O oceano é um Upanishad, a terra um Sutra, o sol um Corão, o vento um Evangelho. E tu uma deusa-deus que se rebola a nascer e morrer e a rir e chorar pelas colinas do tempo e do espaço até que regresses ao Infinito de onde tudo vem e de onde nada jamais saiu a não ser na mente estúpida que acredita piamente nas histórias que a si mesma conta para se distrair do Extraordinário que é. (Paulo Borges)


quarta-feira, 23 de maio de 2018


Os Celtiberos

Por volta de 2.000 a.C. começaram a chegar os celtas – Κελτοί em grego – que aparecem na literatura só no século V a.C. Chamaram-se celtas, gálatas– Γαλατάς –, e gaulos ou gauleses  Γάλλοί. O primeiro autor que se refere aos celtas terá sido Hecateu de Mileto(550 a. C.- 476 a. C.), que quando fala de Massalia, diz que fica perto da cidade de Nurax, céltica (Nearchi?). Isso mostra que em certa altura os celtas ocupavam quase toda a Europa central e daí se espalharam pela Itália, Suíça, Boémia, Ilhas Britânicas e pela Península Ibérica, arrastando com eles parte dos povos da Aquitânia, os bascos (?).


Por este mapa de Hecateu, herdado de Anaximandro (!) desenhado meio milénio a.C. vê-se que os celtas estavam já espalhados por toda a parte... que a geografia dele conseguia abranger! E até os Cítios (Scythios e os Trácios) teriam a mesma origem dos celtas, mas não pertenciam ao mesmo grupo. Vê-se até que estariam na Macedónia, que se chamou Galaica, antigo nome de Briântica, na Trácia, e daí seguiram para a Ásia Menor, ocuparam a parte central da hoje Turquia, onde fundaram Ankara.
Por volta de 1750 a.C. toda a atual França estava ocupada por gauleses, celtas, no sul misturados com os lígures, povo ibérico.
Num pequenino livro de poche que há muitos anos comprei, “Os Iberos”, livro já perdido (!) com muita singeleza mostrava como tinha sido o desenvolvimento da Península a partir dos povos iberos e celtas. Os iberos, regra geral, incineravam os seus mortos, guardavam as cinzas numa pequena urna, enquanto os celtas lhes davam sepultura ao corpo.
Um mapa mostrava toda a região da costa mediterrânea e do Algarve com a indicação dessas sepulturas, somente urnas, e à medida que se caminhava para norte apareciam indicações de mistura de ritos iberos e celtas, e no Norte desapareciam as pequenas urnas.
Aos celtas um povo, ou um aglomerado de povos, que ocupou bem mais de metade da Europa, as Ilhas Britânicas e chegaram até Roma, não lhe foi muito difícil ocuparem a Meseta Central da Península e o Norte.
Os romanos, começaram a dar batalha aos celtas, derrotados quando eram parte do exército cartaginês de Amilcar Barca, e foram depois atrás destes. A história da romanização da Península começa pela guerra entre Roma e Cartago. Estes depois de perderem o poderio naval decidiram invadir a Ibéria, iberos e celtas, e formar com eles exércitos para irem atacar Roma. E assim Roma foi avançando, derrotando os cartagineses que já ocupavam boa parte da Península, mas não foram bem recebidos. O primeiro combate importante entre cartagineses e romanos na Península foi a Batalha de Cissa (218 a.C.), provavelmente próximo a Tarraco (atual Tarragona). Os Cartagineses, sob comando de Hanão, foram derrotados.  Indíbil caudilho dos Ilergetes, povo ibero que combatia ao lado dos Cartagineses, terá sido capturado. Quando a vitória romana parecia próxima, acudiu Asdrúbal Barca, com reforços, que dispersaram os romanos sem os derrotar. Assim, as forças opostas regressaram às suas bases - os Cartagineses a Cartago Nova (Cartagena) e os Romanos a Tarraco (Tarragona) - e só no ano seguinte a frota de Cipião venceu Asdrúbal Barca. Depois chegaram reforços de Roma, permitindo o avanço dos Romanos em direção a Sagunto. Durou mais de dez anos esta luta Roma-Cartago na Península, até que os romanos saíram vencedores e começou então a administração romana da Península, inicialmente com o caráter de ocupação militar, com o fim de manutenção da ordem e de exploração dos recursos naturais das regiões ocupadas, agora integradas no território controlado por Roma.
Levou quase 200 anos para ocuparem toda a península, tendo sofrido muitas derrotas, porque pensavam que ao entrarem na Ibéria iam simplesmente e como “meninos bonitos”, pacificar povos belicosos. Tiveram que lutar muito. Em 182-178 a.C. começam por se chocar com os povos que habitavam o vale do Ebro, entre eles os belos, titos e lusones, estes, apesar de longe, aparentados com os lusitanos.
Em 133 a.C. atacaram Numância, com uma bestialidade inesquecível. Povo arévaco, celta, decidiu lutar e resistir. Um cerco de onze meses, quando conseguiram entrar não tinha um único ser vivo. Os “bonzinhos administradores” romanos destruíram totalmente a cidade e todos os que, fora dela conseguiram apanhar foram degolados. Entretanto os romanos, habituados a comer cereais, tinham que se alimentar de carne! Cozida ou assada dizimou filas de romanos com a disenteria!!
Deram-se mal com os lusitanos, talvez o povo maior de toda a Península. Maior e tão aguerrido ou mais que outros. Viriato não era aquela figura bonitinha de pastor da Serra da Estrela, mas um grande general comandante de imensas forças.
A sua história começa quando o pretor romano Sulpício Galba em 150 a.C. reuniu 30.000 homens dizendo-lhes que receberiam terras e viveriam sossegados. Os romanos colocaram-nos em três acampamentos e os obrigaram a entregar todas as armas, e depois que estavam desarmados mandou as legiões que matassem a todos. Foram assassinados uns 20.000 lusitanos escapando entre eles Viriato que, a partir daí, começou a lutar ferozmente contra os romanos traidores que faziam sempre esta perfídia.
Ataca e sumia com extrema rapidez o que levou Plínio a criar a lenda de que as éguas lusitanas, prenhes só do vento Zéfiro, parem os “Filhos do Vento”, os cavalos mais velozes da Antiguidade.
Vede além no alto cerro a cena que aparece
Todas as éguas ao Zéfiro voltadas
Estáticas sorvendo as auras delicadas
Basta aquilo, e acontece amiúde este portento,
Sem cônjuge nenhum, grávidas só do vento...
Geórgicas de Virgílio (70-19 a.C.)
Derrotou os romanos por diversas vezes e na última, em vez de os aprisionar e degolar todos (!) decidiu fazer a paz e foi nomeado pelo senado romano amicus populi romani.Roma não tinha qualquer intenção de respeitar o tratado, e assim ordenou a Cipião que “comprasse” três amigos e generais de Viriato e o traíssem. Estes o assassinaram enquanto dormia!
Conhecido entre os romanos como dux Lusitanorum, como adsertor (protetor) da Hispânia e até como imperador! Segundo o historiador grego Diodoro da Sicília (ca 90 – 30 a.C.)“Enquanto ele comandava ele foi mais amado do que alguma vez alguém foi antes dele.”
Com traições e bestialidades os romanos “administraram” a Península Ibérica, derrotando todos os povos que se lhe opuseram.
É conhecido o sangue “quente” dos hispânicos. À medida que as legiões romanas se aproximavam de um povo o senado reunia e reconhecendo a sua incapacidade militar propunha render-se, para ainda guardarem uma parcela de poder. Os jovens não aceitavam isso, e chegaram a fechar uma casa do senado e largar fogo com todos os senadores lá dentro. Eles queriam ir à luta! Ainda hoje é assim: os jovens... 

Já nesse tempo havia um entendimento e colaboração entre lusitanos e galaicos. Só depois de assassinarem Viriato é que os romanos conseguem entrar e derrotar a Galícia. A seguir os astures, os cantábricos e todos os outros até aos limites do Pirineus.
Só terminaram as guerras de conquista em 19 a.C. que começaram 200 anos antes!
Sobre os lusitanos fica por esclarecer uma pergunta: não eram iberos, nem celtas. Povo indo-europeu, de onde vieram e quando?
Todos os povos da Península eram bons artífices; trabalhavam o ouro, prata, cobre, estanho, ferro, etc. Nos túmulos dos grandes chefes têm-se encontrado espadas com trabalho lindíssimo

                 

Vamos voltar agora à pergunta do texto anterior: DONCÔVI?
A maioria dos que lerem isto devem ter, pelo menos uma costela portuguesa; os lusitanos, povo indo-europeu, ninguém sabe de onde vieram; os primeiros iberos terão sido os descendentes dos primeiros povos da Mesopotâmia, Pérsia e Afganistão, que caminharam desde o médio oriente contornando o Mediterrâneo, cerca de 15 a 20.000 anos a.C.; os gregos, da Lídia, terão sido depois os colonizadores de Tartesso; os cartagineses, os tais semitas, do sudeste da Península; os gregos do nordeste. Depois os celtas invadiram e ocuparam a Meseta Central e misturaram-se com os povos do norte; os bascos serão uma mistura de aquitanos, celtas e iberos; alguns povos celtas, sempre na Península, falavam o gaulês da Bélgica, outros com metade das palavras vindas da Ilíria (região da antiga Jugoslávia); entretanto chegaram mais cartagineses, com berberes e povos africanos nas suas fileiras e logo a seguir os romenos, outra mistura de soldadesca; quando estes se retiraram entraram os visigodos, povo originário da Escandinávia (os ostrogodos foram para o leste da Europa); mais ou menos ao mesmo tempo os suevos saíram da hoje Polónia e ocuparam a Galícia (foram eles que começaram a usar a palavra Portucale); junto com toda essa turma dos druidas chegaram ainda os vândalos, mas demoraram-se pouco; não tardou que Roderico fosse um falhado e Tarik levou os árabes, mouros, para

Foi assim que Tarik acabou com Roderico. Um infiel contra um infiel !

a Península em 771, e só de lá começaram a ser empurrados três séculos depois, com a ajuda de normandos, franceses, germânicos e ingleses, e saíram de vez em 1492. Os hispânicos respiraram um pouco porque se entretinham a batalhar-se uns com os outros: lioneses, aragoneses, catalães, navarros, castelhanos e portugueses.
Neste meio tempo começaram as navegações e o encontro como novos e desconhecidos povos: africanos, índios das Américas, hindus, malaios, etc.
Surge Napoleão e lá vêm os franceses; e os ingleses para “ajudarem” a arrumar Portugal.
Depois... só do meu lado encontro, não muito para trás, um pouco dos jurunas ou carajás ou mundurucus, um vovô da Suíça, margens do Reno, outro da Normandia, um de Códova, outros bascos de Oyarzum e Alquiza, mais para trás uma vovozinha linda de morrer, uma moura encantada de olhos verdes, que fez vibrar o coração de Lovesendo Ramires, e foi também vovozinha de Egas Moniz (meu primo... um pouco afastado já) e bem mais perto nasceram em Belém do Pará, em A-Ver-O-Mar, Barquinha, Sintra e Lisboa, e eu, no Porto.
Deu para entender? DONCÔVI ? Dificilmente haverá gente mais misturada do que os que tenham, mesmo umas gotas só, de sangue lusitano!
É por isso que eu digo: mestiçagem é o melhor. De qualquer côr ou credo.
Quem souber mais qu’o diga!
Para terminar um pequeno trecho do “Romance d’A Pedra do Reino” do grande Ariano Suassuna:
“... sou o único escritor e escrivão-brasileiro a ter integralmente em suas veias sangue árabe, godo, negro, judeu, malgaxe, suevo, berbere, fenício, latino, ibérico, cartaginês, troiano e cário-tapuia do Reino do Brasil!”
Somos primos!

Francisco Gomes Amorim
10/05/2018


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