De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

terça-feira, 29 de março de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Esta manhã, a Serra da Estrela acordou cheia de neve. 



Eu é que tive um dia cansativo, cheio de relatórios de pagamentos para conferir e assinar, com a pressão suplementar de ter que dar por findo um estudo para a melhor segurança daquilo que dentro de um ou dois anos virá a ser um novo híper no domínio dos materiais de construção, tarefa para a qual contei com a tarde de ontem e a presente jornada. 

Mas o futebol é sempre um tónico para o alívio do espírito e, para tanto, bastou esticar as pernas durante a primeira parte do jogo para que os enleios dos números e da rentabilidade se dispersassem e a alma, de novo, se abrisse aos desejos da pena. 

E o encanto que é as gatinhas brincando, no chão da sala, com jogos de letras. 
É que a Matilde já vai incorporando a escrita nas suas fantasias. 
“-Professora, esse é um P?” 
“-Sim, é o que a menina tem que fazer.” –Ordenava, doutoral, a mais velha. 



Múltiplas vozes se têm manifestado favoravelmente à privatização do ensino. Uns por convicção quanto à melhor forma de organizar a economia e a sociedade, outros por critérios de racionalização dos recursos, todos considerando que as escolas privadas, a todos os níveis, são capazes de prestar um serviço melhor e mais barato que as congéneres públicas, por essa via se perfilando em condições mais favoráveis para atingirem objectivos nacionais. 
Desconheço qualquer sustentação empírica para estas ideias. É verdade que a argumentação seguinte vai no sentido de destacar a bondade do mercado – que ninguém tem que pôr em dúvida – que agiria como potenciador de excelência uma vez que para obterem resultados positivos, tanto financeiros como socias, as unidades escolares ver-se-iam constrangidas a procurarem os melhores profissionais possíveis e, com eles, a definirem e demandarem as metas que possibilitem a formação continuada da população estudantil. Mas o facto é que estamos perante argumentos que, em Portugal, ainda não têm possibilidade de confrontação prática; por exemplo, no plano universitário, a experiência dos privados é demasiado curta e restrita para permitir comparações de âmbito global com as universidades públicas e quanto aos degraus inferiores, com excepção da primeira infância e tendo em conta uma certa complementaridade ao longo do Estado Novo, em que a iniciativa privada serviu geografias arredadas das escolas estatais, apesar disso, dizíamos, nunca o primeiro daqueles domínios se colocou como uma alternativa ao segundo. Enfim, não há meio para comparar nem há suficientes dados e estudos disponíveis que o tenham feito ou a tanto deem agora viabilidade. Com efeito, é a própria realidade que não o consente. 
Resta-nos pois a crença de que o mercado e a livre iniciativa são os melhores mecanismos para se conseguirem os propósitos mais interessantes no âmbito do ensino. Ora aí vemo-nos forçados a considerar outros cambiantes que, ao estabelecerem um problema mais complexo, rejeitam automaticamente qualquer simplismo que tão só se alicerce numa profissão de fé. E acabamos por entender que a dualidade entre o público e o privado é não só redutora, como ainda nos impede de escolhermos a via mais profícua para começarmos a responder ao beco sem saída para que o nosso sistema de ensino parece estar caminhando. Por outras palavras, nós não temos que ser favoráveis ou não ao mercado e à livre iniciativa. Não é isso que está em causa sempre que se pretenda discutir a melhoria das nossas performances no universo de que estamos a falar. 
Desde logo gnosiologicamente, parece-me assim abusivo falarmos dos estabelecimentos privados e da concorrência entre escolas diversas como o vértice central de quaisquer políticas educativas entre nós. Não será por aí que chegaremos às perguntas certas e mais pertinentes. 



Na aula de hoje continuaram os exercícios em torno das palavras menina e menino, com jogos com as sílabas componentes e respectivas cópias. 
Foi o tema do trabalho e casa. 



Eleições do Benfica que só num país como o nosso conseguem ter honras de tratamento especial ao longo de todo o dia mediático. 
Tudo indica que o vencedor será o senhor Luís Fílipe Vieira, actual Presidente da SAD encarnada.
Parece-me que o lugar está bem entregue. Pelo trabalho desempenhado e a obra realizada até ao momento, espero que o Glorioso volte à ribalta desportiva nos próximos anos. 



No Iraque continuam os atentados que visam impedir a normalização da vida naquele país. 

E no Ocidente continua o autismo que impede a compreensão do quanto é importante um Iraque livre de radicalismos e aberto à democracia e à paz, em particular àquela que se ambiciona entre israelitas e palestinianos. 



Ena pá! Os miúdos de uma escola minhota ganharam o prémio de puderem fazer perguntas aos astronautas residentes na Estação Espacial Internacional. 

Bem que se poderia dar mais ênfase a coisas destas. 


 Alhos Vedros 
  31/10/2003

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