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terça-feira, 18 de março de 2014

A “Ilha dos Amores”: entre Alhos Vedros e o Barreiro


por Luís Santos

(…)
Nesta vila há uma ilha
Que a voz mansa dessas águas
Chama de eterna maravilha,
Num momento mais insensato
Chamaram-lhe “Ilha do rato”,
Mas eu nos meus sonhos às cores
Chamo-lhe de “Ilha dos Amores”
(…)

(in, Luís Carlos dos Santos, Poemas, A Ilha, Edicões Bubok, 2010)


Podemos dizer, então, que o nosso cronista Álvaro Velho, um barreirense de Alhos Vedros, à semelhança dos outros nautas que foram na Viagem do Gama, e seguindo o Canto IX dos Lusíadas, de Luís de Camões (1524-1580), também terá entrado na tal “Ilha dos Amores”.

Como diz Agostinho da Silva, “Aqueles marinheiros portugueses, aquela esquadra de Gama que volta, (…) é uma Deusa de fora, é a força interna do mundo, é a máquina interna da História que leva a Ilha dos Amores para diante dos navios portugueses. (…) Camões dá este conselho pedagógico aos portugueses: «os meus amigos, se querem alcançar o Céu na Terra, tratem do seu navio, mantendo-o em ordem, com disciplina a bordo, porque um dia a Ilha dos Amores aparece» (…) É como se eles tivessem entrado em alguma coisa na qual tivessem plena licença de serem homens inteiramente livres. São as Ninfas, é a comida, é a paisagem, são os passeios, o encanto das conversas, tudo isso há. Portanto, para Camões, um projecto de futuro inclui uma inteira liberdade do homem e um inteiro gosto do homem pela apreciação dos fenómenos.”(*) E mais à frente, continua Agostinho, “na Ilha dos Amores acontece uma coisa muito curiosa, das tais Deusas, vem a possibilidade deles descobrirem o futuro. Os marinheiros portugueses ouvem, da Deusa, aquilo que será o futuro da História de Portugal. Ao mesmo tempo que estão presos a fenómenos libertam-se da tal cadeia do Tempo.” (**)

Mas, deixando os Lusíadas e a Ilha dos Amores, há um outro livro de Luís de Camões onde se faz referência a Alhos Vedros e ao Barreiro. Trata-se de um Auto, ou Farsa, intitulado “El-Rei Seleuco”, de data desconhecida e que só vem a público em 1654, onde Luís de Camões satiriza relações conjugais da vida da corte.

Numa breve sinopse da peça, a jovem esposa do rei Seleuco é também desejada pelo filho deste, Antíoco, de forma que para evitar uma crise dinástica, o rei num ato heroico cede a sua mulher ao filho.
Logo no início do Prólogo do Auto, diz o Mordomo (que Luís de Camões deixa a possibilidade de na dramaturgia ser substituído pelo dono da casa), uma das personagens da comédia: “Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quis representar uma farsa; e diz que, por não se encontrar com outras já feitas, buscou uns novos fundamentos para a quem tiver um juízo assim arrezoado satisfazer. E diz que quem se dela não contentar, querendo outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova do Boticário; e não lhe faltará que conte.” E, no mesmo parágrafo, um pouco mais à frente: “Ora quanto à obra, se não parecer bem a todos, o Autor diz que entende dela menos que todos os que lha puderem emendar. Todavia, isto é para praguentos, aos quais diz que responde com um dito de um Filósofo, que diz: - Vós outros estudastes para praguejar, e eu pera desprezar praguentos. E contudo quero saber da farsa: em que ponto vai Lançarote?”. (***)

Posto isto, a pergunta que se impõe, em termos da importância que este Auto terá para a história local, é a seguinte: Porque será que, quem não se satisfizer com o que fica registado nesta farsa, diz Luís de Camões, poderá saber mais destas satíricas relações entre a alta nobreza, nos “soalheiros dos Escudeiros da Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do Boticário”? O que será que existia de comum entre estas tramas amorosas de representantes da alta nobreza e Alhos Vedros e Barreiro? O autor parece relacionar os criticáveis episódios dessa alta nobreza com Alhos Vedros, ou melhor, com os seus “soalheiros”, lugares expostos ao sol onde se dá à língua sobre comportamentos menos próprios. Naturalmente, que a partir daqui pouco mais poderíamos fazer do que simples suposições, mas até pode ser que alguém mais documentado na investigação sobre a história da nossa região, possa acrescentar algo de mais concreto que a nós nos escapa.

A propósito da segunda parte da citação que extraímos da obra, como descrevemos no segundo parágrafo acima, parece-nos evidente que o autor se está a defender de eventuais críticas que lhe possam trazer desagradáveis surpresas pela arrojada Farsa, críticas que, todavia, são para si desprezíveis. Mas é evidente que esta é uma parte da história que para nós, aqui, já menos nos interessa.

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(*)MENDANHA, Vítor, Conversas com Agostinho da Silva, Pergaminho, Lisboa, 1994, pp. 74-76
(**) Cf., idem, ibidem, p.78
(***) LIMA, Augusto C. Pires de Lima, El-Rei Seleuco, Luís de Camões, Editorial Domingos Barreira, Porto, s/d, 3ª edição, pp.45-46.

terça-feira, 11 de março de 2014

Alhos Vedros, 500 anos de Foral



Álvaro Velho, o cronista da Viagem  de Vasco da Gama à Índia

por Luís Santos


D. Manuel I, o décimo quarto rei de Portugal, foi entronizado em 1495 e seguiu a política expansionista do seu antecessor. De tal forma que, dois anos depois, no dia 8 de Julho de 1497 Vasco da Gama estava de partida para a Índia, tal como, pouco tempo depois, no dia 9 de Março de 1500, Pedro Álvares Cabral partia para aquela que acabou por ser a Viagem da Descoberta do Brasil.

Entre todo esse imenso Projeto que foi a Expansão Ultramarina Portuguesa, a descoberta dos caminhos marítimos para a Índia e Brasil, constituíram-se como acontecimentos de enormíssima importância à escala planetária. O comércio, a economia, a geografia, os conhecimentos náuticos, o desenvolvimento social e cultural, ganharam um incremento tal que abriram novas infinitas possibilidades ao mundo.

A chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, por exemplo, foi uma das primeiras vezes em que se registaram contactos entre os povos europeus e as populações ameríndias, porque até ao tempo o Atlântico erguia-se como uma barreira intransponível. A magnífica Carta do cronista Pero Vaz de Caminha, onde se dá a notícia ao rei D. Manuel do Achamento da Terra do Brasil, descrevendo esses primeiros contactos com as populações índias, os seus modos de vida, os seus hábitos culturais, constitui um testemunho ímpar da história da humanidade.

Da mesma forma o faz Álvaro Velho, o pressuposto cronista que vai com a frota de Vasco da Gama à Índia e que narra pormenorizadamente todos os acontecimentos que foram acontecendo aos nautas pelo caminho, os fenómenos naturais, as terras, os povos, os costumes. Uma Viagem de ida e volta que demoraria dois anos, pois que a saída do Restelo, Lisboa, deu-se a 8 de Julho de 1497 e a chegada a 10 de Julho de 1499. O aportamento na Índia, em Calecute, aconteceu no dia 8 de Maio de 1498, o que significa dizer que foram precisos mais de dez meses de viagem por mar, tamanho era o tempo necessário para o precioso intercâmbio comercial com o oriente. Se compararmos este facto com a facilidade de mobilidade que temos atualmente, não podemos deixar de pensar nas múltiplas formas como as coisas mudaram nestes últimos 500 anos.

Posto isto, contextualizado que está o assunto, iremos reter agora a nossa atenção entre esse marco fundamental da história de Portugal, a Viagem de Vasco da Gama à Índia, e as suas importantes relações com a história local.

Dizer desde logo que, Álvaro Velho o autor do diário de bordo “Roteiro da Índia”, pois que assim se chama o texto que nos é legado, era natural do Barreiro, na altura um lugar que pertencia ao Concelho de Alhos Vedros. Como é sabido, o Barreiro é um dos filhos de primeira geração do Concelho de Alhos Vedros, do qual viria a autonomizar-se em 1521 através de Carta de Foral atribuída pelo rei D. Manuel I. Muito se poderá dizer sobre as longas e profícuas relações entre estes dois lugares no curso da história do país, dada a sua intemporal relação de vizinhança, mas a isso voltaremos mais tarde.

Sobre Álvaro Velho, ao que sabemos, não existem muitas informações sobre a sua vida. Sabe-se que viveu entre os séculos XV e XVI, um marinheiro, cronista, que foi com Vasco da Gama à Índia e que na viagem de regresso “deve ter desembarcado na Guiné, onde terá ficado por qualquer razão imprevista. Na verdade o Roteiro termina bruscamente no dia em que atingem os Baixos do Rio Grande, e posteriormente há notícias dum Álvaro Velho na costa da Serra Leoa, onde parece ter estado durante oito anos. Escreveu, além deste Roteiro, uma Descrição da costa ao sul do rio da Gâmbia, uma Relação dos Reinos ao sul de Calecut e um Vocabulário malaio. O Roteiro foi publicado pela primeira vez em 1838, tendo sido seguidamente traduzido para francês, inglês e alemão.” (*)

Para terminar, e por curiosidade, diremos que no Campeonato Europeu de Futebol que se realizou em Portugal em 2004, a bola do jogo foi batizada com o nome de “Roteiro”, justamente em homenagem à crónica escrita por Álvaro Velho mais de 500 anos antes.

                                                            *            *           *

Deixamos aqui algumas das preciosas descrições de Álvaro Velho nesse seu Roteiro(**) sobre alguns dos episódios cruciais da Viagem de Vasco da Gama:

- 8 de Julho (1947), partida do Restelo, “nosso caminho, que Deus Nosso Senhor deixe acabar em seu serviço. Amém.” (p.19)

- 15 de Julho, ao largo das Ilhas Canárias “onde fizemos pescaria obra de duas horas, e logo esta noite, em anoitecendo, éramos através do Rio do Oiro (atual Saara Ocidental).” (p.19)

- 4 de Novembro, baía de Santa Helena (porto natural na costa atlântica da África do Sul). “Nesta terra há homens baços, que não comem senão lobos-marinhos e baleias, e carne de gazelas, e raízes de ervas; e andam cobertos com peles e trazem umas bainhas em suas naturas.” (p.21)

-9 de Dezembro, Cabo da Boa Esperança (“o mítico Adamastor”, passagem do oceano Atlântico para o Índico).”…a derradeira terra que Bartolomeu Dias descobriu ” (p.28)

- 11 de Janeiro (1948), “…houvemos visto um rio pequeno e aqui pousámos ao longo da costa (…) Esta terra, segundo nos pareceu, é muito povoada e há nela muitos senhores; e as mulheres nos parecem que eram mais que os homens, porque onde vinham 20 homens, vinham 40 mulheres. E as casa desta terra são de palha; e as armas desta gente são arcos muito grandes, e flechas e azagaias de ferro. E há nesta terra, segundo nos pareceu, muito cobre, o qual trazem nas pernas e pelos braços e pelos cabelos retorcidos (…) há nesta terra estanho, que eles trazem numas guarnições de punhais; e as bainhas são de marfim (…) Esta gente é negra, e são homens de bons corpos; andam nus, somente trazem uns panos de algodão pequenos com que cobrem suas vergonhas…” (pp. 29-31)

- 2 de Março, “Mais nos disseram que Preste João estava dali perto; e que tinha muitas cidades ao longo do mar, e que os moradores delas eram grandes mercadores e tinham grandes naus. Mas o Preste João estava muito dentro pelo sertão, e que não podiam lá ir senão em camelos; os quais mouros traziam aqui dois cristãos índios cativos (…) Em este lugar e ilha, a que chamam Moçambique (…) E depois que souberam que nós éramos cristãos, ordenaram de nos tomarem e matarem à traição…” (pp.34 e 36)

- 8 de Abril, “Ao Domingo de Ramos mandou o rei de Mombaça (Quénia) ao capitão-mor um carneiro, e muitas laranjas e cidrões, e canas-de-açúcar, e mandou-lhe um anel por seguro (…) E o capitão-mor lhe mandou um ramal de corais, e mandou-lhe dizer ao outro dia iria para dentro. E, em este dia mesmo, ficaram no navio do capitão quatro mouros dos mais honrados (…) E, depois de tudo isto, o rei mandou amostras de cravo, e pimenta, e gengibre, e de trigo tremês ao capitão, e que isto poderíamos carregar.” (pp.42 e 43)

- 18 de Maio, Calecute (Índia), “Esta cidade de Calecut é de cristãos, os quais são homens baços. E andam deles com barbas grandes e os cabelos da cabeça compridos, e outros trazem as cabeças rapadas e outros tosquiadas; e trazem em a moleira uns topetes, por sinal que são cristãos; e nas barbas bigodes. E trazem as orelhas furadas, e nos buracos delas muito oiro. E andam nus da cinta para cima, e para baixo trazem uns panos de algodão muito delgados; e estes que assim andam vestidos são os mais honrados, que os outros trajam-se como podem. As mulheres desta terra, em geral, são feias e de pequenos corpos. E trazem ao pescoço muitas jóias de oiro, e pelos braços muitas manilhas, e nos dedos dos pés trazem anéis com pedras ricas.” (p.51)

- 5 de Outubro, (Viagem de regresso a Portugal) “Andámos tanto tempo em esta travessia, que três meses menos três dias gastámos nela; isto com muitas calmarias e ventos contrários, que em ela achámos, de maneira que nos adoeceu toda a gente das gengivas, que lhes cresciam sobre os dentes em tal maneira que não podiam comer; e isso mesmo lhes inchava as pernas, e grandes outros inchaços pelo corpo, de guisa que lavravam um homem tanto que morria sem ter outra nenhuma doença. Da qual nos morreram em o dito tempo 30 homens, afora outros tantos que já eram mortos; e os que navegavam, em cada nau, seriam 7 ou 8 homens, e estes não eram ainda sãos como haviam de ser. Do que vos afirmo que se nos mais durara aquele tempo quinze dias, andarmos por esse mar través, que não houvera quem navegara os navios…” (p.81)

- 25 de Abril (1499), “…E os pilotos diziam que éramos nos baixos do Rio Grande (Guiné)” (p.85), frase com que subitamente termina o Roteiro, ficando por descrever por razões já apontadas o resto da Viagem entre a Guiné e Portugal, embora como se percebe o mais importante já estivesse dito.

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(*) FONSECA, Branquinho, As Grandes Viagens Portuguesas, Manuscrito Editores, Sintra, 1984, p.18


(**) VELHO, Álvaro, Roteiro da Viagem Que Em Descobrimento da Índia Pelo Cabo da Boa Esperança Fez Dom Vasco da Gama, in obra citada.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

De Alhos Vedros até à Índia


(a propósito das Comemorações de "Alhos Vedros, 500 anos de Foral")


por Luís Santos

Supostamente, podemos então imaginar D. João I no Palácio situado no Cais Velho da vila de Alhos Vedros, pertença de seu filho bastardo D. Afonso que o acompanhava, recebendo os infantes e conversando sobre a possibilidade de, para o bem e para o mal, se ir guerrear a Ceuta. Nas traseiras daquele que é hoje designado pelo Palacete dos Condes de Sampaio haveria um alpendre que protegia daquele intenso sol do mês de Julho e contíguo ao qual se estendia um belo jardim. Amante que o rei era dos cavalos, da caça, da música, da dança, das lutas corpo a corpo, do jogo da pela e do xadrez, apesar do luto, pode-se imaginar como se ia gastando o tempo ali naquele nobre lugar. Deixou-nos de sua autoria o “Livro de Montaria”.

 Embora documentalmente não se possa sustentar que a estadia de D. João I tenha ocorrido com certeza absoluta naquele lugar do Cais, em alternativa, aparece-nos o Palácio da Graça, situado perto daquele que hoje é chamado de Largo da Graça, mesmo ao lado da Quinta da Graça, e que em meados do século passado ainda estaria habitável, mas do qual, hoje, só existem ténues vestígios, o que o torna, desde logo, um sítio de grande valor arqueológico para a história local, pois que pode acrescentar algumas informações importantes aos conhecimentos que hoje temos sobre a região.

Este foi sem dúvida um período áureo da história de Alhos Vedros. Entre outros atributos, sabe-se que a dimensão do território era apreciável estendendo-se entre os limites da Aldeia Galega (Montijo), Palmela e Coina; o número de habitantes era muito significativo para a época, falando-se em “oitocentos e tantos moradores”(*), onde constavam alguns senhores da alta nobreza em suas casas apalaçadas; tinha direito de voto nos destinos do país quando se reuniam as “Cortes”; tinha duas Igrejas, várias ermidas e dois conventos; uma crescente atividade económica que se foi desenvolvendo desde os inícios da nação, onde, relembre-se, pontifica uma importante indústria naval, uma abundante produção agro-pecuária, muito sal, lenha e pedra da Arrábida, num período onde a navegabilidade do estuário do Tejo e a proximidade com Lisboa eram elementos cruciais de produção de riqueza.

E talvez tenha sido este também o seu período de maior apogeu, porque a epidemia da peste negra que grassou por todo o continente europeu, e que dizimou cerca de dois terços da sua população total, também atingiu o nosso país e a nossa vila. É sabido que trezentos anos depois Alhos Vedros contava só com aproximadamente um quarto da população que teve neste período. Com a peste, entre a gente mais ilustre, foi não só a Rainha Filipa de Lencastre, como parece que também havia de ir uns bons anos depois o seu filho D. Duarte.

Eis algumas curiosidades interessantes à época sobre os descendentes de D. João I e que, de alguma forma, também se ligam à história de Alhos Vedros:

- D. João I, morre em 1433, com 76 anos, um período razoavelmente longo de vida para a época.

- D. Duarte I, sucede ao pai como rei de Portugal e continua a expansão do território, por terra e por mar. No seu tempo conquistam-se várias cidades importantes no norte de África (Marrocos), tal como é no seu tempo que se dobra o Cabo Bojador (1434), na costa ocidental africana, lugar mítico de então que se abria para um mundo marítimo desconhecido.

- O Infante D. Henrique, nomeado Grão-Mestre da Ordem de Cristo em 1420, instala-se em Sagres onde cria uma Escola Náutica e passa a liderar o projeto da Expansão Ultramarina Portuguesa. A ele se atribui também uma cátedra de Astronomia na Universidade de Coimbra, fundada por D. Dinis. Para lá do Cabo Bojador chega-se ao Senegal, Cabo Verde, Guiné, ultrapassando os limites do deserto do Saara e abrindo portas para toda a África Meridional. “Em 1452 a chegada de ouro era em suficiente quantidade para que se cunhassem os primeiros cruzados nesse metal.”(**) Morre em 1460, deixando explorada a costa africana até à Serra Leoa.

- D. Afonso, Conde de Barcelos, embora filho ilegítimo de D. João I, torna-se o tio mais próximo de Afonso V quando este sucede a seu pai D. Duarte como rei de Portugal, que o nomeia Duque de Bragança, na altura uma das casas mais ricas de Portugal e da Europa.

- Por fim, D. João II, filho de Afonso V e bisneto de D. João I, continua o tremendo e arrojado projeto da exploração atlântica, dando prioridade à descoberta de um caminho marítimo para a Índia. Foi ele quem negociou com os reis católicos que criaram Espanha, o Tratado de Tordesilhas, em 1494, que dividia o mundo em dois hemisférios, separados justamente pelo meridiano de Tordesilhas, onde se acordou que as terras a ocidente desse meridiano seriam exploradas pelos espanhóis e a oriente pelos portugueses, as duas maiores potências náuticas da época. Morreu em 1495, sem deixar filhos legítimos.


(*)ALVES, P. Carlos Póvoa, Subsídios para a História de Alhos Vedros, ed. do autor, 1992 (1ª edição), p.18.
(**)Wikipédia Livre, Infante D. Henrique, 22/2/2014
Imagem: Cruz de Cristo, símbolo que identificou, dentre outros, as naus portuguesas durante os descobrimentos.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

TRIANGULAÇÃO


Daomé – São Salvador da Baía – Alhos Vedros
(Texto ainda por publicar)

SINOPSE

    
El-Rei morreu! Viva El-Rei!
     A D. João V sucedeu D. José I.
     Sebastião José de Carvalho e Melo, um estrangeirado, ascendeu ao Poder.
     Na missionação do Brasil, destacava-se o jesuíta italiano Gabriel Malagrida.
     Da “costa dos escravos para o Brasil, o tráfico negreiro estava no auge.
     Nos areais de Chega Nego, cercão da cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos, decorria o leilão de “cabeças de alcatrão”, que haviam aportado no tumbeiro Esperança - uma galera comandada pelo capitão Da Silva.
     O padre Malagrida acorreu ao “mercado”, a fim de atiçar consciências. Mas foram em vão as suas súplicas.
     No estrado surdiu um jovem, porte altivo, que a todos abalou pelo seu denodo. O jesuíta comprou-o, para espanto e escárnio dos circunstantes.
     No Colégio de São Salvador, no Terreiro de Jesus, o jovem negro encetou a aprendizagem da cultura do homem branco, alcançando esmerada educação. De forma natural, granjeou a estima de todos. Kéhindé, de seu nome na Língua Yorubá, recebeu o nome cristão de António.
     Entre Kéhindé e o sacerdote estreitaram-se laços, que a vida pôs à prova.
     Catequizado e alforriado, António Kéhindé deixou a Capital da colónia e acompanhou o clérigo para São Luís, no Maranhão, onde prosseguiu a sua formação.
     Em janeiro de 1754, por solicitação da Rainha-mãe, o padre Gabriel Malagrida rumou a Portugal. Consigo viajou António Kéhindé.
     Impedido de contactar a Rainha, por deliberação expressa de Sebastião José de Carvalho e Melo, Secretário Régio, o missionário teve de se exilar em Setúbal.  
     No mercado do Sapal, na Vila do Sado, António Kéhindé travou conhecimento com José e o pai, carreteiros alhosvedrenses. Desde logo nasceu entre eles uma genuína amizade.
     Nas longas ausências do padre Malagrida na Capital do Reino, a fim de acudir aos chamados do Superior do Colégio Jesuíta de Lisboa, Kéhindé passou a viver em Alhos Vedros, em casa de José e dos pais - Ti João Zebedeu e Ti Josefa - auxiliando-os na labuta quotidiana.
     Malgrado a prática da escravatura na Vila ribeirinha, uma vez conhecida a sua condição de homem livre, António Kéhindé integrou-se, gradualmente, na comunidade local.
     Culto, bem-falante e com boa aparência, “trajando que nem os senhores” aos domingos e festas de guarda, Kéhindé despertava o interesse das moças casadoiras.
     Profundas transformações ocorreram no vetusto povoado, e um invulgar enlace sucedeu, quebrando tabus ancestrais.
     Também em Alhos Vedros se viveu o terramoto de 1 de novembro de 1755.
     Obstando as teses racionalistas do Secretário Régio, o padre Malagrida, imbuído de acalorado misticismo, asseverou terem sido castigo divino as causas do abalo telúrico, inculpando o Povo e a Família Real, pela decadência dos valores morais da sociedade.
     Arqui-inimigo da Companhia de Jesus, Sebastião José de Carvalho e Melo tinha de a aniquilar, assim como ao intrépido e incómodo missionário.
     O atentado contra D. José I, perpetrado na noite de 3 para 4 de setembro de 1758, despoletou uma catadupa de acontecimentos. Incriminados os Távora, as execuções ocorreram em Belém.
     O padre Malagrida, apelidado de herético e, depois, culpado do crime de lesa-majestade, foi entregue ao Tribunal do Santo-Ofício.
     Kéhindé teve descendência em Alhos Vedros.
     As invasões napoleónicas impeliram a Família Real à fuga para o Brasil, deixando o Reino a saque. Terminadas as invasões, o Reino seguia absolutista, cerceado da liberdade de pensamento e de expressão.
     A Junta Governativa semeou ódios.
     O General Gomes Freire de Andrade foi eliminado, o mesmo sucedendo a vários de seus correligionários.
     Venceram os ideais do Liberalismo, a que se seguiu a Vila-Francada.
     Tempos conturbados se viveram em Alhos Vedros, na família de António Kéhindé.


Francisco José Noronha dos Santos


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Alhos Vedros, 500 anos de Foral


A Igreja Matriz e Dom Dinis

por Luís Santos


Embora não se conheça a data certa da sua edificação, pensa-se que a Igreja Matriz de Alhos Vedros tenha sido construída no século XIII, contando, por isso, perto de 800 anos.

Há quem palpite que a construção do seu núcleo inicial tenha acontecido no século XII, em 1146 ou 1147*, e que tenha sido construído em cima de uma mesquita árabe que já existiria anteriormente na freguesia, então ocupada pelos mouros, mas a verdade é que não se pode afirmar com rigor que quer a Igreja, quer Alhos Vedros, pelo menos com este nome, tivessem origem pré-cristã.

É sabido que D. Sancho I concede em 1185 o território da zona ribeirinha do Tejo à Ordem de Santiago, sediada em Palmela, mas nada nos diz que à época já existisse uma Igreja em Alhos Vedros. Decerto, poderão vir a ter os nossos arqueólogos uma palavra a dizer sobre o assunto que possa legitimar, ou não, a tal lenda na Nossa Senhora dos Anjos. Para já, o documento escrito mais antigo que refere a existência da Igreja Matriz é de 1298.

Curiosa esta data que nos faz pensar em D. Dinis, nascido em 1261, depois coroado Rei de Portugal no ano de 1279 e até 1325. Há referências no seu reinado à existência de estaleiros de construção naval na área do termo de Alhos Vedros.** Como é sabido, foi D. Dinis que fundou a Marinha Portuguesa e até há quem diga que a plantação do Pinhal de Leiria foi “uma plantação de naus a haver” que depois haveriam de ir às descobertas. Coisas de poetas, pois que poeta, trovador, também foi. E se era poeta, impôs que na corte se tinha de falar em Língua Portuguesa, e foi assim que ela se consolidou para ir ao mundo.

Ficou conhecido como o Rei Lavrador, poderoso que foi o seu jeito reformista na política agrícola do país, jeito reformador que também teve na educação e, vai daí, funda os “Estudos Gerais”, em Lisboa, a primeira Universidade Portuguesa que muito ajudou a dar “novos mundos ao mundo”, como diria Luís de Camões, já que vamos com poetas.

E, neste jovem país, pois que as fronteiras tinham sido definidas pouco tempo atrás, ao arrepio do Papa e da poderosa corte francesa que juntos deram a terrível ordem de aniquilamento dos famosos Templários, por razões que agora não vêm ao caso, o nosso Rei não só os protegeu como lhes manteve os privilégios. E, foi assim que em Portugal a Ordem do Templo passou a Ordem de Cristo, a tal que teve um papel determinante na expansão ultramarina.

E não poderíamos acabar esta alusão a D. Dinis sem falar na sua Santa companheira, a Rainha Isabel de Aragão, ao que parece mulher muito piedosa, amiga dos pobres, espírito pacifista e, dizem… milagreira. Foi por ela que se generalizou em Portugal o famoso culto popular do Espírito Santo, que se cultuava a partilha de bens pelos mais pobres, que se promovia a libertação social dos desavindos e, ponto alto da festa, sempre se coroava simbolicamente uma criança como imperador do Reino. Ora, como nós sabemos, e insistindo com Fernando Pessoa, “o melhor do mundo são (mesmo) as crianças”.


*SILVA, Vítor Manuel, Contributos para a História Local do Concelho da Moita, edição do autor, 2006, p.89, citado de MIRANDA, António Augusto Lobo de, Comércio de Portugal, Interesses Locais, 24 e 26 de Agosto de 1887, XIII e XIV.

**Cf., ALVES, P. Carlos Póvoa, Informações Paroquiais de Alhos Vedros e Moita, Edição Igreja Paroquial de Alhos Vedros, 2007 (3ª edição), p.129.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Ainda sobre as origens de Alhos Vedros e região circundante


por Luís Santos

Embora sem documentos escritos que o comprovem, sustentamos que Alhos Vedros terá nascido, pelo menos, lá para os inícios da Nação, tendo como referência o ano de 1205, quando D. Sancho I, filho de D. Afonso Henriques, conquista definitivamente a vila de Palmela aos mouros.

Para além desse ano, ou um pouco mais à frente, abre-se um hiato no tempo que não nos possibilita ir mais além na história do povoado. Isto porque, pelo menos por agora, quer em termos históricos, quer arqueológicos, não dispomos de dados que o permitam comprovar.

Como sabemos, até que Portugal se estendesse do Minho e Trás-os-Montes ao Algarve, o território esteve ocupado por povos árabes durante mais de 500 anos. Esses povos chegaram à Península Ibérica no início do século VIII, mais precisamente no ano de 711, e a ocupação de território português estendeu-se até à data da conquista definitiva do Algarve por D. Afonso III, em 1249.

Até agora, as investigações arqueológicas feitas em Alhos Vedros e região circundante não encontraram vestígios que nos possam fazer prolongar com segurança a ocupação humana deste lugar durante o período árabe. Assim, até prova em contrário, o nome de Alhos Vedros, tal como dos lugares próximos que hoje constituem o Concelho, só se podem referir depois da cristianização destes lugares.

 Mas, embora só nos seja permitido alargar a história de Alhos Vedros até meados do século XIII, e mesmo assim só por palpite, porque a partir de documentos escritos só a partir do final do século, muitos são os dados arqueológicos que dão conta do povoamento da região em datas mais recuadas. Nas pesquisas arqueológicas que se têm feito um pouco por todo o Concelho, muitos são os vestígios encontrados que apontam para uma ocupação deste território, pelo menos, até ao Paleolítico, ou seja, há 30 mil anos atrás. Como diz António Gonzalez, “Na campanha de prospeções sistemáticas do Concelho da Moita e na zona da Baixa da Banheira na península denominada Ponta da Passadeira encontrámos os vestígios de uma raríssima e bem conservada olaria do neolítico antigo evolucionado (3.000 AC) sob a qual um acampamento do paleolítico médio (cerca de 30.000 anos AC) torna o local ainda mais digno de interesse.”*

A título de mais um exemplo sobre o antigo povoamento da região, entre outros possíveis, referimos o sítio arqueológico do Gaio, onde uma intervenção conduzida sob a égide do Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, nos dá conta de vários achados arqueológicos de grande importância para a região. Citando, “Uma das contribuições mais relevantes do estudo de ocupação neolítica do Gaio reside no facto de se ter exumado uma indústria em pedra lascada bem contextualizada e datável do Neolítico antigo evolucionado.”**

Podemos, pois, concluir que embora se saiba que o povoamento desta região remonta há muitos milhares de anos atrás, só é possível falar com segurança da existência do nome de Alhos Vedros a partir do século XIII, já que os documentos escritos mais antigos datam deste período. Muito provavelmente, só a insistência em estudos arqueológicos nos poderá trazer novas informações para o futuro.


* GONZALEZ, António, Prospecções arqueológicas em locais de obras no Concelho da Moita e seu acompanhamento, in I Jornadas de História e Património Local. Edição Câmara Municipal da Moita, 2004, p.64.


** SOARES, Joaquina, SILVA, Carlos Tavares, GONZALEZ, António, Gaio: Um Sítio do Neolítico Antigo do Estuário do Tejo, in I Jornadas de História e Património Local. Edição Câmara Municipal da Moita, 2004, p.58

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Alhos Vedros 500 Anos de Foral


Igreja Matriz de Alhos Vedros

Sobre as Origens de Alhos Vedros

Um dos textos mais antigos que se conhecem escritos em Português é o testamento de D. Afonso II, datado de 27 de Junho de 1214. Recentemente foi descoberto um outro “A Notícia de Fiadores”, de 1175, que faz recuar no tempo a história da escrita da Língua Portuguesa.
Sobre Alhos Vedros, um dos textos mais antigos que existe, senão o mais antigo, refere-se à sua Igreja e remonta ao ano de 1236.*

É sabido que D. Afonso Henriques, no movimento de reconquista do território peninsular, então ocupado pelos mouros, chega a Palmela em 1147, ano em que se dá início a alguns avanços e recuos territoriais entre cristãos e árabes. A conquista definitiva desta vila só acontece no ano de 1205 com D. SanchoI.

Reza a lenda que por estas alturas, corria em Alhos Vedros um Domingo de Ramos, estavam as suas gentes a comemorar missa na Igreja Matriz quando do alto do serrado de Palmela desciam os mouros para guerrearem com os cristãos.

Avisados da invasão, socorreram-se os habitantes do lugar com aquilo que tinham mais à mão e com as palmas com que comemoravam os ofícios divinos conseguiram derrotar e afugentar o exército inimigo. Dada a clara e inesperada vitória foi de milagre da Nossa Senhora que se tratou. É por isso que, desde então, de forma mais ou menos ininterrupta, se organiza procissão em honra da Nossa Senhora dos Anjos.(**)

A lenda tem pouco valor histórico, mas não erraremos muito se pensarmos que Alhos Vedros se terá constituído como lugar, pelo menos, lá para os inícios da formação da Nação. Mas a pergunta persiste, qual será a sua verdadeira idade?


Luís Santos


(*) SILVA, Víctor, Contributos para a História Local do Concelho da Moita, Vol.1, Edição do Autor, 2005, p.152

(**) idem, p. 144-145

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

"A Decisão"


por Francisco José Noronha Santos

Na sequência da minha 'análise' das diferentes 'fontes de pesquisa', o Rei D. João I chegou a Alhos Vedros no dia 19 de Julho de 1415, uma Quarta-feira.
No dia 20, logo pela madrugada, recebeu a 1ª visita dos Infantes que, em seguida partiram para o Restelo.
Os Príncipes voltaram segunda vez a Alhos Vedros, no dia 21, para conferenciar com El-Rei. Aquando dessa segunda visita, D. João I tomou a importante DECISÃO.
Conhecedores da deliberação real, os Infantes e outros membros do Conselho rumaram ao Restelo a fim de tomarem as devidas providências...

Que DECISÃO terá sido essa? Que PROVIDÊNCIAS tinham de ser implementadas?

Durante o dia 22, um Sábado, reinou a azáfama no Palácio do Conde de Barcelos: urgia aprontar a abalada d'El Rei.
Domingo, 23 de Julho de 1415, Dom João, o Primeiro, embarca na galé Real e parte de Alhos Vedros...

Nota do Editor: O livro está disponível na Editora "Sítio do Livro" ( www.sitiodolivro.pt ) e pode ser encomendado pela net. 



Fonte:
«SERRA, Maximiano José da, 1750 (?) – 1834, Planta de Alhos Vedros; levantada por Maximiano Joze da Serra, coronel do Real Corpo de Engenheiros, no anno de 1805; dezenhada por Joze Antonio Mourão, 2.º tenente do mesmo Corpo, debaixo das direcçoens do mesmo coronel, em 1820 Escala 1:2000 1820 1 planta: ms., color; 49 x 64 cm 3105-2A-25-35 (DIE)»

Legenda:
1 – Largo do Cais, ou Largo do Porto.
2 – Estaleiro (dos pais do Toino).
3 – Palácio de Dom Afonso, Conde da Barcelos.
4 – Jardim do Palácio.
5 – Casa de Gonçalo Lourenço de Gomide.
6 – Casa de Ti Julião Moleiro e de Ti Benta.
7 – Taberna e hospedaria do Galego.
8 – Igreja Matriz.
9 – Largo da Igreja.
10 – Praça principal da povoação.
11 – Marinha das Senhoras Comendadeiras de Santos.
12 – Rua Direita.
13 – Cárcere ou cadeia.
14 – Rua dos Pinheiros.
15 – Rua da Estalagem.
16 – Estalagem (dos pais do ).
17 – Quinta da Graça.
18 – Rua Velha.
19 – Rua do Cais.
20 – Quinta de São Pedro.
21 – Esteiro.
22 – Forno de pão (dos pais do Chico).
23 – Marinhas de sal.
24 – Muralha do cais.