"A única revolução definitiva é a de despojar-se cada um das propriedades que o limitam e acabarão por o destruir, propriedade de coisas, propriedade de gente, propriedade de si próprio."
(Agostinho da Silva)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Os Caminhos do Espírito


A Tradição Cristã


Notas evangélicas, João e apócrifos

Messias (Massiah) = Christos = Ungido – Aquele que tem a consciência impregnada pelo Espírito. Cristo é o filho unigénito de Deus. Cristo, o Verbo feito carne.

A primeira mensagem de Cristo: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus” (de poder, riqueza, fama… de uma busca egocêntrica).
"O Reino dos Céus”, segundo Tomé, “está no interior e no exterior de vós.” Não é um reino que tenha um lugar físico, é invisível e espiritual. A definição do que é o Reino é o Aqui e Agora, aquilo que está sempre presente, reconhece-o e o que está oculto te será revelado. Designa uma realidade não dual. Tudo é sempre Um!

(Há uma dimensão intemporal de criação a que todos os místicos querem regressar. Todas as vidas são uma só.)

Se alguém se reconhecer a si mesmo, há-de reconhecer-se em Deus, de que se é parte, portanto, do Qual não se é independente. O cristão será outro Cristo. Não é alguém exterior que deve ser adorado, mas homem e Cristo devem ser Um.
A luz está em todo o homem e é simultaneamente transcendente e imanente.(Tomé, versículo 108)

(Se um homem não reconhece a fonte espiritual que há em si, o Pai, facilmente se deixará subjugar por uma série de poderes menores, políticos, sociais, etc..)

No Evangelho de Maria, apócrifo, diz-se que o discípulo preferido de Cristo era Maria Madalena. No Evangelho de Filipe, igualmente apócrifo, diz-se que Cristo e Maria Madalena se beijavam na boca.
O Cântico dos Cânticos, constituído um dos textos mais importantes da espiritualidade hebraica, celebra o amor entre homem e mulher, e Cristo retoma essa celebração. A passagem bíblica de “As Bodas de Canã”, relembra-o.

Notas Evangélicas, segundo João

Tudo pré existe no Verbo. Tudo que se passa no tempo pré-existe eternamente em Deus. Deus cria num pré-instante. No seio do Verbo tudo é uma coisa só.

O homem tem de passar por um segundo nascimento, tem de nascer do Espírito, para poder apreender o Reino de Deus. Para se viver de uma espontaneidade divinamente inspirada, de forma imprevisível, de acordo com a graça de Deus.

Cristo não vem para julgar, vem para salvar, para retribuir a dimensão integral do ser, da não fragmentação do ser.
(Salvar = íntegro, a mesma raiz etimológica de saúde. Saudade, tem uma raiz equivalente, ou seja, a qualidade daquilo que é são, pleno).

Deus é espírito e verdade, não tem lugar, nem imagem. 

João 6-53 e seguintes
“Come da minha carne e bebe do meu sangue” – assimilar o que Cristo é – “sejam um só comigo”.
A deificação pelo homem depende de Deus – é Ele quem escolhe. “Eu e Deus somos Um”, relembra Cristo aos Judeus.

João 14-2 e seguintes
“Quem crer em mim, fará o que eu faço e coisas maiores que eu”. O homem tem capacidade de se divinizar e fazer coisas grandiosas. Todo o homem é chamado à santidade, à pacificação. Cristo vem convocar o homem à perfeição.
Depois de Cristo, enviado por Deus, virá alguém que ficará connosco para sempre, o Espírito Santo, o Paracleto (Paráclito, Consolador).
(O Mestre espiritual tem de abandonar o discípulo para que este possa fazer o caminho pelos seus próprios pés.)

São Paulo, Filipensis

Valorização do sentimento de unidade total. Ser humilde, não se considerar superior aos outros. Cuidar de si e do bem dos outros.
Antes de vir ao mundo Cristo é igual a Deus, mas ao tornar-se homem não vangloria esta sua dimensão, antes esvazia-se a si mesmo, abdica da sua condição divina e assume a condição de servo. Apresenta-se como servidor dos outros. Não se considerou superior, humilhou-se, foi obediente até à morte física – desconstrução total de viver auto-centrado em si.
Aquele que abdica do poder é o que se torna mais poderoso. Os últimos serão os primeiros.

Carlos Rodrigues


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)


ANTA NUM PRADO ROSA



LUÍS DELGADO

Óleo sobre tela 81X67


"(...) Ressumava daquele imenso espaço verde uma paz sem mácula que o silêncio - ali pontilhado de mil cintilações - exaltava. As poucas árvores que o salpicavam em nada quebravam a sensação de preguiça que a Terra transmitia. (...) "

Manuel João Croca

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A estátua equestre de D. José - Lisboa


“Vocês sabem qual é a pata direita do cavalo de D. José? – Não??? – É a esquerda!”
Esta era uma brincadeira do meu tempo de menino, que nos obrigava a ir constatar o fato! Basta ir lá ver o dito cavalo!
Agora a Câmara de Lisboa mandou restaurar a estátua. Está lá há 237 anos, foi feita pelo grande artista Machado de Castro sob projeto de Eugénio dos Santos, o arquiteto que, junto com Carlos Marcel, e sob a supervisão do engenheiro chefe, Manuel da Maia, projetou a Baixa de Lisboa, totalmente destruida pelo terremoto de 1755.
D. José não quis posar e o artista teve que recorrer a retratos. Para evitar diferença acentuada na parecença, baixou-lhe o capacete e deu-lhe uma cara de jovem... quando o rei estava já envelhecido. Como é óbvio o Marquês de Pombal também quis ficar na estátua e lá está a cara dele bem na frente, num grande medalhão que, quando da sua morte e condenação foi de lá retirado, mas, recolocado em 1833!
Pronta, foi a estátua colocada no lugar onde ainda está, uns dias antes da inauguração, entretanto resguardada por cortinados de tafetá carmezim até 6 de Junho, quando o rei fazia 61 anos!

(Olhem a pata esquerda!)

Na noite da inauguração acenderam-se 28.000 luzes na Praça do Comércio, além das habituais.
Houve festas vistosissimas nas salas da Junta da Casa dos Vinte e Quatro, na do Juiz do Povo, no Colégio de Santa Maria de Jesus, com concertos, discursos, recitações poéticas nas línguas grega, hebráica, arábica, inglesa, francesa que por fim eram traduzidas para português, porque...
No segundo dia vieram suas Magestades à Praça do Comércio ver passar o cortejo alegórico, com 8 carros triunfais, acompanhados de danças! Tão grandioso a desfile que durou a noite toda.
Na noite seguinte queimou-se vistoso fogo de artifício depois do que os monarcas passaram à Sala da Alfândega, sala com 223 palmos de comprido e 96 de largura, onde se sentaram na tribuna real para assistir a uma sonata cantada em italiano, L’Eroe Coronato.
Na sala imediata, iluminada com 1.200 luzes, fora preparada uma ceia descomunal e opípara, com lagos rodeados de flores onde “navegavam” miniaturas de todos os tipos de embarcações do rio Tejo.
Custou 100.000 cruzados, o que seria hoje algo como... 2.000.000 Euros.
Consumiram 226 arrobas de vaca, 118 de vitela, 112 de presunto, 39 de carneiro, 55 de bacalhau, 4 de toucinho, 459 galinhas, 170 perus, 26 perúas, 312 pombos, 18 perdizes, 4 porcos, além de 4.154 ovos, 24.725 pães, 5 baricas de azeitonas, 358 arrobas de açúcar, 13 de canela, 16 arráteis de baunilha, 954 canadas de leite e 624 arrobas de gelo para sorvetes! (Por favor multipliquem as arrobas por 15 e verão a bestialidade da despesa!)
E vinhos? Nacionais e estrangeiros custaram só o equivalente hoje a 100.000 euros!
E ainda se consumiram 2.292 barris de água!
Depois da ceia houve o baile, iniciado pelo conde de Oeiras e a Embaixatriz de Espanha, e a Marquesa de Pombal com o Embaixador, só entrando nesta primeira dança as senhoras de primeira Grandeza que não fossem solteiras!
No último dia repetiu-se a passagem do cortejo com os mesmos carros alegóricos e danças, à noite foi queimado mais um grandioso fogo de artifício, e o importante capitalista Anselmo José da Cruz Sobral fez representar nessa noite, à sua custa, o drama musical O Monumento Imortal. Finda a representação foi servida mais uma esplêndida ceia, apresentada em ricas porcelanas da Saxónia.
El-Rei D. José por se encontrar doente e melancólico, olhou todas estas manifestações festivas com a maior indiferença e desprazer.
Ano e meio depois... falecia!
É de esperar que na reinauguração da estátua, após a sua restauração, a CML não gaste tanto dinheiro... a menos que a UE financie!

Francisco Gomes Amorim
26/11/2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Há quanto tempo não me sentava para escrever estas palavras, há tanto que até esqueci o quanto era do meu agrado, apesar de todo o cansaço que sentia, estar aqui a esta secretária e dar início ao progressivo preenchimento das folhas em branco do caderno, no que passou a ser uma espécie de gozo do mistério de ver as letras paulatinamente substituírem as linhas ao ritmo do deslizar do aparo. Agora vejo como isso constituía um tónico maravilhoso para enfrentar as muitas atribulações do dia a dia fisicamente desgastante em que cheguei a fazer de tudo um pouco, ora carregando, ora manuseando isto e aquilo, dos solavancos dos tractores aos braços cavadores das sementeiras, sem folga para o arranjar da casa que tanto eu como o Manuel muito gostamos de trazer acolhedora e bonita e naturalmente sem trespasse de tudo o que reporta ao quotidiano da nossa própria sobrevivência. Dias árduos e intensos que pouco mais deixavam que o espaço para dois dedos de conversa e quando abriam uma fresta para a leitura, raramente se inibiam de pesar sobre as pálpebras e geralmente se transmutavam numa pequena vela que em curta vintena de minutos se consumia. E estes momentos, estes instantes em que me pouso nos reflexos que a luz faz com os vidros enquanto ordeno mentalmente uma frase ou rebusco um vocábulo, eram ou acabaram por se transformar na minha forma de evasão preferida e não demorou para que tenha dado conta do seu tremendo efeito relaxante. É certo que o bom desenrolar da vida do trabalho e os excelentes proveitos que dela vamos retirando, mesmo contabilizando as arrelias e desfeitas que sempre seriam de esperar e que na realidade aconteceram, evidentemente isso funcionou como uma mola de motivação para que na madrugada seguinte a uma jornada invulgarmente esforçada, nos erguêssemos de rosto alegre para tratar das capoeiras e da horta, no quintal e depois meter os pés a caminho do que estava destinado nos campos ou nos armazéns. Nesse aspecto, nunca pensei sentir um tão forte sentimento de orgulho por ver o fruto do nosso empenho e não duvido do contributo que isso terá dado para que o corpo se tenha habituado à fadiga sem o mínimo sinal de protesto, mas vistas agora as coisas pela distância de todos estes anos, era este o prazer que, fora dos carinhos do Manuel, maior impulso me provocava para passar pela dureza das horas quase sem dar por isso. Nos dias em que se começavam a formular ideias e dentro de mim começava a ganhar forma o rol daquilo que então sentia ter para dizer, havia uma euforia que surgia e à medida que me ia envolvendo parecia que me puxava para esta cadeira e mal a arrastava para que o pensamento pudesse escorrer para o papel, era como se entrasse numa bolha dentro da qual subia a um outro mundo subtraído aos ditames das leis físicas. E o mais engraçado é que foi exactamente essa crispação no interior do peito que hoje comecei a sentir depois do jantar e para aqui me empurrou através de um apelo incontornável. Mas não foi em vão que tantas vezes as árvores se derramaram e outras tantas os terrenos esverdesceram e permitiram que os pincéis das sementes os pintassem de manchas e tufos multi-coloridos. Muito foi aquilo que se fez no decurso destes anos e várias as mudanças que se verificaram. A começar por mim que fui mãe, por duas vezes, com um intervalo de três anos e agora partilho o encanto de tratar para que aqueles dois rapazinhos lindos que de alegrias e espanto enchem o meu coração, possam crescer felizes e com as melhores condições para que um dia possam vir a escolher o seu próprio caminho e sem omitir o acompanhamento para que venham a ser pessoas de bem. Pois foi justamente o encarar de uma tal responsabilidade que me impediu de continuar a usufruir destes doces encontros que só espero poder a partir daqui reatar. É curioso como por vezes concordamos com uma ideia sequer sem nos darmos conta de não termos plena consciência do seu alcance, antes pela intuição de nos parecer bem, não sendo no entanto capazes de compreender muitos dos aspectos da mesma e muito menos extrairmos daí os ganhos que, em potência, possam transportar dentro de si. É um pouco o que me sucedeu com a concordância para com a medida que adoptámos desde o nascimento do Adão que hoje está um rapagão, aos onze anos, alto e robusto e que daqui a nada ultrapassará os pais em tamanho, saudável que é e como cresce e que permite às mães ficar em casa, junto da cria adorada, até que esta cumpra o primeiro aniversário. Tanto quanto me recordo, esta foi daquelas decisões consensuais a que nem o Aranda e o primo do Zé que já abalaram zangados por não verem prevalecer a vontade de remunerar uns mais que outros, se opuseram. No que pessoalmente me diz respeito, só depois de estar a viver a experiência de criar um filho fui capaz de compreender como é importante para uma criança a presença dos pais enquanto se desenvolvem as primeiras faculdades no seu contacto e compreensão do mundo envolvente. É claro que estou a pensar em termos de pais ternurentos, isto é, pais suficientemente atentos e disponíveis para as solicitações que amiúde os petizes nos apresentam, sem que por isso deixem de ser rigorosos no estabelecimento e cumprimento de regras sem as quais jamais se pode esperar obter pessoas de carácter e ao mesmo tempo capazes de encherem aqueles corpinhos pequeninos de carinho sem ultrapassar a linha a partir da qual o mimo estraga e em vez de pessoas determinadas produz pequenos tiranetes egoístas a que só por acaso se deixa de associar a falta da força de vontade. Aliás, é daqui que deriva a autoridade saudável que os pais devem ter sobre os filhos que de modo algum se confunde com o autoritarismo que acriticamente é aceite e está tão disseminado pela larguíssima maioria das famílias. No nosso caso, estou a falar de pais com conhecimentos e formação susceptíveis de permitir uma reflexão a este nível e que, em conformidade, entre si falam do que deve ser feito ou do que possa ter corrido mal. Bem sei que infelizmente essa é a condição de uma pequena minoria privilegiada a que foi dada a oportunidade de fazer estudos universitários. Mas agora vejo como é que não pode deixar de haver tanta gente má e infeliz por esse mundo, como é que tantas desgraças provocadas por ladrões e vigaristas e outros géneros de criminosos, começam por dizer respeito ao íntimo das pessoas propriamente ditas e como é que os primeiros anos de vida podem ser influentes e importantes nas definições dos caracteres e, dessa forma, funcionarem como bens preventivos ou, ao invés, como impulsionadores de comportamentos que se deixem prender nas malhas da maldade dolosa e sem constrangimento para com os outros. O Manuel é um pai extraordinário, gosto muito de o ver falar com os filhos, sempre calmo e com um sorriso alegre e cativante nos lábios, cheio de paciência para com as falhas e os erros deles e incansável na serenidade com que os corrige e os leva a corrigirem aqueles. Admiro-lhe imenso a tranquilidade com que os leva a fazer coisas que antes eles achavam difíceis ou como os consegue chamar para a sua paixão pela geologia e os convence a ajudarem-no nas suas demandas de rochas e fósseis e registo, ultimamente fotográfico, de certos acidentes morfológicos que lhe despertam a atenção. É tão incrível a felicidade que sinto quando os pequenitos correm para mim de braços abertos, empolgados pela vontade de me contarem os pormenores das expedições e como ajudaram o paizinho a encontrar isto ou aquilo. Como eu ri quando o mais novinho, num dia destes tirou do bolso das calças uma pequena pedrinha acastanhada e todo entusiasmado me disse ser aquilo sílex, com que os homens antigos faziam lanças para caçarem animais. Honestamente, agora só sou capaz de ter pena dos pais que, podendo, não dão conta do crescimento dos filhos. Mas por tudo isto compreendo agora a importância das consequências da decisão que tomámos quanto à permissão para que as mães suspendam o trabalho ao longo do primeiro ano de vida dos filhos. É que assim podemos estar presentes quando eles começam a dar os primeiros sinais do seu envolvimento com o mundo e desde a primeira hora incentivá-los a aprender bem e a ganharem auto-confiança naquilo que fazem. Daí resulta o auto-respeito e com ele a base da assimilação dos valores e das regras que nos conduzem ao respeito pelo próximo. A verdade é que nós temos dois rapazes tão diferentes um do outro, o mais velho todo metido com ele mesmo e mais dado a ficar nas suas brincadeiras aqui em casa ou na casa do seu grande amigo, o Jorge e o mais novo mais virado para corridas na rua e brincadeiras ao ar livre e, no entanto, ambos respeitosos para com os adultos e tanto um como o outro incapazes sequer de atirar um papel para o chão. E devo dizer que não foi esta a única surpresa da maternidade. Antes duvidava das outras mulheres que me diziam que eu não sabia o que perdia por ainda não ter tido filhos e sinceramente tinha muitas desconfianças quanto a isso do instinto maternal e lengalengas do género. Pois bem, agora digo que muito simplesmente não era capaz de imaginar o quanto é bom para a alma ver alguém fazer-se gente, ainda mais quando nos saiu do ventre e o quanto me inebria saber que vou contribuindo para isso e, pelos vistos e sem o mínimo de gabarolice, bem. É a melhor coisa do mundo e por isso estive tantos anos sem me sentar a esta secretária.
Mas amanhã conto voltar aqui.

FRESCOS


As árvores abanam
                  o vento
gritos infantis
                  “-Sandraaa!”
e a Lua, bola de luz.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

REAL... IRREAL... SURREAL... (4)


La robe du soir, René Magritte

Guache sobre papel, 44x33,5cm


LUA

A minha luz vem de alguém
Como a luz que a lua tem

e os que olham assim
pensando que a luz sou eu
apenas conseguem ver
o que estando em mim não sou

E sendo eu a luz de alguém
É em mim que ela está

porque nesses de quem é
por não se querer mostrar
com medo de se apagar
brilha tanto e não se vê
e é por isso que escrevo

Com palavras que não são

a não ser nesse depois
no momento que alguém lê
aquilo que eu escrevi

Como a luz que a lua tem
A minha luz vem de ti

Teresa Bondoso
7 de setembro de 2012

sábado, 24 de novembro de 2012

Um pouco da história da Ilha do Faial


Aos amigos  um pouco da história faialense...

                 Picuinhas de antigamente

A verdade é que em tempos idos, e até hoje, encontramos nas altas rodas da sociedade regalias hierárquicas sociais, militares e políticas que se fazem notar e que são zeladas como relíquias.  Mas o que nos conta Marcelino Lima no seu livro “Famílias Faialenses” é, no mínimo, de espantar.
O caso passou-se a 21 de fevereiro de 1782, na ilha do Faial, entre o Juiz de Fora Dr. Manuel Garcia da Rosa e Francisco Inácio Soares de Souza, fidalgo que reclamava para si, pela origem e pela idade avançada, a primazia na chamada e assento nas sessões de vereação da Câmara.
Manuel Garcia da Rosa (n. 1749 e m. 1837) era sobrinho de Antonio Garcia da Rosa que emigrou para o Brasil e foi vigário na Igreja de Nossa Senhora da Glória, em MG, não se sabendo quando recebeu as ordens pastorais. Esse tio, no Brasil (1741), juntou forte cabedal. Ao voltar para os Açores, no Faial, tornou-se protetor do sobrinho que desde pequeno mostrava grande aptidão para os estudos. Por isso, mais tarde, enviou Manuel para estudar em Coimbra, onde tirou a formatura em Direito. De volta à terra natal, foi nomeado Juiz de fora para o Faial.  Homem íntegro, bondoso, porém pragmático, levava sua vida profissional e particular sempre com dedicação e minúcia.
Naquele dia, Manuel Garcia da Rosa, alto, esguio, peruca branca, encaracolada, vestido a rigor na sua casaca cor de canário, pontual, recebia com mesuras cada um que entrava no belo edifício de dois andares, que ficava na praça, esquina com a Ladeira de São João. O sinal de chamada já havia sido dado pela garrida que em cima do telhado repicava, anunciando notícias e solenidades que se passavam na comunidade.  Os convidados chegavam pouco a pouco, em pequenos grupos ou isolados, para a abertura dos trabalhos na posse dos novos vereadores. Estes, perfilados, calçando sapatos de fivelas reluzentes, portando capas pretas, abertas pela frente, deixando os folhos das camisas brancas aparecerem, engomados, aguardavam a chamada solenemente.  Em pé junto à cabeceira da mesa, o juiz se posicionava, segundo a norma, para ler a pauta de introdução dos novos vereadores.
Com voz pausada e firme, chamou o primeiro a tomar lugar:
- Manuel Inácio de Souza. Homem ilustrado, formado em Cânones pela Universidade de Coimbra, poeta, prosador, verve picante, sarcástica, tinha incontestável merecimento. Dono de vinhas, navios (6) e de uma das casas mais ricas e faustosas de seu tempo, tomou assento. O silencio se fez geral... Uma agitação silenciosa aconteceu quando a plateia percebeu a quebra da etiqueta. Logo ali, na casa onde sempre se respeitou a ordem estabelecida e a hierarquia, a primeira cadeira era ocupada pelo mais credenciado e não pelo mais velho dos oficiais eleitos. Francisco Inácio Soares de Souza, homem de estirpe, sangue azulado, fidalgo reconhecido e o mais velho de Casa sentiu-se lesado no seu direito.  Após o juramento regulamentar, fez a sua reclamação.  O juiz ouviu-o, mas não se comoveu, e dizendo que tudo que ele queria eram inúteis velharias e o que importava eram os títulos oficiais. Continuou a cerimônia. Porém, ao perceber o olhar fulminante do vereador acrescentou; se caso o vereador não concordasse, que recorresse às Cortes competentes. O que logo Francisco Inácio o fez. Mobilizou céus e mares e finalmente ganhou a questão. No final do ano, em 23 /12/1782, baixou uma provisão do Paço Real na Câmara declarando que o recorrente tinha o pleníssimo direito ao assento na primeira cadeira, conforme estatuía o antigo livro da Vereação.
Assim ficou resolvida a pendência entre o Juiz de Fora e o fidalgo mais velho da Vereação. Ganhou a lei das Ordenações sobre a qualificação. Francisco Inácio Soares de Souza pôde então dormir em paz, com a sensação de que se fez afinal justiça, no seu caso....

Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 22/11/12
Fonte: Famílias Faialenses (Marcelino Lima)


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Castelo






Jorge de Capadócia

Rara a santidade
Quase sempre um título póstumo
Mas há que não desistir.


Fotografia: Key Hamilton
Versículo: Luís Santos


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Poema de Novembro



Caloria

No meu mundo
Correndo ansioso
Abanando com o tronco
A velha cadeira de baloiço.

Por fim só,
E desajeitado, vesti a gabardine
Que mal cabia no corpo,
E calcei as botas que de alguma forma
Me fazem doer os pés e a alma.



                                                                                                                 Diogo Correia


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

D´ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2.ª SÉRIE)



Praia da Luz Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Tela 70x90cm

Depois do tornado... a bonança de um quadro:

Durante muitos anos, as férias da família Tapadinhas e da família Simplício foram passadas na Praia da Luz, aquela que ficou tristemente célebre com o desaparecimento da pequena Maddie McCan... A Praia da Luz de agora, não tem muito a ver com a que fez as nossas delícias e dos nossos filhos – estávamos no início dos anos oitenta. Qualquer semelhança com a realidade actual, é pura coincidência.
Já revisitei os locais que permanecem na minha memória... Infelizmente, não há qualquer correspondência com a situação actual: desapareceram os campos de cultivo e as pastagens onde passávamos algumas manhãs a apanhar caracóis, os aldeamentos turísticos afogaram as poucas casas tradicionais que restam, os pescadores são agora empregados da indústria hoteleira, os pastores e os agricultores são trabalhadores da construção civil e os seus filhos vendem apartamentos em time-sharing...
Sobre a fundação da povoação da Luz existem documentos que indicam o ano de 1673. A casa onde passávamos as férias, não era dessa altura mas tinha todos os sinais de antiguidade que tornavam cada ano de férias um acontecimento marcante na vida de todos nós, até hoje...
Um dia, a rever fotografias dessa época, resolvi fazer uma tela que registasse esses tempos, tão longínquos, como o dos dinossáurios – porque não voltam mais...
Escolhi, para lhe dar um sabor de época, a técnica do divisionismo ou pontilismo, assim chamada por derivar de pequenos pontos de cor pura, deixando que seja a retina do observador que faça a sua mistura para obter as imagens coloridas. Numa pincelada vermelha com fundo branco o pintor tem de ter em conta que esse branco é tingido com a sua cor complementar: o verde. No caso do amarelo será o violeta; no caso do azul o laranja. As cores atingem a sua máxima intensidade quando ao lado das suas complementares, segundo a lei do contraste.
Sabem onde está esta obra?
Adivinharam: em casa dos meus amigos. Está linda e não está só: tem por companhia outra com a qual faz um contraste absolutamente arrepiante...
Eu depois mostro, prometo.

Tempestade



Praia da Luz, Algarve, após a passagem da tempestade. É sempre lindo o mar, mesmo em dia de tornado... (clique em cima da foto para ampliar)

Fotografia de Pedro Domingues


terça-feira, 20 de novembro de 2012

FRESCOS


Um lago azul projecta-se para lá dos ângulos da janela, por cima dos prédios e dos operários da construção civil.
E as nuvens, talvez ilhas líquidas de algodão etéreo, estão cinzentas, carregadas de energia estática, pronta a explodir em qualquer instante.
Recortes de árvores e periferias columbófilas e o Sol amortalha-se nos murmúrios do vento, às quatro da tarde, quando as buzinas das fábricas tocam para o descanso de dez minutos.
E a tempestade aproxima-se nos gritos das crianças no parque infantil.

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



A guerra acabou, embora tenha deixado um rasto de morte e de destruição atroz. Os jornais e a rádio dão conta de uma Alemanha literalmente virada do avesso, com as cidades completamente arrasadas e as populações em bolandas, sem um mínimo de condições de abrigo e sobrevivência mas, por toda a parte onde os exércitos passaram e se digladiaram, o resultado repete-se e não será ousado dizer que, em termos de condições de vida, vastas áreas da Europa quase terão regressado à idade da pedra. Na Ásia ainda se combate e tudo indica que o Império Nipónico se prepara para resistir até ao último homem e também aí, as ruínas e o caos são o saldo dos conflitos. Seja como for, neste lado do mundo os canhões deixaram de se ouvir e de impor a lógica da sua vontade e agora os homens podem fazer contas à vida e lançar as mãos à obra de reconstrução que obrigatoriamente terá que se seguir. De Londres a Moscovo houve festa e as multidões saíram às ruas em extraordinárias manifestações de regozijo, com homens, mulheres e crianças beijando-se e abraçando-se, num verdadeiro baile de contentamento por finalmente se verem livres das horas em que o amanhã, antes de tudo, transportava a incerteza da dor e da perda, quando não a eminência de se revelar como o momento final. Assim, a esperança ganhou direitos de cidade e depois da terra ter sido revolvida pela acção dos bombardeamentos e de milhões e milhões de pessoas terem sucumbido nos escombros das suas casas indefesas, os discursos são de confiança e de afirmação mais do que o desejo, da vontade de tudo reconstruir o mais rapidamente possível. Apesar de partilhar o pessimismo de Schoppenhauer quanto à natureza dos homens, compreendo não ser possível viver sem esperança e por isso percebo o optimismo subjacente àqueles que apelam à união de esforços na demanda da normalidade perdida, contudo, perante um nível catastrófico tão avassalador, custa-me acreditar que seja possível recuperar os patamares civilizacionais atingidos antes que se sucedam muitas gerações e certamente que o mundo anterior às hostilidades não voltará a ser o mesmo. Se virá a ser melhor não sei, mas não vejo como possa essa ordem de ontem regressar e os impérios europeus readquirirem a importância que outrora tiveram. As forças americanas que determinaram o pendor da balança para o lado dos Aliados e a economia de um país que não sofreu a mais leve beliscadura no seu território, desviaram definitivamente o pêndulo do poder e das decisões para aquele lado do Atlântico. À minha volta não ouço outra coisa que não seja a crença - não sei que outro nome lhe possa chamar - num mundo melhor, eu é que não subscrevo e ainda que não seja capaz de me explicar a esse respeito, temo pelo que os dias vindouros nos possam trazer. Por ora, por muitas que sejam as lágrimas de alegria, o presente permanece estatelado no pântano que a loucura legou. Da mesma forma não fui e não sou capaz de estar do lado dos companheiros que se apresentam convencidos que este nosso regime caia ou, pelo menos, se abra aos novos tempos democráticos que todos julgam adivinhar. É óbvio que seria bom se tal acontecesse e não tenho a menor dúvida em admitir que seria a primeira pessoa a ficar satisfeita com o meu próprio erro de avaliação mas lá está, por muito que intelectualmente me esforce nesse sentido, cheguei à conclusão que, nestas coisas, o pessimismo deve ser o meu estado natural e, por outro lado, decorreram tantos anos sobre a dita revolução nacional e, ao invés do que seria de esperar, o Estado Novo que se lhe seguiu tem vindo a endurecer-se cada vez mais que eu não consigo estar confiante quanto a uma alteração tão radical, afinal, só porque houve uma modificação das condições externas e mesmo neste âmbito, não podemos omitir o factor fundamental que é a necessidade dos países aliados se concentrarem nas respectivas recuperações e tenho sérias dúvidas se isso lhes deixará espaço para se preocuparem com alguém que até nem sofreu directamente os horrores do flagelo. E a melhor prova disto que digo reside na recusa que praticamente todos colocaram em face da proposta do Quico para nos deslocarmos à Vila em comunhão com as demonstrações de agrado pelo fim da guerra, à mistura com os votos esperançosos para as mudanças políticas que todos desejam. Ora aí está, estamos a jogar à defesa, como sensatamente o Gustavo e o José Pedro fizeram questão de apontar, isto por todos sabermos que a polícia política está de olhos postos em nós. Salazar é um ditador convicto e não me parece muito interessado em abdicar do poder e a avaliar pela maneira como as forças da ordem reagiram aos vivas aos aliados e à liberdade que se seguiram ao anúncio da rendição total e incondicional das tropas alemãs, coloco as maiores reticências à possibilidade de o regime evoluir. Se ainda aqui ao lado, os nossos vizinhos não estivessem subjugados por uma tirania implacável que fuzilou aos milhares aqueles que combateram pela República e, em muitos casos, simplesmente estiveram, do seu lado… Mas se ali o caudilho está de pedra e cal, dificilmente aqui poderá alguém vir em nosso socorro e as nossas forças armadas, apesar das revoltas e tentativas de golpe que houveram, estão demasiadamente comprometidas com o poder para o quererem derrubar. Olhando a oposição dispersa e ineficaz que temos e tendo em conta que os comunistas, por muito abnegados que se mostrem, não vão além de uma minoria sem grande margem de manobra e influência, nada resta para além dos homens da situação e o povo que sofre e se revolta, rápida e facilmente é recolocado nos eixos com o simples argumento da coronhada. O paizinho que nos visitou no último fim-de-semana, contou-nos o triste episódio que se passou na pequena terriola de Alhos Vedros, onde a população foi varrida a tiro, sublinho, a tiro e cacetada na sequência de um ajuntamento na praça principal em que as vozes, enfeitadas por bandeiras negras e vermelhas, se limitaram a clamar por pão e democracia. Pelo que consta não houveram mortes a lamentar, mas os feridos contam-se às mãos cheias e as prisões rivalizam-lhes o número. Para completar o desastre, o povoado encontra-se ocupado pelos militares e sob recolher obrigatório, no que é justo lamentar ao triste ponto a que chegámos em que aqueles que têm por missão defender-nos dos inimigos externos, são utilizados para reprimir o próprio povo a que pertencem. O meu querido pai chamou mesmo a atenção para o cuidado que devemos guardar até nas cartas que escrevemos pois, na sua opinião de homem experiente, a tendência que se desenha será para um drástico aumento da repressão, dado não haver outro caminho para que tudo possa ficar na mesma.
Estranha e perturbante é esta nossa felicidade, o modo sinuoso como esta guerra tão cruel acabou por confluir para o bem estar em que aquela se alicerça, ao permitir-nos o bom sucesso das nossas produções e, em curtos quatro anos, termos alcançado tudo aquilo que já conseguimos pôr de pé e como a partir daqui, ainda será ela que estará na base das perspectivas que se vislumbram para aumentarmos as nossas capacidades produtivas e com isso avolumarmos os nossos negócios e, seguramente, os rendimentos também. Mas quase não deixa de ser uma verdadeira excentricidade esta paz em que existimos e estamos a criar uma prole que já ultrapassa a dezena e, com a honrosa excepção de mim e da Éster, já se estende a todos os restantes casais da comunidade, se não contarmos com o senhor Abel e a dona Noémia que já aqui chegaram pais e, por motivos de idades, não pretendem dar um irmão à sua rica filha. O mundo sufocado pela tragédia e nós aqui cheios de planos da esperança de transmitirmos um legado de justiça aos descendentes que tratamos com tanto carinho e o máximo dos cuidados.
Amanhã vou ao médico, em Lisboa e o Manuel vai comigo. Vamos saber se está tudo bem comigo e com o bebé que vem aí. Será que virei a ser uma boa mãe?

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

REAL... IRREAL... SURREAL..., (3)




A Persistência da Memória (1931)
Salvador Dali  Óleo sobre Tela 24x33cm


DE SER ETERNO


Apetece-me escrever.

Apetece-me escrever só porque sim.

Há o “falar” só para queimar o tempo… e eu exijo o “escrever” só para guardar as palavras. Ou para as deitar fora…



Hoje apetece-me escrever por causa do tempo.

Não aquele de que se fala.

Mas aquele por que se passa… ou aquele que passa por nós.

E que deixa o mundo pequenino. O nosso bocadinho de mundo.

O outro, a gente não tem. Não o sabe.



O tempo que a gente tem é um tempo de passar.



Às vezes é de ficar… E dói.



Quando fica é eterno.

Quando passa é parado.

Quando pára é de não ser.

E não é bom.



Mas o tempo sem vida dentro não é nosso.

É um tempo que a gente não tem porque não o sabe.

Hoje apetece-me escrever por causa do tempo. Não por causa do tempo de que se fala.

Mas por causa do tempo que fala por nós.

O eterno que fica. O eterno que passa.



Os meus mortos. E eu.

O eterno que já não é.



Maria Teresa Bondoso

13 de Setembro de 2012



sábado, 17 de novembro de 2012


OUVIR

Ouço no canto o grito do silêncio
nas madrugadas que se ofertam
em oportunidades perdidas
aos dias que se anunciam:

o estupor do corpo
ante a luz
amanhecida
aterroriza o gesto
depois da hora

ouço o desencanto da voz
em conversas e desdouros

o grito sutil da descoberta
do corpo sobre a relva

amanheceres repõem
dúvidas desconsideradas.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O sistema


O sistema é ele e quem o combate. O sistema alimenta-se de quem o combate. Porque o sistema é pensar que somos realmente algo ou alguém, que os outros são realmente algo ou alguém, que há realmente eu e não-eu, eu e outros, seres e coisas, identidades e entidades, indivíduos e mundos, e não simples processos, fluxos e metamorfoses em constante correlação e mutação. O sistema é pensar que há realmente seres e coisas que são realmente isto ou aquilo, assim ou assado, e não meros fenómenos e percepções em constante mutação. O sistema é pensar que há realmente os bons e os maus e que nós e os que imaginamos próximos são os bons e os outros os maus. O sistema é pensar que há realmente o bem e o mal e que o que nos gratifica é o bem e o que nos prejudica é o mal. O sistema é pensar ser normal gostar de uns e não de outros, gostar e não gostar, querer e não querer. O sistema é crermos irreflectidamente em percepções moldadas e cristalizadas desde há milénios na teia de convenções que estrutura as línguas, o pensamento e a vida social, a religião, a filosofia, a ciência e o senso comum. É neste sistema que vivem reclusos presidentes, reis e vagabundos, ricos e pobres, religiosos e ateus, catedráticos e analfabetos, integrados e alternativos, engravatados e tatuados, fascistas e democratas, comunistas e anarquistas. O sistema é o milenar sono e sonho da ignorância e a única alternativa o Despertar. O Despertar de haver realmente Despertar e quem desperte. Então tudo se reconhecerá desde sempre livre, o silêncio será verbo e o amor, esquecido de o ser, irradiará. Então é Agora. Já.


Paulo Borges
Novembro/2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

MÚSICOS INDIANOS



CAROLA JUSTO

Acrílico sobre tela 50x50

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Constança


Era janeiro, na roça o milho já estava granado.  Palha verde, grão amarelo-claro, macio, pronto para ser colhido para o fim a que se destinava: as quitandas que os mineiros tanto apreciavam.

Como todo o ano ocorria, na época das primícias, o senhor Jovelino trazia da fazenda dois a três sacos de milho verde que deixava na cozinha de fora da casa, para ser preparado na confecção das iguarias. Naquela ocasião, D. Maria, a dona da casa, convidava as vizinhas e comadres para o mutirão (tradição da região, importada), para ajudarem no trabalho.  Era uma verdadeira operação culinária. Um grupo descascava o milho, guardando as folhas mais jeitosas para fazer o copo que receberia a massa de milho, previamente preparada. Outro grupo ralava-o em grandes raladores artesanais, e um terceiro grupo temperava a massa com óleo fervente, açúcar ou sal, se a pamonha fosse doce ou salgada. Depois de formado o copo colocavam a pasta e um pedaço de queijo de Minas semicurado na pamonha doce, ou linguiça frita, esfarelada, na salgada. Nos tachos de água fervente colocavam as pamonhas devidamente amarradas com tiras de folhas de milho, com todo o cuidado, e deixavam-nas cozer por meia-hora, até a massa endurecer. Depois era só comer, retirando a casca de palha. Mas não eram apenas as pamonhas as iguarias aguardadas. As senhoras e suas mucamas faziam bolos, mingaus, biscoitinhos, polentas, curaus, usando a imaginação e as especiarias para valorizar e diversificar o paladar das quitandas.  Era uma verdadeira festa gastronômica em honra ao milho, cereal tão apreciado e importante na alimentação dos animais e da gente do interior brasileiro.

   A casa,  seguindo arquitetura antiga do Brasil Colônia, se debruçava sobre a calçada, com uma entrada pelo alpendre e outra pelo portão lateral, que servia de acesso aos fundos da residência, onde ficavam um banheiro rústico, um quintal repleto de couves, ervas  medicinais e árvores frutíferas, e uma cozinha ao ar livre, coberta, mantida por duas paredes vazadas e duas fechadas, onde prateleiras exibiam panelas areadas, reluzentes, vaidade da dona da casa.  No centro do aposento, uma grande mesa e cadeiras. Nas laterais, bancada com pias, um fogão à lenha e uma  despensa onde guardavam os mantimentos. Era a peça da casa mais importante, ponto nevrálgico da moradia, onde todos se reuniam e trabalhavam, enquanto punham a prosa e as novidades em dia.   

Após a escola, a garotada esperava com gula a hora do lanche da tarde, quando iria provar as quitandas.  Um olho nas pamonhas e outro nas mucamas que, com trejeitos, dengosas e insinuantes tiravam o sossego dos patrões e atiçavam o instinto púbere dos rapazes.    Constança, mulher feita, neta de  escrava,  cria da  casa, era de tirar o sono da rapaziada.  Mulata bonita, cheia de curvas e despachada, sabia o efeito que despertava e se comprazia em provocá-los para depois ridicularizá-los, às gargalhadas. Exímia nas tarefas domésticas era a mão direita de D. Maria, que lhe transferia funções e poder. O sonho erótico da garotada era ver aquele monumento de mulher como nasceu, pelada!   E naquele dia pensaram que chegara a ocasião tão esperada.

 Final de tarde, distribuídas as quitandas pelas participantes do mutirão, após o lauto lanche regado a café coado na hora, arrumada a cozinha, viram Constança, com a toalha no braço, sabonete e roupa limpa, ir para o banheiro que ficava no quintal, junto ao muro da vizinha. Construção rústica, velha e fechada, coberta com telhas de cerâmica grosseira, mal colocadas, era um convite exploratório para os moleques traquinas. Rápidos, sem dar na vista, subiram pelo muro da vizinha e,  se arrastando sobre as telhas, disputando um lugar com melhor vista, logo ouviram um forte estalido. Não tiveram tempo de ver nada.  O telhado fragilizado,   arruinado pelo caruncho, não suportou o peso da molecada. Desmoronou com um grande estrondo.  Constança percebendo a movimentação saiu antes da queda, pela porta, ilesa, ainda vestida.  Enquanto a rapazes, tontos e arranhados, se levantaram e se dispersaram  em meio à plateia feminina atônita. Para completar o desastre veio o castigo para os dois filhos da casa, os que não escaparam, uma quente e forte tunda. Os demais  “caíram na braquiária”... perderam-se de vista.

Constança não se casou. Já tinha um lar para cuidar e mandar.  Ficou velha servindo os patrões ao até o fim de suas vidas. Agregada e tratada como membro da família ajudou a criar os netos de D. Maria e do senhor Jovelino, filhos daqueles rapazes traquinas. Na casa de um deles, ainda vive e sempre que tem oportunidade conta essa história, do tempo em que era jovem e bonita.  


Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 07/11/12

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Ai que raiva! Quanta fúria! Estou furibunda, como é o hábito da Graziela quando algo lhe corre mal, ela que tanto gosta de palavras estranhas e que tem um especial humor em inventar palavras pela agregação de outras, como por exemplo fabulástico que muito particularmente me diverte. Nem sei se deveria escrever isto, dadas as circunstâncias, se é seguro, por isso, sensato fazê-lo, mas a ira é tão intensa, vai tão fundo na alma que honestamente sinto ser esta uma maneira de evitar o que tenho de me controlar para não fazer o que seria gritar a plenos pulmões na rua se isto tem sentido, se há um mínimo de razão para aquilo que sucedeu e aqui bem que me posso indignar à vontade, expressar a minha revolta com veemência, sabendo que afinal estas páginas se manterão no segredo de um solilóquio íntimo. Mas é tão indignificante ter que calar uma resposta perante a eminência da força que se esconde atrás de um conselho cínico. O José Pedro é boa pessoa, não tenho dúvida e não o digo pelo desprendimento e generosidade que acabou por revelar para com todos nós, antes pelo facto de lhe observar o modo de ser espontânea e naturalmente isento de zanga que a tudo procura compreender e mesmo quando a repulsa é o juízo se contem no dizer da recusa e que perante as contrariedades se atira sem desfalecimentos ao que as possa ultrapassar. E uma das suas virtudes reside justamente na serenidade com que vai sulcando o dia a dia, a calma com que nos escuta de olhos postos em nós e lábios rasgados, exactamente a mesma com que reage às novidades mais desencorajadoras. Imagino pois o sobrolho franzido que deve ter lançado ao Presidente da Câmara, amigo de meninice do seu pai que, viemo-lo a saber depois, há umas semanas atrás, ao vê-lo na Vila, se lhe dirigiu com um cumprimento próprio de quem quer deixar recados e após se inteirar sobre o decurso da nossa actividade e não se esquecer de se congratular pelo ir a contento e dentro das previsões e expectativas, deixou a nota velada quanto à inconveniência de as nossas melhores intenções, como ele fez questão de sublinhar, poderem contribuir para a agitação pública de que todos os inimigos do regime e, no fim de contas, de Portugal – imagine-se – e em especial os comunistas, tanto gostam de tirar partido. É claro que o Zé se fez desentendido e sossegou-o por não ver em nada do que fazemos o menor sinal de alarme o que até me parece ser basicamente verdadeiro, mas o outro não desarmou e deu-lhe a perceber que os salários que temos pago aos trabalhadores contratados podem ser mal interpretados pelos restantes patrões e até levar os jornaleiros a exigências desmesuradas que só podem pôr em risco a boa harmonia que deve prevalecer entre todos. Já não sou capaz de imaginar a cara do outro quando o Zé Pedro lhe devolveu um sibilino pedido de sugestão a sua excelência. Acontece que no desenlace do braço amigável sobre os ombros, entrou-lhe por um ouvido e saiu-lhe pelo outro a recomendação para uma maior contenção naqueles pagamentos, uma vez aquela fundamentada naquela velha ideia que dinheiro a mais no bolso faz do cavador calão. E lembrar-me que houve entre nós quem tenha expressado uma visão semelhante. Certo é que o Zé não deu qualquer importância ao acontecimento e, se a teve, a vontade de contar a alguém esfumou-se-lhe pelas diatribes do muito que todos nós temos para dar ao braço e à ocupação do espírito. Recordou-o há poucos dias, quando a Guarda apareceu por aí para indagar se, por acaso, não tínhamos dado conta de alguém que anda fugido, embora não tenha dito porquê e a propósito das enormes preocupações que estes rufias e mal intencionados provocam, deixou no ar, naquilo que agora vemos ter sido um misto de desabafo e advertência, o reparo em tom grosseiro de “-É o que dá andarmos a tratar gente desta como pessoas de bem.” É que esta manhã tivemos a visita de um agente da secreta, cheio de bons modos e falinhas mansas e com muito para perguntar quanto ao que fazemos e como nos inserimos no mundo que nos rodeia. E é fácil de adivinhar que também ele se lamentou pela perturbação que os salários que andamos a praticar provocam neste mundinho de águas mansas. Se a coisa tivesse ficado por aí talvez fosse simples de engolir e provavelmente não mereceria uma linha, mas o homem quis deixar bem claro que faríamos um favor a nós próprios e seguramente que nos pouparíamos a muitas ralações se nos deixássemos de idealismos que foi a palavra que utilizou. E o Gustavo que foi quem o recebeu, lá teve que atirar água às chamas, com a mentira de recurso que tudo aquilo tivera a ver com a construção do dique que, felizmente para todos, já estava concluído pelo que certamente iriam deixar de haver motivos para preocupações. Ai que raiva! Fiquei furiosa quando o Manuel me contou esta conversa de que foi a única testemunha. Mas o que é que estes bandidos querem? Que o povo passe fome e se ria de contente? Comer e calar, é a regra e se não nos calamos a bem, quer dizer, se não partir de nós a iniciativa de nos calarmos, a opção pelo silêncio, alguém nos fará calar a mal, isto é, nem que seja pelo gesto democrático da imposição. Por toda a parte há privações e ouve-se um clamor geral contra a miséria e a repressão desmedida e o que esta canalha quer é que esta paz podre em que o povo mal consegue viver, permaneça sem alternativa. Parece assim que iremos continuar a ter estas visitas indesejáveis e de todo indesejadas e está visto que passaremos a andar sob o olhar da polícia política. “-Teremos que aprender a viver com isso.” –Disse o Quico numa troca de impressões entre alguns de nós, mas não deixa de ser humilhante termos que esconder aquilo que não fazemos de mal, muito pelo contrário e isso revolta, uma vez que nem o podemos expressar, enraivece. E não me serve nada de consolo acreditar, quanto a mim querer acreditar que, pelos ventos da guerra que anunciam a derrota total do nazismo, este regime tem os dias contados. Será que tem? Seja como for, não será isso que nos impede de sentir a dor no peito por termos que nos sujeitar a uma humilhação tão grande.

FRESCOS


O casco de um navio, à superfície do céu que, não podendo deixar de ter o seu rasto de espuma, se perde, de cá para lá, entre o vento e as ondas laranjas das nuvens, silenciosamente, ainda quarto crescente e já luz e sombra
e o navio passa e dissolve-se numa longa estrada azul, por quanto os carros passem e o asfalto molhado se transforme em cintilações decompostas do branco.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

REAL... IRREAL... SURREAL... (2)


Maternidade (1935) Almada Negreiros

Óleo sobre Tela 100x100cm

ABRAÇO

Gostava de ter alguma coisa muito especial para dizer… não tenho.
Mas não há-de ser por isso que me vou calar.
Hoje existi!
E aconteceram-me coisas. Podem não ter sido nada de especial.
Mas foram as minhas coisas.
Os meus bocadinhos de vida do meu dia de hoje.
As coisas de hoje para me acontecerem. E as que não eram de hoje, mas que eu quis.
Hoje vi um menino que me deu um abraço!
Foi só um abraço de um menino.
Mas foi o abraço que o menino tinha para me dar no meu dia de hoje e no dia de hoje dele.
Não foi nada de especial. Foram os bocadinhos de vida do dia de hoje do menino.
As coisas de hoje para lhe acontecerem.
As coisas de hoje para me acontecerem.
Ou então não eram de hoje, mas eu e o menino demos um abraço. Não foi nada de especial.
Mas também não há-de ser por isso que eu me vou calar.
E o menino também não.

Teresa Bondoso
4 de Setembro de 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

A Essência, por Filipe Pilar





Canção: A Essência
Album: Caminhos Desconhecidos
Autor: Filipe Pilar

sábado, 10 de novembro de 2012

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Versículos



Unidade

Há tempo de rir
e de chorar,
de alegria e de sofrimento.

A natureza não é dual
é Una
eventualmente, uma terceira instância.

Há que ser tudo!


Luís Santos


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

S/TÍTULO
 
 
 
CELESTE BEIRÃO
Acrílico sobre tela 240X200

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O Poema da Semana


Olá amigos,

AS CASTANHAS
Em jeito de ironia, são hoje tema no nosso poema da semana. Um trabalho que já não é novo, mas que vem muito a propósito para ilustrar esta época em que ditas são o principal motivo das festas de São Martinho que se celebra no próximo dia 11.
Veja esta hilariante composição aqui:

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/As_Castanhas/index.htm

Euclides Cavaco
cavaco@sympatico.ca

Aceite o meu convite e venha tomar comigo um cálice de poesia. Entre por aqui na minha sala de visitas e saboreie da que mais gostar...
www.euclidescavaco.com


terça-feira, 6 de novembro de 2012

FRESCOS



Antigos cavaleiros do mar repousam, para sempre, numa putrefacção de ferrugem, assassinos na estrada e o vento, forte, ondulando as águas e as ervas, Jim Morrison and The Door’s e nuvens de várias colorações, o braço esquerdo do Tejo penetra na terra através de uma muralha em ruínas.

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Caramba, como é possível haver gente com mentalidade tão tacanha, especialmente se estivermos a falar de alguém que até decidiu participar e partilhar a diferença de uma experiência tão singular como é esta que estamos a viver aqui, neste pedacinho de céu onde, ao invés do mundo louco que metodicamente se tem destruído pela força das bombas, temos vindo a construir as vertentes materiais e, bem vistas as coisas, igualmente as espirituais, deste pequeno paraíso de paz em que temos encontrado o conforto e, no fundo, pelo menos falando por mim e aqueles que me estão mais próximos, a felicidade, a tão almejada felicidade de quem, ao fim do dia, regressa a casa satisfeito por si e tudo aquilo que fez, prenhe do encanto que a serenidade do desejo de acordar no dia seguinte com a mesma vontade de desempenho e de alcançar, de dar e receber trás consigo. Mundos novos com ideias velhas não só não são exequíveis, como me parecem de todo um paradoxo impossibilitado de se materializar. Tenho para mim que o reconhecimento do valor de alguém, depois do princípio da oferta do respeito que, à partida, todo e qualquer sujeito merece, é o primeiro passo com que, no concreto, nos podemos habilitar a uma relação equilibrada e saudavelmente enriquecedora com outrem. É indiscutível que os patrões são indispensáveis, mais não fosse pelo facto de serem eles que, na actual forma de organização da economia e da sociedade, detêm o dinheiro e por isso podem apresentar a vontade de o aplicar e, consequentemente, tratar de todos os detalhes para que dessa operação resultem fábricas e a produção de bens. Contudo, sem a menor desconsideração por tão importante e incontornável papel, será que os operários não contarão para nada? Afinal, não é do seu trabalho que saem as coisas? E cabe aqui perguntar se por ventura poderia alguém acreditar que seria viável para os patrões tudo fazerem sozinhos. Não há qualquer esconsa filosofia sob o véu deste modo de pensar e para mim apenas se trata da mais rasteira questão de bom senso; bom senso, repito, tão simplesmente isso e nada mais. Um destes dias em que tive que esperar por uma pequena reparação numa pá de um arado, achei graça à conversa do rapaz que já há mais de um ano tem feito para nós o acompanhamento e manutenção dos tractores e das outras alfaias agrícolas que, referindo-se ao armazém que edificámos no sopé da colina do depósito de água, mesmo na ponta das traseiras do casarão e onde montámos uma oficina moderna e devidamente apetrechada, nos apodou de verdadeiros mouros de trabalho. Achei a expressão engraçada e ainda mais a ênfase que lhe vi no rosto pela admiração que exprimiu por ver “os senhores doutores”, a expressão foi dele, em cima de andaimes a carregarem baldes de cimento e a assentarem tijolo e rebocarem paredes. Com efeito, está certo dizer que temos sido verdadeiros mouros de trabalho, como ele disse que a nada têm virado a cara e em face de coisa alguma têm baixado os braços. Apesar disso, teria sido humanamente impossível construir o dique que há dias demos por concluído sem que tivéssemos recorrido ao concurso de mão-de-obra exterior ao grupo. Ora, não devemos pois estar gratos a essas pessoas e, se possível, materializar essa gratidão com uma justa recompensa? Eles poderiam muito bem não ter aceite as muitas jornadas em que até à noite e não raramente entrando pelas altas horas, laboraram com todo o afinco para que a parede esteja agora pronta a esperar que as chuvadas das próximas invernias encham o reservatório até ao limite da cota aconselhável. Bem, logo no começo, houve uma bronca enorme a quando da discussão dos salários em que houve quem defendesse a tese de que o dinheiro contado a custo seria a melhor forma de garantirmos a subjugação de todos aos ditames daquilo que se adivinhava duro de efectuar. Agora dá uma certa vontade de rir, na altura não vi nisso piada alguma, mas lembro-me bem do olhar esbugalhado e dos queixos caídos do Arada e da mulher quando ouviram ao José Pedro e ao Quico proporem dez escudos acima daquilo que é habitual pagar-se no meio em situações laborais como esta e, naturalmente, isto depois de serem rebatidas aquelas suas convicções estapafúrdias. Mas se queremos ver o problema, no mínimo dos mínimos, com honestidade intelectual, mesmo que não concordemos com os fundamentos com que aqueles companheiros justificaram a proposta em causa, teremos que reconhecer que eles tinham razão pois o que se passou foi que os salários melhores espoletaram um maior empenho naquelas pessoas que as levou, não devo errar se disser a todas, a tudo quererem fazer como se fosse para elas próprias que estavam a trabalhar. E o melhor testemunho disso mesmo, para além de todo o vigor a que me referi, foram as vozes que, nuns casos de forma velada e por outras palavras e nuns poucos de outros mais ou menos explicitamente, deixaram escapar o lamento por também a eles não ser dada a possibilidade de aqui viverem e participarem em toda esta aventura. E não é por acaso que na Vila e nas redondezas cessou o corte de casaca que por aí circulava a nosso respeito e que o mesmo permaneceu apenas entre bocas mais abastadas e o pároco e a respectiva corte de beatas e, segundo consta, as autoridades locais. Entre aqueles que aqui gostariam de ficar, palpita-me que um haverá que ainda virá a ser bem sucedido. Trata-se de um rapazinho que tem tanto de inteligente como de bom trabalhador que se travou de palavras e de olhares com a filha do senhor Abel e a quem já vi rondar a casa e, parei para ver com deleite, neste último Domingo, com a boina rodando entre as mãos, conversando em animado passeio com a rapariga, em torno da qual ia saltitando à medida que lhe oferecia as florezinhas sobre as quais se debruçava para colher. Não há um provérbio que diz, anda mouro na costa? A mim parece-me que, mais dia menos dia, o senhor Abel e a dona Noémia terão um pedido muito especial da parte daquele mocito. Avaliando pelo carácter trabalhador de que deu provas e até pelo bom feitio que apresenta, é bem capaz de vir a ser uma boa escolha. Uma coisa é certa, se bem sou capaz de perceber estes assuntos, o rapaz está perdido de amores e, embora mais comedida, ela não lhe retribui por menos.
O Félix e o Artur é que andam nas sete quintas. É impressionante como aquelas alminhas ainda conseguem forças para palmilharem esses caminhos e arredores em busca das suas recolhas de música popular e a verdade é que já conseguiram reunir um espólio considerável. E é bonito de ver a forma como eles se complementam. O Félix tem imenso jeito para abordar as pessoas e levá-las a oferecerem-lhes aquilo que eles querem ouvir, para além de ter um excelente ouvido para escutar e registar por escrito as músicas que, de umas gerações para as outras, têm passado por via da oralidade. Por sua vez, o Artur é todo metódico e minucioso na compilação e sistematização do material recolhido. O resultado é já um verdadeiro cancioneiro dos cantares desta zona do Ribatejo. Mas como se isso não fosse muito, não é que o primeiro ainda conseguiu convencer o segundo a abrirem uma espécie de escola de música? E, finalmente, estão cheios de fregueses que andam a aprender solfejo e que, para minha surpresa, saíram de entre aqueles que para nós têm vindo a laborar e até de pessoas que, das redondezas, aqui vêm a propósito para isso. E não é que têm uma boa dúzia de alunos? Como então não termos motivos para nos sentirmos satisfeitos e felizes?
Estou grávida.