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sábado, 13 de abril de 2024

1976, A Evolução dos Cravos

Risoleta Pinto Pedro 

Caros amigos e amigas venho divulgar, para o caso de não terem conhecimento, a estreia da ópera "1976, A Evolução dos Cravos", com libreto de minha autoria e música de Vítor Rua, sobre a Revolução de 74 e a Constituição de 76, celebrando os 50 anos do 25 de Abril. No Forum Municipal de Setúbal estreia dia 12 e continua dia 13, sábado, às 21h, e dia 14, domingo, às 17h. Mais tarde a 19 de abril, na Casa da Música Jorge Peixinho, no Montijo, e no dia 18 de maio no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães (...).

FICHA TÉCNICA:
Mariana Chaves interpretará Eulália. Gonçalo Martins interpretará Vicente.
Bilhetes disponíveis na bilheteira, ou em: 

Celebrando os 50 anos do 25 de Abril, esta ópera apresenta uma visão psicadélica sobre acontecimentos históricos e sobre a natureza e resposta diversa do ser humano, perante os desafios de ambientes sociais e políticos complexos.
Música: Vítor Rua
Libreto: Risoleta Conceição Pinto Pedro
Encenação e Coreografia: Iolanda Rodrigues
Figurinos: Sara Rodrigues
Vídeo cenográfico: Simão Rodrigues
Comunicação e Imagem: Maria Madalena
Direção Artística e Musical: Jorge Salgueiro, composer
CANTORES
Eulália: Mariana Chaves
Vicente: Gonçalo Martins
Latifundiário (pai de Eulália): Mário Redondo
Mulher dos cravos: Ana Filipa Leitão
Salazar: Inês Constantino
Oráculo Ouruborus: Helena de Castro
Consulente (Filósofo): David Martins
Estudante: Mafalda Louro
República: Sara Batista
Personagens coletivas: CORO SETÚBAL VOZ e ACADEMIA DE DANÇA CONTEMPORÂNEA DE SETÚBAL

domingo, 31 de outubro de 2021

Animais híbridos, ou das mil e uma maneiras de não cozinhar bacalhau

Esta é uma história leve. Tão leve como ficam os pratos que inadvertidamente, por vezes, deixo sobre a pedra à altura de uma cadela.

Devem os leitores conhecer um livro de receitas que tem por título algo como as mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau. Pois eu estou a preparar um intitulado as mil e uma maneiras de não cozinhar bacalhau.

Tenho uma cadela que é especialista em bacalhau. Não que tenha muitos conhecimentos técnicos, se não admitirmos a apreciação do sabor como um conhecimento técnico. Arranja sempre maneira de se aproximar do fiel amigo (esta expressão deve ter surgido por causa dela), e se tiver ocasião propícia, consegue ingerir vários lombos de uma assentada. Penso, até, que a receita de bacalhau espiritual poderia ter sido inspirada nela, porque ainda ontem quando ia desfiá-lo para misturar com os outros ingredientes, estava a tal ponto reduzido após uma sua passagem de reconhecimento pela cozinha, que o que ficara no prato só mesmo com visão remota seria possível ver o bacalhau, praticamente despojado de matéria, translúcido, como na visão dos clarividentes.

Como o leitor já percebeu não é bem uma cadela, é um exercício espiritual, um guru do despojamento (nosso), uma plataforma para o completo vegetarianismo, do qual já estivemos mais longe, um método de aprendermos a dispensar alimento sólido, como os yoguis que vivem do prana, ou do sol.

Mas nem com estes assaltos à cozinha consegue tirar-me do sério. Porque vejo nela e nos seus irmãos residentes: caninos, felinos e tartarugas, uma qualidade de amor urgente que encontro especialmente em alguns animais na rua acompanhados de pessoas visivelmente infelizes, das mais variadas formas, pelas mais variadas razões. Neles reconheço mansidão, entrega, silencioso afecto, sacrifício até ao limite. Já tem acontecido, quando o sol incide de particular forma sobre estes animais, principalmente nos cães, elevar-se do pêlo uma espécie de penugem que se assemelha, perturbadoramente, a asas.


Risoleta C Pinto Pedro

 

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Eduardo Aroso, A Quinta Nau


por Risoleta C. Pinto Pedro


É o título que tenho o privilégio de ver aqui a navegar nas estantes de poesia, livro necessário, porque estamos num tempo em que, mais do que de Messias necessitamos de naus. É que as naus não nos prometem nada, apenas são o que são, com a memória do que foram. E somos nós que as governamos. Recomendo a sua poesia, porque tem música. Ou não fosse o poeta, e este poeta, concretamente, também um músico. A cadência é a das naus perfeitas que navegam por todos os tempos e todos os elementos.
Fecho o livro e traço, com o lápis, no papel, as palavras sobre estes poemas. É um som antigo, o do lápis a deslizar sobre o branco, diferente daquele do teclado. Este é quase inaudível. Percorro o papel como uma nau faria no mar e o lápis é caravela em tempo calmo, singra sem obstáculos, à maneira destes poemas.
Este livro fala de nós, do antepassado sangue. É um desafio ao enigma que aprofunda para lá da superficial mente.
Cada poema é uma parte de uma carta de navegação que lembrando o sentimento e o ensinamento da História, guia o moderno português que abre o seu coração à viagem, a um outro navegar, não menos arriscado ou emocionante, que é a que se faz dentro de cada um.
Navega na esperança, esta Poesia, como a luz de um farol em que a Pátria pode transformar-se a partir do barco parado que aparenta.
Na tradição do nosso Romanceiro, soa à voz dos avós, que transporta como eco.
A “Toada do Pinhal de Leiria”, tão actual e urgente, deveria ser lida em todas as escolas pelos meninos, como uma espécie de hino alternativo. É a história da nossa navegação por mar e por terra, em cinco estrofes. Por seu lado, “O Ignoto Árabe” traz-nos o deserto agora aqui.
Os versos são belos, mas alguns elevam-nos, pela surpresa de quase excessiva beleza: «Já não há um amanhecer inteiro,/ Como requer a pureza do sal».
A estrofe que se segue a estes versos é firme como a Fé:
«Sei que as armadas do futuro/ Recrutam discretamente/ Marinheiros que dormem pouco,/ Os que sonham agitados e soltos.»
Fala-se da Pátria de modo diferente, como um ciclo, porque diferente é o caminho que o Poema vê. Traz o poeta os símbolos para a Poesia, e com o símbolo cria Poema.
O Poema “Cavalo Branco” é uma cavalgar das quinas entre a morte e as crinas. Nesse tropel, observamos os fantasmas que talvez sejamos nós: «mansa visão».
Alguns destes textos, quase haikais lusitanos de estrofe livre e versos irregulares de certeiro remate, formam um bordado tradicional.
Por vezes confunde-se o retrato de D. Sebastião com o nosso:
«Que avança sempre,/ Simulando que cai…». E não será ele… nós? E não seremos nós… ele?
Mas também a distância que vai entre a história, o mito e o coração e percorrendo essa distância assim se constrói a realidade, tal como o extraordinário poema sobre a realeza do mais humilde. É bem verdade que a nossa alma está aos nossos pés e o sapateiro-profeta que habita a nossa história bem o sabe, tal como a importância do que faz.
Eduardo Aroso constrói poemas e repete, em cada um, com diferentes palavras, que nada do que é real pode ser ameaçado. A vitória é certa e se o combate tem de se fazer é apenas para confirmar o real. Receitas secretas da alquimia antiga. Aqui temos, em verso simples, mas não menos belo, mas não menos complexo, a história misteriosa da alma lusitana. A rima não é forçada pela música, é consequência natural do tema, pois a sabedoria do espírito ilumina a matéria e cria um livro de poemas sobre as pedras, os corpos, os mitos, os milagres e as gentes. Sem concessões ao fácil, eleva a pedra de construção que somos e onde nos lemos. Não há um olhar nostálgico, há uma visão de reconhecimento e identidade do que somos ou do melhor que em nós adivinhamos vir a ser, já o sendo, sem o saber. Visão arguta da História Nacional em suporte simbólico-poético numa estrutura da aristocracia do pensamento.
Belo, fluido e sem peias, este livro. Modo de nos conhecermos melhor. Um olhar de dentro para dentro com ritmo de verso cadenciado em dança ritual.

Risoleta C. Pinto Pedro
4 de Abril de 2018

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

S. Martinho, justiça e liberdade


Risoleta C.Pinto Pedro

Perguntamo-nos o que é a liberdade, se existe, se somos livres, de que modo podemos aproximar-nos disso que consideramos ser a liberdade. Se me sento ou não se sento, se vou pela esquerda ou pela direita e digo que isso é a minha liberdade, talvez os outros acreditem. Mas eu acredito nisso? Falo alto porque tenho a liberdade de o fazer, ou porque estou irritadíssima e o fígado quer fazer-se ouvir mais alto do que eu? Se uma vez admitindo que estou irritada com o que aconteceu ali naquela esquina, quem me garante que o que ali sucedeu não foi apenas um eco do episódio dos seis anos, por sua vez um eco do episódio dos seis meses, pro sua vez um eco do episódio de …? Ou de antes… ?

E que tem isto a ver com o recente e inocente S. Martinho, o do dia das castanhas?
Conta a lenda que ao ver um pobre com frio, num dia de chuva, com a sua espada cortou a própria capa ao meio para com ela cobrir o sem abrigo. Nisto, deu-se o milagre. O mau tempo parou. Daí, o verão de S. Martinho. 

Que tem isto a ver com justiça, com liberdade?
É a espada. A espada e Marte. S. Martinho foi baptizado por Marte. Mas o seu coração está tão temperado de compaixão, como o metal da sua espada foi temperado pela forja do amor. É o coração que dita o gesto deste Marte ou Martinho bem temperado como castanhas portuguesas.

O Marte destemperado não é guiado pelo coração, mas pela mente. Pelo medo. O gesto livre é justo e parte do coração. O gesto condicionado é injusto e parte da mente. O gesto ditado pelo generoso amor dá o verão de S. Martinho. O gesto ditado pelo ambicioso medo dá o aquecimento global. Esse, que agora é moda dizer-se que não existe.
Vejas as diferenças, como nos passatempos do jornal. E deixe as notícias. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A Literatura, o Suicídio e a Cura


por: Risoleta C. Pinto Pedro

A literatura pode ser vista como lenitivo e bálsamo, mas também como  instrumento de compreensão e estudo dos processos psicológicos, nomeadamente os que conduzem ao suicídio e à morte. Ou à redenção e à vida.

O bálsamo encontra-se no refúgio de um livro, no sentimento de segurança que este dá pelo acolhimento, pela alternativa a um mundo que se sente como hostil, pela entrada no universo imaginado e inspirador do poema ou da ficção.

A compreensão dos processos encontra-se na análise do grito de dor dos poetas ou escritores, mais ou menos sincero, mais ou menos fingido, ou ainda sinceramente fingido:
Fernando Pessoa verbaliza-o como ninguém: “Que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente.“

O que distingue o suicídio de muitas outras causas de morte é principalmente a urgência e a falta de esperança. O suicida não quer ou sente que não pode esperar. Quer o alívio já. O ser encontra-se tão desesperado, tanto desacredita da vida, que nem por esse final descanso ele espera. É como se tudo tivesse de depender dele, como se qualquer alívio, ainda que sob a forma de morte, tivesse de ser ele a auto proporcionar-se. Não admira que esteja cansado. É demasiada carga sobre um pobre mortal. Só a vida dá bastante que fazer. Ser-se também senhor da morte já é trabalho para deuses.

O suicida vê-se como uma ilha única num mar hostil. A literatura mostra que o sofrimento, o desespero, o sentimento de sem saída é vivido pela humanidade desde sempre. O cansaço é velho como o ser humano, a rebeldia do coração universal, a impotência é humana, a incapacidade para lidar com isso, antiga e partilhada.
O sentimento de vingança do ser humano em relação a si próprio ou em relação ao mundo em si simbolizado, aparece denunciado neste poema do século XV:

“Coração, já repousavas,
já não tinhas sojeição,
já vivias, já folgavas;
Pois por que te sojugavas
outra vez, meu coração?

Sofre, pois te não sofreste
na vida, que já vivias;
sofre, pois te tu perdeste;
sofre, pois não conheceste
como t'outra vez perdias!

Sofre, pois já livre estavas
e quiseste sojeição;
sofres, pois te não lembravas
das dores de que escapavas,
sofre, sofre, coração!”

Jorge de Aguiar [Séc. XV-XVI]

É a impaciência em relação a si mesmo, a incapacidade para viver a repetição, para re-sentir aquilo que o fez sofrer, a ausência de qualquer tipo de auto-compaixão, a vingança contra si. Que no limite pode assumir a auto-destruição. Uma forma de se vingar da vida e de todos os que com ele coabitaram o mundo e não o salvaram.
Antes, D. Dinis censurara os trovadores provençais por não levarem o amor a sério e por sobreporem o fingimento à sinceridade dado apenas fazerem versos na Primavera, isto é, inspirados pelo exterior. Contrapõe  com a autêntica dor que habita o seu coração, que antecipadamente responsabiliza pela sua morte. Podemos entender esta morte como a disposição de um amante para ir até às últimas consequências do amor que não recusa, apesar da dor, ou uma morte simbólica, a morte do artificialismo e da superficialidade aqui simbolizada pelos provençais. É esta morte que lhe dará vida, visto que ele é um guerreiro, vencedor sobre os floreados poéticos, sacerdote de um culto sério e arriscado que é o amor. Outro nome para vida.

Proençaes soen mui ben trobar
e dizen eles que é con amor;
mais os que troban no tempo da frol
e non en outro, sei eu ben que non
an tan gran coita no seu coraçon
qual m'eu por mha senhor vejo levar

[…]
Ca os que troban e que s'alegrar
van eno tempo que ten a color
a frol consigu', e, tanto que se for
aquel tempo, logu'en trobar razon
non an, non viven [en] qual perdiçon
oj'eu vivo, que pois m'á-de matar.

Já no século XX, 1916, em Paris, o poeta Mário de Sá-Carneiro, posterior suicida,  encena burlescamente a sua morte. Um funeral ridículo, ou uma espécie de vingança de si mesmo. Pos-mortem:

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro

A um morto nada se recusa, “ ou a esperança de que a morte traga, finalmente, aquilo de que a vida foi avara: a festa, o amor, a atenção, a satisfação dos mais loucos caprichos. ~

Este poema e o de Jorge de Aguiar (não o de D. Dinis), são expressões de ressentimento em relação a si mesmo ou em relação ao mundo. O ressentimento é o que verdadeiramente mata, é uma corda de enforcado, um veneno, um revólver dentro do ser, uma espécie de canivete suíço auto-suficiente até para a morte. Agindo activa ou passivamente. Rápida ou lentamente.

No poema de Jorge de Aguiar , o poeta recriminava o coração por ser recalcitrante, por não ter aprendido com a dor passada por não deixar de amar.

Ora o coração sabe, melhor do que ninguém, do que precisa. E do que ele precisa, ainda que doa, é de amar. O coração não é um simples cofre ou reservatório de sangue, é um motor de amor.

E aqui entramos na nossa mais remota tradição poética, aquela que igualmente dá a palavra ao homem e à mulher, através das cantigas de amor e de amigo.
Nas de amor: o respeito por um código, como um protocolo, a honra, a palavra.
Nas de amigo a saudade, a espera, a emoção. Assim se completam.

Falo da incontornável tradição cavaleiresca dos séculos XII a XIV, a ordem de cavalaria a que obedeciam os trovadores, aqueles que estão nas fundações dos também designados por Fiéis do Amor.

Como afirma Pedro Martins em O Céu e o Quadrante: “a poesia portuguesa conhece desde a sua génese, uma dimensão iniciática que a vincula à sabedoria.”
António de Macedo refere a mesma ordem dos trovadores, de natureza iniciática e dispondo de linguagem cifrada, que aqueles que não aprofundaram reduzem a mero artifício literário. Ela está cheia de referências ao «Amor cortês», à «Senhora», à «formosa Dama Fulana ou Sicrana».  Mas a realidade não é apenas de ordem sentimental. As «Leis do Amor», rigorosas e bem delineadas, eram verdadeiros graus de Iniciação com, segundo António de Macedo “seus ritos, chaves e limites”:
«O primeiro grau é o de feignaire, hesitante, ou melhor: aspirante; o segundo é o de pregaire, postulante; o terceiro é o de entendeire, auditor; e o quarto é o de drutz, amigo ou iniciado. Este último grau era atingido quando, tendo chegado ao 3º grau, entendeire, o fiel auditor era finalmente brindado com o AMOR DA SENHORA, mediante um beijo que ela lhe dava: o osculum fraternitatis. Depois disto ele tornava-se um drutz, um iniciado, um amigo, um verdadeiro Fiel do Amor, servente incondicional da Domina Lux, Senhora-Luz - e a partir de então ele passava a ter o direito de baptizá-Ia» (Aroux 1854, 461-462).

Ora este é o caminho do um ao três. Pela união com a amada, a criação de algo novo a que se dá um nome novo. A criação do novo que é, simultaneamente, a salvação pelo verbo. A palavra poética.

Sendo o suicídio, no limite, um saudável anseio, pois no fundo o que impulsiona o suicida é a cessação do sofrimento, ou um grito de socorro, logo, algo a que poderíamos chamar o impulso para o bem estar ou a felicidade, o problema não está no propósito, mas no método.

Porque no fundo aquilo por que anseia o suicida é aquilo por que anseia toda a humanidade num universo dividido: o regresso ao Paraíso.

O Paraíso pode ser a infância ou, recuando ainda mais, aquele momento de beatitude da total osmose com a mãe quase Deus da gestação, onde a proteção era praticamente divina, ou, se quiserem, podemos recuar ainda mais, a algo que não sabemos, a tal saudade do que não conhecemos, e que o poeta porta Fernando Pessoa define no poema “Não sei se é sonho se realidade” como:

“Ali, ali,/ a vida é jovem e o amor sorri”

 Mas também ele diz:

“Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.”

Nada nos garante que a morte, e sobretudo a violência auto-imposta da privação da maior das dádivas, traga aquilo a que a alma aspira. Há até, quem acredite que o que acontece é precisamente o oposto, mas não vamos entrar por aí, que não é por isso que aqui estamos.

Ou melhor, como canta o poeta da Mensagem, é preciso “passar além do Bojador” se queremos “passar além da dor”, é preciso percorrer até ao fim o caminho de dor e de dualidade, porque como afirma no poema anteriormente citado:
“é em nós que é tudo”

É a expressão de uma quase omnipotência que não nos separa do mundo, mas mostra o nosso poder interno de destruição. Ou de restauração. Sendo esta construída dentro de nós, mas com o outro, através do poder do amor. Como os poetas iniciados tão bem sabiam, tão bem continuam a saber.

Percebemos assim que a dualidade está em nós e a resolução dela também.
Que o caminho não é o do dilacerado dois recuando para o impossível e inalcançável um, porque do passado histórico, aquele que não volta nunca mais, se é que alguma vez existiu fora da nossa imaginação, mas o da conciliação do aparentemente inconciliável, a ilusória dilaceradora briga, e transformando a luta de Jacb com o anjo no abraço do tango. A transcendência é isto. Não a fuga, mas a dança depois da luta, em que nasce um terceiro elemento a que poderíamos chamar a Esperança, o Espírito Santo, o V Império ou o presente eterno desde sempre em potência dentro de nós. O caminho do 2 ao três, a dualidade que, grávida, cria. Não a que recua.

Ou, como acreditaram os trovadores poetas, os iniciados cavaleiros fiéis do amor, a cura está no amor, morrer por amor é matar em si aquele que quer matar-se e fazer viver aquele que ama como quem diz fiat, ou como quem canta. A palavra poética.
Prossigamos com a poesia:

“Vem, camarada irmão,
Erguer sobre os meus versos o teu canto.”

Miguel Torga (Libertação)

“Sobre os teus versos, só a eternidade.
Pobre é o meu canto.
Sobre os teus versos é que o tempo há-de
erguer as catedrais do nosso espanto.”

António Arnaut

Há nos dois poemas, quer no que serve de epígrafe, quer no poema de António Arnaut, a alusão a dois criadores: “os meus versos” e “o teu canto”, num caso;  “os teus versos” e “o meu canto”, no outro.

No primeiro, o canto ergue-se sobre os versos, no segundo os versos erguem-se sobre o canto. Sobre ambos, a eternidade e as catedrais de espanto.

A eternidade não é a morte, mas a vida. A eternidade é erguida sobre os versos, os “teus”, os versos do poeta, responsáveis pelo espanto de quem os recebe, espanto tornado em catedrais. Assim sendo, a salvação pela poesia: por quem a cria e por quem a recebe. Sendo que quem cria é, também, quem a recebe e aquele que a recebe, ou leitor, é também, de alguma forma um co-criador com o poeta. Como bem se viu no poema com sua epígrafe.

É também deste olhar criador e libertador que fala Pascoaes. E do seu in-verso:
“[…]
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
- Que incêndio! – E eu, a rir,
Disse-te: - É a lua cheia!...
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei, sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo;
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu...
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.
[…]”

 O Poeta, o alquimista do Amor, esse que não receia beijar a Lua,  não recusou acompanhar a amada, esteve com ela no infernal céu, esse lugar sedutor, mas regressou ao mundo, porque detém a palavra de Amor e poder do beijo que é uma espécie de abraço em forma de sopro, processo iniciático de alta e alva magia que é a palavra poética, transformadora  do ardente incêndio em fresca lua. A Amada não conseguiu, ficou no Céu, um lugar longínquo para onde fogem os que  temem e não vencem o temor da Lua incendiada no Céu. Mas não podemos assegurar que o buscado e mítico Céu não seja, precisamente, esse incêndio. Que se esconde por detrás da Lua.

É verdade que os escritores também se suicidam, e temos alguns casos na nossa literatura, no entanto não é esse seu suicídio que nos move a nós, leitores, mas esse seu outro lugar que é o da palavra, que nunca morre, pois que dá vida a quem lê. O imposto auto-sacrifício é um mistério que não julgamos, apenas analisamos pela compassiva lupa que é a lua ou a palavra poética. Aquela única que os e nos ressuscita dos lugares onde nos matamos. De onde, por ela, nós, trovadores, poetas e leitores iniciados, nos salvamos.

O poema que se segue, de Bocage, faz uma perfeita síntese de como o caminho da dualidade, na sua plena consciência, conduz ao Amor. Que é a Vida. E conclui, por mim, esta comunicação, que melhor fecho não teria.

Amor a Amor Nos Convida
Com dura e branda cadeia,
Com facho activo e suave,
De seus mistérios co'a chave,
Amor entre nós volteia:
Já deprime, já gloreia,
Já dá morte, já dá vida;
E nesta incessante lida,
Que em si traz, que em si contém,
Com o mal, e com o bem,
Amor a amor nos convida. 

Bocage o sábio mestre do paradoxo, onde reúne morte e vida e assim cria, com palavras, o poder que tudo transcende.


P.S.: Texto de conferência da celebração do dia Mundial da Prevenção do Suicídio promovido pelo SOS Voz Amiga, no Fórum Roma, Lisboa, em 10/9/2015.