De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

EDITORIAL

Os meses são como as estações, cada qual com seu encanto. Se, na serra, o Outono amarelece o chão, Abril traz à lezíria o cântico das cores que Bóreas faz exalar ao olfacto. É o cântico da Mãe Natureza que tanta dificuldade o Homem Moderno tem em entender. Também Maio tem assim as suas particularidades, a começar pelo esplendor da Primavera que o acompanha e talvez por isso há quem lhe faça derivar o nome de Maia, mãe de Hermes que os romanos viriam a associar à fecundidade. Curioso é igualmente o facto de ser o quinto mês do ano, o cinco, número que pela tradição cabalística representa a perfeição que, a par com a pureza, por exemplo, são paradigmas míticos dos substractos helenísticos e judeo-cristãos, tão importantes no(s) formato(s) cultura(is)l do mundo em que vivemos. É pois da Festa da Vida de que se trata e é agradável saber que foi em Maio que a escravatura foi abolida em terras que falam a nossa língua, no caso no Brasil, como não deixa de ser bonito que seja no seu primeiro dia que se comemora e realça o trabalho e a dignidade daqueles que vivem dessa mesma força que transportam consigo. Maio é então o mês em que podemos consagrar a dignidade do homem, essa centelha de respeito que todo o ser humano traz consigo, à nascença e que é o único atributo cultural universal – isto é, reconhecível em qualquer pessoa, quer no tempo, quer no espaço – com que, podemos dizer, os seres humanos nascem. 
Ora isto é uma escolha mental nossa – os indivíduos humanos – e essa escolha fundamental lembra-nos que o racismo é, antes de mais, um problema ético o que seria o bastante para que o rejeitássemos e o isolássemos enquanto inadmissível ofensa à dignidade dos Homens, isto se considerarmos que a ética, um ponto de vista ético, um comportamento ético, é aquele que considera os diversos interesses em apreço numa qualquer situação. Ainda que o racismo biológico fosse efectivo, quer dizer, se verificassem aptidões e capacidades variadas entre as populações humanas, havendo, por isso, grupos com indivíduos mais inteligentes e engenhosos e por isso dominantes – coisa que não se verifica, pois o racismo biológico não só não está provado, como é empiricamente desmentido, para além de o racismo, enquanto comportamento, atitude, mundivisão, não existir na Natureza, muito pelo contrário – mesmo em tal hipótese absurda, havendo o reconhecimento do conceito de dignidade, seria aquele eticamente reprovável e isso o suficiente para que a ele não só se opusessem as necessárias barreiras, como se usassem de todas as estratégias e medidas relativas, no mínimo, a evitar e corrigir as causas do mesmo. Antes de tudo o mais, a nossa recusa e o nosso combate ao racismo, em todas as suas nuances, decorre de uma atitude ética, como dissemos, ele é eticamente reprovável. É verdade que importa desenvolver argumentos científicos que sustentem a explicação da total falta de sentido daquele que, por isso, jamais conseguirá ultrapassar a condição de um falacioso preconceito ideológico; por outras palavras, certamente será decisivo que consigamos provar cientificamente a falsidade daquele. No entanto, da mesma maneira que não fazemos decorrer os nossos valores de factos mas sim das nossas escolhas morais, neste caso específico, a nossa primeira escolha tem que ser dessa ordem e daí a relevância de considera-lo, antes de mais, do ponto de vista ético, nível em que aquela ideologia não tem o menor suporte ou validade. 
Podíamos assim fazer de Maio, o mês da dignidade e da ética, o mês da luta contra o racismo.

Luís F. de A. Gomes

2 comentários:

Viva disse...

Gostei! Mas também pode ser o mês de Dezembro, mês em que a Terra começa a abrir os seus pequenos olhitos! Parece que não mas é verdade.

Viva disse...

Gostei! Mas também pode ser o mês de Dezembro, mês em que a Terra começa a abrir os seus pequenos olhitos! Parece que não mas é verdade.