“Gosto imensamente destes grandes silêncios, porque então ouço-me a mim mesmo, e vivo mais em cinco minutos de solidão do que em vinte horas de bulício.” (Machado de Assis)

sábado, 30 de junho de 2012

"A Terra é feita de Céu"


ARCÁDIA tem o prazer de convidar os Media e o público para a sua abertura oficial que celebramos com uma vernissage. 

„A Terra é feita de Céu“
Vernissage da pintora
Carola Justo

na Quinta Outeiro da Luz
Rua P.e Artur P. Conceição 11
Chaque - Branca
Albergaria-a-Velha

Domingo, 8 de Julho 2012
às 16.00 horas

Saudação oficial:
Dr. António Justo
Introdução:
Pe. Dr. José Augusto Fernandes
Carola Justo
Moderação:
Dra. Dulcineia Trancho Loureiro
Música:
À guitarra: Rui Martins
e Dr. Carlos Teixeira
 Aberta ao público de
9. 7. – 2. 8. 2012
Segundas e Sábados das 9 às 12 h
Domingos 10 – 12 e 14 – 18 h
ou após acordo telefónico:
963994458

a.c.justo@unitybox.de


Biografia da pintora:
Carola Justo nasceu em 1955 no sul da Alemanha. Estudou pedagogia social, terapia de família e filosofia. Formou-se (1985-1995) em técnicas de pintura em óleo, aquarela e acrílico na “Universidade Popular” de Kassel tendo feito estágio em desenho e pintura em diversos pintores.
Desde 1997 trabalha como pintora tendo realizado mais de 40 exposições na Alemanha e no estrangeiro. Trabalhou como terapeuta de família. Desde 2001 é docente de meditação na Volkshochschule Kassel (Universidade Popular). 


ARCÁDIA - Associação sem fins lucrativos
Tlm: 960389076 / 962789202

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Circuncisão no Islão e no Judaísmo: Acção Criminosa. Tribunal alemão toma uma Decisão corajosa.

A circuncisão de meninos no Islão e no Judaísmo, segundo a sentença do Tribunal Distrital de Colónia, constitui uma agressão criminosa.

Mais importante que a liberdade de religião é a integridade corporal e a autodeterminação da criança, argumenta o tribunal, na sua decisão de ontem, 26.06.2012.

O direito de autodeterminação das comunidades religiosas não se pode sobrepor ao direito humano da integridade corporal.

Este julgamento terá consequências muito importantes.

Esta decisão deveria ser um acto de encorajamento para políticos e outros tribunais no sentido de intervirem mais corajosamente em crimes de base cultural como casamentos forçados e crimes de honra, ainda muito em voga em determinadas culturas.

Até agora, o corte do clitóris das meninas (praticado em grande parte do mundo muçulmano) era considerado acto criminoso no Ocidente, mas o sofrimento do acto agressivo da circuncisão de meninos ainda não tinha chegado à consciência das pessoas.

A decisão do Tribunal é uma vitória contra a barbaridade e leva uma consciência mais sensível a actos culturais que não respeitam a dignidade e a integridade da pessoa e constitui um apelo ao respeito pelo direito dos que não têm voz.

A matança ritual de animais, como no caso muçulmano e judio, em que os animais são mortos duma maneira brutal porque morrem sangrando, não foi proibida na Alemanha por “respeito à religião”. Também aqui será necessária uma consciência mais afinada.

António da Cunha Duarte Justo

quinta-feira, 28 de junho de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria


Amanhecer em Alburrica Autor António Tapadinhas

Acrílico sobre Tela 30x40cm
(Clique sobre a imagem para ver em pormenor)

O passo seguinte é definir as formas que quero salientar, sem esquecer o ambiente (em inglês, mood define melhor o que pretendo dizer) que devo manter na etapa final. Satisfeito com o realce que dei aos moinhos que, qual sentinelas, obrigam o observador a percorrer toda a tela, procurei dar a força suficiente aos telhados das casas, ao centro, para o olhar se deter nessa zona tão importante do quadro.
Acrescentei alguns detalhes, onde os considerei necessários. Temos de corrigir a tendência para o excesso de pormenores que, algumas vezes, tiram vigor e espontaneidade aos trabalhos.
Olhando com atenção ainda se distinguem as cores e texturas da pintura inicial. Há um outro pormenor interessante: O céu e a água são formas abstractas; por isso, podemos dizer que mais de noventa por cento do quadro é abstracto…

P.S. Inesperadamente, por impossibilidade do pintor anunciado, vou ter uma exposição na  Capela de Alhos Vedros, no decorrer da Feira do Livro. Esta obra é uma das que vai estar na mostra.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

É urgente criar espaços de vida livre, onde vivamos desde já no mundo a que aspiramos. Espaços de alternativas globais e integrais, onde tudo esteja interligado, espiritualidade, cultura, educação, saúde, alimentação, ecologia, economia, política. Espaços onde a meditação laica se una à multiculturalidade e à reflexão e acção em defesa dos homens, dos animais e do planeta. É urgente nada esperar dos poderes institucionais estabelecidos e instaurar a mudança a partir da sociedade, a partir das nossas vidas. Há que criar essas células de vida livre, ética e sã e conectá-las, para gerar um novo organismo social. Há que lançar desde já as raízes de uma nova civilização, plantar entre as ruínas do velho mundo. Criar um movimento de libertação integral e começar por coisas simples, que não exijam grandes recursos: encontros regulares nas nossas casas, em espaços públicos, onde quer que seja, nas cidades e nos campos. Criar uma comunidade informal e transversal a todos os movimentos, associações e entidades, que não fique escrava de burocracias, ideologias e ismos. E sobretudo despida de egos individuais e colectivos. Ideias e ofertas de espaços são bem vindas.


Paulo Borges

terça-feira, 26 de junho de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA


Nós somos libertários, diz o Quico –que raio de nome- justamente um daqueles de quem eu não gosto e ainda menos da sua mulher, uma afectadinha que nem sei como aderiu a uma aventura destas, toda ela cheia de nove horas e para quem tudo é uma complicação, quando não desdenha das soluções que se avançam e tem sempre aquele hábito irritante de procurar aquilo que pode desvalorizar o que na opinião dos outros possa estar a ser bem feito. Bem, este convívio a que nos vemos forçados também não deixa de ser um verdadeiro teste de paciência, na medida em que não podemos deixar de moldar as nossas próprias vontades no sentido de um ajuste que, se não a todos, pelo menos, à maioria contente. Mas é também uma prova por que passa algo que provavelmente para todos é novo e que é a experiência da tolerância, o termos que aceitar os outros como eles são e se nos apresentam, provocando as pontes que nos possam unir na demanda de objectivos comuns, para tanto dando maior relevo e importância àquilo que tenhamos em comum. Tanto mais quando nos temos que relacionar com gente assim que, pela maneira como falam, do modo como se comportam, deixam no semelhante a sensação de que se presumem, não digo superiores, mas, no mínimo dos mínimos, mais importantes. Nem sei explicar muito bem ou, para ser mais exacta, nem sei como racionalizar e, portanto, como expressá-lo. Será mais do domínio daquelas coisas que se sentem, aquela empatia ou repulsa que se sente perante alguém que vemos pela primeira vez e de quem jamais ouvíramos falar. Pois é isso que se passa da minha parte para com o Quico e a companheira, como eles fazem questão em sublinhar, num tom que, para mim, por mais estranho que possa parecer, desde logo, pelo contexto em que é produzido, não deixa ainda assim de trazer um certo laivo de vaidade. A mulher que traz permanentemente no olhar uma expressão de aflição, como se fosse a saudade para com algo irremediavelmente perdido e de quem a todo o momento se espera que surja de cabelo arranjado, como quem faz da ida ao cabeleireiro uma sessão de terapia. E a sua voz de cana rachada que dos verbos só conhece o imperativo, a não ser quando se põe a falar a torto e a direito do como era, como fazia, como era o hábito lá em casa. Sinceramente nem sei se é isso que mais me irrita se aquele arzinho dele, como se até uma simples ida à casa de banho fosse o mais distinto assunto de estado. O seu ar de carneiro mal morto a que os óculos redondos de tartaruga conferem a decoração inerente à mais elevada intelectualidade e que a mim deixa a impressão de falsidade, tal qual sucederia se alguém pretendesse passar-se por um outrem muito diferente. E com isso sobressai a aparência do oportunista que, não sei porquê, é a imagem que fica e sempre que ao longe o observo com um pouco mais de atenção, nunca deixo de ver o retardatário que se junta ao movimento depois da vitória estar garantida. Como nós somos… Devo estar a ser injusta, afinal os dois aqui estão desde a primeira hora e seria uma grande mentirosa se dissesse que, mesmo em face das pieguices e peneiras dela, algum deles deixou de se apresentar com o maior dos empenhos possíveis. Acontece que estas coisas são assim; às vezes, como diz a sabedoria popular, mais vale cair em graça que ser engraçado e o mais certo é que seja este um desses casos. Nós somos libertários, é o que diz o Quico, com isso querendo afirmar que o que nos une é, antes de tudo, um sentido de querermos viver fora das regras de um mundo injusto e cruel. Pode ser que o seja mas pessoalmente não estarei tão certa disso e depois tenho muitas dúvidas que o termo possa ser usado unicamente nesse sentido e isto não apenas por uma questão de semântica, antes de mais pelo conteúdo filosófico e político que podemos atribuir-lhe, muito embora não seja isso que aqui me interessa.
Creio que já escrevi que desconheço as motivações pessoais que possam ter trazido cada um de nós até aqui. Partilhada será a desilusão, uma certa desilusão com este mundo que o paizinho não compreendeu e, avaliando pelas cartas que me envia, continua sem compreender. Foi precisamente essa a expressão que o Manuel usou quando me falou das ideias desconcertantes e também aqui o termo é dele, ideias essas que o José Pedro lhe apresentara numa conversa em que expressou o desencanto e o desalento que sentia perante um mundo que, tudo o indicava, se preparava para a guerra e com a agravante de estarmos num país em que a polícia bate em quem nada mais pede que um naco de pão para si e os seus. Desilusão foi o que ele disse que sentia depois de ver os falangistas ganharem com o apoio de outros exércitos sem que aqueles que combateram pelo progresso e a liberdade tivessem gozado de um amparo semelhante entre os estados que poderiam ser seus aliados e que antes haviam reconhecido a república. Vendo formarem-se no horizonte os castelos cinzentos de que haveriam de troar os rugidos dos canhões e sabendo que a esperança de futuro se reduzia a essa estreita janela com vista para as atrocidades. E foi então que perante o amigo de liceu confessou o desejo de se sumir, sem com isso significar o mais pequeno sinal de suicídio. Sumir-se desta sociedade mazelada pela miséria e a ganância, isolar-se para que, se um dia viesse a ter filhos, os poder criar, pelo menos, em paz. Ele não se importaria mesmo nada se tivesse que plantar para comer e tinha a certeza de que seria capaz de enfrentar o que fosse preciso, dos mais duros trabalhos às mais ingratas carências, se a partir disso conseguisse o suficiente para viver em tranquilidade sem ter que andar a pisar este e aquele para daí tirar o seu sustento e conforto. E não pensasse o meu homem que estava perante o capricho passageiro de quem nunca tivera que aprender a ganhar a subsistência. Simplesmente olhava para o mundo e achava uma injustiça que tantos fossem aqueles que viviam praticamente sem nada, nem mesmo a luz das letras que nos permite o intervalo de felicidade de uma leitura e tão poucos fossem os que tudo concentram no poder das suas mãos. Ter filhos para ter que os preparar para essa vida de lobos e carneiros, acabaria por transformar aquilo que naturalmente poderia ser um acto de esperança em mais um pauzinho para a fogueira da desumanidade. E a verdade é que ele tinha os meios para passar do sonho à realidade e de modo algum o incomodaria ter que abdicar do proveito estritamente pessoal para compartilhar a possibilidade de experimentar viver uma vida diferente. Os seus pais tinham acabado de falecer, praticamente um a seguir ao outro e, de repente, por obra e graça da enorme riqueza acumulada, ele vira-se proprietário de centenas de hectares de terra e ainda de uma fortuna colossal em dinheiro e outros bens. Dessa forma ele poderia dar-se ao luxo de mergulhar em tal exílio, para isso convidando os amigos que, à sua semelhança, mais do que as mordomias do bom viver, pretendessem a paz e a harmonia de viverem de bem com os outros. Foi aí que tudo isto começou e a base só a posso encontrar numa palavra, desilusão, pois foi esse o sentimento que, de alguma maneira, todos acabaram por exprimir quando se decidiram acompanhar aqueles que já tinham assentado que vinham. Não é pois o facto de algum de nós ser libertário aquilo que nos trouxe, antes a desilusão perante um momento da História que a todos parece não ter a possibilidade de um fim anunciado.
Quanto a mim não sei o que vai acontecer no futuro. Para já partilho a convicção de que isto que estamos a fazer é justamente aquilo que poderia ser feito face a este negrume que paira sobre o amanhã. Mas não sei e ninguém saberá se iremos ser capazes sequer de resistir às agruras e vicissitudes de uma escolha em que praticamente todos nos apresentamos como se estivéssemos de olhos vendados. Mas a vida é isso mesmo; o dom de adivinhar a nenhum assiste e na realidade sempre nos vemos confrontados com as novidades e as situações para as quais não temos qualquer referência e que, por isso mesmo, temos de nos comportar como quem experimenta uma solução, sabendo que pode vir a ser confrontado com a imperiosidade de voltar atrás. Não sei o que o futuro nos reservará e pouco me admiraria se acabássemos por partir e deixar nas nossas costas as ruínas de um abandono. Por agora estamos aqui, vamos então ver o que acontecerá daqui para a frente.
E aqui me fico, por hoje. Sinto-me exausta.

FRESCOS


As árvores e as borboletas, minúsculas, ao som do cravo e do órgão clerical, como duas campainhas de onda sonora contínua, as árvores e as borboletas, minúsculas, e o verde, ao som da Primavera que canta numa brisa de vento, com as árvores e os prados e as casas rurais, do outro lado da margem.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Garcia da Orta


“Não me contradigam textos de autores, aquilo que vi com os meus olhos”

Busto de Garcia de Orta por João Cutileiro

Garcia (Avraham) de Orta nasceu em Castelo de Vide por volta de 1500. Os seus pais eram judeus, expulsos de Castela em 1492 e baptizados à força em 1497, aquando da conversão maciça ordenada por D. Manuel I.
Estudou Medicina em Salamanca e Alcalá de Henares, em Castela, e em 1523 regressou a Castelo de Vide, onde exerceu medicina durante algum tempo.
Foi professor de Lógica na Universidade de Coimbra e em 1534 partiu para a Índia. Aí contactou com médicos indianos e árabes, o que motivou o seu interesse pelo estudo das plantas utilizadas na medicina indiana. Sobre essas escreveu a sua obra "Colóquios dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia".
Morreu em 1568. Depois da sua morte foi julgado pelo Tribunal do Santo Ofício (Inquisição), por praticar a religião judaica, e condenado à fogueira. O seu corpo foi desenterrado e queimado.


Margarida Castro

sábado, 23 de junho de 2012

Ténis de Mesa




Campeonato Nacional de Juniores de Ténis de Mesa, Pavilhão Municipal de Grijó, Vila Nova de Gaia. Tomás Santos (Academia 8 de Janeiro) vs. Diogo Chen (Sporting Clube de Portugal). Este haveria de se sagrar campeão nacional.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Mística ou Gnose na Tradição Hindú



Shamkya: os Sidhis e os poderes do Yoga


O Shamkya, o Yoga, é um caminho para muito poucos.
Na tradição oriental o conhecimento objetivo, a definição das coisas, é pouco importante. Definir é matar. É criarmos obstáculos à possibilidade de conhecer. A verdade é movimento, é mutável, não é fixa. A dimensão vivenciável é fundamental.
A mente, mente. Embora também meça. Releva-se a importância das sensações, independentes do sujeito, puras.
Maya – a ilusão da realidade, ou a realidade é uma ilusão.
O Conhecimento de Si é diferente do conhecimento da mente.
É coisa para ser orientada por um Mestre e não por um professor. O Mestre ensina aquilo que realizou.
Narrar o que são estados supra-mentais não faz qualquer sentido. É algo que já não é “ser” nem “não ser”.

Carlos Rodrigues

quinta-feira, 21 de junho de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria XCIV


Amanhecer em Alburrica (em construção)

Autor António Tapadinhas

Já está confirmada a segunda apresentação da exposição "Tejo Cintilante". Será na cidade do Barreiro, na galeria da Câmara Municipal, a partir do dia 29 de Julho e até 27 de Agosto.
Como algumas obras já foram vendidas, estou a preparar novas.
Tenho constatado o interesse dos meus amigos na concepção e execução das telas. Atendendo a esse interesse, vou dedicar as minhas as próximas entradas aos novos trabalhos que irei apresentar.
No Barreiro, os moinhos são o ex-líbris da cidade. Tenho feito trabalhos sobre eles, de todos os ângulos e com todos os formatos, mas sempre com o esplendor da luz do sol. Então, para variar, lembrei-me de fazer dois trabalhos: um com a luz da manhã e outro com a do pôr-do-sol.
Os moinhos são bem conhecidos, por isso, pensei dar maior realce ao seu enquadramento natural. O céu e o rio vão ser os protagonistas.

(clic sobre a imagem para ver em pormenor)
Para evitar surpresas desagradáveis, desenhei com um marcador à prova de água a língua de terra onde estão os moinhos. Para dar maior vigor às cores, devemos trabalhar a tela branca com as tintas que darão a temperatura que desejamos para pintura final. As cores são diluídas com médium transparente, que deixa ver o desenho, por entre as pinceladas expressivas que procurei dar.
Não me esqueci dos azuis, que vão servir para se sentir o frio da manhã…
Na próxima semana mostrarei a obra acabada.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sobras

Prefiro as sobras do banquete
o vinho quente na garrafa
o azedo da salada
o restante da carne
junto ao osso

o guardanapo
usado com esforço

guardo a rolha
em confirmação: aguardo
                            o retorno
                            inserido
            na minha vontade.

terça-feira, 19 de junho de 2012

FRESCOS


A mancha urbana desce em telhados pela encosta da colina, ondulado próprio de uma serpente gigante numa planície de água e numa estrada da ponta da distância, os automóveis passam, um a um, no tom de um desfile de miniaturas.

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA


Há dias que ando com esta dúvida no meu pensamento. Há algum problema por termos o sonho de um objectivo e por pretendermos atingi-lo? Afinal que mal pode vir ao mundo por sermos sonhadores? Admito que estas semanas têm sido árduas e difíceis. O termos que nos levantar pelo raiar da aurora, para passarmos jornada após jornada a labutar fisicamente, no que me diz respeito e tenho a certeza que não serei a única, naquilo que se pode dizer com toda a propriedade, no limite das forças, não será, com toda a certeza, a melhor condição para que possamos reflectir mais detalhadamente sobre o que quer que seja. Trabalhar no auxílio de abrir caboucos de uma dúzia de futuras casas, carregar com areias e massas daqui para ali, alinhar tijolos e passá-los ao que faz de trolha, arcar com baldes de cimento e deslocá-los pelo gancho do braço e ajudar a vergar o ferro e com ele a compor geometrias que farão os pilares das convenções; parar para preparar os almoços e os jantares e por fim tratar de lavar e arrumar as louças e as roupas para que um mínimo de normalidade se faça sentir num quotidiano de entrega total ao que tem de ser feito, tudo isso poderá ser um tónico poderoso para que o corpo peça o alívio do descanso e o sono se instale tão naturalmente que nem damos conta do instante em que as pálpebras soçobram pelo efeito do cansaço, mas não são propícias a que nos deixemos levar pela meditação num problema, por mais simples e muito menos serão o cenário preferível para que haja a disponibilidade e especialmente a disposição para que do tratamento das ideias passemos ao registo escrito das divagações e eventuais conclusões que daquelas possamos extrair. A prioridade de todos e cada um tem que ir direitinha para o principal propósito desta primeira fase em que nos encontramos e que é o de nos instalarmos no menor número de meses que nos seja possível. Pelo menos por enquanto, ainda não houve aborrecimentos de maior e todos têm sido capazes de manter a calma e uma atitude tolerante pelo facto de termos que nos revezar nas duas únicas retretes já construídas e provisórias ou de termos que esperar uma vez ditada à sorte para podermos tomar banho na única banheira que por ora possuímos. Mas este viver a monte num casarão entulhado pelo desalinho do seu próprio passado e mais os caixotes e caixas dos espólios que vieram e que ainda não pudemos abrir e arrumar por falta de uma habitação condigna, nunca este ajuntamento de saltimbancos poderia ser o melhor ambiente para aqui trabucarmos e, em conjunto, construirmos o nosso próprio modo de vida e, com ele, apesar de ser apenas o nosso, um mundo melhor para todos. É importantíssimo que tenhamos as casas prontas antes do começo do Verão para que as paredes possam secar e sobretudo para que não tenhamos que passar outra invernia, então de fio a pavio, em quartos que se por um lado nos protegem da chuva, por outro lado, deixam passar o frio por todas as frestas. E depois, ao que parece, há quem tenha pressa em vir a ter filhos para o que se revela imprescindível a existência de um espaço onde possam crescer com nível aceitável de conforto e condições de saúde. Daí que eu tenha chegado à noite cansada e desejosa de me estender numa cama que, mesmo não passando de um simples colchão de palha velho e duro, se me apresenta como um pequeno pedaço de um jardim do paraíso. Tal não é a fadiga. E o que possa ter pensado durante o dia, esta ou aquela observação que me possa ter ocorrido e que eu, em outras circunstâncias, poderia desenvolver, tem, por isso, ficado por aí, sem nunca ter passado a barreira do sono. Ora não será pois este estado o mais benéfico para que me dê a meditar seja lá no quer for. Contudo, não foi por isso que eu deixei de pensar no problema e a verdade é que feita a ressalva sobre este contexto, no plano que me estou a referir, adverso, eu continuo sem perceber que mal possa haver em sermos tomados por um bando de sonhadores. Para mais nos tempos que correm em que a vitória das forças fascistas parece ser uma realidade e a Europa, toda ela, está a ferro e a fogo e sob o manto da bestialidade da ocupação germânica em que, pelos ecos que nos vão chegando, os alemães se comportam como senhores em terra conquistada e dão corpo a todo o género de atrocidades que têm semeado o medo e a morte entre aqueles que eles consideram de raças inferiores. Aqui estamos distantes de tudo e não fossem os racionamentos, quase poderíamos dizer que vivemos uma paz absoluta. Não temos notícias, a não ser pela via do “Século” que umas duas vezes por mês, ao fim-de-semana, quem vai tem trazido da cidade com os abastecimentos com que provemos às nossas necessidades. Mas do que soubemos antes de virmos e pelo que vamos sabendo naquilo que a censura deixa passar, é fácil de perceber que a coisa está preta para o lado daqueles que não gostam de viver esmagados pela opressão e toda a miséria que sempre lhe está associada. Fala-se de prisões arbitrárias e deportações de populações, de gente obrigada a trabalhar nas fábricas e nas quintas alemãs, sabe-se lá em que condições e segundo o Félix que tem parentes que fugiram de Praga ainda antes do conflito e viveram em Lisboa antes de rumarem aos Estados Unidos da América onde actualmente se encontram, aquilo que tem sido feito com os judeus é algo tão atroz que uma qualquer pessoa de bem tem dificuldades sequer em acreditar no que se diz, quanto mais em entender como pode alguém tratar o seu semelhante dessas maneiras. Aquilo que se conta é tão aberrante que eu nem sei se as matanças de que falam não serão o sofrimento menor para quem tem sido sucessivamente espancado e arrancado das suas casas e empregos, em suma, a quem tem sido tirada a vida em vida para ser atirado para os campos de trabalhos forçados, a fazer fé no que escutei, sem o mais leve toque de humanidade. E tudo em nome de álibis que só não fazem corar de vergonha os criminosos que os propalam, como o de serem agentes do comunismo internacional ou inimigos da Grande Alemanha, como se tais pudessem ser consideradas características naturais de uma população. Coitados dos judeus que são obrigados a deixarem tudo para trás como se fossem meros objectos que se arredam de um lado para o outro e, se calhar por isso, são arregimentados e, de acordo com o que nos contou este nosso amigo, transportados como se de simples bestas de carga se tratassem. É precisamente este tempo e este mundo conturbado em que estamos a viver que me levaram a questionar o que possa haver de mal em sermos sonhadores, afinal, em querermos sonhar com uma vida melhor para todos. Em função de o que é que nos poderão chamar assim? Do bom senso, particularmente daquele que nos diz que devemos traçar objectivos para que ao longo de uma vida de labuta, mais ou menos intensa e difícil, melhoremos a nossa condição e deixemos aos nossos filhos mais do que os nossos pais nos legaram? E não paramos um único instante para nos interrogarmos se estaríamos efectivamente a sonhar quando nos juntámos para trabalhar em conjunto e, por essa via, prover ao sustento? Será que é de sonho que isso se trata? Não será possível pôr isto em prática? Todos nós estamos aqui voluntariamente e isso não conta? Não será isso o melhor indicativo de que apenas da nossa força de vontade dependerá o virmos a ser capazes de realizar os nossos propósitos? O tempo o dirá, é certo, mas ainda que venhamos a verificar que ficámos aquém do que nos propúnhamos, não será isso que, à posteriori, fará de nós um bando de sonhadores, antes, e isso seria muito pior, um grupo de falhados ou, para não ser tão severa, um grupo de pessoas que desse modo teriam falhado naquilo que pretendiam fazer.
Ouço a vida a decorrer numa das divisões. Chegou o momento de sorrateiramente me recolher aos lençóis.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

“VINHO DO PORTO” MADE IN GERMANY

António Justo

Um viticultor da Renânia-Palatinado produz, desde 2003, um “Vintage Port” procurando seguir na sua confecção o método português. Até a pisa das uvas é feita com os pés.
Enquanto o vinho do Porto português chega a incluir 40 castas de uvas, segundo o Frankfurter Allgemeine de 21.04.2012, o Pfaelzer (alemão do Palatinado) usa apenas a casta “Cabernet Cubin” pelo facto de amadurecer muito bem e ter um máximo de aroma. Enquanto as uvas em Portugal são tratadas a uma temperatura de 25 graus, o viticultor alemão fermenta-as a cinco graus. Aqui o direito de imitação atingiu o seu limite, revela o jornal alemão, afirmando que se compararmos o Vintage Port do Vale do Douro com o da Pfalz (Palatinado), “ao produto do Palatinado falta densidade de gosto, complexidade aromática e profundidade”. A singularidade do vinho do Douro vem-lhe do tipo de solo, das uvas, do clima e dos pipos, o que o do Palatinado não pode oferecer. Contudo, o viticultor alemão conseguirá engarrafar com o vinho o exótico do porto e a fé da ecologia alemã.
Numa sociedade de mercado de massas importa menos a especialidade (mais para apreciadores) porque quem manda é o consumidor e isto sabem-no bem os alemães que trazem para sua casa o que é melhor, a nível de produtos, do estrangeiro.
Pelos vistos o Vinho do Porto é como os portugueses, deixa-se integrar bem na Alemanha!

António da Cunha Duarte Justo

domingo, 17 de junho de 2012

Histórias da História: Angola

Em 1518 o rei do Ndongo, ou Ngola, enviou uma embaixada a Portugal pedindo missionários que ele sabia estavam a fazer um importante trabalho no reino do Congo. A primeira missão portuguesa chegou a Ndongo em 1520, mas disputas locais forçaram os missionários a abandonar retirando-se para o Congo. 

Em 1556, Ngola Inene, com inveja das vantagens que o rei do Congo tirava com o comércio com os portugueses, e querendo livrar-se do jugo daquele, enviou outra missão a Portugal procurando ajuda militar e oferecendo-se para ser cristianizado. Era regente, em nome de D. Sebastião, nessa altura com dois anos de idade, D. Catarina e o cardeal D. Henrique, que condescendem, e encarregam Paulo Dias de Novaes dessa missão.


Sai de Lisboa em Setembro de 1559 a fraca “armada” de três caravelas, com alguma gente de terra e “fracos petrechos hostis”, para “auxilar” o rei do Ndongo ou Matamba.

Chega à foz do Quanza em Maio de 1560. Desembarca a segunda missão portuguesa, liderada por Paulo Dias de Novais, neto do famoso explorador Bartolomeu Dias, juntamente com vários padres jesuítas, incluindo o notável Francisco de Gouveia. A missão de Dias de Novais falhou igualmente. Não encontra mais o Ngola Inene que tinha morrido, e em lugar deste, um filho, Ngola Kiluange, belicoso e desconfiado, que fazendo-se amigo o mantém em cativeiro, assim como ao padre Francisco de Gouveia.
Só ao fim de quatro anos consegue Novaes libertar-se, deixando o padre jesuíta Francisco Gouveia para trás, porque o Ngola o não dispensou, e como as suas caravelas tinham ordem para esperar só um certo tempo, há muito ultrapassado, haviam regressado a Portugal.

Atravessou Paulo Dias os sertões, até chegar do Congo, donde conseguiu voltar a Portugal em 1564. 

Em 1571 Novais obteve do rei D. Sebastião uma Carta de Doação (1571), que lhe dava o título de "Governador e Capitão-Mor, conquistador e povoador do Reyno de Sebaste na Conquista da Etiópia ou Guiné Inferior", nome pelo qual a região de Angola era então conhecida. Partiu de Lisboa em 23 de Outubro de 1574 e desembarcou na chamada Ilha das Cabras (actual Ilha de Luanda) a 11 de Fevereiro de 1575.


Ali já existiam cerca de sete povoados e Novaes encontrou sete embarcações fundeadas e cerca de quarenta portugueses estabelecidos, enriquecidos com o comércio negreiro, ali refugiados dos Jagas. Acredita-se que já estivessem ali há alguns anos, uma vez que na ilha também existia uma igreja e um padre.

Tudo isto consta de vários historiadores. Mas...

- O que faziam ali os portugueses? Dizem os historiadores que os portugueses estavam ali com autorização do rei do Congo. O contato entre portuguese e este rei tinha já cerca de cem anos! Quase um século. E estes portugueses tinham até capela e padre!
- Escravos da Ilha não havia, e se os tivessem levado – o chamado comércio negreiro – a Ilha ficaria deserta.

- Esta Ilha pouco mais tinha para comer do que peixe, e nas terras da frente, do outro lado da baía, hoje a cidade de Luanda, nem peixe, nem gente, nem nada!

- Como é sabido, a “Casa da Moeda” do rei do Congo era precisamente a Ilha de Luanda onde se encontrava o famoso zimbo que servia de moeda por todo o interior de África. E só o rei era o seu proprietário, mantendo até fiscais seus para não haver “contrabando”! (Nota... oportuna: no Brasil já se rouba dentro da Casa da Moeda!)
- Só parece sobrar uma hipótese para a estadia destes portugueses naquela – maravilhosa – ilha, onde não seriam refugiados, nem fugidos, bastando para isso lá estarem sete embarcações, que certamente não eram parte de alguma regata à vela! 

- O que nos leva a concluir que os portugueses teriam autorização para explorar essa preciosidade – que só as mulheres sabiam colher no mar – para engrossar os proventos do rei e deles próprios.

- As embarcações deveriam ter levado alimentos e bens comerciáveis que os portugueses trocariam pela “moeda”. Só assim se lhes pode chamar comerciantes. Mas eram muitas embarcações: sete! O que levariam de volta? Só o zimbo. Peixe seco também? Quem sabe.
- Como nos primeiros tempos os navios portugueses não faziam comércio de escravos para o Brasil nem para qualquer outro lugar, sabe-se que, a mando do rei do Congo, compravam escravos nalguns lugares da costa ocidental e iam vendê-los a outros potentados por preços muito compensatórios. O lucro era do rei que pagava o custo do transporte, ou então dividiam os lucros.

Uma grande PPP – Parceria Publico Privada – possivelmente a primeira da história, assim como a primeira “Empresa de Transportes de Navegação”, quatrocentos ou quinhentos anos antes da Costa Cruises, da Cunard Lines e muitas outras!

É fácil certificarmo-nos do convívio dos portugueses com outros povos!


Francisco Gomes Amorim
12/06/2012

sábado, 16 de junho de 2012

Belo Monte: Um drama para saúde indígena




A política de desenvolvimento adotado pelo governo brasileiro não tem respeitado os direitos fundamentais do povos indígenas, (Art: 231 e 232 da constituição federal de 1988 e da Convenção 169 da OIT), em todos os setores, e, em especial, no que refere a saúde indígena...

Muito obrigado 
Andrea Duglac

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Da consciência e da evolução



   A particularidade do conhecimento traz ao ser humano um conceito de evolução tendo como base a linearidade, passado –presente-futuro. Sendo assim, qualquer outro conceito saindo dessa perspectiva trará uma observação desfocada à grande maioria de observadores.
    Colocando-se o observador num extremo do círculo verifica-se que o mesmo pensando que está a andar em frente na realidade está sempre a girar num caminho que se repete. A sua visão de passado encontrar-se-á sempre nas suas costas e o seu futuro na sua frente. A determinada altura estará a percorrer o caminho que já percorreu pensando que está a andar para a frente. Na realidade apenas quando se posicionar no ponto central do círculo terá uma visão correta da ilusão da linearidade.
    Ao colocar-se no ponto central do círculo o caminhante verificará que afinal não há deslocação a fazer, pois considerando-se sempre no ponto central, será sempre centro em qualquer deslocação que faça. Daí vem a noção de Agora, a linearidade deixa de existir. O Agora permite a libertação de passado e futuro. É uma oportunidade para a consciência evoluir. Sabendo-se o centro de todo e quaisquer pontos de localização Universal pode deslocalizar-se sem movimentos físicos para quaisquer ponto da malha Cósmica, não perdendo a sua individualidade mas complementando-a na Totalidade.

A.A.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria XCIII

Lisboa Elevador de Sta. Justa Autor António Tapadinhas

Óleo sobre Tela 80x100cm

Esta obra esteve exposta juntamente com outra porque tinham em comum as cores utilizadas e um elemento colocado na Secção de Ouro, ou Divina Proporção, como lhe chamou mais tarde Leonardo da Vinci no seu Tratado da Pintura – o Elevador de Santa Justa.
A outra, que apresentarei a seguir, procura transmitir a sensação das cores quentes e da luz estonteante nos telhados de Lisboa. Esta, apelando mais à imaginação do observador, tem a construção cubista/cézanniana do mundo.
O movimento cubista iniciado por Braque e Picasso divide-se normalmente em três fases. A primeira, Cézannianna, dizia que tudo se pode reduzir a cones, cilindros e esferas. A segunda, Analítica, em que as obras são trabalhadas numa cor base, e por fim, a fase do Cubismo Sintético, que é a mais geometrizada e a mais abstracta de todas. Todos os pintores de qualquer destas fases tinham em comum a admiração, a veneração por Cézanne e a sua visão construtiva do mundo.
Eu também!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

terça-feira, 12 de junho de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA


Não sei como nos defina. Não fosse o senhor Abel e a sua mulher estarem aqui entre nós, diria que não passamos de um grupo de jovens sonhadores. E afinal que mal pode haver nisso, em sermos sonhadores? Qual é o mal que pode haver por alguém querer fazer de um sonho realidade? Ter um ideal e lutar por ele, querer viver o dia a dia segundo o mesmo? Desconheço as motivações de cada um de nós, nem mesmo conheço a maior parte daqueles que decidiram abraçar esta aventura. Espero vir a conhecê-los, como forçosamente terá que vir a acontecer, mas reservo-me para que isso se passe com o decorrer do tempo. Não quero fazer avaliações precipitadas e prefiro formar as minhas opiniões mais a partir daquilo que me for dado ver do que por aquilo que me possam dizer. O passado de cada um interessa, naturalmente e a esse, se dele vier a inteirar-me, terei que aceder por aquilo que dele me contem os próprios. Eu é que estou convencida que as pessoas se revelam naquilo que fazem, é aí que revelam os motivos e os interesses que os conduzem e é por isso que são fundamentais certos momentos, determinadas situações que nos colocam no limite em que nos vemos obrigados a confrontar o que possa ser benéfico para os outros, ocasiões decisivas em que acabamos por mostrar se somos ou não capazes de um comportamento ético, se temos ou não uma vida ética, se pautamos ou não as nossas acções por uma ética que nos oriente no decurso da nossa vida. E o tempo me dará a ver quem é cada um dos que não conheço. Certamente que não faltarão as situações propícias para que assim seja e sobre esse aspecto estou perfeitamente tranquila. Não sei então quais possam ter sido as motivações que empurraram cada uma destas pessoas para este destino que começa a ser comum a todas. Contudo, algum substrato se repetirá em todas estas intenções e não deverei estar muito errada se aqui disser que esse só pode ser uma certa dose de idealismo, pelo menos a ideia de achar que é possível levar a cabo uma vida mais livre. No que me diz respeito sinto isso mesmo. Não vejo pois qual possa ser o mal de alguém querer sonhar com isso e de obviamente pretender passar do sonho à realidade. O meu pai é um homem extraordinário que praticamente me apoiou em todas as opções que tomei desde a mais tenra idade e não foi uma nem duas vezes em que foi ele que perante a minha mãe explicou e defendeu os fundamentos dessas escolhas. Mais do que isso, foi ele quem sempre me incentivou a querer ser alguém, a querer aprender e seguir uma profissão e a segurar, como era o seu jeito de dizer, as rédeas da vida com as minhas próprias mãos. Com isso assustava a mãezinha que amiúde lhe perguntava se não estaria a incutir-me ilusões que, mais tarde, só infelicidade me trariam. Ele, no entanto, esclarecia-a e sustentava que não via porque haveria eu de me restringir e anular a uma vida de casamento. Pobre mãezinha que aí só o orgulho lhe conseguia impedir que a dor sentida se expressasse pelas lágrimas. Pacientemente ele esclarecia e a verdade é que ela poderia muito bem ter sido professora, por exemplo, se para tanto se tivesse preparado coisa que não sucedera por falta de meios e depois não há como negar que essa não possa ser uma profissão feminina. Acima de tudo fazia-lhe ver que na sua condição de médico não teria como vir a legar-me uma independência que me aliviasse para a vida do fardo de prover ao sustento; pelo que seria preferível preparar-me pessoalmente para o fazer e não ficar à espera que um marido viesse a sê-lo para o assegurar. É este o senhor meu pai que, para além de tudo, sem me mimar e sendo rigoroso e exigente em termos de carácter e deveres, sempre me encheu de carinho e foi ele a primeira pessoa a dizer-me para seguir em frente quando comecei a mostrar inclinação para estudar filosofia e um primo, um pouco mais velho que tinha acabado de entrar em engenharia, em Lisboa, me dizia que dessa maneira estaria condenada a ser professora de liceu e isto, segundo ele, na melhor das hipóteses. Ora acontece que até o meu querido pai franziu o sobrolho quando o inteirei desta minha decisão de acompanhar o Manuel neste propósito de erguer uma comunidade livre de raiz. Primeiro senti-lhe as muitas reticências no lacónico desabafo do “se estás casada com ele”. Depois percebi que o inquietava o facto de podermos estar a desperdiçar anos cruciais para lançarmos as bases de uma vida confortável e escutei-lhe as dúvidas sobre se não nos estaríamos a deixar confundir por aquilo que designou como sonhos idealistas da juventude. E qual é o mal? Perguntei-lhe então e continuo a interrogar-me exactamente sobre esse particular. Mas agora que aqui estou mais uma vez a beneficiar do sossego do sono dos outros e em que me deixo perder nas diferenças de cor que a chama tremente me apresenta, é isso apenas que me ocorre para definir este grupo de pessoas que dorme e a quem eu pareço estar a guardar. É isso e não fosse o senhor Abel e a mulher, eu diria que nada mais somos que um conjunto de sonhadores, por causa das idades, de jovens sonhadores.
O senhor Abel é um castiço. Da mulher dele ainda não posso falar pois é muito comedida e de poucas ou nenhumas falas para além do essencial. Ele é uma personalidade, com aquela boina preta, normalmente descaída mas que sempre ajeita de um modo que lhe confere um certo estilo de rufia, mas um rufia no bom sentido da palavra, aquele que desafia as convenções que fazem pouco ou nenhum sentido, como, por exemplo, aquelas que mais do que existirem para garantir uma boa e sã convivência, tão só convergem para manter as subserviências que perspectivam as relações de desigualdade. E gosto do modo desempoeirado como a todos trata na segunda pessoa e da humildade com que escuta o que os outros têm para dizer e admite os conhecimentos que não tem e aquilo que não sabe e pergunta sem qualquer embaraço em face das dúvidas que possa ter perante o que em conjunto se estabelece e ele tem que cumprir. Neste par de semanas desde a nossa chegada já deu para ver que tem boa índole e que não pensa apenas em si ou nas suas conveniências que, perante um problema, eu diria que naturalmente é capaz de ponderar os diversos pontos de vista e interesses envolvidos. Ora eu gosto disso e isso diz-me que o homem tem aquilo que eu chamo uma atitude ética na vida, ainda por cima alicerçada em bons princípios morais. E já mostrou generosidade e não me estou a referir às poucas ocasiões em que o vi oferecer-se para continuar ou concluir uma tarefa por ver que o companheiro, como ele diz, estaria a precisar mais de descanso do que ele. Foi dele que partiu a iniciativa de fazer o leito ali, atrás de mim, encoberto por um simples pano, nesta ampla divisão de entrada seguramente mais fria e onde todos têm que passar, enquanto os outros se acomodaram pelos quartos do piso superior, onde a privacidade é maior e as portas sempre lhes conferem um melhor estado de conforto. Mas também foi dele que logo brotou o ânimo necessário para que os braços se atirassem a conseguir um mínimo de habitabilidade a este casarão que o desuso e abandono de uma boa vintena de anos deixara aqui e ali na fronteira da ruína e por toda a parte no caos e desarrumo que a poeira e as portadas e vidros partidos provocam numa casa deixada ao deus dará dos ninhos de pássaro e um ou outro intruso ocasional e sabe-se lá que mais. Tal como foi ele quem acabou por arranjar maneira de montarmos um acampamento que nas primeiras noites nos abrigou e impediu de gelar com as geadas das madrugadas. E aquele ar sorridente que ainda não deixou de exibir, é um tónico humano que nos dá forças para esta experiência tão intensa que está a ser, ao ponto de me atrever apelidá-la como avassaladora. De acordo com o que me confidenciou o José Pedro, o homem há muito que terá aderido ao comunismo, coisa que lhe veio a trazer a prisão e, nessa sequência, graves problemas com a polícia e o partido. Com o ofício de sapateiro que mal dá para comer, achou que o melhor que lhe poderia acontecer, a ele e à família que a filha aqui está connosco e ali está a dormir aos pés da cama dos pais, o melhor que lhes poderia acontecer era precisamente desaparecerem do mundo em que viviam e esta oportunidade veio assim a calhar-lhe às mil maravilhas, o ouro sobre o azul como é costume dizer-se e, segundo o José, não hesitou em pedir para também ele e as suas participarem neste empreendimento quando, ao que parece, um dos presentes que o conhece por via de lhe encomendar os préstimos, lhe explicou a razão pela qual iria deixar de ser seu freguês. Passada a surpresa da proposta e perante a insistência, houve conversas entre os outros e ao pedido responderam com o convite e dessa forma se nos associou aquele que pela diferença de umas simples mãos cheias de anos, quase poderia ser pai de todos nós. E é por ele que eu não posso dizer que somos nada mais que um grupo de jovens idealistas e sonhadores.
Hoje fico por aqui. Gostaria ainda de dizer mais alguma coisa sobre esta última questão mas sinto que o sono está a ser impiedoso e daqui a um punhado de horas terei que estar de novo a pé. Talvez na próxima madrugada aqui volte a estas páginas.

FRESCOS

UMA TARDE DE CHUVA

O chilrear de pardais, chove, a sebe de arbustos pincelada a verde, cheio, ópera ascendente, cada vez mais alto, na direcção de explosões lacrimais de pingos destilados, no parapeito refractado da janela. Os outros pássaros voltam sempre a cantar quando as nuvens se abstêm de chorar pelos deuses e as primeiras andorinhas acabam por aparecer, nos rodopios de um sorriso.

Alhos Vedros, Fevereiro de 1983

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Portas



Foto de Lucas Rosa

domingo, 10 de junho de 2012

"Portugal deve promover a Lusofonia e os valores universalistas da cultura portuguesa e lusófona no mundo, dando o seu melhor exemplo e contributo para converter a sociedade planetária na possível comunidade ético-cultural e ecuménica visada entre nós por Luís de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. Portugal deve assumir-se como um espaço multicultural e de convivência com a diversidade, um espaço privilegiado para o tão actual desafio do diálogo intercultural e inter-religioso, alargado ao diálogo entre crentes e descrentes. Deve precaver-se contudo de tentações neo-imperialistas e de qualquer nacionalismo lusófono ou lusocêntrico. A Lusofonia não deve abafar outras línguas e culturas que existam no seu espaço"
- excerto do Manifesto "Refundar Portugal", por mim lançado em 20 de Outubro de 2009 e publicado no livro "Uma Visão Armilar do Mundo" (Lisboa, Verbo, 2010).

Paulo Borges
in, Facebook, grupo Revista Cultura ENTRE Culturas
2/6/2012 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Absolutismo na Arte


António Justo

De cinco em cinco anos peregrinam, de todas as partes do mundo, milhares de artistas e admiradores da arte contemporânea até Kassel, Alemanha. A documenta foi criada em 1955, em Kassel pelo artista Arnold Bode que pretendia, com a iniciativa, abstrair das ruinas da guerra e seguir novos horizontes ao serviço da abstracção. Na primeira exposição houve sobretudo obras de arte que tinham sido proibidas e perseguidas durante o regime nazi e intituladas de arte degenerada (“Entartete Kunst”).

A documenta alonga-se por 100 dias. Nesta altura a cidade transforma-se num mar de gentes de portes exóticos: um aspecto folclorístico que faz lembrar os mercados da idade média em torno das catedrais e, assim, forma, já por si, também uma obra de arte social. Kassel transfigura-se numa praça de arte que se estende por edifícios, parques e outros espaços públicos da cidade. A documenta apresenta uma perspectiva transversal da arte contemporânea e permite fazer o ponto da situação mundial em questões de arte e ocasionar uma certa orientação de perspectiva. Na sua história de 57 anos com 13 exposições, documenta as contradições e ambivalências do Homem e do tempo num currículo de realização e fracasso em processo de morte e ressurgimento.

A dOCUMENTA (expressão gráfica da documenta 13) vive da ambivalência e do escândalo na procura dum futuro prospectivo a partir dum presente impregnado de contradições e inconsistências que se expressam de documenta para documenta, numa manifestação de diferentes atitudes artísticas a que assistem diferentes filosofias, teorias, correntes políticas e sociais contemporâneas.

A documenta13, realiza-se de 9 de Junho a 16 de Setembro de 2012. A última documenta/2007 conseguiu vender 754.301 bilhetes. O objectivo da actual é atingir um milhão de visitantes. Ela é ao mesmo tempo o maior festival Open-Air. Kassel oferece possibilidades ilimitadas: o visitante tem a oportunidade de se alegrar e irritar sobre a arte.

A documenta (13), foi elaborada sob o lema “Colapso e Reconstrução” e tem como chefe/gerente a americana Carolyn Christov-Bakargiev apelidada por jornalistas de “Lady Gaga”. Ela situa-se nas pegadas e tradição das 12 documentas anteriores prosseguindo um espírito de continuidade de arte afirmativa e provocativa. Procura apresentar o válido como inválido e vice-versa, documentando assim as contradições da actualidade.

A direcção da documenta escolhe para chefe de cada exposição, um curador/chefe da documenta equipado de poderes absolutos; este pode pôr e dispor à sua vontade de maneira dogmática a própria filosofia. Na documenta, aqui em Kassel, a arte arroga-sealvores absolutistas. Carolyn Christov-Bakargiev encena-se como se fosse a sacerdotisa da arte, não lhe faltando a estola, o gesto religioso e o dogmatismo ostentado. O sensacionalismo em torno dela talvez venha do facto Carolyn Christov-Bakargiev querer, com idiotices mudar o nosso pensamento, através da documenta. Desta vez participam 297 artistas e grupos de artistas de todo o mundo.

“Direito de Voto para Cães e Morangos”

Em torno da dOCUMENTA 13 tem havido muita discussão na imprensa; a chefe tem-se revelado como bastante jacobina, não suportado mesmo nada que contradiga a sua ideologia/visão de arte. Para Josef Beuys artista “ é toda a pessoa”;  para a chefe da documenta, artista é toda a natureza, ponto.  Carolyn Christov-Bakargiev exige o direito de voto também para os morangos e para os cães; também há três cães da documenta treinados e colocados à disposição de visitantes que se deixarão conduzir pelos caninos; o sentido desta iniciativa é levar o visitante a ver a atitude do cão perante a obra de arte; intenção é inverter os valores colocando o Homem ao nível do cão e do morango. As suas posições radicais têm sido muito criticadas, muito embora a sua posição extremista possa ajudar uma sociedade surda-muda a notar que a natureza é sua companheira. A exposição paralela à documenta organizada na igreja católica St Elisabeth, onde o artista Stephan Balkenhol apresenta (na torre) uma instalação com um homem de braços abertos sobre um globo dourado, provocou os furores da chefe da documenta que não queria ver o Homem numa posição superior ao dos animais e das plantas. Sentiu-se “ofendida” por aquela instalação que questiona a sua intenção niilista não suportando o optimismo do Homem como senhor e corresponsável da natureza. Isto não passa dum ultraje invertido pois encontra na torre da igreja algo irritante para quem quer um mundo plano com tudo sem moldura, tudo abstrato, que desvie as atenções do humano.

A documenta quer ser um espelho da arte contemporânea mas negligencia grande parte da arte e em especial a pintura, o realismo, fotorrealismo, o realismo fantástico e o surrealismo. Por isso já houve movimentos anti documenta que foram imediatamente oprimidos. As pessoas não ousam opor-se ao espírito da documenta sejam cientistas da arte seja o povo. O doentio, o dilacerado tem sido tematizado em instalações e esculturas. Contrapõe-se o desastroso, o ameaçador em rituais negadores de ritos optimistas da religião e da sociedade. Um certo espírito da documenta quer afirmar-se como religião secular contra o religioso cristão e passar à margem das pessoas. Parece não reconhecer o facto de vivermos todos num mesmo mundo plurifacetado feito de muitos universos complementares.

Numa perspectiva cristã da arte o ser humano está chamado a mais do que a gritar. O Homem é o caminho de Deus e deve reconhecer-se como companheiro adulto da natureza mas sem abdicar de ser sua consciência. A religião e a arte devem ser os sismógrafos dos problemas. A arte também tem de se entender como resposta ao mundo na responsabilidade; por isso, também ela deve questionar os próprios conceitos. Por vezes tem-se a impressão, em certos meios ideológicos e de certa arte que a imagem de Homem constitui, já por ela, uma provocação. Esquecem que o olhar cego e vago da realidade é um olhar de governantes ou de quem se não quer envolver ou deixar tudo às forças duma natura sem cultura.

A arte abre novas visões mas precisa da condição humana para tornar não só a miséria humana visível mas também a parte nobre como a religião pretende afirmar. Também Dostoievski dizia “o belo libertará o mundo”. Quando se desiste da religião, o mundo torna-se em ameaça, como pretendem certas tendências ideológicas. Torna-se importante libertar a religião e a arte do medo e das ideologias.

A arte também é importante como catarsis, como crítica, sem ter necessidade de exilar a esperança. Não se podem tornar cúmplices com os senhores que roubam o mundo roubando a senhoria ao Homem tornando-o seu arrendatário e reduzindo-o a indivíduo anónimo numa imagem sem nós, como se uma árvore não estivesse incardinada num biótopo. Eu sou rei e escravo soberano, permaneço mistério e tanto a arte como a religião, como a ciência, a política, não conhecem um porquê da realidade. A arte e a religião protegem o mistério, aquilo que dá grandeza e perspectiva ao Homem e à natureza. Seria abstruso que arte e religião não reconhecessem o mesmo coração donde provêm, do epicentro da intuição que proporciona o sonho na empatia. Até ao séc. XVIII religião e arte viviam em relação amorosa, queriam modelar e tornar visível o mistério. Arte e religião questionam as compreensões imediatas. Com o racionalismo e o materialismo deu-se o divórcio do sagrado e do profano e dividiu-se o povo em sábios e ignorantes caindo-se num fundamentalismo de posições. Hoje torna-se óbvia também uma reculturização, uma nova consciência, à margem dum normativo racional que aprisiona a realidade em imagens e caixilhos religiosos, científicos, ideológicos, políticos, etc.

Na casa da arte, tal como “na casa do Pai” há muitas mansões; seria miopia expulsar a religião e o Homem do templo da arte e a arte da religião. Realidade e imagem são imagens!... Fazemos todos parte dum mesmo mundo, numa realidade complementar do não só… mas também…

António da Cunha Duarte Justo

quinta-feira, 7 de junho de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria XCII

Camarros Autor António Tapadinhas

Óleo sobre tela 100x100cm

Até ao século xv, Barreiro esteve integrado num concelho chamado Riba Tejo que abrangia a região entre Alcochete e a Ribeira de Coina. Foi em 1512 que D. Manuel I outorgou a Carta de Foral ao local que era uma povoação ligada à pesca, à salicultura, à moagem, à olaria, mas que esteve na génese da Expansão Marítima graças à construção naval e às fábricas de biscoitos para os marinheiros das naus. Foi elevada a cidade em 1984, mas os habitantes do Barreiro, barreirenses, continuam a sentir-se honrados com o seu primeiro nome, atribuído aos pescadores que utilizavam as terras barrentas para acolhimento e descanso: cama sobre o barro ou Camarro.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário,
é possível conviver com as figuras do passado.

Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será. 

José Brandão sobe até

 
para ouvir


afirmar: 

- Acabaram-se os neutros!
-          
Naquela casa
(onde já moram 148)
tudo está a acontecer,
cada vida / cada conto.
Por isso já recebeu
mais de 25,7 milhões de visitas.

E-mails de FERNANDO CORREIA DA SILVA: