De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

ESTUDO DO RIO E DO CÉU E DAS OUTRAS COISAS GERAIS QUE ENTRE ELES SE ENCONTRAM



por Risoleta Pinto Pedro

Filosofia & Presépio

“ […] A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
[…]”
Alberto Caeiro


Em Filosofia & Kabbalah, de António Telmo, um livro em renascimento neste tempo de Natal, através da sua reedição ampliada enquanto IV volume das Obras Completas, diz o filósofo, nesta minha velha amiga, a edição de 1989 da Guimarães:
“No quadro original da filosofia de língua portuguesa, isto é, nas expressões nossas de amor à sabedoria, existem «luzes», como diria o poeta, capazes de nos fazerem ver. E uma dessas luzes é o sentimento português e brasileiro de Deus como Menino, o qual já Unamuno dizia caracterizar o nosso Cristianismo. Terá havido quem, ao ler o poema VII do Guardador de Rebanhos, se tenha sentido indignado com a malícia, que roça a blasfémia, como aí é tratada a Trindade Católica. O que aí há, porém, é ensino de boa teologia cristã e um desaprendizado ou desfazer das imagens religiosas que, por via directa ou indirecta, a educação clerical prendeu ao inconsciente. “

Afirma mais à frente:

“À visão original do mundo chamei eu, linhas atrás, visão infantil do mundo. E está certo, desde que, recordando o que Fernando Pessoa escreve em Páginas de Doutrina Estética sobre Afonso Lopes Vieira, não se atribua às crianças a imaginação que o adulto julga que elas têm. A definição foi já dada: «ver» pela primeira vez o que se repete, deter-se maravilhado perante as coisas e os seres como se nunca tivessem sido vistos. E então tudo surge aos nossos olhos «como fenómeno», como o que não estava ali e de repente «aparece» e mostra no aparecer tudo o que é. Assim, na imaginação infantil, não há imaginar ou sentir: através dela o espírito actua como um fiat. O Menino Deus é o «Guardador de Rebanhos» e o filósofo que vai com ele de mãos dadas pelo campo é, como diria Heidegger, «O Pastor do Ser». “

E é aqui que toca, para mim, neste tempo de advento, o essencial: cada vez que refaço ou actualizo ou enceno, em cada ano, a constelação presépio, nunca o meu olhar é igual. O presépio tem a força mágica de pintar ou dotar os meus olhos de uma visão nova: o menino, sendo o mesmo, nunca é igual, e o mesmo com os outros arquétipos. Não só no lugar que ocupam relativamente uns aos outros e a mim mesma, mas eles próprios mudaram. Ou foi o meu olhar.
Não conheço melhor definição de presépio:
“E então tudo surge aos nossos olhos «como fenómeno», como o que não estava ali e de repente «aparece» e mostra no aparecer tudo o que é.”
Um físico quântico não diria melhor.
Num documentário sobre a realidade do ponto de vista quântico que vi há tempos, existe uma cena em que uma mulher se levanta de manhã e ao correr os cortinados para olhar a rua, subitamente tudo se reagrega, como um cenário que não estava lá, mas a que os olhos dão vida.
Assim é o meu presépio, a “visão original do mundo”, nas palavras de António Telmo.
Para todos, um muito Feliz Advento! Novo, novinho, a estrear. De tão repetidamente original.



Votos de um Natal, Advento, Solstício ou Renascimento à medida do que for, para cada um, a ideia da felicidade ou apenas suave e intensa serenidade. Que o menino sábio universal  se espreguice e desperte dentro de nós ao ritmo que a cada um aprouver. Para felicidade das almas em corpos saudáveis e tranquilos. 
R


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