O vôo é largo, é longa a rota
quando é amargo um beijo adoça
e um abraço reconforta
descemos sempre à nossa porta
(...)
Luís Represas, O Vôo da Garça


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Fotografias com Música





Noites de Lisboa
D. João I, rei de Portugal, e Castelo de São Jorge

Fotografia de Lucas Rosa
(Clique na Foto)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


PENSAMENTOS QUE SE CRUZAM

Pensamentos que se
         Cruzam
Com tempos de vento cheio de mimosas
Com tempos quentes de alfazema.

Pensamentos que se
        Cruzam
Com palavras de luz azul
Com sons de uma memória futura.

Pensamentos que se
        Cruzam
     Com outros

Pensamentos que se
         Cruzam
Com ...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (116)

Cargador de Flores, Diego Rivera, 1935
Óleo e Têmpera sobre masonite, 121x121cm

OS MILITANTES DO POVO
Vêm de longe e perto
lavram do amor o futuro
são o músculo o nervo
o fermento amanhecendo a razão
o estrume fecundo
o homem a caminho do pão
São poetas.Mas se passam
revivem noutra poesia,
falam de guindastes,trigo
de alfaias e d'alegria
que vive no coração
de quem sabe construir
braço a braço,mão a mão
Vêm das obras,dos campos
de oficinas artesãs
vêm da mina mais longa
ou das marés das manhãs
Dum escritório sombrio
ou da lezíria alagada
trazem consigo a poesia
duma terra fecundada
Nos olhos trazem boiando
uma esperança feita à mão
pela certeza bordada
de futuro e de razão
E os que semeiam suor
colherão um fruto novo
que é este o gesto de amor
dos militantes do povo

manuel branco

REAL... IRREAL... SURREAL... (112)

Estás cansada? António Tapadinhas, 1995

Óleo sobre Tela, 36x45cm

Feliz Ano Novo
Pra quê ano novo?
Não posso ficar no que finda
Este que eu quero ainda
Tão bem?

Porque velejar
Novo amor, novo tempo,
Se ainda sinto no rosto
Tão bom o vento?

Que podem me dar
Caminhos do que não sei
Se o chão que eu já pisei
Conheço de cor?

Que sal podem trazer
O correr de novas lágrimas
Se já tenho em minha boca
O sal do teu suor?

Ano novo?
Pra quê?
Que pode me dar que já não tenha,
Se pode me matar num de seus dias
Se posso eu perder a tua senha
E noites ter, como vadias
De medos que não tenho agora?

Segura
Meu amor
Na minha mão.


Ernesto Dias Jr.

domingo, 28 de dezembro de 2014




MIRADOURO 48 / 2014

O retrato do avô
 
Na casa sentado
á cadeira de verga
via de olhos ternos
o retrato de meu avô.
 
meu reparo sereno que era
na moldura habitava o silêncio
do que fui e ainda sou.
 
o candeeiro que via preso ao teto,
luzia num sol o petróleo que foi então
 agora elétrica, perfeita, maldita na saudade
com a cómoda em baixo inerte ao chão
girando o tempo da minha humanidade.
 
de súbito pela porta entrando em casa
alegria que entra toma lugar á mesa
no televisor que canta partiu um prato
e o avô que de olhos no destino
 repousa tranquilo do seu retrato.   
                                                                  
Diogo Correia
Cabeção
31/8/ 2012
(homenagem ao meu trisavô Luís Cravidão)
 
 

 
 

sábado, 27 de dezembro de 2014

O Homem da Caverna do Século XX


O Homem das Cavernas é o menino de rua das metrópoles atuais. Assim como aquele; vemos hoje em dia pessoas vivendo como no tempo das cavernas, isto é, inconscientes do mundo que as cerca com toda a riqueza e tecnologia atual, vivendo verdadeiras famílias exclusivamente da predação, catando lixo, restos de comida e jornais velhos para alimentação, aquecimento e aquisição de algum bem necessário. Garimpando restos de caixotes velhos, Elas acendem o fogo que vai aquecê-las nas noites de inverno e preparar algum alimento cru retirado do lixo das Feiras Livres. Banhando-se no Chafariz da Praça, lavando ali suas maltrapilhas roupas, latas que utilizam como utensílios domésticos, vivem num abismo primitivo dos viadutos e marquises atuais, vivendo da prima matéria como nossos antepassados moradores das cavernas que pescavam nos rios e lagos seu sustento, assim, o menino de rua de nossos dias, “pesca” na rua através de pequenos furtos e trabalhos informais a sua sobrevivência.

Com latas de azeite e garrafas de vinho encontradas no lixo, fazem seu banquete. Água morna? Nem pensar! Geladeira? Gela mais rapidamente a água completamente fria do Chafariz! Não há um verdadeiro repouso, tudo é apenas aparência. A quietude aparente desses nossos “meninos” é causada pela fome ou pelo frio absoluto do inverno. O tempo é o verdadeiro despenseiro e depositário de suas vidas, e os socorre quando lhe é confiado por um lapso considerável, aquele maltrapilho, protegendo-o, defendendo-o de toda força externa, só se manifestando em ajuda interior, de vez que a ajuda externa está interrompida.

“Pai que está no Céu”; Essência do Cósmico, Mestre Interior, projeta-se para a Terra; Eu exterior, faça o homem estabelecer a comunicação entre os dois; “O Pão nosso de cada dia” (processo de nutrição psíquica, simbolizado no pão) é-nos dado hoje para a necessidade do hoje, no aqui e agora; o pão de amanhã nos será dado amanhã”!

E o pão desses meninos? País da Igreja Católica, neoplatônicos e hermetistas, onde estão vocês?

Como o conceito de Deus não pode ser imposto, não se pode impor a caridade, ambos devem brotar da vivência e da meditação de cada um. É vã a tentativa do homem de compreender a Deus em sua infinidade, em comparação com as coisas finitas deste mundo.

Os chamados pagãos tentam expressar o Deus infinito de maneira finita, disto decorrem seus grosseiros ídolos, ou estátuas. Pela complexidade da ideia, muitos preferem relacionar-se com Deus através de um mediador, alguém mais próximo da experiência humana, um anjo, um mestre ou o próprio Cristo. Outros preferem pensar numa Mente Cósmica, ou no Espírito Santo, contatando diretamente com sua mente subconsciente. Por que então não tentar compreender Deus através da infinidade de suas criações e entre elas o Ser Humano!


Walter Babosa de Oliveira
(in, Jornal da Federação dos Procuradores de Autarquias
Federais do Rio de Janeiro, 16 de Dezembro, 1996)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014


Clique na Imagem para ampliar

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014




"O amor é um ato de fé"

Feliz Natal
Merry Christmas
Buon Natale
Feliz Navidad
Frohes Fest
Joyeux Noël


Joana Espírito Santo




terça-feira, 23 de dezembro de 2014

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

E se...

Por vezes, dou comigo a pensar no que seriam os meus pais, se fossem jovens nos dias de hoje. 
Pelas suas motivações, pelas suas vivências e pelas suas práticas ao longo destes anos, acho que as suas profissões estariam ligadas à Arte. 
Começando pelo meu pai, penso que poderia ter ido por duas vias. Uma, ligada aos estudos históricos e linguísticos: sempre o vi ler muito (o primeiro livro que abri em casa, teria eu quatro ou cinco anos, era um romance histórico - vim a saber mais tarde, claro – principalmente obras com um forte cunho histórico ou biográfico). Aprendeu praticamente sozinho, com ajuda de um primo, creio que o Aníbal Paula ou o irmão, a escrever e, depois, a falar Francês (ainda tentou o Alemão). Tal facto veio a ajudá-lo quando foi para França e, depois, facilitou-me a integração na escola francesa. Por outro lado, demonstrou e demonstra curiosidade em conhecer a origem das palavras e a estabelecer relações entre as diferentes línguas, principalmente as românicas. 
A outra hipótese, mais ligada à sua profissão de carpinteiro / marceneiro, passaria pelas Belas Artes. Desenhava primorosamente. O meu primeiro livro de imagens foi um pequeno caderno com utensílios de cozinha desenhados e coloridos por ele, quando ainda 10 ou 12 anos. Era lindo. Hoje, o caderno materialmente não existe, contudo continua vivo e colorido na minha mente. Outro caderno, este com desenhos de ferramentas, mostra bem a precisão do seu traço. 
De início referi que este lado estava ligado à sua profissão, uma vez que era um artista a fazer móveis, a decorá-los com flores esculpidas, entalhes e requebes nas formas. Cheguei a ter um quarto com móveis criados e feitos por ele. Tinham formas direitas, de duas cores (azul e vermelho – os tons não eram vivos) com o bege por base e foram inspirados numa revista alemã dos anos 50. 
Agora a minha mãe. Acho que daria uma óptima economista. Sempre soube governar muito bem a casa com o pouco que ganhavam. De um escudo, bem gostaria de fazer dez! 
Mas aquela área que é o seu rosto, é sem dúvida o Estilismo. Era uma artista na confecção de todo o tipo de modelos, alguns criados por ela própria, tirando uma ideia aqui outra ali. Com diferentes tipos de tecidos dava vida a vestidos alegres, de cerimónia, para criança. Ensinou a costura, ainda com os seus 16 anos, a mais de dez raparigas que iam lá para casa aprender. 
Quando era para fazer as contas, ela tinha tudo anotado: o feitio, os avios (molas, botões, fechos...). Tudo contabilizado (lado economicista). Quem sabe se não teria sido uma empresária de sucesso na Alta Costura! 
O mais engraçado é que, realmente, eles se completam e a prova disso foi um vestido que eu tive desenhado pelo meu pai e confeccionado pela minha mãe! Dos dois, acho que herdei o gosto por várias áreas, até o de ensinar, de partilhar conhecimentos; aprendi, também, a não separar o trabalho manual do intelectual; os dois completam-se, os dois enriquecem o ser humano. 

(Este texto foi escrito ainda em vida dos meus pais.) 

 Ana Maria Santos

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

(111)

Fotografia de António Tapadinhas

CRIANÇAS

 O tempo sorriu dentro das horas e em nós. Uma fina inocência percorreu-nos os braços devagar e perdemos todas as noções. As crianças cantaram muito baixo espreitando-lhes na voz o peso do fim. As mãos, velozes, desenharam cores e formas extraordinárias em muitas folhas de papel. Sem demora e sem resto, todas as coisas inúteis partiram e ficou apenas um silencioso e prudente odor a liberdade. Num sussurro descontínuo, a duração do instante tocou a eternidade breve.

Maria Teresa Bondoso

REAL... IRREAL... SURREAL... agradece a todos os Artistas que colaboraram nas já longas 111 semanas de duração desta rubrica e aos amigos leitores que a têm acompanhado.
Para todos, mesmo todos, os meus votos sinceros de um Feliz Natal..
António Tapadinhas

sábado, 20 de dezembro de 2014

Uma oração de Fernando Pessoa

Eis uma oração escrita por Pessoa, que foi conhecida durante décadas através de uma versão incompleta intitulada «Prece», publicada por por Jacinto Prado Coelho e Georg Rudolf Lind (Páginas íntimas e de auto-interpretação, Lisboa, Ática, 1966, p. 61). Trata-se de um manuscrito sem título, possivelmente de 1913, por mim reeditado na integra e publicado, juntamente com outros escritos pessoanos, na revista Tintas, consultável clicando aqui.

Fabrizio Boscaglia


«Senhor, que és o ceu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o n[osso] amôr és tu tambem. Onde nada está tu habitas e onde tudo está é o teu templo.
Dá-me vida para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no ceu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a agua e alto como o ceu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagôas dos meus propositos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pae.

Bemdito seja o teu nome de Ceu e de Terra, e de Corpo e Alma, e de Vida e Morte!

Louvam-te: a cara e as mãos te louvam.

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da Terra tua carne. Minha alma possa aparecer deante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa vêr sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu □

Senhor, livra-me de mim. Unge-me da Tua divina □

Que o meu pomar dê frutos saborosos a Ti e a minha vide dê vinho □

Quando me movo, és tu que te moves; quando fallo, és tu que me és fallando. Quando dou um passo, avanças tu. Se paro, estacas de mim.»


Fernando Pessoa

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Indochina (9)


A zona turística no Vietname central é uma cidadezinha próxima de Danang chamada Hoi An e é ali que os hotéis se estendem ao longo da costa marítima com uma notável concentração de qualidade, todos de 5 estrelas e de luxo e com praias privativas (a praia do nosso tinha sido levada por um tufão e as ondas quase rebentavam dentro da piscina ultrapassando uma primeira linha de big bags protectores e vindo morrer na segunda barreira); os de 4 estrelas não têm acesso directo à praia. Não descortinei nenhum que pudesse adivinhar de capitais portugueses. Porquê, se por ali escorre tanto dinheiro?
De Danang rumámos por estrada a Hué passando por montanhas imponentes e muito penhascosas em que eu me afastava da janela do autocarro com medo dos precipícios que insistem em me incomodar. Mas esse tormento de quem padeça do mesmo mal (não chega a ser atracção do abismo mas...) está por pouco pois estão em construção os túneis por onde passará uma auto-estrada que ligará as duas cidades. Também aqui não vi empresas de obras públicas que eu pudesse adivinhar de capitais portugueses. Porquê, se Portugal parou com esse tipo de trabalhos e o Vietname parece apostado neles? Eu já me contentaria se soubesse que alguns gabinetes de engenharia portugueses andavam por aquelas bandas mas temo que também isso não aconteça. Por onde anda a nossa diplomacia económica?
Nas montanhas vê-se uma importante acção florestal que dá a matéria-prima necessária à indústria papeleira (no que o Vietname se tornou auto-suficiente) e regressados às planícies, intensa actividade agrícola com arrozais a perder de vista.
Hué, antiga cidade real, é historicamente interessante mas foi nas suas cercanias que comecei a ficar um pouco farto de pagodes e templos... Em compensação, deliciei-me com as escolas um pouco por toda a parte cheias de crianças e jovens.  
A propósito de Hué ter sido cidade real, notei um pouco por todo o país um à-vontade enorme no hastear da bandeira monárquica. Não se colocando a questão do Regime, os vietnamitas não apagaram a História mas nos idos belicosos passaram as bainhas das espadas republicanas pelas gargantas dos monárquicos, o que nós, muito bem, não fizemos. Não se pode ter tudo...
O nosso guia no Vietname central dizia chamar-se Óscar mas não explicou por que motivo tem nome cristão. Também ele aprendeu espanhol em Cuba onde se licenciou em engenharia civil, está reformado mas a pensão é pequena e vê-se na necessidade de continuar a trabalhar. E foi precisamente a propósito dessa necessidade que referiu o baixo nível salarial dos professores primários e secundários que dão aulas suplementares aos alunos cujos pais paguem por fora esse esforço extra. Assim se acentuam as desigualdades sociais pela via da educação. E isto acontece num país que se diz socialista. De qualquer modo, fiquei com a ideia de que a escolarização faz o pleno não só naquela região mas talvez mesmo em todo o país. 
Ainda não foi desta vez que levantei a questão sindical. Pareceu-me que o guia não era suficientemente isento para me poder dar uma resposta aceitável, sem propaganda partidária.
Foi de Hué que voámos para sul rumo a Ho Chi Minh City, a metrópole composta por cerca de 50 municípios que engoliu Saigão. Esta, bem orgulhosa dos seus pergaminhos europeizados, é uma cidade de grande qualidade urbanística de que contarei mais à frente...
Lisboa, 10 de Dezembro de 2014

Hoi An-9.JPG

Num Estado «socialista», o único tipo de transporte público que vi consiste num triciclo de propriedade do cidadão que o empurra à força de pedal

Henrique Salles da Fonseca
http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Leque-objeto-ave






Título: AMOR
Dimensão: 37x55cm
Data: 2004


Kity Amaral



terça-feira, 16 de dezembro de 2014

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


ESPAÇO/TEMPO



Nas linhas azuis da folha
Caminham palavras,
Ecos de Tempos
Que nos construíram
Ecos de Espaços
Que nos moldam.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (110)

Jorge A. G. Lemos
Fotografia de Luiz Moretti
PREPARANDO-OS PARA MAIS UM LANÇAMENTO 
Conheci o Zé Mutinga. Cabra valente, tinhoso, matreiro, hábil contador de causos cujos detalhes das narrativas colocavam Machado de Assis no porão dos detalhistas. Ganhei histórias e fatos que muito contribuíram para enriquecer meus trabalhos. Devo muito ao Mutinga. Gostaria, se vivo ele fosse, de o levar ao Rolando para um papo a três. Lá no interior da Minas Gerais a fama e as lendas sobre Zé Mutinga eram lembradas até a década dos 40. Saibam que a língua do povo chega, as vezes, ser maldizente. Diziam até que Mutinga praticava reza brava e que tinha parte com o Capiroto. Sei não! Acho que era exagero pois o Zé tinha, em contrapartida, um coração mole e olhos lacrimejantes especialmente quando via alguém maltratar um animal qualquer. Chegava a ser choroso nestas horas. Praguejava e lançava maldição aquelas que espancavam um cachorro qualquer, até aqueles vadios, sem dono, que se perdiam nas longas estradas lá do sertão.
Zé Mutinga hoje me inspirou a começar a produzir um trabalho exclusivo sobre sua vida. Aquelas, desde a primeira morte que fez "premode" vingança prometida desde quando seu pai foi assassinado junto a porteira da entrada da fazenda, numa emboscada preparada pelo Cel. Sucupira, velho e conhecido tomador de terras, grileiro famoso lá pelas bandas de Mantena.
Aos poucos irei aqui narrando fragmentos deste trabalho que já me ponho.
(Copy-Jorge A.G.Lemos-2014-Dez.Bib.Nac.)

domingo, 14 de dezembro de 2014



MIRADOURO 47 / 21014
 
 
CAMINHO
 
e
 
CHÃO
 
Na noite fria, densa faz-se a viagem.
Física.
A estrada fende o montado que se materializa na sombra escura das árvores.
A mente viaja também mas autonomiza-se por outros caminhos.
Os pensamentos são como estradas que ora convergem, ora divergem.
Andam há solta, não admitem condução.
Respeitam, quando muito, o pulsar da máquina que vibra no peito.
É dali que vem a força e tudo o resto mas, isto é como tudo…
Identifica-se o não querer e também o querer bem, são cartas do mesmo baralho da vida.
Uma certeza se afirma, a dimensão da ternura é indestrutível porque inolvidável.
Não, não são pétalas de malmequer, são penas de mim e de ti, também.
 
Manuel João Croca
Cabeção, 13 Dezembro, sábado
 
 
Foto: Joana Croca

sábado, 13 de dezembro de 2014

Vai um "Café"?




por Miguel Boieiro

A Escola Comunitária de Alcochete, fundada nos anos 70 do passado século, é bem a precursora das chamadas universidades seniores que alegremente alastram hoje em dia por quase todo o País, suscitando partilhas e divulgação de conhecimentos. Na Escola Comunitária cada um transmite as suas experiências, fomentando convívios e solidariedades. Um dia destes, no seguimento de muitos passeios culturais que vem organizando com os apoios da Casa do Povo e da Câmara Municipal, foi decidido viajar até Campo Maior. O principal objetivo era a visita ao muito badalado Centro de Ciência do Café do Comendador Rui Nabeiro, figura grada na região e não só.

Valeu a pena a visita pelo que vimos e aprendemos sobre uma cultura e um negócio dos mais importantes à escala mundial. Trata-se de um museu moderno, tecnicamente bem apetrechado, interativo e esteticamente atraente, o qual vivamente se aconselha a todos os leitores desta modesta croniqueta.

Valha a verdade que vos diga que neste meu “vício” de escrevinhar sobre vegetais úteis, apenas tenho escolhido plantas que vicejam na nossa praça e que conheço razoavelmente. Neste caso, abre-se uma exceção, pois o género Coffea L, da família das Rubiáceas é um arbusto tropical que não medra no nosso clima, mas a sua importância social, cultural e económica é verdadeiramente cosmopolita. Não obstante, podemos apreciar uma plantação em estufa no próprio Centro da Ciência.

Vi cafezeiros pela primeira vez em São Tomé e Príncipe, numa fugaz visita a uma roça e logo me impressionou a beleza das plantas com as suas folhas verdes escuras bem lustrosas, as flores branquinhas muito aromáticas e, noutra ocasião, os frutos vermelhos, assemelhando-se, pela forma, a lindas cerejas. Observei-os também no Brasil, principal produtor mundial. A este propósito, jamais esqueço uma curiosa afirmação do engenheiro agrónomo goês e meu amigo, Fernando do Rego, quando com ele confraternizei em Pangim: - os Portugueses trouxeram o caju do Brasil para a Índia e agora somos o principal produtor mundial. Em contrapartida, levaram o cafezeiro da Índia para o Brasil que é hoje quem dita as cartas desta cultura, verdadeiro expoente da globalização planetária.

Eis algumas frases curiosas colhidas no Centro da Ciência:
- O café, oriundo da Etiópia e países adjacentes, é uma cultura que se dá nas regiões que formam a “barriga do mundo”.
- Um gole de café banha os espíritos deprimidos e eleva-os para além dos sonhos mais sublimes (John Milton).
- O café é um bálsamo para o coração e para o espírito (Giuseppe Verdi).
- O café apaixona-me como se fosse um fogo lento, sem chama, que não queima, mas que preenche e acelera todo o ágil sangue nas minhas veias (José Marti).
- A Finlândia é o principal consumidor “per capita”.
- Atualmente o segundo produtor mundial é o Vietname.

Não esperem os leitores que venha aqui aprofundar tudo o que respeita ao café, nem que bote opinião rigorosa sobre as milhentas controvérsias à volta dos potenciais benefícios e/ou malefícios desta bebida confecionada com grãos torrados. Como já tenho dito, em fitoterapia não há absolutismos. O bem ou mal proporcionado pelas plantas depende fundamentalmente do grau de compatibilidade existente entre a pessoa e o respetivo vegetal.

Ora o café é extremamente complexo. O grão, antes de ser torrado, possui 100 compostos voláteis. Aliás, está agora em moda o uso do café verde para os processos de emagrecimento, porque alguém concluiu que ele reduz a absorção de açúcares e gorduras acumuladas.

Sobre a confeção da bebida, há imensas teorias e práticas no que concerne ao sabor, ao prazer e aos efeitos que provoca na saúde dos bebedores. Em primeiro lugar, temos a colheita e a conservação que têm de ser criteriosas. Depois vêm os processos de torrefação e o “blend”, isto é, a mistura entre os géneros mais conhecidos: o arábica e o robusta. A seguir, há que ver como se processa a fervura e a escolha entre a simples “bica”, o “carioca”, o descafeinado, o expresso e muitas outras modalidades de apresentação.

Entre os aspetos potencialmente negativos da bebida, salientamos os seguintes:
- A adição de açúcar (Portugal é dos países onde as saquetas contêm maior quantidade de açúcar).
- A existência de alcaloides, um dos quais poderoso, a cafeína, que é uma droga e causa habituação.
- A concentração de cafeina é maior nos cafés “expresso”, que em Itália é spremutom ou seja, espremido, país onde o processo foi inventado. De referir que a cafeína chega às células do corpo em menos de 20 minutos e aumenta a influência do neurotransmissor dopamina.
- A ação diurética compulsiva e a redução da taxa dos neurónios.
- A acidez do café provoca maior secreção de ácido clorídrico e, por via disso, pode causar gastrites, irritações nos intestinos e colites.
- O nervosismo e a perda de sono.

Como propriedades benéficas, apontam-se as seguintes: analgésica, cardiotónica, depurativa, digestiva, diurética, estimulante, excitante, revigorante intelectual, sudorífera, dilatadora dos brônquios, auxiliar no tratamento da diabetes (sem açúcar, obviamente), inibidora de Parkinson e de Alzheimer.

A minha conclusão é que não devemos levar à letra tudo o que se diz sobre os benefícios do café que é, não nos esqueçamos, um produto mercantil, cotado na bolsa de Nova Iorque e altamente lucrativo.

 Julgo que quem não sentir efeitos adversos, poderá beber um café por dia para estimular a sua produtividade pessoal, sem prejuízos de maior.

 Os brasileiros não conhecem o termo pequeno-almoço, preferem o café-da-manhã, que evidencia bem a popularidade que a bebida atingiu.

E, por ora, embora o universo do café seja vastíssimo, mais não digo!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Valorizando a Nossa História...


Na próxima 2ª feira, 15 de Dezembro, fará 500 anos que o Rei D. Manuel I atribuiu Carta de Foral a Alhos Vedros, dia em que também chegará ao fim o Programa das Comemorações que foi decorrendo ao longo de todo o ano. Entre os vários Encontros que integraram as Comemorações, deixo aqui as conclusões da conferência que proferi. O texto integral será publicado depois, conjuntamente com as atas de todas as Conferências, pela Comissão Executiva das Comemorações do Foral.


Cruz de Cristo, símbolo que identificou, entre outros, as naus portuguesas durante os descobrimentos.


Conclusão

1. A História de Alhos Vedros estende-se até às origens do país e desenvolve-se com ele. Note-se que quando estamos a falar de Alhos Vedros no século XIII, estamos necessariamente a falar de uma região que se alarga aos concelhos atuais de Alcochete, Montijo, Moita e Barreiro, pois que todos eles integravam o velho concelho do Ribatejo, do qual Alhos Vedros constituía com Santa Maria de Sabonha (atual S. Francisco) as duas sedes principais desse concelho.

Para que se possa avançar mais no conhecimento das origens de Alhos Vedros e região, caberá aos nossos arqueólogos um papel fundamental, já que a escassez de documentos escritos, muito provavelmente, não permitirá aos historiadores recuar muito mais para trás no tempo do que aquilo que já se conseguiu. Existe um hiato enorme entre o tempo que nos é dado pela história local sobre as origens de Alhos Vedros e o povoamento da região assinalado pelos estudos arqueológicos que remontam, pelo menos, ao Neolítico (30 mil anos atrás), o qual nos é absolutamente desconhecido.
Por agora, apenas se pode dizer que o documento escrito mais antigo que se conhece sobre Alhos Vedros data de meados do século XIII e o documento mais antigo sobre a Igreja Matriz data de 1298 e que, portanto, antes desse tempo não é possível comprovar a existência de Alhos Vedros.

2. No século XIV Alhos Vedros ganha autonomia face ao velho Concelho do Ribatejo e constitui um concelho próprio. Os limites desse concelho situam-se entre a Aldeia Galega, Palmela e Coina Antiga.

3. Podem-se estabelecer um conjunto de fortes relações do concelho de Alhos Vedros com a Expansão Ultramarina Portuguesa, quer a partir de importantes figuras históricas que por ele passaram ou habitaram, tal como a partir de alguns núcleos de relevante importância económica, como eram os fornos os biscoitos em Vale de Zebro, o estaleiro naval da Telha da Ribeira das Naus, ou os fornos de cerâmica da Mata da Machada, todos com relação intrínseca aos Descobrimentos Portugueses.

4. É verdadeiramente impressionante a lista de figuras de relevo da história de Portugal que se podem relacionar com Alhos Vedros:
- D. Dinis, rei de Portugal, e a indústria naval
- Gonçalo Lourenço de Gomide, “escrivão da puridade” (equivalente a um 1º ministro dos tempos atuais), avô de Afonso de Albuquerque governador e vice-rei da Índia
- D. João I, o Mestre de Avis, rei de Portugal
- A Ínclita Geração: D. Duarte, futuro rei de Portugal; Infante D. Henrique, Grão-Mestre da Ordem de Cristo e figura de proa da Expansão Ultramarina, etc. (filhos de D. João I)
- D. Afonso, Conde de Barcelos, filho bastardo de D. João I (que sabemos estava com o Rei em Alhos Vedros quando do luto da Rainha Filipa de Lencastre…), casado com D. Beatriz, a filha do Condestável do Reino D. Nuno Álvares Pereira que, por via disso, também talvez tenha por cá andado.
- Álvaro Velho, o provável cronista da Viagem de Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia por Vasco da Gama
- D. Manuel, Rei de Portugal, o outorgante da Carta de Foral que sabemos esteve por cá através de carta de Gil Vicente, o pai do Teatro em Portugal
- Afonso de Albuquerque, governador e vice-rei da Índia, neto de Gonçalo Lourenço de Gomide, um dos grandes senhores de Alhos Vedros.
- Luís de Camões e as suas referências a Alhos Vedros na sua farsa “El-Rei Seleuco”.

5. Pode, pois, concluir-se dizendo que muita coisa já se conhece sobre a história de Alhos Vedros e da região, mas que muito ainda estará por descobrir, muito também carecendo de confirmação científica.

Parece-nos inegável o relevante valor da nossa história e o potencial desenvolvimento social e económico que daí poderá advir. Neste sentido, precisamos de avançar o mais possível para a conservação do património que ainda resta, cuidar da preservação da memória, mais descobrir para mais acrescentar, afinal, tratar da história do futuro que é o que mais interessa.
Assim, aproveitamos a presença do Sr. Vice-Presidente da Câmara Daniel Figueiredo para lhe sugerir o quão seria importante conseguirmos recuperar O Palacete dos Condes de São Paio, um testemunho patrimonial de primeira água da nossa história local, lugar onde com elevada probabilidade ficou D. João I e onde, conjuntamente com seus filhos, a célebre “Ínclita Geração”, terão decidido partir à conquista de Ceuta, naquela que é considerada a primeira etapa da Expansão Ultramarina Portuguesa, uma das grandes realizações de Portugal no mundo.


Nov. 2014

Luís Carlos Santos

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O Coração da Vida




Paulo Borges
"Introdução", O Coração da Vida


"Escrevo e publico este livro com a convicção profunda de que pacificar a mente e despertar a consciência, levando-a ao pleno desenvolvimento de todas as suas ilimitadas potencialidades cognitivas e afectivas, deve tornar-se o centro das nossas preocupações e investimentos pessoais, sociais e políticos. Com serenidade, sabedoria, amor e compaixão, encontraremos as soluções mais adequadas para todos os problemas sociais, políticos, económicos e ambientais. Sem serenidade, sabedoria, amor e compaixão, todas as pretensas soluções sociais, políticas, económicas e ambientais jamais deixarão de se converter em novos e maiores problemas, como em geral tem acontecido. A humanidade paga muito caro a recusa da espiritualidade, que, insisto, não é religião, mas a expansão fraterna e activa da consciência. É isto que temos de mudar, se queremos realmente mudar alguma coisa. É a isto que chamo política da consciência, que começa pelo que se pode chamar a micropolítica da mudança de cada uma das nossas mentes e pela educação de cada um de nós e dos mais jovens para sermos mais conscientes da interconexão e interdependência de todas as formas de vida e dos ecossistemas, numa ética da responsabilidade e da solidariedade universal. A política da consciência é também a proposta de uma profunda mudança do paradigma dominante na política e, sendo transversal a todos os quadrantes ideológicos e partidários, transcende o espectáculo em geral triste e o horizonte estreito da política partidária e convencional, mediante uma visão de Bem Comum universal e integral que não desconsidera os seres não-humanos e os ecossistemas nem os factores internos, mentais e emocionais, da felicidade que todos procuramos, assumindo-os como parte das necessidades fundamentais de todo o ser humano. A política da consciência reúne contemplação e acção na acção integral, interna e externa, em prol de uma sociedade mais pacífica, solidária e desperta. Com efeito, como veremos, voltar a atenção para o interior e observar os movimentos da mente, deixá-los dissolver-se e repousar num estado calmo, claro e aberto, livre da fictícia separação entre eu e outro, pode revelar-se o fundamento indispensável de uma vida saudável e a acção interna que é a fonte de toda a acção externa justa e esclarecida, amorosa e compassiva. O estado do mundo e a tremenda violência contra a Terra e os seres, humanos e animais, são o espelho do contrário disto. Não há mudança de paradigma sem reunião da contemplação e da acção. Cremos ser este um dos desafios fundamentais do mundo contemporâneo, equidistante do extremo de uma contemplação sem acção externa e assim degradada numa experiência intelectual desprovida do calor e do dinamismo do amor e da compaixão, bem como do extremo oposto da obsessão do agir externo desprovido de visão e do mesmo dinamismo amoroso e compassivo e assim convertido numa agitação e activismo pouco esclarecidos e beligerantes que são parte de todos os problemas e de nenhuma solução"

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

MAR DA COSTA


É engraçado estar aqui, na Costa de Santo André, com um mar de uma cor verde-água ou azul-céu, com um mar calmo e tumultuoso, que se faz sentir pela calada da noite, que impõe sempre a sua presença, mas eu não o sinto! 
Os pinheiros atrás da casa lançam, para o ar, quentes e finos sons: são as agulhas secas, ou as pinhas, que se tocam e caem. 
Apesar de tudo isto, que até acho aprazível, não sei descrever este lugar, este mar que não é meu e o seu areal imenso que me desfoca o olhar. 
Oiço a voz dessas ondas rebentando na praia, de forma cadenciada e, talvez, pensativa. Oiço esta massa líquida como um som que se alonga, se estica nas cordas de uma harpa, mas sempre sozinho, sem ninguém para comunicar, para o ouvir, o compreender e dizer: “este mar é meu”. 
Sinto-o como um mar sem dono, sem ser o mar, apenas um mar – é o contrário da flor do Principezinho, a sua flor, a mais bela, a mais amada e sentida, a mais... não era apenas uma flor, era a sua flor -. 
E aqui, este mar imenso é belo como todos os mares, mas, decididamente, não é o meu mar. 

Ana Santos 
21/08/99

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (109)


Filipe Almeida, Desenhos no Diário Gráfico, Organização CACAV,
Movimento UrbanSketchers, USK
Exposição em Alhos Vedros até 20 de Dezembro
INQUIETUDE
Sento o cansaço neste banco 
onde me ausento da espera 
e da desesperança do vazio,
que me limita a alma 
a frágeis contornos de solidão.
Procuro nas frestas de luz, 
que se esgueiram 
por entre precipícios de escuridão,
a força que redime os seres
e purifica as manhãs.
Entre o olhar e a palavra,
as margens da saudade
transbordam em fragrâncias 
há muito enlouquecidas.
Rostos de pálida ilusão
seguem o traço indelével
da força com que misturo
a essência do amor e do ódio.
Nesta onírica viagem, 
sem princípio nem fim,
quebro os ilimitados limites da razão
e percorro o espaço 
entre o sangue e a pele,
onde me confronto
com uma imagem de mim,
que reconheço, mas sei que não sou eu.

Maria Irene Seixas

domingo, 7 de dezembro de 2014



MIRADOURO 46/2014
 
Aptidão militar de um palhaço sem rumo
Muitas das coisas que aconteceram num momento em que o dia  se afundava sobre a outra face da terra, eram de enaltecer a quem, naquela situação se encontrava.
António Cosme 1º Tenente da 2ª divisão do Exército, escriturário por natureza e trapezista de circo por qualidade inata, recebia das mãos do famoso Coronel Monforte uma medalha de mérito. 
- Concedo a Medalha de Mérito a António Marco de Sousa Cosme por serviços prestados ao país.
Mulheres e crianças que assistiam á cena comendo pipocas e algodão doce outras ainda churros ou cachorros quentes batiam palmas euforicamente.
Monforte, Monforte de botas altas o coronel, estendia o braço com a medalha entre os dedos aterrando sem corda de segurança na farda de Cosme, trapezista de circo por qualidade inata.
Depois da cerimónia entre os dois caminhando,  entretanto, encaminhando as pessoas que os seguiam para o beberete de jantar a seguir, avistaram em simultâneo o soldado, porteiro do salão de arma marchando. Ritmo 3, 2, 1, ação!! com o passo certo pela melodia que, ia gritando dentro da farda militar marchando:
 
“ENTRAI MENINOS E MENINAS, TERNURAS E TERNOS SENHORES E SENHORAS”
As crianças animadas com os pais e familiares de Cosme tinham entrado no salão, soldados com narizes de palhaço, soldados com tutu de bailarina e divisas coloridas, soldados fardados a lentejoulas militares e  etc, etc, etc… deslocavam-se de um lado para o outro compondo os últimos retoques para os convidados que já tinham entrado e começaram a comer e começaram a falar e começaram a beber e pararam comprando bandeirinhas ás cores com palhaços na imagem para completar de alegria a cerimónia militar.
O Coronel e o Tenente, Cosme e Monforte falavam, as pessoas sentaram-se, Coronel e Tenente continuaram a falar, as pessoas comeram o prato de peixe, Cosme e Monforte sentaram-se, as pessoas comeram o prato de carne, Coronel e Tenente comeram o peixe, as pessoas a sobremesa, Cosme e Monforte a carne, as pessoas levantaram-se e começaram a dançar.
Um 1º cabo mandava 5 bolas ao ar com precisão e um Sargento cuspia fogo da boca em cima de uma bola de gigante militar. Mas todos comiam gomas, chupas, gelados enquanto dançavam ao som da banda do Exército que na reserva dos seus instrumentos também tinham gomas, chupas e gelados.
Cosme e Monforte não quiseram sobremesa e falavam, depois fumavam, depois continuaram falando, depois fumando falavam, depois beberam, depois cantaram.
O Coronel José Maria Monforte é chamado ao púlpito para fazer  discurso com o Tenente António Marco de Sousa Cosme acabado de ser premiado com medalha de mérito pelos bons serviços prestados ao país.
José Maria está no púlpito e começa o discurso enquanto António Marco está no palco onde está o púlpito, as pessoas param e os músicos param, parou tudo no salão menos o Sargento faquir que cuspia fogo e agora come facas.
 Tenha a bondade Coronel, ouviu-se uma voz.
batalhão de maior virtude
de um país, felicita um homem.
criança de homem alegre nascido
inocente, infalível, persistente.
Cosme salta para o trapézio por cima do palco preso ao teto e balança…
militar campanha ingénua,
tuas armas de paz, amor alegre,
teu sorriso terno, granada pura
teus olhos piedade num soldado rindo
Cosme faz o pino em cima do trapézio em movimento e o Sargento faquir come vidros…
tenente da fortuna pela aura
bela num exército falido,
audácia de um cosmos
num exército que nunca foi.
Cosme da um salto mortal no ar agarrando-se ao trapézio de seguida, o Sargento faquir faz malabarismo com três brasas …
 
trincheira
daquela luta sem armas
que todos os exércitos sonham,
liberdade, liberdade, liberdade…
Silêncio… Onda geral de aplausos…
Quando o Coronel termina, o Tenente cai do trapézio e o Sargento faz um corte sangrando do braço.
António Marco no chão e um fio de sangue escorre-lhe pela boca. Monforte chama o médico de serviço no quartel e debruça-se sobre o outro e uma lagrima debruça-se sobre na sua face.
Humano homem, Humano sim, Olha bem José, repara como o mundo está cheio de homens e tão poucos seres humanos.
 
                                                          Diogo Correia