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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Desacordos Ortográficos


Desacordos Ortogárficos
(Orto gárficos)


Francisco Gomes Amorim

Lembro muitas vezes algumas máximas, que são mesmo o máximo, como esta: “A estupidez humana é a única coisa que nos pode dar a noção de infinito”, segundo Ernest Renan.
Razão tinha também Alexis-Charles-Henri Clérel, o visconde de Tocqueville,quando terá dito que “Um Estado mal governado, em vez de reformas faz revoluções” !
Em relação ao Brasil, Venezuela, Equador, Angola e tantos, tantos, outros países atrasados, eu disse atrasados, estarão eternamente sujeitos à “lei” de Fialho de Almeida: “É lei inflexível que enquanto o povo for ignorante, a revolução será estéril” !
Parece já ter passado a febre da tão acesa discussão sobre o famigerado “Des-Acordo”, que teve acérrimos defensores do pode e do não pode, deve e não deve, enquanto, pelo meu lado, modesta e ignorantemente, decidi ficar pelo MEU acordo. Escrevo como sei, influenciado pelos meios em que vivi, e imagino que as pessoas que lêem o que escrevo compreendam, não só a escrita, como o pensamento do “escritor”.
Como por exemplo a palavra “zukumuna”, que deu origem a um blog que, por falta de leitores e/ou de paciência abandonei, palavra linda, de bela e forte sonoridade, de origem angolana, da língua Cokwe, ou Tchokwe, ou Quioco, ou... qualquer outra grafia que lhe queiram emprestar, e que significa:“arremessar, atirar ou lançar com força um pau ou coisa semelhante".
A ideia era malhar em tudo que me parecesse errado! Quixotismo.
A partir da premissa, do mútuo entendimento, creio que estamos todos de Acordo. Se alguém não estiver, é problema dela/dele.
Como todos também sabemos a língua é viva. Vivíssima. Na portuguesa entraram palavras de origem grega, celta, romana, germânica, árabe, hindu, africana, brasileira, inglesa e de outras bandas, e assim a partir do século XV o nosso vocabulário, de poucas dezenas de milhares de palavras, multiplicou por cinco ou seis a sua quantidade, devendo hoje em dia ser uma das mais ricas do mundo.
Mas o Brasil (desculpem-me de falar outra vez do Brasil!) parece estar empenhado em aumentar o vocabulário, não só em nomes próprios como em verbos, adjetivos, substantivos e, até em preposições, quando, desde há muito decidiu engolir uma destas, logo por azar ou premeditação a primeira: o “a”, o “a” mudo, a preposição.
Raros são os que, por exemplo, vão ao Rio. Onde vai? Vai o Rio! O póbrema (outro vocábulo interessante) é que se o Rio se vai... só pode ser por água abaixo, por descaso político ou acidente “natural”, para o que nos basta constatar que em 2016 houve só 5.033 homicídios, 93.955 roubos a transeuntes e 41.704 roubos de viaturas (só no Estado do Rio).
Não admira. Vejam só: a polícia deve a fornecedores, só do Rio, repetindo, R$ 523 milhões (uns cento e cinquenta milhões de €uros) e assim falta a gasolina para perseguir bandidos, dar manutenção às viaturas, etc. Por este andar o Rio está indo mesmo por água...
Mas também há quem more fora da cidade e decida ir “no Rio”, o que pressupõe que tenha transporte fluvial.
Está também a crescer um novo vocábulo interessante, que deve ter saído da recém casta de galfarros (consultar dicionário) que estão a pensar ocupar o vácuo político deixado pelos gatunos já julgados e pelos outros centos destes a julgar e meter na cadeia (se os tribunais não os “inocentarem”). São os prepostos novos pretendentes ao poder que se estão “empoderando”.
Traduzindo, uma vez que os dicionários ainda não tiveram nova edição: significa ganhar “poder”! Olha que vocábulo interessante. O “empoderamento” da nova gatunagem... orto-gárfica! Tem que ser. Os velhos donos do poder já estão todos empoeirados, e vão-se desempoderando!
Mas é sobretudo nos nomes próprios que o desacordo mais se faz sentir mais profundamente. Já não nascem mais Gabrielas! Agora são Gabrielles ou Gabriellys, de preferência com “y” em vez de “i”, não tem mais Mateus, mas Matheus, já não falando em Ambrísia Estilingue, na Defuntina, no Eradonclóbes ou Emanuelly, Marielle, Wilder, Eurides, e tantos outros que se exibem em todas as telas de Tv com os jogadores de futebol, como o Allison, o Weverton, e tantos outros. Lembro ainda uma garota que foi pedir um autógrafo ao grande mestre Ariano Suassuna e quando ele lhe perguntou o nome ele disse: Whaydja! Quando o Mestre lhe pediu para soletrar, ela não deixou de sublinhar que tinha um “dabeliú”, um “agá” e um “ipislão”. E era uma brasileira da mais pura raça!
Moral da história: para quê estarem os sábios da filologia e semântica a gastar as meninges para se fazer um acordo ortográfico?
Bobagem, né?

Para amenizar, aqui vão algumas palavras interessantes, de origem tupi. Espero que apreciem:
·       Pare com este nhen-nhen-nhen. A expressão vem do verbo nhe’eng(falar, piar) e significa pare de ficar falando, de falar sem parar.
·       O velho jogo de peteca, que é um pequeno saco cheio de areia ou serragem sobre o qual se prendem penas de aves, tem este nome devido ao verbo petek — golpear ou bater com a mão espalmada. É com a palma da mão que se joga o brinquedo.
·       Velha coroca é uma velha resmungona. O termo nasceu do verbo kuruk, que significa resmungar.
·       O verbo cutucar, em português, origina-se do tupi kutuk, cujo significado original — furar, espetar — modificou-se ligeiramente. Em português, cutucar é tocar com a mão ou com o pé.
Estar jururu é estar melancólico, tristonho, cabisbaixo. O termo indígenaaruru, de onde surgiu a palavra, tem o mesmo sentido.
·       “Todo mundo tem pereba, só a bailarina que não tem”, diz uma música de Chico Buarque de Holanda. Pereba, do tupi, significa ferida.
·       Várias palavras mantiveram pronúncia e significado praticamente originais: mingau (papa preparada geralmente com farinha de mandioca),capim, mirim (que significa pequeno) e socar (do verbo sok, com o mesmo significado).
·       A expressão estar na pindaíba muito brasileiro conhece: significa estar em graves dificuldades financeiras. É uma expressão que vem das palavraspinda’yba — vara de pescar (pindá, isoladamente, significa anzol). Antigamente, quando a pobreza abatia as populações ribeirinhas, era comum tentar tirar a subsistência do rio, pescando para comer ou para vender o pescado. Segundo os pesquisadores, a expressão nasceu no período colonial brasileiro, em que o tupi em sua forma evoluída conhecida como “língua geral” era falado pela maioria dos brasileiros.
·       perereca recebe esse nome simplesmente porque ela pula. Vem do verbo pererek, pular, que é também a origem do Saci-Pererê que, por não ter uma perna, anda aos pulos.
E que tal estes termos de Angola:
·       Cabeça de pungo – cabeçudo (aliás o peixe, pungo, é uma delícia. Quem se lembra?)
·       Bugar – dizer mentiras
·       Cuia – uma espécie de prato ou vaso feito de metade de um abóbora seca. Palavrada usada no tupi e em quimbundo!
·       Cusunguluca – ser modesto. (Com esta palavra... quem o pode ser?)
Ou então se for a Moçambique e quiser uma bebida fresquinha, doce, peçanzizima (no norte, no sul maheu), se preferir cerveja, uma yovurya.

E sabem quantos nomes já encontrei, em Angola e Moçambique, para o instrumento que no Brasil é mais conhecido por berimbau?
Fica para a próxima.
Por hoje chega. Vamos pensar num acordo universal!



sexta-feira, 22 de abril de 2016

Nosso Idioma, minúscula ou maiúscula?


Nosso Idioma, minúscula ou maíscula: português/Português , brasileiro/Brasileiro?

A palavra português, na acepção de idiomadeve grafar-se com inicial minúscula: «Ele é estrangeiro, não percebe português.» 

Na acepção de nome étnico (que designa raças, povos, habitantes de um lugar), ainda merece a maiúscula inicial: «Os Portugueses deram novos mundos ao Mundo.» 

Mesmo metonimicamente, a maiúscula mantém-se: «O Português é, por natureza, mais sisudo que o Brasileiro.» 

Quando se refere à nacionalidade, já é a minúscula que leva a melhor: «Eu sou português, tu és brasileiro.» 

Quando se trata de um curso ou de uma disciplina acadé[ê]mica, já torna a merecer a maiúscula: «Tive boa nota no exame de Português.»


Margarida Castro
dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

À Volta do Acordo Ortográfico


O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é um tratado internacional firmado em 1990 com o objetivo de criar uma ortografia unificada para o português, a ser usada por todos os países de língua oficial portuguesa. Foi assinado por representantes oficiais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, em Lisboa, em 16 de dezembro de 1990. Também Timor-Leste,depois de recuperar a independência, aderiu ao Acordo em 2004. O processo negocial que resultou no Acordo contou também com a presença de uma delegação de observadores da Galiza.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 pretendeu instituir uma ortografia oficial unificada para a língua portuguesa, com o objetivo explícito de pôr fim à existência de duas normas ortográficas oficiais divergentes, uma no Brasil e outra nos restantes países de língua oficial portuguesa, contribuindo assim, nos termos do preâmbulo do Acordo, para aumentar o prestígio internacional do português. 

Na prática, o acordo estabelece uma unidade ortográfica de 98% das palavras, contra cerca de 96% na situação anterior.
É dado como exemplo motivador pelos proponentes do Acordo o castelhano, que apresenta diferenças, quer na pronúncia quer no vocabulário entre a Espanha e a América Hispânica, mas está sujeito a uma só forma de escrita, regulada pela Associação de Academias de Língua Espanhola.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrou em vigor no início de 2009 no Brasil e em 13 de maio de 2009 em Portugal. Em ambos os países foi estabelecido um período de transição em que tanto as normas anteriormente em vigor como a introduzida por esta nova reforma são válidas: esse período é de três anos no Brasil e de seis anos em Portugal. Com exceção de Angola e de Moçambique, todos os restantes países da CPLP já ratificaram os documentos conducentes à aplicação desta reforma.

Margarida Castro
dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br 

Nota do Editor: O Brasil adiou por três anos a implementação do Acordo que está agora prevista para 1 de Janeiro de 2016.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O quase (des) Acordo Ortográfico

Angola, Brasil... ... ... Portugal, Timor...
Concordamos ou discordamos?

Data venia, vou dar também a minha opinião sobre o tão falado, discutido e assinado “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”.
Foi muito discutido! Os portugueses sentiam-se “donos” da língua, os brasileiros, representando cerca de 85% dos falantes da mesma língua, entendiam que devia chegar-se a um acordo para não se perder a língua em uns quantos novos crioulos, inclusivé o “crioulo de Portugal”. Discutiu-se, zangaram-se e por fim, mesmo de má cara, todos os países lusófonos, communis consenso, decidiram aceitar o que os viri legibus scribundis.
Post, huc et ullc foram surgindo vozes descordantes, sobretudo da parte dos “antigos donos da língua”.
Parece que todos, elogiando muito Fernando Pessoa, se esqueceram da sua célebre frase “a minha pátria é a língua portuguesa”, certamente querendo referir-se também a goeses, minhotos, angolanos, brasileiros, etc.
Quantos Acordos já se fizeram, por consenso ou imposição, desde que se escrevia assim:
“Don Denis pela gra de Ds rey de Portugal y do algarve. A quantos esta cta uire faço saber q eu recebj de ffrey Johanne Guardador e scriva domeu Çeleiyro...”
Foi D. Diniz, no século XIII quem ordenou que se abandonasse o latim para que se escrevessem em português todos os textos oficiais.
Logo no início do século seguinte Dante Alighieri escreve “A Comédia”, introduzindo, para espanto e admiração universal, uma nova língua, a que se chamou italiana.
Em Portugal quem deu todo o valor à língua portuguesa foi Camões, e em Inglaterra a língua só começou a ser uniformizada com a edição da Bíblia e a seguir com os textos de Shakspeare!
Mas desde esse tempo quanto mudou! Poucos hoje sabem ler Camões e raros, ingleses, os originais do seu grande mestre.
Lembro dois grandes escritores contemporâneos que me obrigaram a pesquisar em vários dicionários para os conseguir entender: João Guimarães Rosa e Luandino Vieira.
Rosa escreveu com a popularia verba, Luandino com algo parecido, misturando português com kimbundo, a tal popularia verba dos angolanos, sobretudo de Luanda. E o mestre Mia Couto? O que ele já criou?
Ninguém se queixou dos novos vocábulos apresentados, todos foram sucesso literário, não houve necessidade de “traduzir do “clássico” para o “hodierno”, e continuam a ser livros procurados e edições repetidas.
Vai tempo que em Portugal se falou o arcaico céltico, cartaginês, germânico, latim e árabe. Talvez até o grego com a ortografia cirílica. E o provençal. Podíamos ter feito logo um acordo ortográfico e, quem sabe, universalizar a escrita numa forma única.
Tem-se feito muita brincadeira com palavras que no Brasil e em Portugal têm significados completamente diferentes. Ninguém reclama! Então porque não continua cada um a escrever como entenda, sendo inegavelmente sua a opção? É evidente que só esta geração dos mais velhos não querem – nem eu – trocar o que para nós era certo pelo... futuro. Mas as novas gerações, se seguirem o Acordo vão entender-se melhor! Isso parece evidente.
Ipso factum, um dos pontos que ficaram assentes no Acordo foi não considerar erro quem continuasse a escrever conforme seu consuetudo. Não é erro, será simplesmente arcaico, e cada um dos teimosos sempre será livre de escrever como muito bem lhe apeteça.
Ego in porto navigo, faço uma pequena mistureba, uma espécie de maioneza linguística/ortográfica, e imagino que tenho atingido o intelecto de quem lê. Este parece ser o fundamentum omnis societatis: communicare! Como diriam os nossos vovovôs, intentio rerum!
Parece que o “grande problema”, o pomo da discórdia, gira agora em volta do VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. O Brasil já editou o que estaria prescrito no Acordo. Portugal está no “sim, não, pois...”, reclama, zanga-se e entretanto perde lugar, porque como a edição de um vocabulário desta magnitude exige um financiamento elevado e os restantes territórios com a mesma língua, certamente terão muito mais dificuldades em editá-lo... o Brasil sai na frente. É lógico.
Assinou-se o Acordo, o que significa que todos concordaram. Virou uma espécie de lei aprovada pelos parlamentos e assinada pelos presidentes das repúblicas. Ora se é lei, Dura lex sed lex.
Dixi.

Notas:
1.-Os “alguns” vocábulos em latim mostram que já evoluimos um bom pedaço: pittaciu, do latim, e pittakion do grego! E agora discute uma letra no meio da palavra!
2.- Depois o senhor Graça Moura que me perdoe, mas se retirarmos o “p” de “adopção” não vira “adução” (Jornal “O Globo”, dia 24/03/2012)! Fica simplesmente adoção. Ainda me recordo que, em português, as palavras em geral têm acentuação na sílaba paroxítana, que no meu tempo se chamavam de “graves”! Donde parece depreender-se que não só não necessitam de acento... nem do “p.
3.- O que dizer de: rego (subst.) e rego (verbo); colher (verbo) e colher (subst.);jogo (subst.) e jogo (verbo); sede, lugar e sede, avidez; seca, a roupa e seca, falta de água?

Francisco Gomes Amorim
28/03/2012

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Onze teses contra os inimigos do Acordo Ortográfico (II) *

Fernando dos Santos Neves **

«Muito mais do que questão técnico-linguística, o Acordo Ortográfico é uma questão político-estratégica», sustenta o reitor da Universidade Lusófona, no Porto, em artigo publicado no jornal Público, de 9/8/2011. Destinatários: «[Os] que ainda não entenderam que, "conosco ou sem-nosco" como humoristicamente se tem dito e escrito, em virtude da globalização contemporânea e da emergência do Brasil como grande potência (já ouviram falar do BRIC, iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China..., a que eu gostaria de ver acrescentada também a inicial "A" de Angola...?), será imprescindível a existência de um Acordo Ortográfico (por enquanto, com alguma magnanimidade dos outros parceiros da língua portuguesa).» * Trata-se de um texto mais desenvolvido em relação a outro anterior, com o mesmo título, publicado no Jornal de Letras de 14/8/2008, e em linha desde então, também neste espaço.

1. Onze Teses. Inspiram-se no célebre manuscrito de Karl Marx, simplesmente intitulado Ad Feuerbach, em que a preposição latina "Ad" significa "Contra" e em que Marx estigmatizou os conceitos e preconceitos daquele filósofo alemão, como aqui se pretendem estigmatizar os conceitos e preconceitos de todos aqueles que, consciente ou inconscientemente, continuam a fazer suas as, por opostas razões, também célebres palavras do luso ditador «orgulhosamente sós». Aliás, como é sabido, das 11 Teses de Marx contra Feuerbach foi a 11.ª, de todas a mais breve, que se tornaria também de todas a mais famosa:«Até agora os filósofos têm interpretado o mundo de diversas maneiras, mas o que verdadeiramente importa é transformá-lo»!



2. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa quer ser isso mesmo e nada mais: um acordo sobre a ortografia e não um acordo sobre o vocabulário, a sintaxe, a pronúncia, a literatura e tudo o resto (que é, indubitavelmente, o mais importante) que constitui uma língua viva e, ainda por cima, uma língua potencialmente universal como a língua portuguesa e até uma das pouquíssimas línguas potencialmente universais do século XXI, como já Fernando Pessoa anteviu nos princípios do século XX.

3. Para satisfação dos antiacordistas deverá mesmo dizer-se que, do ponto de vista técnico-linguístico, o proposto Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa padece de muitos defeitos e carece de muitos aperfeiçoamentos, sendo que até não será um exagero afirmar que a sua principal virtude é a de existir (à semelhança, por exemplo, das democracias portuguesa, brasileira, etc., que, imperfeitíssimas embora, é bem melhor que existam do que o seu contrário). Ou será que não?




4. E já agora, e como a subjacente acusação dos antiacordistas é a de que o Acordo Ortográfico constitui um verdadeiro ato de traição a Portugal (o que não deixa de fazer lembrar velhas acusações e despertar velhos fantasmas...), bastaria um mínimo de lucidez para entender que é, precisamente, o Acordo Ortográfico que permitirá a continuação da existência da língua portuguesa no Brasil, etc., a qual, sem ele, inevitavelmente se tornará, a breve trecho, a "língua brasileira”, como de algum modo principiaria a ser o caso. Sem nenhuma tragédia, aliás, para a Humanidade, mas, suponho, com algum legítimo sofrimento para todos os portugueses.




5. Além das motivações "patrioteiras", como se vê sem qualquer fundamento, há também as motivações "interesseiras" dos editores e livreiros portugueses, e que só são devidas à curteza de vistas que o nosso crónico e anacrónico analfabetismo global ainda continua a alimentar e de que as atuais Feiras do Livro de Lisboa e Porto constituem ilustríssimo documento, não tendo surtido grande efeito o pequeno ensaio por mim publicado há anos e que tinha por título: "As velhas feiras do livro português estão mortas, vivam as feiras do livro lusófono!" (Público, 10 de junho de 2006)



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6. Na verdade, muito mais do que questão técnico-linguística, o Acordo Ortográfico é uma questão político-estratégica e só os referidos "patrioteiros" e "interesseiros" é que ainda não entenderam isso, nem também entenderam que, "conosco ou sem-nosco" como humoristicamente se tem dito e escrito, em virtude da globalização contemporânea e da emergência do Brasil como grande potência (já ouviram falar do BRIC, iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China..., a que eu gostaria de ver acrescentada também a inicial "A" de Angola...?), será imprescindível a existência de um Acordo Ortográfico (por enquanto, com alguma magnanimidade dos outros parceiros da língua portuguesa). Será assim tão difícil de entender?





7. A já denominada «ressaca colonialista» do velho Portugal é, sem dúvida, uma das razões, por vezes inconsciente, da oposição de muitos ao Acordo Ortográfico, que não se dão conta do que isso tem de anacrónico e de ultrapassado. Quando entenderão isso tanto os velhos colonialistas de antanho, como os anticolonialistas de sempre?





8. Outro factor igualmente ultrapassado e anacrónico é o que também já foi designado de «síndroma salazarista de Badajoz», para aludir ao facto de Salazar nunca ter ido, simbolicamente, além daquela cidade fronteiriça e que, também simbolicamente, traduz a estreiteza das suas vistas e visões (suas, dele e suas, de todos estes retardatários históricos) ...




9. É por tudo isto que a questão do Acordo Ortográfico não pode deixar de estar ligada à questão da lusofonia, entendida ela também não só nem sobretudo como "questão linguística", mas sim como "questão político-estratégica" e que, nos últimos anos, depois de aparentemente ter conseguido introduzir o vocábulo nos dicionários da língua portuguesa, tenho procurado estender a outros níveis, nomeadamente pela recorrente formulação da seguinte "tese": mais que projeto ou "questão cultural" e até "linguístico-literária", a lusofonia é um projeto ou uma "questão de estratégia comum de desenvolvimento humano sustentável e de espaço geopolítico próprio no globalizado mundo contemporâneo. O que também é válido para a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), que deveria adotar o nome mais cairológico e menos restritivo de "Comunidade Lusófona".





10. Que, ao menos, não se chame a qualquer "Manifesto contra o Acordo Ortográfico" "Manifesto em defesa da língua portuguesa", porque não haverá maneira mais eficaz de acabar com esta, independentemente, claro, das boas intenções de muitos dos ditos "manifestistas", aos quais, não sem alguma maldade, já foi aplicada a sentença evangélica: «Perdoai-lhes porque não sabem o que dizem e escrevem!
»




11. Até aqui já se disse e escreveu quase tudo e o seu contrário sobre e contra o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa; o que importa, agora, é efetivamente começar a praticá-lo.



 À falta de uma verdadeira Academia Lusófona da Língua Portuguesa (finalmente proposta na "XIV Semana Sociológica", realizada no Porto, a 7, 8 e 9 de abril de 2008), esperemos que o Governo da nação e toda a sociedade portuguesa não venham a ser condenados por falta de comparência a este apelo e desafio da História.

08/08/2011

** Sobre o Autor:
Criador da primeira licenciatura portuguesa de Ciência Política. Primeiro reitor da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e da Universidade Lusófona do Porto.

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Texto enviado por:
J. CHRYS CHRYSTELLO, Presidente da Direção,
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