O oceano é um Upanishad, a terra um Sutra, o sol um Corão, o vento um Evangelho. E tu uma deusa-deus que se rebola a nascer e morrer e a rir e chorar pelas colinas do tempo e do espaço até que regresses ao Infinito de onde tudo vem e de onde nada jamais saiu a não ser na mente estúpida que acredita piamente nas histórias que a si mesma conta para se distrair do Extraordinário que é. (Paulo Borges)


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

"O Apocalipse sobre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós", livro de Paulo Borges


"Sozinho, no cais deserto, nesta Hora sem tempo
Olho pro lado da barra, olho pro Infinito
Olho sem olhos, corpo-alma transido de saudade
Olho a fúria deste céu de crepúsculo e tempestade
E a Distância começa em mim a girar
A Distância começa em mim a girar
A Distância começa em mim a girar"

"Sou A-que-não-é, A-que-não-foi, A-que-jamais-será
A matriz imensa que a tudo dá à luz, nutre, reabsorve e recria
A mãe, irmã, esposa e amante de todos os seres e coisas
O Alfa-Ómega
A Toda-Poderosa que nada pode senão tudo amar
A infinita saudade que há em todas as coisas
O Infinito-Saudade"

"Não apareci senão para te iniciar ao Amor
Para te insuflar boca na boca o Fogo-Sopro do mundo
Para unirmos os corações ardentes
No íntimo da carne iluminada"

"Ah, quem me desencantará?
Quem me reconhecerá?
Quem me beijará o coração?
Quem me amará e fecundará?
Quem erguerá a mão, encontrará hera
E verá que “ele mesmo era
A Princesa que dormia”?"

"Cesse aqui todo o pensamento, imaginação e linguagem
Dissipem-se todos os véus de conceitos, palavras e símbolos
Finde tudo o que a musa antiga canta
Que outro valor mais alto se levanta
Nada acrescentemos ao espanto, perplexidade e maravilhamento
Deste imenso esplendor e prodígio!"

"Vinde a nós, ó vós todos em cujo íntimo desde sempre habitamos!
Vinde a nós, ó vós todos em cujo coração agora mesmo ressurgimos!
Vinde, ó vinde, vós todos que sois Todo o Mundo e Ninguém!
Ó vós todos, povos-seres de todo o cosmos que trazeis no coração um Mundo Novo!
Aqui e Agora vos convocamos
É a Hora da Grande Mutação
A Hora das Horas
A Hora dos quatro tempos refluírem para o centro anterior a tudo
E ressurgirem como o Quinto
O Império sem império
A Era sem tempo
A Era sem era do despertar da consciência-coração na visão-amor universal!

Ó excelsas irmandades e confrarias do Quinto Império sem império nem imperador a não ser a coroada criança que dança de roda e olhos atónitos num rodopio de espantos, pombas e rosas!
Ó excelsas irmandades e confrarias do Império do Santo Espírito, que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai, sopra onde quer e fala um silêncio de todas as línguas!
Ó excelsas irmandades e confrarias dos amantes andróginos, que conduzem ao altar interno o masculino e o feminino e o unem em Núpcias mais vastas que o espaço que explodem em festas e folias de amor por todos os seres e coisas! 


Vinde a nós, ó vós todos, que é a Hora!
É a Hora!
A Hora!
Agora! 

Valete, Fratres!
Saúde, Irmãos!"

Do livro "O Apocalipse segundo Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz" de Paulo Borges.
A obra é a base do guião do espectáculo multi-artístico com o mesmo nome que se estreou recentemente no Teatro do Bairro, em Lisboa, e terá uma nova representação no Teatro D. João V, na Damaia, em 25 de Novembro, às 21:30:


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