«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!»
Agostinho da Silva

sexta-feira, 30 de março de 2012

O quase (des) Acordo Ortográfico

Angola, Brasil... ... ... Portugal, Timor...
Concordamos ou discordamos?

Data venia, vou dar também a minha opinião sobre o tão falado, discutido e assinado “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”.
Foi muito discutido! Os portugueses sentiam-se “donos” da língua, os brasileiros, representando cerca de 85% dos falantes da mesma língua, entendiam que devia chegar-se a um acordo para não se perder a língua em uns quantos novos crioulos, inclusivé o “crioulo de Portugal”. Discutiu-se, zangaram-se e por fim, mesmo de má cara, todos os países lusófonos, communis consenso, decidiram aceitar o que os viri legibus scribundis.
Post, huc et ullc foram surgindo vozes descordantes, sobretudo da parte dos “antigos donos da língua”.
Parece que todos, elogiando muito Fernando Pessoa, se esqueceram da sua célebre frase “a minha pátria é a língua portuguesa”, certamente querendo referir-se também a goeses, minhotos, angolanos, brasileiros, etc.
Quantos Acordos já se fizeram, por consenso ou imposição, desde que se escrevia assim:
“Don Denis pela gra de Ds rey de Portugal y do algarve. A quantos esta cta uire faço saber q eu recebj de ffrey Johanne Guardador e scriva domeu Çeleiyro...”
Foi D. Diniz, no século XIII quem ordenou que se abandonasse o latim para que se escrevessem em português todos os textos oficiais.
Logo no início do século seguinte Dante Alighieri escreve “A Comédia”, introduzindo, para espanto e admiração universal, uma nova língua, a que se chamou italiana.
Em Portugal quem deu todo o valor à língua portuguesa foi Camões, e em Inglaterra a língua só começou a ser uniformizada com a edição da Bíblia e a seguir com os textos de Shakspeare!
Mas desde esse tempo quanto mudou! Poucos hoje sabem ler Camões e raros, ingleses, os originais do seu grande mestre.
Lembro dois grandes escritores contemporâneos que me obrigaram a pesquisar em vários dicionários para os conseguir entender: João Guimarães Rosa e Luandino Vieira.
Rosa escreveu com a popularia verba, Luandino com algo parecido, misturando português com kimbundo, a tal popularia verba dos angolanos, sobretudo de Luanda. E o mestre Mia Couto? O que ele já criou?
Ninguém se queixou dos novos vocábulos apresentados, todos foram sucesso literário, não houve necessidade de “traduzir do “clássico” para o “hodierno”, e continuam a ser livros procurados e edições repetidas.
Vai tempo que em Portugal se falou o arcaico céltico, cartaginês, germânico, latim e árabe. Talvez até o grego com a ortografia cirílica. E o provençal. Podíamos ter feito logo um acordo ortográfico e, quem sabe, universalizar a escrita numa forma única.
Tem-se feito muita brincadeira com palavras que no Brasil e em Portugal têm significados completamente diferentes. Ninguém reclama! Então porque não continua cada um a escrever como entenda, sendo inegavelmente sua a opção? É evidente que só esta geração dos mais velhos não querem – nem eu – trocar o que para nós era certo pelo... futuro. Mas as novas gerações, se seguirem o Acordo vão entender-se melhor! Isso parece evidente.
Ipso factum, um dos pontos que ficaram assentes no Acordo foi não considerar erro quem continuasse a escrever conforme seu consuetudo. Não é erro, será simplesmente arcaico, e cada um dos teimosos sempre será livre de escrever como muito bem lhe apeteça.
Ego in porto navigo, faço uma pequena mistureba, uma espécie de maioneza linguística/ortográfica, e imagino que tenho atingido o intelecto de quem lê. Este parece ser o fundamentum omnis societatis: communicare! Como diriam os nossos vovovôs, intentio rerum!
Parece que o “grande problema”, o pomo da discórdia, gira agora em volta do VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. O Brasil já editou o que estaria prescrito no Acordo. Portugal está no “sim, não, pois...”, reclama, zanga-se e entretanto perde lugar, porque como a edição de um vocabulário desta magnitude exige um financiamento elevado e os restantes territórios com a mesma língua, certamente terão muito mais dificuldades em editá-lo... o Brasil sai na frente. É lógico.
Assinou-se o Acordo, o que significa que todos concordaram. Virou uma espécie de lei aprovada pelos parlamentos e assinada pelos presidentes das repúblicas. Ora se é lei, Dura lex sed lex.
Dixi.

Notas:
1.-Os “alguns” vocábulos em latim mostram que já evoluimos um bom pedaço: pittaciu, do latim, e pittakion do grego! E agora discute uma letra no meio da palavra!
2.- Depois o senhor Graça Moura que me perdoe, mas se retirarmos o “p” de “adopção” não vira “adução” (Jornal “O Globo”, dia 24/03/2012)! Fica simplesmente adoção. Ainda me recordo que, em português, as palavras em geral têm acentuação na sílaba paroxítana, que no meu tempo se chamavam de “graves”! Donde parece depreender-se que não só não necessitam de acento... nem do “p.
3.- O que dizer de: rego (subst.) e rego (verbo); colher (verbo) e colher (subst.);jogo (subst.) e jogo (verbo); sede, lugar e sede, avidez; seca, a roupa e seca, falta de água?

Francisco Gomes Amorim
28/03/2012

quinta-feira, 29 de março de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria LXXXII


Cais de Alcochete Autor António Tapadinhas
Acrílico sobre Tela 50x60cm

Na parte final do trabalho, procurei dar o máximo de luminosidade ao céu para que o rio reflectisse e ampliasse a sua luz.
A ligeira brisa matinal a afagar a superfície da água, quebra os reflexos dos barcos e do molhe, provocando chispas de luz, como que a responder num eco à luz nascente.
A sombra dos barcos é viva e canta com sons estridentes e vibrantes, como no caso do barco com o casco encarnado…
É uma obra que retrata um local, definido, concreto… Mas pretendo que, mais do que o local, seja a imagem da impressão de paz que senti, com o sol nascente, naquela manhã.
É esta a sensação que quero partilhar convosco!

quarta-feira, 28 de março de 2012

Dos Açores ao Triangulo Mineiro. Uma história familiar de sobrevivência.

  

Angustias, Horta, Faial Açores
Fonte: arquivo  particular

               Naquele final do século XVIII, no  território hoje chamando Triangulo Mineiro, graças ao médico e político francês, Dr. Raymond des Gannetes, que lhe deu o nome pela semelhança geométrica da região, delimitada pelo o encontro dos rios Grande e Paranaíba, os arraiais cresciam à volta das Igrejas, em espaços  doados por ricos fazendeiros, na maioria, homens e mulheres que chegavam do sul de Minas para ocupar aquelas  terras.

Conta a história e comprovam as pesquisas genealógicas que essas  famílias  se deslocavam de regiões auríferas exauridas para os sertões planaltinos em busca de independência ou sobrevivência, e que muitas delas tiveram origem  açoriana.  Famosas ficaram em Minas Gerais as Três Ilhoas (Antonia da Graça, Júlia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus). Naturais das Angustias, Ilha do Faial, Açores, arquipélago localizado  no Atlântico Norte, e não na costa da África, como registram vários documentos mineiros antigos . Essas três irmãs chegaram a  São João Del Rei por volta de 1723, e casadas com patrícios, deram origem a tradicionais famílias mineiras como as dos Vilela, Borges, Teodoro, Neves, Machado, Junqueira, Reis, Meirelles, Melo, Resende, Garcia, Berquó,  Betencourt, Ávila, Nogueiras, Figueiredos,... e muitas outras que tiveram um ou os  dois pés, no espaço  vulcânico açoriano. 

Mudam os tempos, a paisagem, os ventos, mas o Homem continua o mesmo. Sujeito às tempestades e vaidades humanas, rico ou pobre, letrado ou ignorante, comporta-se num uníssono, mostrando a fraqueza  humana.

                                                            Terras do Triangulo Mineiro
                                                                                                                        Fonte: Arquivo  particular


Matias da Silva Borges nasceu em Carrancas, sul de Minas em 1764. Desbravador, rico e poderoso fundou um arraial, hoje Cidade de Coqueiral. Em Lavras, casou-se com a jovem Mariana Joaquina do Sacramento, filha da açoriana Águeda Maria da Conceição (Vila do Pico). Neta de Sebastião Pereira de Oliveira e Luzia Pereira Vieira. Desse matrimonio nasceram seis filhos, dentre eles uma linda menina de nome Floriana Maria da Silva (1797).

Em Serranos, sul de Minas, em 1789, nascia Francisco Joaquim Vilela filho de José Joaquim Vilela e Maria Mendes de Brito, neto paterno de Maria do Espírito Santo (filha do casal açoriano Julia Maria da Caridade e de Diogo Garcia) e do português de Braga, Domingos Vilela, moradores em Carrancas, sul de MG. 

Os Borges e os Vilela, ricos e influentes, tinham lá suas diferenças. Eram política e socialmente rivais. Mas quis o destino traçar-lhes uma desagradável surpresa. 
A paixão foi à primeira vista, arrebatadora, quando Francisco e a bela Floriana se conheceram. Ela nos seus ainda juvenis 12 anos, ele um rapaz de mais de 20. Um romance  aconteceu às escondidas. Quando a jovenzinha engravidou, o desespero e a vergonha caíram sobre o orgulho daquela tradicional família cristã. A revolta contra os Vilela aumentou, aquilo tinha sido um ato de pura sedução, merecia castigo, vingança. Não permitiram o casamento dos amantes. Na fazenda dos Borges, longe dos Vilela, nasceu um lindo menino, fruto de um amor proibido pela arrogância e intolerância familiar.  Planejaram uma trama terrível.  A honra de jovem seria vingada e a mancha moral seria esquecida com o desaparecimento da criança. A escrava que ajudara no parto, tudo  ouvira, e passou a vigiar a criança com fidelidade canina. Naquela noite de lua cheia, ela não dormia. Deitada no sua esteira, num canto da cozinha, estava atenta aos ruídos da casa. Pressentia que algo de mau estava para acontecer. Não se enganara. Altas horas , quando todos dormiam, um vulto silencioso passou pela porta em direção ao terreiro. Levava ao colo algo envolto em panos. Desconfiada, seguiu-o de longe, descalça, cuidadosa. E viu, horrorizada, a sinistra cena: deitar a criança adormecida, no chiqueiro, para que os porcos a devorassem.  Esperou que o vulto voltasse, apressado,  para a casa, e quando ele desapareceu, correu para salvar a criança. Trêmula, levou-a para o quarto de Floriana e contando toda a história, entregou-lhe o menino. Tempos depois, salvo, nos braços da mãe, foi batizado como Manoel Francisco Vilela. Quando a mãe casou com outro, foi viver com o pai. Já adulto recebeu por causa disso o apelido de Mané dos Porcos, pelo qual era conhecido em todo o Município pratense. Morando na cidade do Prata ( rio da Prata),  no Triangulo Mineiro,tornou-se  político forte e atuante,  foi Vereador por duas legislaturas e Presidente da Câmara Municipal ( Prefeito). Casado  com Severiana Carolina da Silveira deixou em Minas e Goiás larga descendência ( 13 filhos).


Uberaba, 10/03/12

Maria Eduarda Fagundes.
(Natural da Ilha do Faial, Arquipélago dos Açores)

Fontes dos dados:
Wikipédia ( internet)
Fotos: Arquivo particular da autora
Povoadores do Sertão do Rio da Prata ( Benedito Antonio Miranda Tiradentes Borges)

terça-feira, 27 de março de 2012

INTIMIDADES


NÃO SEI SE OUTRO DIA VIRÁ

Ao som de
Madredeus


Enquanto me desfaço no teu rosto, atraído pelo teu sorriso, há nos meus tímpanos uma voz que me alonga o braço até à superfície de planetas distantes, de onde retiro e atiro o pó que ao entrar na atmosfera terrestre se transmuta em fogo-de-artifício que ao meu olhar deixa em estátua. Corre um regato dos teus dedos, um regato que me lava os momentos de vitória da morte e corro sobre os seus arrojos e salpicos feitos de esmeraldas e pétalas de margaridas, ouvindo um canto que me distende e faz planar ao ritmo de um dedilhado repetitivo de guitarra e uma voz segredando-me as fórmulas mágicas que elevam o meu corpo à condição de gás das nebulosas.
Não sei se amanhã vou estar aqui admirado deste luar que trazes nos olhos, eu rasgo a minha carne e os meus músculos com a revolta de saber que amanhã não estarei aqui, inebriado de ti, fulminado pela paz e o encanto de me sussurrar pelos teus cabelos, como um viandante cansado que sobre uma pedra descansa o queixo na palma da mão e se deixa escoar, com a mesma paciência das galáxias, liberto, completamente liberto no cativeiro dos teus gestos. Mas sei que mesmo da essência da luz, por ti esperarei até ao dia do juízo final e será de mão dada contigo que me apresentarei para pedir perdão por todos os meus pecados. E também sei que entre o ontem e o amanhã está tu, para todo o sempre estarás tu, dando-me os impulsos necessários para as minhas muitas e muitas cambalhotas entre as estrelas.
Por favor, mira para o alto que eu estou lá com a presença que a velocidade da desintegração me consente, no ar pelo efeito da aragem com que as asas dos anjos teus amigos me levam a voar pelo céu da alegria em te encontrar, eu desfeito no teu rosto, colado ao íman que é o sorriso da tua contemplação.
Olha, aceita esta mão cheia de borboletas que tenho para ti, que guardei uma vida inteira numa caixinha sagrada que abri só para ti e agora, exactamente neste instante, rogo a Deus para que seja digno de ofertar, nu de humildade e cheio de vontade de te acariciar a expressão de um afago de algodão. É claro que tenho consciência da ventura que é pingar-me em teu redor, assim como compreendo a bem aventurança que é permanecer na tua órbita e nem posso dizer que o merecesse, apesar de saber que nada mais sou que um mortal, afinal um simples mortal que, cheio de lágrimas, aceita a bênção que é viver sobre a frescura do teu deambular.
Eu tenho tão pouco para te dar, mas fui a Marte buscar uma pedra que não existe nesta superfície e prometo que de hoje em diante viverei com a preocupação de não aleijar quem quer que seja, Prometo que vou ali fazer o regaço da nossa solidão grávida de delícias e desse modo incapaz de molestar um simples zumbido, para o que me basta o calor que emana do interior com que me atiras, feito pássaro, pelo horizonte.
E esta voz feiticeira a elevar-me até à metamorfose num pólen luminoso que mansamente chove no teu tacto. Esta voz feiticeira cantando-me árias de onirismo e eu, enfeitiçado, levado por essa melodia até à margem do teu coração.
Amanhã, quando eu já não estiver aqui, saberás, só tu saberás que te estarei contemplando e acenando a partir de uma estrelinha inatingível e podes estar certa que esperarei por ti, com a mesma paciência das galáxias, até ao segundo anterior do último dia do juízo.

Alhos Vedros, 21 de Maio de 1998


FIM

CORRIGENDA:
A data do quadro "VOCAÇÕES" está indevidamente registada; trata-se de 23 de Fevereiro de 1998 e não de 2011 como, por lapso, se indicou.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Já é possível ‘visitar’ o Amazonas

Projecto do Google disponibiliza uma forma de conhecer local na Internet

2012-03-22, in Ciência Hoje
Gostava de conhecer o Amazonas? Agora isso é possível. O Google lançou ontem, no Dia Mundial da Floresta, um projecto que permite visitar virtualmente zonas protegidas com acesso restrito, como a Reserva do Rio Negro.
Através do «Street View» nos «Mapas» do Google é possível ter acesso a este local especial do planeta que, de outra forma, não seria possível visitar.
Algumas das propostas incluem uma viagem de barco pelo Rio Negro e pelos afluentes mais pequenos onde a floresta é inundada, um passeio pelos caminhos de Tumbira, a maior comunidade da Reserva brasileira, ou uma visita a outras comunidades, com possibilidade de observar animais.
O projecto foi realizado em parceria com a Fundação Amazonas Sustentável (FAS), uma organização de conservação local sem fins lucrativos, que convidou o Google para a área. No total, foram tiradas mais de cinquenta mil fotografias de rios, florestas e comunidades para criar mais de 200 imagens panorâmicas com 360 graus.
Muitas áreas do Amazonas, incluindo a Reserva do Rio Negro, estão sob a protecção do governo brasileiro com acesso restricto ao público. Desta forma, o objectivo da Google e da FAS é ajudar a disponibilizar uma forma de investigadores, cientistas e curiosos poderem conhecer melhor este local e a forma como as comunidades trabalham para preservar este ecossistema.

sábado, 24 de março de 2012

MOMENTO DE POESIA
com Manuel João Croca


                                     

                                         
AINDA HÁ POUCO, O POEMA



Não foi de chuva

o Outono

este ano.

Foi de amarelos,

castanhos e

dourados

nas árvores

que eu amo

e me amam.

Abraçaram-me

e eu, comovi-me.

Até chorei.

Ninguém viu,

mas eu sei.



Fotos: Edgar Cantante; Poema: Manuel João

Fotos das caminhadas na Arrábida, Setúbal






Fotos de Manuel Henrique

sexta-feira, 23 de março de 2012

Lao-Tse, Tao Te King, séc. III(a.C.) – o Taoísmo

Contrariamente ao que se pensou durante muito tempo Lao-Tse, ou Lao-Tzu, não foi o fundador do Taoísmo. Hoje considera-se que foi Chuang Tzu (séc. VI a.C.).

Lao-Tse, é um dos grandes filósofos da China Antiga que nos deixou o Tao Te King, um dos livros mais importantes do pensamento tradicional chinês.

Tao Te King, o Livro da Via e da Virtude:
Etimologicamente, Tao – Vida; Te – Energia; King – Virtude.

Tao, o princípio original de todas as coisas, a essência das coisas.

Texto aforístico com grande economia de palavras, onde com pouco diz-se muito; onde se crê que o dito e o não dito são absolutamente inseparáveis. “O silêncio é um amigo que nunca trai.”

Remete-nos para uma busca pessoal que só pode ser feita por cada um de nós.

O Tao exige outro género de coisas que não só a discussão, o intelecto, a discursividade mental. Nomear por palavras introduz barreiras e Ele é inominável. As palavras não podem explicar mais que uma parte do Tao. A consciência dual é muito limitada na explicação do real.

O Tao quando se nomeia é sugerido como a mãe de todas as coisas. Há uma valorização do feminino, uma matricialidade.

O Tao não tem objetivos particulares. Tudo fluí, tudo é governado sem desígnio. Procurar é perder. Tentarmos encontrar sentido é perder. Tudo já é. Sempre sem desejo devemos estar se o seu mistério queremos encontrar. Somos nascidos no tempo certo.

A eficácia da naturalidade. Tudo acontece quando tem de acontecer. A plenitude só se dá a quem se esvazie a si próprio. Quanto mais vazio mais criador. Quanto mais livres e desocupados maiores possibilidades de eficiência.

O estar livre permite encontrar a harmonia do mundo, um estado salutar (o equilíbrio Yin-Yang) – um movimento contínuo de expansão/recolhimento.

É uma arte de viver baseada numa economia de recursos: só age quem não está interessado em agir; só pensa aquele que não está interessado em pensar; só é feliz aquele que não está preocupado com a felicidade. Não acrescentar nada aquilo que já somos.

O sábio não se põe em bicos de pés. Aqueles que se elevam a si próprios acabam sempre por cair. O sábio é como a água, corre sempre a via que tem de correr. Ele não se preocupa consigo e, todavia, é o que ocupa o lugar mais proeminente. O sábio, no Tao, é comparado à criança.

“É a aprendizagem do desaprender…”, tomando uma expressão de Fernando Pessoa.

O céu trata tudo e todos de uma forma indiferente, mas benéfica.

De acordo com o Tao:
Aquele que mais tem é aquele que mais se despoja;
Aquele que mais tem é o que mais dá;
Aquele que mais se despoja não pode ter menos que o infinito.

Carlos Rodrigues

quinta-feira, 22 de março de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria LXXXI

Cais de Alcochete Autor António Tapadinhas
Acrílico sobre Tela 50x60cm

Quero jurar aos meus amigos que tanto gostaram das cores de base, que elas vão continuar a respirar na tela, embora não seja assim tão evidente na sua fotografia.
Já acrescentei os barcos que estavam fora do campo de visão, e que eram necessários para o equilíbrio da composição.
Deixei colada a pequena foto para ficarem com uma ideia do local e da minha interpretação dos sentimentos que ele me despertou.
Faltam os retoques finais.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia Mundial da Poesia: Poemas de Março

por Pedro Du Bois


MANEIRAS

melhor maneira: liberdade
coerente no estado inercial
do tempo (não antes: outubros
                equilibram planejamentos)

acalorado em expectativas: tristezas
invadem e sentem o bater
das pedras (desacerto de corpos
                   compactados em estreitas
                                                 formas).

GRITOS

Visito a passagem
perdida em curvas
inelásticas no caminho
                  unificado
                  dos seguimentos

o destroçar das oportunidades
fechadas aos descobrimentos.

Repito o grito
agudo
repito o grito
grave
repito o grito
grato

curvas sucessivas desencontram
o apressado e me arremessam
à frente em gritos futuros.

 (Pedro Du Bois, inéditos)
http://pedrodubois.blogspot.com


Meu novo livro, Brevidades, editado através do Projeto Passo Fundo, RS, será lá lançado, em abril, em data ainda não especificada;
com prefácio do Poeta Jorge Tufic, comentário (orelha) do Professor e Historiador Paulo Monteiro e 4a. capa de Tânia Du Bois.

Homenagem a Agostinho da Silva, Rómulo de Carvalho e Sebastião da Gama

clique no cartaz para ampliar
Amigos

Reenvio-vos um convite para assistirem a um programa cultural de homenagem a três figuras incontornáveis da nossa cultura: Agostinho da Silva, Rómulo de Carvalho e Sebastião da Gama.

Dia 23 de Março (Sexta Feira) 21 h. na Casa da Cultura da Quimigal no Barreiro.
Os bilhetes são 2 € de apoio à organização da Escola Secundária Augusto Cabrita.

Tenho alguns bilhetes disponíveis.

Passem a apalavra a outros amigos.

Abraços.
Joaquim Raminhos

terça-feira, 20 de março de 2012

INTIMIDADES


AMANHECERES

 
O Sol continua a espreitar pelo interior do território pertencente ao povoado vizinho. Quando a primeira baba de luz vem lembrar às cores da lezíria que devem espreguiçar as pétalas, já a passarada abandonou os ramos e, cheia de linguarejares, esvoaça e saltita para encanto de quem lhe preste atenção. Outrora, tal assunto era abafado pelos sons das passadas e pelos ditos e mexericos das demandas do trabalho. Hoje há o barulho do trânsito que as pasteleiras de outros tempos, pouco ruído faziam quando a hora era marcada pelas buzinas das fábricas. Actualmente há o tilintar das louças nos cafés e já não há tantas mulheres que se dirijam para o mercado, em busca dos condimentos da dieta diária. Ainda há os deambulares, agora por maior número e variedade de lojas e já não existem apenas as conversetas em tabernas, há gente suficiente para prosas e jornais a meio da manhã. Mas as andorinhas, mesmo estando lá, há muito que deixaram de fazer ouvir os seus piares.

Alhos Vedros, 21 de Maio de 1998

segunda-feira, 19 de março de 2012

VI Festival Internacional de Poesia



Palavra no Mundo,

Vorto en la mondo, Palabra en el mundo, Parola nel Mondo,Worte in der Welt, Rimayninchi llapan llaqtapi, Paràula in su Mundu,Cuvânt în Lume, Parole dans le Monde, Ordet i verden, Word in the world,Palabra no mundo, Ñe’ê arapýre, Paraula en el Món, Chuyma Aru,Koze nan lemond, Kelma fid-dinja, מילה בעולם (milá baolam),Nagmapu che dungu, Tlajtoli ipan tlaltikpaktli, וורט אין ועלט (Vort in Velt),Dünyada kelime, العا لمفي كلمة, lhamet ta íhi honhát, Titzaa yeezii loyuu,Dunyoda so’z ,Слово в мире, Pallabra nel mundu,
  
10 al 22 de mayo del  2012
Vamos dar uma chance à Paz

Aos poetas que também são homens de palavra, organização e ação;
Aos professores e professoras que têm a tarefa de iluminar futuros;
Às e aos jornalistas que não silenciam as verdades;
Às operárias e operários da Cultura, aqueles que fazem florescer os sonhos;
Àqueles que fazem a diferença na promoção e na criação
Às  milhares de pessoas que lutam pela Paz e pela Justiça Social

O Festival Internacional de Poesia Palavra no Mundo é um grande encontro poético que acontece em todos os lugares; é como um dia em que o mundo se amplia descobrindo o sentido das direções, a cor das coisas, a essência da vida que nos explica a Paz  com a naturalidade de suas manifestações, sem necessidade de justificativas nem discursos complexos.

Palavra no mundo é um Festival de Poesia que libera a partir de cada centímetro do planeta, de cada casa, a luz da Fraternidade, e cresce e alimenta um círculo infinito.

Isto é Palavra no Mundo: um grande encontro sem fronteiras em torno da Poesia.

Dezenas de países, centenas de cidades, milhares de ações poéticas integradas ao longo dos  últimos anos para exercer à plena voz a Poesia – pelas ruas, pelos povos, nas vilas e fábricas, salas de aula, praças e mesas de café, bibliotecas, universidades, prisões e parques  e onde a imaginação impulsione e torne possível e torne real, graças à vocação construtora de trabalhadores poetas, professores, artistas, gestores culturais...
Unidos, dizemos que entre todos nós podemos construir um grande abraço para a Paz.

E que a Paz não é o silêncio dos cemitérios; Paz não frutifica sob a opressão, não é a Paz, o produto da instauração  do medo, nem cresce no âmbito do desenvolvimento de forças econômico/ militares de intimidação.  A paz não sobrevive aos silêncios cúmplices, nem é mercadoria, nem necessita de submarinos nucleares, nem  mercenários, nem pastores  de rebanhos  alucinados em visões consumistas.
A Paz é uma criança lendo Poesia, nossos vizinhos em torno do pão e da liberdade, um canto coletivo. Isto dizemos, juntos, como palavra mágica que abre as portas dos povos para que a fraternidade sonhe conosco, o melhor futuro para todos.
Nós convocamos para construir o possível e, também, o impossível.
Palavra no mundo é uma iniciativa unitária e se constrói com a participação de todos. A ideia base é que cada um de nós organize uma atividade poética na sua cidade. A  soma de todas resultará no “Festival de Poesia em todos os lugares
Quem o acolher em cada lugar, tem plena liberdade para integrar as variantes que julgue necessárias: Música, Teatro, Artes Plásticas, Fantoches, Fotografia, Cinema, Dança, Ciência, Historia, etc.


SUGESTÕES DE AÇÕES:

Poesia na escola:
Conferências de poetas nas escolas; os professores podem trabalhar com Poesia, falar de Poesia; os alunos as escrevem,  ilustram. As ilustrações podem ser expostas na escola ou trocar  com outras escolas que também  participem ou mesmo  expor em vitrines de lojas da cidade; podem ser realizadas atividades lúdicas em torno da Poesia; interação da Poesia com a Escultura,  a Pintura, a Música, o Teatro, o Circo ou Marionetes, etc.

Canto e poesía:
Convidamos os músicos, os compositores, os grupos musicais, que programem um recital com a participação de um ou mais poetas. Dividir o cenário, musicalizar poemas e outras variantes inovadoras. O essencial é que a Música e o Canto dêem as mãos na expressão poética.

Bibliotecas:
Organizar homenagens a poetas ou recitais de Poesia. Difundir nessa semana, de maneira especial, o acervo e o patrimônio  poético da biblioteca procurando aproximar mais os livros do público, com convites a recitações, participações de autores e da comunidade. Realizar campanhas para aumentar o acervo de livros de Poesia. Divulgação do acervo nas mídias possíveis.

Jardins Botânicos, Campus Universitários, Parques:
Organizar leituras de Poesia;  plantar uma árvore pela Poesia ou em homenagem a um ou a vários poetas, com a ideia simbólica de criar, com o tempo, um “Pequeno Bosque da Poesia” ou  “Pequeno Bosque da Palavra Poética no Mundo”,  etc.

Outras ações:
Diversos grupos culturais e/ou de Poesia  têm levado a Poesia às ruas, às estações de metro, centros comerciais, prisões, hospitais, parques e museus. São planejadas  caminhadas em parques e bosques para batizar árvores com nomes de poetas finalizando os caminhos com a plantação de uma árvore e declamações. Grupos podem distribuir  poesia pelas ruas, confeccionar cartazes com poesia ilustrada, para que sejam afixados em vitrais, murais, paredes, vitrines,ônibus, etc.
A imaginação é inesgotável!

Importante:
A cada Organizador local solicitamos os seguintes dados (que deverão estar incluídos nos programas gerais e usados para divulgação):

País:
Cidade:
Lugar exato do evento:
Dia e hora:
Organizadores:
Poetas Participantes ou outros artistas:
Coordenador local do projeto e seu correio eletrônico.
Patrocinadores (se houver, embora o Festival não envolva recursos):

Para as escolas:
Nível dos alunos, dados dos professores  e outros dados institucionais que sejam oportunos.

 
Para as ações em países de línguas portuguesa, solicitamos fazer contato com Maria Regina Moura e/ou Patrícia Custódio (e-mails na listagem abaixo)

Esta sendo construído um blog em Língua Portuguesa e em caso da participação confirmada, será encaminhado o cartaz do evento.

Nada pode calar o canto, quando existem razões justas!

Em Poesia!
Um abraço cordial!



Equipo Festival

Tito Alvarado (presidente honorario Proyecto Cultural Sur) pcsur@aei.ca
Gabriel Impaglione (director Revista Isla Negra) poesia@argentina.com
Alex Pausides (presidente Festival Internacional de Poesía de La Habana) proyectosurcuba@uneac.co.cu
Carolina Orozco (responsable del blog oficial del Festival) pcsur-nc@colombia.com
Cintia Oliva (responsable de la página web del Festival) cinoliva@gmail.com
Rey D' Linares (coordina Venezuela)
sociedaddepoetas2004@hotmail.com
Maria Elena Mesa (coordina en Inglés) 
m_e_mesa@yahoo.ca
Salimah Valiani (coordina en inglés) 
well_13905@yahoo.com
Sinda Miranda (coordina radios)
sindamiranda@gmail.com
Melenn Kerhoas (coordina en francés)
melenn.kerhoas@gmail.com
Giovanna Mulas (coordina en italiano)
giovannamulas@yahoo.it
Luis Sanchez Rivas (coordina norte de Perú)
ranchoclub@hotmail.com
Maria Regina Moura (coordina en portugués)
m.rmoura@yahoo.com.br
Patrícia Custódio (coordina en portugués)
pa_custodio@yahoo.com.br
Mirna V. Viveros (coordina Centro América)
citlalmina53@gmail.com
Marisa Trejo Sirvent (coordina Universidades)
marisatrejos@hotmail.com


Festival integrante de La Red Nuestra América de Festivales Internacionales de Poesía
Festival co-fundador del Movimiento Poético Mundial.


Vorto en la mondo (esperanto), Palavra no mundo (portugués), Parola nel Mondo (italiano), Worte in der Welt (alemán), Rimayninchi llapan llaqtapi (quechua), Paraula in su Mundu (sardo), Cuvânt în Lume (rumano), Parole dans le Monde (francés), Ordet i verden (danés), Word in the world (inglés), Palabra no mundo (gallego). Ñe’ê arapýre (guaraní), Paraula en el Món (catalán), Chuyma Aru (aymara), Koze nan lemond (creole), Kelma fid-dinja (maltés), מילה בעולם (milá baolam), (hebreo), Nagmapu che dungu (mapuche), Tlajtoli ipan tlaltikpaktli (nahuatl), וורט אין ועלט (Vort in Velt),Idish, كلمة في العالم (árabe),  Dünyada kelime (turco), lhamet ta íhi honhát (Wichi), Titzaa yeezii loyuu,  (zapoteco), Dunyoda so’z  (Uzbeco), Слово в мире (ruso), Pallabra nel mundu (asturiano),
 (tibetano)               

domingo, 18 de março de 2012

MOMENTO DE POESIA
com Manuel João Croca



PRESENÇA DE DEUS EM MIM


Todo um silêncio

em derredor,

apenas penetrado pelo som

da própria voz

ou pensamento.



Aí a minha mágoa

- toda feita doçura –

nasce algures

em um lugar

impreciso

entre alma

e consciência.



Nasce,

exactamente,

onde se encontra

a si própria,

face a face,

e se reconhece.



Mais a consciência

do chão

de onde levanta

voo

e cresce.


                                                             "Fim de tarde, Deus olhando"

Fotos: Edgar Cantante; Poema: Manuel João Croca

sábado, 17 de março de 2012

O Largo da Graça


Religião

Deixo aqui alguns tópicos que poderão ser úteis para uma reflexão sobre o conceito:

- Quando pensamos etimologicamente em religião como re-ligação, entre o baixo e o alto, entre os homens e Deus, tudo se indicia como se tivesse existido um tempo de separação, ficando como legado a saudade (do reencontro).

-Não se deve confundir Igreja com Religião. Igrejas há muitas e Religiões também.

-Não se deve confundir Catolicismo com Cristianismo. Cristianismos há muitos - católicos, ortodoxos, protestantes, anglicanos…

-Não se devem, portanto, confundir algumas incongruências católicas ao longo dos tempos (inquisição, venda de indulgências, intolerância religiosa, alianças conservadoras... ), com os ensinamentos primordiais de Cristo.

-Falar de Cristianismo é uma coisa diferente de falar de outros sistemas religiosos, como o Judaísmo, Islamismo, Hinduísmo, Taoísmo, Animismo, Budismo. (Será que se pode dizer que o Budismo é uma religião?)

-Todas as religiões são concordantes num ponto, embora se lhe refiram de maneira diferenciada: através do cumprimento de determinados princípios e de determinadas práticas é possível, digamos assim, a conquista de níveis de existência mais evoluídos, ou como se costuma dizer entre os cristãos, a salvação da alma.

Para terminar o textinho deixo umas palavras Evangelho de João que me entraram casa dentro, enquanto ia rascunhando estas palavras:

”Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não atrair; e Eu hei-de ressuscitá-lo no último dia. Está escrito nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Todo aquele que escutou o ensinamento que vem do Pai e o entendeu vem a mim. Não é que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Os vossos pais comeram o maná no deserto, mas morreram. Este é o pão que desce do Céu; se alguém comer dele, não morrerá. Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo.»

Evangelho segundo S. João 6,44-51.



Luís Santos

sexta-feira, 16 de março de 2012

Sugestão para o fim-de-semana

Olá a tod@s!

Venho convidá-los para a apresentação do meu livro "Verdes Anos - História do Ecologismo em Portugal {1947-2011}", que terá lugar este sábado, pelas 15h, na Biblioteca Municipal, com apresentação de Heloísa Apolónia, deputada d'Os Verdes.

No mesmo dia, mas a partir das 21h30, intervenho numa sessão intitulada "Passado, presente e futuro do ecologismo em Portugal" na Academia Problemática e Obscura (Rua Fran Pacheco, n.º 178, em Setúbal). A sessão incluirá a exibição do documentário "Setúbal, Cidade Verde", vencedor do Prémio do Público do IV Curtas Sadinas, e inclui, claro, espaço de debate.

Para quem ainda não está familiarizado com o livro, aqui fica uma breve apresentação:

"Verdes Anos", editado pela Esfera do Caos, lidera o Top "Ciência, Natureza, Tecnologia" das livrarias Bulhosa e Leitura. :-) O livro recua às origens da defesa do ambiente em Portugal e faz o enquadramento internacional das ideias ecologistas e da evolução dos partidos verdes na Europa Ocidental.
O ensaio dá ainda a conhecer melhor os três partidos ecologistas existentes (PEV, MPT e PAN), os projectos políticos verdes que não germinaram e a acção de personalidades e grupos que têm defendido a causa ambiental junto da sociedade civil ou do Estado, além de revelar as estratégias de diversas forças políticas para se adaptarem à emergência do ideário verde.
Além de uma ampla pesquisa documental, este livro exigiu a realização de cerca de 30 entrevistas a algumas das principais figuras do ecologismo no nosso país, do veterano Gonçalo Ribeiro Telles (fundador do MPT) a Francisco Ferreira (Quercus).

Um abraço a tod@s e até sábado,
Luís Teixeira

quinta-feira, 15 de março de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria LXXX


Apeteceu-me escrever no título “Alcochete, sem Freeport”, tantos são os artigos que, nos últimos anos proliferaram nos media portugueses, por causa dessa catedral de consumo.
Alcochete é uma das mais belas vilas da margem esquerda do Tejo.
Deve ser o único ponto em que há consenso! Existem divergências quanto à data e por quem foi criada a povoação, e ao significado do vocábulo. Para mim, porque é a que mais gosto, deriva de “alca xête”, um campo deserto onde pastam ovelhas…

Cais de Alcochete Acrílico sobre Tela 50x60cm
(clic sobre a imagem)

Esperei por uma baixa-mar que coincidisse com o nascer do sol, para tirar as minhas notas, sobre a maneira como a luz brinca sobre as águas e os fundos lodosos do rio.
No conforto do estúdio, ajudado pelas fotos tiradas no local, defini a linha do horizonte, desenhei cuidadosamente o cais e povoei o rio com os barcos de maneira a dar profundidade à paisagem.
Gosto da simetria criada no canto superior esquerdo e inferior direito, que sugere um caminho para guiar o olhar do espectador. Em contrapartida, sinto que é necessário criar um motivo de interesse na parte esquerda média da tela, para valorizar a composição…
Vou parar por agora.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A língua portuguesa é um "instrumento" para estabelecer comunicação

Respeito a controversa portuguesa que determina a não aceitação, por muitos, do novo acordo ortográfico, embora julgue que se confunde "ortografia única" da língua portuguesa com uma ameaça à nacionalidade ou identidade portuguesa.

No entanto, há que não esquecer que a lingua portuguesa é um "instrumento" para estabelecer comunicação entre as pessoas. Só existe apenas um fator para definir uma boa comunicação. Se ela comunica, ou não, e esta se modificará eternamente, porque depende das pessoas, que não são estáticas, e ai temos um problema, porque se as pessoas mudam, a mudança na comunicação é inerente. E o que fazer nesse caso?

Os meios de comunicação e o povo nas ruas, dão testemunhos a todo o momento.Observamos as diversidades da linguagem portuguesa na lusofonia em muitas latitudes.  O AO 90 estabelece normas para que não fiquemos pior, pois as variantes da língua portuguesa vão ser cada vez mais, o que nos pode a levar a um distanciamento e ao surgimento de "outras" línguas.

Como exemplo, cito as palavras de Amélia Mingas  em "O português em Angola: Reflexões", no: VIII Encontro da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (vol. 1). Macau: Centro Cultural da Universidade de Macau, 1998 pp. 109-126 cit em INVERNO, Liliana. A transição de Angola para o português vernáculo: estudo morfossintáctico do sintagma nominal (em português) :

(...) uma nova realidade linguística em Angola, a que chamamos "português de Angola" ou "angolano", à semelhança do que aconteceu ao brasileiro ou ao crioulo. Embora em estado embrionário, o "angolano" apresenta já especificidades próprias (...). Pensamos que, no nosso país, o "português de Angola" sobrepor-se-á ao "português padrão" como língua segunda dos Angolanos.

Enfim, será bom refletirmos sobre a dinâmica da língua e a importância de continuarmos a conseguir comunicarmo-nos em língua portuguesa. Ou não valerá a pena esta luta pelo norma ortográfica?   Disse o poeta: "tudo vale a pena quando a alma não é pequena".

Margarida Castro
12.03.12

terça-feira, 13 de março de 2012

INTIMIDADES


AS FESTAS DAS MORÇOAS

O senhor Madeira era um poeta. Escutei-lhe várias peças da sua autoria e, inclusivamente, guardo na memória um poema que ele dedicou a uma das minhas irmãs, por ocasião da expressão pública da paixão dela por aquele que veio a ser meu cunhado. Não sei se a sua obra é vasta e se daria para dar corpo a algum livro e muito menos tenho conhecimento daquilo que os filhos possam ter feito ao espólio que, certamente, deixou. A verdade é que todos o viam tal como o defini e sempre que ele era alvo de comentários, dessa forma era distinguido para se saber de quem se estava falando. E o homem correspondia-lhes às expectativas. Quando estávamos na sua presença facilmente dávamos conta de ser uma pessoa diferente, não só pelo cuidado com que harmonizava as suas indumentárias com as situações do quotidiano, também pela linguagem e gestualidade com que respondia às solicitações mais diversas, sobretudo pelas atitudes de que se permitia, aqueles seus passarinhares pelos canteiros que ele, por moto próprio, prolongava pelas ruas que ia enchendo de borboletas. Sem embargo, melhor seria dizer que era um artista, pois a sua propensão natural para as coisas das letras e das artes, não só o levaram a escrever e encenar e ensaiar teatro como, também, a representar papéis em que, muitas vezes, conseguia elevada densidade lírica. Fossem os casos do âmbito da cultura e lá estava ele, como o responsável com que todos naturalmente contavam e, por mais novo, não havia sócio da maior colectividade do burgo que não soubesse que os serões eram maioritariamente organizados por ele. O senhor Madeira fundou e dirigiu o rancho etnográfico daquela sociedade e, ano sim ano não, repartiu com o senhor Fernando Rosa que era desenhador e também gostava de pintar com as palavras, a responsabilidade directiva pelo bom andamento da biblioteca e as actividades que aí tinham lugar e eram muitas, das sessões de leitura aos recitais, ou do destaque dos livros e exposições aos colóquios sobre variados autores.
E era alguém cheio de alegrias e rasgos de humor, de riso fácil e frontal que geralmente encarava as contrariedades com ânimo de as resolver. Por vezes vociferava e zangava-se com os mais novos, especialmente quando estes lhe baralhavam os tempos e punham em causa prazos e compromissos. “-Porra! Que na minha terra é uma cebola.” –Gritava ele, dando-se, ao mesmo tempo, à canseira de apresentar um rosto de espantar pardais e que, particularmente nas raparigas mais acanhadas, causava o susto necessário a que tudo voltasse a correr bem. No entanto, todos sabiam que era sol de pouca dura e a regra era conviverem satisfeitos até com os arrufos e as birras do criativo, mais que não fosse, pelo respeito que lhe tinham. Entre os mais velhos, nem mesmo os mais rudes ousavam caçoar da figura e, uns mais por uns motivos que outros, não havia alguém que lhe desdenhasse o trato ou a companhia.
O senhor Madeira tinha vindo muito novo da serra algarvia, chamado para trabalhar na fábrica de um parente que há anos se lançara na prensagem da cortiça com que fizera casa e fortuna, depois de ter começado como rapazola aprendiz nas compras do mato, em que ganhara a experiência e a sabedoria que o levaram a singrar na vida. Ora o senhor Madeira, como tantos outros rapazes, da mesma idade, cheios de dificuldades para encontrarem um ganha pão indígena, imitou-lhes os passos e, abandonados os bancos da escola, após um par de revoluções atrás de um balcão de mercearia, lá veio ele, no pouca terra, na busca da aventura de alcançar um amanhã melhor. Rapidamente se apercebeu que aquilo de dar cortiça à banca não era o caminho da felicidade e como era moço de virar o boi do avesso, atirou-se com unhas e dentes à instrução nocturna e quando chegou às vésperas de entrar na tropa, andava já no instituto comercial que entretanto concluiu e a partir do que ascendeu a guarda-livros da fábrica que entrementes ia crescendo. O gosto pelas leituras e a divagação era anterior a isso e o avolumar da instrução apenas lhe possibilitou dar àquelas uma maior consistência, fazendo com que o seu detentor acabasse por chegar a ser um idoso com sólida cultura. Talvez por isso ele tenha encantado a professora primária com quem constituiu família e, de certeza que também devido a isso, criou três encantadores filhos com muito carinho e atenção e o bom senso e a sapiência que deles fez gente de bem.
Infelizmente o senhor Madeira não partilhava os discursos que, no período revolucionário de Abril, apontavam como necessária a morte dos patrões e a apropriação dos meios produtivos pelos explorados, como na circunstância se falava. Isso valeu-lhe a destituição dos seus cargos na colectividade a que dedicara a vida e a pura e simples proibição de encenação de “Um Barco Para Ítaca” –teatro burguês e reaccionário, dizia-se- com que anos mais tarde se despediu numa colectividade da sede do concelho. Foi o maior desgosto que lhe podiam ter dado e lembro-me dos meus pais repararem que o homem tinha envelhecido, repentinamente, um punhado de rugas e cabelos brancos. “-Deixe lá, Senhor Joaquim.” –Confortavam-no os poucos que se mantinham chegados. “-Isto é uma cambada de ingratos que não merecem que você se preocupe por causa deles.”
Quem veio a não estar para essas palmadinhas foi um grupo de convivas de um café de bairro em que a vila se começava a expandir e onde, na ala de povoamento mais anoso, lá estava a vivenda de rés-do-chão e primeiro andar onde o poeta tinha o piano para os filhos e a janela sobre o estuário para as suas musas. Fartos do fim das diversões e das noites ideológicas que as tinham substituído, aqueles filhos de naturais e imigrantes que os engrossavam, decidiram reatar as festividades da terra que, no triénio em que aconteceram, pelos críticos foram rebaixadas à condição de festas de bairro.
Durante muitos anos, foi aquela a última manifestação da sociedade civil local, isto é, foi a última iniciativa que não contou com o suporte ou a promoção dos órgãos de poder autárquico, mas apenas com as forças e os meios que os homens bons foram capazes de reunir. Há quase uma década que aquela tradição tinha sido interrompida e quando a estreia findou, os simples foram unânimes em reconhecer que tinha sido um êxito. E também aqui pela vez derradeira, nas bocas do mundo correu o nome do senhor Madeira como a alma e a chave daquele sucesso.

Portel, 20 de Maio de 1998

segunda-feira, 12 de março de 2012

INVESTIGAÇÃO SOBRE IMORALIDADE NA RIQUEZA - A Honra do rico é a sua Toalha


António Justo

Ricos mentem mais e têm menos consideração por outros, ensina o preconceito e confirma uma investigação.

Segundo uma investigação levada a efeito nos USA a riqueza atrai a violação da lei.

Nos USA condutores com carros de prestígio são considerados como impiedosos e atrevidos. Um estudo feito veio comprovar que isso corresponde à realidade. Pessoas ricas em autos ricos transgridem mais as leis do que pessoas com carros médios ou pequenos. Os cientistas da Universidade da Califórnia (Berkeley/US-Staat K.) chegaram também à conclusão que membros da camada social superior mentem mais que membros da camada social inferior. A ganância, para os mais ricos testados, não constituía, duma maneira geral, problema moral. Nas elites é prevalente a concretização dos próprios interesses. Naturalmente que não se pode generalizar porque também nas camadas superiores há muito boa gente que se orienta por fins superiores.

Ricos não têm consideração por muitas regras porque sabem que não sofrem as consequências directamente no pelo, porque partem do princípio que o dinheiro pode comprar quase tudo. O preconceito de que os ricos não tomam a sério a moral é apoiado por esta investigação. Não é fácil manter o equilíbrio entre os próprios interesses e os da comunidade.

Na nossa sociedade contorna-se a moral com muita facilidade. A usura praticada por especuladores da Bolsa (certos ordenados de banqueiros, de futebolistas e de muitos parasitas de empresas, Estado e instituições), fazendo o seu negócio com a insolvência de firmas e Estados à custa dos trabalhadores e dos cidadãos brada aos céus.

Não se trata de condenar quem é rico mas de lembrar que riqueza implica sempre uma componente e um dever social. Se mandássemos fazer uma investigação sobre a proporção de pessoas do crime registado, certamente que as encontraríamos muito mais nas camadas baixas. Isto apenas revela a mobilizaç1bo da agressividade latente em cada pessoal desde que se encontre em determinada situação.

Com investigações poder-se-iam fomentar ainda mais preconceitos dado a virtude e o mal espreitam em cada humano. Há muita gente rica com consciência social. O problema está mais nos super-ricos, que afirmam o seu negócio com agressividade tal como acontece na condução na estrada. A honra do rico é a sua toalha mas o pobre não deve ser privado duma toalha honrada a que se possa limpar.

Riqueza um Perigo ameaçador de Estados

Muitas vezes não se nota nos pequenos a sua corruptibilidade porque se limitam a pouca. A corrupção dos ricos usa uma medida e a dos pobres usa uma outra.
O que se possui deve provir, duma maneira geral, do próprio trabalho.

O Estado deveria intervir regulando a usura escandalosa. Quem ganha mais de 25 vezes do que o salário mínimo deveria ser condicionado a empregar o excedente em instituições de caracter cultural e social. Cada pessoa quer ser orgulhosa por algo, o que é legítimo. Uma igualdade de cemitério seria catastrófica como se demonstrou nos estados socialistas; uma desigualdade vistosa e imoral, como se observa no turbo-capitalismo destrói qualquer ética de coesão social.

A sociedade em que vivemos, atendendo à sua insegurança, não favorece o desprendimento. Por isso muito boa gente se vê obrigada a precaver-se do futuro, acumulando riqueza para si e para os filhos. Uma sociedade cada vez mais contra instituições morais, cada vez mais egoísta aposta na diferenciação exagerada. Disto sofre a humanidade.

Necessita-se uma cultura da dignificação da honra no oferecer. Uma maneira gratificante no oferecer seria ajudar directamente pessoas necessitadas ou prestar ajuda através de ordens e congregações onde vivem pessoas (sem ordenado material) que entregam a sua vida ao serviço do próximo sem olhar a quem.

O mérito social, a virtude, o cultivo do bem e do belo terão de ser tomados a sério pela sociedade, doutro modo, a riqueza de alguns torna-se num perigo público.

António da Cunha Duarte Justo