DEMOCRATIZAR A DEMOCRACIA.
As crianças brincam aqui na
praceta. Oiço o barulho que fazem, as fantasias que inventam. Um anda no
baloiço e é trapezista, outro anda de bicicleta e é o líder do prémio da
montanha pois chegou em primeiro lugar ao cimo da montanha que se ergueu nas
voltas que dava à praceta, outro joga à bola e é o Cristiano Ronaldo enquanto o
outro diz que é o Messi. As brincadeiras das crianças são a sério e elas são
sérias a brincar. Enquanto brincam são aquilo a que brincam.
Da mesma forma que com outras
ocupações e profissões.
Os sapateiros são a sério e
a prova é que andamos calçados, os pedreiros também o são porque temos casas
para morar, os agricultores igualmente porque nas nossas mesas “caiem” as sopas,
as saladas e muitos outros alimentos (infelizmente alguns não têm nada disto). E
os pescadores também são a sério. E os artistas que nos oferecem outros mundos,
outras realidades, também. E os professores que nos ajudam a aceder aos
conhecimentos.
As árvores também o são com
seriedade e temos os frutos, a lenha, as mesas, portas, janelas, barcos para
navegar, para o provar.
E a água que nos sacia e
lava.
Enfim poderíamos prosseguir
por aqui afora mas, já agora que se aproximam mais umas eleições, chegamos aos
políticos. Políticos que deveríamos ser todos mas que como sabemos não somos.
Não políticos no sentido de profissão, antes no sentido da participação.
Políticos no sentido da cidadania.
Pois bem, quanto aos
políticos, que temos?
Os
políticos e os partidos políticos só ganham razão de ser se com a sua acção
contribuírem para a resolução dos problemas das pessoas já que é para isso que
a política serve, é isso a política.
Como
problemas das pessoas entendam-se as questões relacionadas com o trabalho, a
educação, a saúde e a justiça económica e social, sendo que todas as restantes
serão derivadas e sucedâneas destas. Se não for para isto, a política tenderá a
evoluir para um exercício de retórica onde a demagogia e a arte de bem falar
(muitas das vezes sem nada dizer) ganharão a primazia, e para a defesa de
interesses em lugar de princípios e valores.
Cada
um deverá fazer a sua própria leitura a partir do que observa e verifica e das ideias
e sentimentos que tal lhe proporciona mas, talvez seja tempo de cada um assumir
um papel mais activo e participativo nesta chamada vida política e que mais não
será que o exercício da cidadania. A participação na actividade social e
política não se esgota nos partidos políticos. Muito longe disso, há muitas outras
formas de organizar e concretizar a nossa participação e muitas outras poderão
ser criadas se disso houver vontade. Parece-me ser essa a condição primeira
para democratizar a democracia e rasgar outros horizontes quando os que nos
oferecem não nos servem.
Foto: Edgar Cantante; Texto: Manuel João Croca
