Levou tempo para que eu percebesse que quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras.

Rubem Alves


sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Histórias da Nossa Terra (2)


Luís Santos

UM CONSELHO RÉGIO NO "CAIS VELHO"

D. João I, Grão-Mestre da Ordem (religiosa) de São Bento de Avis e, por isso, também designado por Mestre de Avis, foi aclamado Rei de Portugal nas cortes de 1385 e esteve à frente dos destinos do país até 1433. Quatro anos depois de se tornar rei desposou Filipa de Lencastre, a mãe da famosa Ínclita Geração.

A “Ínclita Geração”, ou “Ilustre Geração”, era constituída por D. Duarte, futuro rei de Portugal, também escritor e poeta; D. Pedro, infante de reconhecido esclarecimento intelectual; o infante D. Henrique, o Navegador, figura de proa dos Descobrimentos Portugueses; D. Fernando, o infante Santo; D. João, condestável do reino; e a infanta Isabel, Duquesa de Borgonha.

Corria o ano de 1415 quando D. João I, em luto por sua mulher que falecera acometida pela peste negra, e para se defender da própria epidemia, se refugiou em Alhos Vedros, tendo ficado instalado, muito provavelmente, no Palácio do Cais do Descarregador, ou do “Cais Velho”, em lugar, mais ou menos coincidente, onde ainda hoje existe o Palacete dos Condes de Sampaio.

Nas traseiras desse Palácio haveria um alpendre que protegia daquele intenso sol do mês de julho, contíguo ao qual se estendia um belo jardim. Em resumo, podemos imaginar D. João I com seu filho bastardo D. Afonso, que o acompanhava, recebendo os infantes e debatendo sobre as possibilidades de, para o bem e para o mal, se ir guerrear a Ceuta, naquele que constituiu um dos três conselhos régios que se fizeram a este propósito (Lisboa, Torres Vedras e Alhos Vedros). Acentue-se que a conquista de Ceuta costuma ser referida como a primeira etapa da expansão ultramarina portuguesa, constituindo por isso mesmo um acontecimento de extrema importância na história do país e, logo, de maior valor para a história local.

Este foi, sem dúvida, um período áureo da história da região que tinha, então, Alhos Vedros como sede de concelho. Entre outros atributos, sabe-se que a dimensão do território era apreciável estendendo-se entre os limites da Aldeia Galega (Montijo), Palmela e Coina; o número de habitantes era muito significativo para a época, falando-se em “oitocentos e tantos moradores”, alguns deles da alta nobreza; tinha direito de voto nos destinos do país quando se reuniam as “Cortes”; dava-se conta de duas Igrejas, várias ermidas e dois conventos; uma crescente atividade económica que se foi desenvolvendo desde os inícios da nação, onde, relembre-se, pontificava uma importante indústria naval, uma abundante produção agropecuária, muito sal, lenha e cerâmica, num período onde a navegabilidade do estuário do Tejo e a proximidade com Lisboa eram elementos cruciais de produção de riqueza.
E é por estas, e por outras, que a recuperação do Palacete do Cais Velho, possível lugar de testemunho das histórias da história que por estes sítios se viveram, seria de grande importância para a região.


DE ALHOS VEDROS ATÉ À ÍNDIA

Valorizando a história da nossa região, D. Manuel I nasceu em Alcochete em 1469 e foi entronizado rei de Portugal em 1495. Haveria de seguir a política de expansão ultramarina dos seus antecessores, de tal forma que, dois anos depois de ter subido ao trono, no dia 8 de julho de 1497, Vasco da Gama estava de partida para a Índia, tal como, algum tempo depois, no dia 9 de Março de 1500, Pedro Álvares Cabral partia para aquela que acabou por ser a Viagem da descoberta do caminho marítimo para o Brasil.

Sobre esse crucial acontecimento da história de Portugal, a Viagem de Vasco da Gama à Índia, e continuando a estabelecer relações com a história local, deixamos breve testemunho sobre Álvaro Velho, cronista e marinheiro, o presumível autor do diário de bordo “Roteiro da Índia”, pois assim se chama o texto que nos é valioso legado e que, em 2013, foi inscrito pela UNESCO na lista do património Memória do Mundo.

Álvaro Velho era natural do Barreiro, na altura um lugar que ainda se encontrava integrado em Alhos Vedros. Como sabemos, o Barreiro é um dos “filhos” de primeira geração do Concelho de Alhos Vedros, do qual viria a autonomizar-se em 1521, através de “Carta de Vila” atribuída pelo rei D. Manuel I. Atualmente, além de alguma toponímia local, dá nome a uma Escola no Lavradio.

Como curiosidade, relembre-se que foi em memória deste “Roteiro da Índia” que a bola com que se jogou o Campeonato Europeu de Futebol, em 2004, que se realizou em Portugal, foi justamente batizada com o nome de “roteiro”. Enfim, uma breve nota de rodapé que poderá ter aproveitamento para o futuro museu do Palacete do Cais Velho.

Sobre Álvaro Velho, não existem muitas informações da sua vida. Sabe-se que viveu entre os séculos XV e XVI, marinheiro, cronista, que foi com Vasco da Gama à Índia e que na viagem de regresso, como diz Branquinho da Fonseca em As Grandes Viagens Portuguesas, “deve ter desembarcado na Guiné, onde terá ficado por qualquer razão imprevista. Na verdade o Roteiro termina bruscamente no dia em que atingem os Baixos do Rio Grande, e posteriormente há notícias dum Álvaro Velho na costa da Serra Leoa, onde parece ter estado durante oito anos. Escreveu, além deste Roteiro, uma "Descrição da costa ao sul do rio da Gâmbia", uma "Relação dos Reinos ao sul de Calecut" e um "Vocabulário malaio". O Roteiro foi publicado pela primeira vez em 1838, tendo sido seguidamente traduzido para francês, inglês e alemão.”


A ILHA DOS AMORES: ENTRE ALHOS VEDROS E O BARREIRO

No círculo que o rio faz
aqui, avista-se uma ilha
que a voz mansa das águas
chama de eterna maravilha,
num momento mais insensato
chamaram-lhe “Ilha do rato”,
mas eu nos meus sonhos às cores
chamo-lhe de “Ilha dos Amores”.

Podemos dizer, então, que o nosso cronista Álvaro Velho, o tal barreirense de Alhos Vedros, à semelhança dos outros nautas que foram na Viagem do Gama até à Índia, e seguindo o Canto IX dos Lusíadas, de Luís de Camões (1524-1580), também terá entrado na tal “Ilha dos Amores”.

Como diz Agostinho da Silva, “Aqueles marinheiros portugueses, aquela esquadra de Gama que volta, (…) é uma Deusa de fora, é a força interna do mundo, é a máquina interna da História que leva a Ilha dos Amores para diante dos navios portugueses. (…) Camões dá este conselho pedagógico aos portugueses: «os meus amigos, se querem alcançar o Céu na Terra, tratem do seu navio, mantendo-o em ordem, com disciplina a bordo, porque um dia a Ilha dos Amores aparece» (…) É como se eles tivessem entrado em alguma coisa na qual tivessem plena licença de serem homens inteiramente livres. São as Ninfas, é a comida, é a paisagem, são os passeios, o encanto das conversas, tudo isso há. Portanto, para Camões, um projecto de futuro inclui uma inteira liberdade do homem e um inteiro gosto do homem pela apreciação dos fenómenos.” E, continua Agostinho, “na Ilha dos Amores acontece uma coisa muito curiosa, das tais Deusas, vem a possibilidade deles descobrirem o futuro. Os marinheiros portugueses ouvem, da Deusa, aquilo que será o futuro da História de Portugal. Ao mesmo tempo que estão presos a fenómenos libertam-se da tal cadeia do Tempo.”

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