De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Uma arqueologia de Pascoaes



Quando Guerra Junqueiro, após a leitura de Embryões, mandou dizer a Teixeira de Pascoaes que se deixasse de versos, lançou sobre o seu livro de estreia – que, 120 anos depois, enfim se reedita em fac-simile – um imenso anátema. O noviço queimou então quantos exemplares pôde reunir e renegou tacitamente um livro assim deixado à disputa dos bibliófilos. O severo juízo final de Junqueiro e o holocausto após o tirocínio comunicaram-se impressivamente à fortuna crítica futura da obra.

Embryões – logo o título indica – é o livro de um principiante. Não será, pois, de estranhar que versos frustes ou incipientes se inscrevam nas suas estrofes. A candura do lirismo deste primeiro Pascoaes, permeável ao romantismo tardio, revela-se, por exemplo, na expressão solipsista do sentimento saudoso, na interpelação da Natureza obsidiante, na atracção pelo remoto e pelo exótico. Ainda que a cadência e a ambiência do seu poema inaugural, “Eras passadas”, sugiram já a fulguração da Elegia do Amor, não raro, neste livro, as imagens cedem aos estereótipos e sucedem-se em réplicas que se extremam na repetição de rimas.

Tanto basta para o encerrar no rol curioso dos documentos raros? Não creio. A si mesmo o poeta se absolve no soneto dedicado “A M…”, ao confessar que abandona a sua fraca lyra quando quer medir a noite do Infinito. Em 1916, n’A Alegria, a Dor e a Graça, com Pascoaes já firmemente creditado como criador e Junqueiro incensado na ara da consagração, Leonardo Coimbra, após lembrar que a capacidade artística depende de dois factores, a receptividade e a exprimibilidade, dá os dois grandes poetas como desiguais possuidores destas qualidades: em Pascoaes é mais espontânea a receptividade e mais difícil a expressão; em Guerra Junqueiro é mais lúcida a expressão e mais intelectual e atenta a receptividade. A prevenção do filósofo auxilia a ponderação de um juízo sobre Embryões, porquanto o acabamento estético não atinge nunca em Pascoaes, mesmo no mais tardio, ao menos de modo constante, a refinação refulgente em Pessoa, Pessanha ou Régio.

Tomando a literatura como expressão do sobrenatural segundo a lição de Teixeira Rego, já prenunciada em Sampaio Bruno, de cuja morte se comemora este ano o centenário, e actualizada por Álvaro Ribeiro, Pascoaes via no poeta o profeta ou o vate – o visionário que vaticina – segundo a distinção, n’Os Poetas Lusíadas, entre a poesia espontânea, Verbo enamorado das cousas e dos seres que nele se reflectem e vivem, cedendo instintivamente ao ritmo da sua expansão natural, e a poesia culta, que, obediente ao preconceito formalista da escola, ostenta, aprisionada, o luxo do seu vestuário. A esta luz, as referências, em Embryões, a Dante e a Beatriz, mais do que desculpável pretensão erudita, podem bem ser a chave autêntica de um reconhecimento.

Na História Secreta de Portugal, António Telmo define Pascoaes como o poeta da Natureza. Um dos veios que já em Embryões se relevam é o da ressonância cósmica com que o sentimento, alegre ou doloroso, dos seres e das coisas se amplia na ideação do poeta, invadindo a noite do Infinito que, como se viu, ele quer medir. Aqui, desde logo, germina o pensamento sentimental que Pascoaes elucida n’O Homem Universal. Nota significativa de quanto em estado larvar se surpreende no livro de 1895 reside no registo reiterado do medo infundido pela presença de entes naturais ou sobrenaturais, que n’As Sombras, obra madura de 1907, Pascoaes, segundo Telmo, dominará pela invocação.

A leitura de Embryões, onde poemas vinculados como “As geleiras do Norte” e “O Egito” preludiam, pela dualidade contrapolar do simbolismo cosmológico, uma visão larga do chiaroscuro da Saudade, pode ser encarada como uma arqueologia de Pascoaes, isto é, como um discurso sobre os princípios operativos e especulativos da sua obra. Neste sentido, o soneto “Valjean”, onde o herói huguesco é saudado como metamorfose imensa do Universo, mais do que um eco entusiástico da leitura de Os Miseráveis, ou do que o prenúncio de “Victor Hugo”, artigo publicado na 1.ª série de A Águia, antecipa a polémica sobre «O Sentido da Vida», onde Valjean, criatura do Reino Psíquico, culmina, na visão de Pascoaes, um evolucionismo espiritualista movido pela sucessão sacrificial dos reinos mineral, vegetal e animal. E se a consciência moral depositada em “A engeitada” anuncia já a beleza indignada e condoída dos quadros de Para a Luz, o derradeiro terceto de “As geleiras do Norte”, onde se acusa o jesuitismo e a negra Inquisição, prefigura o anticlericalismo pascoalino, vincado nos textos da campanha saudosista e jamais abandonado pelo poeta.

Uma semana depois do Congresso “A Arte de Ser Português no centenário da sua publicação”, no âmbito de um fecundo Triénio Pascoalino que muito fica a dever à dedicação de Sofia A. Carvalho, o lançamento de Embryões, com autorizado prefácio de António Cândido Franco, acentua a perenidade de Pascoaes.

Pedro Martins

[Teixeira de Pascoaes, Embryões, Câmara Municipal de Amarante, 16 + 133 pp.]

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