O oceano é um Upanishad, a terra um Sutra, o sol um Corão, o vento um Evangelho. E tu uma deusa-deus que se rebola a nascer e morrer e a rir e chorar pelas colinas do tempo e do espaço até que regresses ao Infinito de onde tudo vem e de onde nada jamais saiu a não ser na mente estúpida que acredita piamente nas histórias que a si mesma conta para se distrair do Extraordinário que é. (Paulo Borges)


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

... Tudo isto é Fado


Abdul Cadre
abdul.cadre@gmail.com
Vendas Novas, 14 de Fevereiro de 2010

GOSTAR E TER RAZÃO

ESCREVO em dia de namorados, que antigamente se comemorava a 12 de Junho mas que, por razões que desconheço, – talvez climatéricas – se comemora actualmente a 14 de Fevereiro. Qualquer comemoração é hoje, não uma forma de compartilhar alegrias, mas uma boa oportunidade de vender inutilidades e ganhar uns tostões. Uns europins.

Falo dos namorados porque me lembrei daquele aforismo que diz que quem o feio ama bonito lhe parece, devendo, com certeza, haver aforismo paralelo para o ódio. É esse presumido aforismo que valida o alinhamento dos maus fígados contra o estentório engenheiro que se encontra em primeiro-ministro, não por qualquer outorga, mas por voto popular sem sombra de chapelada. Não há estagiário de televisão, imprensa ou cassete pirata que se preze que não arranje umas bocas, bem alinhadas ou não, para bem malhar à rédea solta no alvo tornado moda, esperando dar nas vistas e ouvir um pst-pst, venha cá.

Se eu gosto do engenheiro Sócrates? Obviamente que não e desde sempre, isto é, desde o momento em que, juntamente com Santana Lopes, começou (começaram) a ser promovido na TV pelos poderes fácticos. Foi um feeling à primeira vista, digamos assim, sem qualquer contributo da razão. É daí que resulta, em primeira instância, a minha justificação para declarar que nunca lhe compraria um carro usado, mesmo que o meu mecânico me garantisse que aquilo era uma pechincha.

Pois é, isto de democracia sufragista tem muito que se lhe diga: chama-se o povo a votar em pessoas que não conhece de lado nenhum, instilando-lhe a ilusão que as conhece por dentro e por fora. Põe-se a coisa na montra, gera-se a empatia e pronto. Aquilo que teoricamente resultaria da razão brota afinal da emoção e faz-se voto ou faz-se manguito. É, a bem dizer, como no futebol: as tribos gostam dos seus guerreiros, que seriam sempre os melhores do mundo, não fora o árbitro ser um gatuno e o campo estar inclinado a desfavor.

É por estas e por outras que não dou por adquirido o colapso socrático, até porque os outros Sócrates que se põem em bicos dos pés não me parecem melhores ou, dito de outra forma, para pior bem basta assim.

E já viram como o eleito dos órgãos de excitação social se parece, tal fora alma gémea, com o objecto do ódio proporcionador de boas vendas de papel pintado? Tem a mesma forma de gritar e entrar em falsete, a mesma prosápia, a mesma auto-suficiência. E aquela facada nas costas do Aguiar Branco? Lembra ou não lembra o Sócrates a dizer ao Alegre para avançar para a presidência, enquanto levava o partido a apoiar o Soares?

E a propósito: serão verdadeiras as conclusões do Sol? E em qual edição nos devemos fiar, na angolana ou na lisboeta?

(publicado no Jornal do Barreiro)

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