De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Caramba, como é possível haver gente com mentalidade tão tacanha, especialmente se estivermos a falar de alguém que até decidiu participar e partilhar a diferença de uma experiência tão singular como é esta que estamos a viver aqui, neste pedacinho de céu onde, ao invés do mundo louco que metodicamente se tem destruído pela força das bombas, temos vindo a construir as vertentes materiais e, bem vistas as coisas, igualmente as espirituais, deste pequeno paraíso de paz em que temos encontrado o conforto e, no fundo, pelo menos falando por mim e aqueles que me estão mais próximos, a felicidade, a tão almejada felicidade de quem, ao fim do dia, regressa a casa satisfeito por si e tudo aquilo que fez, prenhe do encanto que a serenidade do desejo de acordar no dia seguinte com a mesma vontade de desempenho e de alcançar, de dar e receber trás consigo. Mundos novos com ideias velhas não só não são exequíveis, como me parecem de todo um paradoxo impossibilitado de se materializar. Tenho para mim que o reconhecimento do valor de alguém, depois do princípio da oferta do respeito que, à partida, todo e qualquer sujeito merece, é o primeiro passo com que, no concreto, nos podemos habilitar a uma relação equilibrada e saudavelmente enriquecedora com outrem. É indiscutível que os patrões são indispensáveis, mais não fosse pelo facto de serem eles que, na actual forma de organização da economia e da sociedade, detêm o dinheiro e por isso podem apresentar a vontade de o aplicar e, consequentemente, tratar de todos os detalhes para que dessa operação resultem fábricas e a produção de bens. Contudo, sem a menor desconsideração por tão importante e incontornável papel, será que os operários não contarão para nada? Afinal, não é do seu trabalho que saem as coisas? E cabe aqui perguntar se por ventura poderia alguém acreditar que seria viável para os patrões tudo fazerem sozinhos. Não há qualquer esconsa filosofia sob o véu deste modo de pensar e para mim apenas se trata da mais rasteira questão de bom senso; bom senso, repito, tão simplesmente isso e nada mais. Um destes dias em que tive que esperar por uma pequena reparação numa pá de um arado, achei graça à conversa do rapaz que já há mais de um ano tem feito para nós o acompanhamento e manutenção dos tractores e das outras alfaias agrícolas que, referindo-se ao armazém que edificámos no sopé da colina do depósito de água, mesmo na ponta das traseiras do casarão e onde montámos uma oficina moderna e devidamente apetrechada, nos apodou de verdadeiros mouros de trabalho. Achei a expressão engraçada e ainda mais a ênfase que lhe vi no rosto pela admiração que exprimiu por ver “os senhores doutores”, a expressão foi dele, em cima de andaimes a carregarem baldes de cimento e a assentarem tijolo e rebocarem paredes. Com efeito, está certo dizer que temos sido verdadeiros mouros de trabalho, como ele disse que a nada têm virado a cara e em face de coisa alguma têm baixado os braços. Apesar disso, teria sido humanamente impossível construir o dique que há dias demos por concluído sem que tivéssemos recorrido ao concurso de mão-de-obra exterior ao grupo. Ora, não devemos pois estar gratos a essas pessoas e, se possível, materializar essa gratidão com uma justa recompensa? Eles poderiam muito bem não ter aceite as muitas jornadas em que até à noite e não raramente entrando pelas altas horas, laboraram com todo o afinco para que a parede esteja agora pronta a esperar que as chuvadas das próximas invernias encham o reservatório até ao limite da cota aconselhável. Bem, logo no começo, houve uma bronca enorme a quando da discussão dos salários em que houve quem defendesse a tese de que o dinheiro contado a custo seria a melhor forma de garantirmos a subjugação de todos aos ditames daquilo que se adivinhava duro de efectuar. Agora dá uma certa vontade de rir, na altura não vi nisso piada alguma, mas lembro-me bem do olhar esbugalhado e dos queixos caídos do Arada e da mulher quando ouviram ao José Pedro e ao Quico proporem dez escudos acima daquilo que é habitual pagar-se no meio em situações laborais como esta e, naturalmente, isto depois de serem rebatidas aquelas suas convicções estapafúrdias. Mas se queremos ver o problema, no mínimo dos mínimos, com honestidade intelectual, mesmo que não concordemos com os fundamentos com que aqueles companheiros justificaram a proposta em causa, teremos que reconhecer que eles tinham razão pois o que se passou foi que os salários melhores espoletaram um maior empenho naquelas pessoas que as levou, não devo errar se disser a todas, a tudo quererem fazer como se fosse para elas próprias que estavam a trabalhar. E o melhor testemunho disso mesmo, para além de todo o vigor a que me referi, foram as vozes que, nuns casos de forma velada e por outras palavras e nuns poucos de outros mais ou menos explicitamente, deixaram escapar o lamento por também a eles não ser dada a possibilidade de aqui viverem e participarem em toda esta aventura. E não é por acaso que na Vila e nas redondezas cessou o corte de casaca que por aí circulava a nosso respeito e que o mesmo permaneceu apenas entre bocas mais abastadas e o pároco e a respectiva corte de beatas e, segundo consta, as autoridades locais. Entre aqueles que aqui gostariam de ficar, palpita-me que um haverá que ainda virá a ser bem sucedido. Trata-se de um rapazinho que tem tanto de inteligente como de bom trabalhador que se travou de palavras e de olhares com a filha do senhor Abel e a quem já vi rondar a casa e, parei para ver com deleite, neste último Domingo, com a boina rodando entre as mãos, conversando em animado passeio com a rapariga, em torno da qual ia saltitando à medida que lhe oferecia as florezinhas sobre as quais se debruçava para colher. Não há um provérbio que diz, anda mouro na costa? A mim parece-me que, mais dia menos dia, o senhor Abel e a dona Noémia terão um pedido muito especial da parte daquele mocito. Avaliando pelo carácter trabalhador de que deu provas e até pelo bom feitio que apresenta, é bem capaz de vir a ser uma boa escolha. Uma coisa é certa, se bem sou capaz de perceber estes assuntos, o rapaz está perdido de amores e, embora mais comedida, ela não lhe retribui por menos.
O Félix e o Artur é que andam nas sete quintas. É impressionante como aquelas alminhas ainda conseguem forças para palmilharem esses caminhos e arredores em busca das suas recolhas de música popular e a verdade é que já conseguiram reunir um espólio considerável. E é bonito de ver a forma como eles se complementam. O Félix tem imenso jeito para abordar as pessoas e levá-las a oferecerem-lhes aquilo que eles querem ouvir, para além de ter um excelente ouvido para escutar e registar por escrito as músicas que, de umas gerações para as outras, têm passado por via da oralidade. Por sua vez, o Artur é todo metódico e minucioso na compilação e sistematização do material recolhido. O resultado é já um verdadeiro cancioneiro dos cantares desta zona do Ribatejo. Mas como se isso não fosse muito, não é que o primeiro ainda conseguiu convencer o segundo a abrirem uma espécie de escola de música? E, finalmente, estão cheios de fregueses que andam a aprender solfejo e que, para minha surpresa, saíram de entre aqueles que para nós têm vindo a laborar e até de pessoas que, das redondezas, aqui vêm a propósito para isso. E não é que têm uma boa dúzia de alunos? Como então não termos motivos para nos sentirmos satisfeitos e felizes?
Estou grávida.

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