por Miguel Boieiro
O vizinho Manel Alves, causticado pelas asperezas da vida, socorria-se das tisanas para tratar quase todas as enfermidades que afluíam regularmente a si e aos familiares. A sua planta favorita era a losna que insistentemente recomendava para os transtornos do estômago e do fígado. Também denominada absinto ou erva-santa, tal planta é conhecida desde a lonjura dos tempos, encontrando-se mencionada em todos os tratados botânicos antigos. Os egípcios chamavam-na “a mãe de todas as ervas”, sendo famosa na época dos gregos, dos romanos, no império árabe e na Idade Média. Hoje, após algumas vicissitudes, encontra-se bastante esquecida, face à panóplia de remédios da farmacopeia de síntese.
O meu estimado amigo e distinto investigador botânico, Dr.
Valdemiro Gonçalves Pereira trouxe-me, a meu pedido, da sua quinta de Aidos da
Vila (Anadia) um vasinho com uma pequena losna que agora medra viçosa no meu
quintal. Vou ver se a consigo conservar porque se trata de uma planta de
múltiplas aplicações, como iremos ver.
A Artemisia absinthium
L é uma asterácea do género das artemísias que engloba para cima de 180
espécies. Nativa das regiões temperadas da Europa, Ásia e norte de África, esta
herbácea perene tem rizomas lenhosos e cheiro intenso característico. As suas folhas
são verde-acinzentadas, alternas e recortadas, que se desenvolvem em espiral.
Ficam cobertas por pequenas penugens prateadas e têm pecíolos que vão
diminuindo de tamanho consoante a altura, até se tornarem completamente sésseis
nos cimos. As flores, pequenas e tubulares, de amarelo-pálido, são anemófilas
(polinizadas através do vento) e os frutos formam aquénios cilíndricos que não
excedem os 0,5 mm de diâmetro.
A losna contém silício, tanino, caroteno, resina, mucilagens,
vitaminas B6 e C, ácido málico, princípios amargos de que os principais são a absintina
e a anabsintina e um óleo essencial denominado tuiona que, sendo
puro, é altamente venenoso, inibindo até a capacidade de respirar.
Propriedades terapêuticas: estomacal, vermífuga, abortiva,
antidiabética, antidiarreica, febrífuga, hepática, combatente do enjoo,
afrodisíaca, psico- estimulante, desobstrutiva do fígado e do baço, artrítica,
anti dores menstruais, desintoxicante, etc.
O “chá” de losna (10 g que se deitam num litro de água a
ferver e se deixa repousar 15 minutos) é ideal para a falta de apetite,
digestões difíceis, flatulências, e bom funcionamento do fígado, sendo também
um tónico para o sistema nervoso e a fraqueza. Toma-se uma chávena três vezes
ao dia durante duas semanas. Se forem ultrapassados os 30 dias, a tisana pode
acarretar consequências nefastas porque a losna contém elementos tóxicos que se
tornam ainda mais venenosos com a habituação.
O “vinho” ou “tintura” prepara-se do seguinte modo: macera-se
40 g de ramos floridos de losna em 30 g de aguardente durante 5 dias. Junta-se,
a seguir, 1 centilitro de vinho branco seco e deixa-se em repouso durante mais
5 dias. Filtra-se a mistura e guarda-se o líquido numa garrafa bem rolhada.
Toma-se um cálice antes das principais refeições, para combater a falta de
apetite, ou depois das comidas, para ajudar a digestão.
Tanto num caso, como no noutro, jamais se deve juntar açúcar
pois, para além de ele nada adoçar, torna as bebidas insuportavelmente
enjoativas.
Refira-se ainda que o Dr. Lyon de Castro, no seu compêndio
“Medicina Vegetal”, acentua que o absinto é planta muito amarga e tóxica e que
preparações que levem absintina, só
por indicação médica devem ser seguidas.
Mas a maior fama do absinto vem-lhe de um licor narcótico fortemente
alcoólico, também chamado vermute (designação em língua alemã), usado e abusado
pelos artistas (poetas, pintores, filósofos …) nos fins do século XIX e
princípios do século XX. Diziam que tal bebida era a “fada verde” que
estimulava a criatividade mas que também poderia levar à loucura. Havia vários
rituais para preparar o absinto a que chamavam o “destilado esmeralda”, devido
à sua bonita cor. Todavia ele gerava alucinações e o seu fabrico e
comercialização acabaram por ser proibidos em vários países, pois danificava de
forma violenta a saúde de quem o ingeria. Há muita literatura sobre a
relevância histórica destas matérias ligadas a grandes vultos das artes que,
por economia de tempo e de espaço, não irei detalhar.
Finalmente, não poderia deixar de referir a mais-valia do
absinto ou losna para o modo de produção em agricultura biológica. Com ele se
prepara um chorume muito eficaz como inseticida para pulverizar as hortas e
assim eliminar piolhos, pulgões, gorgulhos e outros insetos nocivos. Plantado
nas proximidades de certas hortícolas (não todas) tem um efeito inibidor à
indesejável proliferação de plantas adventícias infestantes.