Fiquei sabendo da existência de Paulo Francis há mais de quarenta anos, quando botei as mãos em um exemplar d’O Pasquim. Para quem não sabe, foi um semanário carioca responsável por boa parte da resposta da sociedade à asfixiante realidade pós AI-5. Foi uma surpresa e tanto para um garoto que não agüentava mais aquela coisa de "Este é um país que vai pra frente, ô,ô,ô,ô..." que não combinava com um sentimento de medo difuso tão espesso que poderia ser cortado em fatias.
O jornal tinha como mentores intelectuais pessoas do quilate do próprio Francis: Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Ziraldo, Henfil (o pai dos Fradins), Fausto Wolff, Arthur José Poerner, Luís Carlos Maciel, Jaguar, JAAB, Flávio Rangel, Fortuna, Sérgio Cabral (pai do atual governador do RJ), Sérgio Augusto, entre outros. Devo ter esquecido algum dos muitos monstros sagrados daquela era longínqua, cujo lema deveria ser “intelectual não vai à praia, intelectual bebe”. O Pasquim promoveu uma revolução na imprensa brasileira, como o Correio da Manhã havia feito antes.
Esta turma terminou o serviço de fazer com que eu aprendesse a ler e a escrever; há quem discorde do resultado. Tudo bem, faz parte do processo.
Em um tempo que para os mais jovens deve parecer anterior ao Cretáceo, quando não existia telefonia celular nem Infernet, os jornais impressos eram os meios de comunicação utilizados. E O Pasquim era plural, tinha de tudo no jornal, era uma das antenas da parcela do Brasil que pensava e que não assumia uma atitude conformista diante da barbárie em vigor.
Cada parágrafo escrito por Francis, em jornais ou livros, rendia várias consultas à Britannica (lembrem-se, o Google é coisa recente): em poucas frases, ia de Trotsky a Freud, de Gore Vidal a Richard Wagner, de Roberto Campos ("Bob Fields") a Charlie Chaplin. Também chutava muito, e poucas vezes foi peitado, por ignorância ou medo da parte de seus inúmeros desafetos. E quem dele gostava relevava os "chutes". Uma vez colocou o almirante japonês Yamamoto, morto em 1943, na pré-estréia do filme Tora! Tora! Tora!, ocorrida em 1970. A expressão "yamamoto" passou a ser sinônimo de barriga (informação furada) no hebdomadário. Pouco importava se concordavámos ou não com a opinião publicada: o legal era que Francis nos obrigava, ao menos os que liam, a correr atrás das referências que cintilavam em seus textos. Em suma, nos botava para ler, ler e ler. “Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo” consta como sendo frase de sua autoria.
Lúcido, válido e inserido no contexto, não recorreu à hipocrisia recorrente no Bananal, quando da guinada que deu, do trotskismo ao liberalismo algo conservador. Assumiu e pronto. “Never explain, never apologize”. Na passagem das trincheiras do protesto inconformista para a grande imprensa, se tornou referência – mais uma vez. Sem deixar de ser polêmico, amado e odiado, jamais ignorado. Sua obra fez a cabeça de muita gente, o que não é pouca coisa.
Há ausências que preenchem uma lacuna. Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, AKA Paulo Francis, não é uma delas. O Francês faz falta.
Paulo Arruda
Uma Revista que se pretende livre, tendo até a liberdade de o não ser. Livre na divisa, imprevisível na senha. Este "Estudo Geral", também virado à participação local, lembra a fundação do "Estudo Geral" em Portugal, lá longe no ido século XIII, por D. Dinis, "o plantador das naus a haver", como lhe chama Fernando Pessoa em "Mensagem". Coordenação de Edição: Luís Santos.
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domingo, 27 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Ribeirão Preto merece coisa melhor
Sem fazer muita força poderemos constatar a existência de estereótipos em nossa cidade:
- Boba alegre: ou “patricinha desmiolada”. Tem o hábito de falar ao celular enquanto dirige(?) e dá gostosas gargalhadas enquanto não enxerga o trânsito ao redor. Geralmente é loira de farmácia e anda em bandos. Outra variedade do grupo “Sem noção”.
- Botinudo: também conhecido por “agroboy”. Destaca-se pela pouca discreção de seus caminhaozinhos urbanos e pelo berreiro que deles emana, no maior volume possível: “O destino levou minha amada, por favor tenha pena de mim...”. Quase sempre é fruto de dinheiro novo.
- Bundão: mantém uns prudentes 50 m de distância do carro à frente, não importando as circunstâncias: “ouviu dizer” que assim é melhor. Sua mãe é lembrada sempre que se atreve a entrar em uma preferencial. Também acredita que fazer uma curva a mais de 20 km/h é capotamento na certa.
- Cachorro louco. Motoboys, mototaxistas e motoqueiros em geral (motociclista é outro papo). Indivíduos revoltados que desforram sua frustração nas portas e nos retrovisores alheios, quando não estão se matando em acidentes de trânsito absurdos. Em países civilizados sua existência somente seria aceita nas prisões.
- Cafageste: estaciona em vagas para deficientes físicos quando na realidade se comporta como um deficiente mental. Não é privilégio das classes abastadas nem de algum dos vários sexos conhecidos. É, de longe, o mais desprezível.
- Criminoso: o meliante que dirige embriagado ou o que “acha” que dá para passar por um sinal já vermelho. Merece açoitamento público. É a mais democrática manifestação do brazilian way of drive.
- Dono do mundo: trafega ocupando todas as faixas possíveis, e considera insulto pessoal qualquer tentativa de ultrapassagem.
- Foragido da escola: muito frequente, desconhece barreiras socias, de sexo ou outras. Desafia as leis da Fìsica ao frear no meio de uma curva ou ao se esquecer de fazê-lo em algum momento.
- Hello Kitty: praga urbana moderna. Começou com o baixo custo das motocicletas de pequena cilindrada. O capacete cor-de-rosa com um adesivo da Hello Kitty reflete o estado de amadurecimento emocional da criatura a pilotar. Pertence ao grupo “Sem noção”. Coisa de pobre.
- Jeca-tatu: motoristas que saem da pachorra de seus grotões para se sentirem inseguros no feérico tráfego de Ribeirão. Desastre certo.
- Madame deslumbrada: sub-espécie do grupo “Sem noção”, composto por profissionais do casamento que não se tocam de que não estão dirigindo no quintal de casa. Coisa de novo-rico.
- "Pois é": condutor de ruínas que largam pedaços de lataria pela rua, geralmente sem paciência com os outros, como se estes fossem responsáveis pelo miserê ostentado. Se apenas os veículos sem condições fossem retirados de circulação já seria um alívio. Se os motoristas idem também o fossem seria o paraíso, mas aí já é pedir muito.
- Rohypnol: leva uma eternidade para notar que o semáforo ficou verde ou que a fila andou. Deve ser moda por aqui.
- Sem noção: transcende gênero, classe social e idade. É aquela gente que aciona o pisca-pisca (quando muito) e faz uma manobra irracional, como estar na faixa mais à esquerda de uma rotatória e de repente resolver virar à direita (o argumento “mas eu dei seta” é de chorar). Também conhecido como mula-sem-cabeça. É o que mais se vê.
- Troglodita: acha que pode resolver toda e qualquer diferença no grito ou na porrada. Um caso exemplar do que a falta de sexo pode fazer com a cabeça de algumas pessoas.
- Velho de chapéu. Um clássico ora em extinção, para nosso relativo sossego.
Faltou o verbete “omisso”, mas ele diria respeito mais à Transerp e às autoridades ditas responsáveis do que aos lamentáveis condutores acima descritos.
Ficou alguém de fora? O espaço é seu, manifestem-se.
Paulo Arruda
- Boba alegre: ou “patricinha desmiolada”. Tem o hábito de falar ao celular enquanto dirige(?) e dá gostosas gargalhadas enquanto não enxerga o trânsito ao redor. Geralmente é loira de farmácia e anda em bandos. Outra variedade do grupo “Sem noção”.
- Botinudo: também conhecido por “agroboy”. Destaca-se pela pouca discreção de seus caminhaozinhos urbanos e pelo berreiro que deles emana, no maior volume possível: “O destino levou minha amada, por favor tenha pena de mim...”. Quase sempre é fruto de dinheiro novo.
- Bundão: mantém uns prudentes 50 m de distância do carro à frente, não importando as circunstâncias: “ouviu dizer” que assim é melhor. Sua mãe é lembrada sempre que se atreve a entrar em uma preferencial. Também acredita que fazer uma curva a mais de 20 km/h é capotamento na certa.
- Cachorro louco. Motoboys, mototaxistas e motoqueiros em geral (motociclista é outro papo). Indivíduos revoltados que desforram sua frustração nas portas e nos retrovisores alheios, quando não estão se matando em acidentes de trânsito absurdos. Em países civilizados sua existência somente seria aceita nas prisões.
- Cafageste: estaciona em vagas para deficientes físicos quando na realidade se comporta como um deficiente mental. Não é privilégio das classes abastadas nem de algum dos vários sexos conhecidos. É, de longe, o mais desprezível.
- Criminoso: o meliante que dirige embriagado ou o que “acha” que dá para passar por um sinal já vermelho. Merece açoitamento público. É a mais democrática manifestação do brazilian way of drive.
- Dono do mundo: trafega ocupando todas as faixas possíveis, e considera insulto pessoal qualquer tentativa de ultrapassagem.
- Foragido da escola: muito frequente, desconhece barreiras socias, de sexo ou outras. Desafia as leis da Fìsica ao frear no meio de uma curva ou ao se esquecer de fazê-lo em algum momento.
- Hello Kitty: praga urbana moderna. Começou com o baixo custo das motocicletas de pequena cilindrada. O capacete cor-de-rosa com um adesivo da Hello Kitty reflete o estado de amadurecimento emocional da criatura a pilotar. Pertence ao grupo “Sem noção”. Coisa de pobre.
- Jeca-tatu: motoristas que saem da pachorra de seus grotões para se sentirem inseguros no feérico tráfego de Ribeirão. Desastre certo.
- Madame deslumbrada: sub-espécie do grupo “Sem noção”, composto por profissionais do casamento que não se tocam de que não estão dirigindo no quintal de casa. Coisa de novo-rico.
- "Pois é": condutor de ruínas que largam pedaços de lataria pela rua, geralmente sem paciência com os outros, como se estes fossem responsáveis pelo miserê ostentado. Se apenas os veículos sem condições fossem retirados de circulação já seria um alívio. Se os motoristas idem também o fossem seria o paraíso, mas aí já é pedir muito.
- Rohypnol: leva uma eternidade para notar que o semáforo ficou verde ou que a fila andou. Deve ser moda por aqui.
- Sem noção: transcende gênero, classe social e idade. É aquela gente que aciona o pisca-pisca (quando muito) e faz uma manobra irracional, como estar na faixa mais à esquerda de uma rotatória e de repente resolver virar à direita (o argumento “mas eu dei seta” é de chorar). Também conhecido como mula-sem-cabeça. É o que mais se vê.
- Troglodita: acha que pode resolver toda e qualquer diferença no grito ou na porrada. Um caso exemplar do que a falta de sexo pode fazer com a cabeça de algumas pessoas.
- Velho de chapéu. Um clássico ora em extinção, para nosso relativo sossego.
Faltou o verbete “omisso”, mas ele diria respeito mais à Transerp e às autoridades ditas responsáveis do que aos lamentáveis condutores acima descritos.
Ficou alguém de fora? O espaço é seu, manifestem-se.
Paulo Arruda
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