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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

FRESCOS



A literatura é avessa às generalizações, na medida em que, sendo o fruto criativo daqueles que a cultivam, sempre acaba por se atomizar naquilo a que aqueles a consigam elevar e, por isso, aquilo que possamos querer pensar como universal esbarra, muitas vezes, nos estreitos limites com que cada um aí se revela e, com a obra respectiva, lhe estabelece.
Não tenho portanto qualquer pretensão de considerar os meus próprios pontos de vista como mais relevantes que quaisquer outros nesta matéria e, por isso, as afirmações que sustentar, fora daquilo que a tradição e a reflexão crítica e académica convencionaram e é generalizadamente aceite, como é o caso das definições dos diversos géneros, ou os contornos dos múltiplos movimentos que lhe têm feito a História, fora desses patamares em que é possível encontrar ideias, conceitos e definições – salvo seja a expressão – comuns, as opiniões, as preferências, os gostos que cada Autor possa ter por mais importantes, apenas a ele dizem respeito e de modo algum podem ser entendidas como algo mais que isso mesmo, simples declarações opinativas de gosto e muito menos como teoria a ter em conta. Com isto não estou a defender que não possamos identificar contributos mais ou menos interessantes para as teorias que se vão desenvolvendo em torno da literatura, mas apenas a confinar o que são as opiniões dos escritores aos seus limites particulares.
É, pois, meramente pessoal, o testemunho que apresentarei de seguida.

Toda a literatura sempre assentou – e assim continuará a ser – num binómio mínimo, justamente aquele que se materializa entre a obra feita e aquele que a lê. Poderia ter algum sentido, uma obra que tivesse o propósito de jamais vir a ser lida por quem quer que fosse?
Contudo, mais importante que esta pergunta será, para meu gosto pessoal, questionar se poderia o Autor escrever sem ter em consideração a existência de um Leitor, ou seja, visto de outro modo, se faria sentido que aquele escrevesse sem a mínima preocupação de ser lido e, sobretudo entendido. Para quem escrevemos, apenas para nós próprios?
É claro que para mim, o Leitor é o destinatário daquilo que escrevo e se o ser lido será o preâmbulo desse propósito, ser entendido confere o prémio máximo a que aquele que escreve poderá almejar. Sem quaisquer concessões aos seus gostos e desejos, ainda menos com algum retraimento perante os seus níveis de conhecimento e sabedoria, é esse o respeito que ao escritor ele deve merecer e é nessa dimensão que costumo dizer que nada seria sem ele.
Mas por vezes somos surpreendidos pelo que o Leitor consegue fazer crescer uma obra por aquilo que em ela encontra e que, em alguns casos, nem ao próprio Autor antes ocorrera. Sempre que assim é, impõe a delicadeza que perante ele se curve o escritor, tanto pelo agradecimento que lhe deve, como pela estima que a partir daí aquele passa a merecer. Ora foi esse o meu caso, com a apresentação deste livrinho de alguns dos poemas que escrevi nos primeiros anos da minha juventude. Daí estas palavras, para que o querido Leitor, antes de mais, fique inteirado do quanto lhe estou grato pelo simples facto de o ser mas, acima disso, como fico profundamente tocado por não só ter entendido estes meus trabalhinhos, como ainda mais por, através do(s) retorno(s) que me foi dando pelos comentários que fez, ter elevado este livrinho a um nível que nunca antes eu lhe tinha reconhecido.
Foi um Ilustre Anónimo que escreveu as palavras seguintes: “(…)diria que os teus Frescos me deram outros mundos a conhecer e fizeram-me começar a observar o meu mundo com mais atenção (…)”. E mais à frente agradeceu. “Obrigada pelos bons momentos de leitura e reflexão!” (1) Seria uma grande hipocrisia se pretendesse esconder o quanto me alegrou um tal comentário, mas isso seria passageiro e muito provavelmente estaria agora esquecido se não se tivesse dado o facto de me ter levado a olhar o “Frescos” com uma nova atenção e, com ele, todo o projecto que assinei como Luciano França de que aquele faz parte. Com efeito, desde então tenho reflectido amiúde a este respeito e mais do que a área de experimentação que, no texto em que apresentei esta publicação, já lhe havia reconhecido, vejo agora que este livrinho revela não só uma maneira de ver o mundo – a minha, naquela idade – como esse mesmo olhar, afinal, não só permaneceu como se robusteceu ao longo da minha vida, como, bem vistas as coisas, é substrato importante da minha própria maneira de ser e, consequentemente, da própria base mental em que tenho vindo a alicerçar a minha obra que, no seu conjunto, no que escava ou permite e convida o querido Leitor a escavar a respeito da humanidade, acima de tudo toma como vértice fundamental a dignidade da pessoa humana e toda implicação de justiça que daí decorre e que se pode muito bem sintetizar na comunhão da alegria de receber a Vida como uma Dádiva que, no carinho que estes frescos transmitem pelas pequenas coisas, os pequenos nadas do quotidiano, é precisamente aquilo que neste livrinho acaba por se cantar.

Termino, desta maneira, a publicação desta pequena compilação de poemas, para a qual, ao contrário das anteriores, pelo que escrevi, não me poderia limitar a uma despedida formal. Com ela materializo aquilo que considerarei a sua primeira edição, contando, em futuro breve, levá-la ao prelo para a dignidade de uma segunda, na forma de livro, propriamente dito. Depois da boa recepção que teve neste simpático espaço de ideias e liberdade, tenho para mim que o merece, tal como o mesmo sucede com o querido Leitor que tão bem o distinguiu.

Resta-me dizer que, apesar deste adeus, permanecerei entre vós às terças-feiras, como tem sido habitual, com “A Comunidade do Vale da Esperança – Uma Crónica”, cuja saga, longe que ficou o cenário de uma amálgama de sonhos de juventude, nos vai revelando como tem vindo a evoluir aquilo que a narradora considera um pequeno pedacinho de céu. Vamos ver o que nos reserva o futuro.
Curvo-me perante a gentileza da companhia que me vão concedendo.

Luís F. de A. Gomes
Alhos Vedros, 10 de Fevereiro de 2013

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

FRESCOS



Eu sei que o silêncio brota, de novo,
pelas pontas dos dedos de quase todas as árvores.


FIM 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

FRESCOS


E as estrelas acompanham
uma confusão ocasional
de passos no passeio,
sem pássaros
apenas o vento nas ramagens.

                             Alhos Vedros, 27/10/1981

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

FRESCOS


Minúsculos rectângulos dourados sobre o pano do sofá e o chão brilhante, reflectindo um ladrilhado de nuvens, tais conchinhas andantes num céu transmutado pela velocidade do vento.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

FRESCOS


Vagabundo. O tapete transmontano, gaitas de foles flutuantes, os vales profundos cavados pelo rio. A companheira fiel e o céu e o ar não conta, enquanto o vento se escapa através de milhares e milhares de flores trementes e que poderemos erguer novamente.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

FRESCOS


Chove imenso, embora o vento intercale ilhas de silêncio nas teclas que se fazem escutar numa superfície resignada à inércia das nuvens e as folhas das árvores brilham, uma vez por outra, sob o efeito de uma lâmpada de secretária debruçada à varanda.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

FRESCOS


Nuvens que se aproximam, lentamente, a imagem desce, as árvores, a margem verde, a floresta que permanece, por instantes, nas retinas. O som da água nas pedras. O som dos pássaros. Borrelhos. As gaivotas acordam as asas sobre a superfície espelhada, alaranjada, salpicada
                           ali
                                                                                      e
                                                 aqui
                                                 por duas ilhas selvagens.
Um enorme círculo cor-de-laranja que se eleva no ponto oposto, o Sol, torna-se visível, progressivamente, ao lado das montanhas da Arrábida, a pequena serra mediterrânica.
O grande bosque de choupos e sobreiros, dali, ainda antes do campo de trigo que se forma após os lagos rectangulares, originando os caminhos, relvados, adornados de flores silvestres.
Os malmequeres, abanados por uma brisa talvez oportuna, malmequeres brancos e amarelos, um saco de couro, entre duas salgadeiras.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

FRESCOS


As asas
e o silêncio

junto ao farol

o enigma das nuvens.

                    Agosto, 1982

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

FRESCOS


A noite, as árvores e a varanda dos mil olhos, a noite e o Cosmos, acto vivo e não apenas uma fórmula bioquímica da vida.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

FRESCOS


Há uma mancha cor-de-laranja no céu.
Algo se esconde atrás das nuvens.

                                Alhos Vedros, Junho de 1983

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

FRESCOS


Velejamos em ondinhas de brisa cálida nos pontos brancos, alados, que buscam a segurança na distância prudente da costa e dos homens.

                                    Alhos Vedros, 26 de Setembro

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

FRESCOS



O murmúrio da pequena praia e mais nada.

                                              Alhos Vedros, 16/09/1982

terça-feira, 27 de novembro de 2012

FRESCOS


As árvores abanam
                  o vento
gritos infantis
                  “-Sandraaa!”
e a Lua, bola de luz.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

FRESCOS


Um lago azul projecta-se para lá dos ângulos da janela, por cima dos prédios e dos operários da construção civil.
E as nuvens, talvez ilhas líquidas de algodão etéreo, estão cinzentas, carregadas de energia estática, pronta a explodir em qualquer instante.
Recortes de árvores e periferias columbófilas e o Sol amortalha-se nos murmúrios do vento, às quatro da tarde, quando as buzinas das fábricas tocam para o descanso de dez minutos.
E a tempestade aproxima-se nos gritos das crianças no parque infantil.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

FRESCOS


O casco de um navio, à superfície do céu que, não podendo deixar de ter o seu rasto de espuma, se perde, de cá para lá, entre o vento e as ondas laranjas das nuvens, silenciosamente, ainda quarto crescente e já luz e sombra
e o navio passa e dissolve-se numa longa estrada azul, por quanto os carros passem e o asfalto molhado se transforme em cintilações decompostas do branco.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

FRESCOS



Antigos cavaleiros do mar repousam, para sempre, numa putrefacção de ferrugem, assassinos na estrada e o vento, forte, ondulando as águas e as ervas, Jim Morrison and The Door’s e nuvens de várias colorações, o braço esquerdo do Tejo penetra na terra através de uma muralha em ruínas.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

FRESCOS


A vela eléctrica, a ponta esmagada de um cigarro consumido, três ascensões para uma melodia, o concerto de Sérgio Godinho e um livro de Sociologia Urbana no rasto de uma fumarada cinzenta, madrugada, as coisas processam-se.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

FRESCOS


As nuvens, hoje há mais nuvens no céu
o ar está mais húmido, mas continua calor
existe maior harmonia com o hemisfério norte
congruência, para respirarmos mais descansados
esta tarde, com aqueles regatos que se formam no azul
encoberto aqui e acolá à medida da velocidade do vento
impressionante.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

FRESCOS


Fecho os olhos e sobra-me, num escuro indefinidamente claro, o rasto luminoso.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

FRESCOS


De repente a chuva e a cabeça cai no fervilhar da areia.