"A única revolução definitiva é a de despojar-se cada um das propriedades que o limitam e acabarão por o destruir, propriedade de coisas, propriedade de gente, propriedade de si próprio."
(Agostinho da Silva)

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Postais de Portugal



Castelo Branco

Foto de Lucas Rosa


quarta-feira, 29 de junho de 2016

Trigo-sarraceno


Diz-se que as civilizações afloraram com a prática da agricultura, assentando basicamente em três cereais destinados à alimentação humana: o trigo na Europa, o arroz na Ásia e o milho na América. Tal afirmação é, de maneira geral, correta, mas não inteiramente verdadeira para todos os países. Os russos, por exemplo, fizeram do centeio e do trigo-sarraceno a base do seu sustento.

Respiguei esta curiosa nota do livro “Ethnobotany of Buckwheat”, adquirido em Seoul (Coreia do Sul), em 2004. Embora a livraria fosse de grande dimensão, foi o único volume de botânica que encontrei, sem ser em coreano, idioma que ainda não domino. Avidamente, comprei-o com o fito de alargar conhecimentos e enriquecer a minha já vasta biblioteca dedicada ao reino vegetal. A decisão foi acertada porque a citada obra, da iniciativa do investigador Cheol Ho Park, é um precioso tratado sobre a importância, a nível mundial, do “buckwheat” (trigo-sarraceno, em inglês), valiosa planta quase desconhecida entre nós. O livro integra monografias de académicos da China, Japão, Coreia, Butão, Tailândia, Rússia, Ucrânia, Polónia, Chéquia, Eslovénia e de outros países europeus. Eles descrevem, com minúcia, a utilização do trigo-sarraceno nos seus respetivos países, abordando não só aspetos alimentares mas também medicinais, históricos e etnográficos. Uma verdadeira preciosidade!

Depois de ler o livro, tenho perguntado em várias regiões do nosso País, se alguém se lembra do cultivo presente ou passado desta curiosa planta. Até ao momento, não consegui detetar quaisquer vestígios, o que me deixa deveras admirado e intrigado.

Há tempos verifiquei, algures em Lisboa, que num supermercado russo vendiam trigo-sarraceno a granel. Comprei 2 kg e tentei semear alguns grãos. A tentativa foi gorada porque provavelmente tinham-lhes extraído a cutícula exterior e eles ficaram incapazes de germinar. Espero bem que esta croniqueta possa atrair sabedores da nossa praça para me ajudarem numa futura sementeira.

O trigo-sarraceno, cuja designação científica é Fagopyrum esculentum, não é um cereal, nem sequer pertence ao grupo das gramíneas, contrariamente ao que o seu nome parece indicar. Integra-se na família das Polygonaceae, como as azedas e as labaças, e tem ciclo anual. Pode atingir 70 cm de altura, possui folhas sagitadas e flores agrupadas, brancas ou rosadas. As sementes são aquénios com três arestas (triangulares) de cor acastanhada. Segundo consta não é exigente quanto a solos, dando-se bem em terrenos pobres e ácidos. O único problema é a colheita mecanizada porque as sementes não maturam todas ao mesmo tempo. Pensa-se que é originário da Sibéria e da Manchúria, sendo a Rússia e a China os seus principais produtores.

A proteína dos grãos do trigo-sarraceno contém praticamente todos os aminoácidos essenciais, com destaque para a lisina, que raramente se encontra nos vegetais. O trigo-sarraceno constitui, portanto, um alimento muito energético e nutritivo. É rico em fibras e antioxidantes, cálcio, magnésio, fósforo, potássio, selénio, zinco, vitamina PP, vitamina E, vitaminas do complexo B e um flavonóide chamado rutina que é adequado para deter a fragilidade e permeabilidade excessiva dos vasos capilares. Não contendo glúten, torna-se um alimento ideal para os celíacos. Possui ácido oleico, linoleico e palmítico que são importantes para controlar o colesterol e os problemas cardiovasculares. Por ter muita fibra provoca a saciedade e é, por isso, aconselhável nas dietas de emagrecimento.

A farinha do trigo-sarraceno dá para confecionar pães, bolachas, pastéis, esparguetes, polentas, crepes e outras iguarias muito apreciadas nos países orientais. É famosa a massa japonesa denominada soba. Os rebentos jovens são comestíveis. Os grãos podem ser utilizados para fazer pipocas.

As flores são melíferas e de alto valor medicinal. Com elas se faz uma infusão anti-inflamatória, sendo excelente para hemorragias, varizes e outros problemas circulatórios.

Os textos do livro etnobotânico, acima mencionado, apresentam percursos fascinantes dos recursos alimentares baseados no trigo-sarraceno ao longo da História em diversas regiões, contendo também várias receitas tradicionais de cada país. Ele é considerado o motor energético que debela fomes, fomenta conhecimentos e proporciona, a baixo custo, vigor e saúde à Humanidade.

Por que será que um vegetal tão prestigiado em avantajada parte do mundo não se encontra aqui cultivado e é escassamente utilizado em Portugal? Fica escarrapachada a pergunta para provocar reflexão e incentivar diálogos suscetíveis de enriquecer esta breve croniqueta.



Miguel Boieiro

terça-feira, 28 de junho de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Hoje, a Margarida trouxe para casa um jogo novo. 


Deve dizer-se que é um hábito familiar os momentos de brincadeira com a pardalada que vão desde as pura e simples diversões em torno de uma dança, por exemplo, às leituras de histórias que o pai conta antes da deita, passando pelas sessões de uno ou monopólio e outros entreténs que o acaso vai proporcionando. Ultimamente, começaram as competições de carácter didáctico em que a Matilde, por motivos óbvios, participa apenas enquanto ajudante de algum dos progenitores. 

Trata-se de uma forma descomplexada e sem qualquer carga anímica de puxarmos por elas e, simultaneamente, de cimentarmos os laços e a confiança familiar e de criarmos uma cultura de comunicação e convívio que temos por imprescindível para que os nossos amorzinhos cresçam dentro de um quadro de referências e aí possam construir as suas pessoas para que venham, um dia, a ser donas do seu destino e capazes de acrescentarem mundos à Humanidade. 
É deste estado de carinho que, pessoalmente, nos vem a autoridade que nos permite orientar a enculturação das filhas, mas também vem daí a consciência de que os pais, não se substituindo aos amigos que, de facto, não são, são antes aqueles dois seres disponíveis para abrigar e ajudar nas tempestades, quaisquer que sejam. 
Assim se torna evidente que o amor, entre nós, não tem que ser discutido pois ele está no nosso seio, permanentemente, até que a morte nos separe. 
Daí que um dia, tanto o piolhinho como o pardalito partirão para os respectivos futuros. Contudo, isso se fará justamente a partir do gregarismo em que, até lá, tal convivência vai evoluindo e, na verdade, a regra geral é que a família partilhe a vida que começa depois do trabalho; por exemplo, viajamos, fazemos férias e passeamos juntos. 

Fazemo-lo cheios de alegria, mas tanto eu como a Luísa estamos cientes que este é o nosso papel de pai e de mãe. 
E na nossa incomensurável pequenez, só pedimos a Deus que nos ilumine com a sua infinita sabedoria. 


Seja como for, voltemos ao assunto inicial, o jogo que a mais velha aprendeu esta tarde, com a filha da Professora. 
Consiste o mesmo em alguém acrescentar uma palavra relacionada com aquela que um determinado jogador diz. Só se pode dizer um vocábulo e a participação faz-se de forma ordenada, perdendo aquele que se engane ou não consiga efectuar o seu contributo para aquela cadeia de sinónimos e associações. 

Comecei eu pela palavra leão a que a Margarida retorquiu Sporting, a partir do que acabámos por tergiversar para temas tão díspares como o sistema solar, plantas e meios de transporte, entre muitos outros tópicos. Durou a parte final do jantar e a fase de arrumar a cozinha no que se estendeu por uma boa vintena de minutos. 

E não é que a Margarida e a Matilde tinham sempre uma palavra adequada na ponta da língua? 


Só tenho pena que a vida absorvente a que o trabalho me força não me deixe mais tempo para contemplar o crescimento destas duas parcelas do meu coração. 
Com efeito, o meu trabalho é um cúmulo de actividades que muitas vezes me deixam mais morto que vivo e sabe Deus o esforço que desenvolvo para, apesar de tudo, manter estas linhas em dia. Eu tenho a responsabilidade de pagar salários e impostos e ainda a de gerar lucros e esse é um compromisso que não deixa alternativa. 

Contudo, por muito que seja o cansaço, com tamanha ternura, como é que eu posso deixar de explodir no céu da felicidade? 

E depois o carro voa 
e nós voamos 
agora nos plátanos que se acastanham 
à medida que o mar se deixa cascatear dos seus ramos. 



É o conflito israelo-palestiniano uma ameaça para a paz mundial? 
Sem dúvida alguma. 
Não por causa dos israelitas que dão corpo a uma sociedade democrática e capaz de se integrar pacificamente no convívio e cooperação entre as nações e ao mesmo tempo no jogo concorrencial das relações tecno-económicas e financeiras ao nível dos mercados globais. 
Antes por causa do terrorismo integrista da Al-Qaeda e afins que usam aquele conflito como um dos álibis para a sua violência mais fanática, com os quais deixam esconsos os seus espírito e desiderato de cruzada – salvo seja a expressão – e sem os quais nada mais têm para apresentar à opinião pública mundial para além da sua ortodoxia fundamentalista que os leva a querer dominar o mundo para o que o martírio é uma das vias mais dignas de entrar no Paraíso. 
Ora é um dado adquirido que os homens dominam hoje armamentos capazes de provocarem um apocalipse. 
E o onze de Setembro está aí para nos provar que todos nós somos alvos, não por o ataque ter sido desferido contra um determinado país, mas pelo facto de essa data da infâmia deixar a nu que ninguém está a salvo, pois ficou provado que muito dificilmente haveria defesa para massacres perpetrados com certos tipos de armas de destruição massiva e que, se por absurdo se gerasse uma escalada que fugindo do armamento convencional resultasse, por fim, em disparos atómicos ou nucleares, muito provavelmente o mundo seria envolvido por um manto de morte e destruição de que a espécie humana poderia vir a ser uma vítima irreversível. 

E claro que a guerra israelo-palestiniana deve ser resolvida, em primeiríssimo lugar para que se coloque um ponto final ao sofrimento dessas populações. Isso é evidente. 
Esquecer o perigo que representa para a paz mundial é que pode vir a revelar-se como uma imprudência suicidária. 


Mas já que estamos pelo Médio Oriente registemos o que resultou da irresponsabilidade de um punhado de jornalistas, para a qual não existe, não é possível que exista uma qualquer explicação razoável. 

É que o jornalismozinho do “espreme e deita sangue” que temos só podia ter um desenlace destes, precisamente com sangue e muita sorte por não termos que falar em funerais. 

Certamente para cobrir a missão do batalhão da GNR que ontem rumou para o Iraque, um punhado daqueles profissionais de comunicação social acompanhou os nossos militares até ao Koweit. Uma vez aí, sabiam que a nossa logística militar não lhes garantiria transporte até ao local de alojamento das nossas tropas já em território iraquiano. A isto nem deve ser estranho o pequeno pormenor – digamos assim, para ironizarmos alguns comentários que logo pulularam na nossa praça – de o quartel que seria o destino original, por causa do atentado de quarta-feira, ter sido destruído. 

Então não é que os nossos heróis dos media não decidiram seguir sozinhos, por sua conta e risco, mesmo depois de alertados para os perigos que corriam e sem que algum entre eles soubesse uma única palavra em árabe ou de qualquer outro dialecto da região? 
Meia hora depois de transposta a fronteira, lá tiveram eles uma resposta à altura da sua imprudência. 
Foram abalroados, assaltados e espoliados, uma jornalista foi ferida a tiro e outro raptado, por quem os bandidos pedem agora um resgate de cinquenta mil dólares. 

É assim quando a inconsciência se sobrepõe a tudo o que é razoável. 
Tenho a certeza é que haveremos de ler reportagens empolgantes e emocionadas sobre a aventura que mereceria um valente puxão de orelhas se não estivéssemos num país de opereta. 

E a ironia, de tão negra, facilmente substitui o riso pelo pranto. 

Os jornalistas portugueses que era suposto estarem lá para darem as notícias começaram por ser, eles próprios, a notícia dos trabalhos que foram dar às forças aliadas. 
E o batalhão alfa que deveria preocupar-se com a segurança dos iraquianos, recebeu assim o baptismo com a preocupação de defender a integridade física daqueles belos exemplares do ímpeto lusitano. 


Ora o sindicato dos jornalistas já veio pedir responsabilidades às autoridades que organizaram o transporte dos militares. 
Damos de barato que tudo poderia ter sido mais bem preparado e até podemos omitir o atentado da véspera da partida. 

Mas como podemos deixar de responsabilizar adultos que deveriam estar conscientes dos perigos que corriam? 



Na aula de hoje, para além dos exercícios com os derivados das palavras menino e menina que voltaram a compor o trabalho de casa, os alunos trabalharam novamente a matéria de Estudo do Meio, a propósito da qual foram convidados a desenhar os colegas e o seu auto-retrato. 

“-Ganhei um concurso.” –Disse a Matilde, toda satisfeita, quando a mãe lhe perguntou se o dia tinha corrido bem. “-Era a ver quem é que enchia uma página com as palavras que já demos e eu fui a única a escrever uma página toda.” 



A noite arrefeceu mas, para cá das janelas, há um calor tão envolvente. 


 Alhos Vedros 
  14/11/2003

segunda-feira, 27 de junho de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL...(209)

A Gaivota, Nadir Afonso

Lisboa

Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
Rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.

eugénio de andrade

Selecção de António Tapadinhas


sexta-feira, 24 de junho de 2016

José Gil


Poema Antigo 1 - Vésperas

a minha mulher sempre linda,Solange,

mar só mar em toda a tua ternura tranquila
desnudas águas sob o lençol de água, peixe
sem escamas , Junho teu corpo junto no labirinto

fica-te no monte quente azul azul sobre o oceano
que faz as fantasias infinitas

nasces com febre e com a pele em cor

mandas que aqui espero e esperarei,

José Gil
2 de Junho 2016

quinta-feira, 23 de junho de 2016

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XXII)


Graffitar a Literatura

Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015
Rua Nova da Alfarrobeira, Cascais

«a criança é a nossa eternidade»
(Robert Debré, pediatra fundador da UNICEF»

Junho é, entre nós, o mês da Criança. Inicia-se com a celebração mundial do seu dia. Ao contrário dos feriados, o 1 de Junho comemora-se profusamente quer nos espaços educativos quer nas ruas, parques, jardins… Um pouco por todo o lado, é um dia repleto de eventos. De risos e alegria a rodos. É também o tempo das primeiras idas à praia (na Ponte 25 de Abril, cruzo-me com as filas de autocarros que, nesses dias pela manhã, as levam à Caparica). Em Junho acabam as aulas e começam as férias (já não tão ‘grandes’ como noutros tempos mas, mesmo assim, tão ou mais desejadas). Ainda sem exames ou provas de aferição que lhes toldem o gozo do sol e dos banhos nos primórdios de Verão, as crianças dos jardins-de-infância são o exemplo da jovialidade despreocupada e contagiante. Bem visível neste graffiti que o português NoMen pintou no Muraliza 2014 (decorreu entre 4 e 10 de Junho). Esta menina, na frescura do gesto e do olhar, traz-nos à lembrança a frase lapidar de Fernando Pessoa no poema ‘Liberdade’: «Mas o melhor do mundo são as crianças». Por isso, nunca perdemos a esperança no futuro.

São escassos os textos de escritores portugueses sobre vivências no pré-escolar. Compreende-se: raros o frequentaram. Só mais recentemente essa rede se alargou para lá do nicho dos estabelecimentos  privados deixando, finalmente, de ser um privilégio de elites. Uma das excepções é Maria Ondina Braga (1932-2003) que estudou em Paris (Alliance Française) e em Londres (Royal Asiatic Society of Arts) para depois leccionar inglês e português no ensino secundário, em Angola, Goa, Macau, Lisboa e Pequim; o seu espólio encontra-se no Museu Nogueira da Silva, em Braga (cidade onde nasceu e morreu); à autora de Estátua de Sal parece ajustar-se bem o pensamento do irlandês George Moore: «O Homem percorre o mundo inteiro em busca daquilo de que precisa e volta a casa para encontrá-lo.» Ondina Braga, no seu livro Vidas Vencidas (Caminho, 1998) que obteria o Grande Prémio de Literatura ITF de 2000, descreve-nos (na crónica Rua de São Vicente) um episódio ocorrido na infantil de um colégio por ela frequentado:

«Escolas sempre foram para mim lugares onde nunca me senti muito à vontade. Falo não nos estudos nem na disciplina. Estudiosa era, e bem-comportada. Ainda hoje. Decerto até de mais. Falo então de quê, minha mãe? Da incomodidade das escolas. A começar pela Educação Física: o jogo da bola, corridas, competições. E eu frágil. Eu, o meu desajeitamento.
Não obstante, com menos de quatro anos de idade estava num coleginho na Avenida ao pé de casa. Na infantil, naturalmente. Meninas e meninos de bibe de riscado que uma mocita chamada Olinda entretinha no quintal com rodas de mãos-dadas, o esconde-esconde, o dom-barqueiro. E, se chovia, no pátio de pedra a passar o anelzinho ou às cinco saquinhas cheias de areia, cheias de arroz. (…)
As professoras e as crianças da infantil, os amores ali das internas. E elas os nossos. No intervalo das aulas, das leituras, dos lavores, ei-las que desciam para nos visitarem e nos requestarem com rebuçados. Intervalos que, aliás, nós adivinhávamos, olhos pregados no patamar de cima, lábios entreabertos.» (pp. 59, 60)

Desde então, o país mudou (e muito). As crianças mudaram (e de que maneira). E a escola mudou? Registaram-se mudanças nos edifícios, nos equipamentos, nos materiais pedagógicos, na formação de educadoras e auxiliares… Mas, no essencial, ela continua idiossincrática, fiel à sua matriz fundadora, ou seja, conservadora; em especial, nos processos de ensino.

Luís Souta

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Ana Pereira




Jakaré

Técnica Mista
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Ana Pereira


terça-feira, 21 de junho de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Hoje, a aula foi inteiramente preenchida com exercícios de escrita que implicaram recortes e colagens, desenhos e relações e a identificação das sílabas em falta em certas palavras e respectivas grafias, coisa que se repetiu no trabalho para casa. 
A partir dos vocábulos menina e menino, a Matilde já escreve meme, mimi, mena e uma série de pequenas palavrinhas como essas. 



Genericamente não tenho dúvidas em afirmar que as economias capitalistas são aquelas que mais e melhor riqueza produzem e, nesse sentido, também no âmbito do ensino tomo por boa a livre iniciativa e concorrência e, consequentemente, vejo no ensino privado um factor benéfico para a educação e a formação de elites entre a população portuguesa. 
Acontece é que o problema se encontra na distribuição da riqueza produzida e, na medida em que os mercados, obviamente, não têm que ter propósitos de equilíbrio social, é aí que os poderes podem e devem intervir. No que à escola concerne, quer isso dizer que é a estes que devemos exigir a prossecução de um nivelamento por alto quanto às oportunidades para os mais desfavorecidos. 
Ainda assim não deixo de pensar que o ensino privado tem potencialmente um papel e uma acção positiva na sociedade portuguesa. Desde logo, precisamente pelo factor concorrencial que introduz, pelo qual pode eventualmente funcionar como moderador de custos e impulsionador de objectivos mais ambiciosos e realistas. 
Mas para tanto será preciso que aquele seja independente do estado quanto ao financiamento e seja capaz de se reproduzir ao nível dos recursos humanos, o mesmo é dizer que também ele forme os seus próprios docentes. Subsídios de estado, sejam directos ou indirectos, distorcem a natureza daquele e inquinam a livre concorrência; incentivam as escolas privadas a não procurarem no mercado e na sociedade civil as soluções materiais para os serviços que prestam. 
É claro que o ensino privado deve existir, tem o seu lugar, mas deve comportar-se como tal, viver no(a) e do(a) mercado e sociedade civil. Tais estabelecimentos de ensino têm a obrigação de serem lucrativos. 
Sem embargo, se quisermos enfrentar os problemas do ensino em Portugal, as perguntas a fazer são outras. 
Os países mais ricos são aqueles que mais seriamente e a fundo apostaram no ensino, conseguindo educar e formar uma cada vez mais alargada malha demográfica. O mesmo sucedendo com aqueles que nos últimos anos se têm vindo a aproximar dos padrões de desenvolvimento desse primeiro mundo. 
Pesem embora todas as vicissitudes da massificação nas escolas das sociedades mais abastadas e, em conformidade, a multiplicidade de discursos que aí ecoam, um sistema de ensino tem que produzir a excelência, pois é a partir daí que se devem começar a formar as elites. É nesta perspectiva que colocamos a dualidade que nos ocupa. 
Ora para além disso, isto é, de contribuir para a formação e a renovação das elites, o ensino privado apenas tem, por natureza, a obrigação de gerar lucro. Pois bem, deverá competir ao ensino público a criação das condições para o acesso à eventual ascensão social dos menos bafejados pela sorte. Ainda sem termos que ponderar certos aspectos morais, facilmente se compreende que, de outra forma, aquele processo de continuidade social faz-se dentro das próprias elites o que, por lei empiricamente observável, as faz tender para a entropia. 
Temos daí que também do ponto de vista prático não é na dualidade entre ensino público e privado que deveremos procurar o vértice de quaisquer políticas educativas para o nosso país. Continuamos a não dispor de uma via para chegarmos às perguntas mais certas e pertinentes. Contudo, se identificarmos uma pergunta-chave, podemos usar uma tal contraposição como ponto de partida para chegarmos a estas últimas. 



A Lua brilha no vidro da porta que dá para a varanda. 


Pensa-se que haja ali água congelada no fundo de crateras polares onde a luz solar nunca chegou. 
Teme-se que não seja em quantidade suficiente que possa suportar uma base lunar. 

Por enquanto, a terra dos selenitas continuará a guardar os seus territórios. 


 Alhos Vedros 
  13/11/2003

segunda-feira, 20 de junho de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (208)


Wave, Night, Georgia O´Keeffe, 1928
Óleo sobre Tela, 76,2x91,5 cm


1.
A auréola lunar, por entre os pinheiros
e não se sabe se é o marejar das árvores
ou as ondas que se escutam,
no silêncio das formas.


2.
Uma letra de chuva esbarrou na lente esquerda dos meus óculos, confundindo a Lua com a luz de uma gota de água.

LUCIANO FRANÇA (Luís Gomes)

Selecção de António Tapadinhas


sábado, 18 de junho de 2016

"O Largo da Graça" - Edições


Ficam fotos e poema da sessão de lançamento no Café-Restaurante Quebra Mar, em Alhos Vedros, de dois livros de Luciano França: "Incandescentes" e "Frescos", com a chancela do "Largo da Graça".
A apresentação dos livros foi feita em mais uma tertúlia poética do Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros (cacav) que vem sendo habitualmente dinamizada por António Tapadinhas. As fotografias são de Lucas Rosa.

Eis o poema que inicia o livro "Frescos" para que se abra o apetite à leitura:

No hemisfério celeste, luzes siderais desaparecentes,
por instantes, espectáculos galácticos
e na superfície, o vento, um silêncio de ramagens.

Eis as fotos:







sexta-feira, 17 de junho de 2016

Em torno de Agostinho da Silva no Convento de Jesus, Setúbal
 IV ciclo de tertúlias


18 de Junho 2016, 16h
Encontrando-se a Casa Bocage fechada para obras, esta sessão realizar-se-á no Convento de Jesus

Palestra:
"Nascer e Morrer (Porquê e para quê)", por Abdul Cadre




CONVENTO DE JESUS
SMBM | DCED
Câmara Municipal de Setúbal 
largo de Jesus
Setúbal
Telf. 913 873 015

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Ilha da Madeira, Moçambique e os Alpes



1.- O primeiro Cardeal na África Austral

Em 13 de Maio de 1889 nasce na Ilha da Madeira um menino a quem os pais, agricultores, puseram o nome de Teodósio. Teodósio Clemente de Gouveia. Bom aluno, inteligente, entrou no Seminário do Funchal e foi terminar os estudos em França e concluí-los em Roma, na Universidade Gregoriana, como aluno do Colégio Português de Roma. Doutorado em Teologia e Direito Canónico em 1921, fez a seguir o Curso da Escola de Ciências Sociais em Bergamo e outro doutoramento em Ciências Económico-Sociais em Louvain. Em 1929 era Vice-Reitor do Colégio Português e em 1934 já acumulava com a função de Reitor, e ainda Reitor da Igreja Nacional de Santo António dos Portugueses. Um curriculum notável.
Dois anos depois o Papa Pio XII nomeia-o Bispo de Leuce e Prelado em Moçambique. A seguir Arcebispo de Lourenço Marques e em 1946, o mesmo Papa, que muito o considerava e estimava, convocou um Consitório durante o qual lhe impôs o barrete cardinalício.
O primeiro Cardeal de toda a África Austral.
Era preciso mandar o Arcebispo a Roma para o Consistório, e pelas vias normais não chegaria a tempo. O Governador de Moçambique – General José Tristão Bettencourt – negocia com o Consul Geral Britânico o transporte do Arcebispo num avião da British Overseas Airways, um hidro “Cleopatra”, com o comando do capitão G.P.Wood.
Sai de Lourenço Marques em 16 de Janeiro.
O avião devia ser algo parecido com “isto”:

 Short Scion Senior FB – Autonomia: 675 km.

À tarde chega à Beira, faz escala e depois no Lumbo, ao lado da Ilha de Moçambique onde pernoita. Na manhã seguinte faz escalas em Lindi e Dar-es-Salem na Tanzania, e Mombassa, Kisumu e Port-Bell (Kampala) no Quénia, Lago Vitória. Dia seguinte, etapas em Laropi (Uganda) e Malakal para chegar a Khartoum, onde fica retido seis dias por causa da vacina contra a febre amarela. Dia 25 segue num  avião “ de rodas”, um bombardeiro adaptado a transporte, com escalas em Wadi-Halfa – ainda (hoje) Sudão) “aterrando” no Nilo, Luxor e finalmente chega ao Cairo.
A 27 sai do Cairo, do aeroporto de Almazah, num outro bombardeiro adaptado para passageiros, escala em El-Adem (Líbia), Malta e aterra dia 28 em Nápoles!
A 29, novo bombardeiro leva-o até ao aeroporto de Ciampino. Finalmente em Roma!
Treze dias de viagem... de avião! Aos saltos como um canguru!
Dia 18 de Fevereiro, Dom Teodósio e mais outros trinta e um receberam a púrpura. Dom Teodósio deve tê-la recebido suado da canseira que foi aquele voo!

2 – Os Carrinhos do Monte

Uma das muitas e simpáticas atrações da Ilha da Madeira são os famosos “Carrinhos do Monte” também conhecidos por “Carros de Cesto”, uma espécie de trenó terrestre onde os turistas têm a oportunidade de descer 2 km, cheios de emoções, do Monte ao Livramento, Funchal.

Foto de cerca de 1900

O Caminho do Monte foi mandado construir, em 1802. Por ele passaram a transitar os típicos CARROS DO MONTE, também conhecidos por CARRINHOS ou CARROS de CESTO ou de VERGA - dos CARREIROS do MONTE - Associação Regional de transporte de turistas nacionais e estrangeiros, que, em 1849, sucedeu às antigas corças ou trenós terrestres, que faziam o mesmo serviço. Tendo como função inicial o transporte dos senhores poderosos que possuíam residências no Monte no seu percurso para o Funchal, atualmente constitui uma marca do Turismo da Madeira, sendo muito solicitados por todos quantos visitam a Madeira e o Monte, nacionais ou estrangeiros.
A ideia foi ótima, mas... ouçamos agora Frei Luis de Sousa, no livro maravilhosamente bem escrito em 1619, sobre “A Vida de D. Frei Bertolameu dos Mártires”, descrevendo a ida deste Prelado, Arcebispo de Braga, a caminho de Trento para o Concílio, no ano de 1561.
“Saiu de Braga em 24 de Março e chegou a Trento 56 dias depois. Percorreu todo o caminho muita vez a pé ou em cima de uma mula. Atravessou os Alpes, passou em Breanson – hoje Briançon – a mais de 3.000 metros de altitude; não parou de nevar como se fora Janeiro. Passou por Mongeneura (onde será?) uma aldeã que faz coroa aos mais altos picos dos Alpes; e daqui começa a descer para Piemonte, que foi aos romanos parte dos povos taurinos (uma das tribos celtas da vertente Sul dos Alpes). E quadra-lhe bem o nome de Piemonte pola baixeza em que fica, compa­rada com os montes. A descida que há é tão íngreme que parece talhada a pique e, pera espantar mais, ordinariamente coberta de neve; e é tão profunda que corre uma légua (quase 10 quilômetros!) e meia* de ladeira contínua até um lugar que chamam Santa Susana. O meio que achou o engenho humano pera vadear este passo foi inventar a maneira de andores ou carretes sem rodas, que vão descendo ou caindo polas serras abaixo, arras­tados cada um por dous homens, que não sabeis se os chameis pilotos, se cocheiros, se cavalos, porque tudo é neces­sário que sejam nesta perigosa distância, e tudo são; e andam tão destros, facilitando o uso à marinhagem, que se vence todo perigo.
Por aqui se vê que três séculos antes dos madeirenses terem “inventado” os Carrinhos do Monte” já nas faldas dos Alpes os italianos usavam este tipo de transporte.
Qual madeirense terá ido aos Alpes ver isto?
Assunto que os historiadores da Madeira deverão pesquisar.

* O Arcebispo andou 332 léguas, e como a légua desse tempo media 6.197 metros, perfaz mais de 2.000 quilômetros!

Francisco Gomes Amorim
13/06/2016
http://fgamorim.blogspot.pt/ 


terça-feira, 14 de junho de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

UM DIA PARDACENTO


O dia de hoje fica marcado pela partida das forças da GNR para o Iraque, em missão de manutenção da paz. 

Contudo, esta manhã aconteceu mais um atentado brutal que ceifou a vida a mais de vinte pessoas, dezassete das quais soldados italianos de um dos destacamentos internacionais empenhados na segurança e defesa do território. 
Nada de anormal num teatro de guerra. Acontece que o ataque se deu sobre o edifício em que os militares portugueses se aquartelariam em Nassiriya. 
A despedida fez-se assim sob o manto das maiores preocupações. 


É claro que a oposição se manifestou contrariamente à decisão governamental de enviar aquelas tropas. 
Mas não tem razão e aqui nem considero uma certa hipocrisia que fala em conivências com aquilo que se apelida de forças de ocupação. 


A vitória de uma sociedade aberta e pacífica no Iraque é fundamental para que se redesenhe a geo-política regional e, com isso, tentar isolar quer as forças do terrorismo, quer os estados que as suportam, condição sem a qual dificilmente será encarável o desiderato de pôr termo ao conflito entre os israelitas e os árabes em geral e os palestinianos em particular e com isso se conseguir a independência de um estado palestiniano viável. 
A paz mundial depende do sucesso na resolução deste problema, pois é aí que os terroristas da Al-Qaeda encontram a justificação para a guerra que declararam a todo o Ocidente e de que o conflito em solo iraquiano mais não é que um dos episódios. 

Neste sentido, é importante que as democracias façam bloco e se empenhem profundamente na construção de um Iraque capaz de alinhar pelo lado daqueles que querem um mundo mais seguro e apostado no desenvolvimento. 


É o futuro da própria espécie humana que está em causa. 


Por tudo isto, neste momento em que a noite mais escura se nos instala na alma, nós temos que desejar a melhor sorte para os nossos homens e tudo fazer para no que à frente interna diz respeito, eles possam regressar para junto dos seus entes queridos. 
Neste particular, estamos assim com a opção governamental. 

Adiar ou ainda suprimir esta missão de paz por causa do atentado desta manhã, seria um perfeito disparate. 
Emitir-se-ia um sinal de medo e capitulação perante as forças do terrorismo e isso só lhes daria força para continuarem a sua saga assassina. 



Mas eu tenho que fazer uma correcção que tem passado em claro. 

No Sábado à noite assisti a uma sessão de bailado pela Companhia Portuguesa de Bailado e não pela Companhia Nacional, como tinha escrito. 

E devo dizer que gostei do espectáculo, especialmente da terceira e última peça, cheia de cor e movimentos com desenhos tão bonitos quanto improváveis. 
Já a primeira me pareceu um tanto pretensiosa e a segunda, se não a vi anteriormente, vira algo muito semelhante pelo Ballet Gulbenkian, um par bailando por entre uma solução cenográfica de cadeiras.

Belo serão que toda a família apreciou e no qual tivemos a companhia da vizinha do rés-do-chão, a Alexandra, muito amiga das minhas filhas e que há vinte e um anos atrás foi minha aluna. 



A aula desta manhã foi inteiramente dedicada à Matemática, com relações e trabalhos com o número dois. 

“-Olha mãe. Fizemos exercícios no caderno de actividades de Matemática.” –Disse a Matilde, ao jantar, com os seus olhinhos cheios de alegria. 



Os inspectores da Agência Internacional de Energia Atómica não encontraram vestígios de um aproveitamento militar dos programas nucleares do Irão. 
Naturalmente, o regime dos ayatollas assegura que os propósitos são estrictamente civis e pacíficos. 
Será… 

De qualquer forma, não tenho dúvida que a provar-se a existência de instalações potencialmente aproveitáveis para fins bélicos, o governo iraniano deve ser fortemente pressionado para as desmantelar. 
E em caso de recusa e de ultrapassagem de um certo patamar em que os fins económicos e pacíficos deixem de ser os únicos possíveis, o assunto deverá ser resolvido de imediato, se a isso não houver alternativa, pelo uso da força militar. Custa muito dizer isto, mas é a prudência que o impõe. 

Um Irão com capacidade de produzir armas atómicas e nucleares seria um desastre para o planeta. 



Então e o líder do maior partido da oposição, em entrevista televisiva, não admite com a maior candura que avaliou mal as repercussões da forma como Paulo Pedroso e os socialistas se comportaram quando aquele saiu da cadeia, onde permanecia em prisão preventiva na qualidade de arguido no processo de abuso e exploração sexual de crianças, na Casa Pia? 

Se o homem não é capaz de prever as consequências numa situação tão simples como aquela, o que diria a chefiar um governo em situações de crise profunda da sociedade. 
A sorte dele é que o povo não repara e na hora do voto lá voltará a colocar o boletim na urna. 

Estamos condenados ao infortúnio. 



E o dia esteve hoje condizente com o estado do país, pardacento. 

Por sua vez, a noite está amenizada por um tecto de nuvens. 


 Alhos Vedros 
  12/11/2003

segunda-feira, 13 de junho de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL.... (207)

Young Girls, Pierre-Cécile Puvis de Chavannes
1879, Óleo sobre Tela, 205x154cm


PRESÍDIO

Nem todo o corpo é carne … Não, nem todo,
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco …?

E o ventre, inconsistente como o lodo? …
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor … Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo …

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono …
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!


david mourão-ferreira

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Estudos Orientais


Do Budismo: As Três Jóias, Três Corpos e Seis Mundos

            Toda a organização da estrutura budista assenta, por assim dizer, em três grandes corpos que se designam pelas três jóias. Primeira, a existência de um ser, de um estado de consciência de subtil caracterizado pelo despertar, anunciado pelo Buda. Segunda, o “dharma”, ou seja, o ensinamento dado pelo Buda que permite a realização própria de uma experiência espiritual que visa chegar à verdade. Terceira, a “shanga”, constituída pelos que seguem o Buda.

Os Budistas sustentam que o ciclo de renascimentos ("samsara") é uma realidade. Nenhuma existência escapa ao samsara  a menos que atinja a libertação. Diz o Dalai Lama que, “Esta condição é dolorosa, pois obriga-nos a reviver sem cessar, em níveis que podem ser piores que os que já conhecemos. Mas se o renascimento é uma obrigação, a reencarnação é uma escolha. Ela é o poder, dado a certos indivíduos merecedores, de controlar o futuro nascimento. Assim que atinge um certo grau de qualidade, que designamos consciência subtil, o nosso espírito não pode morrer, no sentido vulgar do termo. É-lhe dado o poder de reencarnar noutro corpo.” (LAMA, Dalai e CARRIÉRE, Jean-Claude, A Força do Budismo. Lisboa: Difusão Cultural, 1995: 158)

No Budismo para além do corpo físico faz-se referência a dois outros corpos, todos interdependentes entre si: “dharmakaya”, um corpo absoluto, estado subtil do espírito, que está rodeado por um corpo subtil, “sambhogakaya”, corpo de alegria ou de beatitude, sendo que é deste que provém o corpo de manifestação ou corpo físico, “nirmanakaya”.

Existem seis possibilidades de condições a que o homem pode chegar após a sua morte, chamados os caminhos da transmigração, ou os seis mundos, que se podem dividir em duas partes, um mundo relativamente inferior, habitado por seres infernais, espíritos ávidos e animais, e um mundo relativamente superior, lugar de deuses, semi-deuses e homens.

O espírito humano pode elevar-se até a um “espírito subtil” ou “consciência subtil”. Esta consciência existe independente do corpo e do cérebro. É o espírito subtil que reencarna. Seguindo o Dalai Lama, a reencarnação (que é uma escolha) está ligada a um certo nível da vida do espírito. Se este espírito for desenvolvido pode escolher o seu próprio destino. A reencarnação é, assim, um passo para a libertação, para uma ampla consciência. Sem esta possibilidade de escolha o renascimento é, inevitavelmente, uma queda no "samsara". Por outro lado, a reencarnação pode ocorrer num outro planeta, numa outra galáxia. Os estados nobres do espírito podem estender-se até ao infinito. É um dos nossos ensinamentos fundamentais. (cf., idem:170)

“Acreditamos na existência de uma consciência subtil e que ela é fonte de tudo o que chamamos criação. Em cada indivíduo, esta consciência subtil permanece desde o começo dos tempos até à ascensão à budeidade. É isso que chamamos ser (being). Este ser pode assumir diferentes formas, seres animais, seres humanos e eventualmente budas. Eis a base da teoria dos renascimentos. O espírito subtil, na longa sequência dos séculos, de forma em forma, procura obrigatoriamente a budidade. Quando num indivíduo ele atinge um alto grau de qualidade, escolhe a sua forma seguinte. É isso a rencarnação.”(idem:172)


Luís Santos


quinta-feira, 9 de junho de 2016

POEMAS DE ABDUL CADRE











PROTOBIOGRAFÍA INFORMAL

 Como un gato que bosteza
Recuerdo de los días
La coherencia de la vida.

Verso, reverso, cuenta segura
– ¿Quién lo sabe?
Mil veces frotarse los ojos,
La saber repetida, ella propia,
Más que su adicto sabor
Y decir como quien reza: ¡Vivo!

¿Cuales fueran las horas que han prevalecido
En las estrías de la memoria?
– ¡Oh! mi abuela de moro sangre,
 Que nunca conocí!

Me dicen que con tus cabellos de crin y de misterio
Tejías flores de rabia en un bastidor de nostalgia
E ahí, sin haberlo sabido, ribeteaste mi alma
Pespunte por pespunte en el lino blanco.

Después, tú me has levado el alma
Tan silenciosamente que nadie se ha apercibido
Y mismo yo me quedé sin entender.

Vienes ahora– ¡oh memoria de rescoldo!
– intrusa, solemne y persistente,
Como una creencia antigua y rara,
Exigir cáustica tus derechos…

Pero yo soy un gato que ronronea
Y se despereza sobre sus memorias;
Cuando el velludo es macío
Llega la hora y me duermo.


EXTRAÑO LUCIR

Me gusta amar distanciadamente
Descomprometidamente
Reflejar en los que amo
Lo que en mí se refleja
E incendia mis ojos.

Infectaos de luz,
Eso yo querría.

Por esta razón solamente
(Otras habrá que non sé)
Mi mayor deseo era ser nube
Blanca sin ofuscar el sol
O sol sin desmerecer la nube.


IGNORANCIAS

Hay una generalizada ignorancia
De mucha cosa que diríamos importantes,
Pero no ha ignorancia en absoluto.

Los ignorantes con que nos cruzamos
Saben siempre inmensas cosas que desconocemos.
Andamos – ellos y nosotros – por caminos desencontrados.

Se nos cruzamos,
Hasta el simple saludo
Tiene el sabor del constreñimiento.

in, Poetas del Mundo
http://www.poetasdelmundo.com/detalle-poetas.php?id=8049