Iluminação é quando uma onda percebe que é o oceano.

Thich Nhat Hanh


terça-feira, 13 de novembro de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Ai que raiva! Quanta fúria! Estou furibunda, como é o hábito da Graziela quando algo lhe corre mal, ela que tanto gosta de palavras estranhas e que tem um especial humor em inventar palavras pela agregação de outras, como por exemplo fabulástico que muito particularmente me diverte. Nem sei se deveria escrever isto, dadas as circunstâncias, se é seguro, por isso, sensato fazê-lo, mas a ira é tão intensa, vai tão fundo na alma que honestamente sinto ser esta uma maneira de evitar o que tenho de me controlar para não fazer o que seria gritar a plenos pulmões na rua se isto tem sentido, se há um mínimo de razão para aquilo que sucedeu e aqui bem que me posso indignar à vontade, expressar a minha revolta com veemência, sabendo que afinal estas páginas se manterão no segredo de um solilóquio íntimo. Mas é tão indignificante ter que calar uma resposta perante a eminência da força que se esconde atrás de um conselho cínico. O José Pedro é boa pessoa, não tenho dúvida e não o digo pelo desprendimento e generosidade que acabou por revelar para com todos nós, antes pelo facto de lhe observar o modo de ser espontânea e naturalmente isento de zanga que a tudo procura compreender e mesmo quando a repulsa é o juízo se contem no dizer da recusa e que perante as contrariedades se atira sem desfalecimentos ao que as possa ultrapassar. E uma das suas virtudes reside justamente na serenidade com que vai sulcando o dia a dia, a calma com que nos escuta de olhos postos em nós e lábios rasgados, exactamente a mesma com que reage às novidades mais desencorajadoras. Imagino pois o sobrolho franzido que deve ter lançado ao Presidente da Câmara, amigo de meninice do seu pai que, viemo-lo a saber depois, há umas semanas atrás, ao vê-lo na Vila, se lhe dirigiu com um cumprimento próprio de quem quer deixar recados e após se inteirar sobre o decurso da nossa actividade e não se esquecer de se congratular pelo ir a contento e dentro das previsões e expectativas, deixou a nota velada quanto à inconveniência de as nossas melhores intenções, como ele fez questão de sublinhar, poderem contribuir para a agitação pública de que todos os inimigos do regime e, no fim de contas, de Portugal – imagine-se – e em especial os comunistas, tanto gostam de tirar partido. É claro que o Zé se fez desentendido e sossegou-o por não ver em nada do que fazemos o menor sinal de alarme o que até me parece ser basicamente verdadeiro, mas o outro não desarmou e deu-lhe a perceber que os salários que temos pago aos trabalhadores contratados podem ser mal interpretados pelos restantes patrões e até levar os jornaleiros a exigências desmesuradas que só podem pôr em risco a boa harmonia que deve prevalecer entre todos. Já não sou capaz de imaginar a cara do outro quando o Zé Pedro lhe devolveu um sibilino pedido de sugestão a sua excelência. Acontece que no desenlace do braço amigável sobre os ombros, entrou-lhe por um ouvido e saiu-lhe pelo outro a recomendação para uma maior contenção naqueles pagamentos, uma vez aquela fundamentada naquela velha ideia que dinheiro a mais no bolso faz do cavador calão. E lembrar-me que houve entre nós quem tenha expressado uma visão semelhante. Certo é que o Zé não deu qualquer importância ao acontecimento e, se a teve, a vontade de contar a alguém esfumou-se-lhe pelas diatribes do muito que todos nós temos para dar ao braço e à ocupação do espírito. Recordou-o há poucos dias, quando a Guarda apareceu por aí para indagar se, por acaso, não tínhamos dado conta de alguém que anda fugido, embora não tenha dito porquê e a propósito das enormes preocupações que estes rufias e mal intencionados provocam, deixou no ar, naquilo que agora vemos ter sido um misto de desabafo e advertência, o reparo em tom grosseiro de “-É o que dá andarmos a tratar gente desta como pessoas de bem.” É que esta manhã tivemos a visita de um agente da secreta, cheio de bons modos e falinhas mansas e com muito para perguntar quanto ao que fazemos e como nos inserimos no mundo que nos rodeia. E é fácil de adivinhar que também ele se lamentou pela perturbação que os salários que andamos a praticar provocam neste mundinho de águas mansas. Se a coisa tivesse ficado por aí talvez fosse simples de engolir e provavelmente não mereceria uma linha, mas o homem quis deixar bem claro que faríamos um favor a nós próprios e seguramente que nos pouparíamos a muitas ralações se nos deixássemos de idealismos que foi a palavra que utilizou. E o Gustavo que foi quem o recebeu, lá teve que atirar água às chamas, com a mentira de recurso que tudo aquilo tivera a ver com a construção do dique que, felizmente para todos, já estava concluído pelo que certamente iriam deixar de haver motivos para preocupações. Ai que raiva! Fiquei furiosa quando o Manuel me contou esta conversa de que foi a única testemunha. Mas o que é que estes bandidos querem? Que o povo passe fome e se ria de contente? Comer e calar, é a regra e se não nos calamos a bem, quer dizer, se não partir de nós a iniciativa de nos calarmos, a opção pelo silêncio, alguém nos fará calar a mal, isto é, nem que seja pelo gesto democrático da imposição. Por toda a parte há privações e ouve-se um clamor geral contra a miséria e a repressão desmedida e o que esta canalha quer é que esta paz podre em que o povo mal consegue viver, permaneça sem alternativa. Parece assim que iremos continuar a ter estas visitas indesejáveis e de todo indesejadas e está visto que passaremos a andar sob o olhar da polícia política. “-Teremos que aprender a viver com isso.” –Disse o Quico numa troca de impressões entre alguns de nós, mas não deixa de ser humilhante termos que esconder aquilo que não fazemos de mal, muito pelo contrário e isso revolta, uma vez que nem o podemos expressar, enraivece. E não me serve nada de consolo acreditar, quanto a mim querer acreditar que, pelos ventos da guerra que anunciam a derrota total do nazismo, este regime tem os dias contados. Será que tem? Seja como for, não será isso que nos impede de sentir a dor no peito por termos que nos sujeitar a uma humilhação tão grande.

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