Levou tempo para que eu percebesse que quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras.

Rubem Alves


domingo, 27 de fevereiro de 2011

Paulo Francis - depoimento pessoal

Fiquei sabendo da existência de Paulo Francis há mais de quarenta anos, quando botei as mãos em um exemplar d’O Pasquim. Para quem não sabe, foi um semanário carioca responsável por boa parte da resposta da sociedade à asfixiante realidade pós AI-5. Foi uma surpresa e tanto para um garoto que não agüentava mais aquela coisa de "Este é um país que vai pra frente, ô,ô,ô,ô..." que não combinava com um sentimento de medo difuso tão espesso que poderia ser cortado em fatias.

O jornal tinha como mentores intelectuais pessoas do quilate do próprio Francis: Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Ziraldo, Henfil (o pai dos Fradins), Fausto Wolff, Arthur José Poerner, Luís Carlos Maciel, Jaguar, JAAB, Flávio Rangel, Fortuna, Sérgio Cabral (pai do atual governador do RJ), Sérgio Augusto, entre outros. Devo ter esquecido algum dos muitos monstros sagrados daquela era longínqua, cujo lema deveria ser “intelectual não vai à praia, intelectual bebe”. O Pasquim promoveu uma revolução na imprensa brasileira, como o Correio da Manhã havia feito antes.

Esta turma terminou o serviço de fazer com que eu aprendesse a ler e a escrever; há quem discorde do resultado. Tudo bem, faz parte do processo.

Em um tempo que para os mais jovens deve parecer anterior ao Cretáceo, quando não existia telefonia celular nem Infernet, os jornais impressos eram os meios de comunicação utilizados. E O Pasquim era plural, tinha de tudo no jornal, era uma das antenas da parcela do Brasil que pensava e que não assumia uma atitude conformista diante da barbárie em vigor.

Cada parágrafo escrito por Francis, em jornais ou livros, rendia várias consultas à Britannica (lembrem-se, o Google é coisa recente): em poucas frases, ia de Trotsky a Freud, de Gore Vidal a Richard Wagner, de Roberto Campos ("Bob Fields") a Charlie Chaplin. Também chutava muito, e poucas vezes foi peitado, por ignorância ou medo da parte de seus inúmeros desafetos. E quem dele gostava relevava os "chutes". Uma vez colocou o almirante japonês Yamamoto, morto em 1943, na pré-estréia do filme Tora! Tora! Tora!, ocorrida em 1970. A expressão "yamamoto" passou a ser sinônimo de barriga (informação furada) no hebdomadário. Pouco importava se concordavámos ou não com a opinião publicada: o legal era que Francis nos obrigava, ao menos os que liam, a correr atrás das referências que cintilavam em seus textos. Em suma, nos botava para ler, ler e ler. “Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo” consta como sendo frase de sua autoria.

Lúcido, válido e inserido no contexto, não recorreu à hipocrisia recorrente no Bananal, quando da guinada que deu, do trotskismo ao liberalismo algo conservador. Assumiu e pronto. “Never explain, never apologize”. Na passagem das trincheiras do protesto inconformista para a grande imprensa, se tornou referência – mais uma vez. Sem deixar de ser polêmico, amado e odiado, jamais ignorado. Sua obra fez a cabeça de muita gente, o que não é pouca coisa.

Há ausências que preenchem uma lacuna. Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, AKA Paulo Francis, não é uma delas. O Francês faz falta.

Paulo Arruda

1 comentário:

Pedro Du Bois disse...

O Pasquim - semanário - foi criado a partir da ideia do jornalista Tarso de Castro, também seu diretor em toda sua época áurea. Além do que, Tarso tinha o texto mais corrosivo e "porra loca", entre todos. Por questões financeiras, o Tarso saiu do jornal que, então, ficou com o Millôr. Não fosse a ousadia do Tarso, jamais teria acontecido. Faça-se justiça.