"Não haviamos marcado a hora, não haviamos marcado o lugar. E na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, os nossos tempos e os nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro."

(Rubem Alves)


terça-feira, 21 de novembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HISTÓRIAS DA TERRA ENCANTADA
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Ao que parece, a aventura da Humanidade começou em África. 
Sabe-se que primatas que viveriam nas árvores e que podem ter sido os antepassados da nossa grande família – salvo seja a expressão – terão existido fora do território que actualmente constitui esse continente, mas os vestígios mais antigos que se conhecem de seres bípedes e a quem é possível atribuir um lugar na nossa árvore genealógica, pelo menos até ao momento, só ali se encontram e daí a afirmação do primeiro parágrafo. 
As razões pelas quais tais animais terão passado da experiência arborícola para a vida na superfície permanecem obscuras, contudo, conseguimos induzir factores extrínsecos e intrínsecos à própria biologia para que tal tenha acontecido. Factores de ordem climática que possam ter provocado alterações nos ecossistemas, com a redução das florestas e o avanço das savanas, ter-se-ão combinado com a selecção natural provocada pelo sucesso reprodutivo daqueles que melhor se adaptaram a esses novos condicionalismos de existência; é provável que os machos mais hábeis na postura e na marcha erecta tivessem mais facilidade em alimentar as fémeas e respectivas crias e, com isso, deixando maior descendência com tais características genéticas, tenham contribuído para a afirmação de uma(s) espécie(s) de primata(s) capaz(es) de sobreviver(em) em diversos ambientes. 
Seja como for, se, por ventura, isto sucedeu em outras parcelas do planeta, ainda não foram encontradas quaisquer provas. Foi em terras africanas que se encontraram os mais remotos testemunhos físicos dessa parte da nossa história, quer sob a forma de ossadas mais ou menos completas, quer por obra do feliz acaso que registou as pegadas de um grupo de indivíduos que há três milhões e meio de anos caminharam, como qualquer um de nós o faria, sobre uma camada de cinza. 
A verdade é que há volta de quatro milhões de anos atrás terão vivido alguns grupos que, para além da identidade genética descrita, faziam uso de utensílios tanto para a captura como para o tratamento de alimentos. 
Estamos a falar dos Australopitecos que terão evoluído separadamente em dois ramos, o robustos e o grácilis que se viriam a extinguir há mais ou menos um milhão de anos. 
Provavelmente jamais se saberá se foi entre eles que se desenvolveram capacidades como as da linguagem ou do pensamento lógico, mas assim não deve ter sido, pois avaliando pelas modificações operadas nas pedras que usaram como ferramentas e pela leitura das informações ósseas até agora encontradas e identificadas, tudo indica que a boa ventura destes animais terá durado um número incrivelmente elevado de gerações sem que significativos acréscimos culturais tenham sido produzidos. 
Pela análise dos dentes encontrados e pelo que nos permitem inferir quanto à alimentação praticada, tudo aponta para que a primeira daquelas ramificações ter-se-á especializado mais numa dieta vegetal, ao contrário dos outros manifestamente omnívoros. 
Por enquanto é impossível destrinçar se foi no contexto desta espécie ou de qualquer outra de que ainda não tivéssemos conhecimento que surgiram os seres que, pelos volumes cranianos, os antropólogos apelidam já como homo. Na primeira hipótese, a passagem, se me é permitido este termo, dos australopitecos ao homo, terá seguramente ocorrido por via da mutação genética e depois potenciada pelas leis darwinistas da evolução. Mais uma vez, os que melhor estavam adaptados a alimentarem-se e a protegerem-se melhor duraram mais e tiveram mais sucesso reprodutivo o que terá contribuído para que estes indivíduos, por um lado, tenham sobrevivido àqueles de quem, afinal, descendiam e, por outro lado, concomitantemente tenham confluído, pela concorrência exercida, para acelerar aquele já referido processo de extinção. 
Com os conhecimentos que hoje em dia possuímos, é empiricamente sustentável dizer que África é o berço da Humanidade, não só por ter sido lá que surgiram os nossos mais recuados ancestrais, tal como, assim o veremos mais tarde, igualmente viria a ser de lá que partiram em migrações sucessivas, tanto os avós dos sapiens sapiens como estes, propriamente ditos.

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