«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!»
Agostinho da Silva

sábado, 30 de abril de 2016

Poemas com Jazz


O Volvo de D. Quixote

D. Quixote ao volante de seu volvo
Pela mata que se avistava ao longe.

De longe louco pela noite,
Ela, a noite sonhando a aurora,
Lutando e amando o náufrago silêncio 
Da terra que move os astros.

Loucura da noite na noite assim,
Um escudo brilha no céu e não é gigante
Sem de todo ser moinho num vento de utopia real.

Fiel escudo em cima do escudeiro céu,
Confidente da noite por trás dos oráculos,
Cavalgam pela madrugada em volta
A quem à Aurora declamam versos.

Quixote ressona pelo fio de saliva queixo a baixo
Sentado ao volante de seu volvo á beira da estrada.
A mata escuta o iPhone que o desperta,
E o gigante sol, tão real que da chave na ingnição
Desfila Quixote pela lança que lança ao volante cavalo.


 Diogo Correia

Pelos 400 anos da morte de Miguel de Cervantes a 22 de Abril de 1616

(CLICAR AQUI)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Poema e Convite


NATURAL

Na natureza decomposta
a dor exposta
em espécies
abatidas
cortadas
decepadas
depenadas
destocadas na força dos tratores
matrizes dos progressos: o homem
traz na aproximação a visão incolor do lucro
e a subsistência dos excluídos se defronta
com a terra ressecada após as passagens
a recomposição do solo exala
a acidez perpetrada
nos tempos desnecessários
das farturas: o homem
esquece o inconsentido passado
em projetos futuros inexequíveis
onde se debatem mortes
e avanços ao fim do mundo.

(Pedro Du Bois, inédito)
NATURAL

From the decomposed nature
the exposed pain
of species
slaughtered
cut
severed
plucked
the stumps pulled of with strong tractors
progress’ headquarters: the man
brings in approximation the profit‘s colorless vision
and the excluded’s subsistence faces
the withered earth after the passages
the soil’s restoration exudes
the perpetraded acidity
in needless times
of abundance: the man
forgets about his not consented past
in future unenforceable projects
where struggle deaths
and advances to the end of the world.

(Marina Du Bois, English version)

Outros poemas:

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Lugares de Portugal - Tomar


Cidade Templária fundada por Gualdim Pais

Fotos de Lucas Rosa










terça-feira, 26 de abril de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

QUANDO AS BISBILHOTICES SÃO DOCES

É uma vergonha, diz o Embaixador de Israel, em Lisboa e com razão; é uma vergonha que os cidadãos europeus considerem que aquele estado é o maior perigo para a paz mundial. É uma vergonha e deveria deixar os nossos líderes preocupados, acrescenta o diplomata. 
Subscrevo, mas não me admiro com o resultado. Há muito que o discurso dominante nos media é favorável aos palestinianos, geralmente vistos como vítimas do ocupante e opressor israelita. 
E como estranhar que assim seja quando a Internacional Socialista, sem dúvida alguma influente nos destinos políticos de muitos países da União Europeia, aceita receber como par um movimento como aquele que desde a independência ocupa o poder em Angola? 
Depois de homens como Mitterrand e Craxi, só poderiam chegar um dia as personagens manchadas de sangue. 
A linha que separa o pragmatismo da falta de princípios, tantas e tantas vezes, tem a natureza da linha do Equador. 
Mas isto tem a ver com a ambiência cultural em que se forma uma espécie de militância anti-colonialista a respeito de Israel. 
O que é, de facto, uma vergonha. 
Há um legado judaico nas pedras basilares da civilização em que vivemos. 
E se uma tal ingratidão não fosse suficiente para fazer corar o mais descarado, esquecemo-nos do terrorismo que perpetrou os massacres de onze de Setembro ou de tiranias totalitárias e assassinas como, por exemplo, a Coreia do Norte. 

Estes humanos são loucos. 



Novembro agiganta as sombras 
e as temperaturas atmosféricas 
começam a dirigir-se para os casacos de Janeiro. 

Foi isso que eu senti, esta manhã, quando fui esperar a Margarida, no Fogueteiro. 



O piolhinho vai usar um aparelho corrector nos dentes. 



Mas hoje há novidades da caloira. 

Depois das colagens e desenhos ilustrativos das palavras dadas, os alunos aprenderam o número um. Repetiram o grafismo e fizeram-no corresponder à quantidade que representa. 
Não houve trabalho para casa. 

O pardalito não sentiu qualquer dificuldade. Enquanto subíamos os degraus, disse que já sabia o que é o um e como se escreve. 



“-Então Matilde, conta lá o que aconteceu.” –Começou a Margarida, enquanto lhe dava a beijoca de boas vindas e continuou de imediato: “-Ouvi dizer que a Cátia deu uma chapada à Catarina durante o intervalo. Viste o que se passou?” 
E enquanto eu fui preparar-me para o almoço, as manas lá foram dando conta da bisbilhotice a caminho do quarto. 
E a Dona Rosário que as enche de mimos, foi atrás para que as gatinhas não se atrasassem que a comidinha quentinha nunca fica bem se esperar muito. 



Forever young 
forever young 
may you stay 
forever young 

Dylan, on his best days 
para que a noite também tenha estrelas no tecto deste quarto. 


 Alhos Vedros 
  04/11/2003

segunda-feira, 25 de abril de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (200)


Publicado no O Jornal, de 11.7.1975, no qual representava um painel de filósofos , sábios e figuras históricas, a olharem todos para o mesmo lado: um quadro negro com um desenho do rectângulo Portugal. Na esquina do desenho, à direita baixa, ao lado de uma improvável Rosa Luxemburgo, figura um Kissinger anão, com orelhas de burro…

Panorama

Pátria vista da fraga onde nasci.
Que infinito silêncio circular!
De cada ponto cardeal assoma
A mesma expressão muda.
É de agora ou de sempre esta paisagem
Sem palavras
Sem gritos,
Sem o eco sequer duma praga incontida?
Ah! Portugal calado!
Ah! povo amordaçado 
Por não sei que mordaça consentida!

Miguel Torga


Selecção de António Tapadinhas

sábado, 23 de abril de 2016

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XX)


Graffitar a Literatura

Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015.
Rua Afonso Sanches, nº 60, Cascais


«– Atenção, meninos, vames fazere o ditade. Quem fazer erres, é castigade.
E não se esqueçam, ditade com “ó” no fim.»
(“Falares Ilhéus” in Arsénio e Rendas Velhas, Ricardo França Jardim, 1996: 24)

Este graffiti não assinado do Muraliza 2015 (Samina ?) remete-nos, de imediato, para os caminhos do abc e o ensino das primeiras letras (do título da tese de doutoramento, de 1994, do querido e saudoso amigo Rogério Fernandes). A ineficácia das aprendizagens escolares agrava-se sempre que há mudanças linguísticas introduzidas pelos acordos ortográficos.

Recordo aqui um texto de 1971 “Um Instrumento Maravilhoso Atravessava a Cidade…” incluído num livro de «histórias e invenções» (segundo a categorização do próprio autor, José Gomes Ferreira, 1900-1985) – O Irreal Quotidiano.

«Parece impossível!» – descompuseram-me. – «Escreveres vaca só com um «c». Assim nunca serás alguém na vida!» E a senhora professora, vexada por eu ter apanhado um suficiente (a classificação predilecta do meu cadastro estudantil pela existência fora), mandou-me escrever, por castigo, cinquenta vezes a palavra vacca com dois «cc»… Uma manada que nunca mais acabava de pastar na lentidão da planície sonolenta do caderno…

Por felicidade, decorridos dois ou três anos, proclamou-se a República e eu vinguei-me. Vim para a rua com o coração sangrento de bandeiras alegres (foi o dia mais feliz da minha infância!) e, enquanto os carbonários guardavam os bancos (só com um «c») eu, com o tempestuoso furor dos iconoclastas de coisas mínimas, destruía todas as letras dobradas que encontrava nos livros (vivam os erros de ortografia!), os «cc», os «tt» e, por fim, os «ph ph» e os «th th» sem falar nos «yyy», da minha especial embirração, por andarem a fingir de perfurantes e profundos.» (p. 14)

Um outro livro, de «crónica, romance, memorial e testamento», nas palavras do seu autor (Miguel Torga, 1907-1995) – A Criação do Mundo - o Primeiro Dia, publicado em 1937 (e refundido na 4ª edição de 1969), remete-nos também para esse universo da escola primária, e das (difíceis) aprendizagens da escrita e do ‘ruído’ que as novas ortografias acarretam. 
«– Papel de trinta e cinco linhas. Ditado!
A esta palavra, a sala ficava silenciosa. (…)
O mestre, encostado à secretária, o livro na mão esquerda, a cana da Índia na direita, continuava:
– O calor, vírgula; a luz, vírgula; o som, vírgula; são agentes físicos. Ponto. Fí-si-cos... Já se não usa o ph, como lhes tenho ensinado. Há ainda certos autores que o empregam, mas só por caturrice…» (p. 15)

O terceiro livro – Alma (1995) de Manuel Alegre (galardoado pela APE, neste 25 de Abril, com o Prémio Vida Literária) fala-nos de um professor primário empenhado na defesa a todo o custo (nem que para isso tenha que recorrer a uma ‘pedagogia musculada’) do património linguístico.
«Ninguém ensinava gramática como Lencastre. (…)
Tinha com a língua portuguesa uma relação, por assim dizer, carnal. Ou religiosa. Ou ambas. Sentia que a missão da sua vida era defender a língua, ensinar a falá-la com as sílabas todas, obrigar a escrevê-la sem erros, o predicado a concordar com o sujeito. Ai de quem, na leitura, comesse a última sílaba, ou de quem, na cópia, borrasse a escrita. Lencastre podia ficar completamente alterado por causa de uma sílaba engolida, uma vírgula mal posta, um erro de ortografia, um verbo mal conjugado.» (p. 78) 

Estes três extractos ilustram bem a realidade educativa do país, no século XX, no que respeita ao ensino da língua materna (em particular na vertente da correcção ortográfica).

E hoje? Não é nada fácil ser-se professor de Português quando o AO90 lançou a confusão no que parecia ser consensual – ‘como escrever sem erros’. Infelizmente, «o caos ortográfico está instalado» (Mª Filomena Molder, Público, 4/5/15, p. 47). Qualquer docente (e muito em especial o de Português) vive, presentemente, num dilema profissional: aceitar as directivas da tutela (reforçadas no seguidismo acrítico dos sindicatos) que obrigam a aplicar as directivas desse ‘acordo’ ou seguir o que estipulava (e bem) o relatório académico que antecedeu o acordo de 1945 (e que Nuno Pacheco, jornalista do Público, nos relembra no seu artigo de 11/3/16, p. 54): «Não se consentem grafias duplas ou facultativas. Cada palavra da língua portuguesa terá uma grafia única.»

O resultado desta deriva, na sociedade e na escola, está aí e é por demais evidente: o AO90 «desfigurou a fisionomia do Português (…) e o resultado é que não se fica a escrever nem em Português nem na ortografia imposta, escreve-se em língua que não existe, não é a da lei, nem a usual!» (Mª Alzira Seixo, Público, 25/2/14).

Até na língua nos desunimos!

Luís Souta

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Nosso Idioma, minúscula ou maiúscula?


Nosso Idioma, minúscula ou maíscula: português/Português , brasileiro/Brasileiro?

A palavra português, na acepção de idiomadeve grafar-se com inicial minúscula: «Ele é estrangeiro, não percebe português.» 

Na acepção de nome étnico (que designa raças, povos, habitantes de um lugar), ainda merece a maiúscula inicial: «Os Portugueses deram novos mundos ao Mundo.» 

Mesmo metonimicamente, a maiúscula mantém-se: «O Português é, por natureza, mais sisudo que o Brasileiro.» 

Quando se refere à nacionalidade, já é a minúscula que leva a melhor: «Eu sou português, tu és brasileiro.» 

Quando se trata de um curso ou de uma disciplina acadé[ê]mica, já torna a merecer a maiúscula: «Tive boa nota no exame de Português.»


Margarida Castro
dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br


quarta-feira, 20 de abril de 2016

MIGUEL DE CERVANTES NO SEU 4° CENTENÁRIO – UM CRENTE DA FANTASIA QUE INVERTE A FIGURA DO HERÓI NO ROMANCE

Dom Quixote (idealista) e Sancho Pança (realista) tornam-se Arquétipos do Homem e da Sociedade a Caminho de si mesmos

Por António Justo

Miguel de Cervantes morreu há 400 anos no dia 23.04.1616 (1). Publicou, em 1605, o romance “Dom Quixote da Mancha” com 640 páginas e em 1615 a sua continuação (2).
Cervantes, com o “Dom Quixote”, criou o melhor romance de todos os tempos. A sua luta contra os moinhos de vento inclui uma missão de resgate do mundo, criando um novo tipo de herói (herói é o que perde, o fracassado a viver à margem de uma realidade que para o ser inclui o ideal) que, no seguimento do Crucificado, passa a inspirar também outros géneros de arte. O escritor Cervantes compreendeu bem a mensagem cristã ao fazer do derrotado o herói num mundo de alucinados de um combate em torno do sucesso. Acaba com a primariedade de uma visão que fazia do herói um protagonista infalível. Com Dom Quixote, Cervantes inicia assim uma nova forma de fazer romances ao inverter-lhe os termos. O fidalgo Dom Quixote afronta o escárnio e o ridículo de sociedades renitentes incapazes de compreenderem o seu ideal.
Passados quatro séculos, a obra continua a ser o testemunho de um idealismo perene que não se deixa apagar pela sombra da História. Ontem como hoje constata-se a mesma queixa de Cervantes: uma sociedade perdida no dinheiro e no mercantilismo de interesses e de arbitrariedades.
Opta pela vida de cavaleiro andante, movido pela crença num mundo caldeado de fantasia criativa e de abertura ao diferente. Recalca a outra parte de si (o companheiro Sancho Pança) para afirmar a sua parte mais nobre (o Dom Quixote) e assim fugir à banalidade do factual habitual. Dom Quixote sobrevive ao tempo por ter um ideal, uma vontade e uma missão envolventes. Deste modo sobrevive a todos os que se amarram na defesa de interesses próprios (dinheiro e sucesso) e por isso não passam de meros sucessores da lista da história numa tarefa de adiadores e enegrecedores do horizonte social.

O autor que não se contenta com a leitura/feitura de romances numa vida desafogada

Cervantes nasceu em 1547 nas redondezas de Madrid; estudou teologia na universidade de Salamanca e na idade de 22 anos torna-se serviçal do Cardeal Giulio Aquaviva. Pouco tempo depois abandona Roma para seguir a voz da aventura, distinguindo-se como soldado na defesa da cristandade contra o poder muçulmano. Depois da batalha naval de Levanto, com a mão mutilada, inicia o regresso a Espanha; com o romance pronto a ser publicado, foi aprisionado por corsários argelinos e depois já em fuga oferece-se como fiel penhor dos companheiros. O governador de Oran condenou o poeta a duas mil chicotadas; Cervantes volta a fugir sendo depois resgatado por monges com os 300 ducados dados em resgate pela mãe e a irmã; finalmente volta a Espanha depois de 5 anos de escravidão e prisão. Depois combateu ainda como soldado em Portugal (o Prior do Crato oferecera resistência a Filipe II de Espanha!). Cervantes regressa depois a Espanha continuando a ser malfadado pela sorte.
Cervantes, como a sua figura Dom Quixote, combate contra moinhos de vento. Isto não é apenas uma mania sua porque ele estará consciente que os gigantes que combate fazem parte de uma realidade feita de factual e fantasia, não hesitando em deixar-nos hesitantes da realidade da sua crença: se o real do factual se o real da fantasia. A vida é feita de mistério e como tal fermentada pela fantasia num moer de moinhos e vento. 
Cervantes criou magistralmente os arquétipos Sancho Pança – o realista com os pés bem assentes na terra- e Dom Quixote - o idealista que quer antecipar o futuro (num presente a fazer-se de passado e futuro). São dois polos de uma dinâmica de que é feita a vida. Cervantes dá preferência à fantasia na figura do fidalgo Dom Quixote (que no cavalo segue a aventura) ao colocar como servidor deste o fiel escudeiro Sancho Pança (realista e pragmático que, seguindo em cima do seu burro, não compreende idealismos nem teorias que complicam). Sancho Pança revela-se bom conselheiro mas só segue o caminho na esperança de alguma promessa.

A caminho de si mesmo

O caminheiro, se observa bem as caminhadas da natura e da cultura, encontra-se a si mesmo em percursos de vidas, todas elas a jorrar na procura da mesma meta; o caminheiro redescobre-se então em novos panoramas de alma que se abrem nos ecos do mesmo silêncio que bate e o acompanha nas pegadas do coração; neste peregrinar chegamos assim à vivência do ritmo universal de uma inspiração e expiração que ilustra e inspira novas orientações e novos caminhos.
Dom Quixote (idealista) e Sancho Pança (realista) são paradigmas do Homem a caminho de si mesmo. (Em termos da metáfora cristã dir-se-ia que estes modelos do mesmo ser se realizam no caminho e na meta JC, o protótipo do caminhar num processo de reunião de todo o ser e na união de todas as paisagens materiais e imateriais numa mesma existência).

 António da Cunha Duarte Justo

(1)     No mesmo dia fenece também um outro grande luzeiro da literatura mundial: Shakespeare o maior dramaturgo da humanidade. Este é lembrado por todos no seu mote “Ser ou não ser, esta é a questão” onde se reconhece a pergunta que ultrapassa a questão da vida e da morte e reconhece a existência como feita de bem e de mal, de intrigas e confusões amorosas, de ganância e desespero.

(2)     A vida e a obra de Cervantes têm ressaibos da odisseia de Ulisses. Personalidades como Camões, Shakespeare e Cervantes marcam e perpetuam o Renascimento!

A Cultura Arábico-Islâmica na Literatura e no Pensamento Português (de Antero a Pessoa)

Curso Livre aberto ao Público em Geral

Este Curso visa proporcionar aos alunos as ferramentas básicas para estudar os temas da cultura arábico-islâmica presentes na literatura e no pensamento portugueses (de Antero de Quental a Fernando Pessoa). Serão sondados tópicos como Islão, literatura árabe, filosofia islâmica, al-Andalus, nos autores mencionados bem como em: Eça de Queirós, Teófilo Braga, Oliveira Martins, Teixeira de Pascoaes e Almada Negreiros.

Especial atenção será dada ao diálogo entre filosofia e literatura, à reflexão dos autores sobre a herança do al-Andalus e ainda ao discurso sobre identidade portuguesa e europeia.

Programa (8 aulas)
1.Introdução
2.Islão em Antero de Quental e Eça de Queirós
3.Al-Andalus em Teófilo Braga e Oliveira Martins
4.Herança árabe em Teixeira de Pascoaes
5.Fernando Pessoa e a cultura arábico-islâmica (filosofia islâmica e literaturas árabe e persa)
6.Fernando Pessoa, Quinto Império e Sufismo
7.Cultura arábico-islâmica em Almada Negreiros
8.O Islão em Nietzsche e no pensamento português: comparações

Organização: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (CFUL)
Docente: Fabrizio Boscaglia (CFUL)
Datas e horários: 21 de abril a 16 de junho (salvo 5 de maio), quintas-feiras, 19h – 21h
Local: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – Sala: Cave F1
Público: público em geral e alunos da FLUL
Creditação (para alunos da FLUL): 1 ECTS (prévia avaliação)
Valor da inscrição: 80€

Inscrições e contactoc.filosofia@letras.ulisboa.pt (tel. 217920091)

Inscrições abertas até quinta-feira dia 21 de abril - Ainda há vagas

Mais informações: aqui

terça-feira, 19 de abril de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O SÁBIO QUE SABIA TUDO


Um atentado no Iraque provocou a morte a dezasseis soldados norte-americanos que seguiam num helicóptero alvo de rocket. 

É uma vergonha que se fale em resistência iraquiana, como fazem todos os media do Ocidente. 
Estamos perante ataques terroristas e a confundir os acólitos do regime de Saddam e membros das mais variadas organizações mais ou menos integristas que compõem as redes de terror que juraram guerra sem quartel ao nosso modo de vida, com o que se poderia chamar uma resistência do povo iraquiano e isso é uma forma subtil mas profícua de alimentar precisamente esse mesmo terrorismo. Estamos a projectá-lo com uma importância que ele não tem e simultaneamente contribuímos para que as suas palavras e acções surtam o efeito desejado de incutir o medo em que baseiam a sua chantagem. 
Será que alguém de nós poderia levar a vida actual num regime controlado por esses fanáticos? 
E em disparate proporcional a esse, está a designação das tropas aliadas como forças de ocupação. 

Se bem que em sentido contrário ao que o Autor nos apresenta, ora aqui temos um exemplo de como a comunicação social pode condicionar a visão dos factos e, por conseguinte, os discursos sobre os mesmos e as mundivisões subjacentes. (1) 

De outra forma como se pode entender que uma sondagem indique que sessenta por centos dos europeus respondam que Israel é a maior ameaça para a paz no mundo? 



É tão bom chegar a casa e partilhar as alegrias da pardalada. 

Enquanto estive a escrever estas primeiras notas, a Matilde fez-me companhia, debruçada sobre um pequeno cavalete, toda concentrada na aguarela de uma casa e de um Sol esplendoroso. 

A Margarida passou a tarde a brincar com a invenção de uma pequena história de um coelhinho simpático. 

No chão da sala, os bonecos e os carros de um Playmobil testemunhavam o devaneio da mais novinha. 



A aula de hoje continuou a da última sexta-feira e terminou com colagens e exercícios naquilo que o pardalito chama caderno de capa preta. 
Como ainda não tive oportunidade de falar com a Professora, não sei dizer se se trata do livro dinâmico, à semelhança daquilo que aconteceu com a irmã. 
Não trouxeram trabalho para casa. 



E o “Diário de Notícias” vai publicar, aos Domingos, uma série de cartas sobre a Fé, trocadas entre o Professor Eduardo do Prado Coelho e o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo. 
Só espero que a do religioso seja uma peça inteligente, pois a primeira não foi além do lugar-comum e como não podia deixar de ser, lá veio a ladainha da hipocrisia da Igreja e as perguntas que um qualquer adolescente faria e que passo a transcrever: “(…) tem a Igreja a noção desta [a dessacralização ou, se quisermos, a laicização e até o agnosticismo crescente das sociedades do mundo ocidental] evolução? Considera-a um mal e tenta contrariá-la? Considera-a algo positivo que se poderá aproveitar para alargar a influência? Temos uma estratégia ofensiva face a ela? Ou vê nesta lenta mas manifesta descristianização uma decadência inexorável? Sente o seu destino associado à crise das grandes narrativas (e nesse caso assistiríamos à vagarosa mas inflexível erosão do comunismo e do catolicismo, do tomismo e do marxismo?)” (2) 
Delicioso, não é verdade? 
Perguntou o erudito em que base se podem os homens entender. 
A perder tempo com banalidades também, é como que um cimento do quotidiano, mas depois sempre tendo de falar com mais ponderação e profundidade a esse respeito. Para tanto têm boca e não apenas para irem a Roma. 



Bem e hoje fico por aqui. Amanhã sou eu que levarei a Matilde à escola uma vez que a mãe levará a Margarida para uma das consultas que culminarão com o aparelho que em breve terá nos dentes. 

Até amanhã! 


 Alhos Vedros 
   03/11/2003 


NOTAS 

(1) Chomsky, Noam, A MANIPULAÇÃO DOS MEDIA 
(2) Prado Coelho, Eduardo do, UMA RELIGIÃO POR EMENTA, pp 4/5 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Chomsky, Noam, A MANIPULAÇÃO DOS MEDIA, Tradução de Mário Matos e Lemos, Editorial Inquérito, Mem Martins, 2003 
Prado Coelho, Eduardo do, UMA RELIGIÃO POR EMENTA, In “Diário de Notícias”, nº. 49164, de 02/11/2003

segunda-feira, 18 de abril de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (199)

Creio nos anjos que andam pelo mundo
Composição de António Tapadinhas

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. amém.

Natália Correia
Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Estudos Orientais




Do Budismo: as 4 nobres verdades e os 5 agregados

Na base dos ensinamentos feitos pelo Buda, diz-se que o desejo, apego, cobiça, ódio, aversão, ilusão, são causas do sofrimento humano. É preciso fazê-los cessar e extinguir. Assim, eliminar esses sentimentos, ou seja, numa palavra, eliminar a ignorância, constituem o verdadeiro caminho.

As 4 nobres verdades podem resumir-se nos seguintes passos:
- Constatação do sofrimento
- A origem donde provém o sofrimento
- A possibilidade de cessar o sofrimento
- O caminho a fazer para cessar o sofrimento

O sofrimento é a revelação do budismo. Para o Buda, “é nascer, envelhecer, adoecer, estar-se ligado áquilo de que se não gosta, estar-se separado daquilo que se gosta…”, o que resulta da ignorância. (1)

Se o despertar não pode ser ensinado, antes tem de se auto revelar, o caminho deve ser mostrado. O “eu” é uma ilusão e a verdadeira fonte do sofrimento. “De um modo ou de outro, todas as emoções nascem do egoísmo, no sentido em que elas implicam apego ao eu. (…) Se desejamos eliminar verdadeiramente o sofrimento, devemos desenvolver a consciência, vigiar as nossas emoções e aprender como evitar entrar em efervescência.” (2)

O Buda admite que somos constituídos por 5 agregados que existem em interdependência e geram em nós a crença de haver um “eu”, uma identidade própria que tem uma existência em si e por si.

Os 5 agregados dividem-se num corpo que se define numa forma física e em quatro agregados imaterias: sensações, perceções, formações volitivas e consciência (dualista). As formações volitivas designam todos os automatismos fundamentais: pensamento, linguagem, comportamento… agir e reagir. Ou seja, o nosso carácter, que vem de experiências anteriores…

            Esta identidade é ilusória, causa de insatisfação e de sofrimento. Há que descobrir uma alternativa ao funcionamento destes 5 agregados que, como se disse, se caracterizam por uma contínua impermanência.

Assim, a causa de todo o tipo de sofrimento é a ignorância de não ver as coisas como elas verdadeiramente são. Esta “sede” (desejo, avidez compulsiva) leva-nos constantemente a um desejo de saciamento, do que por natureza é insaciável, e que está em relação com a nossa herança “kármica”. É esta inquietação fundamental que mesmo em silêncio nos pressiona. É o desejo de continuar a ser, de preservar uma identidade, que nos guinda a sucessivas existências, à “roda da vida”.

A cura é não só possível, como desejável. As causas são internas e é possível removê-las. Há um caminho. Alguma coisa que está livre de tudo isto e que nos permite a libertação.

Luís Santos

Notas:

(1)   LAMA, Dalai e CARRIÉRE, Jean-Claude, A Força do Budismo. Lisboa: Difusão Cultural, 1995: 27

(2)   (Khientse,  Dzongsar J., O que não faz de ti um Budista. Alfragide: Ed. Lua de Papel, 2009: 55)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

"AGOSTINHO DA SILVA: FILOSOFIA E ESPIRITUALIDADE, EDUCAÇÃO E PEDAGOGIA", de Luís Carlos dos Santos: Recensão do livro


por PEDRO MARTINS

Que a educação de uma geração se deduz das opções filosóficas, já o sabiam, há um século, os homens da Renascença Portuguesa, matriz de onde emerge o vulto de Agostinho da Silva. De modo parecido, a adopção, filosoficamente motivada, de determinada orientação pedagógica e didáctica projecta-se, nas gerações seguintes, no curso da vida política.
A tese de doutoramento em Filosofia da Educação que Luís Carlos dos Santos (LCS) acaba de dar à estampa na Euedito versa essencialmente a primeira daquelas relações condicionantes no pensamento e na obra do autor de Considerações.   
Sendo certo que, para Agostinho, a filosofia é ancilar da teologia, entendeu o autor deste estudo alargar-lhe o âmbito ao domínio, mais vasto, da espiritualidade, evitando assim restringir-se à religião. Justifica-o o ecumenismo agostiniano, na sua pretensão de abarcar e abraçar tradições como o budismo, onde a ausência de Deus pode levar a questionar se se trata ainda de uma religião, ou correntes como o materialismo ateu, e aqui lembrarei, com António Quadros, o mistério metafísico do poder demiúrgico que o marxismo atribui à Matéria, essa Deusa Mãe.
Lucidamente, acentua o autor a ideia de Deus como a pedra de toque e de fecho do pensamento de Agostinho, para quem a plena sacratização da vida é imperativo dirigido aos homens. Posta esta prioridade, não será decisivo apurar se George foi, ou não, filósofo. Porventura um sage, como propôs João Maria de Freitas Branco, ou um profeta, como sugere Pinharanda Gomes, o filólogo que radicou na literatura boa parte do seu filosofar encarece em “O valor actual das Faculdades de Filosofia”, escrito na Paraíba, a importância destas escolas, guardando-lhes, no dizer de LCS, «o papel de guardiãs dos caminhos do espírito rumo à eternidade». A citação aproxima-nos do que um Álvaro Ribeiro defendera em O Problema da Filosofia Portuguesa, ao entrever na Faculdade de Filosofia a cúpula do sistema educativo.
Mérito maior deste estudo, em que se rasga uma panorâmica da evolução espiritual de Agostinho rumo ao ecumenismo que culmina o seu pensamento, é o modo como, neste, o autor averigua as influências sofridas, caso de Teixeira Rego, cuja Nova Teoria do Sacrifício muito contribuiu para uma acepção “alimentar” do pecado original como a que A Comédia Latina, marco miliário da filosofia da história agostiniana, vem propor. Legítima, também, a suposição de que, através de Rego, a ideação de Sampaio (Bruno), seu mestre, se insinuou na de Agostinho. Bem que este nos pareça avesso ao gnosticismo, é de crer que não tenha enjeitado o fundo franciscano da ética cósmica brunina, visando a redenção integral de um Universo a reintegrar na eternidade do Espírito puro, origem, condição e destino da Humanidade. A observação atenta de lugares singelos da obra agostiniana, como o são as quadras, mostra que a angelologia, axial no autor de A Ideia de Deus, permite caracetrizar o misticismo de Agostinho, aproximando-o de Álvaro Ribeiro e António Telmo.
Entre as influições levantadas, uma se destaca pela sua certeza: a de Jaime Cortesão, cujo percurso biográfico aliás antecipa, como que o anunciando, o do próprio Agostinho, para o cruzar no plano dos laços familiares. Tão tributário é o pensamento de Agostinho da historiografia de seu sogro que ao lermos Reflexão nela reconhecemos, como num espelho, tópicos vários de Os Factores Democráticos na Formação de Portugal ou O Humanismo Universalista dos Portugueses.
Neste sentido, o livro de LCS vem enfatizar um paradigma. Por aluvial que seja O Estranhíssimo Colosso, não o apartemos da bacia hidrográfica que nele transborda, pois a sua originalidade assenta, porventura, em problematizar as tendências mentais que, partindo do movimento renascente, informam o século XX português, para as devolver harmonizadas numa síntese enriquecida. A árvore desenvolve-se em ramos; mas todos crescem para a luz. Onde Álvaro Ribeiro apela à realização do homem integral pela tríade Civilização, Cultura, Culto, responde, ou corresponde, Agostinho da Silva com seu Servir, Criar, Rezar
O vasto legado da sua produção teórica no domínio pedagógico e didáctico e a obra assombrosa que em inúmeras experiências educativas concretizou surgem-nos, neste livro de estrutura dual, consequentemente iluminados pelas premissas filosóficas subjacentes. O estudo de Montaigne, e a influência da Escola Nova, mediada pelo convívio com António Sérgio, ou da Escola Moderna, confluindo na centralidade activa que, por um processo educativo libertário, se reconhece à criança convergem, na ideação agostiniana, para o sacral simbolismo do Menino coroado Imperador no culto popular do Divino Espírito Santo, para aqui se tocar o seu cerne profético e messiânico. Tudo isto nos é demonstrado num livro cuja fluência estilística o torna acessível ao comum dos leitores, sem perda de rigor ou objectividade. Denotando enorme admiração sentida pelo autor estudado, LCS, exemplarmente, não incorre no perigo, em que outros já sucumbiram, de lhe hipertrofiar facetas ao sabor das próprias convicções. Só por isso lhe ficaríamos já gratos.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Fotos de Esculturas de Al-Zéi


Boémia


Cientista
                                                                                                                     

sem título


terça-feira, 12 de abril de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Bem se pode dizer que este Domingo foi um bom complemento cultural para o dia de ontem. 
Depois de uma manhã de leitura, a meio da tarde estivemos num recital para violino e piano para ouvir peças de Mozart e Tchaikovsky. 

Até a Margarida saiu encantada. 

Depois, a mãe e a Matilde foram andar de bicicleta. 



E é tão engraçado ver as duas manas realizarem os trabalhos de casa. 

E como o pardalito tem evoluído no desenho das letras. 



Na Rússia, a luta é dura entre Putin e os oligarcas que dominam os grandes grupos económicos. 
Está preso o homem mais rico do país que muito tem subsidiado partidos da oposição. 

Quando o Ocidente apostou em Boris Ieltsin esqueceu as lições da História. No seu afã de querer ver destruído o império soviético, os estrategas esqueceram que esse era o único contexto em que era possível fazer a transição do regime totalitário para os estados de direito em que, posteriormente, se criariam condições para separações civilizadas como a que ocorreu entre checos e eslovacos, para além de permitirem a criação de uma economia de mercado que, se bem que dificilmente fugisse a uma fase de capitalismo selvagem, poderia muito bem ter evitado aquilo que veio a ser a génese de um capitalismo mafioso. 
Seria Mikhail Gorbatchov o homem para essa tarefa tão pesada? Nunca o saberemos, mas que tinha uma ética de serviço público isso parece-me que era real. E que a realpolitik não apostou forte em tal figura, disso também não me parecem restar dúvidas. 

A verdade é que dali saiu uma das fontes de terrorismo que hoje em dia jurou uma guerra de morte ao nosso modo de vida. 
A que se junta o crime organizado, a outra grande ameaça das democracias ocidentais. 


Até que os democratas recuperem a iniciativa, o mundo andará à deriva. 
Oxalá não choque com os cordelinhos de engenhos nucleares. 



Domingo de repouso. 
Vou dedicar a noite aos jornais da manhã. 


 Alhos Vedros 
   02/11/2003 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

REAL.... IRREAL... SURREAL... (198)



 Mário Cesariny

 
RUA 1º DE DEZEMBRO
À hora X, no Café Portugal
À mesa Z, é sempre a mesma cena:
Uma toupeira ergue a mãozinha e acena…
Dois pica-paus querelam, muito entusiasmados:
Que a dita dura que não dura
A dita dita dura – dura desdita!
Um pássaro canta diz isto assim é pena
E um senhor avestruz engole ovos estrelados.
Mário Cesariny

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 9 de abril de 2016

Agricultura de Palavras


“A literatura é como fazer pão
                                               e a palavra escrita a minha farinha.”
                                                                                 Isabel Allende

A tarde estava calma de pasmar, ouvindo-se continuamente o chilrear dos pássaros e de quando em vez o mugir de uma vaca. As glicínias deixavam cair sobre a minha cabeça a sua volúpia perfumada em cachos lilases. Sentada numa fofa cadeira de cabedal, debruçava-me sobre a folha de papel em cima da mesa de mármore. Espremia-me toda a ver se saía alguma coisa. Nem uma palavra! A minha imaginação comparava-se a um enorme vazio, tão oco e de uma fundura tal que julguei ser outra pessoa, outro ser, talvez um habitante do centro da terra ou quiçá um extraterrestre afundado, encalhado sem perspetiva do alto.
À fundura do vazio juntava-se uma sonolência a puxar o corpo mais para a cama do que para a literatura.
Uma guinada para a frente, outra para trás, uma inspiração mais profunda e lenta fechou-me os olhos e eis-me feita formiga num agro cheio de letras de todos os tamanhos e feitios. Pássaros sobrevoavam-no cada um com um sinal de pontuação no bico ou nas patas, fazendo um som ritmado a princípio e depois contínuo mas muito suave.
Na minha nova pele de inseto, comecei a arar o campo com imenso cuidado não fosse estragar alguma letra. Lavrei-o da esquerda para a direita e de cima para baixo, colocando as letras sobre a terra, no intervalo de cada rego.
Seguiu-se a etapa mais difícil: escolher as plantas adequadas para cada rego. Coloquei vogais ao pé de consoantes e de outras vogais. Deixei um espacinho no meio de alguns conjuntos para encher com sinais de pontuação que fui apanhando quando algum pássaro, pousado sobre o terreno, os deixava caídos.
Reguei a minha plantação com água que fui buscar ao copo que estava sobre a mesa.
Delimitei a minha cultura com pedacinhos de pão nos cantos do papel-agro. Senti-me verdadeiramente agrícola (de agri – campo, e colere – cultivar).
A cultura ficou algum tempo de pousio, o que foi muito confortável. Isto de andar a delinear o campo com um pau para depois o ferir com a semente e em seguida tapar e regar, gerou um certo cansaço.
Uma aragem abriu-me os olhos e quer o leitor acredite ou não, eu vi no papel um campo de flores de diferentes tamanhos e de variadas cores. E li a mensagem que nascera:
“Girassóis, papoilas, malmequeres, cravos, tulipas, goivos, sécias, cravos da Índia, azáleas, esterlícias, antúrios, margaridas, camélias, dálias. E os amores perfeitos?!”
Imaginem esta agricultura de palavras! O branco dos “ás” sobressaía  no meio do azul dos “esses”. O vermelho dos “is” ruborizava a paisagem tornando-se, juntamente com o amarelo dos “és”, um cor de laranja de por do sol. No meio do cobre dos “erres”, o cinzento escuro dos “ós” parecia pequenas luras de minúsculos animais desconhecidos. Os “éles” eram rebentos verdes e brilhantes e meneavam-se ao sabor da brisa. Os “emes” e os “cês” oscilavam entre o mármore e o cinzento, atenuando aquele vulcão multicolor e intercalando os ténues azuis das outras consoantes, algumas de raízes bem profundas como o “pê”, o “quê”, o “guê” e o “efe”. O “u”, a vogal menos frequente, ajeitava-se docemente junto ao “tê”, perdendo toda a personalidade ao pé do “quê”. Vejam só estes amores! Anulando-se daquela forma, tudo para dar força ao companheiro!
Uma revoada de vento desequilibrou os rebentos verdes, tendo-se aguentado apenas os que estavam perto de boas raízes. Assim, vi desaparecerem no ar as azáleas, as esterlícias, as camélias e as dálias, ouvindo-se cada vez mais longínquo o som li, li li...
Fiquei tão zangada com o vento que o desafiei: “deixaste-me só com um li, mas as tulipas não mas hás de levar! Ou o seu nome não derivasse do persa dulband, 'turbante'!” Esquecia-me propositadamente das frágeis papoilas que, apesar de terem raízes sólidas, aparentavam grande fragilidade nas pétalas e até os malmequeres ficaram sem graça nenhuma depois daquela brincadeira do vento com o “éle” impotentemente esmurrado sobre o “eme”. Acho que este esquecimento propositado se devia ao facto de diluir um pouco a maldade da primeira sílaba, talvez por não conseguir ver nenhum mal querer numa flor tão digna.
Podia pôr uma cerca no campo que afinal era jardim, pensei, para o proteger dos intrusos. Na minha cabeça já fervilhavam os materiais: canas de bambu, de folião...
Mas tão veloz como o meu pensamento, o vento apanhou-me de surpresa, pegando no meu jardim, fazendo-o subir como se fosse um tapete mágico voador e levando-o para tão longe que na minha pequenez de formiga, nunca mais o pude ver.
Não vos sei dizer se ainda lá se encontrarão as flores. Mas ainda guardo na memória o seu perfume. Talvez um dia as palavras voltem para as replantar em terreno fértil. E amores perfeitos?! Hum, esses não os há....

                                   Maria Eduarda Rosa

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Projeto António Telmo. Vida e Obra.



É, pode dizer-se, uma revolução nos estudos agostinianos e uma proposta hermenêutica que poderá doravante dar inúmeros frutos interpretativos.
MIGUEL REAL, in Prefácio de A Liberdade guiando o Povo - Uma Aproximação a Agostinho da Silva





projecto António Telmo. Vida e Obra

ANTÓNIO TELMO. VIDA E OBRA é um projecto criado por um grupo de amigos e leitores de António Telmo e estudiosos da sua obra e destina-se à divulgação do seu legado bio-bibliográfico e do seu pensamento. Na sua página digital se publicarão, tão sistematicamente quanto possível, excertos de livros, dispersos e inéditos de António Telmo, documentação télmica e estudos e testemunhos sobre o autor da História Secreta de Portugal. Cumpre-nos agradecer à família de António Telmo, e em particular a Maria Antónia Vitorino, a confiança e o apoio que prestam a este projecto, ao entregarem-nos o estudo e a edição do espólio e da obra do filósofo. Instituição associada ao Instituto Fernando Pessoa, o projecto António Telmo. Vida e Obra assegura o apoio institucional e científico à edição das Obras Completas de António Telmo, em curso de publicação na Zéfiro
 
Membro honorário: Maria Antónia Vitorino

Membros autores: Abel de Lacerda Botelho | Alexandre Teixeira Mendes | Amon Pinho | António Cândido Franco | António Carlos Carvalho | António Quadros Ferro | António Reis Marques | Carlos Francisco Moura | Daniel Pires | Eduardo Aroso | Elísio Gala | Helena Maria Briosa e Mota | Hernâni Matos | Jesus Carlos | João Augusto Aldeia | João Ferreira | José Cardoso Marques | José Patrício | Luís Afonso | Luís Santos | Manuel Diogo | Manuel Ferreira Patrício | Manuela Morais | Maria Azenha | Maria Estela Guedes | Maria Helena Carvalho do Santos | Miguel Real | Paulo Brandão | Paulo Jorge Brito e Abreu | Paulo Samuel | Pedro Martins | Pedro Vistas | Risoleta Pinto Pedro | Romana Valente Pinho | Rui Arimateia | Rui Lopo | Ruy Ventura | Samuel Dimas | Teresa David | Teresa Furtado | Zuzu Baleiro