«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!»
Agostinho da Silva

quinta-feira, 25 de maio de 2017

AÇORIANOS EM TERRAS BRASILEIRAS


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Rugendas, Brasil séc. XIX
Seja por vocação ou necessidade, a emigração sempre foi uma sina na vida dos ilhéus açorianos. Arquipélago oficialmente descoberto pelos portugueses, por volta de 1440, os Açores tiveram suas nove ilhas desabitadas paulatinamente ocupadas por portugueses do continente, madeirenses, flamengos (Brum, Bulcão, Silveiras, Dutra, Terra, Gularte ou Goulart, Rosa, Grotas) espanhóis (Bom-Dias,Arriagas), alguns franceses (Berquós, Bettencourt, Labat), ingleses (Currys, Streets, Whytons), judeus (Bemsaúde) e africanos (escravos), emigrados de outras partes do antigo Império Português, ou de terras que com Ele tinham relações políticas de comércio, ou parentesco.
O ar salutar, o solo fértil, vulcânico, porém sujeito aos caprichos da natureza, e a paz reinante, longe dos movimentos geopolíticos que abalavam o mundo, proporcionavam ao longo do tempo um crescimento populacional gradativo que em momentos de crise frumentária e sísmica sofria com a falta de alimentos. Essas situações periódicas associadas à má política dos donatários (em geral gente da nobreza portuguesa), onde as melhores parcelas de terra eram doadas aos parentes e amigos, restando aos colonos, que com eles aportavam às ilhas, os piores nacos de terra, levavam a dificuldades de subsistência e a um desequilíbrio social deplorável, principalmente nas ilhas mais populosas. A emigração foi a solução encontrada e adotada todos esses anos de existência ilhoa.
Para os governantes portugueses as ilhas açorianas foram uma fonte de recursos humanos que supriram as necessidades da pátria. Ocuparam espaços, desbravaram e patrulharam caminhos, defenderam fronteiras, fundaram e povoaram vilas, lutaram em frentes de guerra, foram mão-de-obra barata, silo de grãos nas boas épocas de colheita.
Pelas histórias contadas de riqueza e beleza, pela facilidade da língua, pelos amigos e parentes que lhes antecederam, os locais de eleição para imigração foram, nos séculos XVI, XVII, XVIII, XIX, as terras brasileiras, embora o Alentejo, em grande escala, e América do Norte, em menor proporção, também tivessem sido a opção de muitos açorianos.
Nos últimos dois séculos os Estados Unidos da América e Canadá tornaram-se, pela prosperidade e oportunidades que ofereciam, os países de primeira escolha para a imigração dos ilhéus. No Havaí e em outros países menos procurados (Venezuela, Uruguai e Argentina) a passagem açoriana ficou marcada nas comunidades que fundou e nos descendentes que guardaram as suas raízes.
No Brasil chegaram com os portugueses do Continente e da Madeira como desbravadores e colonizadores para cultivar a terra, rastrear e explorar riquezas, abrir e patrulhar picadas, resguardar espaços, fundar vilas que se tornariam as futuras cidades brasileiras. Com os índios locais e negros trazidos das possessões africanas, miscigenaram-se. Na insana lida da conquista, os mais simples esqueceram as raízes, porém, perseveraram na fé e nas crenças, mantiveram hábitos e costumes, legaram sua língua e cultura aos seus descendentes, participaram efetivamente na formação do povo brasileiro.
A emigração oficial sempre se dava com o apoio financeiro e material dos governos e contratantes de mão-de-obra que os aguardavam no desembarque. Mas como tudo tem um preço, eles haveriam de trabalhar por muito tempo para pagar o investimento dos patrões, antes de conseguir a independência ou... a morte. Paralelamente à emigração regulamentada, havia também a clandestina, bastante numerosa, facilitada pela dificuldade de controle das autoridades em policiar o entorno marítimo das ilhas, pelo isolamento do arquipélago, pela escuridão oportuna da noite, e pela ajuda de comandantes de navios que faziam vista grossa no intuito de auferir lucros mais adiante. Era a saída mais aventureira, onde à chegada não haveria nenhuma ajuda, só riscos e canseiras.
Nos primeiros tempos vinham poucos, esparsamente. Depois em levas mais ou menos importantes para experimentos colonizadores determinados, como em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Amapá, e finalmente em pequenos grupos familiares ou mesmo isolados para encontrar parentes ou amigos já assentados ou estabelecidos. Saídos das ilhas em barcos contratados, chegavam ao país pelos portos coloniais (Recife, Salvador, Rio de Janeiro). Em terra, migravam em diáspora, pulverizados, para os locais que lhes chamavam ou para onde eram encaminhados pelo governo. Norte (Amapá, Maranhão e Pará), nordeste (Pernambuco e Bahia), Espírito Santo, Rio, Regiões auríferas, interior paulista e mineiro, sul do Goiás, minas de Mato Grosso do Sul, Santa Catarina,... Iam para onde a sorte lhes acenava.
Esperava-os a aventura da incerteza e aqueles compatriotas que lhes antecederam e que poderiam lhes dar apoio na difícil empresa de sobreviver numa terra estranha.
Oficialmente, a primeira entrada de um grupo de açorianos em solo brasileiro se deu em 1619. Foram 300 casais que vinham para se estabelecer no Maranhão após a expulsão dos franceses. Mais tarde em 1675 saíam 50 casais do Faial, vitimas do vulcão de 1672 (Praia do Norte), e que foram mantidas pela bondade do governador da ilha, Jorge Gularte Pimentel, até 1675, quando partiram para o Brasil. Chegaram ao Grão-Pará em 1676 para servir como colonos e mão de obra nas plantações daquele espaço amazônico.
Em 1679, na Graciosa, e em 1719, no Pico, novas erupções vulcânicas obrigaram os ilhéus sinistrados a emigrar para a América Portuguesa, desta vez para a Colônia de Sacramento. Embora não haja a certeza da chegada desses ilhéus, o certo é que há conhecida descendência açoriana em terras uruguaias. Em 1740, um destacamento militar formado com homens das ilhas açorianas se instalou no Amapá e fundou Macapá, sua capital. Em 1770 a fundação do Município de Mazagão se deu na origem de Mazagão Velho, quando a Coroa portuguesa mandou para lá 163 famílias de colonos portugueses cristãos, oriundos do Castelo de Mazagran, (El Djadidá) Marrocos, que se conflituaram com os mouros islamitas.
  • Em 1723, no sudeste, são conhecidos alguns açorianos que marcaram a região (Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, e interior de Minas), através da sua descendência. Eram ilhéus migrantes de outras partes do território brasileiro que chegavam em busca de terras e riqueza.
  • O enorme afluxo de gente que a descoberta do ouro e as disputas para a exploração do metal (Guerra dos Emboabas- luta entre os paulistas, descobridores das minas, e os portugueses e brasileiros vindos de todos os lados) proporcionou, tornou o comercio de carne e alimentos uma ocupação muito rentável. Mesmo com o declínio da produção aurífera e diamantífera, com a situação mais apaziguada, os migrantes passaram a procurar terras para o cultivo e criação de gado, era uma nova e atrativa possibilidade para conseguir uma vida mais digna e estável. O sertão estava à espera de quem tivesse força e coragem para conquistá-lo. O governo através de seus representantes políticos e militares apoiava-os, montando troços militares pelos caminhos, distribuindo terras (sesmarias) a quem se dispusesse a ocupá-las. Assim é que os migrantes brasileiros e portugueses foram empurrando os negros dos quilombos e os índios cada vez mais para o interior, destruindo-os ou assimilando-os, tomando-lhes o espaço.
  • Segundo o genealogista e historiador, José Guimarães, em São João Del Rei, por volta de 1723, é conhecida a presença das três ilhoas faialenses (Antónia da Graça, Júlia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus) que vinham para se encontrar com Diogo Garcia, seu conterrâneo aparentado e futuro marido de Júlia Maria. Dos casamentos dessas açorianas, com patrícios, se originaram os troncos de várias e importantes famílias mineiras.
  • Fato semelhante ocorreu no século XIX, no atual Espírito Santo, quando entre 1813 e 1814 chegaram quatro levas de açorianos (200 indivíduos) para fundar a colônia de Santo Agostinho (hoje Viana). Conta a história que, quando o governador, Francisco Alberto Rubim da Fonseca e Sá Pereira (1795-1890) recebia um grupo de ilhéus (da Horta-Faial), viu um dos guardas do palácio do governo, Antonio de Freitas Lira, encantado com a beleza de uma das seis irmãs faialenses (Luiza Aurélia da Conceição), tocar os cabelos da jovem, irritado, como desagravo, declarou no ato o noivado deles. Verdade ou não, o fato é que três meses depois casaram. Em breve, todas elas se transformariam em matriarcas de destacadas famílias capixabas.
  • Entre os primeiros povoadores de arraiais e vilas de Minas, Mato Grosso do Sul e sul goiano, não é difícil encontrar a presença de raízes açorianas. Pamplonas em Formiga, Botelhos em Araxá, Borges, Vilelas, no Prata. Junqueiras, Rodrigues da Cunha, Terras, Goulart, em Uberaba...
  • Mas sem dúvida alguma a maior e mais marcante leva ilhoa ocorreu no sul do país. Pode-se dizer que grande parte dos colonos portugueses que para lá foram são das ilhas, o que se pode verificar nos arquivos legais e histórias familiares dos seus descendentes.
  • Foi um processo estimulado pela Coroa (D. João V) que por razões políticas e estratégicas visava à solução de dois problemas. Aliviar o arquipélago de gente, ocupar e defender o sul brasileiro das investidas estrangeiras. Só para Santa Catarina, entre 1748 a 1752 foram, principalmente, das ilhas centrais do arquipélago dos Açores (Terceira, Faial, Pico, São Jorge, Graciosa) cerca de 6000 pessoas. Para a época, quando o sul era pouco povoado, pode-se dizer que foi quase a translação de uma população de uma terra para outra.
  • Santa Catarina e Rio Grande do Sul são os estados brasileiros onde mais se encontram sinais desses emigrantes, seja na genética, na arquitetura, na religiosidade ou na cultura popular. Os manezinhos, descendentes dos antigos povoadores açorianos, ainda conservam alguns dos seus hábitos e costumes. Não é sem motivo que chamam a ilha de Santa Catarina (onde está a Capital Florianópolis) a décima ilha açoriana.
  • A cada situação de fome ou desequilíbrio social, a emigração era a solução. Em 1771 e 1774 saíram da Terceira, Faial, Pico, São Jorge, Flores e Corvo 301 pessoas. Destino Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e Pernambuco.
  • Em 1779 e 1785 outras levas (900 casais), principalmente de São Miguel, e em menor escala do Faial, dirigiram-se para o Alentejo, desta vez com patrocínio particular (Intendente Pina Manique), porém,  com o assentimento da Coroa. Toda essa evasão de gente, deixou o arquipélago desfalcado de braços para as lavouras. Em 1800, 1807 e 1813 dá-se notícia de mais casais açorianos chegados à Bahia. Facilitava a transferência da Coroa Portuguesa para o Brasil.
  • Mas foi após a Revolução Liberal Portuguesa, em 1820, que a emigração deixou de ser limitada pelo governo. A crescente procura de gente para a lavoura de café, e de jovens açorianas para serviços domésticos (eram solicitadas com preferências; morenas de olhos negros, claras de olhos azuis,...) pelos fazendeiros, estimulava a levas cada vez maiores de açorianos. Ao chegar, sem condições vantajosas de negociação, muitas dessas pessoas tornaram-se verdadeiras escravas brancas. As jovens rejeitadas, sem ter como se sustentar, terminavam desgraçadamente na prostituição. Inúmeras viviam em prostíbulos, morriam à míngua.
A mobilização militar também trouxe para o Brasil gente açoriana, principalmente a partir do século XVII, quando Portugal ficou sob a dominação filipina. A Holanda que era a maior inimiga da Espanha , na época, tornou-se também nossa inimiga. Em 1766 seguiram de S. Miguel para o Rio de Janeiro 400 recrutas e em 1774 a Coroa requisitava mais 600. Em 1776, foram 890. Esvaziavam as ruas de São Miguel e das outras ilhas de vadios, as cadeias de prisioneiros, de gente à toa. Ao término do tempo de serviço os soldados podiam optar por voltar ou ficar como paisanos no Brasil, com reforma. Os recrutamentos continuaram até que o decréscimo populacional quase paralisou as ilhas, em especial São Miguel, que viu em 20 anos diminuir a população em mais de 10 mil pessoas.
Fugindo do serviço militar, da miséria ou por índole aventureira, a emigração açoriana foi uma epopéia que deixou rastro por onde passou. Mesmo na atualidade, em que a emigração/imigração é um fato corriqueiro num mundo globalizado, como emigrante açoriana que sou, deixo, no país que adotei para viver, geração luso-brasileira que há de continuar no sangue e no viver as marcas que trago do meu povo.
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 Maria Eduarda Fagundes 
Uberaba, 28/05/12
DADOS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
  • Emigração Açoriana (Luís Mendonça e José Ávila)
  • Anais do Município da Horta (Marcelino Lima)
  • Famílias Faialenses (Marcelino Lima)
  • Memória genealógica das famílias faialenses (Francisco Garcia do Rosário)
  • A Oeste das Minas. Escravos, Índios, homens livres numa fronteira oitocentista. Triangulo Mineiro (Luis Augusto Bustamante Lourenço)
  • WWW. Potyguar.com.br/Amapá/primeiros colonos
  • Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (n.º 66. 211).
  • As Famílias Portuguesas Radicadas no Espírito Santo (Artigo de Paulo Struck de Moraes Vice-presidente do IHGES)
  • Povoadores do Sertão do Rio da Prata (Benedito António Miranda Tiradentes Borges)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

CONCURSO DE ESCRITA LIVRE (para crianças até aos 13 anos)


Para criar, estimular e consolidar hábitos de leitura e de escrita,
a ACADEMIA MUSICAL E RECREATIVA 8 DE JANEIRO DE ALHOS VEDROS
convida as crianças até aos treze anos a participarem  num

CONCURSO DE ESCRITA LIVRE

Regulamento
PARTICIPANTES-todas as crianças até aos 13 anos
TEXTOS- em prosa até dois por participante assinados com psudónimo
PRAZO-devem ser recebidas na Academia, até 10 de junho de 2017 Rua de Dadrá 4, em Alhos Vedros, ou através  do email academia8janeiro@gmail.com
O JURI será formado por três pessoas e terá como critérios entre outros - criatividade e Mensagem.
 Independentemente da forma de envio, deve ser enviado, em envelope fechado o nome, a idade, a morada, o contacto do autor e o título do trabalho em cujo exterior conste:

o pseudónimo  / CONCURSO DE ESCRITA DA ACADEMIA                  
Rua de Dadrá, 4 , 2860-059 Alhos vedros

O Trabalho vencedor será divulgado no dia 1 de julho, na 46ª Feira do Livro de Alhos Vedros que decorrerá de 29 de junho a 2 de julho, no Largo do Coreto em Alhos Vedros`.

ao trabalho vencedor será atribuído um prémio em livros no valor de 50 €

É intenção da Academia, editar oportunamente em livro, a compilação de todos os trabalhos apresentados a concurso, que será apresentado em cerimónia própria.
A direção da Academia 8 de Janeiro de Alhos Vedros, maio de 2017

terça-feira, 23 de maio de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Ui que dia longo, para deixar acabada a avaliação dos resultados do último ano. 
Mas são positivos e deixam margem para procedermos à expansão do negócio para Alhos Vedros, propósito que conto garantir no próximo ano. 
Pelo que prevejo para este uma série de meses sobrecarregados de trabalho. 



E nem tive tempo para me inteirar do dia escolar da Matilde. Espero dar conta disso amanhã. 

Por isso aqui vos deixo, por hoje. 


 Alhos Vedros 
   19/01/2004

segunda-feira, 22 de maio de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (255)

Título: Quintas do Norte - Murtosa Autor: António Tapadinhas Ano: 2010 Técnica: Acrílico sobre Tela Dimensões: 40x60cm

Peça em exposição no Fórum José Manuel Figueiredo, na Baixa da Banheira, no âmbito do projecto "O nosso lugar é um Mundo", da Câmara Municipal da Moita.



sábado, 20 de maio de 2017

AGOSTINHO DA SILVA - O PARADOXO E A VIDA CONVERSÁVEL


Abdul Cadre
«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!» AGOSTINHO DA SILVA
Chegou a este lado da vida no ano de 1906, desembarcou na cidade do Porto sob o signo de Aquário e entendeu deixar-nos no Domingo de Páscoa de 1994. Neste entretanto, foi o mais que numa só vida se pode ser: filósofo (no mais profundo do conceito), professor contagiante, escritor polifacetado, conferencista, educador, poliglota, viajante, fundador de institutos e universidades…
À semelhança de Fernando Pessoa, usou vários heterónimos, não para produzir um drama em gente, como dizia aquele, mas como matriz de uma vida conversável.
Se quiséssemos um nome para o seu pensamento, podíamos chamar-lhe «filosofia da vadiagem». Em que consiste? Tornarmo-nos na criança que se maravilha com tudo o que observa, poetas à solta e arranjarmos maneira de criar as condições adequadas para cumprir o nosso destino (que é a nossa liberdade) de contemplar o mundo tornado conversável, isto é, pacífico, fraternal e solidário. Como fazê-lo? Ser cada um aquilo que verdadeiramente é e tornar-se contagiante. Contagiar pelo exemplo e não fazer batota com o vírus que o torna humano, que é a fala, não esquecendo que esta lhe vem do céu; o que se ganha ao nascer é a voz.
O seu pensamento místico profundo, ao convergir com o entendimento de várias escolas do campo do esoterismo, tornavam-no atracção dessas mesmas escolas, sendo visitado por alguns dos seus dirigentes. Agostinho da Silva tinha então o cuidado de sublinhar ser um místico e não propriamente um esoterista, ou um hermetista.
Quando alguém se referia ao seu discurso como o “seu pensamento”, logo ele retorquia não saber se o pensamento era dele; era bem possível que o pensamento andasse por aí e que o seu mérito teria sido encontrá-lo…
Nascido português – nacionalidade que só readquiriu em 1992 – naturalizou-se brasileiro, na sequência do exílio a que se viu obrigado, por razões políticas. Foi por isso no Brasil que desenvolveu a maior parte da sua longa vida académica e deu largas à sua produção literária e filosófica, onde nenhum género lhe foi estranho. Quando nos deixou, tinha dupla nacionalidade, a sua pátria era a língua portuguesa e a sua religião a dos fiéis do amor.
A riquíssima bibliografia de George Agostinho Baptista da Silva, de seu nome completo, pode consultar-se em http://www.agostinhodasilva.pt/. Nestas linhas, vamos tão-somente tentar interpretar a figura daquele que entre amigos e admiradores era chamado apenas de «Professor». Dizemos interpretar, sabendo bem que toda a interpretação implica limitação e parcialidade. Professor, aureolado de mistério, rodeado de alunos e de pombos, sob uma frondosa árvore, no Largo do Príncipe Real, em Lisboa, é também como é referido no romance Casa da Rússia, do escritor britânico John Le Carré, que o visitou um dia no nº 7 da Travessa do Abarracamento de Peniche, a bem conhecida morada, situada na 7ª colina de Lisboa, onde acorriam em peregrinação permanente os muitos amigos e admiradores, que tinham por ele uma atracção quase religiosa.
Após uma série de entrevistas televisivas, subordinadas à designação Conversas Vadias, o pensamento do professor Agostinho da Silva chegou ao grande público, tornando-se conversa de café, nem sempre fiel, antes pelo contrário.
O seu magnetismo e a aura pública que ganhara eram tais que o número daqueles que não gostavam dele seria bem reduzido, poucos se atrevendo a criticá-lo negativamente. Um dos seus poucos detractores, o melhor que achou para dizer – citamos de cor – foi: «como filósofo, é uma fraude, mas o que mais me aborrece nele é aquela postura presunçosa e anacrónica de profeta». Todavia, tal remoque mais se destacou pelo azedume do que pela originalidade, pois é certo que alguns comentadores de boa vontade e respeito o designavam como um misto de filósofo grego e profeta bíblico.
Do muito que se dizia e comentava, diríamos nós que aqueles mais virados ao orientalismo chamavam-lhe Mahatma; os tocados pelo new age diziam que tinha vindo do futuro; os esoteristas queriam-no como mestre; os ateus lamentavam que ele não repudiasse a crença em Deus, os cristãos que ele fosse budista e os budistas que ele fosse cristão; os monárquicos queriam-no para alferes da pátria, os conservadores chamavam-lhe comunista, os comunistas chamavam-lhe intelectual burguês, os amigos do autoritarismo chamavam-lhe anarquista.
Que bom, para quem dizia que não tinha discípulos, porque quem puxa carroça é burro; que discutir, que etimologicamente significa sacudir, é bom, porque, mais do que despertar-nos, não nos deixa adormecer; que se a natureza quisesse que todos pensássemos igual não dava uma cabeça a cada um.
Ele nunca quis discípulos, apenas procurou despertar no outro a chama tímida ou ignorada com que veio a este mundo. Além disto, sendo certo que não desprezava os livros, nem o saber de que eles são depósito, prezava bem mais a vida, que ela sim é que é mestra.
Quando lhe perguntavam se se considerava um esoterista, ou um ocultista, dizia que não, que o Pessoa é que sim, ele seria simplesmente, se lhe quisessem pôr uma etiqueta, um místico, cuja principal característica é o amor no seu sentido mais lato, implicando naturalmente o amor ao saber. Dizia ele: «Talvez o maior amor seja o dos místicos, porque esse tem consigo a suprema qualidade de nunca ser plenamente realizável».[1]
Quando lhe diziam do quão utópicas eram as suas proposições, respondia que pois claro, pois que se referiam ao futuro. Não seriam utópicas se havidas no passado, pois que utopia é aquilo que ainda se não realizou, aquilo que ainda não teve lugar, segundo a própria etimologia. Não se trata de coisas impossíveis. A utopia de hoje é a realidade de amanhã.
É bom que se diga que as propostas de Agostinho da Silva, classificadas por muitos como utópicas, partiam de exigências bem simples, que ele invocava como a base da verdadeira sociologia e chamava do princípio dos três esses: o sustento, a saúde e o saber.
Depois, quando afirmava que não era pelo heterodoxo nem pelo ortodoxo, mas sim pelo paradoxo,[2] punha em tudo isto o cerne do mistério da Religião e da Ciência, bem como de todo o conhecimento. Veja-se o grande paradoxo da Geometria: o ponto, que não tem dimensão, desenha todas as dimensões, toda a geometria conhecida. Também Deus poderá ser visto como o supremo ser paradoxal, pois tem a fatalidade de ser livre, sendo assim o modelo de todos os paradoxos e o poeta à solta por excelência. Então, se o concebemos como modelo, fundamos necessariamente o nosso dever de ascender ao paradoxo. A conquista do paradoxo impede que nos acusemos mutuamente. Quem é que não sabe que é sempre um ortodoxo que acusa outro ortodoxo de ser heterodoxo?
O seu contacto com a cultura japonesa – foi bolseiro da UNESCO no Japão – despertou-lhe o interesse pelo xintoísmo e pelo Zen budismo. O seu apreço pelo paradoxo fê-lo dizer que podíamos definir o Zen como um sistema paradoxal por excelência, aquele que admite que alguma coisa seja sempre alguma coisa e o seu contrário. Se perigo existe nisto, é a impossibilidade de um verdadeiro código moral.
Tendo estudado profundamente várias religiões, incluindo os cultos afro-brasileiros – participou em rituais de candomblé – dizia do islão que o critério da submissão – etimologia de islam – não lhe era simpático, já que a liberdade é o nosso dever ser, mesmo que paradoxalmente se possa dizer que o nosso destino é a nossa liberdade e a liberdade o nosso destino. O seu fervor ia para o que se referia à Idade do Espírito Santo,[3] na sequência do pensamento de Joaquim de Flora[4] e das propostas de Francisco de Assis, cuja anunciação ritual e simbólica remonta em Portugal às acções da Rainha Santa Isabel[5]: as festas (culto) do Espírito Santo, a coroação do Menino Imperador do Mundo, a libertação dos presos, a vida gratuita.
A sua grande admiração pela Fé Bahá’í, levou algumas pessoas a pensar que ele seria membro desse culto, mas Agostinho da Silva, poeta à solta, não pertencia a nenhuma igreja instituída, nem a partido político ou grupo. Todavia, do seu ponto de vista, a Fé Bahá’í constituía uma atitude religiosa que valia a pena estudar, entender e praticar, pois enquadrar-se-ia nos valores constitutivos do Quinto Império.[6]
Não se confunda Quinto Império com qualquer mando ou poder mundano, conote-se sim com quinta-essência, Idade do Espírito Santo, Era de Aquário. Veja-se em Fernando Pessoa, veja-se na Ilha dos Amores.
E saiba-se que as propostas Bahá’í,[7] agostinianas e pessoanas têm imensos pontos convergentes e coincidentes com a «Utopia Rosacruz», conforme contida no manifesto Positio.
Voltemos então à vida conversável: «… a pluralidade e até a contradição de opiniões «obriga a pensar e a escolher e é pela escolha que se afirma a liberdade de cada um»[8]. Será, pois, pela via do conversável – da poesia à solta – que a vida se desenvolverá, «porque o mundo acaba sempre por fazer o que sonharam os poetas»,[9] sendo que «poeta é todo aquele que cria».[10] Afinal, «o mundo é só o poema em que Deus se transformou»[11]. Então, bastas vezes o professor dizia que há duas coisas muito importantes que devemos aprender: o quão extraordinário é o mundo e sermos por dentro tão amplos quanto possível, para que o mundo todo possa entrar, sem esquecer que um dos significados da palavra mundo é limpo. Por isso, devemos querer o mundo e não o seu contrário, que é o imundo. Todavia, «seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau; mas é nessa mesma maldade que devemos procurar o apoio em que nos firmarmos para sermos nós próprios melhores e, como tal, melhorarmos os outros»[12]. Este melhorar os outros, porém, exige muita empatia e um cuidado apurado quanto à intransigência. «Ser intransigente com os outros não tem grande sentido; eles são o que podem ser e creio que seriam melhores se o pudessem; a Natureza ou o meio lhes tiraram as condições que os levariam mais alto; não os devo olhar senão com uma íntima piedade.»[13]Afinal, «o mal que se vê é aguilhão para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de aço, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso.»[14]
Quando o tomavam por vegetariano, costumava dizer que evitava comer bicho, porque os bichos não tinham culpa de que ele precisasse de comer…
Mas um certo dia, em sua casa, um grupo alternativo condenava com paixão a crueldade dos caçadores. Ele ouvia, ouvia pacientemente e a dada altura remata: pois é, matar os pobres dos pássaros, que não fazem mal a ninguém… Claro, é cruel. Mas por outro lado, já viram quanta perícia é necessária para apontar a arma a um bicho assim tão pequenino e acertar-lhe em pleno voo?
Era a sua forma de ver as coisas pelo seu conflito intrínseco e a aplicação didáctica do princípio cristão de «não julgarás». Nisto, por vezes, chegava a ser desconcertante. Numa entrevista, dizia: «Não há homem algum que não possa ser elogiado; às vezes os assassinos têm pontaria excelente; e não existe homem algum que não possa ser censurado; houve santos que não tomavam banho».[15]
De ser desconcertante poderia falar aquele franciscano que fora convidado para dar início à ideia do professor de uma Faculdade de Teologia e que, quinze dias depois da chegada ao Brasil, vindo de Portugal, continuava à espera, sem nada para fazer. Foi ter com o professor: «então, a Teologia?». Responde-lhe o Professor: «Meu querido irmão, faça o seguinte, escolha um lugar sossegado onde ninguém o possa ver ou perturbar, sente-se numa pedra e pense em Deus, sem nunca se distrair, pelo tempo que possa».
A ideia de Agostinho da Silva para uma Faculdade de Teologia, era um lugar onde residiriam em permanência teólogos de várias religiões com a missão de investigarem, ensinarem e trocarem experiências teológicas. Nunca tal concretizou e o máximo que conseguiu foi uma Faculdade de Teologia restritamente católica, entregue aos dominicanos, com quem acabaria por se dar excelentemente. Foi por eles convidado para falar sobre o ateísmo e acabou por converter um deles às suas teses.
Uma das teses era de que alguns dos ateístas «tinham uma vida mística tão forte e tão sensível quanto a de qualquer homem religioso»[16]. Outra tinha a ver com as relações entre religiosidade e mística, pois entedia que «há milhões de pessoas religiosas cuja vida mística é nula, sendo praticamente uma vida comercial, visto comprarem um certo número de coisas por meio de certos actos e cerimónias e mais nada»[17].
Em Julho de 1986, entrevistando o professor Agostinho da Silva para o Diário de Notícias, a jornalista Antónia de Sousa dizia a dado passo: "O professor é contagioso...", ao que ele retorquia: "Se o contágio é bom, excelente! Se o contágio for considerado ruim, péssimo!".
É que há palavras que são vírus de matar a Graça, acharis. Por exemplo: competição, produtividade e rendibilidade, que são formas de negar a fraternidade, a liberdade e a igualdade. Tal trindade agnóstica dos economistas deste tempo que passa, envolve o desprezo do homem, da natureza e do sagrado. O homem tornado ser descartável, a natureza como uma serva e o sagrado como postura tola de poetas vagos e beatas serôdias. E assim a vida se nega pela assunção da morte e esta nos despreza, porque a escolhemos por engano.
E há palavras que são vírus de enganar, como o moderno diálogo, que é o divórcio na fala pela emulação dos monólogos; a língua bifurcada com palavras de pontas aceradas, esperando a rendição. Falsamente polidas, envenenadamente sopradas. Eis o credo ainda insepulto e já cadáver, a sombra que passa. Diálogo que, como dizia o mestre, tem o mesmo prefixo que diabo, que é aquele que divide. Diabo que só existe quando lhe damos existência.
E há ainda palavras de ornamento, inúteis como togas, e outras de ruído que empapam a conversa. E há o discurso da promessa e do apelo, a ameaça e os esbirros de soslaio. Mas vem o menino imperador e diz: "basta!" Nem grades nem ornamentos. O menino tem o sorriso bondoso e matreiro do velho professor. Está como sempre esteve, no Príncipe Real, a dar milho aos pombos e palavras de eucaristia aos jovens atentos. Como o viu John Le Carré e quase assim o pôs na "Casa da Rússia" . O escritor só não viu que este era um ritual, um quase conjuro do grande banquete do Espírito Santo, que Isabel, influenciada por Joaquim de Flora, inventou para um dia – um dia de comer de graça para todos – e nós temos de ser capazes de em futuro mais ou menos próximo prolongar por todo o ano. E aí à mesa se conversa, que é o modo mais humano de comunhão dos alimentos do corpo e da alma.
Conversar sim, que é colocar-se a gente na posição do outro. Em conversão, que é um caminho de dois sentidos, uma postura de mútua descoberta.
NB: Das obras mencionadas em rodapé consulte-se a bibliografia no site mencionado no corpo do texto.

[1] “Sete Cartas a Um Jovem Filósofo”
[2] Uma das obras de Agostinho da Silva chama-se precisamente Reflexões, Aforismos e Paradoxos.
[3] Os esoteristas diriam Idade de Aquário
[4] Teoria das três idades: do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
[5] De educação e ascendência cátara, à Rainha Santa Isabel atribui a lenda o célebre milagre das rosas: teria transformado moedas de ouro nas mencionadas flores. O curioso é que à sua tia-avó, Isabel da Hungria, também a lenda diz o mesmo. De Santa Isabel, o que muito poderá despertar a curiosidade dos rosacruzes é a sua relação com o médico, astrólogo e alquimista Arnaldo de Vilanova. O túmulo da santa, com o seu corpo incorrupto, encontra-se no Convento de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra
[6] «Raízes Intemporais da Vida e da Alma de Agostinho da Silva», Ellys, editora Sete Caminhos, Lisboa, 2006.
[7] É bom esclarecer que os célebres colóquios «TRADIÇÃO E INOVAÇÃO – SUA UNIDADE EM AGOSTINHO DA SILVA», que tiveram lugar na Faculdade de Letras do Porto (1996-1999), se deveram ao grande empenhamento da associação agostiniana CADA, onde membros da AMORC e seguidores da Fé Bahá’í tiveram a iniciativa.
[8] “Carta Vária”
[9] “Conversação com Diodima”.
[10] “Conversas Vadias”, entrevistas televisivas. Foram publicadas em DVD
[11] “Quadras Inéditas”
[12] “Parábola da Mulher de Loth”
[13] “Diário de Alcestes”
[14] “Considerações”
[15] “Conversas Vadias”
[16] «Vida Conversável», textos organizados e prefaciados por Henryk Siewierski, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994
[17] Ibidem

quinta-feira, 18 de maio de 2017

NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO, PADROEIRA E RAINHA MÃE DE PORTUGAL...

      

«Em 25 de Março de 1646, o rei D. João IV organizou uma cerimónia solene, em Vila Viçosa, para agradecer a Nossa Senhora a Restauração da Independência em relação a Espanha. 
Foi até à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, ofereceu a Coroa Portuguesa a Nossa Senhora, colocando-a a seus pés, proclamou-a Padroeira Portugal. 
O acto da proclamação alargou-se a todo o País, com o povo a celebrar, pelas ruas, entoando cânticos de júbilo.
Assim se tornou Nossa Senhora a verdadeira Soberana de Portugal, por isso, desde este dia, mais nenhum Rei Português usou a coroa real na cabeça, direito que passou a pertencer apenas a Nossa Senhora. 
Em cerimónias solenes, a coroa passou a ser colocada em cima de uma almofada, ao lado do rei. Um facto extraordinário e ÚNICO no mundo.

Margarida Castro
Diálogos Lusófonos
( dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br )

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A IGREJA DA NOSSA SENHORA DA GRAÇA E A ORDEM DE CRISTO


Luís Santos

O atual templo de Nª Sª da Graça, em Palhais, Barreiro, resulta de sucessivas intervenções efetuadas desde que a pequena Ermida foi erigida pela população local, provavelmente, em meados de quatrocentos, ao tempo situada no, então, concelho de Alhos Vedros.
A Igreja, de traça quinhentista, constitui um dos raros monumentos da arquitetura manuelina e foi classificada como Monumento Nacional em 1922.

Nas traseiras da Igreja, podemos ver a cruz da Ordem de Cristo, a tal que também ia nos mastros das caravelas...
Nessa altura, entre secs. XV-XVI, ali se situava um estaleiro naval, onde se construíam os navios que iam às descobertas, antes dos últimos retoques em Lisboa, e da Mata da Machada vinha a madeira para a sua construção.
Era também ali, no Complexo Real do Vale de Zebro que era feito "o biscoito", um pão feito com trigo, água e sal, que constituía a base alimentar dos nautas nas viagens.


Assim se assinala que o pessoal destas bandas, os avós dos nossos avós, tiveram uma participação direta muito forte nos Descobrimentos, sem dúvida, um dos maiores, se não o maior, feito de Portugal nos seus quase novecentos anos de história.

A Ordem de Cristo leva-nos até ao seu fundador, rei D. Dinis, que a criou para proteger os “Templários”, em Portugal, que no tempo foram fortemente perseguidos e alvo de imensa chacina, a partir de conluio entre papado romano e rei francês que, todavia, depois disso, amaldiçoados, não viveram muito mais tempo para contar…
Mas deixando essas contas para outros rosários, o que nós queremos apontar é das visões largas do Rei Dinis na criação da Ordem, ao mesmo tempo que fundava a Marinha Portuguesa e instituía a Língua Portuguesa no Reino, que, depois, tudo junto, lá foram pelo mar fora levando, também, sagrada mensagem divina em peregrina viagem de paz e esperança que chegou até ao Festival da Eurovisão.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

UM SÁBADO TRANQUILO

A chuva devolveu os espelhos às covas que se formam entre as ervas. 



Cinzento, como o dia, vai o país, sem rumo, enrolado mediaticamente num sórdido caso de pedofilia que já fez a figura do Presidente da República descer ao nível das mexeriquices de alcova e o governo desgovernado, sem entender o essencial, curvado à força de interesses alheios ao bem comum e a braços com uma malha de corrupção preocupante, a tal ponto que alguém altamente colocado como a Drª. Maria José Morgado dá como em risco de ficar incontrolável; isto é, Portugal está na iminência de se transformar num daqueles estados em que os grupos de crime organizado gozam de impunidades obtidas de quem garante as regras do jogo. 

Bem, eu devo dizer que nunca nutri grande empatia pela senhora em questão que, para mim, foi manifestamente usada para prender o Dr. João Vale e Azevedo, ex-presidente do Benfica que beliscou fortes poderes esconsos do mundo da bola e que por isso sofreu os efeitos de uma campanha de fogo que culminou com uma acusação por catorze crimes, entre os quais o de branqueamento de capitais e associação criminosa, vindo a ser condenado apenas pelo crime de meter ao bolso dinheiro que, legalmente, pertenceria ao clube. Recordo-me do chinfrim que a então Delegada do Ministério Público fez, com direito a conferência de imprensa após a detenção em que logo ali se mandou às malvas o agora tão proclamado direito à presunção de inocência. Depois foi o que se viu, foi afastada da investigação judicial – é aqui que me parece ficar em aberto a ideia da instrumentalização – e há poucos meses editou um livro sobre este problema da corrupção. 
Seja como for, ela sabe dos atrasos, dos empecilhos e das impunidades de que está a falar e não tenho muitas dúvidas quanto ao realismo e acerto das suas palavras. 


Mas não é só Portugal que vive negros tempos em termos de poderio da criminalidade e do seu impacto sobre o tecido social que se traduz na perversão dos hábitos do respeito pela lei e pelo que é decente e, na sequência disso, nos casos mais agudos e a partir de um certo limite, na própria incapacidade para fazer cumprir as regras do estado de direito. 

É ver o que se passa nas repúblicas da ex-Jugoslávia onde o crime organizado protege as figuras de muitos criminosos de guerra e praticamente domina ou impõe o seu diktat em países que, para além do papel, em concreto, só existem no sofrimento das suas populações. 
Com a honrosa excepção da Eslovénia, todos os outros estados estão sob o joguete de máfias que misturam o narco-tráfico e outros horrores com cliques e guerrilhas de cariz – ou de fachada, direi eu – político. 

Creio é que este, a par com o terrorismo, é o maior perigo que a democracia enfrenta a nível planetário. 

Não sei se algum dia nos veremos livres de tais cancros, mas tenho a certeza que eles sempre manterão aquelas sociedades, por natureza, abertas, sobre a tensão de a qualquer momento poderem sucumbir em face da tirania. 



E eu sou um homem tão feliz com as filhas que tenho. 

Miúdas saudáveis, têm a noção do dever e sabem que depois deste está então a alegria da evasão.
Esta tarde, enquanto a Matilde foi a uma festa de anos de um dos seus colegas de escola, a Margarida ficou na companhia da Alexandra e da Isabel Lima que assistiam ao treino de badminton, na Vélhinha e agora telefonou a comunicar que janta com elas. 

“-Não é preciso, pai. Depois a Alexandra leva-me para casa.” 



E atenção à China comunista. 

A constituição acaba de consagrar a protecção da propriedade privada o que é um bom sinal. Mas muito cuidado perante o desafio que isso representa para o mundo livre. É que por ora ainda por lá grassam tempos de capitalismo selvagem e com os exemplos que temos dos países do Leste europeu com o estiolamento que o comunismo provocou no que se refere aos valores mais básicos da Humanidade, podemos recear uma concorrência desleal que tem potencialidades para vir a pôr em causa conquistas sociais das classes laboriosas. 
É claro que aqui, no contexto da nova divisão internacional do trabalho que se está desenhando sob o presente, os países que enveredarem pelos caminhos produtivos das ciências e das tecnologias de ponta estarão menos permeáveis às consequências de tais ondas de choque, mas para países como o nosso que não dão mostras de apostar nessas vias, o assunto pode vir a ser muito mais sério e mais brevemente do que possamos estar à espera. 


Portugal não apresenta dirigentes à altura do que o futuro nos reserva. 



Cá por casa, os dezanove anos de casamento começam a cobrar a usura sobre os materiais. Há um ano vimo-nos obrigados a trocar o esquentador e hoje de manhã, respectivamente por fim de ciclo de vida e cansaço crónico, comprámos uma nova máquina de lavar roupa e um novo video-gravador. 



Vou ler o Tintim desta semana. (1) 


 Alhos Vedros 
  17/01/2004 


NOTA 

(1) Hergé, O CASO GIRASSOL 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Hergé, O CASO GIRASSOL, Público, Lisboa, 2004