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domingo, 6 de abril de 2025

Agostinho da Silva, Dispersos

 


"Hoje, as pessoas andam metidas nessa trapalhada de uns defenderem o capitalismo - ou o liberalismo dentro do capitalismo, é a moda mais recente - ou, pelo contrário, defenderem o sistema do Estado com a economia planificada e autoritarismo, julgando que essa é que é a luta fundamental, quando, no fim de contas, a disputa entre capitalismo e a outra coisa (como se lhe quiser chamar, socialismo, comunismo), vem de uma raiz comum - da obrigatoriedade do trabalho; simplesmente o capitalista obriga o cavalheiro a trabalhar porque se não o fizer morre de fome, e os outros obrigam-no senão é declarado anti-social... Um caminho certo da economia seria encontrar a maneira de abolir o trabalho. Mas, vendo bem, não tem que se ter preocupação com isso, sabe, porque o trabalho está-se abolindo a si próprio!"

- Agostinho da Silva, A NOSSA OBRIGAÇÃO É SER POETA À SOLTA (Entrevista a Carlos Câmara Leme) [1986], IN DISPERSOS, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1988, pp. 166-167.


terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Agostinho da Silva 118 anos

Em dia de aniversário do Professor Agostinho da Silva, um pensamento vivo, deixamos aqui imagens de um "powerpoint" que fizemos para sessão na Fnac do Chiado, em Lisboa, no ido 19 de setembro de 2013.

Luís Santos

















terça-feira, 23 de janeiro de 2024

14 anos de Estudo Geral

 O Estudo Geral faz hoje, 23 de janeiro de 2024, 14 anos, o que denota uma existência persistente e significativa. Pressupostamente, o mesmo dia em que se assinalam os 500 anos de nascimento de Luís Vaz de Camões. Parabéns aos dois. Não querendo deixar de assinalar a data aqui deixamos uma quadra de Agostinho da Silva, do seu livro Quadras Inéditas, p. 72, Ed. Ulmeiro, que reza assim:


Naquela Ilha dos Amores

que sonhou Camões outrora

só entra e fica liberto

quem lá viva desde agora



Travessa do Abarracamento de Peniche, nº7, frontaria do prédio onde o Professor Agostinho da Silva viveu os últimos anos da sua vida.

Fotografia de Luís Santos


sábado, 2 de dezembro de 2023

Agostinho da Silva no Brasil

por Manuel Luiz Touguinha

O sebastianismo erudito de Agostinho da Silva, continuador de Fernando Pessoa, influenciou, no Brasil, o tropicalismo de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé... e o cinema novo de Glauber Rocha.
Agostinho também manteve uma relação muito próxima e profícua com Dora e Vicente Ferreira da Silva, Gilberto Freyre, Oswald de Andrade, Murilo Mendes e Cecília Meireles, além de Ariano Suassuna, Pierre Verger, Darcy Ribeiro e José Aparecido de Oliveira.
Sua interlocução com muitos dos intelectuais portugueses que, como ele, encontravam-se exilados no Brasil foi igualmente ampla: de Eudoro de Sousa e Hernani Cidade a Adolfo Casais Monteiro, de Eduardo Lourenço e Manuel Rodrigues Lapa a Jaime Cortesão.
(Ao lado), uma dica de 2 recentes publicações, organizadas pelos professores Amon Pinho e Romana Valente Pinho, recentemente lançadas pela Cátedra Agostinho da Silva da UFU (Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais).

P.S.: os parêntesis são nossos.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

PENSAR COM AGOSTINHO DA SILVA


Conferência no 35º aniversário do Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros, em 9 de maio de 2021. 

(Ver Conferência no Zoom aqui:  https://www.facebook.com/CACAV.AlhosVedros/videos/944267693003703/ )

Luís Santos

O título desta comunicação “Pensar com Agostinho da Silva” deve-se à colaboração que temos vindo a manter em página do “Facebook” com o mesmo nome e que tem administração de Paulo Borges. Aproveitando algumas dessas recentes publicações, partilharemos aqui convosco três ideias particularmente interessantes de Agostinho: a primeira, sobre “uma nova teoria do nascer”; a segunda, um poema para não se morrer; a terceira, uma carta sobre a “missão de Portugal”. 

Assim, em primeiro lugar, digamos, antes de mais, que essa “nova teoria do nascer” foi publicada em livro intitulado “Caderno de Lembranças”, a partir de um manuscrito do Professor Agostinho, datado de 1986, livro que foi organizado por Amon Pinho Davi e Romana Valente Pinho. E já que estamos a comemorar aniversário, refira-se que foi, justamente, nesse mesmo ano que o Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros nasceu. 

Em síntese, nessa tal “teoria do nascer”, Agostinho da Silva, sobre o seu próprio nascimento, diz assim:

 1) "Lá por 1905, (e chama-se à atenção que Agostinho nasceu a 13 de fevereiro de 1906) mas nada há mais difícil do que relacionar tempo e eternidade, ou fixar-se simultâneo nos dois planos (…), comecei a tomar atenção no belo globo que rolava diante de nós, e a tentar descobrir lugar aonde me agradasse descer para principiar minha vida. A meu lado, outros faziam o mesmo, e até discutíamos os méritos de um e outro ponto, mas sem voz, tanto quanto me lembro, porque o nascer tira muito a memória como, depois, o vim a reconhecer, concluiu Platão (…) Quando, voluntária ou involuntariamente, quem o sabe, gostei de, a cada volta do globo, ver surgir de novo nossa península ibérica, deu-se o que se veio a chamar zoom: (…) Fixava-me, de facto, no que aprendi a chamar Portugal." (Agostinho da Silva, Caderno de Lembranças, Zéfiro, pp.15-16)

Eis, então, essa pergunta mágica tão significativa e indissociável da vida de todos, mas que tão pouco entra nas agendas políticas. Esse lugar, ou dimensão, donde se vem para nascer, onde tempo e eternidade se interligam e que, afinal, nos permitem perguntar o que é o presente, o que é o futuro. Entre-tanto, enquanto o globo terrestre diante de si girava, em conversa sem palavras com Platão, entre outros, Agostinho decidiu que o sítio que mais lhe convinha para nascer, aprendeu depois, chamava-se Portugal. E aqui, sem que nós saibamos se será mais correto dizer nascer ou renascer, pois que o nascer tira muito memória. Citando o Professor, “Nascer não é uma fatalidade, mas uma escolha pré-consciente, daquela consciência que se perde quando se voa do céu para a Terra, como dizia Platão.” (Agostinho da Silva, Vida Conversável, Assírio e Alvim, p.14) 2) 

Em segundo lugar, gostaríamos de chamar a vossa atenção para “um poema ressurecto” do Professor, composto por três quadras, sem título, do seu livro “uns poemas de agostinho”. Ora vejamos:

Se eu chegar a ser dum Outro 
mas de mim não me perdendo 
e esse Outro todos os outros 
que comigo estão vivendo 

não só homens mas também 
os animais e as plantas 
e os minerais ou os ares 
e as estrelas tais e tantas 

terei decerto cumprido 
meu destino e com que sorte 
para gozar de uma vida 
já ressurecta da morte

(Agostinho da Silva, uns poemas de agostinho, Ulmeiro, p.107) 

Sintetizando, diz Agostinho que “se chegar a ser dum Outro”, um “Outro” que aparece grafado com letra maiúscula e que integra tudo o que existe –homens, animais, plantas, minerais e estrelas, tais e tantas, conseguirá aceder a uma libertação plena. Então, com alguma legitimidade poderá perguntar-se quem é esse “Outro”, e se Agostinho terá conseguido lá chegar? Se acedermos positivamente às respostas, certamente que ganharemos aí uma extraordinária fonte de inspiração para o caminho. 3)

 Para terminar, partilho convosco uma Carta de um conjunto de doze que Agostinho da Silva enviou para um grupo de amigos com quem estava em contacto, entre eles, a Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros, como então se designava, cartas essas que, de resto, foram aqui publicadas com o título de “As Últimas Cartas do Agostinho”. 

 Desse conjunto de Cartas, a primeira foi enviada no mês de dezembro de 1992 e a última em setembro de 1993, o que significa dizer que estas cartas foram escritas, praticamente, ao longo do último ano da vida do Professor, pois que em meados de outubro, mês seguinte ao da última destas cartas, um súbito problema de saúde haveria de o guindar ao seu desaparecimento físico que, como sabemos, ocorreu no dia 3 de abril de 1994, num triste mas revelador Domingo de Páscoa. 

E é, justamente, a primeira dessas cartas que aqui partilho: 

“Resumo da ideologia do Povo Português nos séculos XIII e XIV, transmitida ao Brasil por seus adeptos que ali se foram acolher, passada ao futuro e, por ele, à criativa Eternidade para os que emigrem para o mais íntimo de si próprios e aí se firmem para sempre. 

Missão de Portugal: Sacralizar o Universo, tornando Divina a Vida e Deus real. 

Meios: Desenvolvimento dos Povos pela inteira aplicação da Ciência e da Técnica, inclusive nos sectores da Economia, da Política, da Administração Pública e da Filosofia. Conversão da pessoa à adoração da Vida. 

Características do que houver no Sagrado: Criança como a melhor manifestação da poesia pura e como inspiradora e suporte, e incitadora a ser criança de todos os que existam. O gratuito da vida. A plena liberdade de todo o ser.” 

(Luís Santos (org.), As Últimas Cartas do Agostinho, Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros, p.1)

Certamente que, quando Agostinho da Silva se refere aos séculos XIII e XIV está a pensar, desde logo, no reinado de D. Dinis e de Isabel de Aragão, um período áureo da História de Portugal cujas raízes se estendem, de alguma forma, até à atualidade. “Ora vejam só, um rei poeta e uma rainha santa”, dizia o Professor. 

D. Dinis, o plantador das naus a haver, como diz Fernando Pessoa na “Mensagem”. Na história de Portugal diz-se dele que foi o fundador da marinha, da primeira Universidade com o seu “Estudo Geral”, de quem protegeu os Templários e criou a Ordem de Cristo e que, entre outras medidas de significativa importância para a afirmação do jovem país, desenha definitivamente as suas fronteiras e institui a Língua Portuguesa que é hoje a quarta língua mais falada do mundo. Por fim, é também durante o seu reinado que, por ação da Rainha Isabel, se iniciam as festas do culto popular do Espírito Santo e que, embora não tenhamos tempo para desenvolver aqui, são para Agostinho da Silva um dos acontecimentos matriciais a partir do qual se desenvolvem os poemas da “Ilha dos Amores”, de Camões, ou das propostas de “Quinto Império” do Padre António Vieira e de Fernando Pessoa. De resto, tem sido tal a longevidade do referido culto que setecentos anos depois, ainda se comemora na atualidade em muitíssimos lugares da Língua Portuguesa, como acontece nos Açores, no Brasil, nalgumas comunidades de emigrantes dos EUA, mas também em Portugal continental como são, por exemplo, os casos de Setúbal e Alenquer, com Festa marcada este ano já no próximo dia 23 de maio.

 Bem hajam. 

Luís Santos 
Professor Adjunto Departamento de Ciências Sociais e Pedagogia 
Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal

Referências Bibliográficas 

SANTOS, Luís, Agostinho da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia, Euedito, 2015

 SILVA, Agostinho da, Caderno de Lembranças, Zéfiro, 2006 (fixação do texto e notas de Amon Pinho Davi e Romana Valente Pinho) 

Idem, Vida Conversável, Assírio e Alvim, 1994 (organização de Henryk Siewierski) 

Idem, uns poemas de agostinho, Ulmeiro, 1990, 2ª edição


terça-feira, 8 de setembro de 2020

A Religião na Grécia Antiga

Com a chegada ao fim do doutoramento, a especialização obtida nos estudos sobre as civilizações clássicas contribuiu para que Agostinho da Silva publicasse vários textos, entre eles, “Um Breve Ensaio sobre Pérsio”, em 1929, e “A Religião Grega”, em 1930, onde reflete sobre o pensamento religioso grego e latino.

Neste estudo sobre “Pérsio”, o que se releva é como o choque entre diferentes culturas e religiões como a romana e a grega, ambas aglutinadas pelo vasto Império, põem na sua pena uma valorização da cultura grega face à cultura romana. Se militarmente os gregos foram assimilados pelos romanos, de certa forma, os romanos foram conquistados pelas ideias gregas, sobretudo por particularidades ligadas ao seu pensamento religioso, mas também como consequência do avanço que a filosofia e a ciência tiveram na cultura helénica.

O antropomorfismo divino ligado a uma existência em que deuses e homens se misturam, e onde se exaltam as paixões humanas, é uma das características da religião grega. Ao poder do amor entre Zeus e Afrodite, o deus supremo que é a terra e o céu, e todas as coisas, e o que há acima de todas as coisas, e a deusa suprema que é o expoente máximo da beleza, da graça, da elegância feminina e promove a incessante renovação do mundo, vêm juntar-se uma infinidade de deuses e deusas que constituem o panteão grego.

O que Platão buscava no Mundo das Ideias, o ideal de Beleza e de Bem, a defesa da imortalidade da alma, a perfeição do funcionamento da Cidade são conceitos que bem retratam o apogeu da civilização grega por volta do séc. V a.C.

Cumprindo as linhas da arte grega, cada templo é ao mesmo tempo um lugar de Amor e de Beleza. Arte e teologia de mãos dadas.

Na Grécia Antiga, o culto das divindades era igualmente feito pela coletividade inteira por meio das grandes festas e jogos, onde artes e competições desportivas serviam para um aperfeiçoamento de técnicas do corpo e da alma que propiciavam uma aproximação à glória divina. Os jogos na cidade de Olímpia (o início dos Jogos Olímpicos da nossa era) que reuniam todos os gregos, ou as tragédias Dionisíacas, festividades de âmbito mais local, são disso bons exemplos.

É fundamental que se estabeleça contacto com os deuses. Só através deles, com a sua capacidade de determinar o futuro, é possível ter uma vida clarividente que seja capaz de contornar a dor e trazer alegria à vida.

O contacto com os deuses é possível fazer através da adivinhação ou da profecia. É através destes processos que os deuses podem comunicar aos homens a sua vontade, ou determinarem as ações que devem ser feitas. Conforme a capacidade de respeito da vontade dos deuses, assim a vida será mais ou menos feliz.

Por isso, a consulta dos oráculos tem uma importância fundamental na vida dos gregos. A determinação do oráculo é auscultada sobre os mais variados motivos, desde problemas mais pessoais às grandes causas de Estado, desde um problema de saúde até à declaração de guerra a outra cidade, a outro povo.

Para que os homens pelo ritual pudessem contactar com as divindades haviam de ter a sua alma pura, isenta de errados comportamentos. Só através da purificação da alma, ou seja, de uma alma que irradia pura beleza é que os homens podem contactar e aceder aos favores dos deuses. E, no fundo, em que consistia esse ritual de purificação transmitido pelos próprios deuses: amor de deuses e amor aos homens. Seria respeitando simultaneamente a vida sagrada e a vida da Cidade que uma vida plena se cumpriria.

Os grandes mistérios de Elêusis, o mais elevado ato espiritual que se realizava na Grécia Antiga, um culto de iniciação às deusas ctonianas Deméter ou Perséfone, ou a Dioniso, para iniciação aos mistérios de Orfeu, possibilitavam o conhecimento da Vida para além da vida.

(Cf., SANTOS, Luís Carlos dos, Agostinho da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia, Euedito, pp.23-30)

sábado, 4 de abril de 2020

Ontem,


3 de abril, fez anos que o Professor Agostinho da Silva nos deixou. Corria o domingo de Páscoa de 1994. Confesso que não tenho pressa, nem para mim, nem para todos, mas haverá lá melhor dia para partir... como ontem não nos foi possível, cá fica a lembrança hoje a partir do seu livro "Quadras inéditas", em jeito de conselho para os dias que correm:

Aperfeiçoa-te ao máximo
em tempo que nada valha
pondo toda a tua pressa
no que tempo é migalha

Deixa desfilar o mundo
quieto fica distante
não estar interessado
é que é o interessante

Nesta confusão navego
neste tumulto me entendo
não me importa o que sou eu
mas o que os outros vão sendo

Um dos pólos de viver
é para mim aventura
mas outro tão bem querido
o de claustro e de clausura

Tem paciência de frade
quando nada suceder
e paciência nenhuma
quando surja o que fazer

E não me chamem de mestre
sou apenas aprendiz
daquilo que me é o mundo
e do que sendo me diz

Naquela Ilha dos Amores
que Camões sonhou outrora
só entra e fica liberto
quem lá viva desde agora

Dará Portugal ao mundo
em céu de amor e de espanto
seu Império do Divino
Divino Espírito Santo

Posso dizer-lhes de Deus
quanto queiram mas calado
aprovarão se há silêncio
mas se me escutam cuidado

Se Ele é tudo o que tu dizes
Ele o Nada pode ser
e se é nada livre está
para ser o que quiser

Fotografia de Eduardo Martins. Ao que cremos, Agostinho da Silva discursando na Assembleia da República, em dia de homenagem.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Relembrando os 114 anos do nascimento do Professor Agostinho da Silva




QUADRAS SELECIONADAS DE AGOSTINHO DA SILVA

Do que vos dou bem duvido
de que seja a conta certa
se faltar é só dizer
se sobrar é mesmo oferta

De sermos tudo o que somos
quanta gente aí se acanha
mas se fizemos Brasil
foi por ciência e por manha

Mais que tudo quero ter
pé bem firme em leve dança
com todo o saber de adulto
todo o brincar de criança

Nunca voltemos atrás
tudo passou se passou
livres amemos o tempo
que ainda não começou

Dará Portugal ao mundo
em céu de amor e de espanto
seu Império do Divino
divino Espírito Santo

quarta-feira, 31 de julho de 2019

"As Últimas Cartas… e Um poema"



Agostinho da Silva, parlamento... 1989
Fotografia de Eduardo Martins


Colóquio "Agostinho da Silva: Filosofia e Poesia"
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2 de julho de 2019

Parte do título desta comunicação, refere-se a um livrinho intitulado "As Últimas Cartas do Agostinho...", por mim organizado e editado no Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros, em outubro de 1995, do qual foram feitos 50 exemplares, e que se constitui por um conjunto de 12 cartas enviadas por mão do Professor Agostinho da Silva a um grupo de amigos com quem estava em contacto mais próximo, ou que se candidataram a destinatários de tão digníssima epístola.

O repto é endereçado pelo Professor em Carta subscrita na Lua Cheia de janeiro, 8/1/1993, onde diz: “Queridos Amigos, O imaginário Convento Sonho duns Irmãos Servidores me encarrega de vos comunicar que acaba de tomar posse de tudo quanto há  e me designa como seu agente junto de vós para tudo que se refira a estas folhinhas dactilografadas, que serão sempre mensagem do Convento, assinadas ou não (…) São enviadas a tôdas as pessoas que já declararam por palavras ou feitos que desejam recebê-las ou o declarem daqui por diante.”

A primeira carta do conjunto que constitui a brochura, foi enviada no mês de dezembro de 1992, e a última em setembro de 1993, o que significa dizer que este conjunto de cartas foi expedido, praticamente, ao longo do último ano de vida da sua vida, pois que em meados de outubro, mês seguinte ao da última destas cartas, a súbita degradação física que o acometeu haveria de o guindar ao seu falecimento que, como sabemos, ocorreu no dia 3 de Abril de 1994, um triste mas revelador Domingo de Páscoa, dia de ressurreição.  

Fulcral é a primeira destas 12 cartas e, logo aí, se diz claramente ao que se vem. Fixemo-nos nas palavras de Agostinho:

“Resumo da ideologia do Povo Português nos séculos XIII e XIV, transmitida ao Brasil por seus adeptos que ali se foram acolher, passada ao futuro e, por ele, à criativa Eternidade para os que emigrem para o mais íntimo de si próprios e aí se firmem para sempre.
Missão de Portugal: Sacralizar o Universo, tornando Divina a Vida e Deus real.
Meios: Desenvolvimento dos Povos pela inteira aplicação da Ciência e da Técnica, inclusive nos sectores da Economia, da Política, da Administração Pública e da Filosofia. Conversão da pessoa à adoração da Vida.
Características do que houver no Sagrado: Criança como a melhor manifestação da poesia pura e como inspiradora e suporte, e incitadora a ser criança de todos os que existam. O gratuito da vida. A plena liberdade de todo o ser.”

Eis uma síntese perfeita do período da história portuguesa que Agostinha da Silva mais admira, e a que no dizer das suas ideias sempre regressa, resumo da ideologia que, então, orientava o país, com epicentro no reinado de D. Dinis (“o plantador das naus a haver”, no dizer de Fernando Pessoa). Agostinho complementaria assim: “Acho a época de D. Dinis perfeita (…) A Rainha Santa e o rei-poeta. Calcule, o casamento de um poeta e de uma santa, que coisa extraordinária! D. Dinis com os Estudos Gerais. Depois é que transformaram aquilo em universidade, que veio a dar no que deu. Estudos Gerais, estudo geral para toda a gente e geral para todos os estudos, que outra coisa quereríamos para Portugal senão isso? Toda a educação portuguesa devia ser essa. Voltar aos Estudos Gerais e ao D. Dinis.” 

Então, seguindo o nosso autor, haverá que disciplinar o processo de produção e de distribuição dos bens, de forma a chegar-se a uma economia comunitária que se inspire naquela que existiu, para construir uma economia mais humana, pois é esse o exemplo que nos dá a organização económica medieval em Portugal. O que a Europa trouxe para Portugal foi uma economia capitalista, uma economia de luta. Ora, muito melhor é uma economia de convivência e de cooperação comunitária, de autonomia municipalista, com uma distribuição mais equilibrada das riquezas, como era a que caracterizava a economia portuguesa da Idade Média, antes desta importação europeia. Tipo de economia que foi liquidada por essa outra importada.

Discorrendo sobre a organização política que se deveria seguir, em carta de Lua Nova de 22 de Janeiro, 1993, sustenta-se que deve esse tal “imaginário Convento Sonho duns Irmãos Servidores”, deveria assumir dois compromissos: primeiro, o de que Portugal, inspirando-se nesses princípios da ideologia medieval portuguesa, se deveria comprometer na educação da Europa Transpirenaica; segundo, de que viesse  a constituir-se uma Confederação, ou coisa parecida, de todas as Nações de Língua Portuguesa, sendo um dia Portugal seu representante na Europa Comunitária e, citando,  “…que fique nítido que o ideal de futuro é o da cultura do Povo Português nos séculos XIII e XIV.”

Neste sentido, relembre-se, a importância que tem, para si, o culto popular do Espírito Santo que ganha uma dimensão fundamental em Portugal neste período, com o ativismo espiritual da Rainha Isabel de Aragão. Culto Popular do Espírito Santo, ou Culto do Divino, que chega a Agostinho da Silva pela influência direta de Jaime Cortesão, e também de António Quadros, embora na forma de um reencontro, pois que, como nos diz, não exclui a hipótese de que ele próprio tenha “andado no tal século XIII envolto com os outros na Festa do dia de Pentecostes em que sonhava o povo português sentir-se já num Paraíso a vir…”.

Eis os três pontos essenciais da festa do Espírito Santo:
1. A coroação de um menino como imperador do mundo. A representação na Terra do Espírito Santo é a imaginação da criança. Ou, como diz Agostinho, também pode ser, inspirando-nos no presépio de Francisco de Assis, o menino representando o renascimento de Cristo: “é como se fosse Cristo renascendo.”
2. Através da imaginação da criança se chegará à libertação dos presos e ao fim de todas as prisões, internas e externas. Ou seja, à consagração do grande ideal de liberdade e de libertação espiritual que Agostinho sempre releva.
3. O banquete gratuito, como representação simbólica de uma livre repartição de recursos alimentares entre todos, de modo a que ninguém falte que comer.

No dizer do Professor, “É como se os portugueses tivessem dentro deles sem se expressar, inconscientemente, já essa ideia fundamental de ter que se caminhar para o futuro, mas para um futuro que era ao mesmo tempo do passado, porque, se o espírito santo que viria a reinar numa terceira Idade era coetânea do Pai e do Filho, logo pertencia a um passado de toda a Eternidade. (…) ou seja, uma festa em que os portugueses declaram como vai ser o tal mundo do Espírito Santo.”

E seguindo a carta de Lua Cheia de 8 de Março de 1993, “Pôsto isto assim, e acreditando num universo sacralizável ou de que se descobriria o Sagrado, na possibilidade de uma vida gratuita, numa defesa e desenvolvimento contínuos do Poeta que nasce em cada Criança e numa desejável inteira liberdade de cada ser, o melhor é não o andarmos pregando, mas o pormos em prática.”

Continuando, em carta no Crescente de Abril, “como os da Festa foram todos expulsos, para a Guiné ou para o Brasil, aí pelos séculos XV e XVI, pensámos que já era tempo de regresso (…) Nada será de uma dia para o outro, mas iremos à nossa tarefa com toda a calma, experimentando, poucos como somos, tornarmo-nos um tanto contagiosos e reaver o tesouro que se perdeu, mas de que ainda há lembrança nos Açores e muita prática no Brasil (…) Porque afinal tudo isto é só uma tentativa de alicerce de império: Império de Servir.”

E por se falar em “Império de Servir”, sobre as ideias quinto-imperiais, relembremos que Agostinho da Silva vê uma perfeita linha de continuidade entre a cultura medieval portuguesa, e Camões, Vieira e Pessoa, seja no “culto do espírito santo”, na “ilha dos amores” ou “5º império”, embora pesem os diferentes tempos em que existiram e a inevitabilidade de se relacionarem com as ideias do seu respetivo tempo. Afinal, em suma, dizer que Camões, Vieira e Pessoa são heterónimos do desejo de que haja no Mundo alguma coisa que seja a realização plena do homem.

Assim, o Império enaltecido na “Ilha dos Amores” dos Lusíadas, preconizado por Vieira e por Pessoa, será um império verdadeiramente “católico”, quer dizer, de acordo com a etimologia da palavra, universal, e caracteriza-se pelo advento da Idade do Espírito Santo, o consolador da esperança humana, tal como profetizara o evangelista S. João e idealizou o abade italiano Joaquim di Fiore.

Este Deus consolador que se refere é aquele que Cristo revela, a quem Agostinho reza na igreja, mas que não é o Deus das igrejas, antes o Deus que as une a todas e paira acima de todas. É um Deus que podemos chegar se atingida a verdade. Um Deus íntegro, total, paradoxal, tudo e nada, imanência e transcendência, que junta tempo e eternidade, sem separação de bem e de mal, de homens e animais, de tudo o que existe. Um Deus que é, antes de mais, inefável, e é silêncio, onde ciência e filosofia, “saudades disfarçadas em raciocínio”, devem ajudar a atingir, mas não podem definir.

Às influências de Jaime Cortesão e de António Quadros, sobretudo do primeiro, seu sogro, com quem conviveu e trabalhou no Brasil, deve juntar-se a ideia de “luso-tropicalismo” do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre que nesse país fez escola, base da ideia que expressa na carta de Lua Nova (face virada ao sol), Abril de 93, sobre “o empreendimento em que pensa o Brasil duma Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, e seus crioulos, filhos, por seu turno, do crioulo que o Português foi do latim, tudo afinal neto do mais vasto Indo-Europeu.” O Brasil torna-se em Agostinho, o contemporâneo parceiro ecuménico por excelência daquele Portugal medieval que proclamava o reino do Paráclito, pois que à comunidade luso-brasileira deverá caber a missão de condução desse projeto ecuménico ao mundo. Como sabemos, Agostinho da Silva é um dos percursores da conceção de um Projeto Lusófono que junte países e comunidades, ideia que acabou por se materializar em 1996, com a criação da “CPLP” (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).

E continuando ainda com o que nesta carta se diz: “O que vai haver, sem velas, excepto as desportivas, mas por aeroportos e por Faxes, é a integração dum pensamento como o de Lao-tsu, se dele é, (…) que os há em todas as religiões e filosofias (…) reinado da criança e sacralização dos animais e de tudo o resto. O que temos de ter connosco é um sentido de ordem não opressiva que impeça o caos e ondas de imaginação a saudar o que ainda não veio, com uma China cada vez mais para o concreto, um Brasil todo virado ao sonho, e, no meio, uma África que nos ensine a todos, já que índio enfraqueceu por tanto século de luta.” E aqui, como se refere Lao-tsu também se poderiam referir ideais budistas, particularmente, do budismo zen, espiritualidade que Agostinho também enalteceu. Como sabemos o próprio Agostinho visitou o Japão em 1963 e aí conviveu entre faculdades, templos e monges budistas, e disso nos deixou testemunho.

E para terminar, na última carta “de Setembro de Lua Cheia, de 93”, e sendo que o forte “avc” de 17 de outubro já se avizinhava, Agostinho deixa-nos três princípios pessoais orientadores de vida: “o de se ver livre do supérfluo, o de não confundir o verbo amar com o verbo ter, o de prestar voto de obediência ao que for servir, não mandar (…) Para tudo o que fordes e fizeres rogarei perfeito empenho e boa sorte, bom vento de navegar.”

 ...e como prometido no título da comunicação cá fica Um poema

Se eu chegar a ser dum Outro
mas de mim não me perdendo
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

não só homens mas também
os animais e as plantas
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurecta da morte.

Agostinho da Silva, Uns poemas de Agostinho, 1989

Luís Santos
2 de julho/2019


 Referências Bibliográficas:

SANTOS, Luís Carlos dos (org.) (1995) As Últimas Cartas do Agostinho… Edição do Círculo de Animação Cultural de Alhos Vedros.

Idem (2016) Agostinho da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia (td). Vila Nova de Gaia: Euedito.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Caetano Veloso e Agostinho da Silva sob o signo "Deus está solto"




por Eduardo Aroso

Num dos seus escritos em forma de crónicas, reunidas no volume Caetano Veloso – Verdade Tropical, edição Círculo de Leitores, o cantor-compositor brasileiro confessa a influência que teve de Agostinho da Silva, bem como de outras figuras que gravitavam então junto do filósofo português,  no alvorecer do que viria a ser denominado «tropicalismo». Agostinho, um “bandeirante da cultura”, ensinava e criava instituições e universidades em terras de Vera Cruz, e, contra a corrente de uma distorcida portugalidade forjada pelo Estado-Novo,  o pensador de Barca de Alva retomava a ideia de uma vera fraternidade luso-afro-brasileira, só impossível se o Homem não o consentir. Caetano estava então imerso na ideia do que viria a ser o «tropicalismo» (nome incluído no álbum do cantor baiano «Tropicália»), conceito criado pelo artista plástico Hélio Oiticia, sendo que foi o jornalista Nelson Motta que pela primeira vez escreve um artigo sobre essa decisiva corrente cultural, com repercussões na música, literatura, cinema e outros domínios. A Roberto Pinho ficou a dever Caetano a sua ida para o Rio de Janeiro. Dele, diz o cantor: «Ele fora formado pelo professor Agostinho da Silva, o fascinante português fugido do salazarismo e que via no Brasil um esforço de superação da fase nórdico-protestante da civilização. Era um paradoxal sebastianismo de esquerda que se nutria de lucidez e franco realismo e não de mistificações. Se aquilo era um ardil da saudade do catolicismo medieval lusitano não ficava claro para mim».

 O que mais importa, de relance, é observarmos o impacto que para um cantor brasileiro do séc. XX tudo aquilo tinha no seu espírito. «O professor Agostinho, interessado em ligar Brasil com África e Oriente (no fim da vida ele estava apaixonado pela China “póscomunista”), nunca derrapou para nenhum tipo de reaccionarismo  radical: ele amava ver em Portugal (o mais antigo país da Europa – unificado e feito Estado-Nação desde o século XII) uma sugestão de futuro espiritualmente ambicioso, sem negar os frutos da paixão nórdica pela tecnologia. E quando ele dizia petulantemente que “Portugal já civilizou Ásia, África e América, falta civilizar Europa”, estava sobretudo mostrando que queria pensar ao arrepio dos poderosos».

Na verdade, fosse por convicção pessoal, por aquilo que emanava do próprio «tropicalismo», pensando com Agostinho neste cenário de fundo na ideia de uma relação Portugal Brasil, muito para além da distorcida que apresentava o salazarismo, ou ainda por todas estas circunstâncias, o certo é que por volta da década de 60 o cantor-compositor inculcava uma utopia clarividente da realização da Língua Portuguesa, não sendo de minimizar o facto de ser baiano de nascimento (como, por exemplo, Jorge Amado), isto é, uma herança genética que podia entrever o triângulo, Portugal-Brasil-África, quiçá mais interessante do que o tão falado triângulo das Bermudas (!). Caetano, conforme confessa, intui que «deveria aceitar a sugestão do destino e ir fazer música no Rio e em São Paulo porque coisas grandes necessariamente adviriam disso». É de crer que o autor de «Tropicália» aceitasse, dir-se-ia, essa missão de ser voz e melodia desse sonho que no sotaque «de português com açúcar (Agostinho da Silva) fizesse girar a seiva de alma e cultura no referido e cosmopolita triângulo. Embora a música do cantor fosse um canal importante não se pode descuidar a influência do cinema na figura exemplar de Glauber Rocha (também baiano) nas obras «Deus e o Diabo na Terra do Sol» ou «Barravento», este último porventura o de maior influência no tropicalismo.

Mas não só de Agostinho, ou melhor, antes dele, há o fascínio de Caetano (melhor seria dizer encanto?) pelo idioma luso-brasileiro. No meio de tanto fervilhar de tropicalismo, de se reclamar um «Brasil brasileiro», havia a sedução intelectual do Brasil pelas correntes culturais da Europa, nomeadamente o Dadaísmo.  Todavia, já nos bancos de escola o cantor fica marcado por Mensagem de Fernando Pessoa, muito particularmente pela figura mítica de D. Sebastião. Assim o diz: «É um poema de Mensagem, o livro de Pessoa que me impressionara na época da faculdade por ser capaz  - ao parecer constituir a fundação mesma da língua portuguesa ou a sua justificação última – de dar vida digna a esse mito tão frequentemente ridicularizado (o termo “sebastianismo” virou sinônimo de impotência auto-iludida, um quase consensual depreciativo da crítica da cultura entre nós). Uma versão corajosamente livre (e surpreendentemente nada reaccionária) desse mito tinha se apresentado a nossa geração de baianos através da figura do professor português Agostinho da Silva que, nos anos de ouro da Universidade da Baía sob o reitor Edgar Santos, fundara em Salvador o Centro de Estudos Afro-Orientais, sempre mirando um horizonte  de superação do estágio em que se encontrava o mundo liderado pelo Ocidente (…) Algo (ou muito disso) está por trás de toda a obra de Glauber – e, em que pesem as ironias e desconfianças, de todo o tropicalismo».

Podemos especular- não o sabendo com realidade de fonte directa – do que,  nos dias actuais, Caetano pensa de Agostinho da Silva, parecendo certo que a sua ideia e amor à língua portuguesa (aliás, bem apoiado pela irmã Bethânia) não conheceu declínio, a julgar pela sua obra, e pelo que, por contraste, disse da língua inglesa, quando por imperativos profissionais permaneceu uma temporada em Inglaterra. Seja como for, há uma indesmentível convergência que incarna perfeitamente no âmago do pensamento agostiniano, quando o cantor, ao jeito do Grito de Ipiranga, lança um outro quando diz «Deus está solto».

Maio 2019

(in, António Telmo. Vida e Obra. Ver mais aqui: https://www.antonio-telmo-vida-e-obra.pt )

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Dar Voz ao Silêncio


por Luís Santos

Faz hoje, 3 de abril, precisamente 25 anos, então um Domingo de Páscoa, que se deu o desparecimento físico do Professor Agostinho da Silva, rumo ao lugar donde nasceu, o futuro. Aqui fica como lembrança um poema nosso onde se O refere e que, muito provavelmente, sem os seus ensinamentos dificilmente teria acontecido.




MÚSICA DE PALAVRAS

VII. Da Ressurreição - Cântico dos Cânticos

Descansam os ventos, suspendem as chuvas
e sossegam ás águas dos mares, deslizam
os anjos vão acima, vão abaixo
e ladeiam um canal de luz, mais que luz
iridescente,
harpas e tamborins, uma flauta de pan
aproveita-se toda a claridade do luar
e, por detrás, um cântico dos cânticos

Um mel etéreo que escorre do céu,
devagar,
uma vibração que nem voz, um ânimo
um aconchego, um calor no peito
e por esse canal que nem luz
lá vai Jesus, quarenta e sete dias
depois do Carnaval,
primerio domingo depois
da lua cheia equinocial, um dia
especial o primeiro de abril

Lembramos um Professor que também
partiu num domingo de Páscoa,
não se percebeu se foi ele que escolheu
ou se decidiram por si,
sabemos que segundo diz
nasceu onde quis
e fez do seu berço Portugal,
a Língua Portuguesa e a Ibéria,
tudo junto, e adiante
um pensamento ecuménico

Na cruz floresce uma rosa
de dentro do meio da dor,
o amor
uma flor na primavera,
ou muitas cores, muitas flores
porque se é feio também
há-de ser bonito, e se tem mal
bem também tem, o meu bem
ou nem isso, tudo é Um só
tudo junto, é a suprema beleza
da natureza, tão rija e forte
mas é doce e é bela, é Ela
uma mulher, Maria
Trindade, tudo no mundo

Pelo tal canal sobe uma luz
uma energia subtil, cor de rosa
e azul, um brilho azulado, uma taça
e uma chama. És tu!
É uma roda viva de vidas infinitas
raras e preciosas, o tal vitral
um cristal, uma ponte, uma passagem
uma miragem no deserto
uma fonte de água cristalina
um riacho, uma lagoa
uma flor de lótus

É o fim da dor
Deus dos ateus até
e tu vais, ou não vais, vais
ter de escolher, ou de reconhecer
o que é igual, a paz do lugar enfim,
e a música é o cântico dos cânticos
o bater das asas dos anjos
uma pomba branca refeita
e a pauta são os fios de luz
onde pousam as andorinhas

O céu é azul, os campos são verdes
e castanhos correm os rios
a caminho da foz.
Tudo é aqui e agora.
É esta a hora.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Agostinho da Silva e Barca de Alva


Agostinho da Silva, escultura em Barca de Alva. Assinalando aqui os 112 anos do seu nascimento. Os créditos das fotografias pertencem a Cláudia Leite Bolila. O arranjo do texto é de Luís Santos.






















George Agostinho Baptista da Silva, filho de Francisco José Agostinho da Silva e Georgina do Carmo Baptista da Silva, nasce na cidade do Porto a 13 de Fevereiro de 1906. Mas logo pouco tempo depois, com seis meses de idade, por destacamento profissional de seu pai foi viver para Barca D’Alva, lugar fronteiriço do Concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda. Aqui passou parte da sua infância, até aos seis anos de idade, altura em que haveria de regressar ao Porto.

Em 1986, com oitenta anos de idade, Agostinho da Silva produziu um manuscrito com o título de Caderno de Lembranças, onde nos lega uma descrição sobre os seus primeiros tempos de vida. O que é curioso é que o início desta sua descrição recua ao ano de 1905, altura em que o autor começa a dar conta de que irá nascer. E é tão interessante a descrição que não deixamos de a transcrever em parte:

“Lá por 1905, mas nada há mais difícil do que relacionar tempo e eternidade, ou fixar-se simultâneo nos dois planos – os grandes pintores o fazem no olhar de suas figuras -, mas, enfim, por essa altura, comecei a tomar atenção no belo globo que rolava diante de nós, e a tentar descobrir lugar aonde me agradasse descer para principiar minha vida. A meu lado, outros faziam o mesmo, e até discutíamos os méritos de um e outro ponto, mas sem voz, tanto quanto me lembro, porque o nascer tira muito a memória (…) Quando, voluntária ou involuntariamente, quem o sabe, gostei de, a cada volta do globo, ver surgir de novo nossa península ibérica, deu-se – fenómeno curioso, o mesmo que, maquinado pelos homens, se veio a chamar zoom: À outra volta, a península estava maior, só havia uma nesga de mar, de um lado e outro, e uma cadeia de montanhas, bem em relevo, a limitando para o norte; ou eu a estou a ver agora assim, porque, donde eu a contemplava, não havia nada que fosse acima ou abaixo: simplesmente era. Na outra volta, a metade que posso dizer agora de meu lado direito desaparecera, como desaparecera toda a faixa do sul. Fixava-me, de facto, no que aprendi a chamar Portugal (…)” (Agostinho da Silva, Caderno de Lembranças. Corroios: Zéfiro Editora, pp 15-16)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Pelos Vencidos


por Agostinho da Silva

[...] “A justiça há-de ser para nós amparo criador, consolação e aproveitamento das forças que andam desviadas; há-de ter por princípio e por fim o desejo de uma Humanidade melhor; há-de ser forte e criadora; no seu grau mais alto não a distinguiremos do amor.


   Por isso mesmo estarás sempre ao lado dos vencidos que se tratam com arrogância, com brutalidade ou com desprezo; não te importarás que as suas ideias sejam diferentes das tuas, mover-te-á o olhares que são homens e não hás-de duvidar nem um momento da infinita possibilidade que neles há de um mais definido pensamento e de um mais perfeito proceder; não os vejas condenados para sempre à mesma estrada que tomaram; que exista para ti a esperança das reflexões e dos regressos.


   Ao teu amigo ou adversário dirás sempre a verdade a respeito dos vencidos, sem que te impeçam o afecto ou o ódio: levanta a voz, seja qual for o lugar ou o instante, a favor dos que, tombados na luta, ainda têm de sofrer as prepotências; protesta, enquanto te deixarem protestar, contra a vileza, contra a cobardia dos que esmagam quem têm à mercê, dos que torturam os corpos e as mentes, dos que se armam contra os desarmados; e, quando não te deixarem protestar, protesta ainda.


 
 Nessa batalha a ninguém feres; vais servir os próprios que censuras; pode ser que às tuas palavras se convertam os Césares e deixe o centurião tombar a espada; pode ser que os cativos se redimam; mas, se nada conseguires de imediato, terás dado ao mundo um exemplo de liberdade interior e de firme coragem; terás lançado a tua pedra – e não das menores  – para a grande construção; terás ganho para a vida uma força ante a qual, mais tarde, se hão-de aplanar os ásperos caminhos e abater os alterosos obstáculos.”


Agostinho da Silva, in Textos e Ensaios Filosóficos I, Âncora Editora, Abril 1999 (p.112,113)

(Folhas à Solta, nº75, Associação Agostinho da Silva)

sábado, 20 de maio de 2017

AGOSTINHO DA SILVA - O PARADOXO E A VIDA CONVERSÁVEL


Abdul Cadre
«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!» AGOSTINHO DA SILVA
Chegou a este lado da vida no ano de 1906, desembarcou na cidade do Porto sob o signo de Aquário e entendeu deixar-nos no Domingo de Páscoa de 1994. Neste entretanto, foi o mais que numa só vida se pode ser: filósofo (no mais profundo do conceito), professor contagiante, escritor polifacetado, conferencista, educador, poliglota, viajante, fundador de institutos e universidades…
À semelhança de Fernando Pessoa, usou vários heterónimos, não para produzir um drama em gente, como dizia aquele, mas como matriz de uma vida conversável.
Se quiséssemos um nome para o seu pensamento, podíamos chamar-lhe «filosofia da vadiagem». Em que consiste? Tornarmo-nos na criança que se maravilha com tudo o que observa, poetas à solta e arranjarmos maneira de criar as condições adequadas para cumprir o nosso destino (que é a nossa liberdade) de contemplar o mundo tornado conversável, isto é, pacífico, fraternal e solidário. Como fazê-lo? Ser cada um aquilo que verdadeiramente é e tornar-se contagiante. Contagiar pelo exemplo e não fazer batota com o vírus que o torna humano, que é a fala, não esquecendo que esta lhe vem do céu; o que se ganha ao nascer é a voz.
O seu pensamento místico profundo, ao convergir com o entendimento de várias escolas do campo do esoterismo, tornavam-no atracção dessas mesmas escolas, sendo visitado por alguns dos seus dirigentes. Agostinho da Silva tinha então o cuidado de sublinhar ser um místico e não propriamente um esoterista, ou um hermetista.
Quando alguém se referia ao seu discurso como o “seu pensamento”, logo ele retorquia não saber se o pensamento era dele; era bem possível que o pensamento andasse por aí e que o seu mérito teria sido encontrá-lo…
Nascido português – nacionalidade que só readquiriu em 1992 – naturalizou-se brasileiro, na sequência do exílio a que se viu obrigado, por razões políticas. Foi por isso no Brasil que desenvolveu a maior parte da sua longa vida académica e deu largas à sua produção literária e filosófica, onde nenhum género lhe foi estranho. Quando nos deixou, tinha dupla nacionalidade, a sua pátria era a língua portuguesa e a sua religião a dos fiéis do amor.
A riquíssima bibliografia de George Agostinho Baptista da Silva, de seu nome completo, pode consultar-se em http://www.agostinhodasilva.pt/. Nestas linhas, vamos tão-somente tentar interpretar a figura daquele que entre amigos e admiradores era chamado apenas de «Professor». Dizemos interpretar, sabendo bem que toda a interpretação implica limitação e parcialidade. Professor, aureolado de mistério, rodeado de alunos e de pombos, sob uma frondosa árvore, no Largo do Príncipe Real, em Lisboa, é também como é referido no romance Casa da Rússia, do escritor britânico John Le Carré, que o visitou um dia no nº 7 da Travessa do Abarracamento de Peniche, a bem conhecida morada, situada na 7ª colina de Lisboa, onde acorriam em peregrinação permanente os muitos amigos e admiradores, que tinham por ele uma atracção quase religiosa.
Após uma série de entrevistas televisivas, subordinadas à designação Conversas Vadias, o pensamento do professor Agostinho da Silva chegou ao grande público, tornando-se conversa de café, nem sempre fiel, antes pelo contrário.
O seu magnetismo e a aura pública que ganhara eram tais que o número daqueles que não gostavam dele seria bem reduzido, poucos se atrevendo a criticá-lo negativamente. Um dos seus poucos detractores, o melhor que achou para dizer – citamos de cor – foi: «como filósofo, é uma fraude, mas o que mais me aborrece nele é aquela postura presunçosa e anacrónica de profeta». Todavia, tal remoque mais se destacou pelo azedume do que pela originalidade, pois é certo que alguns comentadores de boa vontade e respeito o designavam como um misto de filósofo grego e profeta bíblico.
Do muito que se dizia e comentava, diríamos nós que aqueles mais virados ao orientalismo chamavam-lhe Mahatma; os tocados pelo new age diziam que tinha vindo do futuro; os esoteristas queriam-no como mestre; os ateus lamentavam que ele não repudiasse a crença em Deus, os cristãos que ele fosse budista e os budistas que ele fosse cristão; os monárquicos queriam-no para alferes da pátria, os conservadores chamavam-lhe comunista, os comunistas chamavam-lhe intelectual burguês, os amigos do autoritarismo chamavam-lhe anarquista.
Que bom, para quem dizia que não tinha discípulos, porque quem puxa carroça é burro; que discutir, que etimologicamente significa sacudir, é bom, porque, mais do que despertar-nos, não nos deixa adormecer; que se a natureza quisesse que todos pensássemos igual não dava uma cabeça a cada um.
Ele nunca quis discípulos, apenas procurou despertar no outro a chama tímida ou ignorada com que veio a este mundo. Além disto, sendo certo que não desprezava os livros, nem o saber de que eles são depósito, prezava bem mais a vida, que ela sim é que é mestra.
Quando lhe perguntavam se se considerava um esoterista, ou um ocultista, dizia que não, que o Pessoa é que sim, ele seria simplesmente, se lhe quisessem pôr uma etiqueta, um místico, cuja principal característica é o amor no seu sentido mais lato, implicando naturalmente o amor ao saber. Dizia ele: «Talvez o maior amor seja o dos místicos, porque esse tem consigo a suprema qualidade de nunca ser plenamente realizável».[1]
Quando lhe diziam do quão utópicas eram as suas proposições, respondia que pois claro, pois que se referiam ao futuro. Não seriam utópicas se havidas no passado, pois que utopia é aquilo que ainda se não realizou, aquilo que ainda não teve lugar, segundo a própria etimologia. Não se trata de coisas impossíveis. A utopia de hoje é a realidade de amanhã.
É bom que se diga que as propostas de Agostinho da Silva, classificadas por muitos como utópicas, partiam de exigências bem simples, que ele invocava como a base da verdadeira sociologia e chamava do princípio dos três esses: o sustento, a saúde e o saber.
Depois, quando afirmava que não era pelo heterodoxo nem pelo ortodoxo, mas sim pelo paradoxo,[2] punha em tudo isto o cerne do mistério da Religião e da Ciência, bem como de todo o conhecimento. Veja-se o grande paradoxo da Geometria: o ponto, que não tem dimensão, desenha todas as dimensões, toda a geometria conhecida. Também Deus poderá ser visto como o supremo ser paradoxal, pois tem a fatalidade de ser livre, sendo assim o modelo de todos os paradoxos e o poeta à solta por excelência. Então, se o concebemos como modelo, fundamos necessariamente o nosso dever de ascender ao paradoxo. A conquista do paradoxo impede que nos acusemos mutuamente. Quem é que não sabe que é sempre um ortodoxo que acusa outro ortodoxo de ser heterodoxo?
O seu contacto com a cultura japonesa – foi bolseiro da UNESCO no Japão – despertou-lhe o interesse pelo xintoísmo e pelo Zen budismo. O seu apreço pelo paradoxo fê-lo dizer que podíamos definir o Zen como um sistema paradoxal por excelência, aquele que admite que alguma coisa seja sempre alguma coisa e o seu contrário. Se perigo existe nisto, é a impossibilidade de um verdadeiro código moral.
Tendo estudado profundamente várias religiões, incluindo os cultos afro-brasileiros – participou em rituais de candomblé – dizia do islão que o critério da submissão – etimologia de islam – não lhe era simpático, já que a liberdade é o nosso dever ser, mesmo que paradoxalmente se possa dizer que o nosso destino é a nossa liberdade e a liberdade o nosso destino. O seu fervor ia para o que se referia à Idade do Espírito Santo,[3] na sequência do pensamento de Joaquim de Flora[4] e das propostas de Francisco de Assis, cuja anunciação ritual e simbólica remonta em Portugal às acções da Rainha Santa Isabel[5]: as festas (culto) do Espírito Santo, a coroação do Menino Imperador do Mundo, a libertação dos presos, a vida gratuita.
A sua grande admiração pela Fé Bahá’í, levou algumas pessoas a pensar que ele seria membro desse culto, mas Agostinho da Silva, poeta à solta, não pertencia a nenhuma igreja instituída, nem a partido político ou grupo. Todavia, do seu ponto de vista, a Fé Bahá’í constituía uma atitude religiosa que valia a pena estudar, entender e praticar, pois enquadrar-se-ia nos valores constitutivos do Quinto Império.[6]
Não se confunda Quinto Império com qualquer mando ou poder mundano, conote-se sim com quinta-essência, Idade do Espírito Santo, Era de Aquário. Veja-se em Fernando Pessoa, veja-se na Ilha dos Amores.
E saiba-se que as propostas Bahá’í,[7] agostinianas e pessoanas têm imensos pontos convergentes e coincidentes com a «Utopia Rosacruz», conforme contida no manifesto Positio.
Voltemos então à vida conversável: «… a pluralidade e até a contradição de opiniões «obriga a pensar e a escolher e é pela escolha que se afirma a liberdade de cada um»[8]. Será, pois, pela via do conversável – da poesia à solta – que a vida se desenvolverá, «porque o mundo acaba sempre por fazer o que sonharam os poetas»,[9] sendo que «poeta é todo aquele que cria».[10] Afinal, «o mundo é só o poema em que Deus se transformou»[11]. Então, bastas vezes o professor dizia que há duas coisas muito importantes que devemos aprender: o quão extraordinário é o mundo e sermos por dentro tão amplos quanto possível, para que o mundo todo possa entrar, sem esquecer que um dos significados da palavra mundo é limpo. Por isso, devemos querer o mundo e não o seu contrário, que é o imundo. Todavia, «seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau; mas é nessa mesma maldade que devemos procurar o apoio em que nos firmarmos para sermos nós próprios melhores e, como tal, melhorarmos os outros»[12]. Este melhorar os outros, porém, exige muita empatia e um cuidado apurado quanto à intransigência. «Ser intransigente com os outros não tem grande sentido; eles são o que podem ser e creio que seriam melhores se o pudessem; a Natureza ou o meio lhes tiraram as condições que os levariam mais alto; não os devo olhar senão com uma íntima piedade.»[13]Afinal, «o mal que se vê é aguilhão para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de aço, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso.»[14]
Quando o tomavam por vegetariano, costumava dizer que evitava comer bicho, porque os bichos não tinham culpa de que ele precisasse de comer…
Mas um certo dia, em sua casa, um grupo alternativo condenava com paixão a crueldade dos caçadores. Ele ouvia, ouvia pacientemente e a dada altura remata: pois é, matar os pobres dos pássaros, que não fazem mal a ninguém… Claro, é cruel. Mas por outro lado, já viram quanta perícia é necessária para apontar a arma a um bicho assim tão pequenino e acertar-lhe em pleno voo?
Era a sua forma de ver as coisas pelo seu conflito intrínseco e a aplicação didáctica do princípio cristão de «não julgarás». Nisto, por vezes, chegava a ser desconcertante. Numa entrevista, dizia: «Não há homem algum que não possa ser elogiado; às vezes os assassinos têm pontaria excelente; e não existe homem algum que não possa ser censurado; houve santos que não tomavam banho».[15]
De ser desconcertante poderia falar aquele franciscano que fora convidado para dar início à ideia do professor de uma Faculdade de Teologia e que, quinze dias depois da chegada ao Brasil, vindo de Portugal, continuava à espera, sem nada para fazer. Foi ter com o professor: «então, a Teologia?». Responde-lhe o Professor: «Meu querido irmão, faça o seguinte, escolha um lugar sossegado onde ninguém o possa ver ou perturbar, sente-se numa pedra e pense em Deus, sem nunca se distrair, pelo tempo que possa».
A ideia de Agostinho da Silva para uma Faculdade de Teologia, era um lugar onde residiriam em permanência teólogos de várias religiões com a missão de investigarem, ensinarem e trocarem experiências teológicas. Nunca tal concretizou e o máximo que conseguiu foi uma Faculdade de Teologia restritamente católica, entregue aos dominicanos, com quem acabaria por se dar excelentemente. Foi por eles convidado para falar sobre o ateísmo e acabou por converter um deles às suas teses.
Uma das teses era de que alguns dos ateístas «tinham uma vida mística tão forte e tão sensível quanto a de qualquer homem religioso»[16]. Outra tinha a ver com as relações entre religiosidade e mística, pois entedia que «há milhões de pessoas religiosas cuja vida mística é nula, sendo praticamente uma vida comercial, visto comprarem um certo número de coisas por meio de certos actos e cerimónias e mais nada»[17].
Em Julho de 1986, entrevistando o professor Agostinho da Silva para o Diário de Notícias, a jornalista Antónia de Sousa dizia a dado passo: "O professor é contagioso...", ao que ele retorquia: "Se o contágio é bom, excelente! Se o contágio for considerado ruim, péssimo!".
É que há palavras que são vírus de matar a Graça, acharis. Por exemplo: competição, produtividade e rendibilidade, que são formas de negar a fraternidade, a liberdade e a igualdade. Tal trindade agnóstica dos economistas deste tempo que passa, envolve o desprezo do homem, da natureza e do sagrado. O homem tornado ser descartável, a natureza como uma serva e o sagrado como postura tola de poetas vagos e beatas serôdias. E assim a vida se nega pela assunção da morte e esta nos despreza, porque a escolhemos por engano.
E há palavras que são vírus de enganar, como o moderno diálogo, que é o divórcio na fala pela emulação dos monólogos; a língua bifurcada com palavras de pontas aceradas, esperando a rendição. Falsamente polidas, envenenadamente sopradas. Eis o credo ainda insepulto e já cadáver, a sombra que passa. Diálogo que, como dizia o mestre, tem o mesmo prefixo que diabo, que é aquele que divide. Diabo que só existe quando lhe damos existência.
E há ainda palavras de ornamento, inúteis como togas, e outras de ruído que empapam a conversa. E há o discurso da promessa e do apelo, a ameaça e os esbirros de soslaio. Mas vem o menino imperador e diz: "basta!" Nem grades nem ornamentos. O menino tem o sorriso bondoso e matreiro do velho professor. Está como sempre esteve, no Príncipe Real, a dar milho aos pombos e palavras de eucaristia aos jovens atentos. Como o viu John Le Carré e quase assim o pôs na "Casa da Rússia" . O escritor só não viu que este era um ritual, um quase conjuro do grande banquete do Espírito Santo, que Isabel, influenciada por Joaquim de Flora, inventou para um dia – um dia de comer de graça para todos – e nós temos de ser capazes de em futuro mais ou menos próximo prolongar por todo o ano. E aí à mesa se conversa, que é o modo mais humano de comunhão dos alimentos do corpo e da alma.
Conversar sim, que é colocar-se a gente na posição do outro. Em conversão, que é um caminho de dois sentidos, uma postura de mútua descoberta.
NB: Das obras mencionadas em rodapé consulte-se a bibliografia no site mencionado no corpo do texto.

[1] “Sete Cartas a Um Jovem Filósofo”
[2] Uma das obras de Agostinho da Silva chama-se precisamente Reflexões, Aforismos e Paradoxos.
[3] Os esoteristas diriam Idade de Aquário
[4] Teoria das três idades: do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
[5] De educação e ascendência cátara, à Rainha Santa Isabel atribui a lenda o célebre milagre das rosas: teria transformado moedas de ouro nas mencionadas flores. O curioso é que à sua tia-avó, Isabel da Hungria, também a lenda diz o mesmo. De Santa Isabel, o que muito poderá despertar a curiosidade dos rosacruzes é a sua relação com o médico, astrólogo e alquimista Arnaldo de Vilanova. O túmulo da santa, com o seu corpo incorrupto, encontra-se no Convento de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra
[6] «Raízes Intemporais da Vida e da Alma de Agostinho da Silva», Ellys, editora Sete Caminhos, Lisboa, 2006.
[7] É bom esclarecer que os célebres colóquios «TRADIÇÃO E INOVAÇÃO – SUA UNIDADE EM AGOSTINHO DA SILVA», que tiveram lugar na Faculdade de Letras do Porto (1996-1999), se deveram ao grande empenhamento da associação agostiniana CADA, onde membros da AMORC e seguidores da Fé Bahá’í tiveram a iniciativa.
[8] “Carta Vária”
[9] “Conversação com Diodima”.
[10] “Conversas Vadias”, entrevistas televisivas. Foram publicadas em DVD
[11] “Quadras Inéditas”
[12] “Parábola da Mulher de Loth”
[13] “Diário de Alcestes”
[14] “Considerações”
[15] “Conversas Vadias”
[16] «Vida Conversável», textos organizados e prefaciados por Henryk Siewierski, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994
[17] Ibidem