De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Filosofia e Saudade

17. Agostinho da Silva (1906-1994)

Ao reflectirmos na ideia de Saudade em Agostinho da Silva, vimos como se entrelaçam no autor toda uma teia de pensamentos que abordam, por um lado, o desenvolvimento da história da humanidade e da civilização ocidental e, por outro, a História de Portugal.

Uma história do Ocidente que se pensa a partir da “Idade do Ouro”, período áureo da História da Humanidade que terá terminado, grosso modo, com a saída do Homem do Paraíso Divino com a queda que trás o pecado original, conforme enunciado nos evangelhos. A partir daí tem vindo o Homem em avanços e recuos, à procura da porta de saída que lhe traga de volta a magnificência desse perdido Reino Divino.

Depois dessa queda, só com o fim do Império Romano se verifica uma intenção de plena sacralização das sociedades ocidentais. Depois de instituído o Cristianismo como a religião do Império será, todavia, depois da derrocada da sua parte ocidental que Ele florescerá, sobretudo, por todo o período medieval.

O Renascimento interromperá na Europa este período de, aproximadamente, dez séculos em que o Cristianismo se foi impondo. Tanto pelas artes e política, como pelas ciência e religião, as novas ideias vão trazer uma nova organização social, política e económica, quer pela consumação dos ideais liberais iluministas, quer pela legitimação do capitalismo pelo protestantismo. A sul, pela mão de Maquiavel, a norte guiados por Lutero.

Portugal resiste. Prova disso mesmo é o Projecto de evangelização cristã do mundo que ganha tradução com a Expansão Ultramarina. Mas se com D. João II, o Projecto treme, com o Marquês de Pombal as novas ideias triunfantes por toda a Europa irrompem decididamente pelo país que não tem mais forças para lhes resistir.

O Projecto defende-se, todavia, nos ideais de missionários, literatos, poetas e cientistas. O padre António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, entre muitos outros, tentam reencontrar o nosso próprio caminho. Os dois primeiros desenvolvendo o ideal do Quinto Império, Agostinho da Silva encontrando-lhe paralelo no Culto Popular do Espírito Santo, instituído em Portugal no Reinado de D. Dinis, trazido para Portugal pela sua esposa, a Rainha Santa Isabel, de Aragão.

Agostinho da Silva traduz na ideia do Culto Popular do Espírito Santo a genuinidade do Projecto Lusófono, já mais que unicamente Lusíada. A Idade do Espírito Santo, tal como defende o ideal Joaquimita, será a sua utopia de referência.

“E porquê o Culto Popular do Espírito Santo”, perguntou certa vez O Professor? “Porque até agora não encontrei ideia melhor para pensar a existência portuguesa no mundo”, concluiu.

Luis Santos


Notinha: Hoje, 13/2/2011, o Professor faria 105 anos. Parabéns.


Bibliografia

. BORGES, Paulo (2008) A Pedra, a Estátua e a Montanha. Lisboa: Portugália Editora.

. idem, (2008) O Jogo do Mundo. Lisboa: Portugália Editora.

. ESCUDEIRO, António (org.) (2006) Agostinho da Silva, ele próprio. Corroios: Ed. Zéfiro.

. FONSECA, Branquinho da (org.) (1984) As Grandes Viagens Portuguesas. Sintra: Ed. Manuscristo.

.SANTOS, Luis (org.) (2005) As Últimas Cartas do Agostinho. Alhos Vedros: Ed. Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros.

. SILVA, Agostinho (2002) Estudos sobre Cultura Clássica. Lisboa: Âncora Editora.

. idem, (2000)Textos Pedagógicos I e II. Lisboa: Âncora Editores.

. idem, (1996) Reflexão. Lisboa: Guimarães Editores.

. ESCUDEIRO, António (org.) (2006) Agostinho da Silva, ele próprio. Corroios: Ed. Zéfiro.

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