015


Colóquio Internacional
“Agostinho da Silva: Pensador Universal do Tempo Presente”
16 e 17 de Fevereiro de 2016 | Anfiteatro III da FLUL


Comemoram-se, a 13 de Fevereiro de 2016, 110 anos do nascimento de Agostinho da Silva e a sua memória e a fecundidade do seu pensamento e obra não cessam de se tornar mais vivas. É já um lugar comum reconhecer que Agostinho da Silva anteviu há cerca de meio século temas, questões e desafios cruciais da crise do mundo contemporâneo, para os quais apontou soluções e caminhos que, com toda a sua problematicidade, não deixam de ser hoje muito pertinentes.

Agostinho foi um pensador original de todas as experiências fundamentais do ser humano, desde a espiritualidade e a religião até à política. Além disso, foi um tradutor criativo, poeta e escritor de elevado nível, um educador activo na criação de múltiplos centros de estudos e universidades.

A sua obra de vida, escrita e pensamento transmite-nos uma poderosa visão alternativa aos rumos ainda dominantes, mas cada vez mais críticos, do paradigma globalizado de consciência e de civilização. Agostinho é o visionário de um outro mundo possível à escala planetária, radicado numa espiritualidade emancipadora da consciência, no diálogo compreensivo e fraterno entre religiões e culturas, aberto a crentes e descrentes, na transcensão de velhos modelos e antinomias pedagógicas, políticas, económicas e sociais e numa abertura amorosa do humano a todos os seres vivos e à Terra.

Agostinho pensa também o papel mediador que na criação desse mundo podemos ter, cada um de nós e as culturas portuguesa, lusófona e ibero-americanas, em diálogo e cooperação fraternos com todos os povos e culturas.

É assim o momento de repensar Agostinho crítica e criativamente, quer o seu pensamento propriamente dito, quer as vias que a partir dele, das suas fontes e das suas questões se abrem para uma melhor compreensão do tempo presente que ajude a superar a crise que hoje somos. É este o objectivo deste Colóquio Internacional, que reúne especialistas dos estudos agostinianos e uma nova geração de jovens investigadores, numa abordagem multidisciplinar que abra caminhos novos para uma melhor compreensão da complexidade e fecundidade do pensamento e obra agostinianos.

Comissão Científica
Paulo Borges
Miguel Real

Comissão Organizadora
Paulo Borges
Fabrizio Boscaglia
Dirk-Michael Hennrich

Organização
Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa

Apoios
Associação Agostinho da Silva
Círculo do Entre-Ser

Site
www.coloquioagostinhodasilva.wordpress.com

Contacto
coloquioagostinhodasilva@gmail.com

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O TOQUE DE FINADOS 

Se tivesse alguma dúvida sobre o regime partidocrático e a sociedade clientelar em que vivemos, o dia de hoje estaria aí para acabar com as ilusões. 
Creio até que simbolicamente, o dia da libertação de Paulo Pedroso pode ser considerado aquele que consagra o fim daquilo que pudesse restar do estado de direito em Portugal. 
Eu passo a explicar. 


Só agora veio a público – estranho, não acham? – que, no imediato ao fim da prisão preventiva do deputado, um outro acórdão do Tribunal de Relação de Lisboa que embora apreciando um outro recurso do arguido em causa a que não deu provimento e, sem que a resposta tivesse qualquer efeito sobre a medida favorável a Paulo Pedroso, apesar disso, o texto aprovado por unanimidade pelos três juízes da nona secção, deu razão ao juiz de instrução, o Dr. Rui Teixeira, na decisão de aplicar a medida de coacção máxima, ao mesmo tempo que criticou o arguido e todo o coro de profissionais de comunicação e figuras ilustres que sectariamente muito fizeram para coagir o magistrado, o que os desembargadores consideram de acto vergonhoso e inadmissível. 

Admito que os juízes que votaram a redução da prisão preventiva para o termo de identidade e residência o tenham feito com toda a convicção e plena consciência. 
Mas que pessoas autorizadas porque conhecedoras do processo e independentes das partes em questão, como foi o caso destes três juízes do Tribunal da Relação, continuam a sustentar a existência de fortes indícios da prática de crime por parte de Paulo Pedroso, lá isso é um facto incontornável. 


E ontem sucedeu um episódio curioso. Uma empregada do Tribunal de Instrução de Lisboa colocou no lixo dois contentores portáteis cheios de documentos oficiais de processos que, por lei, deveriam ser objecto de destruição. Ali se encontravam nomes, moradas, números de telefone, requerimentos e até documentos relativos a um processo disciplinar a um advogado que sofreu uma pena de suspensão das actividades por parte da Ordem. Enfim, o maná para um escândalo. 
Pois não é que por acaso, os jornalistas que andavam por ali, deram logo com o achado? 

Naturalmente tudo não terá passado da falta de zelo de um funcionário menor. Mas que há acasos muito convenientes, lá isso há. 

Depois do Presidente do Tribunal da Relação ter dito aquela palavra feia à frente das câmaras da SIC, foi designada a equipa que, por maioria, veio a corrigir a pena do Juiz Rui Teixeira no caso da medida de coacção aplicada a Paulo Pedroso. 
Estejamos atentos aos próximos dias. 


Mas logo pela manhã alguém chamou a atenção para o facto de a amnistia proposta pelo Presidente Jorge Sampaio em mil novecentos noventa e nove, por ocasião do vigésimo quinto aniversário da revolução de Abril, para além doutras sortes que terá proporcionado, (1) ilibou também os laboratórios da Bayer no caso da corrupção de médicos em que tinham sido condenados. Não é que à época, o defensor daquela multi-nacional – e creio que ainda é – era um causídico pertencente ao escritório de que o próprio Dr. Sampaio fez parte, em sociedade com o Dr. Vera Jardim, ex-ministro da defesa de um dos governos de António Guterres e o Dr. Castro Caldas que já foi bastonário da ordem? 

Esta nem carece de comentários. 

Devemos apenas registar que a denúncia saiu da boca do Sr. Pequito, ex-funcionário daquela empresa que foi despedido a propósito de um caso correlacionado com aquilo que veio a ser objecto do julgamento e condenação a que aludi e que acabou por ter o desfecho que se disse. 
Tanto o homem como o seu advogado, o Dr. Garcia Pereira, têm sido alvo de ameaças de morte que são para levar a sério, ou não tivesse o antigo delegado de propaganda médica sofrido uma tentativa de esfaqueamento aqui há dois ou três anos atrás. 

Qual será o veredicto da contenda que, em Tribunal do Trabalho, o opõe àquela poderosa indústria da saúde? 

É uma curiosidade a não perder. 


E para terminarmos com chave de ouro, à hora em que estou a escrever estas palavras, foram noticiadas na TSF as gravações que espoletaram a prisão preventiva de Paulo Pedroso. 
Espero que esta fuga inadmissível ao segredo de justiça, uma vez que está consumada, surja amanhã nos jornais para que possa atentar melhor nos pormenores. 
Desde já ficou claro que os socialistas moveram todas as influências para evitar que o dossier do seu correligionário chegasse onde chegou. O secretário-geral chegou a mostrar da forma mais prosaica o seu desrespeito pelo estado de direito. 

Afinal, toda esta gente até gosta de ter o beneplácito de um Pinto da Costa. 

Nada melhor para por a nu a essência de alguém. 



You gotta get in 
to get out 

Peter Gabriel, the Genesis voice in their master piece, just before his leaving for a solo career. 


E de repente eu estou em Sesimbra, na casa dos meus pais, olhando o mar nos braços da Luísa, onde estudávamos e crescíamos, mas sempre com o amor em pano de fundo, com toda a força dos nossos vinte anos. 

Mas o melhor é que a magia permanece e ainda hoje a terra treme sob os nossos corpos. 



Na aula desta manhã os alunos continuaram os exercícios com a palavra menina e as sílabas suas componentes, sendo esse, mais uma vez, o tema da ficha que constituiu o trabalho de casa. 
Mas depois do intervalo fizeram uns jogos de Matemática que, segundo o pardalito, “-Eram muito fáceis.” Esclareceu que se tratavam de relacionar figuras. 

 “-Ó mãe! E a Professora pôs certo nos meus trabalhos.” 



Acabei de ler um conjunto de contos de Ernest Hemingway que adquiri no passado Junho, em Praga, para a viagem de regresso mas que não cheguei a abrir por, então, ter vindo todo o trajecto em conversa. 

Pois mais uma vez me deliciei com as personalidades fortes que saíram da pena de alguém que, levando aos píncaros a máxima de Malraux de viver para escrever e escrever só o que se vive, defendia que mais do que se parecer com a vida, a literatura deveria ser a própria vida. 

“The Snows Of Kilimanjaro”, remind us how visible realism was from the earlier Hemingway stories. 



E na Bolívia, da semana de protestos populares contra os negócios de exportação do gás natural para o México e os Estados Unidos, parece ter resultado a queda do presidente. 



Hoje fico por aqui. 
Amanhã há natação. 


 Alhos Vedros 
   17/10/2003 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Hemingway, Ernest, THE SNOWS OF KILIMANJARO, Arrow Books, London, 1994

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Três Girassóis, António Tapadinhas, 1997, Óleo Sobre Tela, 50x40 cm

O SOL

Desde sempre presente na memória das árvores
nas translações que impulsionam sem imposições,
aqueces os ninhos onde sonham
os pássaros que irão colorir os ares
e animar com seus gorjeios
aqueles que há muito deixaram de sorrir.
És o suor da campina do pão
na minha mesa, do vinho no meu copo.
Canta Sol, senhor do mundo
e traz contigo a claridade da razão
tirar a amizade da vida é,
tirar o Sol do universo.
A vida com Sol é bom gozá-la
mas sem Sol não vale a pena ignorá-la.
O mesmo Sol que arrasta planetas no seu caminho,
amadurece com delicadeza um cacho de uvas em Setembro
acaricia as flores de Maio
embala os amantes no seu regaço acolhedor.
O Sol, é claro, está lá sempre
os outros, chegam cada um a seu tempo.

II Poema Colectivo escrito em 5 de Junho de 2015, por ocasião do III Cenáculo - Tertúlia Poética do CACAV.

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 26 de dezembro de 2015

Mercurial (ou "erva-cagona")


por Miguel Boieiro

(urtiga-morta-mercurialis annua)

Como é sabido, as plantas fruem de variadíssimos nomes populares. Eles dependem das gentes que habitam as diversas regiões ao realçar os seus peculiares atributos. Para algumas designações torna-se assaz difícil achar a sua proveniência porque o idioma que hoje usamos não é exatamente o mesmo de há seis séculos atrás e o significado inicial acabou por se perder na voragem dos tempos. A planta a que damos o nome de mercurial poderia, com mais propriedade compreensiva, ostentar a designação comum no Alentejo que é a de erva-cagona. E pronto, toda a gente perceberia que tal erva ajuda a defecar. Mas tem outras propriedades e a propósito vou contar um episódio que me veio à lembrança: Participei, há anos, numa caminhada pela serra algarvia organizada pelo Clube de Atividades Ar Livre. Durante dois dias percorremos uma região votada ao esquecimento, mas prenhe de curiosidades e tesouros naturais. Eis senão quando uma companheira se feriu na mão. A hemorragia provocada estava difícil de estancar. Sosseguei-a, dizendo que iria, logo que possível, encontrar uma erva hemostática capaz de parar a sangreira. Assim foi! A primeira que me apareceu foi a mercurial. Apliquei-a em cataplasma no ferimento e, quase de imediato, resultou plenamente.

A Mercurialis annua e a sua irmã Mercurialis perennis devem o seu nome a Mercúrio, deus do comércio da mitologia romana (na antiga Grécia tal divindade denominava-se Hermes), não se sabe bem por que razão. Já os epítetos annua e perennis são fáceis de esclarecer. O primeiro significa que a planta não dura mais de que um ano e a segunda que é perene.

A mercurial é uma espécie ruderal que pertence às Euphorbiaceae, família botânica caracterizada por integrar elementos tóxicos. Quase todas as eufórbias, quando cortadas, exsudam látex. Não é o caso da mercurial que, nesse aspeto, é uma exceção.

Na antiguidade clássica e na idade média acreditava-se piamente que uma beberragem, confecionada através da infusão destas ervas, influenciava a escolha do sexo dos nascituros (veja-se o capítulo de botânica oculta da edição espanhola do Dicionário de Plantas Curativas da Península Ibérica). Tal crença baseava-se no facto da planta ser dióica, ou seja, as flores femininas e as masculinas aparecem em plantas separadas. Esta ingenuidade provinha da chamada teoria das semelhanças, na altura muito em voga. Assim, se a grávida bebia o “chá” da planta macho, favorecia o nascimento de um menino. Se ingeria o da planta fêmea, vinha uma menina. Por esta e por outras razões, a utilização da mercurial era, antigamente, muito popular.

Julga-se que a citada herbácea é oriunda da bacia mediterrânica. Não costuma ultrapassar os 30 cm de altura, possuindo folhas verde-claras ovais ou lanceoladas, dentadas, opostas e de pecíolo curto. Os caules apresentam-se de forma quadrangular, geralmente ramificados a partir da base. As flores masculinas e femininas surgem em plantas separadas como já se aludiu. As inflorescências masculinas são mais abundantes do que as femininas (lei da biologia que determina haver muito mais espermatozoides do que óvulos). Os frutos, com cerca de 3 mm, são bilobados e hirsutos para mais fácil disseminação.

Registam-se os seguintes princípios ativos: heterósidos flavónicos, saponinas, essências, mucilagens, sais potássicos e a molécula “hermidina” (nome que provém de Hermes), a qual possui um pigmento (azul) e se julga ser responsável por provocar intoxicações.

A mercurial é emoliente, tenífuga, hemostática, diurética e purgativa. É boa para tratar eczemas, dermatites escamosas e erradicar verrugas. Pode-se ferver, durante 5 minutos, 4 g das folhas secas (atenção: apenas quatro gramas) num litro de água e beber para aliviar a prisão do ventre.

O curioso e muito antigo “Manual de Medicina Doméstica” do Dr. Samuel Maia recomenda o “mel de mercurial”, cujo processo de elaboração transcrevo, com a devida vénia:
 Ferva 125 g de mercuriais secas num litro de água e deixe em infusão 2 horas. No fim passe e esprema. Deixe em repouso e, quando estiver formado depósito, decante. Misture o líquido obtido com igual volume de mel. Serve para misturar na água dos clisteres ou para tomar às colheres de chá.

 Modernamente desaconselha-se o uso interno da mercurial, visto haver plantas laxantes e purgativas que produzem o mesmo efeito, sem as consequências tóxicas que poderão advir da utilização intensiva desta “erva-cagona”.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Dos Mistérios...


7

Deus existe, existem seres divinos. Mas Deus não é um homem velho de longas barbas brancas. O corpo de Deus é o próprio Universo. Nele vivem deuses e demónios... e vivemos nós.


"Existem seis possibilidades de condições a que o homem pode chegar após a sua morte, chamados os caminhos da transmigração, ou os seis mundos, que se podem dividir em duas partes, um mundo relativamente inferior, habitado por seres infernais, espíritos ávidos e animais, e um mundo relativamente superior, lugar de deuses, semi-deuses e homens." 

(Luís Santos, Os Caminhos do Espírito (Apontamentos Filosóficos), Introdução ao Budismo - no prelo.)


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

As Artes da Misteriosofia


"...Desejamos que este ciclo contribua para mostrar o que tem estado oculto, o que vem brilhando e indicando sóis, sem que reconheçamos essa luz que, sem sabermos, nos guia. Mas a que poetas e filósofos atribuiram palavras que foram buscar ao pensamento puro. 
Misteriosofia é um conceito que reune a filosofia e o mistério, aquela onde "o ensino não é definitivo"." (Risoleta Pinto Pedro)



terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

“A derrota do comunismo deixou um imenso buraco negro na alma das comunidades (…).” (1) 



Esta tarde, quando saí do escritório, estava um arco-íris magnífico no céu. 



Passam hoje vinte e cinco anos sobre o início do pontificado de João Paulo II. 
Não sendo cristão, pouco posso dizer a respeito do seu trabalho, se bem que reconheça que a pertinência de muitas das suas posições residisse precisamente no facto de estas terem repercussões para a Humanidade e não apenas para a sua comunidade religiosa. Estou a pensar no papel que teve no despertar não só da consciência mas sobretudo na vontade dos polacos lutarem contra o regime imposto pela ocupação soviética na Polónia, com o que serviu de exemplo e rastilho para outros países do então Pacto de Varsóvia. Neste aspecto, tenho para mim que ainda foi mais relevante o acento tónico que colocou na dignidade humana e nos direitos dos homens, no que também ele terá contribuído para que a derrota daquele sucedâneo do estalinismo não tenha sido, em termos absolutos, a vitória do cinismo da lei dos mais fortes. 
Não será assim de estranhar que aquele que foi o primeiro Papa a entrar na Sinagoga de Roma, tenha sido um paladino na aproximação entre os homens, ao ponto de ter incentivado o diálogo inter-religioso e de ter sido suficientemente humilde para pedir desculpa às vítimas de crimes levados a cabo por católicos. Tanto judeus como muçulmanos reconhecem e alegram-se com tamanha virtude. Neste patamar, o texto que escreveu sobre a memória de Auschwitz cria um rubicão para que não mais seja possível qualquer tipo de justificação do anti-semitismo da barbárie nazi que, em boa parte, teve sementes daninhas no milenar anti-judaísmo dos cristãos. 

Na eventualidade de um futuro ecuménico, dir-se-á então que o mesmo teve em Karol Woitila um dos seus mais lúcidos pioneiros. 



A Matilde tem sentido crítico. A letra a da palavra menina é aquela em que diz ter mais dificuldades e, de facto, é aquela que fica mais mal desenhada. 

“-Que bonito, pardalito. Está muito bem escrito. O paizinho fica muito orgulhoso, querida.” 



E a Margarida, esta tarde, quando a apanhei à saída da escola, vinha toda entusiasmada por ter passado o turno após o almoço com os arranjos do cantinho da leitura. 



A China Popular lançou hoje o primeiro voo tripulado para o espaço. 
Yang Liwei ficará para a História como o primeiro astronauta chinês. 
Curiosamente, como já tinha acontecido com a União Soviética em relação ao ano da revolução de Outubro, também aqui se passaram cinquenta e quatro anos depois da fundação da República Popular. 



Na aula de hoje continuaram os exercícios em torno da palavra menina e das sílabas que a compõem.
Assim falou também o trabalho de casa. 



E os estudantes do ensino superior continuam a sair à rua para dizerem que não querem pagar propinas. 
Portugal rima com arraial 
            carnaval 
                     e pantanal. 
Deixem lá, não faz mal. 
Tomamos um melhoral. 


 Alhos Vedros 
  16/10/2003 


 NOTA 

(1) Michnik, Adam, O PAPA REVOLUCIONÁRIO CONSERVADOR, p. 12 


 CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Michnik, Adam, O PAPA REVOLUCIONÁRIO CONSERVADOR, In “Público”, nº. 4956, de 16/10/2003

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (163)


Pôr-do-Sol nos Moinhos, Autor António Tapadinhas, 2009

Acrílico sobre Tela, 30x40cm

AO CAIR DA NOITE
Juntei leituras adiadas e fiz um resumo dos mares, ainda por navegar. As telas ensinavam-me cores ousadas que teimava em não praticar. A escrita era uma corda frouxa, rasurada entre parágrafos nascidos de acasos. 
Entre os odores de quem passava, respondia aos sorrisos, de simpatias acidentais. A máquina fotográfica, pegava-me na mão em jeito de carícia, ajustava-se e num desafio...gritava um disparo. Nada que me contentasse. O ângulo era uma constante de imperfeição. O alinhamento uma desordem de raciocínio. A cor, apenas ia buscar o clássico de outros tempos, onde a revelação e fixação, eram momentos de silêncio e entrega.
 José Luís Outono
Selecção de António Tapadinhas

domingo, 20 de dezembro de 2015

Instituto Camões oferece bolsas de estudo em Portugal


O Instituto Camões foi criado para a promoção da língua portuguesa e da cultura portuguesa no exterior. A sua Lei Orgânica define-o como pessoa colectiva de direito público, dotada de autonomia administrativa e patrimonial, sob a superintendência do Ministério dos Negócios Estrangeiros para assegurar a orientação, coordenação e execução da política cultural externa de Portugal, nomeadamente da difusão da língua portuguesa, em coordenação com outras instâncias competentes do Estado, em especial os Ministérios da Educação e da Cultura. Em função de programas de cooperação estabelecidos com cada um dos PALOP – Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, são concedidas anualmente bolsas de estudo no país.

Formação em Portugal

Objetivos: Formar jovens quadros em áreas prioritárias ao respectivo desenvolvimento do país de origem; Privilegiar candidaturas para cursos inexistentes nos estabelecimentos de ensino local; Dar prioridade a cursos de estudos pós-graduados em detrimento dos de licenciatura.
Destinatários: Estudantes nacionais e residentes nos PALOP (Países Africanos de Língua Portuguesa) e Timor-Leste que não possuam, em simultâneo, nacionalidade portuguesa e pretendam frequentar cursos de nível superior em Portugal.
Candidatura: A apresentação das candidaturas decorre, unicamente, no país de origem junto das competentes autoridades locais. O Camões, IP, apenas considera as candidaturas recebidas através dos canais institucionais. Em cada um dos países, a divulgação do número de bolsas a disponibilizar, bem como dos documentos necessários à candidatura e dos prazos para entrega da documentação é da responsabilidade das competentes autoridades locais.
Pagamento da Bolsa
O pagamento da bolsa ocorre, mensalmente, através de transferência bancária para a conta do bolseiro, durante os primeiros dez dias do mês. Este prazo poderá não se aplicar aos pagamentos a efetuar no mês de janeiro de cada ano, bem como no primeiro mês de atribuição ou de renovação da bolsa, por dificuldades de natureza administrativa.
Salienta-se que, nos casos de atribuição de bolsas de estudo, o pagamento do primeiro mês de bolsa reporta à data de início do respetivo curso, desde que o estudante nessa data já se encontre em Portugal e tenha instruído corretamente o processo. No caso de chegada posterior, o pagamento reporta à data de chegada ao nosso País.
Para além da concessão de bolsas para o Ensino Universitário e Politécnico Português, a Cooperação Portuguesa tem, igualmente, bolseiros nas seguintes áreas:
Ensino Jurídico
No âmbito do Programa Anual de Cooperação Bilateral para o setor da Justiça, o Centro de Estudos Judiciários promove anualmente o curso de Formação de Magistrados para auditores oriundos dos PALOP. Este curso, co-financiado pelo Camões, IP, e pela Direção Geral de Política de Justiça, tem a duração de um ano letivo e visa a formação inicial nas dimensões de desenvolvimento de qualidades pessoais em relacionamento humano e de competências técnico-jurídicas.
Ensino Militar
Em função de programas de cooperação estabelecidos com cada um dos Países de Língua Oficial Portuguesa, o Ministério da Defesa (através dos Ramos das Forças Armadas), de acordo com uma verba que o Camões, IP, disponibiliza anualmente, atribui vagas para cursos e estágios em Estabelecimentos de Ensino Militar a militares e jovens dos PALOP.
Ensino Policial
Nesta área de formação o Camões, IP, disponibiliza anualmente, um montante ao Instituto Superior de Ciências Policiais que atribui vagas a estudantes dos PALOP para o Curso Superior de Polícia, cabendo ao Ministério da Administração Interna definir e gerir o contingente anual de bolseiros.

Formação em PALOP

Objetivos: Formar jovens quadros em áreas consideradas prioritárias ao desenvolvimento do respectivo país: Contribuir para o desenvolvimento sustentável do ensino local; Contribuir para a diminuição da fuga de cérebros.
Destinatários: Estudantes nacionais dos PALOP que, no país de origem, pretendam frequentar, preferencialmente, o ensino superior ou os anos terminais do ensino secundário.
Candidatura: A apresentação das candidaturas decorre, unicamente, no país de origem. A divulgação é efetuada pelas competentes autoridades locais através dos meios considerados adequados.A seleção é efetuada por um júri constituído localmente por representantes de cada um dos dois países envolvidos. Confira os documentos necessários.
Pagamento da Bolsa
Apesar das Bolsas Internas serem adaptadas aos condicionalismos das respetivas realidades locais, foram estabelecidos normas e procedimentos comuns. Assim, regra geral, o pagamento da bolsa é efetuado pela Embaixada de Portugal, mensal ou trimestralmente, através de transferência bancária para a conta do bolseiro.
Para maiores informações e inscrições favor consultar o site do Instituto Camões.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

RENDIMENTO BÁSICO PARA TODOS


O Governo finlandês tenciona, a partir de 2017, testar a introdução de um rendimento básico para todos, não ligado a condições. Segundo uma pesquisa da Agência da Segurança Social finlandesa (KELA), 69% dos entrevistados são a favor de um tal plano de 1000 € mensais. Pensam assim atrair mais pessoas para o mercado de trabalho, dado no sistema actual serem diminuídos os benefícios sociais a quem faça trabalhos adicionais. Em 0utubro a taxa de desemprego na Finlândia era de 9%. Um tal plano pouparia emprego burocrático e de controlo ao Estado-Providência; o Estado pensa com esta medida reduzir os seus custos.

Segundo a HNA 9.12.2015, a Alasca introduziu, em parte, o rendimento básico em 1982. Crianças e adultos recebem dividendos de fundos de matérias-primas. Em 2008 receberam 3.269 € no ano. Na Suíça discute-se no sentido de, a partir de 2016, ser introduzido um rendimento básico de 2.000€.
Uma tal regulamentação seria muito humana, até porque, quem hoje depende da Assistência Social, deixaria de ser controlado e por vezes humilhado, mas traria também o perigo de fomentar aqueles que não se interessam por contribuir para o bem-comum. Quem se contentasse com o rendimento básico correria o perigo de, com o tempo, cair no isolamento e, deste modo, perder laços que o ajudariam nos contactos sociais.

O capitalismo conseguiria oferecer mais benesses que qualquer sistema comunista idealizado. As pessoas trabalhariam por querer e não por ter de trabalhar.

Neste sentido penso que seria também muito oportuna uma legislação que limitasse o ordenado líquido de quem trabalha a um máximo de 10 mil euros mensais para uso pessoal; quem ganhasse mais do que esse ordenado deveria ter a hipótese de criar uma Associação de beneficência cultural-social. Deste modo a reputação seria orientada pelo serviço ao bem-comum.

António da Cunha Duarte Justo

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XVI) Graffitar a Literatura



Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015.
Rua das Flores, nº 5, Cascais


«Eu não sei tudo o que aí possa vir, mas, seja o que for, irei ao seu encontro a rir.
Não há desatino de besta na Terra que não seja infinitamente ultrapassado
pela loucura do Homem»
(Moby Dick, Herman Melville, 1851)

Mais uma porta renovada em Cascais; mais um trabalho do graffiter Belém que, desta vez, nos recorda o escritor norte-americano Herman Melville (1819-1891) e o seu livro mais conhecido Moby Dick (1851). E, de novo, volta-se a falar deles a propósito da mais recente adaptação cinematográfica No Coração do Mar, de Ron Howard, com estreia, em Portugal, a 10 de Dezembro. A história conta as aventuras do experiente marinheiro Ismael que embarca no Essex, comandado (mal) por Ahab e que, no Pacífico, trava uma obsessiva perseguição à “besta” (uma gigantesca baleia branca), responsável, anos antes, pela perda de uma perna do capitão. O cetáceo, ainda que ferido, acaba por afundar o navio. Esse tipo de luta levou praticamente à extinção das baleias. A irracionalidade humana parece desmesurada quando a ambição, o lucro ou a vingança pautam os actos dos homens. Também os portugueses, em particular os açorianos, andaram envolvidos em semelhantes aventuras até 1985. Desses tempos, resta-nos alguma toponímia e um bonito museu na ilha do Pico. Mas quando pensávamos que se tinha fechado esse ciclo, eis que os japoneses anunciam a retoma da caça às baleias… “para fins científicos” !?

A experiência marítima de Herman Melville, inclusive como baleeiro, levou-o até aos Mares do Sul. Daí resultou a sua primeira obra Taipi (1846). Difícil de catalogar, em termos de género, pois balança entre o romance, a literatura de viagens e a etnografia (dos Kanaka, Ilhas Marquesas). Curiosamente, foi a componente antropológica do livro que dificultou a sua publicação: rejeitada pela nova iorquina Harper & Brothers, acabou editado em Inglaterra, mas, para isso, Melville teve que lhe acrescentar alguns capítulos (em especial a “história de Toby”, seu companheiro de aventura naquelas longínquas terras) para mostrar a veracidade dos seus relatos.

Há uma edição portuguesa (Teorema / colecção “outras estórias”, 2001, com 33 capítulos, repartidos por 291 páginas). Na altura, Filomena Naves, numa breve recensão no Diário de Notícias, 10/11/01, p. 35, escreveu: «este livro ousa a originalidade de uma lição de antropologia e de humanismo, revelada a uma sociedade europeia novecentista, cheia de si própria». O texto de Melville está repleto desses contrapontos culturais: «Ali está um bando de crianças brincando juntas o dia inteiro, sem zangas, sem conflitos entre si. O mesmo número delas na nossa terra não poderiam brincar juntas nem uma hora sem se morderem ou arranharem umas às outras. Acolá, pode-se ver um grupo de raparigas, que não andam cheias de inveja pelos mútuos encantos, nem demonstram a ridícula afectação da gente fina, nem andam de corpetes de barbas artificiais, como autómatos, antes se movem livremente, sem alegria artificiais, sem constrangimento.» (p. 143) Enfim, uma cultura apolínea, usando o conceito de Nietzsche adoptado por Ruth Benedict em Padrões de Cultura, 1934. Ali «tudo é riso, gozo e excelente humor.»

PS: Num mês em que se noticiou a morte trágica de três graffiters colhidos pelo inter-regional na Linha de Guimarães (apeadeiro de Águas Santas) importa (re)ler o texto pioneiro, em Portugal, sobre a prática artística destes jovens: Filomena Marques, Rosa Almeida, Pedro Antunes “Traços falantes (A cultura dos jovens graffiters)” in José Machado Pais (coord) (1999) Traços e Riscos – uma abordagem qualitativa a modos de vida juvenis. Porto: Ambar. Arriscar, ousar, afoitar-se, correr perigos são comportamentos indissociáveis de uma certa juventude de “artistas de rua”. Também aqui, o Muraliza - Festival de Arte Mural, procura a diferença: a criatividade através do graffiti expressa-se de forma legal e segura.

Luís Souta

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Mercúrio retrógrado em 2016


O planeta Mercúrio estará Retrógrado por 4  períodos em 2016:

05 de janeiro a 25 de janeiro de 2016
28 de abril a 22 de maio de 2016
30 de agosto a 22 de setembro de 2016
19 de dezembro a 08 de janeiro de 2017

O movimento retrógrado aparente de Mercúrio, planeta relacionado com a comunicação connosco próprios (interna) e com os outros (externa), indica geralmente uma fase de perturbação na comunicação: os contactos estão dificultados, toda a comunicação falada ou escrita pode dar lugar a mal-entendidos, os meios de transporte afectados, as telecomunicações (telefone, tlm, correio, e-mail, redes sociais, etc.) podem ficar deficientes ou mesmo avariadas. Os computadores, Ipad’s e Ipod’s, etc.   podem “pifar” sem se saber porquê e tentar formatar um computador nestes períodos não é muito boa ideia, pois podemos encontrar dificuldades imprevistas a que não estamos habituados.  No geral, os períodos de Mercúrio Retrógrado afectam a vida prática do dia a dia,  dificultam a comunicação, dão origem a mal entendidos, confusões e más interpretações, e convidam à reflexão e análise cuidadosa de tudo o que projectamos falado ou escrito. São períodos propícios à introspecção, revisão, análise e reavaliação. Desaconselha-se começar projectos importantes nestes períodos, tomar atitudes precipitadas e evitar cirurgias. De referir ainda que a acção de Mercúrio Retrógrado se faz sentir, embora mais diluída,  uns dez dias antes e dez dias depois do seu período de retrogradação.

O lado positivo de Mercúrio retrógrado:
Os períodos em que Mercúrio está retrógrado são bons para ler, pensar, estudar, investigar, rever ou retomar assuntos inacabados no passado:  Voltar a estudar algo que não compreendeu, concluir os projetos inacabados. Coisas do passado podem ressurgir, ficamos mais propensos a ter  insights ou também a iludir-nos com facilidade (aqui a fronteira é ténue). No fundo,  períodos com qualquer  planeta retrógrado são fases propícias à introspecção e reflexão.
Anote estes períodos na sua agenda, aproveite-os para relaxar e largar a necessidade de controlar, seja cuidadoso sobretudo com a forma como comunica e com o que diz, aceite os desafios como processos de aprendizagem e faça um bom uso de Mercúrio retrógrado!

Paula Soveral
Lisboa, 8 de Dezembro  de 2015

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O REGRESSO DO HERÓI

A Margarida aprendeu o que é um sismo e quais as atitudes mais aconselháveis em caso de catástrofe. 

Agora anda toda preocupada com a possibilidade de tal ocorrência. 



Diplomatas norte-americanos encontraram a morte num atentado na Faixa de Gaza que ainda não foi reivindicado. 
Parece que o propósito da visita seria atribuir algumas bolsas de estudo a jovens palestinianos para estudarem nos Estados Unidos da América. 
Como sempre, o terrorismo impôs a sua lógica em detrimento das relações pacíficas entre as populações de países e culturas diferentes. 

Collin Powell falou com dureza e disse não poder haver um estado palestiniano independente enquanto as autoridades locais não forem capazes de controlar, desarmar e desmantelar a actividade das organizações terroristas no interior daquele território. 

É assim mesmo. Não pode haver qualquer contemporização com gente daquela. 

Lamentavelmente, os europeus do Ocidente não são capazes de se entenderem sobre a pertinência de cerrarem fileiras na guerra contra o terrorismo. 

Choraremos tanta tibieza. 



Esta tarde, depois de uma forte chuvada, abriu-se um buraco azul no negrume em movimento para o interior. 
E no planalto da Quinta da Lomba, valeu a pena encostar o carro para ver o Tejo banhado por um clarão de Sol. 



No Azerbaijão, o filho do ditador ganha a sucessão através de eleições cuja democraticidade é mais que discutível. 
Soluções dinásticas, como esta, parecem estar em gestação em outras três ex-repúblicas soviéticas a saber, o Uzbequistão, o Cazaquistão e o Turquestão. Em todas, as anteriores chefias comunistas souberam prolongar-se após as independências e com isso assegurarem a passagem de uma ditadura a outra. 
Os povos permanecem os mesmos, agora um pouco mais rotos e famintos. 



E por cá tivemos o regresso do herói. 

Logicamente porque pretende provar a inocência como um qualquer cidadão o faria, arroga-se da pretensão de procurar discursar na Assembleia da República sobre um processo judicial e para marcar o dia do regresso ao seu lugar de deputado, não fez por menos e concedeu entrevistas a vários diários e a uma revista de actualidades. 
E o que fez foi puxar pelos rabos de palha dos outros partidos e sustentar a grande verdade de não estar ali a conceder a entrevista se fosse culpado. Mas também não se esqueceu de pôr em causa as testemunhas que seriam peões de uma urdidura e ainda da Provedora da Casa Pia, a quem acusou de jogo sujo. 
Tenho dificuldade em decidir se se trata de cinismo ou de patetice. Às páginas tantas, defendeu que Martins da Cruz fez mal em demitir-se do cargo de ministro dos negócios estrangeiros, uma vez que dera a sua palavra de honra de que nada tinha feito para que a sua filha saísse beneficiada na entrada em medicina a que, legalmente, não tinha direito. 
Pior foi a defesa da razão de ser do pedido de demissão de Paulo Portas, a propósito do seu envolvimento como testemunha no julgamento da antiga gestão da universidade moderna. Devolvida a bola, argumentou que no seu caso, por ser deputado, não tinha que se demitir, coisa que deveria fazer se fosse ministro. 
Como assim, então o Parlamento não é a sede principal do poder político num regime democrático?



O homo maniatábilis é a figura que dá corpo ao regime partidocrático e à sociedade clientelar em que vivemos. 
Dado o seu número e sobretudo devido às posições em que se colocam para terem oportunidades de usufruto de benesses, o que lhes confere uma característica comum, podemos considerar os exemplares como elementos de um conjunto social. Mas como também têm um repositório mínimo de ideologia que todos partilham, a ideia que são os melhores para a situação em que se encontrem e o pressuposto da naturalidade com que encaram o sistema de fidelidades e compadrios em que se apoiam, como se o mesmo fosse uma fatalidade para a qual se limitam a contrapor o silêncio de quem vive como se aquele nem existisse; e ainda pelos interesses que acabam por se cruzar numa rede de conveniências que a todos suporta, por estes dois factores fundamentais, mais que um grupo, o homo maniatábilis dá forma a uma classe social. Ora como todas as classes sociais, também neste caso encontramos os estratos médios e os altos e os baixos, dependendo dos rendimentos que conseguem o que, geralmente, está associado ao lugar que ocupam nas teias das influências partidocráticas. 

Um estado assim organizado, está indefeso perante os lobbies mais indizíveis. 


A democracia não existe em Portugal. 
O estado de direito é uma farsa e no actual quadro partidário, as alternativas encontram-se nos extremos. 


Esteja onde estiver, Salazar está a rir. 



Na aula de hoje continuaram os exercícios a partir da palavra menina. 
“-E também escrevemos mena e nina.” –Disse a Matilde com um ar todo importante. 

Foi o tema do trabalho de casa que também tinha uma figura alusiva para colorir. 

É uma alegria ver a Matilde a desenhar as letras. 
E já lhe vai ganhando o jeito. 



A felicidade falando alto. 


 Alhos Vedros 
   15/10/2003

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (162)


Wave, Night, de Georgia O´Keeffe, 1928
Óleo Sobre Tela, 76,2x91,5 cm
Despedida
Ontem foi a última edição da rubrica “Miradouro” que era assegurada aos Domingos, pelo amigo Manuel João Croca. Saiu, pelo seu pé, por motivos pessoais. O “Estudo Geral” fica mais pobre. Respeito a sua decisão, como espero que respeitem a minha, quando/se chegar a altura.
Esta é a singela homenagem da rubrica de Segunda-feira “Real… Irreal… Surreal…”.

Palavras Ditas, na apresentação do livro “OOM ou O INFINITO AZUL DO FUTURO AGORA”
Fiquei muito honrado e feliz com o convite que me fizeste para ler um poema na apresentação do teu livro. Duplamente. Porque te admiro como escritor e porque há poetas que são bons, geniais até, mas são para serem lidos na intimidade. Aqueles de que eu gosto, não perdem por serem ditos ou lidos, perante uma multidão. Quando me deste a oportunidade de seleccionar o poema para dizer na apresentação, a minha escolha recaiu de imediato neste “Territórios de Solidão”. Mas fiquei com muitas dúvidas, porque há diversas maneiras de dizer poemas. Para simplificar, podemos dizer à maneira clássica, à João Villaret, de uma maneira intimista, irónica ou satírica, à Mário Viegas, ou com arrogância e fogosidade como Ary dos Santos. Eu sei qual preferes, mas não te vou fazer a vontade. Vou dizer o teu poema, à António Tapadinhas, como ele (que neste caso sou eu) dizia há 40 anos atrás, quando tinha 30 anos. Viva o espectáculo da poesia!

TERRITÓRIOS DE SOLIDÃO
 Solidão
é o mundo a fechar-se no centro de um mim
emparedando a alma no medo de ser assaltado.
É marcar por traços a passagem dos dias
sem curiosidade de olhar por cima do muro.
É uma luz que se apaga ao começo da noite,
distância que não confronta nem sequer contesta.
É escutar o som do cabelo a crescer até cobrir o corpo todo
e ter um copo em cada mão para se brindar ao que seja.

Solidão
é um olhar que já não procura
num tempo sem emoção
e quando já sem chama e apagada
a lenha se torna carvão.

Solidão…
(podemos começar outra vez)
solidão é
sob um céu rutilante de estrelas
sentir um adeus de velas no mar.


SELECÇÃO DE ANTÓNIO TAPADINHAS

domingo, 13 de dezembro de 2015


MIRADOURO 40 (e último) / 2015 
esta rúbrica não respeita as normas co acordo ortográfico

*
Com a apresentação do “Livros de Actas” relativas ao ciclo de conferências organizadas pela CACAV - mais concretamente pelo Grupo de Estudos de História Local – sob o lema “A MEMÓRIA DO QUE FOI, O REGISTO DO QUE É, O PROJECTO DO QUE SERÁ”,  integradas nas Comemorações Oficiais dos 500 Anos [1514 – 2014] do Foral de Alhos Vedros e que poderemos considerar como deveras positivo, é um ciclo que chega ao fim e assim se encerra.
Mas, como para os interessados nas problemáticas da história local os caminhos nunca acabam, decerto outros ciclos se iniciarão.
Garante de que estão vivas as dinâmicas renovam-se, assumem outras formas, convocam outros intérpretes.
È assim que a vida se cumpre e se faz. 


(não se indica autor da foto por o não sabermos precisar)

*

A rubrica “Miradouro” nasceu aqui no blogue “Estudo Geral”, e foi aqui que fez todo o seu percurso.
Tem sido um percurso gratificante mas, como tudo na vida, chega um tempo em que se esgota e acaba.
Para o “Miradouro” chegou agora. Esta é a sua última edição.
Coisas novas surgirão já que o processo de renovação é imparável.
Assim se encerra também a minha colaboração no blogue “Estudo Geral” e, porque estamos em época de Natal, deixo-vos com um belo texto que, apesar de não ser da minha autoria e de nem sequer saber identificar o seu Autor, muito me agradou desejando A TODOS OS AMIGOS OS VOTOS DE UM FELIZ NATAL. E QUE O NOVO ANO OS ENCONTRE COM A ARTE, O EMPENHO E A ENERGIA NECESSÁRIAS PARA A CONCRETIZAÇÃO DOS VOSSOS PROJECTOS.

Manuel João Croca


Quisera
neste Natal
 armar uma árvore
 dentro do meu coração…
e nela pendurar, em vez de
presentes, os nomes de todos os meus
amigos.
Os antigos, os mais
recentes, aqueles que vejo a cada
dia e os que raramente encontro. Os sempre
lembrados e os que às vezes ficam esquecidos. Os constantes e os
intermitentes. Os das
horas difíceis e os das horas alegres.
Os que sem querer eu magoei ou sem querer
me magoaram. Aqueles que conheço profundamente e aqueles
a quem conheço apenas as aparências. Os que pouco me devem e aqueles
a quem muito devo.
Meus amigos humildes
e meus amigos importantes.
Os nomes de todos os amigos que já
passaram por minha vida. Uma árvore com raízes
muito profundas para que seus nomes nunca mais sejam arrancados
do meu coração.
De ramos muito extensos
para que novos nomes vindo de
todas as partes, venham juntar-se aos existentes.
Com sombras muito agradáveis para que nossa amizade
 seja um alento de repouso nas lutas da vida. Que essa árvore seja
cultivada no coração de cada ser humano, amigos ou não. Que esse sentimento
permaneça vivo
em cada dia do
ano que se inicia  
para que juntos,
possamos sentir  
o amor fraterno.
E  jamais esqueçamos  

que nessa árvore, cultivada em nossos corações, está nosso maior e melhor amigo.