'' Ser contente e tornar outros contentes é o segredo para receber benção. Contentamento vem de um coração verdadeiro e da sabedoria. Contentamento dá uma sensação de estar completo e esta alegria interior também torna outros felizes. Um coração contente é um grande coração, preenchido de boa vontade e compaixão. Ao fazer o bem aos outros nós acumulamos caridade. Esse é o método para criar fortuna.''

Brahma Kumaris

sábado, 20 de agosto de 2016

Do corpo e seu sagrado trânsito


(Uma breve história da vergonha)

por Risoleta Pinto Pedro


(pintura: Amanda Greavette)

Sem querer dar ideias, pergunto-me por que razão ainda não inventaram pílulas e cápsulas para não evacuar, para não urinar, para não espirrar, para não bocejar, para não respirar… Então não é uma maçada termos de lidar com os nossos dejectos, os nossos salpicos, os nossos ventos, as nossas névoas, humidades e outros elementos da natureza de que a dinâmica do corpo se sustenta e equilibra?… E que são vistos como pequenos ou grandes incómodos, erros da natureza, imperfeições da espécie, falta de educação se em público…
Se tossimos, todos nos olham como se fôssemos tuberculosos, se espirramos todos se desviam comos e fôssemos ET’s ou a única pessoa no mundo a espirrar, se transpiramos quase pedimos desculpa como se pelos poros saíssem, para além de coisas que já não nos fazem falta, a interior humidade num inteligente processo de limpeza e refrescamento do corpo, uma espécie de ar condicionado natural, como se de nós saísse um veneno de cobra ou uma gelatina viscosa, vergonhosa e profana.

Talvez este preconceito que a educação vai reforçando ao longo de gerações radique numa memória de culpa.

É que se algumas mães se regozijam e fazem uma festa quando o bebé faz um cocó apelidando de lindo o que acaba de sair do corpo do seu filho (e na verdade, para quem consegue ver a natureza profunda das coisas o que a criança expulsa é, como tudo o que existe, luz; e na verdade é belo que o corpo funcione na sua perfeição e possa libertar aquilo de que não necessita sem que isso tenha de ser amaldiçoado), a maioria cedo incute na criança a crença de que aquilo é feio, sujo e nojento.

Aquilo que é, afinal, a obra divina.

Mas tudo isto pode ter a ver, repito, com a primeira maçã colhida da Árvore do Conhecimento. É que ao ingerirem a maçã proibida, era preciso verem-se livres dela. Nessa altura Deus já era um detective. Coitado. E que melhor forma de o enganar, que não a evacuação? Talvez eu esteja a brincar, talvez não. Mas existe aqui um complexo de culpa e vergonha associado ao corpo. O primeiro homem, a primeira mulher (estamos em plena linguagem simbólica, por favor não interpretem literalmente), perante a desobediência, sentiram culpa e vergonha, que muitas vezes andam associadas. Era preciso verem-se livre do objecto do crime de desobediência e depois esconder. É o que fazemos. Escondemos tudo o que aprendemos a encarar como feio, vergonhoso ou inútil. Até escondemos os nossos lixos no fundo dos mares, como as crianças escondem os papéis das pastilhas e gomas que ingeriram a mais debaixo da cama. Somos crianças com um sentimento de culpa e de vergonha não do tamanho do mundo mas maior, muito maior. Não estará longe o tempo (e cá estou eu outra vez a dar ideias) em que expelimos os nossos lixos em naves espaciais. Na volta até já há quem o faça, eu que não sabia…

Pois é, escondemos, escondemo-nos. Por essa razão (e cheguei finalmente ao motivo que me trouxe a esta crónica) é quase tão difícil encontrar, como uma agulha em palheiro, nas prateleiras dos supermercados, um desodorizante que não seja anti-transpirante. Na maioria nem existe…

Porque é preciso que não transpiremos. Mesmo que seja um crime contra nós mesmos e aquilo que devia sair na respiração volte para trás e aí sim, contamine pelo caminho os lugares por onde passar, com as consequências, umas imagináveis, outras inimagináveis, para a saúde, porque é contra-natura, no corpo, este sentido ao contrário. Tudo isto, porque não queremos sentir ou mostrar vestígios de humidade por baixo dos nossos braços. Como se não fôssemos de carne, como se fôssemos feitos de plástico. Bonecos não transpiram. Pessoas podem e devem transpirar. PERCEBERAM, senhores dos laboratórios e dos supermercados, consumidores e todos? Não é vergonha, é natureza, é saudável, é divino e é belo. Acredito que até Deus transpire, então não somos feitos à sua imagem? Transpiração é coisa de Deuses. Como é possível criar sem transpirar? Só os bonecos e os anjos não transpiram. Nós somos humanos. Faz parte da nossa natureza. Essa que passamos a vida a rejeitar até morrermos prematuramente. Por excesso de plástico e vergonhoso asseio.

2 comentários:

Francisco Dos Santos disse...


Parabéns por esta BELA CRÓNICA, cuja leitura me agradou IMENSO!
De facto, apesar de ser 'natural (e ainda bem que o é), as excreções a que alude consistem nos 'mecanismos' de "filtragem" do nosso 'corpo corruptível'.

Permita-me uma 'consideração pessoal': o corpo é o 'invólucro' da ALMA, esta imortal e que se pretende seja incorruptível. Nesta linha de raciocínio é, pois, necessário que entendamos as 'funções'inerentes ao 'corpo físico', e que as saibamos encarar com naturalidade.

Bem haja e saudações cristãs.


Risoleta da Conceição disse...

Muito grata pela generosa leitura atenta, meu caro Francisco.