Levou tempo para que eu percebesse que quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras.

Rubem Alves


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Graffitar a Literatura (V)


“Dona Genciana em Cascais”


«o mundo é do tamanho do meu quarto»
(A Paisagem da Janela, Branquinho da Fonseca)


Dona Genciana era a personagem central de uma novela de José Rodrigues Miguéis que a descrevia deste modo:

«Assim era Dona Genciana: feita para reinar na moldura do serralho ou do lar. Visse-a você ali à janela, na bata de folhos engomados, o cabelo preto todo frisado a papelotes, cotovelos no peitoril, os seios fartos aninhados como pombos nos braços roliços, – e não resistiria a admirá-la como todos nós, os do tempo. Sugeria frescuras, grandes lavagens, bochechos de água de Botot, conchegos tépidos, colchões macios, noites regaladas. Vista de perto, não era nova, nem bela, nem elegante. Tinha mesmo o nariz avermelhado e grosso. Mas os seus olhos eram negros e rasgados, a pela alva e fresca, o cabelo abundante. E tinha essa fartura de carnes que, com o ardor dos olhos e as rendas e folhos, faz o nosso encanto: “Mulher asseada!” ou “Bom colchão!
(…)
Devia andar na casa dos quarenta e era viúva. Ainda hoje pergunto se ela seria, como diziam, ‘brasileira’, ou melhor, portuguesa de torna-viagem.
(…)
Alguma coisa ela devia ter de seu, para levar a vida assim à janela, a criar calos nos cotovelos, sem mexer uma palha. Mas dinheiro, se o tinha, nunca ninguém lho viu: dívidas tinha, e muitas.» (pp. 12-3) 
Imaginei-a um século depois e, em vez da pensão na (então nova) Avenida Almirante Reis, em Lisboa, estaria agora numa casa em Cascais, na Rua Nova da Alfarrobeira, 16A, onde Mário Belém concebeu um grande mural (cobre toda a lateral e a frontaria de um prédio de dois pisos), de que aqui se destacam apenas as suas janelas. Neste  seu novo contexto, seria possível ouvi-la, quando pela manhã, na abertura rotineira da janela, se apercebesse como aquela parede exterior estava renovada, animada de coloração e fantasia:
– Isto só pode ser obra de alguém que muito me ama. Como posso resistir a esta declaração de amor, em forma de graffiti?
Escancaro a minha janela e deslumbro-me com todo este mar de cores! A fachada branca ‘hospitalar’ do velho prédio (carcomido pelo tempo e pelo desleixo do senhorio) ganhou, de repente, a alegria explosiva das cores que nos enche a alma. Que moldura esta! Agora, ainda mais me regalo a vir à janela. 
Ao meu graffiter (tímido, suponho, mas ‘esbanjador’ de tinta) dou, naturalmente, um «sim» convicto. Confesso, tocou-me a sua arte e o meu coração está, de novo, pronto para novas e deleitosas ‘pinceladas’.
 Esta obra de José Rodrigues Miguéis (Saudades para a Dona Genciana. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1956; um «caderno» de 32 p. com desenho de Carlos Botelho) foi adaptado ao cinema por Eduardo Geada (1983), tendo recebido os Prémios do IPC aos Melhores Argumento (Eduardo Geada. Hélder Costa, Machado da Luz), Fotografia (Manuel Costa e Silva) e Actriz (Maria do Céu Guerra); o filme viria a estrear-se em 1985, no 1º Festival de Cinema de Tróia.
 Rodrigues Miguéis foi «escritor excepcional (…) o maior de todos nós», como o definia José Gomes Ferreira (A Memória das Palavras1965: 272). Autor de uma vasta obra que se desdobrou pelo romance (O milagre segundo Salomé, 1975, adaptada ao cinema por Mário Barroso, 2004), novela (Páscoa Feliz, 1932, Prémio Casa da Imprensa), conto (Léah e Outras Histórias, 1959, Prémio Camilo Castelo Branco), crónica (O Espelho Poliédrico, 1973), teatro (O Passageiro do Expresso, 1960), tradução (Coração Solitário Caçador de Carson McCullers, Estúdios Cor, 1958)…
 José Rodrigues Miguéis nasceu, em 1901, em Lisboa. Aí, se licenciou pela Faculdade de Direito (1924); fez também a licenciatura de Ciências Pedagógicas na Universidade de Bruxelas, na Bélgica (1933), como bolseiro da Junta de Educação Nacional. Foi professor provisório de História e Geografia no liceu de Gil Vicente (1929) e docente universitário nos EUA, para onde emigrara em 1935; viria a morrer em Nova Iorque, em 1980.
No nosso pequeno universo literário pejado, no entanto, de prémios literários, não existe, curiosamente, nenhum com o nome do autor de A Escola do Paraíso.
Post scriptum: Mas eis que um dia, um (mais que provável) writer, em processo de aprendizagem não tutelado, não encontrou melhor ‘tela’ (para a sua prática de spray can) que aquela deslumbrante fachada concebida pelo criativo Belém, durante o Muraliza 2014. O jovem artista  (nascido nos finais dos anos 70) deve ter ficado bem abespinhado (mesmo sabendo que no seu ofício, a arte é sempre marcada pelo sentido do efémero). Mas, caramba, que esses riscos estejam associados ao desgaste do tempo, e não às mãos de gente que pretende vir a integrar a mesma ‘tribo’ – a dos Street ArtistsPor sua vez, Dona Genciana, perante esta vandalização do seu edifício, fechou a janela e recolheu-se a penates… com lágrimas rebeldes (de indignação) que de modo algum queria públicas.
Luís Souta
(texto e fotos) 

Sem comentários: