No Canto IX dos Lusíadas, Ilha dos Amores, «Camões dá este conselho pedagógico aos portugueses: os meus amigos, se querem alcançar o Céu na terra, tratem do seu navio, mantendo-o em ordem, com disciplina a bordo, porque um dia a Ilha dos Amores aparece».

Agostinho da Silva


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

REAL... IRREAL... SURREAL... (1)


A Reprodução Interdita, 1937, de René Magritte




PRESSENTIMENTO

Jorge não era um homem preocupado nem despreocupado.

Mas, naquele dia, acordou inquieto.

Primeiro, parecia ser apenas uma leve sensação de estranheza que, lentamente, se foi transformando numa certeza.

Algo não estava bem.

Jorge, não sendo um homem especialmente preocupado nem despreocupado, achou que talvez não fosse má ideia procurar a ajuda da Ana. A Ana era sempre muito serena e tinha uma deliciosa tendência para resolver situações difíceis.

Agarrou no telefone e esperou…

(o nº do telemóvel que marcou não está disponível, por favor tente mais tarde)

Jorge, não sendo, de facto, um homem especialmente preocupado, também não era suficientemente despreocupado para deixar passar tal pressentimento.

Embora, por enquanto, não lhe parecesse ainda haver motivo para grande agitação, começou a desenhar-se-lhe na alma uma espécie de grito, ainda mudo do lado de fora, com o qual Jorge, definitivamente, não sabia conviver…

Quase por intuição, Jorge foi-se aproximando da mesa onde colocava a agenda das coisas importantes.

A agenda estava sempre ali à mão, como dizia a sua mãe, não fosse o diabo tecê-las, agora que estava sozinho…

Mas, na agenda das coisas importantes… nada.

Jorge começou então a colocar a hipótese de não ter nada que fosse realmente importante. Esta leve e até absurda ideia parecia tornar-se cada vez mais real e menos absurda.

E Jorge começou então a ficar efetivamente preocupado.

Já quase não conseguia conter a sua ansiedade e o grito mudo que se lhe tinha desenhado do lado de dentro da alma quase se soltava.

Não fosse Jorge um homem discreto e educado, certamente gritaria…

Não por medo, tão pouco por qualquer espécie de fraqueza.

Jorge considerava-se até corajoso e suficientemente frontal para encarar as pessoas de frente.

Por isso, dirigiu-se ao espelho.

Mas…

No espelho… nada.

Jorge, que não era um homem preocupado nem despreocupado, mas que era inteligente, finalmente compreendeu.

Na realidade, não existia.

Maria Teresa Bondoso
24 de outubro de 2012




1 comentário:

Anónimo disse...

Gostei muito da sua história e do quadro que escolheu para a ilustrar. No final apeteceu-me gritar, como naquele outro quadro - em troca ajudou-me a tomar uma decisão que andava a adiar, quanto ao próximo dia 14 de Novembro! Pequenos momentos de boa leitura fazem, por vezes, grandes diferenças. Por isso lhe agradeço!