Levou tempo para que eu percebesse que quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras.

Rubem Alves


sábado, 11 de maio de 2019

Inéditos - Pedro Du Bois


CORPOS E MARCAS

O corpo marcado
no que outros corpos
escondem

o segredo da vida
posto
disposto
reposto
em respostas
marcadas

palavras silenciam
o corpo esclarece
e marca

o medo cristaliza
mentiras em verdades
e o corpo
se transubstancia
na maldade
de alguém cujo
corpo marca.



DETALHES

Busca nos detalhes
o ponto de apoio
anelo
anelado dedo com que se defende dos oferecimentos
e se esconde dos tormentos

detalhes o mantém à salvo das estéreis horas
de retornos fossem pedras carregadas nos bolsos
raivas concentradas na incapacidade do espelho

enrola o fio
o anel cintila
no dedo solto
em sobressalto

não há morte nos detalhes secos e ásperos
o tempo ajustado
solta as amarras
retira o anel.



ARABESCO

O arabesco ecoa trombetas
antigas inimigas percorrem 
muros no estado do barulho

o arabesco mudo
em mudanças
na trama não urde
o tecido esgarçado

amigas chegam
no calor da noite
tocam seus dedos
sobre as feridas

o arabesco desnudo
em traços percorridos
no silêncio do dia findo.

(Pedro Du Bois, inéditos)
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outros poemas: 

2 comentários:

Pedro Du Bois disse...

Melhor final de semana, impossível. Gratíssimo. Abraços.

luis santos disse...


Caro Pedro, somos gratos. Fiquei com uma dúvida no verso "detalhes o mantém à salvo...". O "à" é mesmo com acento, ou será mais correto sem acento?
Abraços.