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terça-feira, 17 de julho de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

AMANHÃ VOLTA O TRABALHO

E as férias chegaram ao fim; amanhã começará o terceiro período. 


Mas foram uns dias em cheio e eu tenho a certeza que os meus amorzinhos bem os aproveitaram. 

Fez-lhes bem a despreocupação de acordarem sem a pressa de saírem de casa. 


A Margarida leu “Uma Mão Cheia de Tudo e Outra de Coisa Nenhuma”. (1) 


Eu acho que o balanço a fazer quanto à Matilde é francamente positivo. 

Integrou-se no ritmo e na vida escolar com facilidade e se bem que sempre desperta para a brincadeira, toma a atenção necessária à aprendizagem e não apresenta dificuldades. 

É claro que tanto eu como a mãe lhe dissemos logo no dia da reunião de avaliação que ela deveria concentrar-se mais e mostrar maior empenho em fazer as coisas bem feitas e hoje, pelo banho e no momento de arrumar a pasta, voltámos a lembrar-lhe que não é bonito que a Professora possa dizer que ela é um tanto trapalhona.
Quanto a isto terei que redobrar as atenções neste último período. 

Ainda assim não me parece que seja algo preocupante e a verdade é que podemos dizer que ela gosta da escola e da Professora e fica satisfeita por aprender. 
Para além disso tem a noção do dever; tem consciência que há regras que devem ser respeitadas e age em conformidade e geralmente não é preciso chamá-la à atenção para que tal aconteça e com isso não é preciso dizer-lhe para fazer os trabalhos de casa, muito embora hajam dias em que a pressa de brincar tolha a razão. 

Seja como for, ponderados todos os aspectos, o saldo é francamente positivo. 

Deus acompanhe as minhas queridas filhas. 



O recentemente empossado chefe do Hamas, Abdel Azis al-Ramtisi foi morto, esta madrugada, em mais uma operação do exército israelita. 

Bem, ninguém de bom senso negará a Israel o direito de se defender e este homem é co-responsável por centenas de mortes, se não milhares, de civis inocentes. 


É claro que de toda a parte chovem as condenações. 

Até Londres, pelo porta-voz Jack Straw, o ministro dos estrangeiros, veio dizer que o homicídio tinha sido injustificado e desnecessário. 
Será? 
Mas qual é a alternativa? 


E o Iraque continua a doer-nos no peito. 

Para aqueles que acham ser possível negociar com a Al-Qaeda é ler a entrevista com Omar Bakri Mohammed, juiz da sharia residente em Londres e dado como quem partilha a mesma escola de pensamento daquela constelação terrorista.
“-(…) Estamos agora no ano três da era da Al-Qaeda.” –Diz ele, referindo-se ao onze de Setembro. (2) 
Para quem tenha dúvidas que aquela carnificina foi um acto inicial… 

Mas ali sobressai o pensamento maniqueísta que alimenta o fanatismo que dá o fundo ideológico àquele terrorismo e afins. 

E também fica claro que estamos perante um fenómeno semelhante ao de Hassan Sabbah e à sua seita dos assassinos. (3) 
É a cegueira do fanatismo que os guia. 

Não há antídoto certo para uma doença destas. 



Bem e por agora me fico. 

Amanhã, a Matilde iniciará o primeiro último período da sua vida escolar e a Margarida o derradeiro último período que passará nesta escola. 



Ah e esquecia-me de registar! Na sexta-feira tivemos a visita do Carlos, da Tuxinha e do Leonardo que, vindos do Algarve, seguiram para o Porto na manhã seguinte. 

Estão todos bem e ficámos satisfeitos por nos revermos. 


Alhos Vedros 
  18/04/2004 


NOTAS 

(1) Lisboa, Irene, UMA MÃO CHEIA DE NADA E OUTRA DE COISA NENHUMA 
(2) Mohammed, Omar Bakri, O TERROR É A LEI DO SÉCULO XXI, pp 26 e ss. 
(3) Maalouf, Amin, SAMARCANDA, pp 141 e ss. 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Lisboa, Irene, UMA MÃO CHEIA DE NADA E OUTRA E COISA NENHUMA, Prefácio de Violante Florêncio, Breve Nota de Paula Morão, Editorial Presença (7ª. Edição), Lisboa, 2002 
Maalouf, Amin, SAMARCANDA, Difel, 1991 
Mohammed, Omar Bakri, O TERROR É A LEI DO SÉCULO XXI, “Pública”, nº. 42 de 18/04/2004, In “Público”, nº. 5139, 18/04/2004

terça-feira, 10 de julho de 2018

terça-feira, 3 de julho de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O REPOUSO

Ui que belo fim-de-semana de repouso que para o pai resultou na recuperação do sobre-esforço que tive de fazer nestes últimos dias, agravado pela dificuldade que desta vez senti para regressar ao bio-ritmo do nosso meridiano. 


Tardes de passeio e convívio familiar, com manhãs de jornais e noites com o primeiro volume da obra de Helena Matos sobre Salazar. 
De resto, para os meus amorzinhos em ponto pequeno, a brincadeira que é bem merecida numas férias que estão a correr às mil maravilhas entre os jogos, na sala e o sótão da Beatriz. 

Vimos o “Belleville Rendez-Vouz”, uma longa-metragem de banda desenhada que nos fala da solidariedade dos periféricos face às prepotências do crime organizado que é um desafio para o mundo livre a nível global. 

E no Sábado estivemos na praia, na Lagoa de Albufeira, na companhia do colorido das velas de windsurf e uma espécie de ski puxado por um papagaio de que não sei dizer o nome. 
A Sílvia acompanhou-nos, a convite das minhas filhas e jantou na nossa casa. 


Hoje, o trabalho foi mais leve. 



Pois no Iraque, um líder xiita radical Mohamad Al-Baqr que as autoridades, afinal, deixaram rodear-se de uma milícia armada, amotinou a cidade santa de Najaf e a partir daí levantaram-se revoltas e distúrbios em outros locais. 
A situação chegou a estar muito complicada mas agora existe um mandado de captura emitido pela justiça iraquiana e o fora-da-lei refugiou-se numa mesquita, certo no seu finca-pé que os militares americanos pensarão duas vezes se valerá a pena arrombarem as portas para o prenderem. 
No entanto, o ayatolla Sistani já condenou a acção e o incitamento à violência e negou qualquer autoridade ao jovem dirigente que, apesar de, por herança, controlar uma rede de escolas corânicas, não tem qualquer título ou grau na hierarquia religiosa. 
Também os iranianos se ofereceram como intermediários neste episódio e, tudo o indica, aconselharam-no e aos seus seguidores a transformarem a milícia que controlam em partido político. 

Vamos ver o que sucede nos próximos dias. 


E o Ocidente continua a não falar a uma voz, com a veemência de um bloco que sabe estar ameaçado de morte por um inimigo comum, o terrorismo da Al-Qaeda e afins. Com isso abre os flancos aos terroristas que aproveitam para matar aqui e ali e com isso pressionarem a opinião pública mundial. 

É de esperar o pior. 

Pessoalmente lamento que os aliados não tenham muito simplesmente podido defender a guerra sobre o Iraque do regime de Saddam e do Partido Baas, como mais um dos elos na luta contra o terrorismo, especialmente pelo que um Iraque livre e pacífico poderia contribuir para o fim do conflito israelo-árabe. 

Defendi-o antes da guerra (1) e foi isso que levou a, pelo menos, não me opor a ela. 

Mas a tibieza destes governantes de tempos em que os interesses esconsos falam mais alto só servirá para radicalizar ainda mais os fanáticos e a sede de sangue que os move. 

Deus nos salve desta loucura. 



Morreu Francisco Lyon de Castro, antigo militante comunista e sempre resistente ao fascismo. 

Fundador da “Europa-América” fez, com isso, mais pela liberdade do que aquilo que terá obtido nos anos de chumbo que passou pelos calabouços da polícia política. 

E foi solidário com os que o Estado Novo ostracizou; foi no seu negócio livreiro que muitos camaradas encontraram um ganha-pão que o estigma que transportavam dificilmente lhes permitira conseguir em outros lugares. 



“-O que é característica?” –Perguntou a Matilde, logicamente para compreender uma frase em que usei aquela palavra. 
“-É aquilo que faz com que uma coisa se distinga das outras, aquilo que uma coisa tem que as outras não têm ou então têm de uma maneira diferente. Ora diz-me lá a característica de uma escova de dentes.” –Respondi-lhe, enquanto a auxiliava na secagem após o banho. 
“-É aquela coisa com pelinhos para lavarmos os dentes.” 

A felicidade de um homem. 



AH! E finalmente o primeiro volume a respeito do Salazar. 


Alhos Vedros 
 12/04/2004 


NOTA 

(1) Gomes, Luís F. de A., A ESPADA E O BURACO NEGRO 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Gomes, Luís F. de A., A ESPADA E O BURACO NEGRO, Prefácio do Autor, Dactilografado, Alhos Vedros, 2003 
Matos, Helena, SALAZAR, Vol. 1, Círculo de Leitores, Lisboa, 2003

terça-feira, 26 de junho de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Confesso que estava cheio de saudades. 
E como é bom ter os miminhos de dois pardalitos como linguagem de boas vindas. 



Bem, chegámos a tempo de estarmos presentes nas reuniões de avaliação. 
As aulas acabaram na última sexta-feira. 



O trabalho é que não perdoa e temo ter que fazer serões nos próximos dias. 
É assim, quem quer festa… Depois sujeita-se. 



Os resultados dos meus amorzinhos não podiam ser melhores. 
O pai, é claro, encheu-se de orgulho que quase levou as lágrimas aos olhos que a mãe galinha, essa, tinha-o estampado num brilho ocular e num sorriso que não enganavam quem quer que fosse. 

Mas a verdade é que as cachopas cumpriram, ambas designadas por pontuais e interessadas. 


O pardalito tem bom em todos os parâmetros das áreas curriculares e revela boa apreciação no referente ao empenho e compreensão do que devem ser os comportamentos e atitudes consentâneas com o acto de aprender. 

A apreciação global foi a seguinte: 
“A Matilde lê e escreve pequenas frases recorrendo por vezes ao quadro silábico. Copia de letra de imprensa para letra manuscrita sem problemas. É um pouco trapalhona e desorganizada. Conhece os números até 10. Faz contagens progressivas e regressivas, somas e subtracções.” 


O piolhito, por sua vez, com excepção do cálculo mental em que tem bom, repete-se em muito bons nos restantes parâmetros e revela claramente a consciência de um aluno interessado e responsável. 

A sua apreciação global reza assim:
“Língua Portuguesa: Lê com clareza e compreende o que lê. Responde a questionários orais e escritos. Conhece e aplica as regras gramaticais. Produz textos diversos, com sequência de ideias e muita imaginação. Raramente dá erros. Matemática: Adquiriu com facilidade as noções dadas, aplicando os seus conhecimentos. Estudo do Meio: Revelou muito interesse e aprendeu as noções dadas.” 


Que mais pode um pai querer para ser um homem feliz? 



O Iraque é que permanece palco da luta entre aqueles que querem deixar os homens viver em paz e aqueles que pretendem que eles vivam enleados em mordaças e coletes-de-forças, 


Há um líder xiita que sublevou a cidade de Najaf. 

Para já, a situação está fora de controle. 


 Alhos Vedros 
  06/04/2004

terça-feira, 19 de junho de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Dias sem história e com um mergulho em alto mar, só para ver peixinhos de aquário ao natural. 

E o silêncio de uma ilha com praia de postal. 


Vimos um espectáculo de golfinhos em ambiente natural, num dos canais que os aglomerados de mangue fazem. 


De resto as noites, cheias de calor e abraços. 



Naipaul, em “A Curva do Rio”, fala-nos da sorte de África pós-independências que nada mais soube fazer que sugar o pouco de energias criativas que lhe ficaram do passado colonial. 
Sem esperança que não a certeza de saber que entre duas matanças há sempre um tempo para repor a comida sobre a mesa e os telhados sobre as paredes. 

Um mestre, só um mestre consegue falar de um país, simbolizado continente, materializado povo, ao ritmo das histórias de vida de um sujeito e daqueles que mais directamente com ele privaram. 

Obra-prima! 



Bolas! Nunca consigo dormir no avião. 


 Algures sobre o Atlântico 
         04/04/2004


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Naipaul, V. S., A CURVA DO RIO, D. Quixote, Lisboa, 2003

terça-feira, 12 de junho de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

SUNNY DAYS

Varadero, a vila, é uma recta com alguns quilómetros, marginada por casas onde vivem aqueles que trabalham nos muitos hotéis que ocupam a linha de costa da península de praias e canais de mangue numa das margens da ponta de lança que a terra faz pelo mar a dentro. 

Também aqui pululam as casas de vida atamancada, pisos térreos que já viram melhores dias e outros, com anexos de barracas e alguns com as corcundas dos primeiros pisos de auto-construção para responder ao aumento das bocas sob o mesmo tecto. 

E lá estão as pequenas feiras de artesanato como a que vimos na capital, na imediação das unidades hoteleiras. 


Também aqui, os cubanos têm olhos tristes. 



Como é boa a tranquilidade do dolce fare niente. 

Esta manhã passeamos de bicicleta pelos arredores, pois amanhã passearemos de barco pelas ilhotas de mangue. 
Há fotografias a fazer. 


Vida de hotel. Leituras, beijos e braçadas. 
Nada mau, heim… 

Ontem à noite assistimos a um espectáculo de magia.
Um canadiano chamado Ron caiu na berlinda. 


Dias com vinte e nove graus, noites com vinte e oito e águas com vinte e sete. 

Na pequena língua de areia lambida pela espuma de um verde transparente que se deixa azular na direcção do largo, as sombras são dadas pelos coqueiros e outras palmeiras que não sei identificar. 
O cair da tarde faz-se de uma luz doirada que parece acender a ressaca com brilhos que o mar traz e leva. Depois vai-se o crepúsculo em fogo que aqui, neste litoral, se faz sobre a terra. 


Enquanto em hotéis de países cristãos é comum haver uma Bíblia na mesa-de-cabeceira, aqui há exemplares de uma revista de propaganda. 

Ainda assim, no exemplar de Janeiro deste ano, com uma entrevista a Chomsky, (1) em que o jornalista se esforça por fazer revelar os aspectos mais críticos do capitalismo no pensamento do cientista. 



Hoje vi um pelicano pescando na praia. 


   Varadero 
 03/04/2004 


NOTA 

(1) Chomsky, Noam, TAN PARECIDO A SU FANTASMA, pp.8/11 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Chomsky, Noam, TAN PARECIDO A SU FANTASMA, Entrevista por Vladia Rubio, Bohemia, nº. 2, Ano 96, 23/01/2004

terça-feira, 5 de junho de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Viagem entre Havana e Varadero. 

Há rios que desaguam em gargantas carregadas de verde até à linha de transparência das águas azuladas. 
E os urubus, sempre atentos e planantes, indicando a caça ao nível do solo. 


Como será a distribuição da propriedade rural? 

Aqui e ali há casas de famílias que, tudo o indica, têm uma leira de terra em amanho. 


Ao longe, as montanhas deram-se ao reino de florestas. 
E no vale imenso que em abrasão se estende até ao mar, a planície arroteada tem os nichos de árvores que nos fazem saber em paisagem tropical. 


A rede viária responde perfeitamente ao tráfego existente. 
E o estado de conservação não deixa muito a desejar. 


Chegada a Varadero para hotel com praia privada. 
Entrámos num mundo de fantasia. 

Espera-nos o repouso nos próximos dias. 


Cada restaurante tem a sua banda para embalar a refeição. 


   Varadero 
 01/04/2004

terça-feira, 29 de maio de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O show do Tropicana é para o inglês ver. 
Trata-se de um espectáculo de música do Caribe que, pelo colorido e diversidade dos fatos que os cantores e bailarinos usam, faz um efeito de encher a vista que os ouvidos, esses, encantaram-se pelos ritmos e la pásion das vozes que recriam ou pretendem recriar uma Cuba de cabaret que já não existe.

Jantámos num excelente restaurante instalado numa espécie de estufa, cujos tufos de verde dos canteiros prolongam o jardim botânico que preenche o perímetro do complexo, da mesma forma que o faz em relação ao edifício em que se encrusta a esplanada em que decorreu o musical. 


O Capitólio que dizem ser uma réplica do original de Washington é hoje em dia ocupado com serviços científicos e pedagógicos da Universidade de Havana. 
Vale a pena passear pelos amplos corredores com chão em mosaicos de patinagem, a preto e branco. 
Símbolo e sede do poder que a revolução castrista derrubou, ainda hoje lá está o hemiciclo do antigo parlamento. 

Interessantes exposições de pintura com a surpresa de vermos as tintas da china de uma voz crítica. 

Levámos mais uma aguarela e um óleo para casa. 



Há dias que nada sei do que se passa pelo mundo. 
Não há imprensa livre em Cuba; os jornais e as revistas existentes pertencem ao estado ou ao partido comunista. O mesmo para a rádio e a televisão cujos debates e programas formativos têm, normalmente, o cunho da propaganda. 
Como tenho a certeza que tudo está bem com os meus amores e como não me apetece telefonar para quem quer que seja, é como se estivesse noutro planeta. 


São dias propícios para que o namoro regresse. 


     Havana 
 31/03/2004

terça-feira, 22 de maio de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Em Havana, a noite tem sono na luz. 
Não é só a ausência de comércio que lhe retira os néones e as intermitências dos letreiros e dos apelos publicitários que não estão lá; é sobretudo a rede pública que se exprime em candeeiros de sombras, a condizer com as ruas pouco animadas e com mais recato do que seria de esperar num país com um clima tão quente. 

Mas estamos numa terra que sofre um embargo económico – patético, deve dizer-se – há mais de quarenta anos. 
A riqueza pública não pode ser muita e isso reflecte-se na luz que os homens podem ou não acrescentar à noite. Tal como nas casas de cada um, uma lâmpada é o quanto basta por divisão. 

E depois há os olhos e os ouvidos do imperador e as fardas que pedem a identificação às pessoas em plena calle e que de certeza jamais permitiriam que alguém se lamentasse em público por viver assim.



Os cubanos ganham médias de quinze, vinte, trinta euros por mês. 
Tão pouco.
Mas o estado zela por eles que não pagam impostos e têm a educação e a saúde gratuitas. 

No entanto, há tanta tristeza nos olhos que se cruzam connosco nas ruas. 



Visita ao museu colonial, onde se pode ver como era o interior das casas dos terratenentes, a nobreza de ascendência espanhola pois, pelos quadros das madonas e dos senhores que se vêm nas paredes, os pretos eram escravos e os mestiços moleques. Não por acaso, a élite comunista, ainda hoje, é composta maioritariamente por brancos. 
Pelas porcelanas e os cristais e o mobiliário, mas também pelas divisões e funções correspondentes, podemos adivinhar o nível de conforto dos que tudo tinham e o contraste com a vida de trastes do pé descalço que carregava com tudo. 

Em frente ao palacete de um fidalgo que teve papel proeminente na luta pela independência e que libertou os escravos para que combatessem as tropas espanholas, a fim de a tranquilidade do homem não sofrer beliscaduras, lá está o pavimento feito de madeira. 



Curiosamente, numa ilha em que os índios conheceram a extinção física, o nome de Havana deriva de um cacique que outrora viveu na vizinhança desta baía prazenteira. 



Cada sala de museu tem uma ou várias funcionárias com o imprescindível de nada fazerem. 
Mas aproveitam para tentar ganhar mais uns cobres com os turistas. Pelo cuidado e circunspecção com que agem, dir-se-ia que correm riscos; contudo, não se inibem de propor a troca de moedas cunhadas com o rosto de Guevara ou o convite à fotografia do visitante, seguramente na esperança da gorjeta. 

Aqui tudo é do estado. 

Mas nota-se um esforço nas entrelinhas para completar os parcos orçamentos que têm nas bodeguitas de prateleiras vazias o quase nada que o para lá dos alimentos tem para mostrar e que esses dólares extraordinários podem complementar num mercado negro que certamente existirá. 

Quando quisemos regressar do forte que outrora serviu na linha defensiva contra os ataques de piratas, alugámos o serviço de um particular que nas horas vagas, certamente, faz de taxista com o seu velho modelo que ele mesmo mantem capaz de lhe render o equivalente a muitos ordenados. 
Por acaso reparei que estava um polícia por perto que, se não viu, fez vista grossa e foi um dos funcionários da segurança que chamou o chauffeur quando lhe perguntámos se ali poderíamos apanhar transporte para o centro da cidade. 

Será que isto é uma economia tolerada pelas autoridades ou revelará ela uma corrupção larvar das mesmas? 
A verdade é que as caixas de coíbas que pela calada se vendem nas ruas, para lá das falsificações que os incautos sempre engolem, as verdadeiras têm necessariamente que ter origem nas fábricas que os produzem. A menos que hajam produtoras clandestinas. 

Será que os riquexós que se vêm por aqui e por ali também são propriedade do estado? 



La revolution es un Chevrolet antiguo. 
O parque automóvel simboliza a capacidade edificadora de um regime que pouco mais fez que os complexos desportivos para os jogos pan-americanos de noventa e um. Tal como nas grandes obras que parecem ser, todas elas, anteriores ao socialismo, também os modelos que circulam têm o cunho dos anos, muitos anos; no entanto, os carros americanos da época do rock around the clock e até mais velhos, do tempo da segunda guerra, esses só dão um colorido pitoresco à paisagem pois os seus proprietários são exímios nas manutenções e, se necessário, até são capazes de fabricarem as peças que faltam. 


Mas o iate em que Fidel e os seus companheiros e seguidores desembarcaram para la lucha, para que se conserve, lá está em redoma de vidro, no exterior, em jardim anexo ao Museu da Revolução, onde uma chama permanente celebra os heróis caídos, mas também onde se pode aprender um pouco da história de um país que nunca teve tempo para ser ele próprio. 


Não perco a sensação que certas nuances de Havana me recordam La Valetta. 


A noite da capital tem o semblante dos lugares em que aos corpos nada mais resta que o alargarem-se em declínio. 


     Havana 
 30/03/2004

terça-feira, 15 de maio de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Almoço na “Bodeguita del Médio”, o restaurante onde Hemingway tinha por hábito comer enquanto esteve em Havana, onde morreu, num quarto de hotel que ainda hoje pode ser visitado, encenando mais ou menos o espaço que o escritor deixou, quando partiu, onde nem faltam alguns objectos do homenageado. 

É claro que há um certo aproveitamento turístico do nome daquele homem das letras. Mas é natural e normal que assim aconteça, é até uma das maneiras de preservar a sua memória e a verdade é que a admiração que lhe expressam parece-me sincera.
Reparei que é um dos poucos autores estrangeiros que merece destaque nos escaparates e, numa livraria perto da “Floridita”, onde, segundo dizem, tomava os seus murritos, logicamente merecendo honras de montra. 

O panorama editorial não me parece dos mais edificantes. Se a pequenez será compreensível, atendo às debilidades económicas do país, já o predomínio da literatura política e ideológica terá certamente que ver com o cariz do regime. 

De qualquer forma foi agradável almoçar num local em que o azul das paredes está todo ele decorado pelos grafismos dos inúmeros visitantes que pretendem deixar testemunho da sua passagem. 
Também eu dediquei uma frase ao Mestre. 



Para nos deslocarmos na cidade vale a pena usarmos os serviços do “coco-car”, uma espécie de triciclo com motor e uma carroçaria que imita o feitio de um coco, para fazer jus ao nome. Como o trânsito não tem densidade para que seja caótico e muito menos perigoso, ainda que um tanto ruidosos, permitem-nos deslocações com rapidez, ao mesmo tempo que possibilitam que apreciemos a expressão do traçado da urbe. 
Enquanto na parte antiga a fórmula pedestre, especialmente no que diz respeitos aos cruzamentos com a população local, é a melhor maneira de apreciarmos o fluir de uma malha de quarteirões rectilíneos e apertados nas ruas transversais, já na cidade mais recente é muito agradável disfrutar as vias arborizadas sobre a cadência do “coco-car”. 


Café a meio da tarde no Floridita onde, a um canto do balcão, lá está a estátua do Hemingway junto da qual são muitos os turistas que tiram fotografias. 

Foi ali que ficámos a saber da possibilidade de visitar o tal quarto de hotel. 

O problema é que o tempo que temos é limitado e por isso preferimos ver a pintura cubana. As belas artes ficam do outro lado da avenida. 



Depois do jantar assistiremos a um espectáculo de música cubana que, de acordo com o que nos disseram no hotel onde estamos hospedados, é o que melhor existe em Havana. 


     Havana 
 29/03/2004

terça-feira, 8 de maio de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A praça da revolução é um imenso terreiro rodeado de edifícios governamentais e pela sede do Partido Comunista no seu ponto mais alto. Ao centro e bem ao estilo da arte imponente da consagração dos poderes políticos, um monumento a uma revolução anterior àquela que agora as multidões festejam e apoiam, ao sabor dos longos discursos do comandante supremo, o camarada Fidel que permanece fiel, hasta la vitória, ao socialismo que o Che, o ícone de la revolucion o muerte, lá está, numa das fachadas, em contornos de ferro a preto, para lembrar aos cubanos o muito que devem à imposta igualdade que, só na aparência das pretensões, gerou uma sociedade de iguais. 


Mas a cidade é bonita, mesmo tendo em conta as chagas que a economia estatizada lhe provocou, a luz que envolve o casario espreitando o mar, deixa-nos ver o rosto de uma urbe cheia de personalidade, ainda que nos últimos decénios possa ter perdido a alma. 

É lamentável o estado de degradação a que se deixaram chegar muitos edifícios, literalmente a cair, em alguns casos, esventrados e sujos naqueles em que podemos, eufemisticamente, falar de envilecimento. 
É incrível como há pessoas a morar em tais buracos, sem janelas e com as paredes das varandas caídas. Mas os inquilinos lá estão, olhando o oceano, sempre olhando o oceano e a roupa estendida assim o indica, em andares feitos quintais pelas ruínas que só tem paralelo no caos que são os emaranhados de fios que instalam uma electricidade de lâmpadas tristonhas. 


Há gente que na rua aborda o estrangeiro de mão estendida, por um dólar, curiosamente, uma das moedas correntes no país. 
E também há quem pretenda vender charutos que, sendo uma forma disfarçada de pedir, não deixa igualmente de ser expressão de vigarices várias. 

Contudo, nas ruas, não se avista a população raquítica e estropiada das metrópoles dos países pobres e, seja lá como for, todos andam vestidos e calçados. 



Na cidade velha sente-se ainda a expressão da colonização espanhola, com os palacetes virados para o centro de um jardim interior e as varandas de madeira trabalhada que aqui não foram fechadas por vidraças. 

Há um grupo carnavalesco cubano animando as ruas e as praças têm estátuas dos homens que lutaram pela independência. 

A Catedral, do século XVII, tem o calcário corroído pelo ar que sopra do mar e por dentro ostenta a modéstia da devoção em país oficialmente ateu. 



Regresso ao hotel para o jantar e o necessário repouso. 



Acabei de ler o trabalho de Helena Matos sobre Salazar. 


Dado o erro do vendedor do Círculo de Leitores, li primeiro o segundo volume, mas não faz mal. 


Não sendo o trabalho de uma historiadora, antes algo na esteira de uma análise de conteúdo da imprensa da época e, a partir daí, o registo da imagem que o próprio quis dar de si, para o que teve a cobertura e o empenho activo de alguns dos seus acólitos. 

O resultado é uma leitura incontornável para quem queira compreender o salazarismo e as suas especificidades, enquanto regime totalitário, no contexto dos congéneres nazismo alemão e fascismo italiano. 
Fica clara a criação do mito salazarista de competência e clarividência, tal como da vontade e disponibilidade do homem para exercer o poder de forma absoluta. 
E lá está bem nítida a ideologia nacionalista e católica, o ruralismo assente no poder do pater famílias, como a marca mental que caracterizou o fascismo português que, se após a segunda guerra mundial se transformou num anacronismo incapaz de se renovar e responder aos desafios do desenvolvimento capitalista que então se verificou, não deixou por isso de ter o mesmo culto do chefe que os congéneres e de pretender organizar todos os detalhes da vida dos portugueses enquanto foi vitoriosa. 

Agora fico cheio de curiosidade pelo primeiro volume. 



A noite, em Havana, tem o timbre de um país policiado. 


     Havana 
 28/03/2004 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Matos, Helena, SALAZAR, Vol. 2, Círculo de Leitores, Lisboa, 2003

terça-feira, 1 de maio de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Havana, finalmente!

A viagem foi cansativa. Mais de dez horas dentro de um avião e, à chegada, duas horas de autocarro entre o aeroporto de Varadero e a capital.

Agora o quarto do hotel e a noite de sono que nos espera e que esperamos seja revitalizador.
Há um mundo a descobrir a partir de amanhã.


E o mar, visto do Malecón, dá sinais de vida com a espuma que salta sobre o passeio costeiro.

A cidade tem o silêncio das vias sub-aproveitadas pelo tráfego.


     Havana
  27/03/2004

terça-feira, 24 de abril de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

NA VÉSPERA DA PARTIDA

Jantar em casa dos avós paternos onde as miúdas passarão a próxima semana pois os pais terão uns dias de férias em Cuba. Trata-se de uma das habituais ofertas que as seguradoras fazem à empresa e como vem sendo habitual nestes últimos anos, pai e mãe lá vão para gozo da sua semanita folgada. 

Também precisam e faz bem. Sabemos quão importante é a felicidade dos progenitores para a educação dos filhos. 



Mas os afazeres da viagem é que nos tomaram o tempo destes últimos dois dias. 
Agora tudo está em ordem. 

Sairemos às dez de Lisboa, faremos escala em Punta Cana e chegaremos a Varadero ao fim da tarde isto, claro está, pela hora cubana. 



Ontem os alunos fizeram exercícios em torno da nova palavra dada, mas também trabalharam os números com contas de somar e subtrair. 
Hoje foi o dia das lições de música e de religião e moral, para além do que fizeram uma ficha com a nova palavra dada. 



E agora vamos dormir que amanhã será dia de aeroportos e aviões. 


 Alhos Vedros 
  26/03/2004

terça-feira, 17 de abril de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HISTÓRIAS DA TERRA ENCANTADA
18

E foi de África que, em duas vagas distintas e separadas no tempo por mais de um milhão de anos, a espécie homo partiu para colonizar o globo, primeiro como um ramo, o homo erectus que viria a desaparecer mais tarde, quando a segunda emigração do sapiens sapiens pelas terras do velho mundo era uma realidade consolidada e com francas probabilidades de irreversibilidade. 
Mas não nos precipitemos que dos australopitecos a essa época medeiam aproximadamente quatro milhões de anos, durante os quais terão coexistido naquele continente várias famílias desses mamíferos bípedes que tinham adquirido o hábito de se munirem com utensílios que inicialmente foram tão só aproveitados entre aquilo que a Natureza lhes oferecia, para mais tarde virem a ser propositadamente produzidos, sendo que no contexto dessas populações, há mais ou menos duzentos mil anos, terão aparecido os primeiros homens modernos. 
A verdade é que os australopitecos permaneceram recolectores o que acabou por os levar à extinção pois, se por um lado se encontravam menos apetrechados para enfrentarem as consequências de alterações climáticas, por outro lado devem ter sido empurrados para as zonas menos ricas em alimento, até que as taxas de natalidade deixaram de superar as de mortalidade e o número desses indivíduos deve ter descido consideravelmente abaixo do limiar em que uma população não tem como naturalmente evitar o desaparecimento. 
Em contrapartida, aqueles que Louis Leakey, Phillip Tobias e Jonh Napier apelidaram de homo habilis, descobriram a produção de utensílios e, com a caça, provocaram a primeira grande revolução no que à busca de alimento diz respeito. 
Com um cérebro maior – setecentos e setenta centímetros cúbicos contra os quinhentos daqueles outros primatas mais antigos – e naturalmente com maior destreza física e com mais e melhores capacidades cognitivas, estes exemplares tiveram à disposição as vantagens que um território virtualmente infinito, quer em tamanho, quer quanto aos recursos, tinha para lhes proporcionar. 
Assim, mesmo com saldos fisiológicos pequenos e ainda que geograficamente condicionados pela necessidade da proximidade de água, tiveram sucesso reprodutivo ao longo de alguns milhões de anos e souberam aperfeiçoar instrumentos de pedra bem como selecionar os melhores materiais para os fazer, tendo ainda construído abrigos com que aumentaram a sua mobilidade. 
É claro que então já se havia adquirido um imenso capital no desenrolar da vida em grupo, possivelmente com o desabrochar e amadurecimento dos sentimentos e afectos. Mas o homo habilis trouxe também um maior refinamento das capacidades intelectuais e de comunicação que melhor o apetrecharam quanto às faculdades de previsão e consequentemente para estabelecer e perseguir objectivos. Ao contrário do Australopitecos, essencialmente vegetariano, estes primeiros homens fizeram-se omnívoros e com isso se prepararam para a conquista de novos territórios. 
Pois foi entre estas populações que há volta de dois milhões de anos terão surgido indivíduos com crânios mais volumosos que, por isso mesmo deveriam ser portadores de capacidades físico-mentais mais desenvolvidas que os seus semelhantes. Coisas tão simples como uma memória melhor ou maior perícia no uso dos próprios membros do corpo podem muito bem ter sido vantagens decisivas para obterem mais e mais ricos alimentos. Além disso, entre outras coisas devem ter experimentado e aperfeiçoado a linguagem impondo, definitivamente, a caça como meio de obtenção de comida, vindo a capacitar-se para atingirem animais de grande porte que, tudo o indica, anteriormente apenas ousavam esquartejar quando tinham a felicidade de se depararem com algum exemplar morto ou indefeso. 
O mais certo é que por via de cruzamentos sucessivos se apuraram os crânios com os mil duzentos e cinquenta centímetros cúbicos que nos permitem falar de um outro homo, o erectus que sairia de África para o continente asiático, a partir do qual chegaria à Europa e à Austrália. Apto a identificar e a transformar as matérias-primas em qualquer local dos territórios que ia desbravando, sabendo abrigar-se das intempéries e defender-se dos predadores, ágil e hábil a encontrar boas zonas de caça e ricas em outros alimentos, capaz de falar e rir e de guardar memória, havendo também provas que estes seres usaram a abstracção, foi pois com todo esse legado que estes nossos antepassados foram os primeiros colonizadores do velho mundo.

terça-feira, 10 de abril de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Hoje os alunos deram uma palavra nova, escada. 



E eu quero apenas registar mais um dado. 

Em Lisboa, o executivo camarário deu o aval a uma casa de Eça de Queiroz onde ele nunca esteve, para ali nada colocar do escritor, cujo espólio se perdera num naufrágio, tão só tendo em vista a realização de colóquios e palestras sobre o Autor e a sua obra. (1) 
É claro que o erário público pagou a aquisição do imóvel, logo um hotel cujo nome – olhem que pormenor edificante – é o mesmo daquele que se cita em “Os Maias”, por exemplo e que também terá servido para alguns encontros dos “Vencidos da Vida.” 
Como é igualmente compreensível, há também o vínculo laboral de uma senhora doutora que assume a directoria do projecto que, naturalmente, tem verba orçamentada. 

Estou certo que se trata de mais uma pérola cultural da cidade. 
Teremos romaria de turistas e o panorama editorial verá um acréscimo de publicações que, por sua vez, traduzirão o torrencial investigativo que seguramente irá acontecer nos domínios da literatura queirosiana em particular e da língua e cultura portuguesa, em geral. 

É a grande visão política e cultural do Dr. Santana Lopes a funcionar em pleno. 



Neste princípio de Primavera, aos dias de Sol têm-se seguido as noites frias. 


 Alhos Vedros 
  24/03/2004


NOTA 


(1) Mónica, Maria Filomena, UMA CASA VAZIA PARA EÇA DE QUEIROZ, p. 5 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Mónica, Maria Filomena, UMA CASA VAZIA PARA EÇA DE QUEIROZ, In “Público”, nº. 5114, de 24/03/2004

terça-feira, 3 de abril de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE VIDA

A guerra dos aliados ao terrorismo da Al-Qaeda e afins sofreu um rude golpe no plano da defesa da causa junto da opinião pública, com o descrédito em que caíram os governos dos Estados Unidos da América e do Reino Unido em torno das armas de destruição massiva que nunca foram encontradas. 

Não se faz boa política com base em mentiras e muitíssimo menos em democracia. 
E o que é de lamentar é que são as democracias que perdem por uma tal situação que põe em risco o sucesso da alteração do regime no Iraque e, com ela, igualmente do equilíbrio geo-estratégico naquela região do globo, com isso abrindo as portas para um acordo de paz justo entre israelitas e palestinianos que permita a concretização de um estado viável para estes mas, ao mesmo tempo, pacífico e empenhado numa cooperação entre aquelas populações. 
Não por acaso, a escalada neste conflito em particular é uma promessa para os próximos dias. 

Pessoalmente nunca dei muita importância às tais armas de destruição em massa e sempre vi a guerra sobre o regime de Saddam como uma inevitabilidade na medida em que este, por um lado, jamais abandonaria o poder por si, ao mesmo tempo que não existiam grandes possibilidades endógenas de pôr fim ao domínio do Partido Baas, pelo menos nos tempos mais próximos e, por outro lado, a paz na palestina seria inviável com um tal apoio ao terrorismo palestiniano. 
É claro que nunca houve qualquer ligação directa entre a Al-Qaeda e o regime baasista iraquiano; mas há com o conflito israelo-árabe que é a grande causa internacional que, aos olhos dos próprios terroristas, justifica todo o terror que desenvolvem e praticam. 
Há outros conflitos que poderiam tomar o pódio se aquele se resolvesse a bem; a Tchetchénia e os Balcãs, são exemplos pertinentes. Mas por ora é ali que está a bandeira e a derrota dos homens de Bin Laden, em primeiro lugar, passa pela paz entre israelitas e palestinianos e por uma Palestina independente, viável, pacífica e próspera. 

Será isto uma utopia? 

Pois foi sobre isso que a desastrada forma como os norte-americanos e ingleses lidaram com as razões para a guerra sobre o Iraque de Saddam veio a fazer descer um manto negro. 



E em Moçambique há tráfico de pessoas. 



Hoje os alunos continuaram o estudo do meio e receberam a visita de técnicos camarários que lhes falaram sobre o ambiente da terra em que vivem e distribuíram um pequeno inquérito sobre o que está bem e o que está mal na Vila, bem como aquilo que poderia melhorar. 



Andamos tão cansados. 


 Alhos Vedros 
  23/03/2004

terça-feira, 27 de março de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE VIDA

Esta madrugada, à saída de uma mesquita onde rezara a primeira oração, o Xeique Amhed Yassin, líder espiritual e fundador do Hamas, foi morto por um míssil disparado a partir de um helicóptero do exército israelita. 

Fico perplexo pela onda de condenação que percorreu o mundo ocidental, como nunca antes o fizera em relação ao malogrado homem que tantas vezes instigou e esteve directamente implicado em atentados que vitimaram centenas e centenas de civis inocentes. 
É claro que não podemos sentir qualquer regozijo pela morte de uma pessoa, mas não podemos chorar a perda de alguém que vivia cheio de ódio e maldade e que zelosamente dedicara a sua vida a levar a morte e o sofrimento ao seu semelhante. 

Não sou capaz de prever as consequências deste acto, se bem que a logo proclamada vingança por parte do Hamas seja uma reacção natural e esperada. 
Mas este desaparecimento pode muito bem polarizar uma coligação entre os vários terrorismos islâmicos e as diversas forças que se confrontam em diferentes partes do mundo com populações não muçulmanas. 
Que isto é um episódio da guerra mundial, não tenho a menor dúvida. O que não sei é se este contribuirá para a estancar ou atear um pouco mais. 
A Al-Qaeda já apelou ao ataque sobre os Estados Unidos da América, o grande aliado dos israelitas. 

Para quem tinha dúvidas sobre a conexão da rede de Bin Laden e o conflito israelo-palestiniano, aí está. 

Mas o mais curioso é a bandeira da Autoridade Palestiniana a meia haste e o reconhecimento que dele fizeram os seus mais altos responsáveis, de Arafat ao primeiro-ministro, considerando-o um ilustre representante e agora mártir da causa da independência. 
Quer dizer, afinal o senhor Arafat reconhece os métodos do Hamas e considera-os legítimos, com isso dando o braço político ao terrorismo. 
Ao mesmo tempo, as brigadas de Al-Aqsa, o braço armado da Fatha, a facção próxima do Presidente e que, supostamente, este controlará, juram vingança com o que reconhecem a proximidade face aos ideais do velho xeique. 

Perante isto, levantam-se as vozes a condenarem Israel e a exigirem que retire as suas tropas da Faixa de Gaza. 


Ah mundo doido que teimas em não querer fazer da felicidade uma busca para todos os homens. 

E eu que vivo tão encantado e feliz com os meus tesouros. 



Na sexta-feira os alunos tiveram as aulas de música e moral e, dado o ensaio geral da patinagem, nada mais fizeram. 

Hoje houve estudo do meio e exercícios com números e contas de somar. 



Eu gosto do vento fresco destas primeiras noites da Primavera. 


 Alhos Vedros 
  22/03/2004

terça-feira, 20 de março de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

COMEÇOU A PRIMAVERA

O fim-de-semana lá se foi entre leituras e um corte de cabelo, o meu ou, para ser mais preciso, o que me resta dele. 
Mas tivemos uma folga artística, com o sarau de patinagem da escola da Matilde, na noite de sexta e hoje à tarde com a Aida, de Verdi, no Coliseu, pela Ópera da cidade búlgara de Varna. 
O repouso da família feito de alimento para o espírito e pernas esticadas para o físico. 

E o último álbum dos King Crimson no ar, fresco e alegre, mas com os sons encantados de sempre. 

Tal como os pianos da Aida, tão doces e claros que nos faziam fechar os olhos como se quiséssemos levitar. 



Foi a primeira vez que as miúdas viram um espectáculo de ópera. 
“-Estás a gostar, Matilde?” 
“-Sim. Isto parece-se com a história do Asterix.” (1)


É claro que não temos a pretensão que elas apreciem o que viram. Seria um disparate, as miúdas sequer têm vida suficiente para terem uma grande cultura musical. Mas podem ganhar hábitos e isso faz-se com a presença em sessões como esta e pela experiência de ouvir música em casa e é precisamente por esta razão que no carro procuro sintonizar mais tempo os postos relacionados com a chamada música erudita. É que elas já revelam os seus próprios gostos e têm os seus próprios cds que escutam regularmente; a Margarida, por exemplo, faz os trabalhos de casa com fundo sonoro. Daí que procuremos criar equilíbrios e as levemos a ver as mais variadas expressões desta forma de arte. 

São os capítulos da sua educação com que nós, enquanto pais, nos teremos que preocupar. 



Pois é, agora o primeiro-ministro vem dizer-nos que há sinais de retoma para dois mil e cinco. 
Disse o mesmo no ano passado relativamente a este ano. 



Já quanto à noite de sexta deve dizer-se que a mesma foi o corolário destes meses de aprendizagem que, na maior parte dos casos, deixou os miúdos a conseguirem equilibrar-se sobre os patins. 
Parece que o Tomás foi certeiro ao dizer que a actividade acabou quando os miúdos começavam a gostar. 
Mas pode ser que continuem para o próximo ano e depois há a alternativa dos clubes que, no concelho da Moita, não sei se não será a “Vélhinha” a única colectividade a oferecer a prática daquela modalidade. 

Seja como for, estas iniciativas do poder autárquico são positivas e podem muito bem ser melhoradas.

Mas eu acho que tenho de escrever sobre outras preocupações ainda mais importantes como, por exemplo, aquilo que se possa fazer para melhorar as condições das escolas do concelho e de atrair um corpo docente de efectivos empenhados e competentes, como já acontece no estabelecimento de ensino que as minhas queridas filhas frequentam. 



E os pais cheios de orgulho, com a felicidade estampada no rosto, são tão inocentemente patetas ao admirarem-se com as habilidades do pardalito que, bem vistas as coisas, nada têm de estranho. 

Temos dois encantos de filhas. 

E a Matoldas sempre bem disposta, aprende com uma facilidade desconcertante e concentra-se e atenta naquilo que tem para fazer, procurando o melhor desempenho possível e lá deslizava ela, sobre as quatro rodinhas, executando os movimentos com precisão e de acordo com os gestos do Professor. 

Bem e não me posso esquecer de registar que, a pedido da Margarida, levámos connosco o Ricardo G., o parceiro da minha filha mais velha. 

Ser pai também é isto, ir conhecendo e convivendo com os amigos dos filhos. 
É uma forma de mantermos a privacidade. 



Por cá, na sexta-feira, a esquerda manifestou-se pela paz; passou um ano sobre o início da segunda guerra do golfo que levou ao derrube do regime de Saddam Hussein e à ocupação do Iraque. 

A palhaçada já chegou ao ponto de aparecerem manifestantes mascarados de bombistas suicidas, mas a verdade é que Mário Soares deu o mote quando defendeu negociações com os terroristas. 

E esta gente não vê – não quer ver – que sem a afirmação do estado de direito nos países do Médio Oriente, precisamente o contrário do que pretendem os terroristas, jamais se conseguirá deixar de alimentar o fanatismo que dá a carne ao transporte das bombas que conferem a voz a esse terrorismo. 
E também não vê – não quer ver – que a guerra que o mesmo nos declara é de morte e global. Há tchetchenos no Afeganistão, ao lado dos talibans, tal como há membros da Al-Qaeda a combater no Iraque. 

E o recente reacender dos conflitos no Kosovo aí está para nos mostrar. 



Esperam-nos tempos de chumbo. 


Alhos Vedros 
  21/03/2004 


NOTA 

(1) Referência ao filme, Asterix e Cleópatra.

terça-feira, 13 de março de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Sem preocupações de hierarquização, faço uma pequena listagem de características que uma organização como a Al-Qaeda deixa transparecer para o exterior. 

1) Não se sedia no(s) território(s) sobre o(s) qua(is)l faz recair a sua acção; 
2) compõe-se de indivíduos oriundos de várias nacionalidades sem que tal tenha influência nos papéis que os militantes possam eventualmente desempenhar na organização; 
3) geralmente estes indivíduos têm elevado nível cultural e técnico; 
4) o suporte ideológico é a religião e, nesse domínio, todos os membros têm intensa formação o que significa que estão bem doutrinados; 
5) pode acontecer que os seus propósitos, num determinado momento, passem pela tomada do poder político num dado país, mas não é esse o objectivo final que consiste na imposição de uma mundivisão e de um modo de vida; é a razão pela qual os militantes não lutam por cargos mas para que aqueles que os ocupam cumpram os seus ditames. 


O que me espanta é que perante estes factos ainda haja quem teime em ver no terrorismo que uma tal formação promove um fenómeno originado pelas mais rebuscadas explicações que vão desde as sequelas advindas da situação colonial, à pobreza daqueles povos, passando pela arrogância dos ocidentais e pela humilhação que os palestinianos sofrem diariamente por parte dos israelitas. 

Enfim… Só o fanatismo e a mentalidade totalitária é que não explicam coisa alguma. 

E depois de Bin Laden propor-se a expulsar os infiéis de Jerusalém, até ouvimos peritos a dizer que a guerra que a Al-Qaeda faz ao Ocidente tem pouco a ver com o Médio Oriente. (1) 

Lindo! 



E os alunos continuaram os exercícios de escrita e leitura em torno da palavra, telhado. 



Este fim de Inverno está tão solado que, muito embora as amplitudes térmicas refresquem os fins de tarde, dá gosto ficar a ver as danças das andorinhas enquanto a luz se esvai. 


Alhos Vedros 
  18/03/2004 


NOTA 

(1) Roy, Oliver, A MORTE OU A PRISÃO DE BIN LADEN NÃO MUDARÁ NADA, PORQUE A SUA ORGANIZAÇÃO NÃO ESTÁ CENTRADA NO CULTO DO CHEFE, p. 6 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Roy, Oliver, A MORTE OU A PRISÃO DE BIN LADEN NÃO MUDARÁ NADA, PORQUE A SUA ORGANIZAÇÃO NÃO ESTÁ CENTRADA NO CULTO DO CHEFE, In “Público”, de 15/03/2004

terça-feira, 6 de março de 2018

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Hoje os alunos fizeram exercícios com palavras derivadas do vocábulo telhado. Mas também fizeram contas. 



E eu, com uma inspecção de uma companhia e o estudo para os seguros de uma empresa de electricidade que vamos ganhar, cheguei agora a casa. 

Na TSF, vai começar o noticiário da meia-noite. 



O terrorismo marca pontos em Espanha. 
O futuro governo de Zapatero ainda não está constituído e já dá mostras de querer baixar os braços. 


E enquanto em Bagdad, um carro armadilhado com quinhentos quilos de explosivos destruiu um hotel e matou mais de vinte pessoas, no Kosovo regressaram os confrontos de rua entre sérvios e albaneses. 

Há mortes a registar e em Belgrado pede-se o uso da força. 

O mundo afunda-se diante dos nossos olhos. 


 Alhos Vedros 
  17/03/2004