Mostrar mensagens com a etiqueta Ciclo Graffiti. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ciclo Graffiti. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Etnografar a Arte de Rua (XVII)


GRAFFITAR A LITERATURA

Graffiti na Avenida do Ultramar, velho Hospital de Cascais

                                                                                                                                              
Escombros do Hospital

Fotos de Luís Souta

«Nada que possa ser feito devagar deve ser feito à pressa.»
(Robert Louis Stevenson)

Este soberbo graffiti, o segundo de maiores dimensões do Muraliza 2015, decora uma das fachadas laterais do antigo Hospital (um espaço público ainda desactivado). O seu autor, o argentino Bosoletti, ofertou-nos a figura de uma mulher serena, a extravasar saúde e beleza; as plantas de cores quentes dissimulam a sua tentadora nudez. E, de imediato, veio-me à memória uma passagem do livro Stevenson sob as Palmeiras do também argentino (hoje cidadão canadiano) Alberto Manguel:
«Em Samoa a nudez das mulheres, que tanto incomodava os missionários, nunca era feia. À noite, quando a gente da aldeia descia à praia para se banhar e ficava a chapinhar nas ondas com as crianças, os cabelos negros, fartos e emaranhados das mulheres abriam-se como anémonas na água, e os hibiscos que elas usavam atrás das orelhas flutuavam em torno dos seus corpos, como ilhas ígneas. Stevenson adorava ficar a vê-las do molhe, contemplando-lhes a pele escura, brilhante e dura como pedra vulcânica.» (2003:14)

Nesta curta obra (71 p., Edições ASA), Manguel ficciona a estadia do escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894) em Samoa (onde viria a falecer). Apesar de saúde frágil desde a infância e que a tuberculose veio acentuar, Stevenson gostava «de ir» pelo mundo (França, EUA, Pacífico Sul). E foi entre os samoanos, tendo por companhia a mãe, a sua mulher americana e os seus enteados, que viveu um tempo calmo, aprazível, pleno de histórias. 
«– Os nativos gostam de histórias. Eles são a sua própria história, entende? Eles escutam as minhas às vezes. Chamam-me ‘Tusitala’, o contador de histórias. (…) Nesta parte do mundo, as histórias que se contam incorporam-se na realidade.» (p. 28)

O ensaísta e escritor Alberto Manguel (1948), leitor compulsivo (quando adolescente, leu em voz alta para Jorge Luís Borges, e, em 1999, publicou Uma História da Leitura, Editorial Presença), viajante incansável (residiu em Israel, Toronto, França, Taiti), esteve em Portugal por diversas vezes. Dessas ocasiões, ficaram duas interessantíssimas entrevistas ao jornal Público-Ípsilon (02/07/10 e 20/12/13). Aí, responde à questão de ainda fazer sentido ler os clássicos na escola:
«Os grandes clássicos não foram escolhidos por ninguém; não há um comité que decide que Homero é importante. O que houve foram cem gerações de leitores que disseram que esse livro é importante. É isso que define o clássico, é a obra que não se esgota junto dos seus leitores.» 

Por isso, o célebre livro de aventuras Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, tem sido uma das obras recomendadas, e bem, para «leitura autónoma» no 7º ano. Mas será que a leram?

Luís Souta
Post Scriptum: Entre estas duas fotos medeiam três anos e meio e elas ilustram bem o sentido transitório da Street Art enquanto «arte do efémero». O velho Hospital de Cascais está totalmente demolido (ainda chegou a ser anunciado que uma universidade privada iria reconfigurá-lo para o ensino, num curso de medicina). E neste desenfreado deita abaixo, nem o mural do argentino Bosoletti foi poupado!

Este é um espaço apetecível pela especulação imobiliária devido à sua centralidade e enorme área (ocupa quase uma quarteirão).

A insensibilidade dos ‘empreendedores’ da construção e a apatia da sociedade civil explicam esta incapacidade em consolidar este graffiti (do Muraliza 2015) como ‘património’ local. Ficámos todos a perder!

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XXV) Graffitar a Literatura





Graffitis fotografados por Luís Souta, 2017.
Alcácer do Sal, Rua Comandante João Bico (antiga EN5)


«Empiricamente, o povo português é um povo trabalhador e foi durante séculos um povo literalmente morto de trabalho. Mas a classe historicamente privilegiada é herdeira de uma tradição guerreira de não trabalho e parasitária dessa atroz e maciça ‘morte de trabalho’ dos outros.»
(Eduardo Lourenço, O labirinto da saudade, 1988: 130)


A arte de rua, enquanto processo de requalificação urbana, chegou também à zona rural do distrito de Setúbal. Aqui damos conta de dois ‘quadros’ de um extenso mural pintado em Julho, em Alcácer do Sal (antiga EN5), pelo prestigiado Sérgio Odeith (natural da Damaia, 1976).
Este tema – as mondinas do arroz – remeteu-nos, de imediato, para Gaibéus, o primeiro romance de Alves Redol, publicado em 1939 (edição de autor, com capa do seu amigo Antero Ferreira e distribuído pela Livraria Portugália). Desta obra, que «viria a ser também o primeiro romance neo-realista português» (como o constata o escritor), o jornal Público, em Abril de 2014, fez uma edição fac-simile, integrada na sua colecção ‘Livros Proibidos’ (abre com o relatório do censor; cf. texto de Carina Infante do Carmo “Gaibéus: o censor gostou…”, Público, 09/04/14, p. 47). No artigo, a autora releva a «linha porosa entre a ficção e o documental» enquanto marca distintiva da obra. Afinal, traço identitário do processo de escrita de Alves Redol (1911-1969), realçado pelo próprio na longa ‘nota de abertura’, datada de Maio de 1965, aquando da reescrita do livro (desafio o leitor a uma análise comparativa destas duas versões literárias). Aí nos dá conta de duas histórias, a sua e a do livro Gaibéus. Redol refere uma das várias conversas que teve, na administração do jornal O Diabo, com um crítico literário da América do Sul, de seu nome Carlos: «Na sua voz quente e repousada, achou que sim, que a etnografia era importante [viria a publicar Glória. Uma aldeia do Ribatejo, em 1938], mas que eu deveria começar a escrever um romance.» Foi este o ‘empurrão’ que abalançou o escritor de Vila Franca de Xira à realização do seu primeiro romance; mas antes, fizera o obrigatório ‘trabalho de campo’: «eu aproveitara as férias de Setembro para viver com os ranchos [Do Alto Ribatejo e da Beira Baixa, eles descem às lezírias pelas mondas e ceifas. Gaibéus lhes chamam] do lavrador Henrique Honorato, nas suas lavras de arroz na casa Branca, junto ao Tejo, em Azambuja.»
Das comemorações do centenário do seu nascimento, destacamos o Colóquio Internacional que decorreu entre 7 e 10 de Novembro de 2012 – “Alves Redol e as Ciências Sociais. A literatura e o real, os processos e os agentes”. A Academia não só resgatava Redol de um certo esquecimento literário como lhe atribuía agora o papel de ‘fonte’ imprescindível de conhecimento para as diversas ciências sociais.
Alguns extractos do segundo capítulo «Arroz à foice» [uso aqui a edição de 1971, a dos Livros de Bolso Europa-América, nº 11, 177 p.]:
«Há mulheres que põem canos nas pernas para que o frio da água não lhes fira a carne.
O olhar dos homens ferra-se nelas, a inventar intimidades ou à espreita de algum descuido que lhes mostre as coxas.
Na boca das mulheres brincam sorrisos de troça; algumas fingem-se distraídas e dão-lhes o jeito.
Há gente que vem ainda a sair da poisada, a bocejar, em movimentos lentos de mândria. (pp. 27-8)
(…) À porta do aposento, a puxar à frente as pontas da jaqueta e a mirar o rancho, o patrão aparece com a empáfia de quem manobra tutela.
Logo os capatazes deitam mãos aos relógios e dão ordem para se ir à faina.
– Eh, gente!… São horas, vá de andar!
– Eh, cachopos!
E todos se erguem, de foices na mão, marchando em grupos pelo carril que leva ao arrozal. (p. 28)
(…) Os capatazes vêm à frente, de marmeleiros na mão, como guias do rebanho que levanta uma gaze de poeira no caminho. Deitam rabos de olhos para trás, se as gargalhadas estalam, “não vão aqueles dianhos fazer alguma coisa a despreceito que amofine o patrão”. (p. 29)
(…) A faina começa.
Partidos pelos rins, quebram-se em ângulo de cabeças pendidas como as panículas do arroz que se ouvem no marulhar brando da aragem da manhã.
Com a mão canha, os ceifeiros jungem as canas dos pés e lançam a foice com a direita, cortando-as à força, de pulso, sem pancada, não vão os bagos saltar.
Voltam-se para trás e depõem as espigas em gavelas, com movimentos bruscos, como se andassem de empreitada.
O terreno está fofo, empapado das águas, onde os pés descalços se atascam na lama e esfriam.
A cada corte, as nuvens de mosquitos elevam-se e envolvem os ceifeiros; pousam-lhes no rosto e nas mãos, penetram-lhes na boca aberta pelo arfar ou nas ventas.» (p. 30) 
Excerto do antepenúltimo capítulo «Malária» (doença que Redol conhecia bem os seus efeitos, também ele uma vítima, nos quatro anos em que trabalhara por terras de Angola):
«Nunca, como naquela colheita, as sezões derrubaram tantos alugados. Nenhum escapara ao seu frio, que tolhia os corpos, roubando-lhes alentos. Caíam uns pela manhã e outros depois do almoço. E mal podiam erguer-se, logo tomavam rumo à seara para ganhar algum quartel. Emagreciam, mas as pernas e os braços pesavam mais, como se cadeias de ferro os tolhessem.
Os capatazes falavam em quinino – cada roda custava um quartel de trabalho – e eles tinham vindo para guardar alguma coisa de comer para o Inverno.
Nessa altura, as receitas não faltavam: rabo de bacalhau em aguardente, aguardente com canela, chá de jaribão…
Melhoravam quase sempre.» (p. 134)
A total mecanização do processo produtivo do arroz varreu, por completo, os ranchos deste quadro social que Redol nos deu testemunho etno-literário em Gaibéus. Hoje, nos extensos e verdes arrozais do Ribatejo e de Alcácer só se vêm máquinas… e cegonhas. 

Luís Souta

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XXIV) Graffitar a Literatura



Graffiti fotografado por Luís Souta, 2014
Travessa da Ressurreição, 11, Cascais.

«Eu julgava que nos distinguíamos dos animais por uma razão mais elevada, 
mas, afinal, o que nós temos mais do que eles é imaginação.»
(Terra de Nod, Judith Navarro, 1961:172)

As fábulas, que ouvi quando miúdo, eram o reino da imaginação, apesar de começarem, invariavelmente, assim: ‘No tempo em que os animais falavam…’ Então, eram também os animais pensantes que me davam belas lições de vida. E foi essa linha que retomei no meu mais recente livro Bichos à Solta (Lisboa: Edições Vírgula - Chancela do Sítio do Livro, 77 p., Dezembro 2016). Pus golfinhos, baleias, rãs, cavalos, hamsters, esquilos, cães, gatos, flamingos, cegonhas a ‘escrever’… postais à minha filha mais nova.

E deste modo «regressamos a uma das mais poderosas e intemporais intuições da humanidade, a de que os animais falam e comunicam com os humanos. Os mitos, tradições e lendas das mais diversas culturas falam-nos de um tempo em que as diferentes espécies de seres comungavam e comunicavam entre si, não estando ainda separadas e fechadas pelas barreiras do medo, da agressão, da estranheza e da indiferença. Essas narrativas evocam uma harmonia original do mundo e da criação que não deixa de suscitar uma irresistível saudade, por mais que o que nos dizem pareça hoje estranho a muitos dos nossos contemporâneos, filhos de uma civilização que se afasta cada vez mais da natureza e do convívio com as vozes e os afectos dos seres não-humanos.» (Prefácio, p. 13)

Bichos à Solta é um livro juvenil (ou talvez não) que conta, num registo epistolar, 25 estórias (todas ilustradas por Lionor Dupic e Constança Souta) que «constituem uma profunda lição de educação ambiental», nas palavras de Paulo Borges (FL-UL) que assina o prefácio.

O corvo marinho de faces brancas (ou cormorão), deste graffiti do Muraliza 2014 que Third, o autor (Nuno Palhas, nascido em Vila Nova de Gaia, em 1979) associou à fundação do município de Cascais - 1364), não foi incluído neste meu nono livro. Na terceira parte da obra, andam por lá outras aves, como a mais alta da fauna portuguesa –  o narcísico flamingo:

«E é por essas zonas mais sossegadas e protegidas que muitas aves migratórias, como nós, os flamingos, descansam na longa viagem entre o norte da Europa, frio, e a África, a sul, quente. Por ali nos “reservamos”, sempre em grupo, naqueles sapais das antigas salinas, nos esteiros da Moita, ou até na baía do Seixal, de águas baixas e ricas de vida piscícola. Nesse período, não nos esforçamos em grandes voos. Antes nos miramos nas águas tranquilas enquanto vamos tratando da nossa plumagem de tons rosa. Somos um pouco narcísicos, confesso. Mas não descuramos as “refeições”: o nosso longo pescoço em Z, desaparece por entre as penas, quando mergulha, em movimento rápido, à procura de alimento.» (Flamingos, a elegância bizarra, p. 58)

e as cegonhas parteiras que a ciência escolar tratou de varrer do imaginário infantil, em nome de uma educação sexual positivista e precoce (?):

«Como reparaste, somos uma ave de grande porte, mas de movimentos lentos e tranquilos (nada que se compare com o nervosismo saltitante de pardais ou andorinhas). Estamos em sintonia com estas serenas planuras do Sul que nos acolhem. Adoramos viver na Comporta, a caminho das praias de Tróia, e nos férteis arrozais de Alcácer, nas margem do Sado, fontes do nosso bem estar. (…) Já te questionaste por que apreciamos os pontos altos para nidificar? Não é a mania das alturas ou o simples prazer de olhar o mundo de cima para baixo. Talvez seja para nos resguardarmos do Homem, não se pode confiar nele (…)» (Cegonhas-brancas do Sado, p. 60)

Bichos à Solta, disponível em http://www.sitiodolivro.pt/Bichos-a-Solta ou na Livraria Ferin (Baixa de Lisboa), é um bom presente para filhos, netos e todos os adultos que se preocupam com a defesa do Ambiente e dos Animais.

Luís Souta

PS: A todos os leitores do Estudo Geral, desejo um novo ano com boas leituras e empenhamento (crítico) na causa Ecológica.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XXIII)


Graffitar a Literatura





Graffiters fotografados por Luís Souta, 2016
Bairro da Torre, Cascais


«É preciso fazer todo o esforço pela acção artística.»
(Amadeo de Souza-Cardoso)

O Muraliza, na sua 3ª edição - 2016, centrou-se, exclusivamente, no bairro social da Torre (Cascais). Tal como vem sucedendo noutros locais de Portugal e do estrangeiro, as autoridades municipais começam a investir na street art como forma de abertura desses espaços urbanos que o tempo (ou uma génese atamancada) guetizou socialmente. Seis murais de grandes dimensões, nas fachadas laterais dos prédios, foram pintados, entre 27 de Junho e 5 de Julho, por uma espanhola (Paula Bonet), um italiano (Moneyless), e quatro portugueses (Daniel Eme, Kruella D’Enfer, Mar e Add Fuel).

As fotos que encimam este texto foram obtidas numa das minhas visitas ao bairro, em fase ainda inicial dos trabalhos, numa tarde de sol intenso (29/06), com os artistas (alcandorados) em plena actividade criativa.

Mário Cláudio ganhou em 1984 o Grande Prémio do Romance e Novela com Amadeo (viria a bisar o prémio em 2014 com Retrato de Rapaz), uma biografia sobre o pintor minhoto Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918). Este ano (de 20 de Abril a 18 de Julho) organizou-se uma importante retrospectiva no Grand Palais, em Paris que reuniu mais de 200 obras suas (pintura, desenho, colagem e fotografia).

Helena de Freitas, comissária dessa exposição, afirma sobre o artista de Manhufe: «A diversidade, que chega a ser comovedora, é uma das suas maiores marcas […] artista que sabe estar no centro das rupturas do seu tempo, recusando escolas e etiquetas. […] Cubismo, futurismo, modernismo, expressionismo – nada disto e um pouco de tudo isto» (Ípsilon, 15/04/16, pp. 28-9).
«O obstáculo maior, nessas academias congestionadas de jovens que se buscavam, comprimindo os lábios na determinação do risco mais rigoroso ou distendendo-os na confecção do mais vibrante dos tons, estava em adaptar o próprio rumo aos que já vinham ministrados ou sugeridos. Assim no estúdio da catalão Anglada Camarasa, a que Amadeo vai desaguar, com um corpo discente que se garante um estatuto pelo uso de uma boina quatrocentesca de veludo antracite, tombada sobre a orelha. […] Camarasa vinha passear de cavalete em cavalete, aqui apontando um empaste abusado, sinalizando além uma torpeza de desenho. E a tarde de Montparnasse ingressava pelos grandes vidros quadrangulares, asfixiando as telas numa cinza dispersa e fininha, como se a pintura equivalesse ao absoluto da impossibilidade.» (p. 46-7)

Mário Cláudio, pseudónimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nascido no Porto, em 1941, é um romancista-biógrafo – Amadeo (1984), Guilhermina (1986), Rosa (1988), O Fotógrafo e a Rapariga (2015),… – e, numa entrevista ao Ípsilon (16/10/15, pp. 4-8), justifica essa simbiose: «Alguém disse que um ficcionista a partir de dado momento só devia ler biografias, e eu concordo. As histórias estão todas inventadas, e uma biografia é tão inventada como um livro de memórias ou uma autobiografia.»
A 3ª edição de Amadeo (a que possuo, da IN-CM, 1986) inclui documentos vários (fotos, reproduções de pinturas e desenhos, cartas); numa dessas missivas, datada de 1908, escreve a sua mãe:
«Hoje também recebi uma carta do tio Chico; espero-o ansiosamente, como se espera um companheiro raro com quem se reparte a nossa vida d’arte. Sim, porque a arte é a única forma de vida superior, só para certos espíritos, inacessível à burguesia.» e esclarece sobre essa burguesia «É a geral sociedade, essa que vive animalmente, isto é, aquela em que os sentimentos animais é tudo e os espirituais nada. É uma sociedade de alma animal.» (p. 58)

A exposição de 2016, no Grand Palais, foi um acontecimento muito in com a elite política nacional [leia-se a tal burguesia] a ‘colar-se’ ao evento (o 10 de Junho, desta vez, também ‘emigrara’, pleno de afectos, para França, prolongando-se na festa do nosso contentamento – o Campeonato Europeu da ‘arte’ do chuto na bola); por lá passaram o Primeiro Ministro e o Presidente da República com as suas respectivas ‘cortes’, e até o ex-Presidente, avesso à cultura. A imprensa não nos informou se o ultra premiado Mário Cláudio, actual presidente da Mesa da Assembleia Geral da APE, esteve entre os muitos convivas oficiais…


Luís Souta

quinta-feira, 23 de junho de 2016

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XXII)


Graffitar a Literatura

Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015
Rua Nova da Alfarrobeira, Cascais

«a criança é a nossa eternidade»
(Robert Debré, pediatra fundador da UNICEF»

Junho é, entre nós, o mês da Criança. Inicia-se com a celebração mundial do seu dia. Ao contrário dos feriados, o 1 de Junho comemora-se profusamente quer nos espaços educativos quer nas ruas, parques, jardins… Um pouco por todo o lado, é um dia repleto de eventos. De risos e alegria a rodos. É também o tempo das primeiras idas à praia (na Ponte 25 de Abril, cruzo-me com as filas de autocarros que, nesses dias pela manhã, as levam à Caparica). Em Junho acabam as aulas e começam as férias (já não tão ‘grandes’ como noutros tempos mas, mesmo assim, tão ou mais desejadas). Ainda sem exames ou provas de aferição que lhes toldem o gozo do sol e dos banhos nos primórdios de Verão, as crianças dos jardins-de-infância são o exemplo da jovialidade despreocupada e contagiante. Bem visível neste graffiti que o português NoMen pintou no Muraliza 2014 (decorreu entre 4 e 10 de Junho). Esta menina, na frescura do gesto e do olhar, traz-nos à lembrança a frase lapidar de Fernando Pessoa no poema ‘Liberdade’: «Mas o melhor do mundo são as crianças». Por isso, nunca perdemos a esperança no futuro.

São escassos os textos de escritores portugueses sobre vivências no pré-escolar. Compreende-se: raros o frequentaram. Só mais recentemente essa rede se alargou para lá do nicho dos estabelecimentos  privados deixando, finalmente, de ser um privilégio de elites. Uma das excepções é Maria Ondina Braga (1932-2003) que estudou em Paris (Alliance Française) e em Londres (Royal Asiatic Society of Arts) para depois leccionar inglês e português no ensino secundário, em Angola, Goa, Macau, Lisboa e Pequim; o seu espólio encontra-se no Museu Nogueira da Silva, em Braga (cidade onde nasceu e morreu); à autora de Estátua de Sal parece ajustar-se bem o pensamento do irlandês George Moore: «O Homem percorre o mundo inteiro em busca daquilo de que precisa e volta a casa para encontrá-lo.» Ondina Braga, no seu livro Vidas Vencidas (Caminho, 1998) que obteria o Grande Prémio de Literatura ITF de 2000, descreve-nos (na crónica Rua de São Vicente) um episódio ocorrido na infantil de um colégio por ela frequentado:

«Escolas sempre foram para mim lugares onde nunca me senti muito à vontade. Falo não nos estudos nem na disciplina. Estudiosa era, e bem-comportada. Ainda hoje. Decerto até de mais. Falo então de quê, minha mãe? Da incomodidade das escolas. A começar pela Educação Física: o jogo da bola, corridas, competições. E eu frágil. Eu, o meu desajeitamento.
Não obstante, com menos de quatro anos de idade estava num coleginho na Avenida ao pé de casa. Na infantil, naturalmente. Meninas e meninos de bibe de riscado que uma mocita chamada Olinda entretinha no quintal com rodas de mãos-dadas, o esconde-esconde, o dom-barqueiro. E, se chovia, no pátio de pedra a passar o anelzinho ou às cinco saquinhas cheias de areia, cheias de arroz. (…)
As professoras e as crianças da infantil, os amores ali das internas. E elas os nossos. No intervalo das aulas, das leituras, dos lavores, ei-las que desciam para nos visitarem e nos requestarem com rebuçados. Intervalos que, aliás, nós adivinhávamos, olhos pregados no patamar de cima, lábios entreabertos.» (pp. 59, 60)

Desde então, o país mudou (e muito). As crianças mudaram (e de que maneira). E a escola mudou? Registaram-se mudanças nos edifícios, nos equipamentos, nos materiais pedagógicos, na formação de educadoras e auxiliares… Mas, no essencial, ela continua idiossincrática, fiel à sua matriz fundadora, ou seja, conservadora; em especial, nos processos de ensino.

Luís Souta

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Etnografar a Arte de Rua (XXI)


GRAFFITAR A LITERATURA


Graffitis fotografados por Luís Souta, 2016
Largo Rodrigues de Lima, nº 2, Cascais.


«a beleza da ruína é a própria ruína»
(Ruben A., Páginas V, 1967)


«Já foi uma casa. Portuguesa, de certeza», palavras do graffiter Add Fuel (o cascalense Diogo Machado, 1980) numa intervenção no Muraliza 2014: uma casa em ruínas, já sem telhado; a vegetação apossou-se dela e verte na parede traseira, no Beco dos Inválidos. O artista reanimou-a, prolongou-lhe a vida, com uma decoração que faz lembrar azulejos, de simetria geométrica, a azul e branco (no Muraliza de 2015, Add Fuel viria a ‘reproduzir’ elementos decorativos análogos em quatro caixas cinzentas de electricidade, esses monos urbanos com que a EDP desfeia vilas e cidades).

Casa, lugar antropológico por excelência, isto é, um lugar com história, relacional e identitário (segundo critérios de Marc Augé, 1992). Vitorino Nemésio, num outro registo, diz «A minha casa é concha» (poema “A concha”). Casa, local de segurança, de aconchego, de intimidade; onde nos sentimos bem.

A frase que Add Fuel inscreveu na parede principal desta decrépita casa associamo-la, inevitavelmente, à canção de Amália Rodrigues “Uma Casa Portuguesa” (letra de Reinaldo Ferreira, música de Vasco M. Sequeira e Artur Fonseca; original editado pela Columbia/Valentim de Carvalho, em 1953). Um poema que espelhava bem a ideologia da época, a do Portugal ‘pobrete mas alegrete’ que Salazar preconizava. Esses versos chave – «quando à porta humildemente bate alguém, (…) a alegria da pobreza, (…) no conforto pobrezinho do meu lar, (…) uma existência singela… é só amor, pão e vinho… e um caldo verde, verdinho» – pretendem dar-nos a ideia de uma ‘tipicidade’ lusitana. Nada mais falso.

Podemos contrapor-lhe uma outra variante: A Casa da Malta, novela do ciclo rural de Fernando Namora (1919-1989), escrita, em 8 dias, no ano de 1945. Numa das edições, chegou a ser ilustrada pelo neo-realista Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), que viria a morrer de fome! (por não ter batido «à porta humildemente» de alguém?). Infelizmente, não disponho dessa edição mas de uma outra, revista e prefaciada pelo autor, comemorativa dos seus 50 anos de vida literária, com fotografia de Adelino Lyon de Castro na capa (Publicações Europa-América, livros de bolso, nº 500). O médico e escritor prolífico (hoje bastante esquecido), viria a dar o nome ao Prémio literário que a Sociedade Estoril Sol atribuí desde 1989.

«Estavam agora no largo do saguão da malta, casa de todo o ambulante, quando um homem aciganado os olhou um por um e fez alto com a sua mão morena. O Alves parou contrafeito e o cigano disse que dentro do casarão tinha a mulher a parir. Que lhe ensinassem uma entendida do sítio. (…)
– Agora não é hora de estarem aqui fedelhos.
O cigano acudiu a empurrar o ganapo para a rua.
– Vai à praça pedir fruta.
«Pedir ou roubar», pensou o velho.
O garoto, amuado, rosnando vinganças, repuxou as calças e saiu quando a mãe gritava como se tivesse o Diabo no corpo:
– Ai, que eu estoiro!
Ele sabia que as mulheres berravam para ter a canalha. Vira uma, certa vez, num pinhal, a rebolar-se no chão, mas essa lembrança esfumava-se no tempo. Agora era um homem e precisava de saber ao certo como um ganapo saía de uma barriga inchada. O velho enxotara-o, mas ele iria espreitar pelas frinchas do portão. (…)
A rapariga saltou ao portão a face linda de rubor:
– Nasceu um menino! Que pretinho que ele é!
Os homens descolaram do muro, e esquecendo o cigarro apagado, emocionados.
Ela convidou-os a entrar. A cigana estava pálida, quieta, meio adormecida; tinha os braços caídos e gastos ao longo da manta. Os homens não sabiam palavras para dizer. A criança pertencia um pouco a todos eles. (pp. 51, 69-70, 98)

Um tempo em que se nascia em casa, com a ajuda de uma parteira (mais do que uma ‘curiosa’, era alguém com um ‘saber de experiência feito’). E era esse (arriscado) nascer em casa que a marcava, para sempre, como um espaço único de memórias. Nos dias da «sobremodernidade», vem-se ao mundo num «não-lugar», uma qualquer maternidade hospitalar de riscos controlados por profissionais diplomados, mas que nem por isso deixa de ser um sítio de passagem, onde todos se sentem ‘em trânsito’ e querendo regressar depressa a casa.

Luís Souta

quarta-feira, 23 de março de 2016

Etnografar a Arte de Rua (XIX)


Graffitar a Literatura


Graffitis fotografados por Luís Souta, 2015.
Cascais, Rua Afonso Sanches, nº 60 / Travessa Visconde da Luz

«Sorte e vidro estilhaçam-se depressa.»

O setubalense João Samina é o autor desta obra, a de maior impacto gráfico de algumas que nos legou no Muraliza 2015. Numa bonita e sóbria vivenda de 3 pisos, infelizmente, a degradar-se, Samina, usando a técnica do stencil, fez um graffiti que se desdobra entre a fachada (na Rua Afonso Sanches), metade de um rosto humano, a preto e branco, e a parede lateral (na Travessa Visconde da Luz), aí recorrendo a um cubismo cromático, em torno da janela do 2º andar, com o predominância do vermelho, preto e cinzento.

Vejo neste homem barbudo, de rugas bem vincadas e olhar grave, um pescador marcado pelo mar e pelas agruras da vida. Quando o vi, logo o associei a algumas personagens literárias de John Steinbeck (1902-1968). Para esse escritor americano, premiado com o Pulitzer (1940) e o Nobel da Literatura (1962), «os tópicos que escolheu eram sérios e denunciadores». A prová-lo, aí estão as suas grandes obras: A um Deus Desconhecido (1933), As Vinhas da Ira (1939), A Leste do Paraíso (1952). O jornal Público, na sua colecção de 12 livros “Quem Vê Capas Vê Corações”, editará, no próximo sábado (a um preço acessível, 5,95€), Noite sem Lua (1942), com capa do artista Querulin e 19 ilustrações de Costa Pinheiro.

Mas o rosto que o graffiter Samina pintou conduziu-me a outra obra de Steinbeck, escrita em 1947, A Pérola (Livros do Brasil/ colecção Dois Mundos, nº 228, 1996) um pequeno livro (162 páginas repartidas por 6 capítulos) adaptado, nesse mesmo ano, ao cinema pelo realizador Emílio Fernández. A história, baseada num conto popular mexicano, centra-se numa pobre comunidade piscatória:
«Enquanto caminhavam, os dois irmãos apertavam os olhos, como eles e os seus avós e os seus bisavós tinham feito durante quatrocentos anos, desde que os estrangeiros tinham chegado com as suas razões e a sua autoridade e pólvora a apoiá-las. E, durante esses quatrocentos anos, o povo de Kino só tinha aprendido uma defesa – um leve aperto dos olhos e um leve comprimir dos lábios, um fechar-se dentro de si próprios. Nada podia quebrar essa muralha, e eles encerravam-se incólumes dentro dela.» (p. 80)

Kino, o pescador, personagem central da história, ao apanhar uma enorme pérola parecia ter encontrado a solução para os vários problemas da sua família (Juana, a mulher, e Coyotito, o filho):
«Kino olhou para os vizinhos, orgulhosamente:
– O meu filho há-de ir à escola (…) há-de ler e abrir os livros, e o meu filho há-de escrever e conhecer a escrita. E o meu filho há-de fazer números, e essas coisas hão-de libertar-nos, porque ele há-de saber, há-de saber e nós havemos de saber através dele. (…)
– É isso que a pérola há-de fazer – disse Kino.» (p. 47)

Mas, ao contrário do expectável, a pérola só trouxe agravos e dissabores. E Kino acabou por a devolver às águas do mar. Esta parábola (assim a categoriza Steinbeck logo na abertura) contem uma moral: “o dinheiro não traz felicidade” (para manter o status quo, ricos e poderosos sempre a cultivaram). Hoje, na nossa sociedade, a “pérola” procura-se no quiosque do bairro: de forma obstinada, os portugueses tentam a sorte na “raspadinha” ou no “euromilhões”. Todos aprendemos que pelo trabalho não se enriquece. E essa crença faz de nós inveterados jogadores.

Luís Souta

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XVIII) Graffitar a Literatura


Graffitis fotografados por Luís Souta, 2015.
Cascais, Travessa do Visconde da Luz


«O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia»
(Ruy Belo, “Morte ao meio-dia” in Todos os Poemas, 2000: 364)

Estes graffitis pintados, em duas paredes contíguas, por Youth, no âmbito do Muraliza 2014, constituem uma homenagem gráfica à vila piscatória de Cascais. Raul Brandão refere-a no livro quase centenário (1923) Os Pescadores, no capítulo “Lisboa, Setúbal, Sesimbra e Caparica” (pp. 173-189). A edição dos Estúdios Cor (1973, 227 p.) abre com o “auto-retrato” do autor:
«Este tipo esgalgado e seco,
já ruço,
que dorme nas eiras
ou sonha acordado pelos caminhos
sou eu.
e falo alto sozinho,
envolto na nuvem
que me envolve e impregna.
Que força me guia
e impele até à morte?»

Eugénio de Andrade complementa, na sua deslumbrante prosa poética, este retrato no capítulo que lhe dedica – “Quase uma glosa” – em Afluentes do silêncio (Porto: Ed. Inova, 3ª edição, Abril de 1974, pp. 125-129):
«Os olhos tinha-os azuis, de uma azul que nunca destingiu. Uns olhos que consumiu a sonhar. Sonhava impenitentemente porque, à sua roda, tudo morria à míngua de autenticidade. Isto lhe doía. Isto lhe doía mais do que a pobreza dos pescadores (…) De Raul Brandão (…) se poderia dizer (…) gastou-se a sonhar. Alguns dos seus sonhos são ainda os nossos – eis porque está tão vivo no nosso coração.»

Exemplo desta actualidade, foi-nos dado pelo realizador Manoel de Oliveira quando estreou, no Festival de Veneza de 2012, o filme O Gebo e a Sombra, baseado na obra homónima de Raul Brandão (1923).

Os Pescadores, dedicado por Raul Brandão (1867-1930) «à memória de meu avô, morto no mar», é um percurso, ao longo da costa portuguesa, iniciado no local onde nasceu (Foz do Douro), em Abril de 1920, e concluído em Sagres, em Agosto de 1922. Brandão percorre as nossas múltiplas comunidades piscatórias descrevendo, com pormenor e detalhe, os seus diferentes tipos de barcos, de redes, de artes de pesca e, com «um certo exagero emocional tão seu característico», a vida daquela gente pobre e sofrida.

«Este homem é de instinto comunista. Se um adoece, os outros ganham-lhe o pão: recebe o seu quinhão inteiro. Se morre, sustentam-lhe a viúva e os filhos, entregando-lhe o ganho que ele tinha em vida. Dão ao hospital e ao asilo uma parte do pescado. Toda a gente tem direito a ir ao mar – toda a gente tem direito à vida. Vai quem aparece, desde que seja marítimo. Acontece que o barco leva hoje quarenta homens e leva vinte amanhã… O produto das artes é dividido em quinhões iguais pela companha. A pesca do anzol é uma espécie de cooperativa e a barca quase dos pescadores. (p. 181)

Raul Brandão deu-nos conta de uma outra viagem marítima, desta vez pelos arquipélagos da Madeira e dos Açores (na companhia, entre outros, de Vitorino Nemésio), que decorreu entre 8 de Junho e «a noite de 29 de Agosto [de 1924] passo-a no tombadilho, sempre à espera numa sofreguidão de luz – e toda a noite é de trágica tempestade. No convés, só vejo negrume agitando-se num clamor. Mas de manhã a borrasca aplaca-se dentro da bacia de Cascais»

Quando este livro – As Ilhas Desconhecidas. Notas e paisagens (1926) – foi reeditado pela Quetzal (2011, 205 p.), Gustavo Rubim, numa curta e interessante recensão (“Antropologia impura”, Público-Ípsilon, 29/04/11, p. 50), destacou esta vertente antropológica de Raul Brandão:
«Trata-se, admito, duma modalidade impura de antropologia, muito embora Brandão não se esqueça de observar tudo o que um bom etnógrafo deve observar: economia, religião, ritos funerários, modos de habitação, vida familiar, relação com  o ambiente, linguagem, etc. Não admira: a antropologia foi sempre impura ou, por outras palavras, foi sempre (continua a ser) literária.»

Luís Souta

Nota do Editor: Para ampliar as fotografias basta clicar em cima.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XVI) Graffitar a Literatura



Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015.
Rua das Flores, nº 5, Cascais


«Eu não sei tudo o que aí possa vir, mas, seja o que for, irei ao seu encontro a rir.
Não há desatino de besta na Terra que não seja infinitamente ultrapassado
pela loucura do Homem»
(Moby Dick, Herman Melville, 1851)

Mais uma porta renovada em Cascais; mais um trabalho do graffiter Belém que, desta vez, nos recorda o escritor norte-americano Herman Melville (1819-1891) e o seu livro mais conhecido Moby Dick (1851). E, de novo, volta-se a falar deles a propósito da mais recente adaptação cinematográfica No Coração do Mar, de Ron Howard, com estreia, em Portugal, a 10 de Dezembro. A história conta as aventuras do experiente marinheiro Ismael que embarca no Essex, comandado (mal) por Ahab e que, no Pacífico, trava uma obsessiva perseguição à “besta” (uma gigantesca baleia branca), responsável, anos antes, pela perda de uma perna do capitão. O cetáceo, ainda que ferido, acaba por afundar o navio. Esse tipo de luta levou praticamente à extinção das baleias. A irracionalidade humana parece desmesurada quando a ambição, o lucro ou a vingança pautam os actos dos homens. Também os portugueses, em particular os açorianos, andaram envolvidos em semelhantes aventuras até 1985. Desses tempos, resta-nos alguma toponímia e um bonito museu na ilha do Pico. Mas quando pensávamos que se tinha fechado esse ciclo, eis que os japoneses anunciam a retoma da caça às baleias… “para fins científicos” !?

A experiência marítima de Herman Melville, inclusive como baleeiro, levou-o até aos Mares do Sul. Daí resultou a sua primeira obra Taipi (1846). Difícil de catalogar, em termos de género, pois balança entre o romance, a literatura de viagens e a etnografia (dos Kanaka, Ilhas Marquesas). Curiosamente, foi a componente antropológica do livro que dificultou a sua publicação: rejeitada pela nova iorquina Harper & Brothers, acabou editado em Inglaterra, mas, para isso, Melville teve que lhe acrescentar alguns capítulos (em especial a “história de Toby”, seu companheiro de aventura naquelas longínquas terras) para mostrar a veracidade dos seus relatos.

Há uma edição portuguesa (Teorema / colecção “outras estórias”, 2001, com 33 capítulos, repartidos por 291 páginas). Na altura, Filomena Naves, numa breve recensão no Diário de Notícias, 10/11/01, p. 35, escreveu: «este livro ousa a originalidade de uma lição de antropologia e de humanismo, revelada a uma sociedade europeia novecentista, cheia de si própria». O texto de Melville está repleto desses contrapontos culturais: «Ali está um bando de crianças brincando juntas o dia inteiro, sem zangas, sem conflitos entre si. O mesmo número delas na nossa terra não poderiam brincar juntas nem uma hora sem se morderem ou arranharem umas às outras. Acolá, pode-se ver um grupo de raparigas, que não andam cheias de inveja pelos mútuos encantos, nem demonstram a ridícula afectação da gente fina, nem andam de corpetes de barbas artificiais, como autómatos, antes se movem livremente, sem alegria artificiais, sem constrangimento.» (p. 143) Enfim, uma cultura apolínea, usando o conceito de Nietzsche adoptado por Ruth Benedict em Padrões de Cultura, 1934. Ali «tudo é riso, gozo e excelente humor.»

PS: Num mês em que se noticiou a morte trágica de três graffiters colhidos pelo inter-regional na Linha de Guimarães (apeadeiro de Águas Santas) importa (re)ler o texto pioneiro, em Portugal, sobre a prática artística destes jovens: Filomena Marques, Rosa Almeida, Pedro Antunes “Traços falantes (A cultura dos jovens graffiters)” in José Machado Pais (coord) (1999) Traços e Riscos – uma abordagem qualitativa a modos de vida juvenis. Porto: Ambar. Arriscar, ousar, afoitar-se, correr perigos são comportamentos indissociáveis de uma certa juventude de “artistas de rua”. Também aqui, o Muraliza - Festival de Arte Mural, procura a diferença: a criatividade através do graffiti expressa-se de forma legal e segura.

Luís Souta

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Etnografar a Arte de Rua (XV) Graffitar a Literatura



Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015.
Alameda dos Combatentes da Grande Guerra, nº 113Cascais


«O viajante reconhece o pouco que é seu,
descobrindo o muito que não teve e o que nunca terá»
(Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, 1972: 29)


Mais uma porta do crew Altura, pintada no Muraliza 2015. Mais uma criação artística que nos recorda um lendário viajante – Marco Pólo (1254-1324), um livro encantador – As Cidades Invisíveis (1972) e um grande intelectual – Italo Calvino (1923-1985).

As Cidades Invisíveis, que recebeu o prestigiado Prémio Felrinelli, assenta num longo diálogo imaginário entre o veneziano Marco Pólo e o imperador mongol Kublai Khan, neto de Gengis Khan. Italo Calvino num outro livro (obra póstuma de 1992, organizada por sua mulher Esther, que redigiu também o texto introdutório), Seis propostas para o próximo milénio (Lições americanas), no 3º capítulo (Exactidão, pp. 89-91), fala-nos deles (o livro e a natureza dúplice desses diálogos): «o livro em que creio que disse mais coisas continua a ser As Cidades Invisíveis, porque consegui concentrar num único símbolo todas as minhas reflexões, experiências e conjecturas; e também porque construí uma estrutura multifacetada em que cada texto curto está próximo dos outros numa sucessão que não implica uma consequencialidade ou uma hierarquia, mas sim uma rede dentro da qual se poderão traçar múltiplos percursos e extrair conclusões plurais e ramificadas.»

Italo é «mais um escritor de short stories do que de romances» (como o reconhece em Lições americanas, p. 165). Também por isso o adoro ler. Textos curtos de uma síntese densa, a «escrita breve» que, no deleite da leitura, nos desinquieta, nos obriga a pensar… e a agir.

Italo Calvino, um dos maiores escritores italianos, nascido e casado em Cuba, conviveu de perto com outros vultos do século XX: Cesare Pavese, Elio Vittorini, Roland Barthes, Claude Lévi-Strauss, Jorge Luís Borges, Che Guevara… Com eles partilhou o amor à literatura, as cumplicidades do neo-realismo, a indomável vontade de resistência aos totalitarismos. Italo «o escritor dos destinos cruzados» (título de um trabalho jornalístico de Fernanda Pratas, para a revista Xis - Público, secção “Mulheres e Homens”, pp. 42-5) confessa: «Tendo vivido em tempos de ditadura, e tendo sido apanhado por uma guerra total (…) ainda tenho a noção de que viver em paz e liberdade é um tipo de felicidade muito frágil, que me pode ser roubado a qualquer momento.»

Não será igualmente assim que nos sentimos, nestes dias conturbados pela violência terrorista internacional do Daesh?

Luís Souta

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Etnografar a Arte de Rua (XIV) Graffitar a Literatura



Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015.
Estrada da Boca do Inferno (entre o CCC e o MCCG), Cascais


«Dói-me a vida aos poucos.»
(carta a Mário de Sá Carneiro, 1915)

De Fernando Pessoa temos obra vasta e não definitiva pois daquele “baú sem fundo” não cessam de ser resgatadas pérolas literárias; nelas, uns perdem-se em leituras de descodificação árdua, outros sacam citações que repetem até à exaustão – «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce» «falta cumprir-se Portugal!»…

Foi uma [P]essoa peculiar, enigmática, complexa, «a cada página mudando de atitude, de ideologia, de poética, de biografia» (Fernando Cabral Martins, 2006). No Senhor Henri (2003), escreveu Gonçalo M. Tavares: «se um homem misturar absinto com a realidade fica com a realidade melhor…» Talvez fosse isso o que o poeta procurava naquele tempo de frequentes paragens no Martinho da Arcada: o álcool alimentava uma escrita criativa e torrencial que desenvolvia (e com que profundidade!) ideias sobre a vida, as gentes e o país. Afogou-se (cedo) no absinto… para mal dele e de todos nós.

A sua figura, nas escassas fotos que nos deixou, foi recriada por outros artistas. Um deles, o pintor Costa Pinheiro (1932-2015), falecido no passado dia 9 de Outubro, em Munique, dedicou-lhe uma série, iniciada em 1976. Tive a grata oportunidade de ver alguns desses quadros na exposição “Pessoa… intemporal” que esteve patente na Galeria de Arte Convento Espírito Santo, em Loulé, de 22 Novembro a 27 de Dezembro 2008. Este pintor que também optou pela emigração (muitos anos na Alemanha) merece uma homenagem nacional: uma grande exposição na qual teremos seguramente a oportunidade de revisitar Fernando Pessoa que «ocupa uma posição relevante na obra do artista».

writting que vos trago este mês (dádiva do Muraliza à vila de Cascais) é mais uma das múltiplas representações iconográficas do poeta; desta vez, de costas, em posição mais surrealista que ortodoxa. Pode ser visto nas imediações do Museu Condes de Castro Guimarães. Depreende-se que Belém, o artista de rua, fez uma escolha criteriosa do local para o seu graff. Este Museu assinalou os 125 do nascimento de Fernando Pessoa (1888-1935), no âmbito da “Semana do Município 2013”, com a exposição “Gabinete Fernando Pessoa” em que recordava a candidatura do poeta ao cargo de «Conservador-bibliotecário», concurso publicitado em anúncio n’ O Século de 01/09/1932. Uns versos de “Os Colombos”, incluído no único livro em português publicado em vida do poeta – Mensagem (1934) –, pode sintetizar o então sucedido:

«Outros haverão de ter
O que houvemos de perder.» 

Essa foi, com certeza, uma das “dores” da vida (breve) do poeta. Foi preterido no lugar! E para a instituição municipal, tal agravo foi mancha que nunca se apagou, pelo contrário, acentuou-se à medida que crescia a popularidade e a unanimidade em torno do escritor ímpar. Não há forma de “reparar” tal ignomínia que, infelizmente, não foi caso único no campo literário português.

Luís Souta


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Etnografar a Arte de Rua (XIII) Graffitar a Literatura


Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015.
Alameda dos Combatentes da Grande Guerra, nº 117, Cascais


«Contento-me com pouco mas desejo muito.»
(Miguel de Cervantes)

Altura é o autor (colectivo) desta porta reconfigurada que o “Muraliza - Festival de Arte Mural, 2015” ofertou aos cascalenses e aos muitos que visitam esta animada vila, cada vez mais turística e menos piscatória. O graffiter presta homenagem à grande obra do castelhano Miguel de Cervantes Saavedra  (1547-1616) Dom Quixote de la Mancha (1605, 1615). Não há quem não conheça esta personagem. Bem menor é o número daqueles que leram este livro monumental (duas partes, 126 capítulos) que marcou o início do romance moderno. Uma nova e excelente edição (de capa dura) com a chancela das Publicações D. Quixote, a celebrar os seus 50 anos, acabou de sair em Portugal; com tradução de Miguel Serras Pereira, que nos faculta um exaustivo “Glossário e Notas”, e três textos introdutórios de Maria Fernanda de Abreu “Nos 400 anos do Quixote”; um total de 933 páginas por apenas 10€ !

O tempo não desgastou esta peculiar figura que Cervantes descreve deste jeito: «rasava os cinquenta anos. Era de compleição rija, seco de carnes, enxuto de rosto, grande madrugador e amigo da caça. (…) este sobredito fidalgo, nos passos em que estava ocioso – que eram os mais do ano –, era dado a ler livros de cavalaria, com tanto apego e gosto, que esqueceu quase por inteiro o exercício da caça e também a administração de sua fazenda; (…) e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro de maneira que acabou por perder o juízo.» (pp. 83, 84).

graffiti mostra-nos Dom Quixote montado no seu Rocinante, tendo, por trás, o moinho de vento alvo das suas alucinações guerreiras. O cavaleiro de la Mancha, que deu sentido ao ditado «quem muito lê, treslê», aparece-nos sem rosto. Altura não quis retratar o “medieval” cavaleiro porque, creio eu, muitos de nós, em algum momento das nossas vidas, acabámos por ter atitudes e comportamentos, classificados de “quixotescos”.

O mito de Dom Quixote tem resistido ao tempo. E alimentado comparações. As adaptações desta obra de Cervantes têm sido muitas, mais ao menos talhadas aos diversos contextos histórico-geográficos. Há uma que recordo com muito gosto. Trata-se da peça encenada por Joaquim Benite (1949-2012), a partir do texto, de 1733, de António José da Silva – A vida do grande Dom Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança. Este trabalho do Grupo de Teatro de Campolide (fundado em 1971) viria a ganhar o Prémio da Crítica para o melhor espectáculo de teatro amador. O texto de «o Judeu» e a encenação de Benite funcionaram como poderosas “armas” em dois períodos históricos – Inquisição e ditadura de Salazar-Caetano. Duas épocas com muito em comum. Dom Quixote, com a sua desmedida fantasia, e Sancho Pança, com o seu pragmatismo de pés bem assentes na terra, proporcionaram-me uma lufada de liberdade e esperança quando assisti a essa peça, em 1973, no GDP (Grupo Dramático Povoense), uma colectividade da, então operária, Póvoa de Santa Iria. E logo em Abril, do ano seguinte, começava uma nova cena… a democrática.


Luís Souta


sábado, 15 de agosto de 2015

Etnografar a Arte de Rua (XII) Graffitar a Literatura



Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015.
Largo da Lota, traseiras do mercado de Cascais


«As utopias são realizáveis.»
(Nicolas Berdiaeff, epígrafe do livro Admirável Mundo Novo)


A 2ª edição do “Muraliza - Festival de Arte Mural”, de Cascais, para além de 5 novos murais possibilitou a recuperação de 6 portas. Esta é uma delas, da autoria do português Belém. Um graffiti que nos reporta à afamada obra do inglês Aldous Huxley (1894-1963), Admirável Mundo Novo. Li este romance futurista (de 1931 que nos leva para uma época seiscentos anos à frente) numa tradução (documentada) do escritor e pintor surrealista Mário Henrique Leiria (1923-1980) que, na nota de abertura, reconhece a «complexa linguagem [shakespeariana] de Huxley». O autor deste graffiti optou pelo uso de extractos em inglês. Compreende-se. Numa vila virada para o turismo, o estrangeiro acaba por se tornar o destinatário privilegiado… também da arte de rua. E aqui até se pode argumentar com o recurso à fonte original.
Admirável Mundo Novo, apesar de ser uma obra de juventude e escrita em poucos meses, acabou por se tornar na mais marcante e conhecida de Huxley. Uma «sátira à sociedade industrializada» que reflecte os medos da biociência e da máquina colocadas ao serviço do autoritarismo de estado. Num prefácio à edição de 1946, Aldous Huxley escreveu: «Um estado totalitário verdadeiramente “eficiente” será aquele em que o todo-poderoso comité executivo dos chefes políticos e o seu exército de directores terá o controle de uma população de escravos que será inútil constranger, pois todos eles terão amor à sua servidão. Fazer que eles a amem, tal será a tarefa, atribuída nos estados totalitários de hoje aos ministérios da propaganda, aos redactores-chefes dos jornais e aos mestres-escolas.»
Lenina Crowe, Bernard Marx, Polly Trotsky são três personagens cujos nomes nos remetem para uma associação imediata a três personalidades históricas do marxismo-leninismo e da revolução soviética de 1917. O graffiti de Belém coloca Lenina (?) de canastra à cabeça e numa pequena embarcação, ambas pejadas de cápsulas, «o ‘soma’, a pílula da felicidade, a droga sedativa da civilização, a âncora a que todos se agarram quando querem esquecer os problemas» (como escreveu Raquel Ribeiro numa recensão no jornal Público). Huxley era um defensor do uso dos psicoativos (como o LSD) e redigiu, em 1954, um ensaio – The Doors of Perception – que exerceria certa influência sobre a cultura hippy e esteve, por exemplo, na origem do nome da banda The Doors, liderada por Jim Morisson.
Todas as obras de ficção (científica) antecipam de alguma forma o futuro. Mas essa previsão é sempre arriscada e falível, e como em todas as outras, também o Admirável Mundo Novo não conseguiu prever o que, no curto prazo (14 anos depois), haveria de mudar o rumo da guerra (e da vida): a cisão nuclear. Os efeitos nefastos das drogas só viriam a ser conhecidos, na sua profunda dimensão, bem mais tarde. O desejo, em particular dos jovens, de “quererem sentir algo de forte” acaba por os aprisionar na toxicodependência e disso se aproveita o poder do estado para anestesiar e alienar os verdadeiros “exércitos” capazes de o derrubar – a juventude. Ela é que mais questiona o status quo, social e político. Soubessem eles ter a coragem e ousadia do Selvagem, trazido do Novo México, de recusar esse (falso) admirável mundo novo…

Luís Souta