"Cheguei finalmente à vila da minha infância (...) Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu."

- Álvaro de Campos


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Etnografar a Arte de Rua (XV) Graffitar a Literatura



Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015.
Alameda dos Combatentes da Grande Guerra, nº 113Cascais


«O viajante reconhece o pouco que é seu,
descobrindo o muito que não teve e o que nunca terá»
(Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, 1972: 29)


Mais uma porta do crew Altura, pintada no Muraliza 2015. Mais uma criação artística que nos recorda um lendário viajante – Marco Pólo (1254-1324), um livro encantador – As Cidades Invisíveis (1972) e um grande intelectual – Italo Calvino (1923-1985).

As Cidades Invisíveis, que recebeu o prestigiado Prémio Felrinelli, assenta num longo diálogo imaginário entre o veneziano Marco Pólo e o imperador mongol Kublai Khan, neto de Gengis Khan. Italo Calvino num outro livro (obra póstuma de 1992, organizada por sua mulher Esther, que redigiu também o texto introdutório), Seis propostas para o próximo milénio (Lições americanas), no 3º capítulo (Exactidão, pp. 89-91), fala-nos deles (o livro e a natureza dúplice desses diálogos): «o livro em que creio que disse mais coisas continua a ser As Cidades Invisíveis, porque consegui concentrar num único símbolo todas as minhas reflexões, experiências e conjecturas; e também porque construí uma estrutura multifacetada em que cada texto curto está próximo dos outros numa sucessão que não implica uma consequencialidade ou uma hierarquia, mas sim uma rede dentro da qual se poderão traçar múltiplos percursos e extrair conclusões plurais e ramificadas.»

Italo é «mais um escritor de short stories do que de romances» (como o reconhece em Lições americanas, p. 165). Também por isso o adoro ler. Textos curtos de uma síntese densa, a «escrita breve» que, no deleite da leitura, nos desinquieta, nos obriga a pensar… e a agir.

Italo Calvino, um dos maiores escritores italianos, nascido e casado em Cuba, conviveu de perto com outros vultos do século XX: Cesare Pavese, Elio Vittorini, Roland Barthes, Claude Lévi-Strauss, Jorge Luís Borges, Che Guevara… Com eles partilhou o amor à literatura, as cumplicidades do neo-realismo, a indomável vontade de resistência aos totalitarismos. Italo «o escritor dos destinos cruzados» (título de um trabalho jornalístico de Fernanda Pratas, para a revista Xis - Público, secção “Mulheres e Homens”, pp. 42-5) confessa: «Tendo vivido em tempos de ditadura, e tendo sido apanhado por uma guerra total (…) ainda tenho a noção de que viver em paz e liberdade é um tipo de felicidade muito frágil, que me pode ser roubado a qualquer momento.»

Não será igualmente assim que nos sentimos, nestes dias conturbados pela violência terrorista internacional do Daesh?

Luís Souta

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