Levou tempo para que eu percebesse que quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras.

Rubem Alves


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

d´Arte – Conversas na Galeria XXIII


Biblioteca Autor António Tapadinhas
Acrílico sobre tela 50x60cm

A obra que apresento, foi criada a partir de um esboço que fiz para ilustrar uma crónica de jornal. O esboço pareceu-me demasiado abstracto para poder ser considerado uma ilustração e resolvi fazer um desenho puro e duro que foi publicado com a crónica.
Depois da publicação da crónica e do desenho, fiquei com um esboço a tinta da china de que eu gostava tanto que considerei a hipótese de o explorar noutras dimensões e com a adição de cor.
Por este motivo, esta obra foi de execução aparentemente fácil. Todo o trabalho de luz e sombras estava definido no esboço. Os elementos concretos de que me ia servir para introduzir o observador na biblioteca estavam lá: os arcos da estrutura do edifício, as portas, os corredores, as escadas com os seus corrimãos, as prateleiras com os livros... Torná-la confortável era a missão que a cor teria de cumprir. Nunca ficou claro no meu espírito se devia ou não povoar a biblioteca de leitores...
Cobri toda a tela com yellow ochre e burnt umber, definindo logo as zonas mais luminosas e as mais sombrias. Naples yellow e titanium white foram as duas cores que deram mais luz a zonas pouco iluminadas ou que precisavam de contrastes mais fortes para dar vida ao conjunto. Com o burnt sienna dei o tom avermelhado quente para tornar a biblioteca confortável. A cor azul (cerulean blue hue) serve também para dar contraste ao tons quase monocromáticos utilizados, mas sobretudo para abrir janelas, por onde a luz do sol entra e se vê o céu. Indispensável numa biblioteca.

BIBLIOTECA, O PAÍS DAS MARAVILHAS
Sinto saudades, absurdas saudades, dos momentos angustiantes que antecediam a minha entrada na biblioteca.
Actualmente, entra-se e pronto.
Dantes, não era certo o direito de admissão, mesmo cumprindo todas as regras. A porteira, com os bigodes iguais aos dos actuais porteiros das discotecas, tinha o direito divino de inventar uma regra para só deixar entrar quem lhe apetecesse. Mas atenção: nunca houve tiros para forçar a porta. A nossa imaginação só chegava ao lançamento duma garrafinha de mau-cheiro, por alturas do Carnaval.
A cerimónia de recepção, era tão complicada, como o ritual de acasalamento dos papagaios. Depois de depositar o BI nas garras da seresma, ela olhava para mim, cheirava-me, via a sola dos meus sapatos, examinava as minhas mãos e unhas com o ar de um sargento de artilharia, a revistar soldados.
Nesses infindáveis momentos, nem conseguia respirar o prazer de ter pulmões. Fazia o meu sorriso mais cativante mas só com muito custo conseguia evitar que raios paralisantes saíssem dos meus olhos, directos ao coração da megera.
Um último olhar para examinar os cabelos e levantava um braço, que tinha na ponta a mão, mas donde eu via sair um martelo que me atingia a cabeça. Algumas vezes, que maravilha, tinha uma senha azul e um dedo que me apontava o cimo das escadas.
Já sabia todos os truques para aumentar as hipóteses de subir ao paraíso: para eliminar cheiros suspeitos, tinha nos bolsos bolas de naftalina, misturadas com os bugalhos e abafadores, molhava os cabelos para baixar os remoinhos, calçava botas cuidadosamente ensebadas para não rangerem, com solas de borracha para não fazer barulho.
Apesar de tudo não era certa a entrada. O Zé Mocho ficou uma vez à porta porque tinha o risco do lado errado da cabeça.
Era preciso subir o primeiro lanço de escadas com muita calma: correr, era proibido!
Chegava a uma porta envidraçada. Esperava, sem sinais exteriores de impaciência. Bater, nunca! Quando a cabeça da senhora, com o nariz pousado numa montanha de papéis, se levantava para olhar o verme que se atrevia a incomodá-la, eu levantava, lentamente, a mão para lhe mostrar a senha.
A senhora recebia o passe e ciciava: “Sssegue-me, sssem barulho.”
Em bicos de pés, num ballet estranho, tic, tic, tic, chego a uma mesa comprida cheia de pessoas mergulhadas nas ondas de perfumes de tintas e bolores, drogas alucinógenas, cujo perigo ainda não tinha sido detectado pelos guardiões do regime. Sento-me numa cadeira vaga. Preencho a ficha com o pedido do livro a que tenho direito: a senha azul limitava o acesso a obras indicadas para meninos até aos catorze anos e para meninas até aos dezoito anos. Nunca percebi porquê. Passados uns eternos instantes, a bibliotecária deixa o livro requisitado na minha frente.
A partir desse momento esqueço a humidade desta sala bafienta, mal iluminada, ou os cadáveres sentados em cadeiras, a voltarem folhas de papel cheias de carunchos esfomeados, crac, crac, crac…
Lá fora podia subir ao sol, beijar as nuvens, falar com os pardais, afagar ou chutar uma bola… Tudo passava para segundo plano.
Com a ajuda do meu amigo, il Signor Emílio Salgari, vou derrotar todos os piratas, vou descer ao fundo dos oceanos com Monsieur Júlio Verne, com Mister Mark Twain vou ganhar amigos para sempre, ou vingar-me de todas as traições com Monsieur Alexandre Dumas.
Foi numa destas salas que Einstein formulou a teoria da relatividade. Assim também eu: lá dentro o tempo voa!
É sempre com um sobressalto que oiço ao meu ouvido:
- “Faltam dezzz minutossss”.
Agora, que tinha descoberto a palavra mágica para entrar na caverna do tesouro…
Nas bibliotecas actuais sinto a falta do barulho do caruncho, acho estranho estar a ver o sol a entrar pelas grandes janelas, enquanto, conduzido por Mary Shelley, entro num castelo sombrio, com perigosos vampiros sedentos de sangue, à espera da chegada da noite para beberem tudo.
Acho excessiva a familiaridade, com que posso ir buscar à prateleira, sem uma requisição em papel selado, Saramago
- Com que então, um Nobel, pá?
digo, dando-lhe uma palmada na lombada, ou Camões
- Tás bom, ó zarolho?
para não falar do disparate que é, deixarem qualquer pessoa sair pela porta fora com o Lobo Antunes na mão. Coitado, nem nas prateleiras o deixam sossegado.
Melhor, melhor mesmo é o sorriso simpático com que sou recebido na biblioteca. Mas, mesmo assim, não sei…É demasiado fácil. Acho que falta a incerteza, a angústia de poder, ou não, entrar. Ninguém me pede uma senha!
Serei masoquista?

2 comentários:

Luís F. de A. Gomes disse...

Tem graça, antes de ler o texto, olhando a pintura que em primeiro lugar aparece no ecrã do pc, pensei para comigo, este quadro cheira a livro, tem aquela aparência grave e erudita de uma estante de onbras de sabedoria. Depois li as tuas palavras e dei comigo a recordar-me de uma outra coincidência curiosa. Em mil novecentos noventa e oito concluí um romance por painéis em que usei alguns materiais auto-biográficos para dar vida a uma personagem velada, nada mais que o hipotético narrador de uma série de trabalhos anteriores. Pois bem, não é que num desses quadros usei os ensaios que o Zé Carlos fazia à entrada da Biblioteca da Vélhinha, antes dee bater à porta e de perguntar se podia entrar, para rapidamente se dirigir ao director de serviço e sem demoras dizer o que pretendia o que geralmente se resumia ao nome do autor e da obra, imperetrivelmente seguido do "se faz favor"? Tal e qual estas que partilhas connosco, memórias de um outro tempo que, por mais estranho que possa parecer, também foi o nosso.

A arte também é isso, um outro olhar sobre as memórias de que somos feitos.

Aquele abraço, companheiro
Luís

A.Tapadinhas disse...

Luís: É mesmo isso que dizes: um (outro) olhar sobre as memórias de que somos feitos.

Sem memórias nada somos...

...e as memórias colectivas são resultado do contributo que cada um de nós dá para esse peditório...

Sinal de que estou (estamos?) velho é a estranheza com que a Dulce ou a Elsa ouvem estas estórias de outros tempos...

Aquele abraço,
António