Levou tempo para que eu percebesse que quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras.

Rubem Alves


quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

GRAFFITAR A LITERATURA (XXVII)

A Póvoa de Arquimedes

À memória do Dr. Arquimedes da Silva Santos (06/1921-12/2019)

«Aqui agora que dar-te
Um poeta pobre médico
Senão algumas palavras?»
(Cantos Cativos, 1967: 73

Arquimedes da Silva Santos, poeta neo-realista, deu-nos mais que palavras (em vários livros de ensaio e poesia). Cuidou do corpo e da mente, de muitos de nós, enquanto «médico dos nervos» (como o povo da sua terra, Póvoa de Santa Iria, desconhecedor do jargão científico, o qualificava profissionalmente). Fez obra no ensino e na investigação, sendo uma referência nacional no campo da Educação pela Arte (Conservatório Nacional, Escola Superior de Dança - IPL, Centro de Investigação Pedagógica do Instituto Gulbenkian da Ciência), na cultura (co-fundador da revista Vértice, em 1942, e do Museu do Neo-realismo, em 1990 e 2007), no associativismo (MOVEA, APECV…) e na intervenção cívico-política.

Reconhecido e celebrado em vida (algumas homenagens só pecaram por tardias): a Presidência da República agraciou-o com a Ordem do Infante (1998) e a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública (2001); o Museu do Neo-realismo dedicou-lhe, na inauguração do seu novo edifício na Rua Alves Redol em Vila Franca de Xira, uma “Exposição Bibliográfica - Sonhando para os Outros”, aberta ao público de 20/10/07 a 10/03/08; a Junta de Freguesia incluiu-o na toponímia da cidade (uma Praça na zona nova da Póvoa); o município de VFX erigiu-lhe uma estátua (da autoria de Francisco Simões, inaugurada a 25 de Abril de 2008) no Parque público da Quinta da Piedade; foi-lhe atrubuído o doutoramento honoris causa, pela Universidade de Lisboa (2018): o elogio esteve a cargo de António Nóvia (embaixador na UNESCO, ex-reitor) que o caracterizou como «a força da serenidade». 

Muitos escreveram sobre Arquimedes da Silva Santos. Algumas dissertações se fizeram sobre si e a sua acção no campo da Psicopedagogia e da Educação pela Arte (Dalila Moura Baião, Carla Candeias Meira…). Muitas entrevista lhe foram realizadas; deixo a referência a uma das últimas, conduzida por Ana Bigotte Vieira, na Medi@ções, v. 2, nº 3, 2014, pp. 132-146 (revista online da escola onde leccionei durante 33 anos, ESE-IPS), aí confessa «eu que nem quis ser professor» (apesar de ter feito o curso de Ciências Pedagógicas na U. Coimbra, no ano do meu nascimento).

                                                                             
Aqui, gostava de realçar o seu trabalho poético. Autor de três obras – Voz Velada (Textos Vértice, 1957), Cantos Cativos (Lisboa: Portugália /colecção Poetas de Hoje, nº 27, 1967; obra que foi crescendo nas posteriores edições: 1986, Livros Horizonte e 2003, Campo das Letras) e Poemetos Locais (Póvoa Stª Iria: Lua de Marfim /colecção Luar de Poesia, nº 87, 2016; curiosamente, com o nome encurtado, apenas Arquimedes Silva; o que terá motivado tal amputação onomástica?).
Muitos dos seus poemas dão-nos conta de algumas das mudanças ocorridas na sua terra natal, na altura em que se comemora o 20º aniversário da elevação a cidade (a freguesia da Póvoa, criada em 1916, só passara a vila em 1985).

«O Tejo era o rio que passava na minha aldeia
ó lembrança
E no Tejo passavam
fragatas enfunadas
e golfinhos em fila saltavam
e o rio era dois mares
que a ilha separava
aqui
banhos matinais nos lodos marginais
além
oceano de sonhos
à espera de marés
hoje
o rio da minha aldeia outrora de marítimos
cidadela industrial
satélite dormitório da capital
cortejo de esgotos
ó Tejo» (Poemetos Locais, p. 23)

Um lugar onde a agricultura passou a segundo plano, com a instalação da Soda Póvoa, em 1934; esta unidade fabril foi o motor de transformação da Póvoa num importante pólo industrial e operário.

«E o mouchão
Todo orlado de lodo
De agricultura já mecanizada
E águas minerais –
E nesta margem
Os esteiros, as salinas
Chaminés fabris e cais industriais…» (Cantos Cativos, p. 63)


«Água do Tejo em tabuleiros geométricos
Pelos depósitos-comportas às salinas
Em quente Agosto lembra neve nas colinas
Que os rodos raspam de rectângulos simétricos,

Espelhos quebradiços das crostas de sódio
Onde o sol reverbera e ventos evaporam
Precipitam também daqueles que se exploram
As gotas de suor e as lágrimas do ódio.
(…)
Pirâmides de egiptos lá da minha Infância
Pela estrada do cais à casa do Avô.
Industriais memórias à mulher de Loth
Por lágrimas cristalizadas na distância…» (p. 69)

Alguns dos seus poemas foram orquestrados por Fernando Lopes Graça e interpretados pela Academia de Amadores de Música; um deles seria Hino do MUD (durante o seu funeral, não-religioso, no dia 11 deste mês, ouvimos, ao vivo, algumas dessas belas canções).

Estes dois ‘quadros’, que ilustram este artigo, são da autoria do conhecido writer Sérgio Odeith (1976) e reportam-se a outro rio (Sado) e integram um extenso mural pintado numa outra cidade, Alcácer do Sal. Mas podiam ilustrar os ancoradouros das pequenas embarcações dos avieiros – localizados entre o «cais da pedra» e o «campo da bola» – e os marnotos nas múltiplas salinas e no «barracão do sal» existente em dois locais da povoação.

Post Scriptum (mais pessoal)

Vivi na Póvoa de Stª Iria até aos 26 anos. Arquimedes da Silva Santos foi meu médico de família (quando tal conceito ainda não fora criado) e no UAP (numa recaída, fruto de excessos de «júnior», aconselhou-me, em vão, trocar o futebol por outro desporto menos violento).
Mas não nos cruzávamos apenas no seu consultório. Quando, diariamente, eu regressava do Liceu Nacional de Gil Vicente (Lisboa), apanhávamos o mesmo comboio, o das 13:33h (ele viajava na tranquilidade da 1ª classe); a minha curiosidade sobre aquelas suas deslocações, só veio a ser satisfeita muitos anos depois: ele vinha do Centro de Investigação Pedagógica, onde trabalhava desde 1965.
Nas peças de teatro do GDP (também lá representei algumas) era sempre um convidado especial.
Lembro-me, poucos dias depois do 25 de Abril de 1974, de o ouvir discursar, em cima de um improvisado ‘palanque’ num comício espontâneo no Largo da Estação; ele era, naquela terra, o símbolo da oposição anti-fascista (fora condenado, em 1949, a 18 meses de prisão).
Acompanhei-o, solidário, em dois momentos de consagração institucional: quando Jorge Sampaio o condecorou, em 24/01/98, no Palácio Nacional da Ajuda, na cerimónia de encerramento da ‘Semana da Educação’ e quando a Universidade de Lisboa lhe atribuiu, em 27/03/18 (e com que atraso!), o doutoramento honoris causa.
Trocámos cartas, em 2003 e 2009, a propósito da oferta de livros meus (que ele sempre comentou, avisando «não sou crítico nem exegeta, é a minha sensibilidade que me dita mais que as palavras sobre um texto poético») e da “Introdução a uma leitura” que redigiu para o meu Solitários Anónimos.
Àquele que tive como conterrâneo, médico e prefaciador, deixo aqui o público registo da profunda admiração, respeito e amizade que lhe devotei.

Luís Souta
texto e fotos

1 comentário:

luís souta disse...


Sugere-se a leitura completar do artigo de António Nóvoa “Arquimedes da Silva Santos (1921-2019) A liberdade do tempo!, JL, nº 1284, 18/12/19, p. 4.
«… o elogio esteve a cargo de António Nóvoa (embaixador na UNESCO, ex-reitor) que o caracterizou como «a força da serenidade» (“Arquimedes da Silva Santos (1921-2019) A liberdade do tempo!, JL, nº 1284, 18/12/19, p. 4).