Os acontecimentos narrados são ficcionados, mas assentes em factos reais,
concretamente a ida de El-Rei D. João I a Alhos Vedros e a sua
permanência no «Palácio de D. Afonso, Conde de Barcelos.» [in “Crónica da Tomada de
Ceuta”, de Gomes Eanes de Zurara (ou Azurara].
«É
conhecida e muitas vezes citada a estadia de D. João I em Alhos Vedros, em
1415, pouco tempo antes da expedição a Ceuta. Segundo a “Crónica da Tomada de Ceuta”, de Gomes Eanes de Zurara (ou Azurara), o
rei de Boa Memória estava em Alhos Vedros, refugiado da peste que vitimaria sua
mulher Dona Filipa de Lencastre. Com ele estava o seu filho D. Afonso, conde de
Barcelos.» [in VARGAS, José Manuel (2007). Aspectos da História de Alhos
Vedros (Séculos
XIV a XVI), Edição Junta de Freguesia de Alhos Vedros]
Também
os Infantes da “Ínclita Geração” ali estiveram, a fim de saber qual
seria a decisão de El-Rei, quanto à conquista de Ceuta.
Indiscutivelmente,
a fazer fé no Cronista, foi em Alhos Vedros que Sua Majestade
tomou a deliberação de partir para essa empresa e a transmitiu aos filhos.
Pode
haver quem afirme que estes factos não passaram de mera ocorrência
acidental, fruto de um conjunto de circunstâncias particulares.
Em
parte, estou de acordo com essa visão…
Contudo,
também não podemos esquecer que a resolução Real tomada naquela terra
da borda-d’água, se traduziu na mola incitadora da gesta portuguesa da
Expansão Marítima, iniciada no séc. XV, e que tão relevantes consequências
teve para Portugal e para o Mundo de então!
…
Por
esse “simples” motivo, será que não merece a pena divulgar condignamente
tais factos históricos, tão intimamente incrustados na História de
Portugal, na História Europeia e na História Universal? Estou
plenamente convicto que sim! Daí este meu singelo contributo.
…
Onde
se terá situado, efectivamente, o «Palácio de Dom Afonso, Conde de Bar-celos»?
Terá sido no Largo do Cais? Na Quinta da Graça? Ou, ainda, noutro
local diferente destes?
Em
termos narrativos, penso ser pouco relevante a problemática de
tal localização. Já em termos históricos, considero pertinente
que se intensifiquem e se aprofundem as pesquisas, no sentido de se
definir a localização exacta desse «Palácio».
No
meu texto, opto deliberadamente pela sua localização no Largo dos
Cais, tendo como enfoque o Palacete dos Condes de Sampaio – uma
construção que remonta ao séc. XVII, portanto posterior aos episódios narrados.
A
ser essa a verdadeira localização, é evidente que a estrutura
residencial que existiu no séc. XV não é a que hoje está visível. Mas poderá
ter sido a partir dessa estrutura mais antiga que, posteriormente, tenha
vindo a ser erigida a edificação ainda existente.
Esta
minha escolha deveu-se, essencialmente, a uma estratégia narrativa mas
assenta, também, no facto de se tratar de uma opção defendida por vários
estudiosos.
«No “Guia de
Portugal”, de Raul Proença (2.º vol., pág. 638), (...) pode ler-se o seguinte:
“Teve aqui um palácio o Conde de Barcelos, D. Afonso e nele se refugiou seu
Pai, o Rei D. João I, fugido à peste, enquanto sua mulher D. Filipa de
Lencastre agonizava em Odivelas. O palácio veio depois a pertencer aos
Marqueses e Condes de Sampayo.”» [in Alves, C., 1992, pp. 38-39]
«O
Condestável Dom Nuno Álvares Pereira tinha propriedades nestas terras, e Dom
Afonso, filho bastardo de D. João I, Rei de Portugal, tinha Palácio no Porto
desta Vila. Dom Afonso casa com a filha do Condestável do Reino e torna-se
Conde de Barcelos e, mais tarde, no 1.º Duque de Bragança. Neste palácio dos
Barcelos, em Alhos Vedros, o Rei veio refugiar-se da Peste (segundo crónicas da
época) que assolava Lisboa e já tinha tirado a vida à Rainha. E juntando os
seus filhos na casa do meio-irmão destes (Dom Afonso) deu ordem à ínclita
geração para a tomada de Ceuta. Saíram de Alhos Vedros e reuniram-se em Belém
antes de partirem para o Norte de África. Este Palácio, hoje, permanece ferido
mas de pé, abandonado depois de ter sido usado durante décadas como fábrica de
confecções - o Primeiro Palácio dos Bragança.» [in “Famílias de Alhos Vedros”,
de João Gaspar – http://www.geneall.net/P/forum_msg]
«/…/o
Paço Real, situado junto ao cais da vila, local onde se refugiou o rei D. João
I para fugir à epidemia da peste, que assolava na altura a cidade de Lisboa,
vitimando D. Filipa de Lencastre, sua mulher.» [in Jornal O Rio,
23/04/2009 –http://www.orio.pt/modules/xt_conteudo/index]
Enquanto
cidadãos e Alhosvedrenses, compete-nos a todos nós (e a cada um)
dar a conhecer estes feitos, e orgulharmo-nos de os mesmos terem
ocorrido na nossa terra.
Desafio
todos os estudiosos, evidentemente que no bom sentido, a disponibiliza-rem-se
para aprofundar as suas pesquisas a propósito destes acontecimentos.
Mas que lhes seja, igualmente, feita a devida justiça por quem de
direito, e que esses seus trabalhos de investigação tenham os apoios
oficiais necessários, assim como uma ulterior divulgação condigna.
Convido,
pois, os Poderes Locais a investir ainda mais na recuperação do património
construído, assim como a incrementar actividades de animação e de difusão
dos factos históricos ocorridos em Alhos Vedros.
Estas
iniciativas, a ser implementadas futuramente, constituir-se-ão numa mais-valia
cultural (e não só), quer para Alhos Vedros, quer para o Concelho.
Nestes
tempos de globalização (desenfreada), que tende a tudo homogeneizar,
cada vez se torna mais premente e imperioso o incremento dos valores
culturais e dos factos que marcaram épocas passadas. São eles
que consubstanciam a herança recebida dos nossos ancestrais, que é
nossa responsabilidade legar aos vindouros.
É nestas singularidades
que se alicerça e enforma a identidade particular de cada Povo e
de cada Nação!
[SANTOS,
Francisco José Noronha dos, A DECISÃO
– D. João I em Alhos Vedros –
Julho 1415, Lisboa, Sítio do Livro, Lda., 1.ª Edição 2011, pp. 145 – 149]
NOTA DO AUTOR: À data da publicação, a redacção do texto não se subordinou às
normas preconizadas pelo novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
