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quarta-feira, 1 de junho de 2022

A Linguagem dos Pássaros

José Flórido

A  propósito de um texto recente, perguntou-me um Amigo a razão por que, nesse texto,  fiz referência à 'Linguagem dos Pássaros'. Confesso que não o sei dizer inteiramente. Mas, a "Linguagem dos Pássaros" é talvez a linguagem do Amor, sendo certamente por esse motivo  que o poeta persa do século XII, Farid ud Attar,  atribuiu esse título a um grande poema místico, que contem a essência do pensamento sufi. E é, de facto, uma verdadeira epopeia do Amor.

Depois de um prólogo de grande beleza, o autor apresenta uma reunião de pássaros, em que a grande Guia, a Poupa,  insiste na importância de um coração puro, para que  seja possível seguir o Caminho conducente ao Supremo, a Via do Amado, que "está bem próxima de cada um de nós, mas em que nem todos estão próximos dela". Convida então outros pássaros, no sentido de seguirem por esse Caminho superior. Mas, a maior parte, recorre a desculpas tolas, recusando avançar: O rouxinol argumenta que, para ele é suficiente o amor da rosa; o papagaio pretende apenas beber a água da fonte 'verdejante'; o pato sente-se satisfeito com a superfície da água onde costuma nadar; a perdiz ambiciona as pedras preciosas; o falcão pretende somente a companhia dos reis; a garça quer  desfrutar a beleza de uma gota de água à beira-mar; e o pardal, reconhecendo a sua própria fragilidade, receia a caminhada...

Mas, para se empreender esta Viagem, é preciso, além de um coração puro,  possuir as virtudes da coragem e da constância, porque isso envolve o 'Combate interior' (Jihad) com as nossas próprias fraquezas e limitações. Para a Poupa, "só aquele que abre os olhos para o Amor e que sabe que o Amor é a substância do Universo", é capaz de alcançar o Supremo objectivo.

Eis alguns fragmentos do Poema: 

A LINGUAGEM DOS PÁSSAROS E AS TRANSFORMAÇÕES DA ALMA

.

Oh, homem do Caminho, não leias o meu livro como lírica ou como fruto da altivez. Observa o meu texto sob o prisma do amor, para que de cem dores de amores confies num deles. Quem isto observar sob o prisma do amor, lançará para a sua presença a bola do triunfo.

Esquece o ascetismo e a simplicidade: é necessário amor, amor e renúncia.

Todo aquele que tem amor renúncia ao remédio, aquele que deseja remédio renúncia à alma. “A Linguagem dos Pássaros”, de Farid ud-Din Attar, versos 4495 a 44991

.

Há um caminho para os que, de coração, cheguem ao rei, mas para o coração extraviado não há caminho. Idem, verso 1137

.

Espalhei por aqui e por ali as rosas deste jardim, que fique boa memória de mim, amigos!

No meu livro, cada um e a seu modo se vê a si mesmo num instante e se deixa de ver.

Também eu, pois, como os que partiram, descobri o pássaro da alma perante os adormecidos.

Se, com este livro, o coração de um constante adormecido for despertado por um instante,

Terei então a certeza de ter cumprido o meu dever e a minha inquietação e tristeza terão fim.

Como uma tocha ardi longo tempo para iluminar, chamejante, um mundo.

Como da tocha, saiu fumo do meu cérebro. Chama da eternidade, até quando soltarei este fumo? Idem, versos 4519 a 4525

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

VACUIDADE E FÍSICA QUÂNTICA


"Para um budista Mahaya, que conhece o pensamento de Nagarjuna, há uma ressonância indubitável entre a noção de vacuidade e a nova física. Se, ao nível quântico, a matéria se revela menos sólida e definível do que parece, isto para mim signifia que a ciência se está a aproximar dos conceitos budistas de vacuidade e interdependência. Por ocasião de uma conferência em Nova Deli, ouvi Raja Ramanan, um físico chamado Sakharov indiano, estabelecer paralelismos entre a filosofia da vacuidade de Nagarjuna e a mecânica quântica. E depois de ter conversado ao longo dos anos com muitos amigos cientistas, adquiri a convicção de que as grandes descobertas da física desde Capérnico dão corpo à ideia de que a realidade não é aquilo que nos parece. Quando estudamos o mundo com uma potente lente de observação --- seja pelo método científico ou de análise meditativa --- verificamos que as coisas são mais subtis do que -- e nalguns casos contradizem --- os pressupostos da nossa visão do mundo baseada no senso comum" (DALAI LAMA)

Porque não sou cientista e reconheço a minha ignorância naquilo que diz respeito à física moderna, não estou autorizado a comentar estas afirmações. Neste caso, a simples percepção intuitiva de certas realidades não é suficiente. Será preciso também a intervenção da razão e da ciência objectiva. Mas, o Dalai Lama teve oportunidade de conviver com muitos amigos cientistas, entre eles o próprio David Bohm que, baseado nos seus trabalhos de física quântica, manifestou em certos aspectos convergência com Nagarjuna. Não deixo ainda de evidenciar que a Tradição Gnóstica Ortodoxa, por intermédio de um dos seus sistematizadores, Boris Moravieff, reconhece igualmente que a resolução do problema humano tem também de passar necessariamente pela convergência entre a Ciência Tradicional, a que se tem acesso por Revelação, e a ciência moderna que, partindo do exterior, se serve dos meios cada vez mais sofisticados de observação e de experimentação. Na sua obra, "Gnôsis", diz a determinada altura: "Nos seus laboratórios, a ciência contemporânea parece que em breve vai alcançar o ponto mais elevado da escala dos elementos mais subtis, e poder-se-á pensar que ela se encontra muito perto de atingir o ponto em que se vai cruzar com as buscas espirituais esotéricas (Gnôsis - 3º Volume - Ciclo Esotérico - pg 77). Penso que será interessante uma reflexão mais profunda sobre este assunto.

José Flórido (facebook)


sábado, 23 de dezembro de 2017

José Flórido


Creio que só podemos compreender o que se encontra relativamente próximo de nós. Nem o que está muito acima nem o que está muito abaixo. Somente o que está perto. Aquilo de que ainda conservamos a recordação, por ser marco ultrapassado há pouco, ou aquilo para que estendemos as mãos e conseguimos agarrar, após alguns pacientes e esforçados passos. O que está muito acima é quase sempre entendido como loucura, excentricidade, imoralidade ou despudor; e o que está muito abaixo f...oge também ao nosso entendimento, como infra-humano, tão repugnantes e aviltantes nos parecem certas atitudes.


Erich Froom terá provavelmente razão ao sugerir a necessidade de se criar um Conselho Superior de Cultura, cuja missão seria a de aconselhar os governos, os políticos e os cidadãos em todas as questões relativamente às quais certos conhecimentos sejam absolutamente necessários. Mas, talvez - porque acredito que o mundo, apesar das graves perturbações que sobre ele pesam, não esteja entregue às forças do acaso - tal Conselho já tenha mesmo existência real, ainda que disso se possa não estar inteiramente consciente. Contudo, a ser verdade a sua existência, duvido que quem dele faça parte integrante se vá preocupar em demasia com as minúcias das análises políticas, com as previsões dos economistas e, enfim, com o circulo vicioso das incertezas e das intrigas a que, infelizmente, essas análises têm, muitas vezes, conduzido. Afinal, tudo que parte de um nível muito elevado é geralmente confuso e pode, à primeira vista, parecer divorciado ad realidade. Mas, como diz uma máxima latina, "Aquila non capit muscas" (A águia não se entretém a apanhar moscas)!

22/12/2017
in, Facebook

sábado, 18 de novembro de 2017

José Flórido


Creio que se deve adquirir, cada vez mais e melhor, uma perspetiva holística da realidade. Daí que a atividade criadora exija que o ser humano se esforce no sentido de usar todas as suas faculdades, desenvolvendo-as harmoniosamente em todas as direções. O que só é possível, evidentemente, desde que se reconheça primeiramente a relação de interdependência entre todas as coisas. É por isso que observo com alguma desconfiança as supostas vantagens de certas especializações, send...o até costume dizer-se, com alguma ironia, que um "especialista é alguém que sabe muito de pouca coisa".
Ora, apesar de já vivermos numa era, designada por Pós Industrial, em que o trabalho físico é realizado, na sua maior parte, pelas máquinas, e o mental pelos computadores, não deixa no entanto de ser interessante refletir no conteúdo do seguinte apontamento:


"Quando Henry Ford começou a fabricar um determinado modelo de automóveis, eram necessários 7882 trabalhos especializados. Ford observou então que, desses 7882 trabalhos especializados, 949 requeriam homens fortes, aptos e praticamente perfeitos fisicamente; 3338 requeriam apenas homens de força física vulgar, podendo a maior parte dos restantes ser executados por mulheres ou por crianças crescidas. O que levou Henry Ford a afirmar friamente: "verificámos que 670 desses trabalhos podiam ser desempenhados por homens sem pernas; 2637 por homens só com uma perna, 2 por homens sem braços, 715 por homens só com um braço, e 10 por homens cegos."
De onde se conclui que uma tarefa especializada não exige uma pessoa inteira. Mas apenas uma parte."


quarta-feira, 19 de julho de 2017

José Flórido

Certo jornalista, durante uma entrevista que fez ao Dalai Lama, comentou a determinada altura: "Vocês, budistas, acreditam na reencarnação..." Ao que o Dalai Lama respondeu: " Não se trata de uma crença... Quem não sabe isso, é por ignorância."

Fiquei a pensar. Na verdade, muitos, que dizem "acreditar na reencarnação", são tão ou mais ignorantes a esse respeito que aqueles que "acreditam". E têm, aliás, a vantagem de não estar, como os outros, iludidos por um falso saber. Por...que, afinal, o que o representante supremo do budismo quis dizer é que só pode saber verdadeiramente alguma coisa sobre este assunto quem tenha uma experiência real desse facto ou, talvez, quem consiga abrir as portas do seu próprio ser ao Saber real, ou infuso, que lhe permita ter acesso imediato a esse conhecimento.

Confesso, no entanto, a minha incerteza, ou a minha falsa certeza. Mas, admito que a palavra "reeencarnação", não seja a mais adequada, porque as "personalidades" não reencarnam. Talvez, por esse motivo, os termos "Recorrência" ou "Renovação" sejam mais expressivos e traduzam melhor a ideia contida no simbolismo da "Espiral": a de que tudo se renova e se projeta numa outra dimensão, abrindo-se um novo ciclo de vida.

Acreditar na reencarnação é muito pouco. Como é muito pouco acreditar em Deus. Disse, por isso, Agostinho da Silva:
"Crente é pouco
sê-te Deus
e para a nada que é tudo
inventa caminhos teus"

José Flórido
Facebook

sexta-feira, 16 de junho de 2017

José Flórido


Não creio que se tenha sempre uma ideia correta do fenómeno cultural na nossa vida. Mas, quase todos nós falamos sobre a importância da Cultura: Às vezes, por exemplo, dizemos que determinado programa, apresentado num canal televisivo, é "cultural" e que outro o não é; outras vezes, empregamos a expressão "cultura geral" (sem que se saiba bem o que isso é), quase sempre de acordo com a ideia de "acumulação" de conhecimentos, básicos e geralmente superficiais, sobre variados ramos do saber. E se consultamos um dicionário, vamos encontrar, entre outras aceções, o conceito de Cultura como um conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes, etc. Mas, talvez a ideia mais precisa de Cultura surja associada a Agricultura, que é, como sabemos, a atividade que tem por objetivo a preparação do solo, tendo em vista a produção de vegetais úteis ao homem.. De facto, sem uma cuidada preparação do terreno, as sementes lançadas à terra não poderão produzir plantas de boa qualidade. E o mesmo acontece connosco: Se a preparação intelectual, ética e estética for insuficiente, é impossível que os conhecimentos e as informações adquiridos, produzam pensamentos e obras de valor elevado. Pretendo com isto dizer que a Cultura não deve apenas ser concebida de um ponto de vista quantitativo, mas, sobretudo, qualitativo. A Cultura fundamenta-se em valores, expressa-se como valores e promove valores. Os valores são o património da humanidade ou de um povo, a experiência adquirida ao longo dos séculos, materializada nas suas realizações técnicas, científicas e artísricas. E o que devem promover esses valores? Devem promover a justiça, a paz, a beleza, a verdade e o amor. Contudo, não devemos perder de vista a relatividade dos valores. A lei do progresso implica muitas vezes a negação do que é, a ultrapassagem do que já foi adquirido e a sua substituição por novas realidades.
Concebida apenas de um ponto de vista quantitativo, a Cultura tem vindo a perder a sua dimensão espiritual, dando lugar ao "culto das exterioridades", porque a simples acumulação de conhecimentos, de factos, de informações e de "coisas" apenas pode contribuir para degenerar ou eliminar a nossa capacidade criadora. Tem razão, por isso, a tradição budista quando afirma que "o acúmulo de conhecimento sobre conhecimento serve somente para aumentar a ignorância".

José Flórido
(Facebook)

sábado, 6 de maio de 2017


José Flórido

Parece que as folhas do calendário já vão sendo insuficientes para incluir todos os dias que nós inventámos: O dia do pai, o dia da mãe, o dia dos avós, o dia dos filhos, o dia dos netos... Mas, porque temos, afinal, de estar sujeitos a tantos convencionalismos? Melhor seria, creio eu, celebrar apenas o "Dia de Hoje", sem lhe atribuirmos qualquer designação, mas, ao mesmo tempo, incluindo nele todos os acontecimentos verdadeiramente importantes, todas as pessoas que amamos e todas aquelas que contribuiram para a promoção da humanidade. Foi por isso que decidi, neste "Dia de Hoje", reavivar a memória de Agostinho da Silva, sem que isso tenha, evidentemente, qualquer relação com a data do seu nascimento ou com a data da sua morte. Sinto agora a sua presença, bem nítida, e oiço a sua palavra firme, conciliadora e abrangente, sempre adequada a cada situação e a cada pessoa. Palavra, acompanhada de um gesto acolhedor, sereno e fraterno, que melhor explicitava e complementava as suas ideias, Vejo ainda aquele seu rosto jovial e aquele seu olhar de criança sábia, expressando convictamente os seus sonhos de visionário, capaz de mobilizar os outros para a ação, através da sua disponibilidade de pensar, pois, conforme me dizia numa carta, "o máximo da ação (e é disso que precisamos hoje acima de tudo) só virá com o máximo de disponibilidade (e talvez seja essa a palavra que melhor poderá dar a ideia de "vazio" ou de "nada" de Lao Tse). "Disponibilidade", "vazio", esse "nada que é tudo" e ainda o seu devaneio de "ser poeta à solta" eram palavras, expressões e atitudes com que nos contagiava e despertava. Pois, Agostinho era um ensinamento vivo. E quão distante estava ele dos velhos modelos de pensamento que pretendem quase sempre "formar" - ou "dar forma" - às outras pessoas, de acordo com certos conceitos perfeccionistas acerca do que está certo e do que está errado, do que é verdadeiro e do que é falso, do que é bem e do que é mal.

Monge e marinheiro eram as suas atitudes perante a vida: Monge, pela sua superior solidão e pelo desapego ao "ter", pois que era do seu agrado, como também me dizia, "viver pobre, viver modesto, viver estudando para mais ter de adorar, viver servindo, viver eliminando os problemas próprios para ter apenas os dos outros, viver com os pés no possível para atingir o impossível"; e marinheiro, pela mística de realizar o sonho de novas Descobertas que, agora, pudessem ligar o mundo pelo apelo à vida conversável e pelo abraço fraternal entre todos os povos.

Por tudo isto, e por muito mais que aqui não consigo dizer, daqui - deste mundo que ele nunca quis que fosse "i-mundo" - o saúdo e procuro expressar a minha gratidão neste poema que lhe dediquei

E assim foste palavra, gesto, ação...
E monge e marinheiro a tua lida.
Um nada que foi tudo e ressurgida
a tua voz deu voz ao coração

Com todos celebraste e foste irmão
Desmoronando os muros desta vida.
E logo a velha taça remetida,
surgiu outra mais bela em tua mão

O teu olhar permaneceu tão puro.
E o teu rosto tão velho de criança
expressou, sem um disfarce, eterno sim.

E quando as caravelas do futuro
levarem os teus sonhos, tua esperança,
o mar com fim vai ser o mar sem fim.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Vivências


José Flórido

     Antigamente, havia Cafés que eram verdadeiros centros de convívio. Alguns eram mesmo autênticas Universidades livres, como o Café Colonial, nos Anjos, que eu considerava uma espécie de dependência da minha casa. Quando saía, muitas vezes cansado e pesaroso do meu emprego, ou mesmo depois de já ter jantado, encontrava sempre ali um refúgio mágico, uma convivência cordial de estudantes, de professores, de escritores e de jornalistas. E, dentre os mais assíduos, saliento as figuras que pontificavam pelo saber e pela experiência: O José Marinho, pensador platónico, saudosista e metafísico, e o Álvaro Ribeiro, filósofo de fundo aristotélico. Mas havia mais: o António Quadros, o Orlando Vitorino, o Jorge Preto, o António Telmo, o Luís Espírito Santo, o Fernando Sylvan, o António Braz Teixeira, a Ana Hatherly, a Natália Correia, o Luís Furtado, o Fernando Vasconcelos, o Luís Zuzarte, o Alberto Gonçalves... E apareciam também, de vez em quando, o Delfim Santos e o Sant' Anna Dionísio... E, foi a partir de quase todos estes pensadores que se criaram dois órgãos de divulgação literária: O "57" e, mais tarde, a revista "Espiral". 

    Quando nesses convívios o diálogo não atingia sempre o mesmo nível e parecia declinar, aproximando-se da superficialidade ou mesmo da mediocridade, o José Marinho dizia, com um sorriso irónico: "Isto, nem sempre pescada, nem sempre sardinha..." . Dele, recordo a sua presença de Mestre e reavivo a gratidão de ter sido por seu intermédio que tive o privilégio de conhecer Agostinho da Silva. Dele, recordo também a sua "Teoria do Ser e da Verdade", livro tão laboriosamente e demoradamente escrito, sobre o qual quis também apresentar uma leitura. E memorizei mesmo, até ao dia de hoje,  o parágrafo inicial, não porque disponha de uma memória acima do normal, mas porque aquelas palavras, genialmente alinhadas, que o compunham eram, por todos nós, repassadas inúmeras vezes: "Aquele a quem foi dado ser plenamente como a quem e negado todo o parcial ser e, no ver do que é, infinitamente ultrapassa todo o ver e saber finito, esse, no mesmo instante em que frui a mais pura alegria, sabe para sempre toda a verdade."

     
O Marinho, como quase toda aquela gente que o acompanhava, amava muito (ou mesmo em demasia) as palavras e, por isso, tentava "dizer o indizível". Considerava esse primeiro parágrafo a sua "coroa de glória", que era talvez a síntese e a perceção de tudo o que seria desenvolvido posteriormente. E quando, certo dia, lhe telefonei a dizer que o interpretara como expressão da "Parábola do Filho pródigo", ficou muito interessado e quis imediatamente falar sobre esse assunto. Encontrámo-nos então num Café próximo do local onde residia e, algum tempo depois de iniciada a conversa, declarou: "Quando você me apresentou o sua interpretação pelo telefone, pensei para comigo mesmo: "Estás completamente a leste... Mas, agora vejo que foi mais longe do que eu pensava... e acho até que a sua leitura é muito interessante. Veja lá se me ajuda a perceber este livro!" Ora, este pedido de auxílio do autor para a compreensão de um livro, por ele próprio escrito, é quase um fenómeno hilariante. Contudo, justifica-se, se conhecermos a natureza e a dimensão do seu pensamento: José Marinho sempre me pareceu acreditar que aquilo que escrevia estava acima da sua condição humana. Tudo lhe era, de certo modo, revelado, sendo ele apenas um intermediário consciente dessa revelação. Mas, a conversa não se fixou demoradamente nesse assunto. Derivámos para o Fernando Pessoa e para o Teixeira de Pascoais, que eram os Poetas relevantes da "Filosofia Portuguesa". O Marinho era "Pascoalino". Tinha sido amigo de Pascoais e nutria por ele uma admiração quase sobrenatural. E sempre que confrontava Pessoa com Pascoais, ponderava: "Pessoa "pessoliza" a Poesia; Pascoais deixa-se atravessar por ela..." E já no fim do nosso encontro,declarou: "Você soube demasiadamente cedo certas coisas... E agora tem de sofrer as consequências...".  Mas, só muitos anos depois, consegui compreender as "consequências" a que o Marinho se estava a referir. É que tem de haver um tempo para tudo... e se nos antecipamos, quase sempre temos de pagar, mais tarde, a fatura da nossa antecipação.

     Do Álvaro Ribeiro não tenho uma recordação tão precisa. Mas nunca esqueci o facto de, certo dia, me ter advertido pela irreverência da minha juventude. Imaturamente, queria emitir opiniões sobre todos os assuntos, antes de, primeiramente, aprender a pensar e a escutar os mais sábios e os mais experientes. Hoje, dou-lhe razão. E, por isso, sempre tentei fazer ver aos meus alunos o quanto é precioso ser recetivo, antes de se ser prematuramente, e precipitadamente, emissivo, embora reconheça que a mais importante aprendizagem é, não a de escutarmos os outros, mas a de nos "escutarmos a nós próprios", ouvindo a voz do nosso Mestre interior. É nisso que consiste realmente o despertar da "Intuição", palavra que significa propriamente, e de acordo com o seu étimo, "ouvir de dentro".

      Mas foi, como já referi, o José Marinho que me apresentou o Agostinho da Silva. Para isso, convidou-me para assistir e tomar parte numas conferências que se realizavam no IADE, cujo diretor, segundo creio, era o Lima de Freitas. No dia aprazado,  vi entrar na sala um homem modestíssimo, quase um campónio, mas irradiando uma fascinante serenidade. Era o Agostinho. Cumprimentou as pessoas presentes e, depois, dirigindo-se a mim, perguntou: "E este senhor, quem é?" O Marinho fez a apresentação. E o Agostinho da Silva, que não me conhecia de lado algum (nem eu a ele), declarou com um sorriso imensamente franco: Tem graça... era mesmo consigo que eu queria falar..."

in, http://joseflorido.weebly.com/textos/vivencias
3/15/2017

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Uma breve reflexão sobre Krishnamurti


     José Flórido

     Como pretexto para uma breve reflexão sobre Krishnamurti, vou começar por me referir à controvérsia entre Salih e Rabiya, dois iluminados mestres sufis:
     Salih dizia aos seus discípulos (tal como Jesus também o disse) para não cessarem de "bater à porta que alguém a viria abrir". Que significado tem "bater à porta"? Na linguagem dos místicos "bater à porta" significa o trabalho persistente sobre nós próprios, no sentido de procurar a verdade. Trabalho que inclui, para além da oração e da meditação, muitas outras atividades, como o estudo de obras filosóficas e religiosas, as palestras, as conferências e até mesmo aquilo que costumamos designar por "serviço".

     Ora, enquanto para Salih era indispensável "bater incessantemente à porta" a fim de se alcançar a autorrealização, para outro grande mestre, Rabiya, tratava-se de um procedimento completamente inútil e absurdo. "Quantas vezes precisas tu de dizer a mesma coisa? - perguntava Rabiya. Porque estás sempre a insistir na necessidade de "bater à porta"? Ora, a porta já está aberta. A porta sempre esteve aberta. É portanto tolice bater a uma porta que já está aberta."
        
      Dois mestres iluminados. Duas opiniões contrárias. Qual deles tinha razão?
      À primeira vista, não parece plausível que dois mestres da dimensão de Salih e de Rabiya estivessem em total contradição. Quem estaria certo? De acordo com a nossa lógica, um deles, deveria estar errado. Se Salih considerava que era necessário "bater incessantemente à porta" e Rabiya dizia o contrário, afirmando que a porta sempre estivera aberta, não podiam estar, ambos, certos. Um deles estava, com certeza, errado. Mas, não será possível um outro ponto de vista? Não será possível estar para além do "certo" e do "errado" e admitir que os dois pudessem ter razão?

      Rabiya tinha razão porque, de facto, a porta está e esteve sempre aberta. Mas Salih também tinha razão em querer que os seus discípulos não cessassem de bater à porta: É que o comum das pessoas não percebe que a "porta está e esteve sempre aberta". Por isso, precisam de bater muitas vezes à porta. Não para que a venham abrir, mas, para que, um dia, se possam aperceber de que a porta esteve sempre aberta. Então, talvez exclamem, surpreendidos: "Olha...afinal, a porta estava aberta! Porque estive eu, então, a bater, durante tantos anos, à porta? Bastava um simples empurrão...

    Cheguei agora ao ponto que pretendia: Haverá alguma relação entre Krishnamurti e aquilo que se acabou de dizer? Penso que sim. Por isso, cito uma afirmação por ele feita, numa das suas conferências, relativamente ao processo de busca da verdade: "Em geral, "buscamos", porque nos sentimos muito confusos. Mas com a mente nova, em cada instante, nunca estamos a buscar. A ideia de "buscar e achareis" é, para mim, totalmente absurda". E, mais adiante, numa referência à meditação, declara: "A meditação é importante, mas não o "como" meditar, não a prática da meditação, não a maneira de manter certas visões que são infantilidades que, infelizmente, foram exportadas do Oriente para o Ocidente."

    Pelo exposto, se vê que, tanto para Krishnamurti como para o mestre sufi Rabiya, é absurdo o processo de busca, que consiste em "bater a uma porta que está sempre aberta". Todas as técnicas, assim como a relação mestre-discípulo são inúteis para Krishnamurti. Mas, será mesmo assim em todas as circunstâncias? Porque razão Krishnamurti é hostil em relação às técnicas? É que condenar as técnicas também é uma técnica. Podemos chamar-lhe a "técnica da não-técnica". E Krishnamurti não foi o primeiro a usar esta técnica da "não-técnica". Bodhidharma, que introduziu o budismo Chan (ouZen) na China também a aplicou. Aliás, esta ausência de técnicas é uma característica do Zen. E Krishnamurti está muito próximo do Zen.

     Tudo o que Krishnamurti diz é estritamente verdade. Contudo, o que ele revela não é compreendido pela generalidade das pessoas que têm assistido às suas conferências, porque quem o quer ouvir vai à procura de uma resposta para as suas inquietações. Vai à procura de um "como". E essa resposta nunca é dada por Krishnamurti. Esse "como" é sempre recusado.

     Neste aspeto, Buda foi explícito: "Quando alguém quer atravessar um rio, serve-se de um barco. Mas, depois de chegar à outra margem, não vai andar com o barco às costas". Trata-se, evidentemente, de uma alegoria: O barco representa os meios, ou técnicas, de que nos servimos para alcançar a autorrealização. Mas, logo que esse objetivo é alcançado (a outra margem do rio), o barco (as técnicas) deixa de ser necessário. A diferença entre o ponto de vista de Buda e o de Krishnamurti consiste no facto do primeiro reconhecer a necessidade do "barco" antes de se alcançar a outra margem, enquanto Krishnamurti recusa, pura e simplesmente, a necessidade do "barco", em qualquer circunstância. Todos devem atravessar o rio a nado.

   Krishnamurti é, provavelmente, alguém que já está na outra margem. Alguém que fala a linguagem dos "despertos", mas que, talvez, não disponha, ou não queira dispor, de uma corda para puxar os outros. Ora, no estado em que se encontram a quase totalidade das pessoas, a "corda" é necessária, o "barco" é necessário, as técnicas são necessárias. É preciso portanto não cessar de "bater à porta", como disseram Salih e Jesus, para que, um dia, se possa perceber aquilo que Rabiya e Krishnamurti afirmaram, ainda que de modo diferente: A porta está e esteve sempre aberta.

in, José Flórido - TEXTOS ( http://joseflorido.weebly.com/textos )

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Pitágoras, a sua Escola e os "Versos de Oiro"


por José Flórido
1/4/2017

 "Tal como o íman atrai o ferro, também os nossos pensamentos e os nossos atos atraem a resposta divina" (Pitágoras)

     Pitágoras nasceu na ilha jónica de Samos, por volta de 570 a. C. , tendo fundado em Croton, na Itália meridional, uma escola célebre, de carácter filosófico, religioso e político, onde floresceram as Ciências Matemáticas, a Música e a Astrologia, mas a disciplina do silêncio, o ascetismo, assim como a meditação e a contemplação, também faziam parte integrante do seu método de ensino.

    Diz-se que esteve no Egito e na Babilónia, onde adquiriu muito do seu saber. No Egito, estudou profundamente as Matemáticas sagradas, a ciência dos números ou dos princípios universais, que lhe permitiram compreender a involução do espírito na matéria e a sua evolução para a Unidade. As doutrinas dos outros filósofos, como Tales e Anaxandro, pareceram a Pitágoras contraditórias, levando-o, por isso, a procurar a síntese e a unidade. Considerou a existência de uma Lei Ternária, que rege a constituição do Cosmos, e de uma Lei Septenária, que preside ao seu desenvolvimento (e que se pode expressar através das sete notas musicais).

   O objetivo da escola de Pitágoras não era propriamente ensinar a Ciência esotérica a um círculo de discípulos escolhidos, mas, principalmente, aplicá-la à educação da juventude e à vida do Estado. Nesta escola, só aqueles que eram designados Mestres podiam ensinar as Ciências físicas, psíquicas e religiosas, sendo os jovens admitidos às lições dos Mestres e aos diversos graus de Iniciação, de acordo com a sua inteligência e boa vontade. Mas a aceitação dos noviços era difícil, porque Pitágoras impunha muitas restrições à sua entrada, dizendo que nem toda a madeira servia para fabricar a estátua de um deus. Porém, uma vez admitido, o noviço era convidado pelos outros jovens a participar nas conversas, onde acabava sempre por revelar o seu caráter e a sua verdadeira natureza. Pitágoras observava-o então de modo indireto. Estudava os seus gestos e as suas palavras, dando especial importância à sua maneira de rir, porque considerava o riso a revelação mais profunda da alma. O discípulo tinha então de se submeter a duras provas para se decidir da sua continuidade na escola. Uma dessas provas consistia em passar uma noite absolumente só numa caverna, onde se dizia que surgiam aparições aterradoras. Aqueles que não tinham coragem para suportar essa prova eram considerados demasiamente fracos e tinham de desistir. Outras vezes, após um dia de meditação sobre o significado de um determinado símbolo, o noviço entrava no círculo dos outros discípulos que lhe faziam perguntas a que ele não sabia ou que dificilmente era capaz de responder. Pitágoras observava de perto as suas reações. Se ele se enfurecia, era imediatamente eliminado da escola; mas, se, pelo contrário, era capaz de manter a calma e respondia com humildade e sensatez, dispondo-se a repetir tantas vezes a mesma experiência quantas fosse necessário para adquirir o conhecimento que lhe faltava, era felicitado pelos seus companheiros e poderia prosseguir na aprendizagem.

     Os VERSOS DE OIRO continham os princípios básicos do ensinamento pitagórico. De manhã até à noite, soavam aos ouvidos dos discípulos:

VERSOS DE OIRO DE PITÁGORAS
(Versão de Felix Bermudes (?))

Preparação  

Presta a Deus imortal o culto consagrado;
Conserva a tua fé; dos vultos do passado,
Ou santos ou heróis, louva a divina ação.

Purificação

Sê bom filho e bom pai; sê justo como irmão,
Amável como esposo; escolhe como amigo
Aquele que tiver luz para repartir contigo
E dê conselhos bons que o porte não desminta.

Se o fogo das paixões for cinza nele extinta,
Imita o seu exemplo, escuta o seu conselho,
Sê tu, para o refletir, um voluntário espelho;
Jamais te afastes dele por fútil discrepância;
Enjaula dentro em ti a fera da arrogância.

Sê sóbrio, ativo e casto; evita a irritação;
À raiva fecha a alma, ao ódio o coração.
Em público ou privado, o mal jamais pratiques;
E a quem te der lições, escuta e não critiques.
Respeita-te a ti próprio; o sábio verdadeiro
Nada diz, nada faz, sem refletir primeiro.

Sê justo. As más ações são catacumbas frias
Para sepultar, na morte, os bens e as honrarias;
Toda a riqueza é vã se foi contra um dever;
O fácil de ganhar é fácil de perder.
O cálix da amargura imposto pela sorte
Aceita-o, resignado. Ele te fará mais forte.
Em mil fiéis ao erro, um só busca a verdade;
Mas Deus protege o sábio e livra-o da maldade.

O filósofo aprova ou condena sem tédio
E onde encontra o erro incapaz de remédio,
Afasta-se e espera. "Afasta-se e espera!"
Grava bem esta lei. Medita-a, considera
Quanta inútil pendência ele pode evitar-te.

Com todos sê cortês; sê nobre em toda a parte.
Não dês exemplos maus; nem os sigas tão-pouco; 
Agir sem fim nem causa é proceder de louco.
Olhos e ouvidos cerra a todo o preconceito,
A todo o fanatismo ou julgamento feito
Preconcebidamente e só por teimosia;
Seja tua e só tua a razão que te guia.

Não pretendas fazer o que a tua ignorância
Não permitir. O tempo, a atenção e a constância 
Hão de trazer-te um dia o poder que te falta.
​Aprende a servir, eis a ambição mais alta
Que deve nortear a tua vida inteira.

Cuida bem do teu corpo, o trabalho aligeira
Quando ele se queixar, mas não lhe satisfaças 
Apetites boçais. As dores e as desgraças
Começam quando o corpo ordena mais que a alma;
Se o serves uma vez, já nunca mais se acalma.

Do luxo e da avareza os modos são iguais.
Diferentes na aparência, irmãos em tudo o mais.
Procura encontrar sempre o justo meio termo,
Pois nunca o corpo é são, estando o mental enfermo.

Formula ao despertar o teu programa honesto
E nunca para amanhã deixes ficar um resto.

Perfeição 

Antes de adormeceres, repassa no mental
As ações que fizeste, ou para bem ou para mal.
Não repitas as más, insiste só nas boas.
Estende a compaixão aos brutos e às pessoas.
E a cada novo esforço, a cada prova rude,
Acenderás em ti a luz de uma virtude.

Assim sublimarás a Tétrada sagrada,
A tua quaternária e cósmica morada,
Alma, espírito e corpo - um embrião de Deus.

Procura com fervor abrir os olhos teus
À luz que vem do Olimpo. O teu amor é vão
Se o Céu não te cobrir da sua proteção.
Só Ele pode acabar as obras que começas
E dar-te, para o bem, o auxílio que lhe peças.

Estuda a natureza, aprende a lei sublime
Que rege a imensidade e que à matéria imprime
A vida universal. Perante estudos sérios
Abrem-se a pouco e pouco a porta dos Mistérios.

Então descobrirás a luz do teu destino
Que, por sublime Amor do nosso Pai divino,
Te chama a colaborar no Plano do Universo
Com Deuses, de quem tu és "Uno - mas Diverso".

Então, desprezarás todo o desejo fútil.
Verás que o sofrimento é criação inútil
Dos erros e do vício e da maldade crua.
O homem vive e morre a procurar um bem
Sem nunca reparar no bem que em si contém.

Quem não souber ser bom não sabe ser feliz;
É náufrago num mar de praias sempre hostis,
E entre o fraguedo atroz que a riba lhe apresenta,
Não pode resistir nem ceder à tormenta
Porque não descobriu que transporta consigo
Um farol para o guiar a salvamento e abrigo.

Por entre os vendavais dessa jornada ignota,
Tem cada qual de abrir a sua própria rota.
Uma estirpe divina impõe à humanidade
Buscar no mar do erro o porto da verdade.
A Natureza ajuda o homem no caminho,
Nunca o desamparou, nunca o deixou sozinho.

Homem sábio, homem bom, tu que já penetraste
​Os mistérios da vida e meditaste o contraste
Entre o Bem e o Mal, concentra-te um momento
E medita que Deus, ao dar-te o pensamento
E muitos outros dons que refletem os Seus,
Fez-te um Ser Imortal, porque és tu próprio um deus!

in, 
http://joseflorido.weebly.com

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Nasruddin, o mestre-escola e os ratos de laboratório


José Flórido

Estamos condicionados. E dificilmente somos capazes de nos libertar deste condicionamento e pensar por nós próprios. Pois, tanto é peso do meio envolvente, que exerce sobre nós uma influência asfixiante! Por isso, aquilo que vulgarmente se chama "cultura" não passa muitas vezes de um somatório de conhecimentos dispersos, desordenados e sem dimensão espiritual. Uma espécie de "culto das exterioridades"... (sobre isso, teremos ainda muito que falar...)
   Gurdjieff advertia frequentemente os seus discípulos dessa realidade. E referia-se ao facto das bibliotecas conterem muitos milhares de livros, escritos por "adormecidos" para outros "adormecidos". Assim, o sono pega-se com facilidade e é quase impossível acordar. É que este "saber", de que tanto nos orgulhamos, apresenta-se muitas vezes divorciado da vida, sobrevalorizando determinadas realidades em detrimento de outras. Vem então a propósito esta história:

   "Um dia, quando Nasruddin ajudava um mestre-escola a atravessar um rio de barco, disse, a determinada altura, uma palavra errada, que mereceu imadiatamente a reprovação do professor:

    - Nunca aprendeste gramática? - perguntou o mestre-escola ao barqueiro.
   - Não - respondeu Nasruddin.
   - Então, perdeste metade da tua vida.
   Mas, alguns minutos depois, foi a vez de Nasruddin perguntar:
   - O senhor nunca aprendeu a nadar?
   - Não - disse o professor.
   - Então, vai perder a vida toda, porque vamos afundar-nos.

   Estamos realmente condicionados. E, por isso, a nossa vida assume muitas vezes um aspeto puramente convencional e até mesmo "mecânico". As nossas palavras, os nossos gestos, os nossos atos são mecânicos, repetitivos, perdendo a espontaneidade e a criatividade. Por esse motivo, temos de estar "vigilantes" se nos queremos libertar, pelo menos parcialmente, desse condicionamento. Os nossos atos provêm de solicitações do mundo exterior que exercem sobre nós um domínio tirânico. Tanto as nossas ideias como as nossas ações são, por assim dizer, "fabricadas", de acordo com os interesses e os objetivos da organização social onde estamos inseridos. Tudo isto nos leva a pensar que não são unicamente os ratos de laboratório que podem estar "condicionados" (segundo a experiência de Pavlov e a sua teoria dos "reflexos condicionados"). Também o homem pode estar "condicionado". Por isso, o psicólogo inglês, Hans Eysenck, parodiando a experiência de Pavlov, contava uma engraçada anedota sobre o rato de laboratório que dizia para o outro rato: "Sabes... tenho um homem muito bem "condicionado". Sempre que carrego nesta alavanca, ele deixa cair um pedaço de comida para mim."


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9/12/2016