De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

domingo, 6 de março de 2016

Coisas da Escrita


por Francisco Gomes Amorim

É sabido (para os que sabem) que a primeira escrita com caracteres fonéticos terá nascido com os fenícios, e apareceu primeiro em Biblos - uma palavra que nos lembra alguma coisa de escrita! Povo marítimo e comerciante, expandindo-se através do Mare Nostrum, e não só, criando colónias com quem tinha necessidade de se comunicar, os caracteres ideográficos, como os hieróglifos, além de darem um intenso trabalho, conduziam muitas vezes a interpretações errôneas. 

Alfabeto fenício antigo

Os fenícios não usavam vogais, mas entendiam-se bem, e foram os gregos, igualmente povo do mar, que pouco mais tarde, com os mesmos problemas de comunicação dos fenícios, introduziram as vogais, e tornaram a escrita naquilo que é conhecida até hoje, quer o alfabeto seja romano, grego ou cirílico.

Os tipos de letra destes inovadores eram complicados. Os romanos, práticos, organizados, criaram um tipo de letra que, gravada na pedra, podia ser vista a qualquer hora do dia: linhas retas, gravações profundas que permitiam praticamente em todas as horas que uma sombra se projetasse no fundo da letra e a tornasse bem legível e inteligível. A este tipo de letra se chamou, como é óbvio, lapidar, gravada na pedra.

Atribui-se mais tarde aos santos Cirilo e Metódio a criação dum alfabeto próprio para as línguas eslavas, e hoje utilizadas também em alguns países da antiga União Soviética, com a finalidade de transcreverem para esses povos a Bíblia. O alfabeto cirílico.

Ainda no mesmo século IX, Carlos Magno impôs o uso de letras minúsculas, que igualmente foram batizadas de carolinas¸ a que hoje se chamam, em tipografia, letras de caixa baixa.

No século XII surgem as universidades e com elas imensa demanda de pergaminhos, para a necessidade da divulgação, arquivo, consulta e troca do conhecimento. Os godos, face a essa penúria de base onde escrever, criaram uma letra especial, angulosa, estreita, que ocupava menos espaço do que as conhecidas até então, economizando assim os tais pergaminhos, e essa letra, que resiste nalguns lugares – meio exóticos – está-se mesmo a ver que se chama gótica.Letra cheia de maneirismos, difícil de ler, criou também um cursivo, chamado bastardoNo sentido de economizarem os pergaminhos chegaram a criar uma letra tão miúda que só se lia com óculos!

Os humanistas italianos não foram na conversa dos godos. Petrarca dizia que aquele tipo de letra embaraçava e fatigava os olhos como se fora feita para qualquer outra finalidade que não a leitura, e a Renascença procura então um novo tipo de letra.

Com a conquista de Mogúncia, terra de Gutemberg, onde nasceu a tipografia no Ocidente, muitos artistas se espalharam pela Europa. O franco-alemão, da Alsácia, Nicola Jenson, instala-se em Veneza e vai se inspirar no alfabeto romano: letras simples, bem legíveis, retas, estilo puro, o romano. Um dos seus herdeiros, Aldus Manutius, encomendou mais tarde ao seu gravador um tipo mais delicado, inclinado, que começou por se chamar aldine, mas que “herdou” o nome da terra onde nasceu: o itálico.

Francisco I, rei de França, confiou a Claude Garamont uma encomenda real, para edição de textos gregos, os famosos grecs du roi¸ que criou caracteres romanos e itálicos, hoje presentes em todos os computadores: o Garamond.

Em 1692 foi o “humilde” Roi Soleil, Luis XIV, encarregou o abade Jacques Jaugeon de criar um novo tipo, reservado em exclusivo, à impressão real, o romain royal. Este tipo de letra, mais elegante e rebuscada, como seria de esperar, não durou mais de meio século. Apagou-se a meio do reinado de Luis XV!

No século XVIII foram os ingleses que primaram pela elegância. Mas todos se basearam no “velho” romano, dando-lhe um pequeno toque aqui, outro além, o que se pode constatar correndo as várias “fontes” disponíveis nos computadores.

E veio depois a Art Nouveau, a Bauhaus, Peignot, o Bifur, e tantos outros artistas criadores de tipos de letras, que as gráficas, hoje baseadas em computadores, podem alterar e realizar.

E... os chineses? Como eles conseguem escrever num computador? Levou tempo para que chegassem a uma conclusão, mas, determinados e inteligentes, obtiveram o resultado desejado.

Pode parecer um pouco preconceituoso dizer que os chineses têm problema para digitar, mas a verdade é que até hoje eles não possuem um sistema padrão para desenvolver teclados, como o nosso ABNT2. E esse problema é mais antigo que os computadores: ele vêm desde a época das máquinas de escrever.

A maior dificuldade enfrentada pelos chineses atualmente é fazer um teclado que consiga produzir o maior número possível de ideogramas, e que ainda possa usar os caracteres do alfabeto latino, predominantes nas culturas ocidentais e, portanto, na internet. Para resolver o enigma, algumas soluções foram pensadas:
Uma delas, o método Cangjie é apenas o mais famoso dos chamados “Shape-based methods” (Métodos baseados na forma). Existem vários outros, cada um adaptado para uma região, contexto e língua diferente.

Cada tecla recebe um símbolo que é chamado de “radical” ou “raiz”. Existem 24 desses radicais e a partir deles você pode usar outros sub-radicais, formando praticamente todos os ideogramas. Para uni-los há que pressionar dois ou mais botões ao mesmo tempo!


Complicado, né? Eles lá se vão entendendo, mas a escrita ideográfica... começa a cair em desuso. E isso é um bem cultural chinês de valor inestimável, que, como é evidente eles não podem, nem querem perder.

Fontes:
- Robert Druet – La civilisation de l’écriture – 1977
- Internet

29/02/2016

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