“Nascer não é uma fatalidade, mas uma escolha pré-consciente, daquela consciência que se perde quando se voa do céu para a Terra, como dizia Platão.”

(Agostinho da Silva, Vida Conversável, p.14)


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Graffitar a literatura (IV)


"Conta-me histórias... de pescarias"

«Pescador de cana mais come do que ganha.»
(provérbio)

    Este é um ‘pormaior’ de um mural que ocupa toda a fachada de uma velha casa na Rua Nova da Alfarrobeira, 16A, em Cascais (‘património’ do Muraliza 2014).
Trouxe-me à memória dois capítulos do romance de Cristóvão de Aguiar (1978) Raiz Comovida (A Semente e a Seiva). Esta obra inicia uma «trilogia romanesca», a que se seguiu Vindima de Fogo (1979), O Fruto e o Sonho (1981); estes três romances, a partir da edição da Caminho de 1987, ficaram reunidos num só volume.
O escritor açoriano Cristóvão de Aguiar, de origens populares (avô tanoeiro e pai serralheiro) e «um virtuoso da língua» (Leocádia Regalo, 2008), soube transportar para a literatura, designadamente neste livro, a oralidade da etno-língua de camponeses e pescadores da Ilha de São Miguel. Daí, a obra incluir um precioso glossário com 154 «açorianismos, arcaísmos e americanismos».

«o Ti António Rosado não foi nado e criado aqui na nossa freguesia, era natural do lugar das Calhetas, a dois passos da última casa pra quem vai pela Tronqueira abaixo; (…)
o charrinho grado e fresco, as vejas, as garoupas, as abróteas, a petinga, os blinguéis, os bonitos, as tainhas, eu sei lá, vêm de Rabo de Peixe e das Calhetas freguesias à beira-mar; (…) mesmo estando à beirinha do mar do Norte, o lugar das Calhetas tem poucos homens do mar: meia dúzia de famílias; (…)
o Ti António Rosado não se podia dizer que fosse um pescador do alto, mas a família era dessa qualidade, pai e irmãos, pra não falar dos que estavam para trás; o Ti Rosado era o terçô de uma ranchada de nove filhos, cinco machos e quatro femas; ou porque era mais enfezadinho ou por outra coisa qualquer, o certo é que se meteu a aprender a arte de sapateiro, (…)
mesmo assim, o Ti Rosado avezou-se a ir todos os domingos assentar-se em riba de um pesqueiro e ali passava horas esquecidas, um caniço de pesca na mão e uma paciença de corno esperando que algum peixinho picasse a isca; em chegando à idade das sortes, lá foi ele juntamente com os da sua criação à Ribeira Grande, mas mandaram-no embora livre de todos o serviço, (…)
vai daí, o rapaz, (…) meteu-se a taberneiro; arranjou umas patacas a juro e lá montou uma lojeca em riba da barreira que desce prò Calhau do Porto; nessa altura, o home já era muito calado e metido na concha como um caracol não havia que ver, era o chamadouro do mar dentro dele como um búzio; os pescadores vinham-lhe beber os cales de cachaça e os quartilhos de vinho de cheiro e por lá se demoravam em conversas arrastadas de mar e pescarias, que deviam encher as medidas ao rapaz cismado; se o tempo andava de feição e a taberna ficava às moscas, não pensava duas vezes, fechava a porta da venda, descia o carreirinho empinado prò Calhau e ia-se empoleirar no pesqueiro do costume, a cana-da-índia na mão, os olhos caídos no lombo daquele mistero de água desarida; andou ele neste fado anos acrescentados, a alma alfinetada, via-se-lhe na cara, e nenhum bicho-careta se chegou à sua beira pra perguntar-lhe se estava sofrendo de algum moleste ruim; todos pensavam: aquilo é a natureza que puxa pràli, só Nosso Senhor é que deve saber o fundamento daquela cisma» (pp. 156-8, Amadora: Bertrand, 2ª edição, 1980)
«o Ti António Rosado lá se desfez com lágrimas nos olhos da lojeca em riba da barreira do Calhau do Porto: os seus ouvidos nunca mais iam escutar as istoras dos pescadores, quando o mar estava brabo e não podiam ir à faina; nunca mais se ia escapulir pelo carreirinho empinado que ia ter ao calhau pra passar horas esquecidas em riba do pesqueiro longe de si e do mundo; mas de umas coisas não quis ele desfazer-se: do caniço de cana-da-índia, da latinha do isco e da cestinha de asa, onde guardava a pescaria; todas estas coisas trouve consigo como dote prà sua nova freguesia» (p. 160)
Não há pescador sem estórias do arco-da-velha.
Sabemos que o que nos narram está longe da precisão e do rigor dos factos; em particular, sobre o tamanho do pescado. Mas todos eles são contadores de estórias: do mar, do peixe e de temporais. E nelas são, por norma, os “heróis”.
Este velho “lobo-do-mar”, do mural que Mário Belém concebeu, conta-nos estórias que já têm “barbas”…
Por isso, vou-me antes ao Guincho fazer um lance e “volto já” (ou seja, no próximo mês com outro «Graffitar a literatura»).


Post-scriptum (pessoal qb)
Cristóvão de Aguiar (1940-) licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (com a tese O Puritanismo e a Letra Escarlate, 1971); foi obrigado a interromper os seus estudos por ter sido mobilizado para a Guerra Colonial na Guiné (1965-67). Foi professor na Escola Industrial e Comercial de Leiria (1969-72) e depois na FCT-UC como tradutor (1972) e Leitor de Língua Inglesa.
Recebeu vários prémios literários – P. Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa 1979 (Raiz Comovida), P. Conto RDP/Açores 1979, G.P. de Literatura Biográfica da APE/ CM do Porto (Relação de Bordo I, 1999), P. Literário Miguel Torga/ Cidade de Coimbra (Trasfega, 2002) – e foi agraciado, em 2001, pelo Presidente da República com o grau de Comendador da Ordem Infante Dom Henrique.
Tive o prazer de entrevistar este escritor micaelense em 28/04/01, em Lisboa; viria a ser publicada no jornal a Página da Educação, nº 105, Agosto/Setembro 2001, pp. 24-25 com o título “Cristóvão de Aguiar tinha medo da escola”; posteriormente, uma versão mais completa seria incluída no meu trabalho A Voz da Escrita: a escola na palavra dos escritores (ESE-IPS, 2002: 191-205).
A Editora Dom Quixote viria a incluir na contracapa – de reedições revistas e remodeladas de 2003, dos seus livros Transfega e Raiz Comovida – uma foto do escritor que eu lhe tirara durante a nossa aprazível conversa, tida no Centro Comercial Residence, ao Saldanha.
Conheci (literariamente) Cristóvão de Aguiar ao ler Ciclone de Setembro (1985) que me tinha calhado em sina, em Outubro de 1986, num dos sorteios mensais (no âmbito do 15º aniversário) que a (extinta) revista O Professor promoveu entre os seus assinantes.
O escritor, a dado passo da supracitada entrevista, afiançava-me: 
«Não quero ser marginal mas gosto de estar à margem. Gosto pouco de aparecer.»
Mas nós gostamos mesmo (muito) de o ler!

Luís Souta 
(texto e fotos)

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