De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

quarta-feira, 23 de março de 2016

Etnografar a Arte de Rua (XIX)


Graffitar a Literatura


Graffitis fotografados por Luís Souta, 2015.
Cascais, Rua Afonso Sanches, nº 60 / Travessa Visconde da Luz

«Sorte e vidro estilhaçam-se depressa.»

O setubalense João Samina é o autor desta obra, a de maior impacto gráfico de algumas que nos legou no Muraliza 2015. Numa bonita e sóbria vivenda de 3 pisos, infelizmente, a degradar-se, Samina, usando a técnica do stencil, fez um graffiti que se desdobra entre a fachada (na Rua Afonso Sanches), metade de um rosto humano, a preto e branco, e a parede lateral (na Travessa Visconde da Luz), aí recorrendo a um cubismo cromático, em torno da janela do 2º andar, com o predominância do vermelho, preto e cinzento.

Vejo neste homem barbudo, de rugas bem vincadas e olhar grave, um pescador marcado pelo mar e pelas agruras da vida. Quando o vi, logo o associei a algumas personagens literárias de John Steinbeck (1902-1968). Para esse escritor americano, premiado com o Pulitzer (1940) e o Nobel da Literatura (1962), «os tópicos que escolheu eram sérios e denunciadores». A prová-lo, aí estão as suas grandes obras: A um Deus Desconhecido (1933), As Vinhas da Ira (1939), A Leste do Paraíso (1952). O jornal Público, na sua colecção de 12 livros “Quem Vê Capas Vê Corações”, editará, no próximo sábado (a um preço acessível, 5,95€), Noite sem Lua (1942), com capa do artista Querulin e 19 ilustrações de Costa Pinheiro.

Mas o rosto que o graffiter Samina pintou conduziu-me a outra obra de Steinbeck, escrita em 1947, A Pérola (Livros do Brasil/ colecção Dois Mundos, nº 228, 1996) um pequeno livro (162 páginas repartidas por 6 capítulos) adaptado, nesse mesmo ano, ao cinema pelo realizador Emílio Fernández. A história, baseada num conto popular mexicano, centra-se numa pobre comunidade piscatória:
«Enquanto caminhavam, os dois irmãos apertavam os olhos, como eles e os seus avós e os seus bisavós tinham feito durante quatrocentos anos, desde que os estrangeiros tinham chegado com as suas razões e a sua autoridade e pólvora a apoiá-las. E, durante esses quatrocentos anos, o povo de Kino só tinha aprendido uma defesa – um leve aperto dos olhos e um leve comprimir dos lábios, um fechar-se dentro de si próprios. Nada podia quebrar essa muralha, e eles encerravam-se incólumes dentro dela.» (p. 80)

Kino, o pescador, personagem central da história, ao apanhar uma enorme pérola parecia ter encontrado a solução para os vários problemas da sua família (Juana, a mulher, e Coyotito, o filho):
«Kino olhou para os vizinhos, orgulhosamente:
– O meu filho há-de ir à escola (…) há-de ler e abrir os livros, e o meu filho há-de escrever e conhecer a escrita. E o meu filho há-de fazer números, e essas coisas hão-de libertar-nos, porque ele há-de saber, há-de saber e nós havemos de saber através dele. (…)
– É isso que a pérola há-de fazer – disse Kino.» (p. 47)

Mas, ao contrário do expectável, a pérola só trouxe agravos e dissabores. E Kino acabou por a devolver às águas do mar. Esta parábola (assim a categoriza Steinbeck logo na abertura) contem uma moral: “o dinheiro não traz felicidade” (para manter o status quo, ricos e poderosos sempre a cultivaram). Hoje, na nossa sociedade, a “pérola” procura-se no quiosque do bairro: de forma obstinada, os portugueses tentam a sorte na “raspadinha” ou no “euromilhões”. Todos aprendemos que pelo trabalho não se enriquece. E essa crença faz de nós inveterados jogadores.

Luís Souta

1 comentário:

luis santos disse...


Belo graffiti, belo texto. Qualidade literária de afinado requinte numa feliz relação com a arte de graffitar. Exposição de arte com muito bom gosto que fica, pois, mais que resgatada. No início do texto, onde se adivinhava "a pérola", logo fui levado também ao "Velho e o Mar", de Hemingway.